Resenha: Sobre a Constância de Justo Lípsio

Nascemos sob um reinado e obedecer a Deus é liberdade

Justo Lípsio ( 1547 – 1606 d.C), foi filólogo e humanista flamengo considerado um dos eruditos mais famosos do século XVI. Autor de uma série de obras que pretendiam recuperar a antiga corrente filosófica do estoicismo num formato compatível com o cristianismo tomando como modelo de partida a obra Sêneca.  Viveu, toda sua vida, em meio a Guerra dos 80 anos  (1568 a 1648). Na época os Países Baixos pertenciam ao Império Espanhol. Altos impostos, desemprego e a perseguição católica contra os calvinistas criaram uma perigosa oposição e revolta liberal. Nascido em família católica, troca de lado, aliando-se aos calvinistas, para depois retornar à fé católica.

Em Sobre a Constância Justo Lípsio aconselha a busca de um estado de espírito reto e inabalável, baseado em uma firmeza interior (constância), que emana, não de mera opinião, mas de julgamento e razão justos.

Lípsio se concentra no valor do estoicismo para fortalecimento da mente contra problemas e ansiedades externas. Em uma época de disputas e perseguições religiosas, Lípsio pretendia que o livro fosse tanto um consolo quanto uma solução para as calamidades que ele e seus contemporâneos estavam sofrendo. O resultado é um manual para a vida prática e, como tal, está mais focado em regras morais do que em argumentos filosóficos rigorosos. O tema central do livro é a necessidade de cultivar a resistência voluntária e inflexível para todas as circunstâncias humanas.

O livro é escrito na forma de um diálogo entre Lípsio e seu velho amigo Carlos Langhe, no texto lançado no papel de um sábio estoico que havia conseguido o domínio sobre suas emoções pela razão.

O jovem Lípsio começou seu estudo de Sêneca, bem como o de Tácito, durante a época que morou em Roma, em 1569. Foi seu professor Marc-Antoine Muret quem primeiro estimulou seu interesse em Sêneca e no estoicismo romano, dando origem a uma obsessão vitalícia que alternaria entre filologia e filosofia. O interesse filosófico de Lípsio pelo estoicismo romano levou à publicação de seu diálogo baseado em Sêneca de grande sucesso, estabelecido em meio às violentas lutas religiosas e políticas da Holanda, De constantia in publicis malis (“Sobre a Constância em Tempos de Calamidade Pública”). Esta foi sua primeira tentativa de combinar estoicismo e cristianismo a fim de criar uma nova filosofia que ajudaria os indivíduos a viver o difícil período de guerras civis e religiosas que estavam dilacerando o norte da Europa.

Um olhar mais atento ao primeiro trabalho neo-estoico de Lípsio revela que de constantia era o manifesto de um humanista que estava convencido de ter encontrado na filosofia de Sêneca tanto um consolo quanto uma solução para as calamidades públicas que ele e seus contemporâneos estavam suportando.

Do livro A Vida Feliz de Sêneca, Lípsio toma o lema: “Nascemos sob um reinado e obedecer a Deus é liberdade( I.14). Depois de definir Deus, providência e destino, ele chega à necessidade (necessitas), a conclusão lógica de sua mútua cooperação: tudo que é governado pelo destino acontece por necessidade (I.19). O exemplo mais óbvio desta necessidade natural é a decadência e destruição de todas as coisas temporais (I.15-16).

Embora consolando seus leitores, Lípsio não nega a arrogância do poder, as atrocidades da história ou a crueldade de tiranos e imperadores. No entanto, ele tenta encorajar seus leitores a adotar uma atitude de constância, listando uma longa série de divinae clades (desastres aprovados por Deus): exemplos horríveis da história destinados a ilustrar a utilidade do castigo divino e a demonstrar que males como terremotos, pestilência, guerra e tirania fazem parte da condição humana – na verdade,  do plano de Deus para a preservação e melhoria do mundo como um todo. Além disso, argumenta ele, os males do tempo presente não são particularmente graves nem piores do que os que existiam no passado: “Pois como o trabalho dividido entre muitos é fácil: do mesmo modo, também é com a tristeza” (II.26).

Espera-se, portanto, que o homem verdadeiramente sábio aceite a lei da necessidade com firmeza e fortaleza mental, ao mesmo tempo em que perceba que o homem é uma sombra e um sonho” (I,17), ele deve mostrar desprezo pelo curso dos acontecimentos humanos cultivando constância: “a razão correta como sendo um verdadeiro sentido e julgamento das coisas humanas e divinas (I.4). A mãe desta constância é a paciência, que é governada pela razão. A razão – ao contrário das falsas opiniões – não é nada mais que um verdadeiro julgamento sobre as coisas humanas e divinas. É esta transformação interior –  baseada nos princípios estoicos essenciais da razão, coragem, justiça e sujeição à vontade de Deus – que torna possível viver feliz em meio à inevitável decadência e agitação do mundo.

Assim, “envoltos pela névoa e pelas nuvens da opinião” (I.2), nunca devemos parar de tentar dominar, pela razão, nossas paixões e emoções (adfectus) – desejo, alegria, medo e dor (cupiditas, gaudium, metus e dolor) – e nossas falsas opiniões. As emoções não apenas perturbam o equilíbrio da alma e impedem a constância, elas são falsas e perigosas, pois podem perturbar o desapego necessário ao homem sábio. Consequentemente, é necessário “acirrar nossa mente e temperá-la de modo que possamos alcançar a paz em meio à agitação e a tranquilidade em meio ao conflito (I.1). Se a razão, a governante legítima de nossa mente, puder vencer nossas paixões e falsas opiniões, poderemos enfrentar o mal público e privado com verdadeira constância. Devido a três emoções, porém – engano, patriotismo, e piedade pelos infortúnios dos outros – todos nós carregamos a guerra dentro de nós mesmos. Pior ainda, o que nos parece ser uma virtude é na verdade um vício, pois pensar que sofremos por causa do sofrimento de nosso país nos faz sofrer por nós mesmos e por nossa propriedade, enquanto a pena pelo sofrimento dos outros é indigna em um homem sábio. Devemos, portanto, obedecer à prescrição estoica para extirpar todas essas emoções nocivas.

O diálogo entre Lípsio e seu velho amigo Langhe –  lançado no papel de um sábio estoico que havia conseguido o domínio sobre suas emoções pela razão – tem claramente o objetivo de proporcionar aos leitores algo mais simples do que a filosofia contemporânea, que Lípsio criticava por sua sutileza excessiva, e de estabelecer a constância como principal virtude. O Sobre a Constância de Lípsio tem assim um foco diferente do tratado de Sêneca De constantia sapientis (“Sobre a Constância do Sábio“), no qual foi ostensivamente modelado; pois nos capítulos 1a 12 do Livro I Lípsio apresenta a virtude da constância como um remédio para o tumulto dos tempos e exorta os leitores a se distanciarem completamente de todos os sentimentos que poderiam levar a qualquer tipo de envolvimento emocional nas guerras políticas e religiosas que os rodeavam.

No entanto, ele não aconselhou o abandono dos assuntos públicos e a retirada para a vida privada. Estoicos e cristãos eram cosmopolitas, cuja verdadeira pátria era o céu. Eles deveriam ser bons cidadãos para serem bons homens, “executará mais em obras do que em palavras: e estenderá sua mão aos pobres e necessitados, em vez de sua língua. (1.12) e, como tal, render-se ao plano de Deus para a humanidade e ao imutável poder da providência.

Lípsio reformula a apatheia estoica como um antídoto adequado às paixões religiosas e políticas de sua época e transforma a Fortuna estoica na providência divina cristã (ficando o destino subordinado a Deus em vez do contrário).

Embora o livro Sobre a Constância não fosse o tratamento mais sistemático ou teórico da ética estoica de Lípsio, mas sim um texto de filosofia prática, um manual para uma vida sábia, este adquiriu uma posição de destaque no pensamento europeu. Tendo mais de oitenta edições entre os séculos XVI e XVIII, sendo mais de quarenta no latim original e o restante em traduções para uma ampla gama de línguas europeias. O tratado, que incorpora elementos do calvinismo militante juntamente com argumentos sobre o livre arbítrio utilizado pelos jesuítas, tornou-se patrimônio cultural universal durante o período barroco, influenciando a erudição, a poesia e a arte até o Iluminismo.

Resenha: Estoicismo aplicado aos investimentos de Jean Tosetto

Jean Tosetto, em parceria com a Suno Research, lançou esta semana o livro Estoicismo aplicado aos investimentos no qual defende que a ataraxia, estado mental emulado pelos estoicos, beneficia investidores cientes de que a prosperidade vai além do progresso material, lhes provendo maior controle sobre as emoções para lidar com os riscos inerentes da renda variável.

O livro, na verdade um longo artigo, é muito bem escrito e trata um assunto importante sem cair na falha, tão comum atualmente, de confundir o estoicismo como uma “auto ajuda para ficar rico rápido”. Aborda as razões para estudar as finanças e os estoicos, a relação entre o processo de investimento e as emoções e os benefícios do estoicismo para os investidores, sem nunca descuidar do principal ponto, que o dinheiro não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta que pode ser útil para o desenvolvimento pessoal e para se entregar algo de bom para a sociedade.

Trechos:

  • Numa sociedade que cada vez mais estabelece estereótipos para os indivíduos, ao invés de tentar compreender suas idiossincrasias, é comum retratarem estudantes de filosofia como avessos aos assuntos financeiros, ao passo que entusiastas dos investimentos são vistos como pessoas egocêntricas, sem interesse por assuntos fora da esfera monetária – o que é um erro conceitual.
  • Podemos não concordar com alguns aspectos desumanizantes do capitalismo, mas devemos tomar ações para nos proteger das consequências que atingem quem ignora as regras do dinheiro, do qual muitas pessoas são escravas e não donas provisórias. Como poucas coisas no mundo estão mais associadas às emoções do que o dinheiro, estudar filosofia estoica para adquirir autoconhecimento e para controlar minimamente as emoções, se mostra uma atitude bastante sensata.
  • Adotar um comportamento estoico visando apenas o enriquecimento monetário seria um autoengano emocionalmente custoso quando a essência do indivíduo se sobressaísse. Ao contrário, é a prática dos investimentos que pode servir de apoio para um sujeito se desenvolver pessoalmente, através do autoconhecimento patrocinado por uma condição financeira estável e livre das dívidas que escravizam as pessoas.
  • Um estudante de filosofia estoica não deve ser avesso ao capitalismo, mas transitar por ele de modo a extrair de seus mecanismos de criação de riqueza a manifestação de algo bom para a sociedade de sua época.

O pensamento de Jean está em linha com os grandes mestres do estoicismo. Sêneca no livro A Vida Feliz  aborda a relação do dinheiro e virtude:

Ninguém condenou a sabedoria à pobreza. O filósofo pode possuir ampla riqueza, mas não possuirá riqueza que tenha sido arrancada de outro, ou que esteja manchada com o sangue de outra pessoa: ela deve ser obtida sem prejudicar qualquer homem e sem que ela seja obtida por meios vis; deve ser honrosamente acessível e honrosamente gasta.” (XXIII,1)

Se as minhas riquezas me deixarem, não levarão consigo nada além de si mesmas: já vocês ficarão desnorteadas e parecerão ficar fora de si se as perderem: comigo as riquezas ocupam um certo lugar, mas com você elas ocupam lugar mais alto de todos. Em suma, minhas riquezas pertencem a mim, você pertence às suas riquezas.” (XXII, 5)

O Autor palestrou sobre o tema na Stoicon X-Aracaju, evento de filosofia organizado pelo GT Epicteto e pelo grupo Viva Vox, sob a supervisão do Professor Doutor Aldo Dinucci, da Universidade Federal de Sergipe.

Livro disponível na Amazon:

Stoicon-X: Boécio e Justo Lípsio – Conciliando estoicismo e religião

Neste sábado, 20 de novembro acontece o Stoicon-X Aracaju. Irei falar brevemente sobre estoicismo e religião, focando na obra de Boécio e Justo Lípsio.

Boécio (480 a 524 d.C.) foi um filósofo, poeta, estadista e teólogo romano, cujas obras tiveram uma profunda influência na filosofia Patrística e Escolástica. Sua principal obra A Consolação da Filosofia foi escrita na prisão à espera da morte. Trata-se de uma obra-prima da literatura e do pensamento europeu; ela se basta, e teria o mesmo valor se ignorássemos tudo a respeito daquele que a concebeu entre duas sessões de tortura, à espera de sua execução. Contudo, a história pessoal do autor é bem conhecida. Ele foi um homem cuja fortuna se elevou ao mais alto nível possível; mas que experimentou o colapso total dessa fortuna, ficando conhecido por ter se mantido firme na prisão até mesmo sob tortura.

Justus Lipsius ( 1547 – 1606 d.C) foi um filólogo e humanista flamengo considerado um dos eruditos mais famosos do século XVI. Foi autor de uma série de obras que pretendiam recuperar a antiga corrente filosófica do estoicismo num formato compatível com o cristianismo tomando como modelo de partida a obra Sêneca. A mais importante dessas obras foi Sobre a constância. Sua nova forma de estoicismo influenciou grande número de seus contemporâneos intelectuais dando lugar ao movimento conhecido como neoestoicismo.

INSCRIÇÕES GRÁTIS para o Stoicon-X  AQUI

Livros:


Pensamento 87: Mude a si mesmo

“Ontem eu era esperto, então queria mudar o mundo.
Hoje sou sábio, então estou mudando a mim mesmo.”

Rumi

Muda-se o mundo quando você muda a si próprio, e não impondo mudança aos outros.

Maulana Jalaladim Maomé, também conhecido como Rumi de Bactro foi um poeta, jurista e teólogo sufi persa do século XIII.

Suspensão de juízo no estoicismo

No artigo “Como conciliar a suspensão de juízo proposta por Epicteto ao que diz Marco Aurélio em suas Meditações 2.1?” Aldo Dinucci explica o que é “suspensão de juízo” e como conciliar ensinamentos aparentemente contraditórios de Epicteto e Marco Aurélio.

Suspensão de juízo é em resumo entender antes de adjetivar, só dar nossa opinião sobre fatos ou atos depois de entender profundamente seus motivos. Muito relevante nessa época de cancelamentos sumários.

Os atos de julgar e adjetivar, mais uma vez, nos afastam da realidade, razão pela qual nos tornamos incapazes de compreender os demais justamente quando pensamos compreender suas ações. Prova disso é que nos tornamos intolerantes e agressivos com elas.

Artigo publicado originalmente em Estoicismo Artesanal em 29 de outubro de 2021.


Como conciliar a suspensão de juízo proposta por Epicteto ao que diz Marco Aurélio em suas Meditações 2.1?

Aldo Dinucci

Danilo Gavião, que conheci em um grupo de estudos de estoicismo dirigido por Donato Ferrara, me fez uma pergunta relacionada àquela que me foi feita recentemente por Selmo Gliksman, meu colega dos tempos de pós na PUC/RJ, e que respondi em um post anterior

Danilo indaga: Como conciliar a suspensão de juízo proposta por Epicteto ao que diz Marco Aurélio em suas Meditações: 

Marco Aurélio, Meditações, 2.1: Prediga a si mesmo na alvorada: encontrarei um inquisitivo, um ingrato, um insolente, um traiçoeiro, um caluniador, um indivíduo antissocial.  (Tradução: Aldo Dinucci)

Isso parece se contrapôr ao que Epicteto diz no Manual:

Epicteto, Manual, XLV: Alguém se banha de modo apressado: não digas que ele se banha de modo ruim, mas de modo apressado. Alguém bebe muito vinho: não digas que ele bebe de modo ruim, mas muito. Pois, antes que compreendas a opinião [dele], por que pensas que ele o faz de modo ruim? Assim, não te acontecerá, <ao> apreenderes as impressões compreensivas de algumas coisas, dares assentimento a outras. (IN: Epicteto, Manual Edição original de 2007,  Tradução dos originais em grego: Aldo Dinucci) 

Epicteto nos ensina que não devemos qualificar pessoas e suas ações como boas ou más sem sabermos por qual razão agem assim. Isso lembra o que Jesus Cristo teria dito sobre não julgarmos para não sermos julgados, mas em Epicteto o sentido é outro. O que Epicteto está dizendo é que estas palavras ‘bem’ ou ‘mal’ são usadas de forma inapropriada e acabam nos impedindo acesso à realidade (a ‘impressão compreensiva’ que podemos ter das coisas), pois seu uso nos faz crer possuir um conhecimento que efetivamente não temos sobre ações e pessoas.

Assim, o ‘banho ruim’ de alguém pode ser sido feito por uma série de razões que nos escapam e que fariam do banho rápido um ato adequado. Da mesma forma, o ‘beber mal’ pode estar associado da mesma forma a estados mentais de um indivíduo que podem tornar compreensível e justificável o seu modo de beber.

Epicteto está dizendo que usar essas palavras não nos confere nenhum conhecimento sobre a realidade, só evidenciando, de fato, nossa ignorância sobre a ação e a pessoa. Assim, ao invés de usarmos adjetivos tais como ‘bom, ótimo, excelente, péssimo, ruim’ etc, devemos procurar entender o que está acontecendo, descrevendo da melhor forma possível a ação e a pessoa e, ao mesmo tempo, estabelecendo os limites de nosso conhecimento do caso, suspendendo o juízo sobre o que não sabemos. Exemplos:

Fulano banhou-se rápido e saiu. Não compreendo por qual razão ele agiu assim. É possível que estivesse apressado para outro compromisso. 

Fulano bebeu muito na festa de ontem. Estará ele comemorando alguma vitória? Estará ele triste com algum fato? Não sei a razão pela qual ele agiu assim. No momento, só posso fazer conjecturas.  

Isso pode ser aplicado também ao modo como falamos aos nossos alunos sobre seus trabalhos e provas. Ao invés de um mero ‘excelente’, devemos descrever o trabalho e suas qualidades. Exemplo:

Seu trabalho foi escrito de acordo com as normas ortográficas e de forma escorreita, demonstrando conhecimento da linguagem culta. Você tratou o tema com precisão e senso crítico etc.

E o mesmo vale para os defeitos dos trabalhos. Voltemo-nos agora à passagem de Marco, que é um exemplo de praemeditatio malorum, do que falamos no outro post. Marco começa a passagem adjetivando um série de indivíduos que encontraria pela frente durante o seu dia. No entanto, na linha seguinte, ele mesmo rechaça essas adjetivações, afirmando uma causa comum para agirem de modo inadequado:

Marco Aurélio, Meditações, 2.1: Prediga a si mesmo na alvorada: encontrarei um inquisitivo, um ingrato, um insolente, um traiçoeiro, um caluniador, um indivíduo antissocial. Todas essas coisas lhes ocorrem pela ignorância dos bens e dos males. (Tradução: Aldo Dinucci)

Marco, mais à frente, na mesma citação, afirma um preceito básico do estoicismo e do socratismo: a ação inadequada é fruto da ignorância. Para Sócrates e para os estoicos, não há algo como pessoas naturalmente malignas. O que há são pessoas ignorantes ou mentalmente enfermas (os limites entre a loucura epistêmica e a psíquica são, para estoicos, imprecisos, e muitas vezes uma implica a outra):   

Marco Aurélio, Meditações, 2.1: Mas eu teorizei a natureza do bem e do mal… e que a natureza do que erra é da minha mesma estirpe, não segundo o sangue ou o mesmo esperma, mas que partilho o mesmo espírito e a mesma porção divina… Nascemos, pois, para agir conjuntamente como os pés, como as mãos, como as pálpebras… estarmos em conflito uns contra os outros é contra a natureza: entrar em conflito e irritar-se é, portanto,  opôr~se <à natureza>. (Tradução: Aldo Dinucci)

Marco Aurélio, portanto, substitui os adjetivos que usara no princípio de sua reflexão pela compreensão de que tais pessoas agem inadequadamente por ignorância. E acrescenta que, na verdade, os que erram são de nossa mesma estirpe, razão pela qual devemos não nos opor a eles, mas tentar colaborar com eles apesar dos defeitos que venham a ter.

O movimento, aqui, é essencialmente o mesmo que vemos no Manual de Epicteto: partimos de adjetivações que pretendem descrever a realidade, mas que só escondem nossa incompreensão dos fatos, das ações e das pessoas, nos afastando e nos pondo em oposição a elas, e rumamos para uma compreensão real das pessoas e de seus possíveis erros, não mais nos opondo ou julgando, mas, através de uma atitude verdadeiramente compreensiva, buscando agir conjuntamente com elas.

Os atos de julgar e adjetivar, mais uma vez, nos afastam da realidade, razão pela qual nos tornamos incapazes de compreender os demais justamente quando pensamos compreender suas ações. Prova disso é que nos tornamos intolerantes e agressivos com elas. Pois se os compreendêssemos realmente, jamais o seríamos.

Aldo Dinucci

Foto de Anastasia Zhenina no Pexels

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Estocismo no O Globo: O Sábio se basta

O caderno de Cultura do O Globo do último domingo, 03 de outubro, traz uma coluna de Caca Diegues comentando a Carta 9 de Sêneca. O título é “O sábio se basta“, frase tirada do texto do filósofo.

O artigo começa bem e apresenta uma boa interpretação do pensamento de Sêneca, mas termina choramingando por “apoio” do governo. O cineasta não entendeu, ainda acha que precisa de dinheiro tirado dos mais pobres. Continua na “mera existência”, como diria Sêneca:


O homem sábio se basta. Essa frase, meu caro Lucílio, é incorretamente explicada por muitos porque eles retiram o homem sábio do mundo e forçam-no a habitar dentro de sua própria pele. Mas devemos marcar com cuidado o que significa essa sentença e até onde ela se aplica. O homem sábio se basta para uma existência feliz, mas não para a mera existência. Pois ele precisa de muita assistência para a mera existência, mas para uma existência feliz ele precisa apenas de uma alma sã e reta, que menospreze a fortuna.” (Carta 9, §13)

Texto completo da Carta 9 aqui.

Carnuntum 2021: Festival da antiguidade tardia

A 60km de Viena estão as ruínas da antiga cidade romana de Carnuntum. Lá o imperador Marco Aurélio escreveu o segundo livro suas meditações.

Reconstruíram uma parte das ruínas, para mostrar como eram as construções da época. Semana passada houve uma encenação do cotidiano da época do fim do império Romano. Para aqueles que tiverem oportunidade de vir a Viena, vale muito a pena uma visita.

Abaixo texto completo das Meditações de Marco Aurélio escrito na cidade.

Gosto especialmente do trecho sobre autoconhecimento:

O fracasso em observar o que está na mente de outro raramente fez um homem infeliz; mas aqueles que não observam os movimentos de suas próprias mentes devem ser necessariamente infelizes.

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LIVRO II

1. Comece a manhã dizendo a si mesmo, eu me encontrarei com o intrometido, o ingrato, arrogante, enganador, invejoso, anti-social. Tudo isso acontece com eles por causa de sua ignorância do que é bom e mau. Mas eu, que vi a natureza do bem que é belo, e do mal que é feio, e a natureza do que é maligno, que é semelhante a mim; não [só] do mesmo sangue ou semente, mas que participa da [mesma] inteligência e [mesma] parte da divindade, não posso ser ferido por nenhum deles, pois ninguém pode prender em mim o mal, nem posso ficar bravo com meu próximo, nem o odiar. Porque somos feitos para a cooperação, assim como pés, como mãos, como pálpebras, como as linhas dos dentes superiores e inferiores[1]. Agir uns contra os outros, portanto, é contrário à natureza; e agir uns contra os outros é importunar-se e desviar-se.

2. O que quer que eu seja, eu sou um pouco de carne, sopro de vida[2] e a parte que reina. Jogue fora os seus livros; não se distraia mais; isso não é permitido; mas, como se estivesse agora morrendo, despreze a carne; é sangue, ossos e tecido, uma conjuntura de nervos, veias e artérias. Veja também o sopro, que tipo de coisa é; ar, e nem sempre o mesmo, mas cada momento emitido e novamente aspirado. O terceiro, então, é a parte que rege; considere assim: Você é um homem de idade; não mais deixe que isso seja escravizador, não mais seja puxado pelas linhas como um fantoche para movimentos anti-sociais, não fique mais insatisfeito com sua sorte atual, ou hesite com o futuro.

3. Tudo o que vem dos deuses está cheio de providência. O que é da fortuna não está separado da natureza ou sem interligação e inflexão com as coisas que são ordenadas pela providência. De lá todas as coisas fluem; e há além da necessidade, e aquilo que é para a vantagem de todo o universo, do qual você é uma parte. Mas isso é bom para cada parte da natureza que a natureza do todo traz, e o que serve para sustentar esta natureza. Agora o universo é preservado, assim como pelas mudanças dos elementos, assim como pelas mudanças das coisas compostas dos elementos. Que estes princípios sejam suficientes para você; que sejam sempre opiniões firmes. Mas rejeite a sede dos livros, para que não morra murmurando, mas alegremente, verdadeiramente, e de coração seja grato aos deuses.

4. Lembre-se de quanto tempo você tem postergado estas coisas, e quantas vezes você tem recebido uma oportunidade dos deuses, e ainda assim não a tem usado. Você deve agora finalmente perceber de que universo você é uma parte, e de que mestre do universo sua existência é um efluxo, e que um limite de tempo foi fixado para você, que se você não o usar para limpar as nuvens de seu espírito, ele vai, e você vai, e ele nunca mais voltará.

5. Cada momento pense firmemente como um romano e homem para fazer o que você tem em mãos com perfeita e simples dignidade, e sentimento de afeto, e liberdade, e justiça, e para dar a si mesmo o descanso de todos os outros pensamentos. E você se aliviará se fizer cada ato de sua vida como se fosse o último, deixando de lado todo descuido e aversão passional aos mandamentos da razão, e toda hipocrisia, egoismo e insatisfação com a parte que foi dada a você. Você vê quão poucas são as coisas às quais um homem precisa seguir para ser capaz de viver uma vida que flui em tranquilidade como a dos deuses; pois os deuses por sua parte não exigirão nada mais daquele que observa essas coisas.

6. Faça mal a você mesma, faz mal a você mesma, minha alma, mas não terá mais a oportunidade de honrar-se a si mesma[3]. A vida de cada homem é suficiente.  † Mas a sua está quase terminada, embora a sua alma não reverencie a si mesma, mas coloque a sua felicidade nas almas dos outros.

7. As coisas externas que recaem sobre você o distraem? Dê a si mesmo tempo para aprender algo novo e bom, e deixe de ser rodopiado como um pião. Mas então você também deve evitar ser levado para o outro lado; pois esses também são insignificantes que se cansaram na vida pela sua atividade, e ainda não têm nenhum objeto ao qual dirigir cada um dos seus passos, e, em uma palavra, todos os seus pensamentos.

8. O fracasso em observar o que está na mente de outro raramente fez um homem infeliz; mas aqueles que não observam os movimentos de suas próprias mentes devem ser necessariamente infelizes.

9. Isto você deve sempre ter em mente, qual é a natureza do todo, e qual é a minha natureza, e como isto está relacionado com aquilo, e que tipo de parte é de que tipo de todo, e que não há ninguém que o impeça de sempre fazer e dizer as coisas que são de acordo com a natureza da qual você é uma parte.

10. Teofrasto[4], em sua comparação de maus feitos —  uma comparação como se faria de acordo com as noções comuns da humanidade —  diz, como um verdadeiro filósofo, que as ofensas que são cometidas pelo desejo são mais culpáveis do que aquelas que são cometidas pela ira. Pois aquele que se excita com a ira parece afastar-se da razão com uma certa dor e contração inconsciente; mas aquele que ofende pelo prazer, sendo dominado pelo prazer, parece estar de uma maneira mais desmedida e mais feminina em suas ofensas. Com razão, então, e de uma forma digna de filosofia, ele disse que a ofensa que é cometida por prazer é mais censurável do que aquela que é cometida pela dor, e no conjunto, uma é mais como uma pessoa que foi injustiçada primeiro e através da dor é compelida a ficar irritada, mas a outra é movida pelo seu próprio impulso de fazer o mal, sendo levada a fazer algo pelo prazer.

11. Uma vez que é possível que se retire da vida neste exato momento[5], controle todos os atos e pensamentos em concordância[6]. Mas sair do meio dos homens, se há deuses, não é uma coisa a temer, pois os deuses não o envolverão no mal; mas se realmente não existem, ou se eles não têm preocupação com assuntos humanos, o que é para mim viver em um universo sem deuses ou sem providência? Mas na verdade eles existem, e eles se importam com as coisas humanas, e eles puseram todos os recursos ao alcance do homem para capacitá-lo a não cair em males reais. E, quanto ao resto, se existisse algo de mal, eles teriam providenciado para que isso também estivesse totalmente no poder de um homem de não cair nele. Agora, o que não torna um homem pior, como pode piorar a vida de um homem? Mas nem por ignorância, nem tendo o conhecimento, mas não o poder de proteger contra ou corrigir essas coisas, é possível que a natureza do universo tenha negligenciado essas coisas, nem é possível que ela tenha cometido um erro tão grande, seja por falta de poder ou falta de habilidade, que o bem e o mal devem ocorrer indiscriminadamente para o bom e o mau. Mas a morte certamente, e a vida, a honra e a desonra, a dor e o prazer, todas essas coisas acontecem igualmente aos homens bons e maus, sendo coisas que não nos tornam nem melhores nem piores. Portanto, não são nem boas nem ruins.

12. Quão rapidamente todas as coisas desaparecem, no universo os próprios corpos, mas com o tempo a lembrança deles. Qual é a natureza de todas as coisas sensatas, e particularmente aquelas que atraem com a sedução do prazer ou aterrorizam pela dor, ou são apregoadas pela fama vaporosa; quão sem valor, e desprezíveis, e sórdidas, e perecíveis, e mortas elas estão, tudo isso é parte da faculdade intelectual de observação. Observe também de quem são essas opiniões e vozes, o que é a morte, e o fato de que, se o ser humano olhar para ela em si mesmo, e pela força abstrata da reflexão determinar em suas partes todas as coisas que nela se apresentam à imaginação, então a considerará como nada mais que uma atividade da natureza; e se alguém tiver medo de uma atividade da natureza, será uma criança. No entanto, essa não é apenas uma atividade da natureza, mas é também uma coisa que conduz aos propósitos da natureza. Observe também como o homem se aproxima da Divindade…[7]

13. Nada é mais miserável do que um homem que atravessa tudo em círculos e se empenha nas coisas debaixo da terra, como diz o poeta[8], e procura por conjectura o que está na mente de seus semelhantes, sem perceber que basta cuidar do daemon[9] dentro dele, e reverenciá-lo sinceramente. E a reverência do daemon consiste em mantê-lo livre de paixão e inconsciência, e de insatisfação com o que vem dos deuses e dos homens. Pois as coisas dos deuses merecem veneração por sua excelência; e as coisas dos homens devem ser-nos queridas em razão do parentesco; e às vezes até, de certo modo, elas despertam nossa piedade em razão da ignorância dos homens do bem e do mal; sendo este defeito não menos do que a cegueira que nos priva do poder de distinguir as coisas brancas e negras.

14. Ainda que você vá viver três mil anos, e tantas vezes dez mil anos, lembre-se ainda que nenhum homem perde outra vida além da que agora vive, nem outra vida além da que agora perde. O mais longo e o mais curto são assim levados ao mesmo. Porque o presente é o mesmo para todos, embora o que perece não seja o mesmo; e assim o que está perdido parece ser um mero momento. Pois um homem não pode perder nem o passado nem o futuro: pois aquilo que um homem não tem, como pode alguém tirar-lho? Estas duas coisas, então, você deve ter em mente: a primeira, que todas as coisas desde a eternidade são de semelhantes formas e vêm em círculos, e que não faz diferença se um homem deve ver as mesmas coisas durante cem anos, ou duzentos, ou um tempo infinito; e a segunda, que o que tem maior longevidade e aquele que vai morrer logo perderão exatamente a mesma coisa. Porque o presente é a única coisa de que um homem pode ser privado, se é verdade que isto é a única coisa […].

15. Lembre-se que tudo é opinião. Pois o que foi dito pelo cínico Mônimo[10] é evidente: e também evidente é a utilidade do que foi dito, se um homem se apropria do essencial.

16. A alma do homem comete atos de violência contra si mesma, antes de mais nada, quando se torna um tumor e, por assim dizer, uma excrescência no universo. Pois ser incomodado com tudo o que acontece é uma dissociação de nós mesmos da natureza, em alguma parte da qual estão contidas as naturezas de todas as outras coisas. Em segundo lugar, a alma violenta-se a si mesma quando se afasta de qualquer ser humano, ou mesmo se dirige a ele com a intenção de ferir, como o são as almas dos que se enfurecem. Em terceiro lugar, a alma comete violência a si mesma quando é dominada pelo prazer ou pela dor. Em quarto lugar, quando ela desempenha um papel, e faz ou diz qualquer coisa dissimulada e indisciplinada. Em quinto lugar, quando permite que qualquer ato próprio e qualquer ação seja sem finalidade, e faz qualquer coisa sem pensar e sem considerar o que é, sendo certo que mesmo as menores coisas sejam feitas com referência a um fim; e a finalidade das criaturas racionais é seguir a razão e a lei mais venerada.

17. Da vida humana o tempo é um ponto, e a substância está em fluxo, e a percepção difícil, e a composição do corpo como um todo sujeita à putrefação, e a alma um turbilhão, e a fortuna difícil de ser revelada, e a fama uma coisa sem discernimento. E, para dizer tudo em uma palavra, tudo o que pertence ao corpo é uma torrente, e o que pertence à alma é um sonho e um vapor, e a vida é uma guerra e uma viagem ao estrangeiro, e depois da fama está o esquecimento. O que é então aquilo que é capaz de conduzir um homem? Uma coisa, e só uma, é a filosofia. Mas isto consiste em manter o daemon, dentro de um homem livre de violência e ileso, superior às dores e prazeres, não fazendo nada sem um propósito, nem ainda falsamente e com hipocrisia, não sentindo a necessidade de outro homem fazer ou não fazer nada; e além disso, aceitando tudo o que acontece, e tudo o que lhe é atribuído, como vindo de lá, de onde quer que esteja, de onde ele mesmo veio; e, finalmente, esperando a morte com uma mente alegre, como sendo nada mais que uma dissolução dos elementos de que todo ser vivo é composto. Mas, se não há malefício para os próprios elementos em cada um deles, que se transformam continuamente em outros, por que haveria o ser humano de ter qualquer receio da mudança e da dissolução de todos os elementos? Pois isso está de acordo com a natureza, e nada existe de mal que esteja de acordo com a natureza.

Isso foi escrito em Carnuntum[11].


[1] Xenofonte, Memorabilia. Livro II. 3, 18

[2] Pneuma: na filosofia estoica é o conceito de “sopro de vida”, uma mistura dos elementos ar (em movimento) e fogo (como calor).

[3] Talvez devesse ser: “Estás a fazer violência a ti mesmo“. ὑβρίζείς

[4]Teofrasto (Eresos, 372 a.C. — 287 a.C.) foi um filósofo da Grécia Antiga, sucessor de Aristóteles na escola peripatética. Era oriundo de Eressos, em Lesbos, seu nome original era Tirtamo, mas ficou conhecido pela alcunha de ‘Teofrasto’, que lhe foi dada por Aristóteles, segundo se diz, para indicar as qualidades de orador.

[5]Ou pode significar, “uma vez que está em seu poder partir;” o que dá um significado um pouco diferente.

[6]Ver Cícero, Discussões Tusculanas, I, 49.

[7]Trecho não disponível.  Ver também Livro VI. 28.

[8]Píndaro também conhecido como Píndaro de Cinoscefale ou Píndaro de Beozia, foi um poeta grego, autor de Epinícios ou Odes Triunfais.  Veja em Teeteto de Platão, XI,1.

[9]Daemon (em grego δαίμων, transliteração daímôn)  tradução “divindade”, “espírito”, no plural daemones. A palavra daímôn se originou com os gregos na Antiguidade; no entanto, ao longo da História, surgiram diversas descrições para esses seres. O nome em latim é daemon, que veio a dar o vocábulo em português demônio. A palavra grega que designa o fenômeno da felicidade é Eudaimonia (εὐδαιμονία). Ser feliz para os gregos é viver sob a influência de um bom daemon. Assim é a forma como Sócrates se refere a seu daemon.

[10] Mônimo de Siracusa foi um filósofo cínico de Siracusa. De acordo com Diógenes Laércio, Mônimo foi escravo de um cambista de coríntio. A fim de que pudesse se tornar um aluno de Diógenes, Mônimo fingiu ter enlouquecido e começou a atirar dinheiro para a rua até que seu senhor o descartou.

[11] Carnuntum era uma cidade de Panónia, no lado sul do Danúbio, a cerca de trinta milhas a leste de Vindobona (atual Viena).

Como lidar com as ofensas: uma lição estoica

Por Aryane Raysa Araújo dos Santos [1]

A maioria das pessoas, em maior ou menor grau, já foram vítimas de fofocas ou de algum comentário ofensivo ao longo da vida. Normalmente a reação emocional é imediata, e a forma geralmente utilizada para lidar com esses comportamentos é reagir com raiva, frustração e agressividade. É inegável que esse modo de lidar com as ofensas causa um sofrimento imensurável. Diante disso, é necessário encontrar uma forma distinta de encarar esses acontecimentos.

Um autor que tem muito a nos dizer a respeito do modo como devemos lidar com as ofensas é o filósofo estoico Sêneca, que pertence ao estoicismo romano da Era Imperial (I e II d.C). Sêneca tratou extensivamente das questões referentes ao modo de lidar com as injúrias. Na obra Sobre a firmeza do homem sábio, podemos extrair diversas lições acerca desse tema. O filósofo romano afirma que as injúrias vêm das pessoas más, considerando que pessoas boas vivem em paz e não se ocupam em destilar maldade nos outros indivíduos. Ademais, Sêneca acrescenta que a maior parte das calúnias são feitas por insolentes, arrogantes e por aqueles que não suportam a felicidade alheia.

É imprescindível observarmos os indivíduos que nos cercam, pois falar mal das outras pessoas é um traço forte dos indivíduos viciosos. Por isso, Sêneca nos aconselha a fugir das multidões. Para o filósofo estoico, é perigoso o convívio com muita gente, pois é muito fácil nos contagiarmos pelos vícios se andarmos na companhia de pessoas viciosas. No que se refere às amizades, devemos ter o trabalho de escolher os menos maculados. Sêneca nos diz que “nada, pois, é mais proveitoso a uma alma do que uma amizade fiel e doce. Quão bom é encontrar corações preparados para guardar todo segredo. Tu temes menos a consciência deles que a tua própria[2].

Assim, Sêneca nos indica que o melhor modo de encarar as injúrias é ignorá-las. Mas, ele assegura que isso não é uma tarefa fácil; por isso só o sábio – aquele que está isento de todas as paixões – é capaz de nunca se afetar com nenhuma ofensa. Normalmente, as pessoas comuns ao terem conhecimento das ofensas proferidas são tomadas pela ira e, consequentemente, são impulsionadas a ter ódio do ofensor e às vezes até a afrontá-lo. Na obra Sobre a ira, Sêneca nos diz que o melhor remédio para a raiva sempre é o adiamento. Por isso é necessário ponderar e esperar até que o sentimento de raiva seja amenizado, para posteriormente refletir sobre as circunstâncias do acontecimento.

Sêneca afirma que, entre as coisas que nos ofendem, existem aquelas que nós vemos e as que nos foram relatadas. Em relação às que nos foram relatadas, ele nos aconselha que “sempre se deve aguardar: o passar do tempo nos revela a verdade. Não sejam os nossos ouvidos fáceis as acusações. Suspeitemos e estejamos cientes desse vício da natureza humana[3].  Quanto às que nós vemos, devemos ignorá-las. Sêneca assegura que quem conhece a si mesmo não se ofende com o indivíduo que proferiu a calúnia. Em outras palavras, se formos injustamente acusados de algo que não cometemos, não devemos nos sentir enraivecidos, podemos apenas constatar que certamente a acusação não tem a ver com a pessoa que recebeu a ofensa, mas com quem a proferiu.  Existe a possibilidade de que alguém faça uma injúria e, no entanto, o indivíduo que foi caluniado não seja vítima dela, pois se a pessoa tem plena consciência do que ela é, não deve se afetar pelas falsas acusações. O importante é que essa circunstância torna claro a má intenção do caluniador, mesmo que ele não consiga causar nenhum dano à pessoa que foi caluniada.A esse respeito, Sêneca destaca no seu Tratado sobre a clemência que “Ninguém pode usar uma máscara por muito tempo: o fingimento retorna rápido à sua própria natureza[4]; isto é, o lado ruim e bestial de uma pessoa não pode permanecer escondido por muito tempo, pois a máscara termina um dia por cair.

A preocupação de Sêneca não era, tão somente, apontar o modo como lidar com as injúrias, mas apresentar os exemplos de homens que encararam com grandeza de alma todo tipo de ofensas. Ao longo das suas obras, as figuras exemplares são um recurso muito utilizado, os exempla são pessoas que não se abalaram frente a todo tipo de ofensas, e podem ser fonte de inspiração para que possamos alcançar um nível de tranquilidade de alma capaz de nos afetarmos minimamente frente às injúrias. Sócrates é o modelo de homem sábio para a escola estoica. Por isso é comumente citado como um indivíduo que alcançou uma firmeza de alma capaz de não se deixar afetar por nenhuma injúria. Segundo Sêneca, uma vez Sócrates proferiu as seguintes palavras: “prometi a mim mesmo com mais firmeza do que não submeter os atos de minha vida à opinião alheia. Joguem sobre mim suas duras palavras. Não pensarei estar sendo injuriado”.[5]  Em uma outra passagem, na obra Sobre a firmeza do homem sábio, Sêneca narra um episódio de Catão, outra figura exemplar: “Catão, quando lhe bateram no rosto: não ardeu de raiva, não se vingou, nem sequer a desculpou, porém disse que não havia feita. Uma maior grandeza de espírito constitui em ignorar do que perdoar[6]. Alcançar esse grau de sabedoria é uma tarefa árdua. Talvez a maior parte dos homens jamais alcançaram esse nível de firmeza de alma. Mas esses exemplos podem servir de inspiração para todos nós, pois eles indicam o caminho para quem quer guiar-se pela sabedoria estoica.

Sêneca não entendia a filosofia como uma teoria desligada da realidade, esta por sua vez só faz sentido se puder modificar a conduta dos homens. Nesse sentido, os ensinamentos do filósofo estoico devem ser praticados no cotidiano, para que os vícios possam se transformar em virtudes por meio do hábito. A grande lição que Sêneca nos oferece é que a vontade(querer)é suficiente para que possamos nos tornar pessoas melhores; não nos afetando pelas injúrias e não revidando, certamente nos aproximaremos da verdadeira virtude. Mais do que isso, Sêneca nos ensina que qualquer pessoa pode alcançar um estado de tranquilidade que o torne indiferente frente às fofocas, provocações e insultos.


Obras citadas:


[1] Mestre em filosofia pela Universidade federal do Piauí. Aryane pode ser contatada no email: raysa17@ufpi.edu.br

[2] Sobre a tranquilidade da alma. Livro VII,7,3

[3] Sobre a Ira, Livro II, 20.

[4] Tratado sobre a clemência, L.I,c.I.

[5] Da felicidade, XXVI

[6] Sobre a firmeza do homem sábio,14.3

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Imagem: Pollice Verso de Jean-Leon Gerome

RedPill, Anti-feminismo e Estoicismo

No artigo “Guerreiros estoicos, Red Pill, Resiliência e Juventude Abandonada” Aldo Dinucci explica o movimento RedPill e sua tentativa de associação com o estoicismo, mostrando os equívocos de tal ligação e abordando hipóteses de sua origem.

Artigo publicado originalmente em Estoicismo Artesanal em 12 de junho de 2021.


Guerreiros estoicos, Red Pill, Resiliência e Juventude Abandonada

Todos já devem ter ouvido falar do Red Pill, que é um grupo de homens jovens que lançam mão de estoicismo, entre outras filosofias antigas e modernas, com uma visão bastante negativa do feminismo e dividindo os homens (sexo masculino) em dois grupos principais, os alfas e os betas. Os alfas seriam aqueles com os quais todas as mulheres gostariam de relações sexuais. Os betas, entre os quais esses rapazes se incluem, seriam desprovidos de tal encanto sexual, e as mulheres os buscariam somente por interesse financeiro. Donde concluem que os beta devem seguir um caminho solitário, que a relação com as mulheres não é lucrativa nem benéfica sob nenhum aspecto. Isso é, claro, uma simplificação do que pensam (há canais inteiros no Youtube consagrados ao tema).

Esse pessoal costuma também associar ao estoicismo uma certa ideia de Guerreiro Estoico. Seus vídeos, em geral, têm, ao fundo, músicas de guerra e cenas de filmes sobre os romanos (gostam muito do filme Gladiador). 

Seguindo a onda popular de retomada do estoicismo, enfatizam palavras como resiliência, perseverança.

Já li algumas matérias condenando-os moralmente. Não é o caminho que seguirei aqui. Fiel a Epicteto (Manual, capítulo 45), que nos alerta quanto a emitir juízos de valor sem esforço prévio de compreensão, procurarei lançar alguma luz sobre as condições sociais que levariam à gênese e à proliferação de tais ideários. É claro, o texto é apenas um esboço que representa meu esforço inicial de tentar compreender tal fenômeno. 

Primeiro, entendo que a vida não é nada fácil para a juventude atual: falta de empregos formais (quantos não são os entregadores de comida, os motoristas de Uber), condições terríveis de vida para os pobres (sem saneamento básico, sem lazer, sem educação, sem saúde, sem perspectiva), condições de isolamento para os mais abastados. 

Não é difícil imaginar por qual razão um jovem pobre de periferia se sentiria um beta: na TV e na tela do computador veem os corpos esculturais de mulheres consideradas super-atraentes. Veem também os milionários, com seus super-carros e lanchas, acompanhados sempre de mulheres como aquelas. Os jovens dos condomínios de classe média, por outro lado, têm acesso à mesma realidade virtual. Ambos os grupos não se sentem à altura de se engajarem em uma relação amorosa correspondida, seja com as mulheres idealizadas pela mídia, seja com as que espelham essas idealizações da sociedade de consumo. Assim, saindo à rua e tendo na memória a lembrança das imagens do mundo virtual, não é difícil que um destes conclua que ‘Não sou nada, Jamais serei nada, Não posso sonhar em ser nada’. E efetivamente é esta a mensagem que veiculam em muitos de seus vídeos.

É óbvio que nada disso tem relação essencial com o estoicismo antigo. Epicteto, por exemplo, deixa bem claro que somos filhos de Zeus, que somos parte crucial do Cosmos (Diatribe 1.3). 

Além disso, Musônio, em sua diatribe sobre o casamento, nos diz que homem e mulher devem compor uma unidade, que o ideal da relação amorosa é a amizade entre ambos, que cada um deve velar pela felicidade do outro. 

Quanto à vida militar, os estoicos eram, via de regra,  professores e intelectuais. Tirando Flávio Arriano e Marco Aurélio, não me lembro de outros que tenham ingressado nesta carreira. Flávio comandou legiões para defender as fronteiras romanas contra os alanos em uma situação específica, mas dedicou-se intensamente à literatura e à política. Marco defendeu as margens do Danúbio contra uma multidão de invasores e nunca escondeu de ninguém que gostaria, na verdade, de estar estudando filosofia (como o fez em Atenas) ao invés de guerrear.

Musônio Rufo, por outro lado, tentou deter as tropas de Marco Antonio Primo, que invadiam Roma em 20 de dezembro de 69. 

Mesmo nosso estoico contemporâneo, Stockdale, militar de profissão, se anunciava como filósofo,  e sua grande missão como guerreiro foi coordenar uma resistência pacífica em sua prisão de sete anos e meio no Vietnã.

Vem-nos à memória a metáfora  da missão militar a que Sócrates se refere na Apologia de Platão, que, da mesma forma que ele cumpriria a ordem do estratego em uma batalha, ele não abandonaria sua missão de filósofo. Sócrates foi um grande guerreiro. E Xenofonte também. Mas ambos se apresentavam como filósofos em primeiro lugar.

Este endeusamento do militarismo e da guerra de hoje parece corresponder mais uma vez à triste realidade dos jovens que vivem diante da tela de computadores. Como sabem os que têm um pouco de experiência em conflitos bélicos, não há nada de bom em uma guerra. Meu avô que o diga, que, tendo lutado na maldita guerra dos italianos contra os abissínios, teve, por seus traumas adquiridos em campo de batalha, pesadelos terríveis até o fim da vida. E ele teve sorte, pois não foi ferido, não perdeu algum de seus membros ou a visão, nem algum de seus familiares. Mas o que viu lhe bastou. Fugiu com a minha avó para o Brasil em 39, razão pela qual acabei por nascer no Brasil. Guerras são como operações cardíacas, só devem ser feitas por necessidade. Não são atraentes senão pelas lentes de Hollywood, que, propagando sem cessar a ideia de que a visão do sangue derramado de pessoas sendo estraçalhadas por armas de fogo é não só tolerável, mas um espetáculo belo e moralmente edificante, nos vende o belicismo norte-americano  há décadas. 

Essa triste realidade também explica o afastamento das mulheres. Quando eu era criança, tínhamos, por exemplo, os encontros de jovens católicos, que resultavam em ótima oportunidades para flertes e conversas fora do ambiente escolar. Havia também as colônias de férias do SESC e os bailes de matinês. E, hoje, o que há, no Brasil, para que os jovens com menos de 18 anos possam se encontrar em um ambiente minimamente seguro? 

Além disso, todos nós nos exercitávamos bastante ao ar livre, jogando bola, fazendo caminhadas, razão pela qual éramos bem mais confiantes para interações românticas com jovens de nossa idade. E qual espaço há para os jovens praticarem esportes hoje em dia?

Nos dias de hoje, as periferias foram declaradas oficialmente zonas de guerra. E os jovens abastados vivem literalmente encarcerados, em condomínios, diante dos já mencionados computadores.

Por fim, uma realidade tão dura explica também a ênfase na resiliência. Os estoicos eram (ao contrário da crença comum que hoje se tem) joviais e alegres. Segundo consta, Crisipo morreu de rir. Há inúmeras tiradas de humor em Epicteto. Sêneca escreveu o texto mais cômico que li em minha vida: A ascensão do Cabeça de Abóbora (Apokolokintosis), obra na qual satiriza implacavelmente o então recém-falecido imperador Cláudio. Isso sem mencionar o humor que perpassa muitas das cartas a Lucílio. E a razão do humor deles era evidente: experienciavam a paz interior, razão pela qual Epicteto dizia que o sábio atravessa as dificuldades como se não fossem dificuldades. 

Enfim, há, claro, no estoicismo, recomendações de como suportar as dificuldades, e essa não  é parte desprezível de seu pensamento. Eu mesmo me beneficiei muito disso, como evidencio na introdução de minha seleção de cartas de Sêneca a Lucílio

Essas breves reflexões lançam, ao menos para mim, alguma luz sobre a ascensão dos ideários mencionados, embora obviamente não os justifiquem. Entretanto, a partir do que foi dito, penso que as autoridades (políticos, pais, educadores, meios de comunicação etc.) deveriam começar a pensar em como tornar a vida de nossos jovens mais saudável e menos desgraçada. A vida deles não tem que ser uma guerra. Uma vida com saúde, lazer, educação, infraestrutura e interação saudável entre os jovens é possível. Ainda é possível.