RedPill, Anti-feminismo e Estoicismo

No artigo “Guerreiros estoicos, Red Pill, Resiliência e Juventude Abandonada” Aldo Dinucci explica o movimento RedPill e sua tentativa de associação com o estoicismo, mostrando os equívocos de tal ligação e abordando hipóteses de sua origem.

Artigo publicado originalmente em Estoicismo Artesanal em 12 de junho de 2021.


Guerreiros estoicos, Red Pill, Resiliência e Juventude Abandonada

Todos já devem ter ouvido falar do Red Pill, que é um grupo de homens jovens que lançam mão de estoicismo, entre outras filosofias antigas e modernas, com uma visão bastante negativa do feminismo e dividindo os homens (sexo masculino) em dois grupos principais, os alfas e os betas. Os alfas seriam aqueles com os quais todas as mulheres gostariam de relações sexuais. Os betas, entre os quais esses rapazes se incluem, seriam desprovidos de tal encanto sexual, e as mulheres os buscariam somente por interesse financeiro. Donde concluem que os beta devem seguir um caminho solitário, que a relação com as mulheres não é lucrativa nem benéfica sob nenhum aspecto. Isso é, claro, uma simplificação do que pensam (há canais inteiros no Youtube consagrados ao tema).

Esse pessoal costuma também associar ao estoicismo uma certa ideia de Guerreiro Estoico. Seus vídeos, em geral, têm, ao fundo, músicas de guerra e cenas de filmes sobre os romanos (gostam muito do filme Gladiador). 

Seguindo a onda popular de retomada do estoicismo, enfatizam palavras como resiliência, perseverança.

Já li algumas matérias condenando-os moralmente. Não é o caminho que seguirei aqui. Fiel a Epicteto (Manual, capítulo 45), que nos alerta quanto a emitir juízos de valor sem esforço prévio de compreensão, procurarei lançar alguma luz sobre as condições sociais que levariam à gênese e à proliferação de tais ideários. É claro, o texto é apenas um esboço que representa meu esforço inicial de tentar compreender tal fenômeno. 

Primeiro, entendo que a vida não é nada fácil para a juventude atual: falta de empregos formais (quantos não são os entregadores de comida, os motoristas de Uber), condições terríveis de vida para os pobres (sem saneamento básico, sem lazer, sem educação, sem saúde, sem perspectiva), condições de isolamento para os mais abastados. 

Não é difícil imaginar por qual razão um jovem pobre de periferia se sentiria um beta: na TV e na tela do computador veem os corpos esculturais de mulheres consideradas super-atraentes. Veem também os milionários, com seus super-carros e lanchas, acompanhados sempre de mulheres como aquelas. Os jovens dos condomínios de classe média, por outro lado, têm acesso à mesma realidade virtual. Ambos os grupos não se sentem à altura de se engajarem em uma relação amorosa correspondida, seja com as mulheres idealizadas pela mídia, seja com as que espelham essas idealizações da sociedade de consumo. Assim, saindo à rua e tendo na memória a lembrança das imagens do mundo virtual, não é difícil que um destes conclua que ‘Não sou nada, Jamais serei nada, Não posso sonhar em ser nada’. E efetivamente é esta a mensagem que veiculam em muitos de seus vídeos.

É óbvio que nada disso tem relação essencial com o estoicismo antigo. Epicteto, por exemplo, deixa bem claro que somos filhos de Zeus, que somos parte crucial do Cosmos (Diatribe 1.3). 

Além disso, Musônio, em sua diatribe sobre o casamento, nos diz que homem e mulher devem compor uma unidade, que o ideal da relação amorosa é a amizade entre ambos, que cada um deve velar pela felicidade do outro. 

Quanto à vida militar, os estoicos eram, via de regra,  professores e intelectuais. Tirando Flávio Arriano e Marco Aurélio, não me lembro de outros que tenham ingressado nesta carreira. Flávio comandou legiões para defender as fronteiras romanas contra os alanos em uma situação específica, mas dedicou-se intensamente à literatura e à política. Marco defendeu as margens do Danúbio contra uma multidão de invasores e nunca escondeu de ninguém que gostaria, na verdade, de estar estudando filosofia (como o fez em Atenas) ao invés de guerrear.

Musônio Rufo, por outro lado, tentou deter as tropas de Marco Antonio Primo, que invadiam Roma em 20 de dezembro de 69. 

Mesmo nosso estoico contemporâneo, Stockdale, militar de profissão, se anunciava como filósofo,  e sua grande missão como guerreiro foi coordenar uma resistência pacífica em sua prisão de sete anos e meio no Vietnã.

Vem-nos à memória a metáfora  da missão militar a que Sócrates se refere na Apologia de Platão, que, da mesma forma que ele cumpriria a ordem do estratego em uma batalha, ele não abandonaria sua missão de filósofo. Sócrates foi um grande guerreiro. E Xenofonte também. Mas ambos se apresentavam como filósofos em primeiro lugar.

Este endeusamento do militarismo e da guerra de hoje parece corresponder mais uma vez à triste realidade dos jovens que vivem diante da tela de computadores. Como sabem os que têm um pouco de experiência em conflitos bélicos, não há nada de bom em uma guerra. Meu avô que o diga, que, tendo lutado na maldita guerra dos italianos contra os abissínios, teve, por seus traumas adquiridos em campo de batalha, pesadelos terríveis até o fim da vida. E ele teve sorte, pois não foi ferido, não perdeu algum de seus membros ou a visão, nem algum de seus familiares. Mas o que viu lhe bastou. Fugiu com a minha avó para o Brasil em 39, razão pela qual acabei por nascer no Brasil. Guerras são como operações cardíacas, só devem ser feitas por necessidade. Não são atraentes senão pelas lentes de Hollywood, que, propagando sem cessar a ideia de que a visão do sangue derramado de pessoas sendo estraçalhadas por armas de fogo é não só tolerável, mas um espetáculo belo e moralmente edificante, nos vende o belicismo norte-americano  há décadas. 

Essa triste realidade também explica o afastamento das mulheres. Quando eu era criança, tínhamos, por exemplo, os encontros de jovens católicos, que resultavam em ótima oportunidades para flertes e conversas fora do ambiente escolar. Havia também as colônias de férias do SESC e os bailes de matinês. E, hoje, o que há, no Brasil, para que os jovens com menos de 18 anos possam se encontrar em um ambiente minimamente seguro? 

Além disso, todos nós nos exercitávamos bastante ao ar livre, jogando bola, fazendo caminhadas, razão pela qual éramos bem mais confiantes para interações românticas com jovens de nossa idade. E qual espaço há para os jovens praticarem esportes hoje em dia?

Nos dias de hoje, as periferias foram declaradas oficialmente zonas de guerra. E os jovens abastados vivem literalmente encarcerados, em condomínios, diante dos já mencionados computadores.

Por fim, uma realidade tão dura explica também a ênfase na resiliência. Os estoicos eram (ao contrário da crença comum que hoje se tem) joviais e alegres. Segundo consta, Crisipo morreu de rir. Há inúmeras tiradas de humor em Epicteto. Sêneca escreveu o texto mais cômico que li em minha vida: A ascensão do Cabeça de Abóbora (Apokolokintosis), obra na qual satiriza implacavelmente o então recém-falecido imperador Cláudio. Isso sem mencionar o humor que perpassa muitas das cartas a Lucílio. E a razão do humor deles era evidente: experienciavam a paz interior, razão pela qual Epicteto dizia que o sábio atravessa as dificuldades como se não fossem dificuldades. 

Enfim, há, claro, no estoicismo, recomendações de como suportar as dificuldades, e essa não  é parte desprezível de seu pensamento. Eu mesmo me beneficiei muito disso, como evidencio na introdução de minha seleção de cartas de Sêneca a Lucílio

Essas breves reflexões lançam, ao menos para mim, alguma luz sobre a ascensão dos ideários mencionados, embora obviamente não os justifiquem. Entretanto, a partir do que foi dito, penso que as autoridades (políticos, pais, educadores, meios de comunicação etc.) deveriam começar a pensar em como tornar a vida de nossos jovens mais saudável e menos desgraçada. A vida deles não tem que ser uma guerra. Uma vida com saúde, lazer, educação, infraestrutura e interação saudável entre os jovens é possível. Ainda é possível.      

Resenha: A Consolação da Filosofia

Oh, Fortuna, deusa cega e negligente, estou preso à sua roda –não me esmague entre suas trevas. Eleve-me bem alto, ó deusa!” — arrotou Ignatius.

Apesar de estudar e traduzir filosofia estoica, meu interesse pela A Consolação da Filosofia surgiu da leitura do incrível romance “Uma Confraria de Tolos” de John Kennedy Toole, onde o texto de Boécio, bem como as deusas Fortuna e Filosofia, são protagonistas centrais.

O personagem principal do romance, Ignatius Reilly, é um trintão obeso, glutão, flatulento e mal-humorado, que mora com a mãe e vive amaldiçoando o mundo moderno. Ignatius é um anti-herói, deslocado do mundo e nascido na época errada, que se considera sempre perseguido por uma “confraria de tolos”. Trata-se de um misto de Dom Quixote gordo com Tomás de Aquino teimoso, que tem como Boécio seu conselheiro e companheiro de sofrimento.

Toole resume de forma concisa e precisa a obra de Boécio:

Ignatius acreditava na roda da Fortuna, o conceito central de De consolatione philosophiae, tratado filosófico que lançou os fundamentos do pensamento medieval. Boécio, que nos estertores do Império Romano escrevera a Consolatione durante sua injusta passagem pela prisão a mando do imperador, dissera que uma divindade cega nos prega a uma roda, e que nossa sorte obedece a ciclos. … O livro nos ensina a aceitar o que não podemos mudar. Descreve a luta do homem honesto numa sociedade desonesta. É a base do pensamento medieval.

Vamos então à nossa análise.

A Consolação da Filosofia foi escrita na prisão por um condenado à morte. A admiração que esse texto suscitou deve muito pouco às circunstâncias trágicas de sua composição. Trata-se de uma obra-prima da literatura e do pensamento europeu; ela se basta, e teria o mesmo valor se ignorássemos tudo a respeito daquele que a concebeu entre duas sessões de tortura, à espera de sua execução. Contudo, a história pessoal do autor é bem conhecida. Ele foi um homem cuja fortuna se elevou ao mais alto nível possível; mas que experimentou o colapso total dessa fortuna, ficando conhecido por ter se mantido firme na prisão até mesmo sob tortura.

Filho de uma das mais nobres famílias senatoriais romanas, teve sucesso ascendente e ininterrupto. Adotado pelo ilustre Símaco acabou casando-se com a filha de seu pai adotivo, Rusticiana. Aos 25 anos de idade entrou para o senado e com menos de 30 anos foi eleito cônsul. Durante o reinado de Teodorico, Boécio ocupou muitos cargos importantes, na Consolação, ele próprio afirma que sua maior realização foi ter, no mesmo ano, ambos os filhos feitos cônsules, um representando o leste e outro o oeste. Em 522, no mesmo ano em que seus dois filhos foram nomeados cônsules conjuntos, Boécio aceitou a nomeação para o cargo de Mestre dos Ofícios (magister officiorum), chefe de todos os serviços do governo e da corte.

Talvez o que de fato tenha arruinado a vida política de Boécio tenha sido a defesa do senador Albino, por ele realizada. Albino havia sido acusado de estabelecer correspondências com algumas pessoas próximas de Justino, Imperador de Constantinopla, traindo assim, Teodorico. Boécio foi requisitado à apreciação do caso do senador e acabou por defendê-lo e, consequentemente, foi envolvido na delação. Assim, dentro desse contexto de acusações e traições, o autor foi condenado à morte e ao confisco de todos os seus bens. Privado do direito de apresentar sua defesa, Boécio acabou sendo executado no ano de 524.

O conteúdo da Consolação está disposto em cinco livros, compostos por versos e prosas que se apresentam de forma intercalada. No primeiro livro Boécio apresenta sua condição de profunda tristeza e indignação com o infortúnio que lhe abate por encontrar-se na prisão; e é neste momento que ele recebe a visita de sua musa consoladora, a Filosofia, que ao se personificar busca, através do diálogo, mostrar ao prisioneiro o que o mesmo parece ter esquecido: qual é a natureza humana e qual o verdadeiro objetivo dos homens. No segundo livro, a Filosofia visa demonstrar a Boécio qual é a verdadeira natureza da Fortuna. No terceiro livro temos que todos os homens buscam naturalmente a Felicidade. Assim, inicia-se este livro com a apresentação dos presentes da Fortuna com o intuito de demonstrar porque estes não podem dar ao homem a verdadeira felicidade tão almejada. Aponta como conclusão que a verdadeira felicidade encontra-se no Bem Supremo que é uno: Deus. No quarto livro, é tratada a questão do mal no mundo e apresenta-se a distinção entre Providência e destino. No quinto e último livro, discorre-se sobre o problema, aparentemente incompatível, que surge da discussão da onisciência divina e do livre arbítrio humano.

A incompatibilidade do sofrimento dos homens bons, a impunidade e o sucesso dos homens maus, com o governo do mundo por um Deus bom, tem sido um tema de reflexão entre os homens desde que a religião e as questões abstratas têm ocupado os pensamentos da humanidade. Os livros poéticos da Bíblia estão cheios dela, particularmente o livro de Jó, que é um poema dramático inteiramente dedicado ao assunto. O Novo Testamento contém muito material doutrinário sobre a mesma questão. Já os gregos em suas tragédias e também os filósofos posteriores, se encantaram em resolver esta incompatibilidade. Mas do sexto ao décimo sétimo século de nossa era a Consolação de Boécio, em seu latim original e em muitas traduções, esteve nas mãos de quase todas as pessoas cultas do mundo.

É uma obra que atraiu tanto pagãos quanto cristãos. Não há nenhuma doutrina cristã na qual se baseie toda a obra, mas também não há nada que possa estar em conflito com o cristianismo. Mesmo a personificação da Filosofia, embora na forma de uma deusa pagã, é precisamente como a “Sabedoria” de Salomão na bíblia e a “Palavra de Deus” usada pelos judeus. Portanto, se não há nada distinto ou dogmaticamente cristão no texto, também não há nada que possa ser condenado como pagão, apesar da forte influência da filosofia pagã, com a qual Boécio era íntimo.

Contudo, sua ligação com a Igreja é inquestionável. O Papa Leão XIII aprovou o culto a Boécio pela Diocese de Pavia, que guarda os seus restos mortais na basílica de San Pietro in Ciel d’Oro, que  também é o lugar de descanso de Santo Agostinho. Foi posteriormente canonizado pela Igreja Católica. Ele é “São Severino” que deriva do seu nome completo, Severinus Boethius. Dante faz São Tomás de Aquino apontar o espírito de Boécio na Divina Comédia, Paraíso, X, 124-132.

A Consolação da Filosofia não é a primeira obra filosófica na qual a Filosofia personifica-se como uma dama. Esta ideia já fora sugerida por filósofos anteriores tais como: Platão, Cícero e Sêneca. Boécio considera-se um eclético e acredita que as escolas filosóficas da antiguidade eram incompletas, cada uma contendo apenas “uma parte” da filosofia (sinônimo da sabedoria). Nas palavras da própria Lady Filosofia.

Também em sua vida, Sócrates, seu mestre, venceu com minha ajuda a vitória de uma morte injusta. E quando, um após outro, o grupo epicurista, os estoicos, e os demais, cada um deles até onde estavam, foram tomar a herança que ele deixou, e me arrastaram para fora protestando e resistindo, como seu espólio, rasgaram em pedaços a roupa que eu havia tecido com minhas próprias mãos, e, agarrando os pedaços rasgados, partiram, acreditando que a totalidade de mim havia passado para a posse deles. (…) Talvez você não saiba do banimento de Anaxágoras, do veneno de Sócrates, nem da tortura de Zenão, porque estas coisas aconteceram em um país distante; mas talvez você tenha conhecido o destino de Cano, de Sêneca, de Sorano, cujas histórias não são antigas nem desconhecidas. Estes homens foram levados à destruição por nenhuma outra razão que não seja a de que, estabelecidos como estavam em meus princípios, suas vidas eram um manifesto contraste com os caminhos dos ímpios.” (Livro I, VI.)

Dessa forma, a musa consoladora demonstra ao prisioneiro que ele pertence a um grupo de homens capazes de compreender as adversidades da vida sob um outro enfoque, considerando que este grupo possui uma diferenciação de ordem moral, certamente incutida pela própria Filosofia. Ressaltando que os homens que se deixam conduzir pelos caprichos da Fortuna não possuem algo maior que os possa guiar e permanecem na ignorância.

Ou seja, Boécio é muito próximo da doutrina estoica. Isso fica claro quando a personagem Filosofia, ao colocar-se como médica e fazer uso de metáforas médicas, está resgatando a prática estoica. Para curar o prisioneiro a Filosofia o lembra que o mundo não é governado pelo acaso, mas sim, por uma razão superior, a Natureza. Compreender que o mundo é governado por uma razão divina e que o homem possui uma natureza racional, a qual deve guiar as ações humanas, justifica que a virtude da sabedoria é exatamente isso: viver em conformidade com sua própria natureza. Natureza esta que não deve se deixar abalar pelas turbulentas paixões humanas, pois elas impedem a progressão da virtude. Assim, a virtude da sabedoria consiste em não se deixar ludibriar pelos impulsos excessivos e sim, deixar-se conduzir pela racionalidade que é própria do ser humano. Conforme aponta a Filosofia:

… a Sabedoria consiste em avaliar a finalidade de todas as coisas, e esta mesma mutabilidade, com seus dois aspectos, torna as ameaças da Fortuna vazias de terror, e suas carícias pouco desejáveis.

Logo, para saber avaliar corretamente qual é o fim de todas as coisas, faz-se necessário reconhecer-se como um ser racional e fazer uso dessa natureza. Desta forma, podemos compreender que a noção de virtude no sistema boeciano aproxima-se muito da concepção dos estoicos. Boécio perdeu as riquezas, as honras, o poder e os prazeres que constituem a felicidade dos homens? O que são esses bens que, se possuem o brilho do vidro, também têm sua fragilidade?

O conceito de Felicidade, ou eudaimonia, de Boécio é totalmente estoico:

E para que possa ver que a felicidade não pode consistir nessas coisas que são o esporte do acaso, reflita que, se a felicidade é o maior bem de uma criatura vivendo de acordo com a razão, e se uma coisa pode de alguma forma ser tirada não é o maior bem, já que aquilo que não pode ser tirado é melhor do que isso, é claro que a Fortuna não pode aspirar a dar felicidade em razão de sua instabilidade. E, além disso, um homem carregado por essa felicidade transitória deve conhecer ou não a sua instabilidade. Se ele não a conhece, quão pobre é uma felicidade que depende da cegueira por ignorância! Se ele sabe, ele deve temer perder uma felicidade cuja perda ele acredita ser possível.” (Livro II, VII)

Nos dois últimos livros, o ambiente filosófico muda: do estoicismo, apropriado à cura pessoal, Boécio passa à uma discussão mais abstrata, a da teodiceia de inspiração platônica, isto é, a existência de Deus a partir do problema da existência do mal e de sua relação com um Deus bondoso onisciente e onipotente.

Neste ponto, o prisioneiro, voltando a ser um filósofo, já se libertou da opressão subjetiva da infelicidade que pesava sobre seus sentidos. É preciso agora libertar-se do peso de uma dúvida de gravidade diferente que atormenta sua razão: Como pode Deus, a própria Bondade, a Ideia do Bem, permitir uma desordem tal que os inocentes sejam oprimidos e os criminosos recompensados?

O último livro é focado em conciliar a liberdade humana, isto é, o livre-arbítrio, com a onipotência providencial de Deus. A Filosofia faz Boécio entender que a presciência divina não é um determinismo, mas que, por isso mesmo, ela não abandona a alma que escolheu o Bem aos caprichos cegos da Fortuna. O livre-arbítrio não é uma ilusão, mesmo que a escolha do mal busque para si desculpas na Fortuna.

Quinze séculos após ter sido escrito, A Consolação da Filosofia parece dirigido à nossa realidade, o que só confirma que o progresso técnico em nada muda as leis da biologia ou nossas carências espirituais e filosóficas.


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Veja também:

Pensamento #83: Foque no que é seu encargo

“Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o desejo, a repulsa –em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos –em suma: tudo quanto não seja ação nossa. ” Manual de Epicteto [1.2]

Devemos distinguir cuidadosamente o que é “nosso encargo“, ou seja, algo sob nosso próprio poder, e o que não é. São nosso encargo nossas escolhas voluntárias, a saber, nossas ações e julgamentos, enquanto todo o resto não está sob nosso controle. 

Ver mais em Princípio Estoico #3: Concentre-se no que pode controlar, aceite o que não pode

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James Stockdale: Um Filósofo em ação no Vietnã

Abaixo artigo de Aldo Dinucci sobre o filósofo-militar James Stockdale. (Socrates também foi soldado). Artigo publicado originalmente em Estoicismo Artesanal.


STOCKDALE: UM FILÓSOFO EM AÇÃO NO VIETNÃ

James Bond Stockdale era já um experiente piloto de caça da Marinha Norte-Americana quando entrou em contato pela primeira vez com a filosofia e com Epicteto.  Tinha 42 anos, estudava relações internacionais em Stanford e acidentalmente se encontrou com o então decano do departamento de ciências humanas, Philip Rhinelander. Era o ano de 1962, e Rhinelander ministrava seu famoso curso intitulado “Os Problemas do Bem e do Mal”, para o qual o decano convidou Stockdale. Como o piloto iniciara o curso com atraso, Rhinelander encarregou-se de dar-lhe aulas particulares. Stockdale, então, descobriu uma inusitada vocação para a filosofia. Ao final do curso, Rhinelander presenteou-o com um livro que mudaria sua vida: O Manual de Epicteto. Como nos diz o próprio Stockdale: 

Rhinelander simplesmente pensou que Epicteto e eu poderíamos fazer um bom par, e ele estava certíssimo. Eu nunca tinha ouvido falar de Epicteto; de fato, hoje o reconhecimento de seu nome está no terceiro escalão dos filósofos. Mas sua mente é de primeiro escalão. (Stockdale, Tríade do Guerreiro estoico, p. 13-4)

Stockdale, devido ao seu treinamento de piloto, rapidamente leu e decorou os 52 capítulos do Manual de Epicteto. Três anos depois, o piloto teria a oportunidade de pôr à prova os ensinamentos do Manual: seu A4 foi abatido durante missão no Vietnã. Apesar de conseguir ejetar-se a tempo e chegar ao solo são e salvo, foi espancado pelos vietnamitas que o avistaram, o que lhe valeu um joelho permanentemente lesionado, e levado como prisioneiro. Stockdale passaria os próximos sete anos e meio como prisioneiro de guerra no Vietnã. 

As singulares circunstâncias que levaram Stockdale à filosofia e à sua prática fizeram dele um tipo de intelectual pouco frequente na pós-modernidade. Hoje, é dito filósofo o profissional que faz exegeses de textos filosóficos e que leciona ou escreve sobre suas exegeses. Entretanto, na Antiguidade, o termo “filósofo” tinha uma conotação mais ampla. Era dito filósofo: (1) o autor de reflexões, teorias e conceitos filosóficos que não escrevem obras visando a publicação (como Sócrates e Epicteto); (2) quem põe em prática concepções filosóficas, quer escreva sobre elas ou não (como Agripino e Catão); (3) quem escreve sobre filosofia, seja sobre suas ideias próprias e originais (como Platão e Aristóteles), seja transcrevendo concepções alheias (como Xenofonte e Flávio Arriano).  Isso porque, como observa Hadot (Forms of life and forms of discourse, p. 56-7), na Antiguidade, ser filósofo significava primariamente assumir um modo de vida radicalmente distinto do usual, o que levava o filósofo a uma ruptura com o senso comum. Assim, diante do simples cidadão, o filósofo se mostrava como átopos, não classificável, estranho (Hadot, ibidem, p. 57-8). De algum modo essa concepção do filósofo como “louco” ainda resiste no senso comum, embora, hoje, nossos filósofos nada sejam senão pacatos cidadãos de classe média, virtualmente indistinguíveis do homem comum. Na Antiguidade, por outro lado, ser filósofo significava ser e agir de modo diferenciado, isto é, vivificar um ethos da filosofia por ele abraçada. Em outros termos, era dito filósofo, na Antiguidade, o que, por escolha própria, adotava uma vida filosófica. Como nos diz Hadot:

Cada escola então representa uma forma de vida definida por um ideal de sabedoria. O resultado é que cada uma possui sua atitude inerente fundamental correspondente […] Acima de tudo cada escola pratica exercícios projetados para garantir progresso espiritual rumo ao estado ideal de sabedoria, exercícios da razão que serão, para a alma, análogos ao treinamento do atleta ou à aplicação da cura médica.      

(Hadot, ibidem, p. 59) 

Essa transformação através da adoção de um novo modo de vida, um modo de vida filosófico, é entusiasticamente percebida por Stockdale:

Eu pensava que era óbvio para meus amigos mais íntimos, como certamente o era para mim, que eu era um homem mudado, e digo mais, um homem melhor por ter sido introduzido à Filosofia e especialmente a Epicteto. Eu estava trilhando um caminho diferente […] Eu tinha me tornado um homem imparcial – não indiferente, mas imparcial – capaz de lançar fora o livro de normas sem a menor hesitação quando ele não mais fizesse frente às circunstancias externas […] Esse novo desapego e essa nova flexibilidade que eu adquirira me foram cobrados mais tarde, na prisão.

(Stockdale, Coragem sob fogo, p. 12) 

Assim, podemos dizer, Stockdale é primariamente filósofo no sentido de quem adota um estilo de vida filosófico. Mas também o é no sentido de quem escreve sobre suas reflexões filosóficas.

A tradução portuguesa do livro de Stockdale Coragem Sob fogo pode ser obtida aqui.

Pensamento 81: Ensinamentos de Sêneca para o dia das mulheres

Sêneca escreveu dois diálogos de consolação endereçados a mulheres, um para sua mãe, na época de seu exílio e outro a Marcia que se encontrava inconsolável com a morte do filho. Em ambos textos Sêneca aponta que as mulheres, mesmo com características distintas dos homens, são igualmente capazes intelectualmente:

No entanto, quem diria que a natureza tem tratado com rancor as mentes das mulheres, e atrofiado suas virtudes? Acredite, elas têm o mesmo poder intelectual que os homens, e a mesma capacidade de ação honrada e generosa. Se treinadas para isso, elas são igualmente capazes de suportar a tristeza ou o trabalho.” (Consolação a Marcia, XVI, 2)

Por isso incito-lhe a procurar refúgio onde todos os que procuram conforto para suas mágoas deviam refugiar-se: nos estudos da filosofia. Oh! se meu pai, que era o melhor dos homens, mas estava demasiadamente preso aos costumes dos antepassados, tivesse desejado que você fosse ensinada ao invés de informada somente dos preceitos da sabedoria! ” (Consolação a Minha Mãe Hélvia XVII, 4-5)

Os estoicos, juntos com os cínicos, mesmo usando linguagem que hoje seria considerada sexistas, foram os primeiros a defender que as mulheres têm as mesmas capacidades intelectuais que os homens e que seria útil educa-las igualmente aos homens em filosofia.

Dos seguidores da nossa página no facebook, apenas 21% são mulheres, não sei explicar o porquê.