Carta 85: Sobre Silogismos Vazios

A carta 85 é longa, mas muito interessante e de difícil redução. Vale a pena ser lida integralmente. Responde ao pedido de Lucílio por explicações de silogismos da escola estoica e daqueles usados pelos oponentes. Sêneca reclama que não tem prazer ou vê utilidade nisso, e diz que “o resultado será um livro, em vez de uma carta!” (E com razão, a carta ficou com 41 parágrafos.)

Em resumo, trata-se de uma oposição à doutrina aristotélica do meio-termo também conhecida como “média áurea“. Esta doutrina dos peripatéticos defende que a felicidade seria atingida no meio termo desejável entre dois extremos, um de excesso e outro de deficiência. Sêneca discorda e afirma:

Eles não eliminam as paixões; eles apenas as moderam. Mas quão insignificante é a superioridade que atribuímos ao homem sábio, se ele é apenas mais corajoso do que o mais covarde, mais feliz do que o mais abatido, mais autocontrolado do que o mais desenfreado, e maior do que o mais baixo!” (LXXXV, 4)

Descreve e argumenta porque a escola estoica discorda dos seguidores de Artistóteles e aborda a firmeza de caráter do sábio estoico, assunto explorado em profundidade em “Sobre a Constância do Sábio“. A carta é concluída com um memorável parágrafo:

“Não era só de marfim que Fídias sabia fazer estátuas; ele também fez estátuas de bronze. Se você tivesse lhe dado mármore, ou um material ainda pior, ele teria feito dele a melhor estátua que o material permitiria. Assim, o sábio desenvolverá a virtude, se puder, no meio da riqueza ou, se não, no meio da pobreza; se possível, no seu próprio país – se não, no exílio; Se possível, como comandante – se não, como um soldado comum; se possível, em boa saúde – se não, enfraquecido.” (LVVVX, 40)

Imagem: Mural mostrando Aristóteles e Seus Discípulos. Universidade Nacional Kapodistriana de Atenas por Eduard Lebiedzki


LXXXV. Sobre Silogismos Vazios

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu estava inclinado a poupar você, e omitir qualquer problema intricado que ainda não tínhamos discutido; fiquei satisfeito em dar-lhe uma espécie de gosto das opiniões dos homens de nossa escola, que desejam provar que a virtude é por si só suficientemente capaz de obter a vida feliz. Mas agora você me mandou incluir todo o volume de nossos próprios silogismos ou daqueles que foram imaginados por outras escolas com a finalidade de nos menosprezar. Se eu estiver disposto a fazer isso, o resultado será um livro, em vez de uma carta! E declaro repetidas vezes que não tenho prazer em tais provas. Tenho vergonha de entrar na arena e empreender a batalha em nome dos deuses e dos homens armados apenas com uma sovela[1].

2. “Aquele que possui prudência é também contido, o que possui autocontenção também é inabalável, o inabalável é imperturbável, o imperturbável está livre da tristeza, o que está livre da tristeza é feliz. Portanto, o prudente é feliz, e a prudência é suficiente para constituir a vida feliz“.

3. Alguns dos peripatéticos[2] respondem a este silogismo interpretando “imperturbável”, “inabalável” e “livre da tristeza” de modo a tornar “imperturbável” quem raramente é perturbado e apenas um tanto moderado, e não aquele que nunca é perturbado. Da mesma forma, eles dizem que uma pessoa é dita “livre da tristeza” quando não está sujeita à tristeza, uma pessoa que raramente cai nesse estado censurável, e em um grau não muito grande. Não é, dizem eles, o natural humano que o espírito de um homem deva ser isento de tristeza, ou que o sábio não seja dominado pelo sofrimento, mas é apenas tocado por ele, e outros argumentos deste tipo, tudo de acordo com os ensinamentos de sua escola.

4. Eles não eliminam as paixões; eles apenas as moderam. Mas quão insignificante é a superioridade que atribuímos ao homem sábio, se ele é apenas mais corajoso do que o mais covarde, mais feliz do que o mais abatido, mais autocontrolado do que o mais desenfreado, e maior do que o mais baixo! Teria Ladas[3] orgulho de sua rapidez em correr, comparando-se com os coxos e os fracos?

Ela conseguia voar sobre a ponta das espigas de uma seara vi-rente sem na corrida atingir os tenros grãos; ou percorrer, suspensa, as grossas ondas do mar encapelado sem salpicar sequer os pés velozesIlla vel intactae segetis per summa volaret Gramina nec cursu teneras laesisset aristas, Vel mare per medium fluctu suspensa tumenti Ferret iter celeres nec tingueret aequore plantas.[4]

Esta é a velocidade estimada pelo seu próprio padrão, não do tipo que ganha elogios em comparação com o que é mais lento. Você chamaria de saudável um homem que tem um caso leve de febre? Não, pois uma boa saúde não significa doença moderada.

5. Dizem os peripatéticos: “O sábio é chamado imperturbável no sentido em que as romãs são chamadas maduras – não que não haja dureza em todas as suas sementes, mas que a dureza é menor do que era antes“. Essa visão é errada; pois não me refiro à eliminação gradual dos males em um homem bom, mas à completa ausência de males; não deveria haver nele nenhum mal, nem mesmo pequenos. Pois, se houver, crescerão e, à medida que crescerem, o estorvará. Assim como uma catarata completa cega totalmente os olhos, uma catarata de tamanho médio entorpece a visão.

6. Se por sua definição o homem sábio tem quaisquer paixões, sua razão não será nenhum adversário para elas e será carregada rapidamente, por assim dizer, em um córrego agitado. Particularmente se você atribuir a ele, não uma paixão contra qual deva lutar, mas todas as paixões. E uma multidão de tais, embora moderadas, podem afetá-lo mais do que a violência de uma poderosa paixão.

7. O sábio deles tem um desejo por dinheiro, embora em um grau moderado. Ele tem ambição, mas ainda não está totalmente despertada. Ele tem um temperamento quente, mas pode ser apaziguado. Ele tem inconstância, mas não o tipo que é muito caprichosa ou facilmente posta em movimento. Ele tem luxúria, mas não o tipo violento. Poderíamos lidar melhor com uma pessoa que possua um único vício pleno, do que com alguém que possua todos os vícios, mas nenhum deles em forma extrema.

8. Novamente, não faz diferença a grandeza da paixão; não importa qual seu tamanho possa ser, não reconhece nenhuma obediência, e não dá boas-vindas ao conselho. Assim como nenhum animal, selvagem ou domesticado, obedece à razão, já que natureza os fez surdos ao conselho; assim as paixões não seguem nem escutam, por mais que sejam moderadas. Tigres e leões nunca adiam a sua selvageria; eles às vezes a moderam, e então, quando você está menos preparado, sua ferocidade adormecida é despertada para a loucura. Vícios nunca são domesticados.

9. Novamente, se a razão prevalecer, as paixões nem sequer começarão; mas se elas se encaminharem contra a vontade da razão, elas se manterão contra a vontade da razão. Pois é mais fácil detê-las no começo do que controlá-las quando ganham força. Este meio caminho ( atenuação dos vícios, admitida pelos peripatéticos) é, portanto, enganoso e inútil; deve ser considerado como a declaração de que devemos ser moderadamente insanos ou moderadamente doentes.

10. A só a virtude possui moderação; os males que afligem a alma não admitem moderação. Você pode remove-los mais facilmente do que controlá-los. Pode-se duvidar de que os vícios da mente humana, quando se tornam crônicos e insensíveis (“doenças do espírito” nós os chamamos), estão fora de controle, como, por exemplo, a ganância, a crueldade e a indelicadeza? Portanto, as paixões também estão além do controle; porque é das paixões que passamos aos vícios.

11. Novamente, se você conceder quaisquer privilégios à tristeza, ao medo, ao desejo e a todos os outros impulsos errados, eles deixarão de estar sob nossa jurisdição. E porque? Simplesmente porque os meios de controlá-los estão fora do nosso próprio poder. Consequentemente, aumentarão proporcionalmente à medida que as causas pelas quais são agitados são maiores ou menores. O medo crescerá em proporções maiores, se o que causa o terror é visto como de maior magnitude ou em maior proximidade; e o desejo se tornará cada vez mais intenso na medida em que a esperança de um ganho maior o convoca à ação.

12. Se a existência das paixões não está no nosso próprio controle, nem está também a extensão de seu poder; pois se uma vez permitir que elas comecem, elas aumentarão juntamente com suas causas, e serão de qualquer tamanho que quiserem crescer. Além disso, não importa quão pequenos esses vícios são, eles crescem. O que é prejudicial nunca se mantém dentro dos limites. Não importa quão insignificantes sejam as doenças no começo, elas se arrastam rapidamente; e às vezes o menor aumento da doença derruba o corpo enfraquecido!

13. Mas que loucura é, quando o começo de certas coisas está situado fora de nosso controle, acreditar que seus fins estão sob nosso controle! Como terei eu o poder de trazer algo ao fim, quando eu não tive o poder de interromper isso no começo? Pois é mais fácil evitar uma coisa do que mantê-la sob controle após ela ter se estabelecido.

14. Alguns homens fazem uma distinção, dizendo: “Se um homem tem autocontrole e sabedoria, ele está de fato em paz quanto à atitude e ao hábito de sua mente, mas não quanto ao resultado, pois, no que se refere ao seu hábito mental, ele não está perturbado, triste ou temeroso, mas há muitas causas estranhas que o atingem e trazem perturbação a ele.”

15. O que eles querem dizer é isto: “Fulano não é de fato um homem de disposição irritada, mas ainda assim ele às vezes dá lugar à raiva“, e “ele não está, de fato, inclinado a temer, mas ainda assim às vezes tem medo“; em outras palavras, ele está livre da culpa, mas não está livre da paixão do medo. Se, no entanto, ao medo é dado uma entrada, irá pelo uso frequente passar a um vício; e a raiva, uma vez admitida na mente, irá alterar o hábito anterior de uma mente que antes estava livre de raiva.

16. Além disso, se o homem sábio, ao invés de desprezar todas as causas que vêm de fora, sempre teme alguma coisa, quando chegar o momento de ir bravamente de encontro as lanças ou chamas, em nome de seu país, suas leis, e sua liberdade, ele irá adiante relutantemente e com espírito enfraquecido. Tal inconsistência da alma, no entanto, não se adequa ao caráter de um homem sábio.

17. Então, novamente, devemos fazer com que dois princípios que devam ser demonstrados separadamente não devam ser confundidos. Pois a conclusão é alcançada independentemente de que só o que é bom que é honroso, e novamente independente a conclusão de que a virtude é suficiente para a vida feliz. Se só o que é bom que é honroso, todos concordam que a virtude é suficiente para o propósito de viver felizmente; mas, pelo contrário, se a virtude sozinha faz os homens felizes, não se admite que só o que é bom que é honroso.

18. Xenócrates[5] e Espeusipo[6] afirmam que um homem pode tornar-se feliz mesmo pela virtude sozinha, não, no entanto, que o que é honroso é o único bem[7]. Epicuro também decide que aquele que possui virtude é feliz, mas que a própria virtude não é suficiente para a vida feliz, porque o prazer que resulta da virtude, e não a própria virtude, torna-o feliz. Esta é uma distinção fútil. Pois o mesmo filósofo declara que a virtude nunca existe sem prazer; e portanto, se a virtude está sempre ligada ao prazer e sempre inseparável dela, a virtude é por si só suficiente. Pois a virtude mantém o prazer em sua companhia, e não existe sem ele, mesmo quando está sozinha.

19. Mas é absurdo dizer que um homem será feliz pela virtude sozinha, e ainda não absolutamente feliz. Eu não consigo descobrir como isso pode ser, uma vez que a vida feliz contém em si um bem que é perfeito e não pode ser melhorado, se um homem tem este bem, a vida é completamente feliz. Ora, se a vida dos deuses não contém nada maior ou melhor, e a vida feliz é divina, então não há mais altura para a qual um homem possa ser elevado.

20. Também, se à vida feliz não falta nada, então toda vida feliz é perfeita; é feliz e ao mesmo tempo a mais feliz. Você tem alguma dúvida de que a vida feliz é o Supremo Bem? Consequentemente, se ela possui o Bem Supremo, é supremamente feliz. Assim como o Bem Supremo não admite o aumento (pois o que será superior ao que é supremo?), exatamente assim a vida feliz também não pode ser aumentada; pois não existe sem o Bem Supremo. Se então você apresentar um homem que é “mais feliz” do que outro, você também vai apresentar alguém que é “muito mais feliz”; então você estará fazendo inúmeras distinções no Bem Supremo; embora eu entenda que o Bem Supremo seja aquele bem que não admite nenhum grau acima de si.

21. Se uma pessoa é menos feliz do que outra, segue-se que deseja ansiosamente a vida desse outro homem mais feliz do que a sua. Mas o homem feliz prefere a vida de nenhum outro homem a sua. Qualquer uma dessas duas coisas é incrível: que deva haver qualquer coisa faltando para um homem feliz desejar em preferência ao que é, ou que ele não deva preferir a coisa que é melhor do que o que já tem. Com certeza, quanto mais prudente ele for, tanto mais esforçara-se pelo melhor, e desejará alcançá-lo por todos os meios possíveis. Mas como se pode ser feliz quem ainda é capaz, ou melhor, quem ainda está obrigado a desejar algo mais?

22. Eu lhe direi qual é a origem desse erro: os homens não entendem que a vida feliz é uma unidade; pois é sua essência, e não sua extensão, que estabelece tal vida no mais nobre plano. Daí a completa igualdade entre a vida que é longa e a vida curta, entre aquilo que se estende e o que está confinado, entre aquilo cuja influência é sentida em muitos lugares e em muitas direções, e aquilo que se restringe a um interesse. Aqueles que contam a vida em número, ou por medida, ou por partes, roubam sua qualidade distintiva. Agora, na vida feliz, qual é a qualidade distintiva? É a sua plenitude.

23. Saciedade, penso eu, é o limite para o nosso comer ou beber. A come mais e B come menos; que diferença faz? Cada um está agora saciado. Ou A bebe mais e B bebe menos; que diferença faz? Cada um não está mais sedento, da mesma forma, A vive por muitos anos e B por menos; não importa, se os muitos anos de A trouxeram tanta felicidade quanto os poucos anos de B. Aquele que você diz ser “menos feliz” não é feliz; a palavra não admite nenhuma diminuição.

24. “Quem é valente não conhece o medo; quem não conhece o medo não conhece a tristeza; quem não conhece a tristeza é feliz.”. É a nossa própria escola que fabricou este silogismo; eles tentam refutá-lo com esta resposta, ou seja, que nós estoicos estamos assumindo uma premissa que é falsa e claramente controversa, – que o homem corajoso não sente medo. “O que!” Eles dirão: “Será que o homem corajoso não tem medo dos males que o ameaçam? Esta seria a condição de um louco, um lunático, em vez de um homem corajoso. O homem corajoso, é verdade, sentirá medo em apenas um leve grau, mas ele não está absolutamente livre de medo.”

25. Agora, aqueles que afirmam isso estão voltando a seu antigo argumento, na medida em que consideram os vícios de menor grau como equivalentes às virtudes. Pois, de fato, o homem que sente o medo, embora o sinta raramente e em menor grau, não está livre da maldade, mas está apenas perturbado por ela de uma forma suave. “Não é assim“, é a resposta, “porque eu considero que um homem é louco se ele não tem medo de males que pairam sobre sua cabeça.” O que você diz é perfeitamente verdadeiro, se as coisas que ameaçam são realmente males; mas se ele sabe que não são males e acredita que o único mal é a imoralidade, ele será compelido a enfrentar perigos sem ansiedade e desprezar as coisas que outros homens não podem deixar de temer. Ou, se é a característica de um tolo e um louco não temer males, então quanto mais sábio um homem for mais temerá tais coisas!

26. “É a doutrina de vocês estoicos, então,” eles respondem, “que um homem corajoso se exponha a perigos.” De jeito nenhum; ele simplesmente não os temerá, embora os evite. É bom para ele ter cuidado, mas não ter medo. “E então, não temerá a morte, o aprisionamento, o fogo, e todos os outros ataques da Fortuna?” De modo nenhum; pois ele sabe que eles não são males, mas só parecem ser. Ele considera todas essas coisas como espantalhos para assustar os homens.

27. Trace um quadro de escravidão, chicotes, correntes, carestia, mutilação por doença ou por tortura – ou qualquer outra coisa que possa querer mencionar; ele contará todas essas coisas como terrores causados pelo desarranjo da alma. Essas coisas só devem ser temidas por medrosos. Ou você considera como um mal algo que um dia poderemos ser obrigados a recorrer de nossa livre e espontânea vontade?

28. O que então, você pergunta, é um mal? É a submissão às coisas que se chamam males; é a entrega da própria liberdade ao seu controle, quando realmente devemos sofrer todas as coisas para preservar essa liberdade. A liberdade está perdida a menos que desprezemos as coisas que colocam o jugo[8] nos nossos pescoços. Se os homens soubessem o que é a bravura, eles não teriam dúvidas quanto ao que a conduta de um homem corajoso deveria ser. Pois a bravura não é imprudência, ou amor ao perigo, ou o cortejo de objetos inspiradores do medo; é o conhecimento que nos permite distinguir entre o que é o mal e o que não o é[9]. A bravura cuida de si mesmo, e também atura com a maior paciência todas as coisas que têm uma falsa aparência de serem más.

29. “O que então?” É a questão: “Se a espada é brandida sobre o pescoço do seu corajoso, se ele é perfurado neste lugar, se ele vê suas entranhas no colo, se ele for torturado novamente depois de ter descansado para que possa sentir a tortura com mais intensidade, e se o sangue corre novamente de seu intestino, onde há pouco deixou de fluir, ele não terá medo? Você diz que ele também não sente nenhuma dor?” Sim, ele sente dor; pois nenhuma virtude humana pode se livrar de sentidos. Mas ele não tem medo; sem abalo ele olha a baixo de uma altura elevada sobre seus sofrimentos. Você me pergunta que espírito o anima nessas circunstâncias? É o espírito de alguém que está confortando um amigo doente.

30. “Aquilo que é mau prejudica, o que prejudica piora o homem, mas a dor e a pobreza não pioram o homem, por isso não são males“. “Sua proposição,” diz o objetor, “é errada, pois o que prejudica não necessariamente faz alguém pior, a tempestade e a tormenta prejudicam o piloto, mas não fazem dele um piloto pior.”

31. Alguns estoicos respondem a este argumento da seguinte maneira: “O piloto torna-se um piloto pior por causa de tempestades ou rajadas, na medida em que não consegue cumprir o seu propósito e manter-se em seu curso; não se torna um piloto pior, mas em seu trabalho ele piora“. A isto, os peripatéticos retrucam: “Por isso, a pobreza tornará pior até mesmo o homem sábio, e assim também a dor, assim como qualquer outra coisa semelhante, pois, embora essas coisas não o roubem de sua virtude, elas irão prejudicar o trabalho da virtude“.

32. Esta seria uma afirmação correta, não fosse pelo fato de que o piloto e o sábio são dois tipos diferentes de pessoa. O propósito do homem sábio na condução de sua vida não é concluir todos os perigos que prova, mas fazer todas as coisas corretamente; O propósito do piloto, no entanto, é levar seu navio para o porto em todos os perigos. As artes são servas; elas devem realizar o que prometem fazer. Mas a sabedoria é senhora e governante. As artes rendem o serviço de escravo à vida; a sabedoria emite os comandos!

33. Para mim, eu sustento que uma resposta diferente deve ser dada: que a arte do piloto nunca é piorada pela tempestade, nem a aplicação de sua arte também. O piloto prometeu-lhe, não uma viagem próspera, mas um desempenho útil de sua tarefa – isto é, um conhecimento especializado de dirigir um navio. E quanto mais ele é dificultado pelo estresse da Fortuna, tanto mais seu conhecimento se torna aparente. Aquele que foi capaz de dizer: “Netuno, você nunca afundará este navio, exceto em um mar calmo[10]“, cumpriu os requisitos de sua arte; a tempestade não interfere com o trabalho do piloto, mas apenas com seu sucesso.

34. “O que, então”, você diz, “um piloto não é prejudicado por qualquer circunstância que não lhe permita fazer porto, frustre todos os seus esforços, e que o leva para o fundo, ou segura o navio em ferros ou remove seus mastros?” Não, não o prejudica como piloto, mas apenas como um viajante; caso contrário, ele não é um piloto. Na verdade, está longe de dificultar a arte do piloto, e até mesmo exibe a arte; pois qualquer um, nas palavras do provérbio, é um piloto em um mar calmo. Esses percalços obstruem a viagem, mas não o timoneiro na qualidade de timoneiro.

35. Um piloto tem um duplo papel: um que ele compartilha com todos os seus companheiros de viagem, pois ele também é um passageiro; o outro é peculiar a ele, pois ele é o piloto. A tempestade o prejudica como passageiro, mas não como piloto.

36. Mais uma vez, a arte do piloto é voltada ao exterior – diz respeito aos seus passageiros, assim como a arte de um médico diz respeito a seus pacientes. Mas o bem do sábio é um bem interno – pertence tanto àqueles em cuja companhia ele vive, como a ele também. Daí o nosso piloto pode ser prejudicado, uma vez que seus serviços, que foram prometidos aos outros, são prejudicados pela tempestade;

37. Mas o homem sábio não é prejudicado pela pobreza, pela dor ou por qualquer outra tempestade da vida. Pois todas as suas funções não são restringidas, mas apenas as que pertencem aos outros; ele mesmo está sempre em ação, e é maior em desempenho no momento em que a fortuna atrapalha seu caminho. Pois então ele está realmente envolvido no negócio da sabedoria; e esta sabedoria que já declarei ser, tanto o bem dos outros, como também de si próprio.

38. Além disso, ele não está impedido de ajudar os outros, mesmo no momento em que as circunstâncias restritivas o pressionam. Por causa de sua pobreza, ele é impedido de mostrar como o Estado deve ser governado; mas ele ensina, não obstante, como a pobreza deve ser governada. O seu trabalho continua durante toda a sua vida. Assim, nenhuma fortuna, nenhuma circunstância externa, pode isolar o sábio da ação. Pois a própria coisa que envolve sua atenção o impede de atender a outras coisas. Ele está pronto para qualquer resultado: se traz bens, ele os controla; se males, ele os conquista.

39. Tão profundamente, quero dizer, ele se treinou a demonstrar sua virtude tanto na prosperidade quanto na adversidade, e mantém seus olhos na própria virtude, não nos objetos com os quais a virtude trata. Daí que nem a pobreza, nem a dor, nem qualquer outra coisa que desvie os inexperientes e os conduz ao fracasso, o impede o sábio de seguir seu curso.

40. Você acha que ele está sobrecarregado por males? Ele faz uso deles. Não era só de marfim que Fídias[11] sabia fazer estátuas; ele também fez estátuas de bronze. Se você tivesse lhe dado mármore, ou um material ainda pior, ele teria feito dele a melhor estátua que o material permitiria. Assim, o sábio desenvolverá a virtude, se puder, no meio da riqueza ou, se não, no meio da pobreza; se possível, no seu próprio país – se não, no exílio; Se possível, como comandante – se não, como um soldado comum; se possível, em boa saúde – se não, enfraquecido. Qualquer que seja a fortuna que se encontre, conseguirá algo digno de nota.

41. Alguns dos domadores de animais são infalíveis; eles tomam os animais mais selvagens, que podem muito bem aterrorizar qualquer um que os encontrar, e subjuga-os à vontade do homem, não se contentando em expulsar a sua ferocidade, eles até os domam para que habitem a mesma casa. O treinador coloca a mão na boca do leão; o tigre é beijado por seu dono. O minúsculo etíope ordena o elefante afundar-se em seus joelhos, ou andar a corda. Da mesma forma, o sábio é uma mão qualificada para domar males. A dor, a carestia, a desgraça, a prisão, o exílio – estes são universalmente temíveis – mas quando eles encontram o homem sábio, são domesticados!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Sovela é uma ferramenta utilizada em curtumes e marcenarias que é usada para fazer um furo no couro, por onde, posteriormente uma linha com agulha será adentrada para costura. Alusão a arma não apropriada para a batalha em questão.

[2] Membros da Escola Peripatética, um círculo filosófico da Grécia Antiga que basicamente seguia os ensinamentos de Aristóteles, seu fundador. “Peripatético” (em grego, περιπατητικός), é a palavra grega para ‘ambulante’ ou ‘itinerante’. Peripatéticos (ou ‘os que passeiam’) eram assim chamados em razão do hábito do filósofo de ensinar ao ar livre, caminhando enquanto lia e dava preleções.

[3] Ladas de Aegio foi um antigo atleta grego listado por Eusébio de Cesaréia como vitorioso na corrida de estádios da 125ª Olimpíada (280 AC).

[4] Trecho de Eneida,VII, 808-811 de Virgílio. As linhas descrevem Camilla, a guerreira-caçadora dos Volscos.

[5] Xenócrates (406 a.C. — 314 a.C.) foi um filósofo grego discípulo de Platão, a quem acompanhou à Sicília, sucedendo Espeusipo, após o suicídio deste.

[6]Espeusipo (,408 a.C. — 339 a.C.) foi um filósofo grego, sobrinho de Platão, a quem sucedeu na direção da Academia.

[7] Ver carta LXXI, 18

[8] Jugo, parelha ou canga é uma peça de madeira encaixada sobre a cabeça dos bois para que possam ser atrelados a uma carroça ou a um arado.

[9] Além dessa definição (padrão estoico) da terceira virtude cardinal, também encontramos “conhecimento sobre o que escolher e o que evitar”, “saber suportar as coisas” e, finalmente, “a vontade de empreender grandes feitos”.

[10] A figura do piloto é frequente na filosofia, de Platão em diante. Veja Sêneca, Ep. XXX. O mesmo argumento, aplicado ao músico, é encontrado em Ep.LXXXVII.

[11] Fídias foi um célebre escultor da Grécia Antiga. Sua biografia é cheia de lacunas e incertezas, e o que se tem como certo é que ele foi o autor de duas das mais famosas estátuas da Antiguidade, a Atena Partenos e o Zeus Olímpico, e que sob a proteção de Péricles encarregou-se da supervisão de um vasto programa construtivo em Atenas, concentrado na reedificação da Acrópole, devastada pelos persas em 480 a.C.

Resenha: Sobre a Tranquilidade da Alma

O diálogo Sobre a Tranquilidade da Alma foi claramente escrito como um meio de orientação para todos aqueles que aspirassem a dedicar-se ao aperfeiçoamento moral. É dirigido ao amigo Aneu Sereno destinatário também das obras Sobre a Constância do Sábio e ainda de Sobre o Ócio. Foi um grande amigo de Sêneca, pertencente à ordem equestre, formada pelos cidadãos mais abastados. Sereno também tinha cargo na administração pública, tendo obtido, por influência de Sêneca, a função de praefectus, responsável por combate a incêndios, atividade importante na cidade de Roma.

No texto é dito que o amigo é seguidor de Epicuro, talvez por isso, Sêneca apresenta o estoicismo em termos muito claros e concentra em conselhos construtivos e práticos. Sêneca apresenta a resposta da doutrina estoica para nos ajudar a superar os tormentos causados pelos temores e desejos humanos e alcançar a tranquilidade, o estado ideal de serenidade vivenciado de forma plena e permanente pelo sábio estoico.

Para que a resenha não fique muito longa, está dividida em duas partes, segue a primeira, com meus comentários sobre os primeiros nove capítulos:

Sobre a Tranquilidade da Alma começa com uma carta de Sereno pedindo conselhos e dizendo que sente ter um bom domínio sobre alguns de seus vícios, mas não sobre outros, e,  como resultado disso, sua alma não tem tranquilidade. Diz “Eu não estou doente nem saudável” e percebe que seu julgamento sobre seus próprios assuntos é distorcido por preconceitos pessoais.

Estou bem ciente de que essas oscilações da alma não são perigosas e nem me ameaçam de nenhuma desordem séria. Para expressar aquilo de que me queixo por um simulacro exato, não estou sofrendo de uma tempestade, mas de enjoo do mar. Tire de mim, pois, esse mal, seja ele qual for, e ajude aquele que está em aflição mesmo ao avistar a terra“. (I, 17)

Sereno lista seus problemas:

  • hesitação diante do desejo de bens e de prazeres corporais (§5-9);
  • alternância entre desejo de atuação social e de recolhimento aos estudos (§10-12) ;
  • dilema ético e estético relativo a busca pela fama (§13-14).

Apresentados os sintomas, fazendo uso da imagem do paciente frente ao médico, Sereno pede o diagnóstico e o remédio: “Rogo, então, se tem algum remédio que possa deter esta minha vacilação e me faça digno de lhe dever a paz de espírito”.

A resposta de Sêneca toma os demais capítulos e começa com a descrição completa das características da doença. Informa a Sereno que ele busca a coisa mais importante da vida, um estado que chama de tranquilidade (tranquillitas) e que os gregos chamavam de euthymía(II,3). A definição de tranquilidade é fantastica, e deve ser colocada na íntegra:

“O que buscamos, então, é como a alma pode sempre seguir um rumo firme, sem percalços, pode estar satisfeita consigo mesma e olhar com prazer para o que a rodeia, e não experimentar nenhuma interrupção dessa alegria, mas permanecer em uma condição pacífica, sem nunca estar eufórica ou deprimida: isso será ‘tranquilidade’.” (II,4)

Ele então explica que há vários tipos de homens que não alcançam a tranquilidade da alma, por diferentes razões. Alguns sofrem de inconstância, mudando continuamente seus objetivos e mesmo assim sempre lamentando do que acabaram de desistir. Outros não são inconstantes, mas ficam numa posição infeliz por seu entorpecimento. Eles “continuam a viver não da maneira que desejam, mas da maneira que começaram a viver“, ou seja, por inércia (II,6). Outros ainda acreditam que a maneira de vencer a sua inconstância é viajando para longe, mas é claro que apenas carregam consigo seus próprios problemas: “Assim, cada um sempre foge de si mesmo” (II,14). Sêneca conclui seu preâmbulo sugerindo que nossos problemas não residem no lugar onde vivemos, mas em nós mesmos, e retoricamente pergunta: “Por quanto tempo vamos continuar fazendo a mesma coisa? (II,15)

A partir do capítulo III Sêneca apresenta uma série de conselhos específicos para Sereno sobre como alcançar a tranquilidade da alma. O primeiro vem de Atenodoro: “O melhor é ocupar-se dos negócios, da gestão dos assuntos do Estado e dos deveres de um cidadão“. Isso porque estar a serviço dos outros e do próprio país é, ao mesmo tempo, exercitar-se em uma atividade e fazer o bem. Mas também se pode fazer o bem e manter-se ocupado engajando-se na filosofia. Esse tipo de ocupação proporcionará satisfação e, portanto, tranquilidade de espírito e tornará nossas vidas diferentes daquelas de pessoas que não terão nada para mostrar ao final das suas: “Muitas vezes um homem de idade avançada não tem outro argumento com que comprove ter vivido longo tempo exceto seus anos.” Segue-se então com preceitos sobre atividades e sobre o ócio (negotia × otium).

Nos capítulos VI e VII Sêneca elucida como se auto avaliar e assim conseguir escolher um caminho onde é possível ter sucesso. Começa por advertir seu amigo que é comum as pessoas pensarem que podem conseguir mais do que realmente conseguem. A pessoa sábia, ao invés disso, está ciente das suas limitações. Também é preciso lembrar que algumas buscas simplesmente não valem o esforço e devemos nos afastar delas porque nosso tempo na vida é curto e precioso. E então, diz Sêneca, “apegue-se a algo que possa terminar, ou, pelo menos, que acredite poder terminar” (VI,4). Devemos também ter cuidado na escolha de nossos associados, dedicando partes de nossas vidas a pessoas que valham o esforço. Além disso, nossas buscas devem ser do tipo que nós realmente gostamos, se possível: “pois nenhum bem se faz forçando a alma a se engajar em um trabalho não apropriado: quando a Natureza resiste, o esforço é vão.“(VII,2)

Os capítulos VIII e IX tratam de preceitos sobre o patrimônio, “fonte mais fértil das dores humanas” (VIII,1). Sêneca adverte Sereno que, em sua experiência, os ricos não suportam perdas melhor do que os pobres, pois “dói aos carecas tanto quanto aos cabeludos terem seus cabelos arrancados” (VIII,3).

“Patrimônio, essa fonte mais fértil das dores humanas: se compararmos todos os outros males de que sofremos – mortes, enfermidades, medos, arrependimentos, dores e fadigas – com as misérias que o nosso dinheiro nos inflige, este último pesará muito mais do que todos os outros. Reflita, pois, quanto menos dor é nunca ter tido dinheiro do que tê-lo perdido. (VIII, 1-2)

É por isso que Diógenes não era dono de nada, para impossibilitar que alguém pudesse tirar algo dele: “Fortuna, não se intrometa: Diógenes não tem mais nada que lhe pertença“(VIII,7).

É claro que o próprio Sêneca não era nenhum Diógenes, e na verdade era um homem muito rico. Ele frequentemente foi atacado e acusado de hipocrisia por causa disso, mas seu ponto é que não se deve ter apego aos bens materiais. É possível ter bens, desde que não seja possuído por seu patrimônio. Ainda assim, na mesma seção ele aconselha a reduzir a quantidade de nossos bens, de modo a diminuir a probabilidade de nos apegarmos a eles de forma exagerada:

Nunca poderemos afastar a tão profunda e vasta diversidade da iniquidade com que somos ameaçados a ponto de não sentir o peso de muitas tempestades, se oferecermos largas velas ao vento do mar” (IX,3).

O capítulo IX termina com uma frase muito citada de Sêneca, porém citada de forma enganosa, pois ele critica homens que compram livros e não os estudam:

Você verá as obras de todos os oradores e historiadores empilhadas sobre estantes que chegam até o teto. Nos dias de hoje, uma biblioteca tornou-se tão necessária como um apêndice de uma casa como um banho quente e frio.” (IX,7)

Paramos por aqui. E alguns dias sigo com o restante da obra.


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Carta 81: Sobre Benefícios e sua Retribuição

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A carta 81 é outra excelente fonte de ensinamento estoico. Nela Sêneca resume magnificamente o livro de sua autoria Sobre os Benefícios (De Beneficiis) e explica porque doar e conceder benefícios é mais vantajoso para aquele que dá do que para quem os recebe.

Começa com uma discussão, que segundo ele faltou no livro: Como ponderar uma pessoa que nos concedeu um benefício e depois nos prejudicou. Sêneca diiz:

“…o homem bom será flexível em alcançar um equilíbrio; ele vai permitir que muito seja colocado contra o seu crédito. O lado em que ele se inclinará, a tendência que ele exibirá, é o desejo de estar sob as obrigações do favor, e o desejo de retribuir por isso. Pois qualquer um que receba um benefício mais alegremente do que o retribua está em erro. Tanto quanto aquele que paga é mais alegre do que aquele que pede emprestado, por tanto deve ser mais alegre aquele que se desembaraça da maior dívida – um benefício recebido – do que aquele que incorre nas maiores obrigações…. Um homem é um ingrato se paga um favor sem juros. Portanto, os juros também devem ser ponderados, quando comparar suas receitas e suas despesas.” (LXXXI, 17-18)

Resolvida a questão proposta, Sêneca discorre longamente sobre as vantagens obtidas pelo doador, lançando várias frases de efeito:

  • Não há um homem que, quando tenha beneficiado o seu próximo, não se tenha beneficiado; §19
  • O salário de uma boa ação é tê-la feito. §19
  • A maldade torna os homens infelizes e a virtude torna os homens abençoados; §21
  • O próprio mal bebe a maior parte de seu próprio veneno: §22
  • O que é mais miserável do que um homem que esquece seus lucros e se apega a seus prejuízos? §23

Conclui a carta alertando do risco de se conceder benefícios para pessoas ingratas. Segundo Sêneca um ingrato sente-se humilhado por ter recebido benefício fará tudo para se eximir da retribuição:

“Nossa loucura é tão ampla que é uma coisa muito perigosa conferir grandes benefícios a uma pessoa; pois só porque ele pensa que é vergonhoso não pagar, então ele não deixará vivo ninguém a quem ele deva pagar. ” (LXXXI, 32)

A carta é longa mais vale a leitura integral!

Imagem: Afresco Festa familiar em Pompeia Museo Archeologico Nazionale di Napoli


LXXXI. Sobre Benefícios e sua Retribuição

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você se queixa de ter encontrado com uma pessoa ingrata. Se esta é a sua primeira experiência desse tipo, você deve agradecer a sua boa sorte ou a sua cautela. Neste caso, entretanto, o cuidado não pode fazer nada além de torná-lo pouco generoso. Pois se quiser evitar tal perigo, não vai conferir benefícios; e assim, que os benefícios não possam ser perdidos com outro homem, eles serão perdidos para si mesmo. É melhor, porém, obter nenhum retorno do que não conferir benefícios. Mesmo depois de uma colheita ruim deve-se semear de novo; pois muitas vezes as perdas devidas à aridez contínua de um solo improdutivo são compensadas por um ano de fertilidade.

2. Para descobrir uma pessoa grata, vale a pena testar muitos ingratos. Nenhum homem tem uma mão tão infalível quando confere benefícios que ele não seja frequentemente enganado; é bom para o viajante a vaguear, pois assim ele pode abrir novos caminhos. Depois de um naufrágio, os marinheiros tentam o mar novamente. O banqueiro não é espantado para longe do fórum pelo vigarista. Se alguém for obrigado a abandonar tudo o que causa problemas, a vida logo ficaria enfadonha em meio à ociosidade indolente; mas no seu caso esta situação pode levá-lo a se tornar mais caridoso. Pois quando o resultado de qualquer empreendimento é incerto, deve-se tentar novamente e novamente, a fim de se ter sucesso em última instância.

3. Contudo, discuti o assunto com suficiente plenitude nos volumes que escrevi, intitulados “Sobre os Benefícios[2]“. O que eu acho que deve, principalmente, ser investigado é isso: – um ponto que sinto não ter sido suficientemente claro: “Se aquele quem nos ajudou e quitou a conta e libertou-nos de nossa dívida, se ele nos faz mal mais tarde.” Você pode adicionar esta pergunta também, se quiser: “quando o dano feito mais tarde é maior do que a ajuda prestada anteriormente.”

4. Se você está procurando a decisão formal e justa de um juiz rigoroso, verá que ele examina um ato pelo outro, e declara: “Embora as lesões superam os benefícios, no entanto, devemos creditar aos benefícios qualquer coisa que resta mesmo depois da lesão”. O dano causado foi realmente maior, mas o ato útil foi feito primeiro. Daí o tempo também deve ser levado em conta.

5. Outros casos são tão claros que eu não preciso lembrá-lo que deve também olhar pontos como: De quão bom grado a ajuda foi oferecida, e como relutantemente o dano foi feito, – já que benefícios, bem como lesões, dependem do espírito. “Eu não queria conferir o benefício, mas fui conquistado pelo meu respeito ao homem, ou pela importunidade do seu pedido, ou pela esperança.”

6. Nosso sentimento sobre cada obrigação depende, em cada caso, do espírito no qual o benefício é conferido; Nós não pesamos a maior parte da oferta, mas a qualidade da boa vontade que a incitou. Então, vamos acabar com a adivinhação; a ação anterior era um benefício, e a última, que transcendia o benefício anterior, é uma lesão. O homem bom organiza assim os dois lados de seu livro de registro o qual ele voluntariamente se ilude, adicionando ao benefício e subtraindo da lesão. O mais indulgente magistrado, no entanto (e eu prefiro ser tal), vai nos pedir para esquecer a lesão e lembrar o benefício.

7. “Mas certamente”, diz você, “é o papel da justiça dar a cada um o que é seu devido: graças em troca de um benefício e castigo, ou ao menos má vontade, em troca de um prejuízo!” Isto, eu digo, será verdadeiro quando for um homem quem infligiu a injúria, e um homem diferente quem tenha conferido o benefício; pois se for o mesmo homem, a força da lesão é anulada pelo benefício conferido. Na verdade, um homem que deve ser perdoado, embora não tenha boas obras creditadas a ele no passado, deve receber algo mais do que mera clemência se comete um erro quando tem um benefício a seu crédito.

8. Eu não estabeleço um valor igual em benefícios e lesões. Eu considero um benefício com uma taxa mais alta do que uma lesão. Nem todas as pessoas gratas sabem o que implica estar em dívida por um benefício; mesmo um sujeito insensato, bruto, um da multidão comum, pode saber, especialmente logo após receber o beneficio; mas ele não sabe quão profundamente está em dívida por isso. Somente o sábio sabe exatamente que valor deve ser colocado em tudo; para o tolo que acabei de mencionar, não importa o quão boa as suas intenções possam ser, ou paga menos do que deve, ou paga no momento errado ou no lugar errado. Aquilo por que deveria retribuir, ele desperdiça e perde.

9. Há uma fraseologia maravilhosamente precisa aplicada a certos assuntos, uma terminologia estabelecida há muito tempo que indica certos atos por meio de símbolos que são mais eficientes e que servem para delinear os deveres dos homens. Nós, como você sabe, costumamos falar assim: “A. fez uma retribuição pelo favor concedido por B.” Fazer uma retribuição significa entregar por sua própria conta o que você deve. Não dizemos: “Ele reembolsou o favor”; pois “reembolsar” é usado para um homem sobre quem uma exigência de pagamento é feita, daqueles que pagam contra a sua vontade. Daqueles que pagam em circunstância qualquer, e daqueles que pagam através de um terceiro. Não dizemos: “Ele restaurou o benefício”, ou “acertou a conta”; nós nunca ficamos satisfeitos com uma palavra que se aplica adequadamente a uma dívida de dinheiro.

10. Fazer uma retribuição significa oferecer algo a quem havia lhe dado algo. A frase implica um retorno voluntário. O sábio investigará em sua mente todas as circunstâncias: quanto ele recebeu, de quem, quando, onde, como. E assim declaramos que ninguém, a não ser o sábio, sabe como retribuir por um favor; além disso, só o sábio sabe conferir um benefício, aquele homem, quero dizer, que goza do dar mais do que o destinatário goza do recebimento.

11. Agora, alguém considerará essa observação como uma das declarações geralmente surpreendentes, como nós, os estoicos, costumamos fazer e como os gregos chamam de “paradoxos”, e dirão: “Você sustenta, então, que só o sábio sabe como devolver um favor? Você sustenta que ninguém mais sabe como fazer a restauração de um credor para uma dívida? Ou, ao comprar uma mercadoria, para pagar o valor total para o vendedor? A fim de não trazer qualquer ódio sobre mim, deixe-me dizer-lhe que Epicuro diz a mesma coisa. De qualquer modo, Metrodoro observa que só o homem sábio sabe como devolver um favor.

12. Mais uma vez, o objetor mencionado acima pergunta: “Somente o homem sábio sabe amar, só o homem sábio é um verdadeiro amigo”. No entanto, é uma parte do amor e da amizade devolver favores; além disso, é um ato comum, e acontece com mais frequência do que a amizade real. Novamente, este mesmo objetor se pergunta ao nosso dizer: “Não há lealdade senão no homem sábio”, como se ele mesmo não dissesse a mesma coisa! Ou você acha que há alguma lealdade naquele que não sabe como devolver um favor?

13. Esses homens, portanto, devem deixar de nos desacreditar, como se estivéssemos proferindo uma vanglória impossível; eles devem entender que a essência da honra reside no homem sábio, enquanto entre a multidão encontramos apenas o espectro e a semelhança de honra. Ninguém exceto o homem sábio sabe como devolver um favor. Até um tolo pode devolvê-lo em proporção ao seu conhecimento e ao seu poder; sua falta seria uma falta de sabedoria e não uma falta da vontade ou do desejo. A vontade não vem pelo ensino.

14. O sábio comparará todas as coisas umas com as outras; pois o mesmo objeto se torna maior ou menor, de acordo com o tempo, o lugar e a causa. Muitas vezes, as riquezas que são gastas em profusão em um palácio podem não realizar tanto quanto mil denários dados no momento certo. Agora, faz muita diferença se você der sem qualquer reserva, ou vir à assistência de um homem, se a sua generosidade pode salva-lo, ou defini-lo na vida. Muitas vezes o donativo é pequeno, mas as consequências grandes. E que distinção você imagina que existe entre tomar algo de que alguém carece, – algo que foi oferecido, – e receber um benefício a fim de conferir outro em troca?

15. Mas não devemos voltar ao assunto que já investigamos suficientemente. Neste equilíbrio de benefícios e lesões, o bom homem, com certeza, julgará com o mais alto grau de justiça, mas inclinará para o lado do benefício; ele se voltará mais rapidamente nessa direção.

16. Além disso, em casos deste tipo, a pessoa em questão costuma contar muito. Os homens dizem: “Você me concedeu um benefício em relação ao escravo, mas você me feriu no caso de meu pai” ou “Você salvou meu filho, mas me roubou um pai”. Da mesma forma, ele vai acompanhar todos os outros assuntos em que as comparações podem ser feitas, e se a diferença é muito leve, ele vai fingir não a notar. Mesmo que a diferença seja grande, contudo, se a concessão pode ser feita sem prejuízo do dever e da lealdade, nosso bom homem ignorará isso, desde que a lesão afete exclusivamente o próprio homem bom.

17. Resumindo, a questão está assim: o homem bom será flexível em alcançar um equilíbrio; ele vai permitir que muito seja colocado contra o seu crédito. Ele não estará disposto a pagar um benefício contrabalanceando uma lesão. O lado em que ele se inclinará, a tendência que ele exibirá, é o desejo de estar sob as obrigações do favor, e o desejo de retribuir por isso. Pois qualquer um que receba um benefício mais alegremente do que o retribua está em erro. Tanto quanto aquele que paga é mais alegre do que aquele que pede emprestado, por tanto deve ser mais alegre aquele que se desembaraça da maior dívida – um benefício recebido – do que aquele que incorre nas maiores obrigações.

18. Pois os homens ingratos cometem erros também neste aspecto: eles têm de pagar aos seus credores capital e juros, mas eles pensam que benefícios são moeda que podem usar sem juros. Assim, as dívidas crescem através do adiamento, e quanto mais tarde a ação é adiada, mais permanece a ser pago. Um homem é um ingrato se paga um favor sem juros. Portanto, os juros também devem ser ponderados, quando comparar suas receitas e suas despesas.

19. Devemos tentar por todos os meios ser o mais grato possível. Pois a gratidão é uma coisa boa para nós mesmos, num sentido em que a justiça, que comumente é tida como preocupada com as outras pessoas, não é; A gratidão retorna em grande medida a si mesma. Não há um homem que, quando tenha beneficiado o seu próximo, não se tenha beneficiado, – não quero dizer que quem você ajudou desejará ajudá-lo, ou que aquele quem você defendeu desejará proteger você, ou que um exemplo de boa conduta retorne em círculo para beneficiar o executor, assim como exemplos de má conduta retrocedem sobre seus autores e como os homens não sentem piedade se sofrem injustiças que eles mesmos demonstraram a possibilidade de cometer; Mas que a recompensa por todas as virtudes está nas próprias virtudes. Pois elas não são praticadas com vista a recompensa; o salário de uma boa ação é tê-la feito.

20. Sou grato, não para que meu vizinho, provocado pelo ato de bondade anterior, esteja mais pronto a me beneficiar, mas simplesmente para que eu possa realizar um ato muito agradável e belo; sinto-me grato, não porque me beneficie, mas porque me agrada. E, para provar a verdade disto a você, eu declaro que mesmo que eu não possa ser grato sem parecer ingrato, mesmo que eu possa manter um benefício somente por um ato que se assemelhe a uma ofensa; ainda assim, esforçar-me-ei na mais absoluta calma do espírito para o propósito que a honra exige, no meio da desgraça. Ninguém, eu penso, julga melhor a virtude ou é mais devotado à virtude do que aquele que perde a reputação de ser um bom homem para não perder a aprovação de sua consciência.

21. Assim, como eu disse, seu ser grato é mais propício ao seu próprio bem do que ao bem do seu próximo. Pois, enquanto o seu vizinho tem uma experiência cotidiana e banal, ou seja, receber de volta o presente que ele havia concedido, você teve uma grande experiência que é o resultado de uma condição de alma totalmente feliz, ter sentido gratidão. Pois se a maldade torna os homens infelizes e a virtude torna os homens abençoados, e se é uma virtude ser grato, então o retorno que você fizer é apenas o costume habitual, mas a coisa que você alcança é inestimável, a consciência da gratidão, que só vem à alma que é divina e abençoada. O sentimento oposto a isso, porém, é imediatamente acompanhado pela maior infelicidade; nenhum homem, se for ingrato, será infeliz só no futuro. Não lhe concedo nenhum dia de graça; ele será infeliz imediatamente.

22. Evitemos, portanto, sermos ingratos, não por causa dos outros, mas por nós mesmos. Quando fazemos o mal, somente a parcela menor e mais leve flui para o nosso próximo; o pior e, se eu posso usar o termo, a parte mais densa dele fica em casa e causa problemas para o proprietário. Meu mestre Átalo costumava dizer: “O próprio mal bebe a maior parte de seu próprio veneno”. O veneno que as serpentes carregam para a destruição de outros, e secretam sem dano a si mesmas, não é como este veneno; pois este tipo é ruinoso para o possuidor.

23. O homem ingrato tortura-se e atormenta-se; ele odeia os presentes que ele aceitou, porque ele deve fazer uma retribuição por eles, e ele tenta diminuir seu valor, mas ele realmente amplia e exagera as lesões que ele recebeu. E o que é mais miserável do que um homem que esquece seus lucros e se apega a seus prejuízos? A sabedoria, por outro lado, concede graça a todos os benefícios e, por sua própria vontade, recomenda-os a seu favor, e deleita sua alma pela lembrança contínua deles.

24. Os homens maus têm somente um prazer nos benefícios, e um prazer muito curto nisso; só dura enquanto os recebe. Mas o sábio deriva deles uma alegria permanente e eterna. Pois não se compraz tanto no presente como também em tê-lo recebido; e esta alegria nunca perece; ela permanece com ele sempre. Ele despreza os erros contra ele; ele os esquece, não acidentalmente, mas voluntariamente.

25. Ele não põe uma intenção maldosa sobre tudo, ou procura alguém que possa responsabilizar por cada acontecimento; ele atribui até mesmo os pecados dos homens ao acaso. Ele não interpretará mal uma palavra ou um olhar; ele faz a luz de todos os percalços, interpretando-os de uma forma generosa. Ele não se lembra de uma lesão em lugar de um serviço. Tanto quanto possível, ele deixa sua memória descansar sobre a ação anterior e melhor, nunca mudando sua atitude para com aqueles que quiseram o seu bem, exceto nas situações onde os maus atos distanciam muito do bem, e o espaço entre eles é óbvio até mesmo para aquele que fecha os olhos para ele; mesmo assim, até este ponto, em que ele se esforça, depois de ter recebido o dano preponderante, para retomar a atitude que manteve antes de receber o benefício. Pois quando a lesão simplesmente é igual ao benefício, uma certa quantidade de sentimento agradável resta.

26. Assim como um réu é absolvido quando os votos são iguais, e assim como o espírito de bondade sempre tenta dobrar todo caso duvidoso para a interpretação mais bondosa, assim também a mente do sábio, quando os méritos de outro meramente igualam seus maus atos, deixará, com certeza, de se sentir obrigado, mas não deixará de desejar senti-lo, e age precisamente como o homem que paga suas dívidas mesmo depois de terem sido legalmente canceladas.

27. Mas ninguém pode ser grato a menos que tenha aprendido a desprezar as coisas que levam a multidão comum à distração; se você deseja retribuir um favor, você deve estar disposto a ir para o exílio, – ou derramar seu sangue, ou sofrer a pobreza, ou – e isso vai acontecer com frequência, – até mesmo para deixar a sua própria inocência ser manchada e exposta a calúnias vergonhosas. Não é nenhum preço leve que um homem deve pagar para ser grato.

28. Nós não consideramos nada mais caro do que um benefício, enquanto estivermos buscando um; não consideramos nada mais barato depois que o recebemos. Você pergunta o que é que nos faz esquecer os benefícios recebidos? É a nossa cobiça extrema por receber outros. Consideramos não o que obtivemos, mas o que estamos a procurar. Somos desviados do curso certo por riquezas, títulos, poder e tudo o que é valioso em nossa opinião, mas desprezível quando avaliado em seu valor real.

29. Não sabemos como ponderar os assuntos; devemos nos aconselhar sobre eles, não por sua reputação, mas por sua natureza; essas coisas não possuem grandeza para encantar nossas mentes, exceto pelo fato de que nos acostumamos a maravilhar-se com elas. Pois não são louvadas porque devem ser desejadas, mas são desejadas porque foram louvadas; e quando o erro de indivíduos cria erro por parte do público, então o erro público continua a criar erro por parte dos indivíduos.

30. Mas, assim como assumimos cegamente tais estimativas de valor, então assumamos cegamente esta verdade de que nada é mais honrado do que um coração grato. Esta frase será ecoada por todas as cidades, e por todas as raças, mesmo por aqueles de países selvagens. Sobre este ponto – bons e maus concordam.

31. Alguns elogiam o prazer, alguns preferem o trabalho; alguns dizem que a dor é o maior dos males, alguns dizem que não é mal algum; alguns incluirão riquezas no Bem Supremo, outros dirão que sua descoberta significou dano à raça humana, e que ninguém é mais rico do que aquele a quem a Fortuna não encontrou nada para dar. Em meio a toda essa diversidade de opinião, todos os homens ainda com uma só voz, como diz o ditado, votam “sim” para a proposição de que devemos retribuir a aqueles que desejaram bem de nós. Sobre esta questão a multidão comum, rebelde como é, concorda integralmente, mas no presente continuamos a retribuir lesões em vez de benefícios, e a principal razão por que um homem é ingrato é que ele achou impossível ser suficientemente grato.

32. Nossa loucura é tão longa que é uma coisa muito perigosa conferir grandes benefícios a uma pessoa; pois só porque ele pensa que é vergonhoso não pagar, então ele não deixará vivo ninguém a quem ele deva pagar. “Guarde para si mesmo o que você recebeu, eu não o peço de volta – eu não o exijo, fique seguro de ter conferido um favor.” Não há pior ódio do que aquele que brota da vergonha da profanação de um benefício.Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Na tradução para o inglês o título usado é “On Benefits“ (sobre benefícios)

[2] De Beneficiis é uma obra de Sêneca, composta de sete livros. É parte de uma série de tratados sobre fenômenos naturais e ensaios morais que exploram questões filosóficas como a providência, a perseverança, a raiva, lazer, tranquilidade, a brevidade da vida, o perdão, a felicidade e a troca de presentes.

Carta 79: Sobre as Recompensas da Pesquisa Científica

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Na carta 79 Sêneca discorre sobre o dever do estudioso de conhecer a natureza, via pesquisa cientifica. Sabendo que Lucílio faria uma viagem à ilha da Sicília, recomenda que estude o mar no caminho e que estude e escreva sobre o vulcão Etna:

“…terei a ousadia de pedir-lhe para executar outra tarefa, – também para subir o Etna[3], a meu pedido especial. Certos naturalistas inferiram que a montanha está se esgotando e gradualmente diminuindo, porque os marinheiros costumavam vê-la a partir de uma maior distância.” (LXXIX, 2)

Sêneca defende o conhecimento é domínio público e é propriedade comum a todos, sendo válido o uso dos trabalhos de cientistas anteriores: “já à mão as palavras que, quando empacotadas de uma maneira diferente, mostram um novo rosto. E não os está roubando, como se pertencessem a outra pessoa, quando os usa, porque são propriedades comum a todos.(LXXIX, 6)

Para Sêneca, devemos desvendar a natureza para o bem da humanidade, pois “milhares de anos e milhares de povos virão após você; é a estes que você deve ter consideração.” (LXXIX, 17)

Nesta carta cita novamente Epicuro e diz que o cientista , assim como o sábio, não é suplantado por outro: quando descobrem algo e desvendam um mistério da natureza todos estão no topo, igualmente virtuosos:

A sabedoria tem esta vantagem, entre outras, – que nenhum homem pode ser superado por outro, exceto durante a escalada. Mas quando você chega ao topo, é um empate; não há espaço para mais subida, o jogo acabou. (LXXIX, 8)

Imagem: Etna visto de Taormina por Thomas Cole.


LXXIX. Sobre as Recompensas da Pesquisa Científica

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Tenho aguardado uma carta de você, em que me informasse da novidade revelada durante a sua viagem ao redor da Sicília, e sobretudo para me dar mais informações sobre a própria Caríbdis[1]. Eu sei muito bem que Cila é uma rocha – e de fato uma rocha não temida pelos marinheiros; mas no que diz respeito a Caríbdis, gostaria de ter uma descrição completa, para ver se ela concorda com os relatos da mitologia; e, se você tem por acaso investigado (pois é realmente digno de sua investigação), por favor me esclareça sobre o seguinte: É açoitada em um redemoinho constante causado por vento de uma única direção, ou todas as tempestades servem para perturbar a sua profundidade? É verdade que os objetos arrastados para baixo pelo redemoinho nesse estreito são transportados por muitos quilômetros debaixo de água, e então chegam à superfície na praia perto de Taormina[2]?

2. Se você me escrever um relato completo desses assuntos, então terei a ousadia de pedir-lhe para executar outra tarefa, – também para subir o Etna[3], a meu pedido especial. Certos naturalistas inferiram que a montanha está se esgotando e gradualmente diminuindo, porque os marinheiros costumavam vê-la a partir de uma maior distância. A razão para isto pode ser, não que a altura da montanha esteja diminuindo, mas porque as chamas se tornaram mais fracas e as erupções menos fortes e copiosas, e porque, pela mesma razão, a fumaça também é menos ativa durante o dia. Entretanto, qualquer uma destas duas coisas é possível acreditar: que por um lado a montanha está decrescendo porque é consumida dia a dia, e que, por outro lado, permanece do mesmo tamanho porque a montanha não está se devorando, mas, em vez disso, a matéria que que a faz ferver se reúne em algum vale subterrâneo e é alimentada por outro material, encontrando na montanha não o alimento que ela requer, mas simplesmente uma passagem.

3. Há um lugar bem conhecido na Lícia[4] – chamado pelos habitantes “Heféstion” – onde o chão está cheio de buracos em muitos lugares e é cercado por um fogo inofensivo, que não prejudica as plantas que crescem lá. Daí que o lugar seja fértil e exuberante em crescimento, porque as chamas não queimam, mas simplesmente brilham com uma força suave e fraca.

4. Mas adiemos esta discussão, e examine o assunto quando você me der uma descrição de quão distante a neve está da cratera, – quero dizer, a neve que não derrete mesmo no verão, tão segura que está do fogo adjacente. Mas não há motivo para que você cobre este trabalho em minha conta; pois você está prestes a satisfazer sua própria mania de escrever bem, sem incumbência de ninguém.

5. Não, o que posso oferecer-lhe senão apenas descrever o Etna em seu poema, e tocar ligeiramente em um tópico que é uma questão de ritual para todos os poetas? Ovídio não pôde ser impedido de usar este tema simplesmente porque Virgílio já o havia coberto inteiramente; nem nenhum desses escritores assustou Cornélio Severo. Além disso, o tema tem servido a todos com resultados felizes, e aqueles que foram antes me parecem não ter antecipado tudo o que poderia ser dito, mas apenas ter aberto o caminho.

6. Faz muita diferença se você se aproxima de um assunto que foi esgotado, ou um que o terreno foi simplesmente quebrado; neste último caso, o tópico cresce dia a dia, e o que já foi descoberto não impede novas descobertas. Além disso, quem escreve o último tem o melhor do negócio; ele encontra já à mão as palavras que, quando empacotadas de uma maneira diferente, mostram um novo rosto. E não os está roubando, como se pertencessem a outra pessoa, quando os usa, porque são propriedades comum a todos.

7. Agora, se o Etna não faz a sua boca salivar, eu estou equivocado com você. Há algum tempo que você deseja escrever algo no estilo grandioso e no nível da velha escola. Pois a sua modéstia não lhe permite elevar suas esperanças; essa sua qualidade é tão pronunciada que, para mim, é provável que reduza a força de sua capacidade natural, como se houvesse qualquer perigo superar os outros; é assim que você reverência os antigos mestres.

8. A sabedoria tem esta vantagem, entre outras, – que nenhum homem pode ser superado por outro, exceto durante a escalada. Mas quando você chega ao topo, é um empate; não há espaço para mais subida, o jogo acabou. Pode o sol adicionar ao seu tamanho? A lua pode avançar além de sua plenitude habitual? Os mares não aumentam a granel. O universo mantém o mesmo caráter, os mesmos limites.

9. As coisas que atingiram a sua plena estatura não podem crescer mais. Os homens que alcançaram a sabedoria serão, portanto, iguais e em pé de igualdade. Cada um deles possuirá seus próprios dons peculiares – um será mais afável, outro mais fácil, outro mais pronto de fala, um quarto mais eloquente; mas no que diz respeito à qualidade em discussão, – o elemento que produz felicidade, – é igual em todos eles.

10. Não sei se este Etna seu pode desabar e cair em ruínas, se sua cúpula elevada, visível por muitos quilômetros do alto mar, é desgastado pelo poder incessante das chamas; mas sei que a virtude não será reduzida a um plano inferior por chamas ou por ruínas. Sua é a única grandeza que não conhece rebaixamento; não pode haver para ela mais crescimento ou redução. Sua estatura, como a das estrelas no céu, é fixa. Por isso, esforçamo-nos por elevar-nos a esta altitude.

11. Já grande parte da tarefa foi cumprida; ou melhor, se eu puder confessar a verdade, não muito. Pois o bem não significa meramente ser melhor do que o mais baixo. Quem que pudesse pegar senão um mero vislumbre da luz do dia teria orgulho de seus poderes de visão? Quem vê o sol brilhar através de uma névoa pode estar contente que tenha escapado das trevas, mas ainda não desfruta a bênção da luz.

12. Nossas almas não terão razão para se regozijar de sua sorte, até que, libertadas desta escuridão em que elas tateiam, não tenham apenas vislumbrado o brilho com a visão fraca, mas tenham absorvido a plena luz do dia e tenham sido restauradas em seu lugar no céu, – até que, de fato, elas recuperem o lugar que ocuparam na atribuição de seu nascimento. A alma é convocada a cima pela sua própria origem. E alcançará esse objetivo antes mesmo de ser libertada da prisão aqui embaixo, assim que tiver rejeitado o pecado e, com pureza e leveza, ter saltado para os reinos celestiais do pensamento.

13. Alegra-me, amado Lucílio, que este ideal nos ocupa, que o persigamos com todas as nossas forças, ainda que poucos o saibam ou até ninguém. A fama é a sombra da virtude; ela atenderá à virtude mesmo contra sua vontade. Porém, como a sombra às vezes precede e às vezes segue ou até mesmo se atrasa, a fama algumas vezes nos precede e se mostra à vista, e às vezes está na retaguarda, e é tanto maior quanto mais tarde chegar, uma vez que a inveja bater em um retiro.

14. Por quanto tempo os homens acreditavam que Demócrito estava louco? A glória mal chegou a Sócrates. E quanto tempo permanecemos ignorando Catão! Eles o rejeitaram e não conheceram o seu valor até o perderem. Se Rutílio não se tivesse resignado a errar, sua inocência e virtude teriam escapado notícia; a hora de seu sofrimento foi a hora de seu triunfo. Ele não deu graças por sua fortuna, e acolheu seu exílio com os braços abertos? Já mencionei até agora aqueles a quem a Fortuna trouxe renome no próprio momento da perseguição; mas quantos são aqueles cujo progresso em direção à virtude veio à luz somente após sua morte! E quantos foram arruinados, não resgatados, por sua reputação?

15. Há Epicuro, por exemplo; como é admirado, não só pelos mais cultos, mas também por esta turba ignorante. Este homem, entretanto, era desconhecido por Atenas. E assim, quando já havia sobrevivido por muitos anos seu amigo Metrodoro, acrescentou em uma carta estas últimas palavras, proclamando com gratidão a amizade que havia existido entre eles: “Tão grandiosamente abençoados fomos Metrodoro e eu que não houve nenhum prejuízo para nós sermos desconhecidos e quase não percebidos, nesta famosa terra da Grécia”.

16. Não é verdade, então, que os homens os descobriram depois de terem cessado de ser? Por acaso a sua fama não brilhou? Metrodoro também admite esse fato em uma de suas cartas: que Epicuro e ele não eram bem conhecidos do público; mas ele declara que, após a vida de Epicuro e de sua própria, qualquer homem que pudesse querer seguir seus passos ganharia grande e pronto renome.

17. Virtude nunca é perdida de vista; e ainda ter sido despercebida não é perda. Chegará um dia que a revelará, mesmo escondida ou reprimida pelo despeito de seus contemporâneos. Esse homem nasce apenas para alguns, que só pensa nas pessoas de sua própria geração. Muitos milhares de anos e milhares de povos virão após você; é a estes que você deve ter consideração. Maldade pode ter imposto silêncio sobre a boca de todos os que estavam vivos em sua época; mas haverá homens que o julgarão sem preconceitos e sem favores. Se há alguma recompensa que a virtude recebe das mãos da fama, nem mesmo isso pode expirar. Nós mesmos, de fato, não seremos afetados pela conversa da posteridade; todavia, a posteridade nos acalentará e nos celebrará, embora não poderemos ter consciência disso.

18. A virtude nunca falhou em recompensar um homem, tanto durante a sua vida como depois da sua morte, desde que a tenha seguido fielmente, desde que não se tenha enfeitado ou pintado a si próprio, mas tenha sido sempre o mesmo, quer tenha aparecido perante os olhos dos homens depois de ser anunciada, ou de repente e sem preparação. O fingimento não realiza nada. Poucos são enganados por uma máscara que é facilmente retirada do rosto. A verdade é a mesma em cada parte. As coisas que nos enganam não têm substância real. Mentiras são coisas franzinas; elas são transparentes, se você as examinar com cuidado.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.     


[1] Caríbdis, era uma criatura marinha protetora de limites territoriais no mar. Em outra tradição, seria um turbilhão criado por Poseidon. Homero posicionou-a como entidade mitológica. Na tradição mitológica grega, Caríbdis era habitualmente relacionada a Cila, outro monstro marinho. Os dois moravam nos lados opostos do estreito de Messina, que separa a penínsnula Itálica da Sicília, e personificavam os perigos da navegação perto de rochas e redemoinhos. Três vezes por dia, sorvia as águas do mar e três vezes por dia tornava a cuspi-las.

[2] Taormina é uma cidade no topo da colina na costa leste da Sicília. Fica perto do Monte Etna, um vulcão ativo com trilhos até ao cume. A cidade é conhecida pelo Teatro Antico di Taormina, um antigo teatro greco-romano que ainda está em funcionamento. Perto do teatro, os penhascos debruçam-se sobre o mar e formam grutas com praias arenosas.

[3] O Etna é um vulcão ativo situado na parte oriental da Sicília, entre as províncias de Messina e Catânia. É o mais alto vulcão da Europa e um dos mais altos do mundo, atingindo aproximadamente 3350 metros de altitude, variando devido às frequentes erupções.

[4] Lícia era o nome de uma região da antiga Ásia Menor (Anatólia) onde hoje estão localizadas as províncias de Antália e Muğla, na costa sul da moderna Turquia,

Apatheia e Ataraxia: conceito e diferenças

Apatheia e Ataraxia: conceito e diferenças

Ataraxia (em grego: Ἀταραξία) traduz-se por “ausência de inquietude/preocupação“, “tranquilidade de ânimo”. É um conceito epicurista.

Apatheia (em grego: ἀπάθεια, (a)- “ausência” e  (pathos) – “sofrimento” ou “paixão”) é um estado de espírito alcançado quando uma pessoa está livre de perturbações emocionais. É um conceito estoico.

Os estoicos e os epicuristas frequentemente travavam disputa uns com os outros. Epicteto explica em várias passagens onde a Estoa difere do Jardim (“Contra Epicuro”, Discursos 1.23), já Sêneca diz a seu amigo Lucílio que toma emprestado alegremente de Epicuro quando faz sentido, dado que é seu “porque eu sou acostumado a entrar até mesmo no campo do inimigo, – não como um desertor, mas como um observador.” (Carta 2: Sobre a falta de foco no Estudo).

A grande diferença entre as duas escolas, como sabemos, é que os estoicos acreditavam que a coisa crucial na vida era a virtude e o seu desenvolvimento, enquanto os epicuristas defendiam que o propósito seria buscar o prazer e evitar o dor.

Não obstante, as duas escolas defendiam que um componente crucial da eudaimonia (vida boa) era algo muito similar, ao que os estoicos se referiam como apatheia (literalmente, estar sem paixões) e os epicuristas, como ataraxia (literalmente, “tranquilidade”). Há, no entanto, algumas diferenças entre os dois conceitos na maneira como as duas escolas ensinavam como se atingir estes respectivos estados de espírito.

No que diz respeito aos estoicos, é bom lembrar que “paixão” não significava o que agora queremos dizer pelo termo, e de fato não significava sequer “emoção” no sentido moderno do termo. É por isso que é incorreto dizer que os estoicos visavam a uma vida desapaixonada, ou à supressão das emoções.

De fato, eles dividem as “paixões” em insalubres e salubres. O primeiro grupo incluía a dor, o medo, a ânsia e o prazer. O segundo, a cautela, a vontade e a alegria/deleite. Os últimos três eram o oposto do primeiro grupo, com a exceção da dor, que não tem uma contraparte positiva. Eis um diagrama sumário:

Pathê
paixões insalubres
Eupatheiai
Paixões saudáveis
Dor (ou sofrimento): falha em evitar algo ruim / (não há dor emocional racional)
Medo: expectativa irracional de algo nocivo xCautela: aversão racional ao vício e coisas nocivas
Ânsia (ou Luxúria): busca irracional por algo considerado bom por erro. x Desejo/vontade: busca racional pelo que é virtuoso
Prazer: euforia irracional por algo que não vale ser perseguido xAlegria/deleite: gozo racional pela virtuoso (o que é bom)

No que diz respeito aos estoicos, é bom lembrar que “paixão” não tinha o significado atual, e na verdade nem sequer significava “emoção” no sentido moderno do termo. Assim, é completamente incorreto dizer que os estoicos visavam uma vida sem paixão, ou a supressão da emoção. Na verdade, eles dividiram as “paixões” em paixões insalubres e saudáveis. O primeiro grupo incluiu o medo, o desejo, o prazer/luxúria e a dor. O segundo, “cautela“, “vontade” e “deleite“. Para a “dor” não havia uma contraparte positva.

Assim, para os estoicos, as “paixões” não são reações automáticas, instintivas, que não podemos evitar sentir. Pelo contrário, são o resultado de um julgamento, de um consentimento a uma sensação. Portanto, ao ler a palavra “medo”, não pense na resposta automática que é de fato inevitável quando nos é apresentado algo perigoso (mesmo que apenas aparentemente). O que os estoicos queriam dizer com “medo” era o que vem depois: a nossa opinião ponderada sobre o que causou a reação instintiva. A psicologia estoica é sutil: eles sabiam que nós temos respostas automáticas que não estão sob nosso controle. Por isso eles se concentraram no que está sob nosso controle: o julgamento feito sobre as causas prováveis de nossas reações instintivas, um julgamento feito pelo que Marco Aurélio chamava de faculdade dominante (raciocínio).

Os estoicos também usam em seu vocabulário ataraxia, não apenas apatheia. Uma maneira de pensar sobre a relação entre os dois é que a apatheia, uma mudança de emoções negativas para positivas, que por sua vez produz ataraxia, uma sensação de tranquilidade que vem de ter desenvolvido uma atitude de equanimidade em relação ao que quer que o mundo nos lance.

A diferença crucial entre as duas escolas é que chegam até a eudaimonia a por caminhos bem diferentes. Os epicuristas buscaram acima de tudo evitar a dor, o que significava especialmente privar-se da vida social e política. Era bom, para Epicuro, cultivar suas amizades íntimas, mas tentar ter um papel pleno na política era uma maneira segura de sofrer (física e mentalmente) e portanto deveria ser evitado. Os estoicos, ao contrário, abraçavam a vida social. Marco Aurélio escreve constantemente nas Meditações que precisamos levantar de manhã e fazer o trabalho de um ser humano, que significa sermos úteis para a sociedade. Para os estoicos, o sábio poderia ser feliz até na ruína e passando por enorme sofrimento, contanto que esteja exercendo a sua virtude e agindo para o benefício da humanidade. Isso seria inconcebível para um epicurista.

Leia também:

Carta 72: Sobre os negócios como inimigo da filosofia

Na carta 72 Sêneca diz que, ao invés do usualmente feito,  devemos priorizar o estudo da filosofia, deixando os negócios em segundo plano, ou melhor ainda, abandonado completamente.

Segundo ele, a preocupação com negócios é sinal de uma sabedoria imperfeita, sinal de preocupação com bens materiais externos:

“São aqueles que ainda estão aquém da perfeição cuja felicidade pode ser quebrada; a alegria de um homem sábio, por outro lado, é um tecido entrelaçado, quebrada por nenhum acontecimento casual e ou mudança de sorte; em todos os momentos e em todos os lugares ele está em paz. Pois a sua alegria não depende de nada externo e não busca nenhuma bênção do homem ou da fortuna. Sua felicidade é algo dentro de si mesmo.” (LXXII, 4)

Precisamos ter em mente que Sêneca estava falando da alta classe romana, pessoas de muitas posses que não precisavam “cuidar dos negócios” para manterem um alto padrão material de vida. Ele próprio, sempre atarefado e comprometido com negócios (como afirma no início da carta) ainda está se esforçando para atingir a sabedoria.

O importante é saber se contentar com o suficiente e lembrar que “a fortuna não nos dá nada que possamos realmente possuir.” Ao final da carta cita uma analogia de seu professor de estoicismo, Átalo:

“Você alguma vez já viu um cachorro que pula com mandíbulas abertas em pedaços de pão ou carne que seu mestre atira a ele? Seja o que for que pegar, imediatamente engolirá tudo e sempre abre suas mandíbulas na esperança de algo mais, assim é com nós mesmos, ficamos expectantes, e tudo o que a Fortuna nos lança, abocanhamos imediatamente sem nenhum prazer real, e logo ficamos atentos e frenéticos por algo mais a arrebatar”. (LXXII, 8)

Sêneca diz que não é assim com o sábio; ele está satisfeito. Mesmo que lhe seja oferecido algo, ele simplesmente o aceita e o deixa de lado.

Imagem: Detalhe de David de Michelangelo.


LXXII. Sobre os negócios como inimigo da filosofia

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. O assunto sobre o qual você me pergunta já estava claro em minha mente, e não exigiu nenhum pensamento, tão completamente eu o tinha dominado. Mas não testei a minha memória por algum tempo, e, portanto, não o tinha de prontidão. Sinto que sofri o destino de um livro cujas páginas estão presas por desuso; minha mente precisa ser desenrolada, e tudo o que foi armazenado lá deve ser examinado de vez em quando, para que possa estar pronto para uso quando a ocasião exigir. Vamos, portanto, colocar este assunto para o presente; pois exige muito trabalho e muito cuidado. Assim que eu puder esperar permanecer por algum tempo no mesmo lugar, eu então tomarei sua pergunta à mão.
  2. Pois há certos assuntos sobre os quais você pode escrever, mesmo quando viaja em uma biga, e há também assuntos que precisam de uma cadeira de estudo, calma e reclusão. No entanto, eu deveria concluir algo mesmo em dias como estes, – dias que são totalmente empregados, e de fato de manhã até à noite. Pois nunca há um momento em que novas ocupações não surjam; nós as semeamos, e por esta razão várias germinam. Então, continuamos adiando nossos próprios casos, dizendo: “Assim que eu terminar com isso, eu estabelecerei um trabalho árduo”, ou: “Se eu conseguir colocar este assunto problemático em ordem, deverei dedicar-me ao estudo.”
  3. Mas o estudo da filosofia não deve ser adiado até que você tenha tempo livre; tudo o mais deve ser negligenciado para que possamos atender à filosofia, pois não há tempo suficiente para isso, mesmo que nossas vidas sejam prolongadas desde a infância até os limites extremos do tempo alocado ao homem. Faz pouca diferença se você abandona completamente a filosofia ou a estuda intermitentemente; porque ela não permanece como estava quando você a deixou, mas, porque sua continuidade foi quebrada, ela volta para a posição em que estava no início, como coisas que se despedaçam quando são tensionadas. Devemos resistir aos assuntos que ocupam nosso tempo; eles não devem ser desembaraçados, mas sim colocados fora do caminho. Na verdade, não há tempo que seja inadequado para estudos úteis; e ainda assim muitos homens falham em estudar em meio às circunstâncias que tornam necessário o estudo.
  4. Ele diz: “Algo acontecerá para me atrasar.” Não, não no caso do homem cujo espírito, não importa qual seja o seu negócio, está feliz e alerta. São aqueles que ainda estão aquém da perfeição cuja felicidade pode ser quebrada; a alegria de um homem sábio, por outro lado, é um tecido entrelaçado, quebrada por nenhum acontecimento casual e ou mudança de sorte; em todos os momentos e em todos os lugares ele está em paz. Pois a sua alegria não depende de nada externo e não busca nenhuma bênção do homem ou da fortuna. Sua felicidade é algo dentro de si mesmo; ele se afastaria de sua própria alma se ela tivesse vindo de fora; contudo ela nasce dentro.
  5. Às vezes, um acontecimento externo lembra sua mortalidade, mas é um golpe leve, e apenas roça a superfície de sua pele. Alguns problemas, repito, podem tocá-lo como um sopro de vento, mas esse Bem Supremo dele é inabalável. Isto é o que quero dizer: há desvantagens externas, como espinhas e furúnculos que irrompem sobre um corpo que é normalmente forte e sadio; mas não há uma doença profunda.
  6. A diferença, digamos, entre um homem de sabedoria perfeita e outro que está progredindo em sabedoria é a mesma diferença entre um homem saudável e um que está convalescente de uma doença grave e prolongada, para quem a “saúde” significa apenas um ataque mais leve de sua doença. Se este não toma cuidado, há uma recaída imediata e um retorno ao mesmo velho problema; mas o homem sábio não pode escorregar para trás, ou escorregar em qualquer doença. Pois a saúde do corpo é uma questão temporária que o médico não pode garantir, mesmo que tenha restaurado; e, muitas vezes, é retirado de sua cama para visitar o mesmo paciente que o convocou antes. A mente, entretanto, uma vez curada, é curada para sempre.
  7. Vou dizer-lhe o que quero dizer com saúde: se a mente está contente com seu próprio eu; se tiver confiança em si mesmo; se compreender que todas as coisas pelas quais os homens oram, todos os benefícios que são concedidos e pedidos, não são importantes em relação a uma vida de felicidade; Pois qualquer coisa que pode ser acrescida é imperfeita; qualquer coisa que possa sofrer perda não é duradoura; mas deixe o homem cuja felicidade é duradoura regozijar-se no que é verdadeiramente seu[1]. Agora tudo o que a multidão se embasbaca, mais tarde decai e escoa. A fortuna não nos dá nada que possamos realmente possuir. Mas mesmo esses presentes da Fortuna nos satisfazem quando a razão os tem temperado e misturado a nosso gosto; pois é a razão que nos torna aceitáveis até mesmo bens externos que são desagradáveis usar se os absorvemos com avidez.
  8. Átalo costumava empregar a seguinte analogia: “Você alguma vez já viu um cachorro que pula com mandíbulas abertas em pedaços de pão ou carne que seu mestre atira a ele? Seja o que for que pegar, imediatamente engolirá tudo e sempre abre suas mandíbulas na esperança de algo mais, assim é com nós mesmos, ficamos expectantes, e tudo o que a Fortuna nos lança, abocanhamos imediatamente sem nenhum prazer real, e logo ficamos atentos e frenéticos por algo mais a arrebatar”. Mas não é assim com o sábio; ele está satisfeito. Mesmo que lhe seja oferecido algo, ele simplesmente o aceita descuidadamente e o deixa de lado.
  9. A felicidade que ele desfruta é supremamente grande, é duradoura, é sua própria. Suponha que um homem tenha boas intenções e faça progressos, mas ainda esteja longe das alturas; o resultado é uma série de altos e baixos; ele agora é elevado ao céu, agora trazido à terra. Para aqueles que não têm experiência e treinamento, não há limite para o curso de decadência; tal cair no Caos de Epicuro[2], – vazio e ilimitado.
  10. Há ainda uma terceira classe de homens, aqueles que brincam com sabedoria, eles ainda não a tocaram, mas a têm a vista, e a têm, por assim dizer, a uma distância razoável. Eles não são precipitados, tampouco derrapam; eles não estão em terra firme, mas já estão no porto.
  11. Portanto, considerando a grande diferença entre as alturas e as profundezas, e vendo que mesmo aqueles no meio são perseguidos por um fluxo e refluxo peculiar ao seu estado e perseguido também por um enorme risco de retornar aos seus degenerados costumes, não devemos nos entregar a assuntos que ocupam nosso tempo. Eles devem ser excluídos; se uma vez ganharem entrada, eles trarão outros ainda para tomar seus lugares. Vamos resistir a eles em seus estágios iniciais. É melhor que eles nunca comecem do que tenham que ser eliminados.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Nossas vidas são meramente emprestadas para nós; A natureza retém o dominium. Compare também a figura frequente por Sêneca de que a vida é como uma pousada, em contraste com uma casa sobre a qual se é proprietário.

[2] O vazio (oco), ou espaço infinito, em contraste com os átomos que formam novos mundos em sucessão contínua.

Resenha: A Vida Feliz (De Vita Beata)

Depois da Leitura da Carta de Epicuro sobre a Felicidade, retomamos o estoicismo com uma nova leitura de Vita Beata,  Sobre a Felicidade de Sêneca.

Sêneca faz grande oposição ao epicurismo, corrente filosófica que valoriza o prazer como fonte de felicidade. Talvez este diálogo tenha sido escrito como um contraponto à Carta a Meneceu:Você se dedica aos prazeres, eu os controlo; você se entrega ao prazer, eu o uso; você pensa que é o bem maior, eu nem penso que seja bom: por prazer não faço nada, você faz tudo.”  (X, 3 ).

A principal coisa a entender sobre o texto é o próprio título: ‘Feliz‘ aqui não tem a conotação moderna de se sentir bem, mas é o equivalente da palavra grega eudaimonia, que é melhor compreendida como uma vida digna de ser vivida, um estado de plenitude do ser. Para Sêneca e para os estoicos, a única vida que vale a pena ser vivida é aquela de retidão moral, o tipo de existência à qual olhamos no final e podemos dizer honestamente que não nos envergonhamos.

Logo no primeiro parágrafo Sêneca dá a linha da argumentação estoica: Não devemos ter a felicidade como objetivo: “não é fácil alcançar a felicidade já que quanto mais avidamente um homem se esforça para alcançá-la mais ele se afasta”.(I,1) a conclusão é que A solução é ter como objetivo a virtude, a felicidade será consequência.

No capítulo XV, Sêneca explica por que não se pode simplesmente associar a virtude ao prazer. O problema é que, mais cedo ou mais tarde, o prazer o levará a territórios não virtuosos:

Quem, por outro lado, forma uma aliança, entre a virtude e o prazer, obstrui qualquer força que uma possa possuir pela fraqueza da outra, e envia liberdade sob o jugo, pois a liberdade só pode permanece inconquistável enquanto não sabe nada mais valioso do que ela mesma: pois começa a precisar da ajuda da Fortuna, o que é a mais completa escravidão: sua vida torna-se ansiosa, cheia de suspeitas, tímida, temerosa de acidentes, esperando em agonia por momentos críticos. Você não oferece à virtude uma base sólida e imóvel se você a colocar sobre o que é instável: e o que pode ser tão instável quanto a dependência do mero acaso e as vicissitudes do corpo e daquelas coisas que agem sobre o corpo?”. (XV, 3 )

O livro fornece uma lista de regras pelas quais Sêneca está tentando viver. Vale a pena considerá-las na íntegra:

• Eu vou encarar a morte ou a vida a mesma expressão de semblante;
• Eu desprezarei as riquezas quando as tiver tanto quanto quando não as tiver;
• Verei todas as terras como se pertencessem a mim, e as minhas terras como se pertencessem a toda a humanidade;
• Seja o que for que eu possua, eu não vou acumulá-lo avidamente nem o desperdiçar de forma imprudente;
• Não farei nada por causa da opinião pública, mas tudo por causa da consciência;
• Ao comer e beber, meu objetivo é extinguir os desejos da natureza, não encher e esvaziar minha barriga;
• Eu serei agradável com meus amigos, gentil e suave com meus inimigos;
• Sempre que a Natureza exigir minha vida, ou a razão me pedir que a rejeite, vou desistir desta vida, chamando a todos para testemunhar que amei uma boa consciência e boas atividades;

(imagem  Herbert James DraperUlises e as Sereias)


Livro disponível na lojas:

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Livro: Carta a Meneceu sobre a felicidade

Com muito cuidado e desconfiança, O Estoico,  seguindo o conselho de Sêneca, resolveu entrar no campo do inimigo!

“A reflexão para hoje é uma que eu descobri em Epicuro; porque eu sou acostumado a entrar até mesmo no campo do inimigo, – não como um desertor, mas como um observador.” (II,2)

Em suas Cartas a Lucílio, Sêneca usa o nome “Epicuro” 78 vezes.  Além das referências explícitas, usa em diversas ocasiões utiliza os termos “jardim“(8x) e “antagonista / oponente“(6x) sempre em alusão ao epicurismo.

Obviamente vale a pena estudar e conhecer mais do epicurismo, para que possamos fazer uma oposição justa e ponderada. Vamos a resenha:

A busca pela felicidade é o tema central da Carta a Meneceu, e os caminhos para se chegar a ela são dois: a saúde do corpo e a serenidade do espírito. O controle sobre o desejo também é visto como um importante meio para a felicidade e que o homem sábio consegue ser feliz só com o que é estritamente necessário. Aborda também o medo da morte, e sua futilidade.

Pelos pontos abordados, vemos que a preocupação de Epicuro é a mesma dos estoicos, ou seja,  como viver uma boa vida.

“Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.”

O parágrafo acima não tem conflito algum com a teoria estoica.  Poderia estar num livro do Sêneca. (pensando bem,  está! consultem “Sobre a Brevidade da Vida“)

Depois escorrega feio e diz algo completamente oposto ao estoicismo:

“É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.”

Mas depois dessa decaída ao hedonismo, Epicuro tenta colocar ordem na casa, colocando limites ao prazer: “Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida“.

Recomendo a leitura,  é interessante para conhecer, perceber as semelhanças e traçar as diferenças do Epicurismo e Estoicismo, os arquirrivais da filosofia.


Disponível nas lojas:  

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Carta 23: Sobre a verdadeira alegria que vem da filosofia

A carta 23 discorre sobre a distinção entre a alegria falsa e a verdadeira. Sêneca começa contando a Lucílio que deseja escrever-lhe sobre as coisas que importam, sem perder tempo falando do tempo ou outras trivialidades das quais as pessoas falam quando não têm nada a dizer. Ele então vai direto ao ponto:

Você pergunta qual é o fundamento de uma mente sã? É, não encontrar satisfação em coisas inúteis. Eu disse que era o fundamento; é realmente o pináculo. Chegamos às alturas quando sabemos o que é que nos alegra e quando não colocamos nossa felicidade sob controle externo. ” (XXIII.1-2)

Essa, é claro, é uma versão da dicotomia estoica do controle: não controlamos os externos, por isso é tolice depositar nossa felicidade neles. A frase de Sêneca, “Eu disse que era o fundamento; é realmente o pináculo.“, na verdade destaca a idéia de que encontrar alegria na solidez dos próprios julgamentos, em oposição à aquisição de coisas externas, é um objetivo importante do treinamento estoico e, de fato, o auge a ser alcançado.

Acima de tudo, meu caro Lucílio, faça deste seu negócio: aprenda a sentir alegria.” (XXIII.3)

Normalmente, não precisaríamos aprender a sentir alegria, é uma emoção humana natural. O fato de termos que “aprender” como sentir alegria, entretanto, está perfeitamente de acordo com o princípio estoico de que os sentimentos básicos têm valor neutro e devem ser avaliados por nossa faculdade de julgamento, que tem o poder de dar ou retirar consentimento a tais sentimentos.  Isso parece bastante severo, Sêneca admite que o prazer é uma coisa boa (no sentido de ser um indiferente preferido, obviamente), mas também está advertindo de que o prazer tem uma tendência a assumir o controle, distraindo-nos de atividades mais importantes. O que buscar, exatamente? Vem a resposta:

Você me pergunta qual é o verdadeiro bem, e de onde deriva? Digo-o: vem de uma boa consciência, de propósitos honrosos, de ações corretas, de desprezo dos presentes da fortuna, de um modo de vida equilibrado e tranquilo que trilha apenas um caminho. ”(XXIII.7)

O problema é que muitos de nós levam muito tempo para perceber isso, e alguns de nós nunca percebem isso. É por isso que Seneca conclui a carta com estas palavras memoráveis:

Alguns homens, na verdade, só começam a viver quando é hora de deixarem de viver… alguns homens deixam de viver antes de começarem. ”(XXIII.11)

(imagem Antoine-François Callet (1741 – 1823) interpretação barroca da  Saturnalia – 1783)


XXIII. Sobre a verdadeira alegria que vem da filosofia

Saudações de Sêneca a Lucílio.  

  1. Você acha que eu vou escrever-lhe como a temporada de inverno tem nos tratado com gentileza – uma estação curta e suave – ou que primavera desagradável estamos tendo – tempo frio fora de época – e todos as outras trivialidades que as pessoas escrevem quando estão sem assunto? Não; vou transmitir algo que pode ajudar tanto a você como a mim. E o que deve ser esse “algo”, senão uma exortação à solidez da mente? Você pergunta qual é o fundamento de uma mente sã? É, não encontrar satisfação em coisas inúteis. Eu disse que era o fundamento; é realmente o pináculo.
  2. Chegamos às alturas quando sabemos o que é que nos alegra e quando não colocamos nossa felicidade sob controle externo. O homem que é incitado pela esperança de qualquer coisa, embora a tenha ao alcance, embora esteja a fácil acesso, e embora suas ambições nunca o tenha enganado, é perturbado e inseguro de si mesmo.
  3. Acima de tudo, meu caro Lucílio, faça deste seu negócio: aprenda a sentir alegria. Você acha que agora estou roubando-lhe muitos prazeres quando eu tento acabar com os presentes da fortuna, quando eu aconselho a evitar a esperança, a coisa mais doce que alegra nossos corações? Pelo contrário; eu não desejo nunca que você seja privado de alegria. Eu a teria inata em sua casa; e ela nascerá lá, apenas se estiver dentro de você. Outros objetos de conforto não enchem o peito de um homem; eles apenas suavizam a testa e são inconstantes, a menos que você acredite que aquele que ri tem alegria. A própria alma deve ser feliz e confiante, elevada acima de todas as circunstâncias.
  4. Alegria real, acredite, é uma questão severa. Pode alguém, você acha, menosprezar a morte com um semblante despreocupado, ou com uma expressão “jovial e alegre”, como nossos jovens janotas estão acostumados a dizer? Ou, então, pode-se abrir a porta para a pobreza, ou restringir seus prazeres, ou contemplar a tolerância da dor? Aquele que pondera estas coisas em seu coração está realmente cheio de alegria; mas não é uma alegria bem disposta. É apenas essa alegria, porém, da qual eu gostaria que você se tornasse o dono; pois nunca o falhará quando encontrar sua fonte.
  5. O rendimento das minas medíocres fica na superfície; aquelas que são realmente ricas as veias emboscam-se profundamente, e elas trarão retornos mais generosos para aquele que mergulha continuamente. Assim também são bugigangas que deleitam a multidão comum pois proporcionam apenas um prazer superficial, colocado somente como um revestimento, e o mesmo é com a alegria banhada, a qual falta base real. Mas a alegria de que falo, aquela a que estou me esforçando para conduzi-lo, é algo sólido, revelando-se mais plenamente à medida que você nela penetra.
  6. Portanto, peço-lhe, meu querido Lucílio, faça a única coisa que pode tornar-lhe realmente feliz: despreze todas as coisas que brilham exteriormente e que são oferecidas a você ou a qualquer outro; olhe para o verdadeiro bem, e alegre-se apenas naquilo que vem de seu depósito. E o que quero dizer com “seu depósito”? Eu quero dizer de seu próprio eu, que é a melhor parte de você. O corpo frágil também, embora não consigamos fazer nada sem ele, deve ser considerado apenas necessário, e não tão importante; envolve-nos em prazeres fúteis, de curta duração, e logo a serem lamentados, a menos que sejam controlados por um extremo autocontrole, tais prazeres serão transformados em antagônicos. Isso é o que quero dizer: o prazer, a menos que tenha sido mantido dentro dos limites, tende a nos precipitar no abismo da tristeza. Mas é difícil manter limites dentro daquilo que você acredita ser bom. O verdadeiro bem pode ser cobiçado com segurança.
  7. Você me pergunta qual é o verdadeiro bem, e de onde deriva? Digo-o: vem de uma boa consciência, de propósitos honrosos, de ações corretas, de desprezo dos presentes da fortuna, de um modo de vida equilibrado e tranquilo que trilha apenas um caminho. Para os homens que saltam de um propósito para outro, ou não sequer pulam, mas são carregados por uma espécie de aventura, – como podem essas pessoas vacilantes e instáveis possuirem qualquer bem que é fixo e duradouro?
  8. Existem poucos que controlam a si mesmos e seus negócios por um propósito direcionado; O restante não prossegue; eles são simplesmente varridos, como objetos flutuando em um rio. E desses objetos, alguns são retidos por águas lentas e são transportados suavemente; outros são despedaçados por uma corrente mais violenta; alguns, que estão mais próximos da margem, são deixados lá onde a correnteza afrouxa; e outros são levados para o mar pelo avanço da correnteza. Portanto, devemos decidir o que desejamos, e respeitar a decisão.
  9. Agora é a hora de pagar minha dívida. Eu posso dar-lhe um provérbio de seu amigo Epicuro e assim livrar esta carta de sua obrigação. “É incômodo sempre estar começando a vida.” Ou outra, que talvez expressará melhor o significado: “Vivem doentes aqueles que estão sempre começando a viver“.
  10. Você está certo em perguntar por que; o ditado certamente precisa de um comentário. É porque a vida dessas pessoas é sempre incompleta. Mas um homem não pode estar preparado para a aproximação da morte se ele acaba de começar a viver. Precisamos tornar nosso objetivo já ter vivido o suficiente. Ninguém pensa que tenha feito isso, se está sempre na etapa de planejar sua vida.
  11. Você não precisa pensar que há poucos deste tipo; praticamente todos são de tal cunho. Alguns homens, na verdade, só começam a viver quando é hora de deixarem de viver. E se isso lhe parece surpreendente, acrescento o que mais o surpreenderá: alguns homens deixam de viver antes de começarem.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Carta 21: Sobre o reconhecimento que meus escritos o trarão

A vigésima primeira carta de Seneca é muito peculiar. Enquanto estoicos não procuram fama, Sêneca promete a Lucílio manter seu nome conhecido após sua morte. Ele parece até se gabar do alcance e da importância de seus próprios escritos. Isso faz com que seja uma carta bastante “não-estoica”. (Contudo a promessa foi integralmente cumprida!)

“Eu encontrarei benevolência entre gerações posteriores; posso levar comigo nomes que durarão tanto quanto o meu. (XXI.5)”

Curiosamente, o que é mais valioso desta carta não é ensinado diretamente por Sêneca, mas o repetido de Epicuro: se você busca a felicidade, não tente aumentá-la, mas tente diminuir seu desejo. E é o mesmo com tudo que você luta: não corra atrás, mas controle o seu desejo.

“Se você quiser, enriquecer Pitão, não adicione dinheiro, mas subtraia seus desejos.” Esta ideia é muito clara para necessitar maior explicação, e muito inteligente para precisar de reforço. No entanto, há um ponto sobre o qual eu gostaria de alertá-lo – não considere que esta afirmação se aplica apenas às riquezas; seu valor será o mesmo, não importa como você aplique-a. “Se você quiser fazer Pitão honroso, não adicione às suas honras, mas subtraia de seus desejos”; “Se você desejar que Pitão tenha prazer para sempre, não adicione a seus prazeres, mas subtraia de seus desejos”…  (XXI.7-8)”

Enquanto a escola epicurista e a escola estoica estão em desacordo em muitos pontos, há também um grande terreno comum. Muitas vezes pensamos nos estoicos como seres sem emoção, racionais e nos epicuristas como hedonistas buscadores de prazer. A verdade é, como sempre, tem mais nuances. Talvez seja isso que se possa aprender com essa carta.

(imagem Alexandre, o grande no templo de Jerusalém por Sebastiano Conca)


XXI. Sobre o reconhecimento que meus escritos o trarão

Saudações de Sêneca a Lucílio.  

  1. Você conclui que está tendo dificuldades com aqueles homens sobre quem me escreveu? Sua maior dificuldade é com você mesmo; pois você é seu próprio obstáculo. Você não sabe o que quer. Você é melhor em escolher o curso correto do que em segui-lo. Você vê aonde está a verdadeira felicidade, mas não tem coragem de alcançá-la. Deixe-me dizer-lhe o que lhe impede, visto que você não o percebe.
  2. Você acha que este cargo, que você deseja abandonar, é de importância, e depois de decidir por aquele estado ideal de calma que você espera atingir, você é retido pelo brilho de sua vida presente, a qual tem intenção de abandonar, como se estivesse prestes a cair em um estado de trevas e imoralidade. Isso é um erro, Lucílio; passar de sua vida presente para outra é uma promoção. Há a mesma diferença entre essas duas vidas, como existe entre o mero reflexo e a luz real; a última tem uma fonte definida dentro de si, a outra empresta seu brilho; uma é suscitada por uma claridade que vem do exterior, e qualquer um que se coloque entre a fonte e o objeto transforma imediatamente este último em uma densa sombra; mas a outra tem um brilho que vem de dentro. São seus próprios estudos que farão você brilhar e torná-lo eminente, permita-me mencionar o caso de Epicuro.
  3. Ele estava escrevendo a Idomeneu[1] e tentando leva-lo de uma existência exibicionista para uma reputação segura e firme. Idomeneu era naquele tempo um ministro do estado que exercia uma autoridade severa e tinha assuntos importantes à mão. “Se”, disse Epicuro, “você é atraído pela fama, minhas cartas o farão mais famoso do que todas as coisas que você estima e que o fazem estimado.”
  4. Epicuro falou perfidamente? Quem hoje conheceria Idomeneu, se não tivesse o filósofo gravado seu nome nessas suas cartas? Todos os grandes senhores e sátrapas[2], até mesmo o próprio rei, que foi peticionado ao cargo que Idomeneu procurava, estão imersos em profundo esquecimento. As cartas de Cícero evitaram o perecimento do nome de Ático. De nada teria aproveitado Ático ter Agripa como genro, Tibério como marido de sua neta, e um Druso César como bisneto; mesmo estando rodeado desses poderosos nomes nunca se falaria seu nome, se Cícero não o tivesse associando-o a si mesmo.
  5. A força inexpugnável do tempo rolará sobre nós; alguns poucos grandes homens elevarão suas cabeças acima dele, e, embora destinados derradeiramente aos mesmos reinos do silêncio, batalharão contra o esquecimento e manterão seu terreno por muito tempo. O que Epicuro podia prometer a seu amigo, o mesmo lhe prometo, Lucílio. Eu encontrarei benevolência entre gerações posteriores; posso levar comigo nomes que durarão tanto quanto o meu. Nosso poeta Virgílio prometeu um nome eterno a dois heróis, e está mantendo sua promessa:
    Bem-aventurado par de heróis! Se minha canção tem poder, O registro de seus nomes nunca será apagado do livro do Tempo, enquanto aindaA tribo de Enéias manter o Capitólio, Aquela rocha impassível, e a majestade Romana
    O império se manterá.
    Fortunati ambo! Siquid mea carmina possunt,Nulla dies umquam memori vos eximet aevo,
    Dum domus Aeneae Capitoli immobile saxum
    Accolet imperiumque pater Romanus habebit.[3]
  6. Sempre que os homens são empurrados para a frente pela fortuna, sempre que eles se tornam parte integrante da influência de outrem, eles encontram abundante favor, suas casas são providas, apenas enquanto eles próprios mantêm sua posição; quando eles a deixam, eles desaparecem imediatamente da memória dos homens. Mas no caso da habilidade inata, o respeito por ela aumenta, e não só a honra se acumula no próprio homem, mas em tudo o que tem a sua memória é transmitido de um para outro.
  7. A fim de que Idomeneu não seja introduzido gratuitamente na minha carta, ele deve compensar o endividamento de sua própria conta. Foi a ele quem Epicuro dirigiu o conhecido ditado que o incitava a enriquecer Pitão, mas não rico do jeito vulgar e equivocado. “Se você quiser,” disse ele, “enriquecer Pitão, não adicione dinheiro, mas subtraia seus desejos.”
  8. Esta ideia é muito clara para necessitar maior explicação, e muito inteligente para precisar de reforço. No entanto, há um ponto sobre o qual eu gostaria de alertá-lo – não considere que esta afirmação se aplica apenas às riquezas; seu valor será o mesmo, não importa como você aplique-a. “Se você quiser fazer Pitão honroso, não adicione às suas honras, mas subtraia de seus desejos”; “Se você desejar que Pitão tenha prazer para sempre, não adicione a seus prazeres, mas subtraia de seus desejos”; “Se você deseja fazer Pitão um homem velho, enchendo sua vida ao máximo, não adicione a seus anos, mas subtraia de seus desejos.”
  9. Não há razão para que você considere que essas palavras pertencem somente a Epicuro; elas são propriedade pública. Penso que devemos fazer em filosofia como costumam fazer no Senado: quando alguém faz uma moção, da qual eu aprovo até certo ponto, peço-lhe que faça sua moção em duas partes, e eu voto pela parte que eu aprovo. Assim, fico ainda mais contente de repetir as ilustres palavras de Epicuro, para que eu possa provar àqueles que recorrem a ele por um mau motivo, pensando que terão uma tela para seus próprios vícios, que devem viver honrosamente, não importa qual escola sigam.
  10. Vá ao jardim dele e leia o lema esculpido lá:
    “Estranho, aqui você fará bem em se demorar, aqui nosso bem mais elevado é prazer.” Hospes, hic bene manebis, hic summum bonum voluptas est.

    O zelador daquela morada, amável anfitrião, estará pronto para você; ele o receberá com farinha de cevada e também servirá água em abundância, com estas palavras: “Você não está bem entretido?” “Este jardim, diz ele, não aguça o apetite, ele o apaga, nem o deixa mais sedento com cada gole, ele abranda a sede por um remédio natural, um remédio que não exige nenhuma recompensa. Este é o “Prazer” em que eu tenho envelhecido

  11. Ao falar com você, no entanto, eu me refiro a esses desejos que recusam alívio, que carecem de suborno para cessar. Pois em relação aos desejos excepcionais, que podem ser adiados, que podem ser corrigidos e controlados, eu tenho este pensamento para compartilhar com você: um prazer desse tipo é natural, mas não é necessário; não lhe devemos nada; tudo o que é gasto com ele é uma prenda gratuita. A barriga não ouve conselhos; faz exigências, importuna. E mesmo assim, não é uma credora problemática; você pode despacha-la a pequeno custo, desde que somente você lhe de o que você deve, não meramente tudo que você poderia dar.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Idomeneu de Lampsaco, foi um amigo e discípulo de Epicuro.

[2] Sátrapa era o nome dado aos governadores das províncias, chamadas satrapias, nos antigos impérios Aquemênida e Sassânida da Pérsia. Cada satrapia era governada por um sátrapa, que era nomeado pelo rei.

[3] Trecho de Eneida de Virgílio.