Resenha: Consolação a Políbio

Consolação a Políbio, ad Polybium, De Consolatione”, é a terceira carta de consolação de Sêneca, escrita no ano 44 quando o filósofo se encontrava no exílio na ilha de Córsega para o qual fora enviado sob a acusação de adultério com Júlia Lívila, irmã de Calígula.

A obra dirige-se a Políbio, Secretário particular do Imperador Cláudio, para consolá-lo sobre a morte de seu irmão. O ensaio contém a filosofia estoica de Sêneca, com particular atenção à inescapável realidade da morte. Embora seja sobre um assunto muito pessoal, o ensaio em si não parece particularmente empático ao caso específico de Políbio, dando uma visão mais ampla sobre a dor e o luto, sem nunca citar o nome do irmão falecido.

O texto é, sem dúvida, uma tentativa de Sêneca de conseguir seu retorno do exílio, usando boa parte do texto  para lisonjear e vergonhosamente bajular o Imperador Cláudio, ironicamente procurando atrair empatia para si mesmo no processo: “Eu forçaria algumas gotas a fluir destes olhos, exaustos como estão com o choro sobre as minhas próprias aflições domésticas, se isso pudesse ser de alguma utilidade para você.” (II, 1)

Estudiosos são unânimes na consideração de que Consolação a Políbio é uma adulação para que Políbio interceda junto a Cláudio em favor de Sêneca. Isso mostra um momento de fraqueza do filósofo já que Sêneca faz uso da dor alheia para tirar vantagens pessoais. Essa realidade não impede a obra de exemplificar uma das mais significativas faces do brilhante autor e de documentar lados menos explorados de sua personalidade histórica.

O gênero literário Consolação foi cultivado por todas as grandes escolas, nela, o filósofo procura entender a dor que abala a pessoa a ser consolada e, ainda, compreender sua visão de mundo para assim expor sua filosofia, de forma que seja melhor assimilada pelo espírito em luto. Cleonice van Raij[1], diz:

Entre os filósofos e retores romanos o primeiro que se ocupou desse gênero foi Cícero, por ocasião da morte de sua filha Túlia, quando escreveu uma Consolação, a fim de abrandar a própria dor. Tal Consolação, infelizmente, não chegou até nós, restando dela apenas alguns fragmentos conservados nas Tusculanas. Sêneca, sem a menor dúvida, foi o mais fecundo escritor latino de Consolações, se considerarmos não só os textos conhecidos sob esse nome, mas também os vários tratados de alto teor consolatório, como Sobre a brevidade da vida, Sobre a tranquilidade da alma, De remediis fortuitorum[2] (Sobre os remédios dos acontecimentos fortuitos) e as cartas que, em grande parte, pertencem a esse gênero, como as LXIII, LXXXI, XCIII e CVII, dirigidas a Lucílio. No entanto, as genuínas Consolações, ou seja, aquelas que mais respondem às exigências da tradição consolatória, são três: A Márcia, A Hélvia e A Políbio.

A carta começa com uma interpretação de Sêneca do significado de memeto mori[3], ajudando o amigo a colocar as coisas em perspectiva e fazendo referência à cosmologia estoica e sua ideia de que o universo é cíclico e que passa por séries de criação e destruição:

“O que, de fato, já fez mãos mortais que não seja mortal? As sete maravilhas do mundo, e quaisquer maravilhas ainda maiores que a ambição de eras posteriores tenha construído, serão vistas um dia niveladas com o chão. Assim é: nada dura para sempre, poucas coisas duram até mesmo por muito tempo… todo esse universo, contendo deuses e homens e todas as suas obras, um dia será varrido e mergulhado uma segunda vez em sua escuridão e caos originais”. (I, 1-2)

A finalidade é dupla: lembrar a Políbio que seria soberba pensar que nosso próprio destino deve ser diferente do de qualquer outro, e também levar consolo com a compreensão do funcionamento do mundo. Na seção IV Sêneca volta para a ideia estoica da imparcialidade da fortuna (destino):

Podemos continuar culpando o destino por muito mais tempo, mas não podemos alterá-lo: ele permanece duro e inexorável: ninguém pode movê-lo por reprovações, por lágrimas ou pela justiça. A fortuna nunca poupa ninguém, nunca faz concessões a ninguém…. Olhe em volta, para todos os mortais: em todos os lugares há razões amplas e constantes para chorar:” (IV, 1-2)

Na quinta seção vemos mais uma técnica de abordagem: Políbio é exortado a pensar sobre o que seu próprio irmão falecido desejaria. Além disso, ele tem que pensar no restante de sua família, incluindo seus outros irmãos, não os desanimando com a própria depressão:

“Você deve imitar os grandes generais em tempos de desastre, quando eles têm o cuidado de provocar um comportamento alegre e esconder as desgraças por uma alegria manipulada, de modo que, se os soldados vissem seu líder derrubado, eles mesmos ficariam desanimados”. (V, 2)

No meio do ensaio, Sêneca alerta Políbio que os piores momentos serão quando ele se encontrar sozinho em casa. Mas um remédio está à mão: ocupar a mente, não permitir nenhum momento desocupado. Sêneca acaba sugerindo perseguições literárias já que Políbio havia traduzido para o latim Homero e escrito uma versão em prosa do poema épico de Virgílio. Ainda em outra investida, Sêneca diz que não se deve lamentar por si mesmo: pergunte a si mesmo: “sofro por minha causa ou por aquele que se foi”? Depois afirma que não se deve sofrer temendo a sorte do falecido seguido com uma análise estoica do significado de estar morto, lembrando a Políbio que, embora seu irmão não possa mais desfrutar de uma série de prazeres oferecidos pela vida, agora ele também está sendo poupado das muitas tristezas e reviravoltas da fortuna que caracterizam a existência humana, pois no final: “Nada há de certo sequer um dia inteiro. Quem pode dizer se a morte veio a seu irmão por malícia ou por bondade?” (IX, 6)

Na 10° seção Sêneca aplica um dos conceitos estoicos favoritos, que mais tarde, fora muito muito utilizado por Epicteto, isto é, que as coisas e as pessoas de nossas vidas nunca são nossas, mas sim emprestadas do universo:

você não precisa pensar por quanto tempo mais você poderia tê-lo, mas por quanto tempo você o teve. A natureza o deu a você, assim como dá outros a outros irmãos, não como uma propriedade absoluta, mas como um empréstimo: depois, quando achou oportuno, o acolheu de volta e seguiu suas próprias regras de ação, em vez de esperar até que você tivesse entregado seu amor à saciedade.” (X, 4)

As seções XII a XVII são usadas praticamente na íntegra para bajular o imperador Cláudio, na tentativa de ganhar sua graça e conseguir escapar do exílio. Algumas partes são tão exageradas que beiram à comédia:

“…fixe seus olhos em César sempre que as lágrimas se aproximarem deles; eles ficarão secos ao contemplar aquela luz maior e mais brilhante; seu esplendor os atrairá e os prenderá firmemente a si mesmo” (XII, 3) “…tão bondoso e gracioso como é para com todos os seus seguidores que já colocou muitos bálsamos curativos sobre esta sua ferida, e lhe forneceu muitos antídotos para sua tristeza. Por que, mesmo se ele não tivesse feito nada disso, não é a mera visão e o pensamento de César em si o seu maior consolo?” (XII, 3) “Que os deuses e deusas o preservem por muito tempo na terra: que ele rivalize com os feitos do imperador Augusto, e o ultrapasse em longos dias!” (XII, 5)

Ao final Sêneca sugere como terapia para seu amigo, que escreva sobre o irmão: “prolongue a lembrança de seu irmão inserindo algumas memórias dele entre seus outros escritos: pois esse é o único tipo de monumento que pode ser erguido pelo homem que nenhuma tempestade pode ferir, nenhum tempo destruir.” (XVIII, 2). Sêneca, por todo seu legado, é o mais compassivo, o mais humano, dos estoicos. O final da carta nos dá muitos exemplos disso, dois deles:

Eu sei, de fato, que há alguns homens, cuja inteligência é mais áspera do que brava, que dizem que o homem sábio nunca choraria.” (XVIII, 5). “Deixe suas lágrimas fluírem, mas deixe-as um dia parar de fluir: lamente tão profundamente quanto você quiser, mas deixe seus lamentos cessarem um dia: regule sua conduta de modo que tanto filósofos quanto irmãos possam aprová-la.” (XVIII, 7)

Consolação a Políbio confirma que Sêneca, como o próprio reafirma inúmeras vezes em sua obra, não é o sábio estoico ideal, mas alguém meramente humano, que precisa se esforçar diariamente para trilhar o caminho da virtude. Por isso mesmo, considero o mais autêntico e convincente dos filósofos estoicos.

Em tempo, a bajulação não teve nenhum efeito sobre Políbio ou Cláudio e Sêneca permaneceu no exílio até a morte do imperador.

Sobre Políbio:

Gaio Júlio Políbio foi um escravo liberto do Imperador Cláudio que foi elevado ao secretariado durante seu reinado. No começo do governo de Cláudio, Políbio, de acordo com Sêneca, tinha o cargo de libellis, responsável pelas petições dirigidas ao imperador[4]. Já Suetônio[5] defende que antes da ascensão do imperador, ele auxiliava Cláudio em suas atividades literárias, judiciais e históricas como pesquisador e assim tomou o lugar oficial na burocracia imperial, com o título de studiis. O mesmo Suetônio, que era biógrafo e secretário do Imperador Adriano, afirma que Cláudio apreciava tanto a ajuda que era permitido a Políbio caminhar entre os cônsules quando em assuntos oficiais.

No resumo bizantino do relato de Dião Cássio[6], Pallas, Calisto e Narciso, outros três libertos graduados na administração imperial, têm grande preeminência, mas Políbio aparece separado do grupo mais poderoso de liberto. Nesse relato, os três libertos aparecem atuando em conjunto, inicialmente em acordo com Messalina e depois contrários a ela. A deslealdade levou Políbio à sua derrocada. Ele foi executado por crimes contra o Estado enquanto Sêneca vivia em exílio. Dião Cássio afirmou que a imperatriz Messalina preparou sua morte quando ela se cansou dele como amante.


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[1] Raij, Cleonice. 1999. A Filosofia Da Dor Nas Consolações De Sêneca. Letras Clássicas, nº 3 (outubro), 11-21. https://doi.org/10.11606/issn.2358-3150.v0i3p11-21.

[2] Este texto não é de Sêneca, mas falsamente atribuído a ele na idade média, assim como suas supostas cartas a Paulo de Tarso (São Paulo)

[3] Memento mori é uma expressão latina que significa algo como “lembre-se de que você é mortal”, “lembre-se de que você vai morrer” ou traduzido literalmente como “lembre-se da morte”.

[4] Sêneca descreve as funções de Políbio na seção VI, 5.

[5] Caio Suetônio Tranquilo, (em latim: Gaius Suetonius Tranquillus, Roma, 69 d.C. — ca. 141 d.C.) dedicou-se às armas e às letras. Escreveu as Vidas dos Doze Césares, tendo sido contemporâneo na idade adulta apenas do último de seus biografados, Domiciano. Teve prestígio na corte de Adriano, tendo sido secretário. Suetônio foi um grande estudioso dos costumes de sua gente e de seu tempo e escreveu um grande volume de obras eruditas, nas quais descrevia os principais personagens da época. Foi, sobretudo, um indiscreto devassador das intimidades da corte romana, dando-nos uma visão íntima dos vícios dos imperadores e das picuinhas que dividiam a nobreza.

[6] Dião Cássio foi um historiador romano, publicou a História de Roma em 80 volumes.

Carta 86: Sobre a Vila de Cipião

Na carta 86 temos outro fantástico relato da vida romana, com o paralelo entre os costumes da época de Sêneca, no Século I com a época de Cipião Africano, quase 3 séculos antes.

A carta critica o hedonismo da época de Sêneca e mostras como os romanos eram mais fortes e resistentes no passado. Nesse relato, vemos como o império romano era desenvolvido, pois os comentários de Sêneca sobre 200 anos no passado poderiam ser repetidos igualmente por qualquer morador do ocidente:

“Amigo, se você fosse mais sábio, você saberia que Cipião não se banhava todos os dias. É afirmado por aqueles que nos relatam os costumes da Roma antiga que os romanos lavavam apenas os braços e as pernas diariamente – porque esses eram os membros que reuniam a sujeira em seu trabalho diário – e banhavam-se completamente uma vez por semana. Aqui alguém replicará: “Sim, eram indivíduos evidentemente muito sujos! Como eles deveriam ter cheirado!” Mas eles cheiravam à batalha, à fazenda e ao heroísmo.” (LXXXVI, 12)

Na parte final Sêneca aborda técnicas de agricultura sobre cultivo de oliveiras, monstrando seu amor pela ciência e tecnologia.

(imagem: Cipião Africano Libertando Massiva por Giovanni Battista Tiepolo)


LXXXVI. Sobre a Vila de Cipião

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu estou descansando na casa de campo que uma vez pertenceu ao próprio Cipião Africano[1]; e escrevo-lhe depois de reverenciar seu espírito e um altar que estou inclinado a pensar ser o túmulo daquele grande guerreiro. Que a sua alma realmente retornou aos céus, de onde veio, estou convencido, não porque ele comandou exércitos poderosos – porque Cambises[2] também tinha poderosos exércitos, e Cambises era um louco que fez uso bem-sucedido de sua loucura – mas porque ele mostrou moderação e um senso de dever de maravilhosa amplitude. Considero este traço nele como mais admirável após sua retirada de sua terra natal do que enquanto ele estava defendendo-a; pois havia a alternativa: Cipião deveria permanecer em Roma, ou Roma deveria permanecer livre.

2. “É meu desejo“, disse ele, “não infringir o mínimo de nossas leis, ou de nossos costumes; que todos os cidadãos romanos tenham direitos iguais. Oh meu país, goza o máximo do bem que eu fiz, mas sem mim, eu fui a causa de sua liberdade, e eu serei também a sua prova, eu vou para o exílio, se é verdade que eu cresci além do que é a sua necessidade!

3. O que posso fazer senão admirar essa magnanimidade, que o levou a se retirar para o exílio voluntário e aliviar o Estado de sua carga? As coisas haviam ido tão longe que a liberdade prejudicaria Cipião, ou Cipião à liberdade. Qualquer uma dessas coisas era errada frente aos céus. Então ele cedeu às leis e retirou-se para Literno, pensando em fazer o Estado um devedor por seu próprio exílio não menos do que pelo exílio de Aníbal.

4. Eu inspecionei a casa, que é construída de pedra cortada; o muro que encerra um bosque; as torres também, fortificada em ambos os lados com a finalidade de defender a casa; o poço, escondido entre edifícios e arbustos, grande o suficiente para manter todo um exército fornecido; e o pequeno banho, sepultado na escuridão de acordo com o estilo antigo, pois nossos antepassados não pensavam que poderiam ter um banho quente, exceto fora de vista. Foi, portanto, um grande prazer eu comparar os costumes de Cipião com os nossos.

5. Pense, neste pequeno retiro, o “terror de Cartago”, a quem Roma deveria agradecer por não ter sido capturada mais de uma vez[3], costumava banhar um corpo cansado de trabalho nas batalhas! Pois ele estava acostumado a manter-se ocupado e a cultivar o solo com as próprias mãos, como os bons e antigos romanos costumavam fazer. Debaixo deste teto esquálido, ele esteve em pé; e este piso, medíocre como é, suportou seu peso.

6. Mas quem, nesses dias de hoje, poderia suportar banhar-se de tal maneira? Nós nos achamos pobres e mesquinhos se nossas paredes não são resplandecentes com espelhos grandes e dispendiosos; se os nossos mármores de Alexandria não são desencadeados por mosaicos de pedra numidiana[4], se suas molduras não são enfeitadas em todos os lados com padrões complexos, dispostos em muitas cores como pinturas; se os nossos tetos abobadados não estão cobertos por cristal; Se as nossas piscinas não estiverem revestidas com mármore de Tasos[5], antigamente uma ocorrência rara e maravilhosa em piscinas de templos, em que descemos nossos corpos depois de terem sido drenados por transpiração abundante; e, finalmente, se a água não verte por cumeeiras de prata.

7. Até agora tenho falado sobre os estabelecimentos de banhos comuns; o que devo dizer quando mencionar aqueles dos libertos[6]? Que grande número de estátuas, de colunas que não suportam nada, mas são construídas para decoração, apenas para gastar dinheiro! E que massas de água que caem de nível em nível! Nós nos tornamos tão luxuosos que não temos nada além de pedras preciosas para caminhar.

8. Neste banho de Cipião há pequenas fendas – você não pode chamá-las de janelas – cortadas do muro de pedra de modo a admitir a luz sem enfraquecer as fortificações; hoje em dia, no entanto, as pessoas consideram que os banhos servem apenas para as mariposas se não estiverem dispostos a receber o sol durante todo o dia através de largas janelas, se os homens não puderem tomar banho e se bronzear ao mesmo tempo e se não podem olhar para fora de suas banheiras sobre extensões de terra e mar. Assim vai; os estabelecimentos que haviam atraído multidões e ganharam admiração quando foram abertos pela primeira vez são evitados e colocados de volta na categoria de antiguidades veneráveis, assim que o luxo tenha criado algum dispositivo novo.

9. Nos dias de antigamente, no entanto, haviam poucos banhos[7], e eles não estavam equipados com qualquer ostentação. Por que os homens devem elaborar o que custa apenas um centavo, e foi inventado para uso, não apenas para o deleite? Os banhistas daqueles dias não tinham água jogada sobre eles, nem sempre corria pura como se de uma fonte termal; e eles não acreditavam que importava o quão perfeitamente pura era a água na qual eles deveriam deixar a sua sujeira.

10. Oh deuses, que prazer é entrar nesse banho escuro, coberto com um tipo comum de telhado, sabendo que ali o seu herói Catão como edil[8], ou Fabio Máximo, ou um dos Cornélios[9], aqueceu a água com suas próprias mãos! Pois isso também costumava ser o dever dos edis mais nobres – entrar nos lugares os quais a população utilizava e exigir que fossem limpos e aquecidos a uma temperatura exigida por considerações de uso e saúde, e não a temperatura que os homens recentemente usam, tão intensa como uma conflagração – tanto assim, de fato, que um escravo condenado por alguma ofensa criminal agora deve ser banhado vivo! Parece-me que hoje em dia não há diferença entre “o banho está escaldante” e “o banho está quente“.

11. Como algumas pessoas hoje condenam Cipião como provinciano, porque ele não deixou a luz do dia em sua sala de banho através de janelas largas, ou porque ele não se tostou na luz do sol forte e vacilou até estar cozido na água quente! “Pobre tolo“, eles dizem, “ele não sabia como viver! Ele não se banhou em água filtrada, muitas vezes era turva e depois de fortes chuvas quase lamacentas!” Mas não importava muito a Cipião se tivesse que banhar-se dessa maneira; ele foi lá para lavar o suor e não para ser ungido.

12. E como você acha que algumas pessoas me responderão? Elas dirão: “Eu não invejo Cipião, tinha verdadeiramente uma vida de exilado – suportar banhos como esses!” Amigo, se você fosse mais sábio, você saberia que Cipião não se banhava todos os dias. É afirmado por aqueles que nos relatam os costumes da Roma antiga que os romanos lavavam apenas os braços e as pernas diariamente – porque esses eram os membros que reuniam a sujeira em seu trabalho diário – e banhavam-se completamente uma vez por semana. Aqui alguém replicará: “Sim, eram indivíduos evidentemente muito sujos! Como eles deveriam ter cheirado!” Mas eles cheiravam à batalha, à fazenda e ao heroísmo. Agora que os estabelecimentos de banho reluzentes foram planejados, os homens são realmente mais nauseabundos do que anteriormente.

13. O que diz Horácio Flaco[10], quando desejou descrever um canalha, que era notório por seu luxo extremo? Ele diz. “Bucílio cheira a perfume[11]. Mostre-me um Bucílio nestes dias; seu cheiro seria o verdadeiro cheiro de cabra – ele tomaria o lugar do Gargónio com quem Horácio na mesma passagem o comparava. Hoje em dia não é suficiente usar perfume, a menos que você coloque um casaco novo duas ou três vezes por dia, para evitar que o cheiro da transpiração do corpo. Mas por que um homem deve se orgulhar desse perfume como se fosse dele próprio?

14. Se o que estou dizendo parecer a você muito pessimista, compare com a casa de campo de Cipião, onde aprendi uma lição de Egíalo, um chefe de família muito cuidadoso e agora dono dessa propriedade; ele me ensinou que uma árvore pode ser transplantada, não importa quão idosa. Nós, velhos, devemos aprender este preceito; pois não há nenhum de nós que não esteja plantando um jardim de oliveiras para o seu sucessor. Eu as vi ter frutos após três ou quatro anos de improdutividade

15. E você também deve ser sombreado pela árvore que

cresce lentamente, mas dará sombra aos seus futuros netos,Tarda venit seris factura nepotibus umbram,[12]

Como diz nosso poeta Virgílio. Virgílio procurou, no entanto, não o que estava mais próximo da verdade, mas o que era mais apropriado e direcionado, não a ensinar o fazendeiro, mas a agradar o leitor.

16. Por exemplo, ao omitir todos os outros erros dele, citarei a passagem em que incumbe hoje a mim detectar uma falha:

Na primavera semeia feijão, então, também, trevo, Vocês são bem-vindos pelos sulcos em ruínas; e O milhete pede cuidados anuaisVere fabis satio est: tunc te quoque, medica, putres Accipiunt sulci, et milio venit annua cura.[13]

Você pode julgar pelo seguinte incidente se essas plantas devem ser plantadas ao mesmo tempo ou se ambas devem ser semeadas na primavera. É junho no presente escrito, e estamos quase em julho; e eu vi neste momento os agricultores colhendo feijão e semeando milhete[14].

17. Mas para retornar ao nosso jardim de oliveiras novamente. Eu as vi sendo plantadas de duas maneiras. Se as árvores forem grandes, Egíalo pega seus troncos e corta os ramos até o comprimento de um pé cada; ele então transplanta junto com a base, depois de cortar as raízes, deixando apenas o bolbo, a parte grossa da qual as raízes se penduram. Ele mistura isso com esterco, e insere no buraco, não só cobrindo de terra, mas compactando e pressionando-a.

18. Não há nada, diz ele, mais eficaz do que este processo de embalagem; em outras palavras, afasta o frio e o vento. Além disso, o tronco não é muito abalado e, por esse motivo, a embalagem faz com que as raízes jovens cresçam e se firmem no solo. Essas são necessariamente ainda frágeis; elas provêm apenas uma leve fixação, e um pouco de agitação as arranca do lugar. Esta base, além disso, Egíalo desbasta antes de cobri-la. Pois ele afirma que novas raízes brotam de todas as partes que foram podadas. Além disso, o tronco em si não deve ficar a mais de três ou quatro pés do chão. Pois assim haverá, ao mesmo tempo, um crescimento espesso do fundo, e evitará um grande tronco, todo seco e murchado, como é o caso dos velhos olivais.

19. A segunda maneira de transplanta-las era a seguinte: ele colhe ramos de tipo semelhante que são fortes e de casca macia, como costumam ser as de jovens mudas. Estes crescem um pouco mais devagar, mas, como eles brotam do que é praticamente um corte, não há rugosidade ou feiura neles.

20. Isso também já vi recentemente – uma videira envelhecida transplantada de sua própria plantação. Neste caso, as radículas também devem ser reunidas, se possível, e então você deve encobrir a haste da videira de forma mais generosa, de modo que as raízes possam surgir mesmo do cepo. Eu vi tais plantações feitas não só em fevereiro, mas no final de março; as plantas tomam controle e abraçam os troncos dos ulmeiros.

21. Mas todas as árvores, ele declara, que são, por assim dizer, “espessas”, devem ser auxiliadas com irrigação; se tivermos essa ajuda, somos nossos próprios criadores de chuva. Eu não pretendo contar mais nada desses preceitos, com medo de que, como Egíalo fez comigo, talvez eu esteja lhe treinando-lhe para ser meu concorrente.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Veja Carta. LI, Cartas de um estoico, volume IPúblio Cornélio Cipião Africano (m. 183 a.C.; em latim: Publius Cornelius Scipio Africanus Maior), mais conhecido apenas como Cipião Africano, foi um político da família dos Cipiões da gente Cornélia da República Romana eleito cônsul por duas vezes, em 205 e 194 a.C.. Um dos maiores generais romanos de toda a história, derrotou Aníbal na Batalha de Zama, encerrando a Segunda Guerra Púnica. Quando Cipião morreu em meio a acusações de seus rivais de ter aceitado suborno do rei da Síria selêucida, Antíoco III, a quem havia derrotado na Ásia Menor, auto-exilado em sua villa na Campânia, teria dito: “Minha pátria ingrata não terá meus ossos antes de morrer”.

[2] Cambises foi imperador da Pérsia pertencente à dinastia Aquemênida, que reinou entre 580 e 559 a.C..

[3] Até então, ao longo da história de Roma a cidade só fora conquistada uma única vez, durante as invasões gaulesas na guerra de 390-38 3 a.C..

[4] Numídia é o antigo nome de uma região do norte da África localizada no território onde hoje estão a Argélia e, em menor proporção, a Tunísia ocidental. O nome foi utilizado pela primeira vez por Políbio e outros historiadores durante o século III a.C. para indicar o território a oeste de Cartago

[5] Tasos, Tasso ou Tassos (grego: Θάσος, transl. Thássos;) é uma ilha grega no mar Egeu, próxima à costa da Macedônia. Era famosa devido a suas minas de ouro e mármore.

[6] Sobretudo no tempo do imperador Cláudio, os escravos libertos, em especial os do imperador, adquiriram uma enorme importância política e social e acumularam fortunas consideráveis. O imperador Cláudio manteve 4 libertos com ministros de estado. O comportamento de “novos ricos” dos libertos ficou imortalizado na literatura pelo Trimalquião de Petrónio (Satiricon, XXVI, 7). Uma das ações conduzidas pela classe senatorial no início do governo de Nero consistiu em reduzir a influência enorme desses.  O próprio Sêneca escreveu no ano 44 uma carta de consoloção ao liberto Políbio, na tentativa de escapar do exílio, ver Consolação a Políbio.

[7] Houve um profusão de balneários no reinado de Augusto: em 33 a.C. uma contagem efecruada por Agripa recenseava, só em Roma, 170 banhos públicos.

[8] Na Roma Antiga, Edil era um funcionário ou magistrado responsável por assegurar o bom estado e funcionamento dos edifícios, dos bens e dos serviços públicos.

[9] A gente Cornélia (em latim: gens Cornelia; pl. Cornelii) foi a mais distinta de todas as gentes da Roma Antiga, especialmente por ter produzido a maior quantidade de pessoas ilustres entre todas as grandes casas de Roma. Juntamente com os Fábios e Valérios, os Cornélios competiam pelos cargos mais altos da magistratura romana do século III a.C. em diante e muitos dos grandes generais romanos também eram Cornélios.

[10] Quinto Horácio Flaco, em latim Quintus Horatius Flaccus, (65 a.C. — 27 de novembro de 8 a.C.) foi um poeta lírico e satírico romano, além de filósofo. É conhecido por ser um dos maiores poetas da Roma Antiga.

[11] Horácio, Sátiras., 1, 2, 27.

[12] Trecho de Geórgicas, v. II, 58 de Virgílio.

[13] Trecho de Geórgicas, v. I, 215-216 de Virgílio.

[14] O milhete, milho-miúdo, milho-alvo ou painço são denominações dadas a várias espécies cerealíferas produzidas um pouco por todo o mundo para alimentação humana e animal. Estas espécies não formam um grupo taxonômico mas antes um grupo agronômico, baseado em características e usos similares.

Crescendo como estoico: Uma educação filosófica voltada para o caráter, a persistência e a garra

Artigo útil e prático para os estoicos com filhos, do site devitastoica.

Começa advertindo que, como pais, temos de dar o bom exemplo, só depois lições. Leah Goldrick aborda então como ensinar as quatro virtudes cardeais dos estoicos, tudo baseado em Musônio Rufo.

Gostei especialmente do exercício sugerido para praticar “determinação”, a jardinagem:

“Mexer com plantas é particularmente educativo para elas, visto que envolve o adiamento da gratificação e, ocasionalmente, a lição de que o trabalho duro nem sempre é recompensado. A determinação é requerida quando se está semeando, regando e cultivando as plantas, e somente no fim é que você aproveitará a comida que produziu.”

Leah Goldrick, traduzido pelo site.

Resenha: Sobre a Providência Divina

o desastre é a oportunidade da virtude

IV, 6

Sobre a Providência DivinaDe Providentia” é um ensaio em forma de diálogo em seis breves seções, escrito por Sêneca nos últimos anos de sua vida. Trata do problema da coexistência da providência divina com o mal no mundo. Foi endereçado á Lucílio, também destinatário das 124 cartas morais escritas por Sêneca.

O título completo da obra é “Quare bonis viris multa mala accidant, cum sit providentia” (“Por que infortúnios atingem os homens de bem, mesmo existindo a providência”). Este título mais longo reflete o verdadeiro tema do ensaio, que não se preocupa tanto com a providência[1], mas com a teodiceia[2] e a questão de por que coisas ruins acontecem com as pessoas boas.

O diálogo é iniciado por Lucílio reclamando com seu amigo Sêneca que adversidades e infortúnios também podem acontecer com homens bons. Como isso pode se encaixar com a bondade associada ao desígnio da providência? Sêneca responde de acordo com o ponto de vista estoico. Nada realmente ruim pode acontecer com o homem bom (o sábio), porque os opostos não se misturam. O que parece adversidade é na verdade um meio pelo qual o homem exerce as suas virtudes. Como tal, ele pode sair da experiência mais forte do que antes pois as calamidades não passam de desafios impostos aos homens de valor, para que se fortaleçam. Sêneca afirma que o homem de bem ”considera todas as desgraças como exercícios para sua própria firmeza” (§II, 2).

Assim, em perfeita harmonia com a filosofia estoica, Sêneca explica que o homem verdadeiramente sábio jamais poderá se render diante das desgraças, mas que como sempre passará por elas e mesmo que caia, continuará lutando de joelhos (“si cecidit de genu pugnat“). O sábio compreende a Fortuna e seu desígnio, e por isso não tem nada a temer do futuro. Tampouco tem expectativa de qualquer coisa, pois já tem tudo o que precisa: sua a virtude.

Sêneca não se apóia exclusivamente no estoicismo, mas também nas lições de sua vida glorioa e atribulada, em que não faltaram desafios. Sobre a Providência Divina foi escrito pouco tempo antes de Sêneca ser condenado a cometer suicídio por ordem de Nero. Antes Sêneca fora condenado à morte (e perdoado) por Calígula e também a oito anos de exílio pelo imperador Cláudio. Semanas antes de seus exílio Sêneca sofreu com a morte de seu único filho, ainda criança.

Conhecendo sua história, as palavras têm relevância e sabor especial. Sêneca torna o texto interessante graças a seu estilo persuasivo e poético, repleto de figuras de linguagem, parábolas e anedotas edificantes e enfáticas de personagens da antiguidade. O recurso, no entanto, o que se tomou sua marca foi o uso esmerado de frases curtas e pungentes, de muito efeito e alta expressividade, em forma de provérbios: “força e coragem definham sem um antagonista”(§II); “a má Fortuna que descobre gloriosos exemplos.”(§III); “o desastre é a oportunidade da virtude”(§IV);

Sêneca afirma que a má sorte além de provar o caráter do homem, atrás a verdadeira felicidade:

Ninguém me parece mais infeliz do que o homem a quem nenhuma desgraça jamais aconteceu. Nunca teve a oportunidade de testar a si mesmo; embora tudo lhe tenha acontecido conforme seu desejo, não, mesmo antes de ter formado um desejo, ainda assim os deuses o julgaram mal; nunca foi considerado digno de vencer a má fortuna, o que evita os maiores covardes.” (III, 3)

A conclusão é que, na verdade, nada de mal acontece aos homens bons. Basta entender o que significa mau: mau para o sábio seria ter maus pensamentos, cometer crimes, desejar dinheiro ou fama. Quem se comporta sabiamente, já tem todo o bem possível, todo o restante é indiferente.

Os únicos bens verdadeiros são os interiores, permanentes, e invulneráveis pelo destino(Fortuna), ao passo que a riqueza exterior é fútil e passageira acarretando uma felicidade fraca.


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Notas

[1] A Providência designa a ação no mundo de uma vontade externa (não humana, transcendente), levando os eventos a um fim. Referida como providência divina é um termo teológico que se refere a um poder supremo, superintendência, ou agência de Deus ou alguma divindade sobre eventos. Durante a Antiguidade, os debates filosóficos opuseram os epicuristas, segundo os quais a origem e a evolução do universo são precisamente apenas uma questão de acaso, aos estoicos neoplatonistas, para os quais – pelo contrário – elas resultam da vontade de um Criador ou mesmo da ação da natureza/universo (Logos para os estoicos).

[2] Teodiceia é um termo derivado do título da obra Ensaio de Teodiceia do filósofo alemão Leibniz, que justifica a existência de Deus a partir da discussão do problema da existência do mal e de sua relação com a bondade de Deus.

Carta 85: Sobre Silogismos Vazios

A carta 85 é longa, mas muito interessante e de difícil redução. Vale a pena ser lida integralmente. Responde ao pedido de Lucílio por explicações de silogismos da escola estoica e daqueles usados pelos oponentes. Sêneca reclama que não tem prazer ou vê utilidade nisso, e diz que “o resultado será um livro, em vez de uma carta!” (E com razão, a carta ficou com 41 parágrafos.)

Em resumo, trata-se de uma oposição à doutrina aristotélica do meio-termo também conhecida como “média áurea“. Esta doutrina dos peripatéticos defende que a felicidade seria atingida no meio termo desejável entre dois extremos, um de excesso e outro de deficiência. Sêneca discorda e afirma:

Eles não eliminam as paixões; eles apenas as moderam. Mas quão insignificante é a superioridade que atribuímos ao homem sábio, se ele é apenas mais corajoso do que o mais covarde, mais feliz do que o mais abatido, mais autocontrolado do que o mais desenfreado, e maior do que o mais baixo!” (LXXXV, 4)

Descreve e argumenta porque a escola estoica discorda dos seguidores de Artistóteles e aborda a firmeza de caráter do sábio estoico, assunto explorado em profundidade em “Sobre a Constância do Sábio“. A carta é concluída com um memorável parágrafo:

“Não era só de marfim que Fídias sabia fazer estátuas; ele também fez estátuas de bronze. Se você tivesse lhe dado mármore, ou um material ainda pior, ele teria feito dele a melhor estátua que o material permitiria. Assim, o sábio desenvolverá a virtude, se puder, no meio da riqueza ou, se não, no meio da pobreza; se possível, no seu próprio país – se não, no exílio; Se possível, como comandante – se não, como um soldado comum; se possível, em boa saúde – se não, enfraquecido.” (LVVVX, 40)

Imagem: Mural mostrando Aristóteles e Seus Discípulos. Universidade Nacional Kapodistriana de Atenas por Eduard Lebiedzki


LXXXV. Sobre Silogismos Vazios

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu estava inclinado a poupar você, e omitir qualquer problema intricado que ainda não tínhamos discutido; fiquei satisfeito em dar-lhe uma espécie de gosto das opiniões dos homens de nossa escola, que desejam provar que a virtude é por si só suficientemente capaz de obter a vida feliz. Mas agora você me mandou incluir todo o volume de nossos próprios silogismos ou daqueles que foram imaginados por outras escolas com a finalidade de nos menosprezar. Se eu estiver disposto a fazer isso, o resultado será um livro, em vez de uma carta! E declaro repetidas vezes que não tenho prazer em tais provas. Tenho vergonha de entrar na arena e empreender a batalha em nome dos deuses e dos homens armados apenas com uma sovela[1].

2. “Aquele que possui prudência é também contido, o que possui autocontenção também é inabalável, o inabalável é imperturbável, o imperturbável está livre da tristeza, o que está livre da tristeza é feliz. Portanto, o prudente é feliz, e a prudência é suficiente para constituir a vida feliz“.

3. Alguns dos peripatéticos[2] respondem a este silogismo interpretando “imperturbável”, “inabalável” e “livre da tristeza” de modo a tornar “imperturbável” quem raramente é perturbado e apenas um tanto moderado, e não aquele que nunca é perturbado. Da mesma forma, eles dizem que uma pessoa é dita “livre da tristeza” quando não está sujeita à tristeza, uma pessoa que raramente cai nesse estado censurável, e em um grau não muito grande. Não é, dizem eles, o natural humano que o espírito de um homem deva ser isento de tristeza, ou que o sábio não seja dominado pelo sofrimento, mas é apenas tocado por ele, e outros argumentos deste tipo, tudo de acordo com os ensinamentos de sua escola.

4. Eles não eliminam as paixões; eles apenas as moderam. Mas quão insignificante é a superioridade que atribuímos ao homem sábio, se ele é apenas mais corajoso do que o mais covarde, mais feliz do que o mais abatido, mais autocontrolado do que o mais desenfreado, e maior do que o mais baixo! Teria Ladas[3] orgulho de sua rapidez em correr, comparando-se com os coxos e os fracos?

Ela conseguia voar sobre a ponta das espigas de uma seara vi-rente sem na corrida atingir os tenros grãos; ou percorrer, suspensa, as grossas ondas do mar encapelado sem salpicar sequer os pés velozesIlla vel intactae segetis per summa volaret Gramina nec cursu teneras laesisset aristas, Vel mare per medium fluctu suspensa tumenti Ferret iter celeres nec tingueret aequore plantas.[4]

Esta é a velocidade estimada pelo seu próprio padrão, não do tipo que ganha elogios em comparação com o que é mais lento. Você chamaria de saudável um homem que tem um caso leve de febre? Não, pois uma boa saúde não significa doença moderada.

5. Dizem os peripatéticos: “O sábio é chamado imperturbável no sentido em que as romãs são chamadas maduras – não que não haja dureza em todas as suas sementes, mas que a dureza é menor do que era antes“. Essa visão é errada; pois não me refiro à eliminação gradual dos males em um homem bom, mas à completa ausência de males; não deveria haver nele nenhum mal, nem mesmo pequenos. Pois, se houver, crescerão e, à medida que crescerem, o estorvará. Assim como uma catarata completa cega totalmente os olhos, uma catarata de tamanho médio entorpece a visão.

6. Se por sua definição o homem sábio tem quaisquer paixões, sua razão não será nenhum adversário para elas e será carregada rapidamente, por assim dizer, em um córrego agitado. Particularmente se você atribuir a ele, não uma paixão contra qual deva lutar, mas todas as paixões. E uma multidão de tais, embora moderadas, podem afetá-lo mais do que a violência de uma poderosa paixão.

7. O sábio deles tem um desejo por dinheiro, embora em um grau moderado. Ele tem ambição, mas ainda não está totalmente despertada. Ele tem um temperamento quente, mas pode ser apaziguado. Ele tem inconstância, mas não o tipo que é muito caprichosa ou facilmente posta em movimento. Ele tem luxúria, mas não o tipo violento. Poderíamos lidar melhor com uma pessoa que possua um único vício pleno, do que com alguém que possua todos os vícios, mas nenhum deles em forma extrema.

8. Novamente, não faz diferença a grandeza da paixão; não importa qual seu tamanho possa ser, não reconhece nenhuma obediência, e não dá boas-vindas ao conselho. Assim como nenhum animal, selvagem ou domesticado, obedece à razão, já que natureza os fez surdos ao conselho; assim as paixões não seguem nem escutam, por mais que sejam moderadas. Tigres e leões nunca adiam a sua selvageria; eles às vezes a moderam, e então, quando você está menos preparado, sua ferocidade adormecida é despertada para a loucura. Vícios nunca são domesticados.

9. Novamente, se a razão prevalecer, as paixões nem sequer começarão; mas se elas se encaminharem contra a vontade da razão, elas se manterão contra a vontade da razão. Pois é mais fácil detê-las no começo do que controlá-las quando ganham força. Este meio caminho ( atenuação dos vícios, admitida pelos peripatéticos) é, portanto, enganoso e inútil; deve ser considerado como a declaração de que devemos ser moderadamente insanos ou moderadamente doentes.

10. A só a virtude possui moderação; os males que afligem a alma não admitem moderação. Você pode remove-los mais facilmente do que controlá-los. Pode-se duvidar de que os vícios da mente humana, quando se tornam crônicos e insensíveis (“doenças do espírito” nós os chamamos), estão fora de controle, como, por exemplo, a ganância, a crueldade e a indelicadeza? Portanto, as paixões também estão além do controle; porque é das paixões que passamos aos vícios.

11. Novamente, se você conceder quaisquer privilégios à tristeza, ao medo, ao desejo e a todos os outros impulsos errados, eles deixarão de estar sob nossa jurisdição. E porque? Simplesmente porque os meios de controlá-los estão fora do nosso próprio poder. Consequentemente, aumentarão proporcionalmente à medida que as causas pelas quais são agitados são maiores ou menores. O medo crescerá em proporções maiores, se o que causa o terror é visto como de maior magnitude ou em maior proximidade; e o desejo se tornará cada vez mais intenso na medida em que a esperança de um ganho maior o convoca à ação.

12. Se a existência das paixões não está no nosso próprio controle, nem está também a extensão de seu poder; pois se uma vez permitir que elas comecem, elas aumentarão juntamente com suas causas, e serão de qualquer tamanho que quiserem crescer. Além disso, não importa quão pequenos esses vícios são, eles crescem. O que é prejudicial nunca se mantém dentro dos limites. Não importa quão insignificantes sejam as doenças no começo, elas se arrastam rapidamente; e às vezes o menor aumento da doença derruba o corpo enfraquecido!

13. Mas que loucura é, quando o começo de certas coisas está situado fora de nosso controle, acreditar que seus fins estão sob nosso controle! Como terei eu o poder de trazer algo ao fim, quando eu não tive o poder de interromper isso no começo? Pois é mais fácil evitar uma coisa do que mantê-la sob controle após ela ter se estabelecido.

14. Alguns homens fazem uma distinção, dizendo: “Se um homem tem autocontrole e sabedoria, ele está de fato em paz quanto à atitude e ao hábito de sua mente, mas não quanto ao resultado, pois, no que se refere ao seu hábito mental, ele não está perturbado, triste ou temeroso, mas há muitas causas estranhas que o atingem e trazem perturbação a ele.”

15. O que eles querem dizer é isto: “Fulano não é de fato um homem de disposição irritada, mas ainda assim ele às vezes dá lugar à raiva“, e “ele não está, de fato, inclinado a temer, mas ainda assim às vezes tem medo“; em outras palavras, ele está livre da culpa, mas não está livre da paixão do medo. Se, no entanto, ao medo é dado uma entrada, irá pelo uso frequente passar a um vício; e a raiva, uma vez admitida na mente, irá alterar o hábito anterior de uma mente que antes estava livre de raiva.

16. Além disso, se o homem sábio, ao invés de desprezar todas as causas que vêm de fora, sempre teme alguma coisa, quando chegar o momento de ir bravamente de encontro as lanças ou chamas, em nome de seu país, suas leis, e sua liberdade, ele irá adiante relutantemente e com espírito enfraquecido. Tal inconsistência da alma, no entanto, não se adequa ao caráter de um homem sábio.

17. Então, novamente, devemos fazer com que dois princípios que devam ser demonstrados separadamente não devam ser confundidos. Pois a conclusão é alcançada independentemente de que só o que é bom que é honroso, e novamente independente a conclusão de que a virtude é suficiente para a vida feliz. Se só o que é bom que é honroso, todos concordam que a virtude é suficiente para o propósito de viver felizmente; mas, pelo contrário, se a virtude sozinha faz os homens felizes, não se admite que só o que é bom que é honroso.

18. Xenócrates[5] e Espeusipo[6] afirmam que um homem pode tornar-se feliz mesmo pela virtude sozinha, não, no entanto, que o que é honroso é o único bem[7]. Epicuro também decide que aquele que possui virtude é feliz, mas que a própria virtude não é suficiente para a vida feliz, porque o prazer que resulta da virtude, e não a própria virtude, torna-o feliz. Esta é uma distinção fútil. Pois o mesmo filósofo declara que a virtude nunca existe sem prazer; e portanto, se a virtude está sempre ligada ao prazer e sempre inseparável dela, a virtude é por si só suficiente. Pois a virtude mantém o prazer em sua companhia, e não existe sem ele, mesmo quando está sozinha.

19. Mas é absurdo dizer que um homem será feliz pela virtude sozinha, e ainda não absolutamente feliz. Eu não consigo descobrir como isso pode ser, uma vez que a vida feliz contém em si um bem que é perfeito e não pode ser melhorado, se um homem tem este bem, a vida é completamente feliz. Ora, se a vida dos deuses não contém nada maior ou melhor, e a vida feliz é divina, então não há mais altura para a qual um homem possa ser elevado.

20. Também, se à vida feliz não falta nada, então toda vida feliz é perfeita; é feliz e ao mesmo tempo a mais feliz. Você tem alguma dúvida de que a vida feliz é o Supremo Bem? Consequentemente, se ela possui o Bem Supremo, é supremamente feliz. Assim como o Bem Supremo não admite o aumento (pois o que será superior ao que é supremo?), exatamente assim a vida feliz também não pode ser aumentada; pois não existe sem o Bem Supremo. Se então você apresentar um homem que é “mais feliz” do que outro, você também vai apresentar alguém que é “muito mais feliz”; então você estará fazendo inúmeras distinções no Bem Supremo; embora eu entenda que o Bem Supremo seja aquele bem que não admite nenhum grau acima de si.

21. Se uma pessoa é menos feliz do que outra, segue-se que deseja ansiosamente a vida desse outro homem mais feliz do que a sua. Mas o homem feliz prefere a vida de nenhum outro homem a sua. Qualquer uma dessas duas coisas é incrível: que deva haver qualquer coisa faltando para um homem feliz desejar em preferência ao que é, ou que ele não deva preferir a coisa que é melhor do que o que já tem. Com certeza, quanto mais prudente ele for, tanto mais esforçara-se pelo melhor, e desejará alcançá-lo por todos os meios possíveis. Mas como se pode ser feliz quem ainda é capaz, ou melhor, quem ainda está obrigado a desejar algo mais?

22. Eu lhe direi qual é a origem desse erro: os homens não entendem que a vida feliz é uma unidade; pois é sua essência, e não sua extensão, que estabelece tal vida no mais nobre plano. Daí a completa igualdade entre a vida que é longa e a vida curta, entre aquilo que se estende e o que está confinado, entre aquilo cuja influência é sentida em muitos lugares e em muitas direções, e aquilo que se restringe a um interesse. Aqueles que contam a vida em número, ou por medida, ou por partes, roubam sua qualidade distintiva. Agora, na vida feliz, qual é a qualidade distintiva? É a sua plenitude.

23. Saciedade, penso eu, é o limite para o nosso comer ou beber. A come mais e B come menos; que diferença faz? Cada um está agora saciado. Ou A bebe mais e B bebe menos; que diferença faz? Cada um não está mais sedento, da mesma forma, A vive por muitos anos e B por menos; não importa, se os muitos anos de A trouxeram tanta felicidade quanto os poucos anos de B. Aquele que você diz ser “menos feliz” não é feliz; a palavra não admite nenhuma diminuição.

24. “Quem é valente não conhece o medo; quem não conhece o medo não conhece a tristeza; quem não conhece a tristeza é feliz.”. É a nossa própria escola que fabricou este silogismo; eles tentam refutá-lo com esta resposta, ou seja, que nós estoicos estamos assumindo uma premissa que é falsa e claramente controversa, – que o homem corajoso não sente medo. “O que!” Eles dirão: “Será que o homem corajoso não tem medo dos males que o ameaçam? Esta seria a condição de um louco, um lunático, em vez de um homem corajoso. O homem corajoso, é verdade, sentirá medo em apenas um leve grau, mas ele não está absolutamente livre de medo.”

25. Agora, aqueles que afirmam isso estão voltando a seu antigo argumento, na medida em que consideram os vícios de menor grau como equivalentes às virtudes. Pois, de fato, o homem que sente o medo, embora o sinta raramente e em menor grau, não está livre da maldade, mas está apenas perturbado por ela de uma forma suave. “Não é assim“, é a resposta, “porque eu considero que um homem é louco se ele não tem medo de males que pairam sobre sua cabeça.” O que você diz é perfeitamente verdadeiro, se as coisas que ameaçam são realmente males; mas se ele sabe que não são males e acredita que o único mal é a imoralidade, ele será compelido a enfrentar perigos sem ansiedade e desprezar as coisas que outros homens não podem deixar de temer. Ou, se é a característica de um tolo e um louco não temer males, então quanto mais sábio um homem for mais temerá tais coisas!

26. “É a doutrina de vocês estoicos, então,” eles respondem, “que um homem corajoso se exponha a perigos.” De jeito nenhum; ele simplesmente não os temerá, embora os evite. É bom para ele ter cuidado, mas não ter medo. “E então, não temerá a morte, o aprisionamento, o fogo, e todos os outros ataques da Fortuna?” De modo nenhum; pois ele sabe que eles não são males, mas só parecem ser. Ele considera todas essas coisas como espantalhos para assustar os homens.

27. Trace um quadro de escravidão, chicotes, correntes, carestia, mutilação por doença ou por tortura – ou qualquer outra coisa que possa querer mencionar; ele contará todas essas coisas como terrores causados pelo desarranjo da alma. Essas coisas só devem ser temidas por medrosos. Ou você considera como um mal algo que um dia poderemos ser obrigados a recorrer de nossa livre e espontânea vontade?

28. O que então, você pergunta, é um mal? É a submissão às coisas que se chamam males; é a entrega da própria liberdade ao seu controle, quando realmente devemos sofrer todas as coisas para preservar essa liberdade. A liberdade está perdida a menos que desprezemos as coisas que colocam o jugo[8] nos nossos pescoços. Se os homens soubessem o que é a bravura, eles não teriam dúvidas quanto ao que a conduta de um homem corajoso deveria ser. Pois a bravura não é imprudência, ou amor ao perigo, ou o cortejo de objetos inspiradores do medo; é o conhecimento que nos permite distinguir entre o que é o mal e o que não o é[9]. A bravura cuida de si mesmo, e também atura com a maior paciência todas as coisas que têm uma falsa aparência de serem más.

29. “O que então?” É a questão: “Se a espada é brandida sobre o pescoço do seu corajoso, se ele é perfurado neste lugar, se ele vê suas entranhas no colo, se ele for torturado novamente depois de ter descansado para que possa sentir a tortura com mais intensidade, e se o sangue corre novamente de seu intestino, onde há pouco deixou de fluir, ele não terá medo? Você diz que ele também não sente nenhuma dor?” Sim, ele sente dor; pois nenhuma virtude humana pode se livrar de sentidos. Mas ele não tem medo; sem abalo ele olha a baixo de uma altura elevada sobre seus sofrimentos. Você me pergunta que espírito o anima nessas circunstâncias? É o espírito de alguém que está confortando um amigo doente.

30. “Aquilo que é mau prejudica, o que prejudica piora o homem, mas a dor e a pobreza não pioram o homem, por isso não são males“. “Sua proposição,” diz o objetor, “é errada, pois o que prejudica não necessariamente faz alguém pior, a tempestade e a tormenta prejudicam o piloto, mas não fazem dele um piloto pior.”

31. Alguns estoicos respondem a este argumento da seguinte maneira: “O piloto torna-se um piloto pior por causa de tempestades ou rajadas, na medida em que não consegue cumprir o seu propósito e manter-se em seu curso; não se torna um piloto pior, mas em seu trabalho ele piora“. A isto, os peripatéticos retrucam: “Por isso, a pobreza tornará pior até mesmo o homem sábio, e assim também a dor, assim como qualquer outra coisa semelhante, pois, embora essas coisas não o roubem de sua virtude, elas irão prejudicar o trabalho da virtude“.

32. Esta seria uma afirmação correta, não fosse pelo fato de que o piloto e o sábio são dois tipos diferentes de pessoa. O propósito do homem sábio na condução de sua vida não é concluir todos os perigos que prova, mas fazer todas as coisas corretamente; O propósito do piloto, no entanto, é levar seu navio para o porto em todos os perigos. As artes são servas; elas devem realizar o que prometem fazer. Mas a sabedoria é senhora e governante. As artes rendem o serviço de escravo à vida; a sabedoria emite os comandos!

33. Para mim, eu sustento que uma resposta diferente deve ser dada: que a arte do piloto nunca é piorada pela tempestade, nem a aplicação de sua arte também. O piloto prometeu-lhe, não uma viagem próspera, mas um desempenho útil de sua tarefa – isto é, um conhecimento especializado de dirigir um navio. E quanto mais ele é dificultado pelo estresse da Fortuna, tanto mais seu conhecimento se torna aparente. Aquele que foi capaz de dizer: “Netuno, você nunca afundará este navio, exceto em um mar calmo[10]“, cumpriu os requisitos de sua arte; a tempestade não interfere com o trabalho do piloto, mas apenas com seu sucesso.

34. “O que, então”, você diz, “um piloto não é prejudicado por qualquer circunstância que não lhe permita fazer porto, frustre todos os seus esforços, e que o leva para o fundo, ou segura o navio em ferros ou remove seus mastros?” Não, não o prejudica como piloto, mas apenas como um viajante; caso contrário, ele não é um piloto. Na verdade, está longe de dificultar a arte do piloto, e até mesmo exibe a arte; pois qualquer um, nas palavras do provérbio, é um piloto em um mar calmo. Esses percalços obstruem a viagem, mas não o timoneiro na qualidade de timoneiro.

35. Um piloto tem um duplo papel: um que ele compartilha com todos os seus companheiros de viagem, pois ele também é um passageiro; o outro é peculiar a ele, pois ele é o piloto. A tempestade o prejudica como passageiro, mas não como piloto.

36. Mais uma vez, a arte do piloto é voltada ao exterior – diz respeito aos seus passageiros, assim como a arte de um médico diz respeito a seus pacientes. Mas o bem do sábio é um bem interno – pertence tanto àqueles em cuja companhia ele vive, como a ele também. Daí o nosso piloto pode ser prejudicado, uma vez que seus serviços, que foram prometidos aos outros, são prejudicados pela tempestade;

37. Mas o homem sábio não é prejudicado pela pobreza, pela dor ou por qualquer outra tempestade da vida. Pois todas as suas funções não são restringidas, mas apenas as que pertencem aos outros; ele mesmo está sempre em ação, e é maior em desempenho no momento em que a fortuna atrapalha seu caminho. Pois então ele está realmente envolvido no negócio da sabedoria; e esta sabedoria que já declarei ser, tanto o bem dos outros, como também de si próprio.

38. Além disso, ele não está impedido de ajudar os outros, mesmo no momento em que as circunstâncias restritivas o pressionam. Por causa de sua pobreza, ele é impedido de mostrar como o Estado deve ser governado; mas ele ensina, não obstante, como a pobreza deve ser governada. O seu trabalho continua durante toda a sua vida. Assim, nenhuma fortuna, nenhuma circunstância externa, pode isolar o sábio da ação. Pois a própria coisa que envolve sua atenção o impede de atender a outras coisas. Ele está pronto para qualquer resultado: se traz bens, ele os controla; se males, ele os conquista.

39. Tão profundamente, quero dizer, ele se treinou a demonstrar sua virtude tanto na prosperidade quanto na adversidade, e mantém seus olhos na própria virtude, não nos objetos com os quais a virtude trata. Daí que nem a pobreza, nem a dor, nem qualquer outra coisa que desvie os inexperientes e os conduz ao fracasso, o impede o sábio de seguir seu curso.

40. Você acha que ele está sobrecarregado por males? Ele faz uso deles. Não era só de marfim que Fídias[11] sabia fazer estátuas; ele também fez estátuas de bronze. Se você tivesse lhe dado mármore, ou um material ainda pior, ele teria feito dele a melhor estátua que o material permitiria. Assim, o sábio desenvolverá a virtude, se puder, no meio da riqueza ou, se não, no meio da pobreza; se possível, no seu próprio país – se não, no exílio; Se possível, como comandante – se não, como um soldado comum; se possível, em boa saúde – se não, enfraquecido. Qualquer que seja a fortuna que se encontre, conseguirá algo digno de nota.

41. Alguns dos domadores de animais são infalíveis; eles tomam os animais mais selvagens, que podem muito bem aterrorizar qualquer um que os encontrar, e subjuga-os à vontade do homem, não se contentando em expulsar a sua ferocidade, eles até os domam para que habitem a mesma casa. O treinador coloca a mão na boca do leão; o tigre é beijado por seu dono. O minúsculo etíope ordena o elefante afundar-se em seus joelhos, ou andar a corda. Da mesma forma, o sábio é uma mão qualificada para domar males. A dor, a carestia, a desgraça, a prisão, o exílio – estes são universalmente temíveis – mas quando eles encontram o homem sábio, são domesticados!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Sovela é uma ferramenta utilizada em curtumes e marcenarias que é usada para fazer um furo no couro, por onde, posteriormente uma linha com agulha será adentrada para costura. Alusão a arma não apropriada para a batalha em questão.

[2] Membros da Escola Peripatética, um círculo filosófico da Grécia Antiga que basicamente seguia os ensinamentos de Aristóteles, seu fundador. “Peripatético” (em grego, περιπατητικός), é a palavra grega para ‘ambulante’ ou ‘itinerante’. Peripatéticos (ou ‘os que passeiam’) eram assim chamados em razão do hábito do filósofo de ensinar ao ar livre, caminhando enquanto lia e dava preleções.

[3] Ladas de Aegio foi um antigo atleta grego listado por Eusébio de Cesaréia como vitorioso na corrida de estádios da 125ª Olimpíada (280 AC).

[4] Trecho de Eneida,VII, 808-811 de Virgílio. As linhas descrevem Camilla, a guerreira-caçadora dos Volscos.

[5] Xenócrates (406 a.C. — 314 a.C.) foi um filósofo grego discípulo de Platão, a quem acompanhou à Sicília, sucedendo Espeusipo, após o suicídio deste.

[6]Espeusipo (,408 a.C. — 339 a.C.) foi um filósofo grego, sobrinho de Platão, a quem sucedeu na direção da Academia.

[7] Ver carta LXXI, 18

[8] Jugo, parelha ou canga é uma peça de madeira encaixada sobre a cabeça dos bois para que possam ser atrelados a uma carroça ou a um arado.

[9] Além dessa definição (padrão estoico) da terceira virtude cardinal, também encontramos “conhecimento sobre o que escolher e o que evitar”, “saber suportar as coisas” e, finalmente, “a vontade de empreender grandes feitos”.

[10] A figura do piloto é frequente na filosofia, de Platão em diante. Veja Sêneca, Ep. XXX. O mesmo argumento, aplicado ao músico, é encontrado em Ep.LXXXVII.

[11] Fídias foi um célebre escultor da Grécia Antiga. Sua biografia é cheia de lacunas e incertezas, e o que se tem como certo é que ele foi o autor de duas das mais famosas estátuas da Antiguidade, a Atena Partenos e o Zeus Olímpico, e que sob a proteção de Péricles encarregou-se da supervisão de um vasto programa construtivo em Atenas, concentrado na reedificação da Acrópole, devastada pelos persas em 480 a.C.

Catão diante da morte

Marco Pórcio Catão Uticense (Marcus Porcius Cato Uticensis), também conhecido como Catão de Útica ou Catão, o Jovem, foi um político romano célebre pela sua inflexibilidade e integridade moral. Viveu na época de Julio César e foi grande defensor da república.

Sêneca o cita frequentemente como exemplo do sábio estoico ideal. ( aqui e aqui, entre outros)

O artigo “Catão de Útica diante da morte” de Donato Ferrara é uma excelente fonte para conhecermos mais dele.

Catão de Útica diante da morte

Imagem: Morte de Catão por Jean-Paul Laurens

Carta 84: Sobre coletar ideias

Sêneca começa a carta com uma anedota particular: diz estar “fazendo exercício por procuração” ou seja, viajava de liteira, e quem fazia exercício eram os escravos que o carregavam! Não é atoa que ele foi (e continua sendo) acusado de hipocrisia por recomendar pobreza e vida frugal enquanto era um dos homens mais ricos do império.

A carta 84 é uma profunda meditação sobre o processo e o propósito da leitura. Sêneca argumenta que a leitura impede que se absorva a si mesmo e que bons leitores estão envolvidos em uma relação de diálogo com seus textos. Sêneca sustenta ainda que o próprio ato de escrever deve ser um reflexo de leitura cuidadosa:

“a leitura, penso eu, é indispensável: principalmente, para impedir a auto complacência, e, além disso, depois de ter aprendido o que os outros descobriram por meio de seus estudos, me permitir julgar suas descobertas e conjecturar sobre as quais ainda precisam ser feitas.” (LXXXIV, 1)

Acima de tudo, ele se preocupa em que façamos do conhecimento nosso dever. Como sempre, Sêneca não hesita em misturar metáforas para ilustrar seu ponto de vista, ou em mudar rapidamente de uma analogia para outra. Começa com analogia com as abelhas, ou seja, de devemos coletar de diversas fontes, passa para a imagem de um coro de muitas vozes e então diz que a leitura deve ser como os alimentos que consumimos: só nos são benéficos se digeridos e assimilados:

“Devemos seguir o exemplo das abelhas, que esvoaçam e selecionam as flores que são adequadas para a produção de mel, e depois organizar e classificar em seus favos tudo o que trouxeram.” (LXXXIV, 3)

“Devemos digeri-lo; caso contrário, simplesmente entrará na memória e não acrescentará nosso poder de raciocínio.” (LXXXIV, 7)

A seção 11 e seguintes compreende uma exortação geral à filosofia, na qual Sêneca deixa seu ponto central para trás. Observe, no entanto, como a carta termina quando começa com referência a uma viagem. É quase como se estivéssemos imaginando Sêneca escrevendo esta carta no caminho enquanto ele é transportado pela cidade em sua liteira.

(Imagem: pintura por Piotr Stachiewicz)


LXXXIV. Sobre coletar ideias

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. As viagens às quais você se refere – jornadas que afastam a preguiça do meu sistema – considero serem produtivas tanto para a minha saúde como para os meus estudos. Você percebe porque elas beneficiam a minha saúde: uma vez que minha paixão pela literatura me torna preguiçoso e descuidado em relação ao meu corpo, eu posso fazer exercício por procuração[1]; quanto aos meus estudos, mostrar-lhe-ei porque as minhas viagens os ajudam, pois não deixei de ler de forma alguma. E a leitura, penso eu, é indispensável: principalmente, para impedir a auto complacência, e, além disso, depois de ter aprendido o que os outros descobriram por meio de seus estudos, me permitir julgar suas descobertas e conjecturar sobre as quais ainda precisam ser feitas. A leitura nutre a mente e a refresca quando está cansada de estudo; no entanto, este refresco não é obtido sem estudo.

2. Não devemos limitar-nos nem à escrita, nem à leitura; a escrita contínua irá macular nossa força e a esgotará; a leitura sozinha fará a nossa força flácida e aguada. É melhor recorrer a elas alternadamente, e misturar uma com a outra, para que os frutos da leitura possam ser reduzidos à forma concreta pela pena.

3. Devemos seguir, dizem os homens, o exemplo das abelhas, que esvoaçam e selecionam as flores que são adequadas para a produção de mel, e depois organizar e classificar em seus favos tudo o que trouxeram; essas abelhas, como diz nosso Virgílio:

“o liquido mel acumulam, e fazem inchar os alvéolos de doce néctarliquentia mella Stipant et dulci distendunt nectare cellas.[2]

4. Não é certo se o suco que obtêm das flores se forma logo no mel, ou se transformam aquilo que recolhem neste objeto delicioso misturando algo ou por uma determinada propriedade de sua respiração. Pois algumas autoridades acreditam que as abelhas não possuem a arte de fazer mel, mas apenas de colhê-lo; e dizem que na índia o mel é encontrado nas folhas de certos juncos, produzido por um orvalho peculiar a esse clima, ou pelo suco da própria cana[3], que tem uma doçura e uma riqueza incomuns. E em nossas próprias gramíneas também, eles dizem, a mesma qualidade existe, embora menos clara e menos evidente; e uma criatura nascida para cumprir tal função poderia caçá-la e coletá-la. Alguns outros sustentam que os materiais que as abelhas retiraram das mais delicadas plantas florescentes são transformados nessa substância peculiar por um processo de conservação e armazenamento cuidadoso, auxiliado pelo que se poderia chamar de fermentação – por meio do qual elementos separados são unidos em uma substância.

5. Mas eu não devo desviar do assunto que estamos discutindo. Nós também, eu digo, devemos copiar estas abelhas, e peneirar tudo o que temos reunido de um curso variado de leitura, pois tais coisas são melhor preservadas se forem mantidas separadas; então, aplicando o cuidado de supervisão com que a nossa natureza nos dotou, ou seja, os nossos dons naturais, devemos misturar esses vários sabores num delicioso composto que, apesar de revelar sua origem, é certamente uma coisa diferente daquela de onde veio. Isto é o que vemos a natureza fazer em nossos próprios corpos sem nenhum trabalho de nossa parte;

6. O alimento que comemos, enquanto retém a sua qualidade original e permaneça, em nossos estômagos como uma massa não diluída, é um fardo; mas ele se torna tecido e sangue apenas quando for alterado de sua forma original. Assim é com a comida que nutre nossa natureza superior – devemos cuidar para que tudo o que tenhamos ingerido não seja permitido permanecer inalterado, ou não será parte de nós.

7. Devemos digeri-lo; caso contrário, simplesmente entrará na memória e não acrescentará nosso poder de raciocínio. Acolhamos fielmente tais alimentos e os façamos nossos próprios, de modo que algo único possa ser formado de muitos elementos, assim como um número é formado por vários elementos sempre que, segundo nosso cálculo, montantes menores, cada um diferente dos outros, são somados. Isto é o que a nossa mente deve fazer: deve esconder todos os materiais utilizados, e trazer à luz apenas o que foi feito deles.

8. Mesmo que se torne visível em você uma semelhança com um autor que, por causa de sua admiração, deixou-lhe uma profunda impressão, gostaria que se assemelhasse a ele como uma criança se assemelha a seu pai, e não como um retrato se assemelha a seu original; pois uma imagem é uma coisa sem vida. “O que“, você diz, “não será óbvio o estilo cujo qual você está imitando, o método de raciocínio, as palavras pungentes?” Acho que às vezes é impossível ver quem está sendo imitado, se a cópia é verdadeira; pois uma intelegência verdadeira carimba sua própria forma sobre todas as características que ela tirou do que podemos chamar de original, de tal forma que elas são combinadas em uma unidade.

9. Você não vê quantas vozes há em um coro? No entanto, do conjunto resulta-se uma única voz. Nesse coro uma voz toma o tenor outra o baixo, outra o barítono. Há mulheres, também, assim como homens, e a flauta é misturada com elas. Nesse coro as vozes dos cantores individuais estão escondidas; o que ouvimos são as vozes de todos juntos.

10. Certamente, refiro-me ao coro que os antigos filósofos conheciam; em nossas apresentações atuais temos um número maior de cantores do que costumava ter de espectadores nos teatros antigos. Todas as alas estão repletas de filas de cantores; os instrumentos de bronze cercam o auditório; O palco ressoa com flautas e instrumentos de toda descrição; e mesmo assim, dos sons discordantes, é produzida uma harmonia. Eu gostaria de ter tal qualidade como esta para minha mente; ela deve ser equipada com muitas artes, muitos preceitos e padrões de conduta tomados de muitas épocas da história; mas tudo deve misturar harmoniosamente em um todo.

11. “Como“, você pergunta, “isso pode ser realizado?” Por esforço constante, e por não fazer nada sem a aprovação da razão. E, se quiserem ouvir a sua voz, ela lhe dirá: “Abandone as perseguições que até agora lhe fez correr para cá e para lá. Abandone as riquezas, que são um perigo ou um fardo para o possuidor. Abandone os prazeres do corpo e da mente, eles apenas o amolecem e o enfraquecem…” Abandone sua busca por cargos, é uma coisa empolada, ociosa e vazia, uma coisa que não tem limites, tão ansiosa em não ter superiores como em evitar até os iguais, sempre torturada pela inveja, e uma inveja ainda por cima dupla: veja quão miserável é a situação de um homem quando é objeto de inveja ele próprio, tem inveja de outros.

12. Você contempla as casas dos grandes senhores, aquelas de soleiras ruidosas dos clientes que se atropelam na entreda? Eles têm muitos insultos para você assim que entra pela porta, e ainda mais depois de ter entrado. Passe pelos degraus que levam às casas dos ricos, e as varandas tornadas perigosas pela enorme multidão; pois lá você estará, não meramente na borda de um precipício, mas também em um terreno escorregadiço. Em vez disso, dirija o seu caminho para a sabedoria, e procure seus caminhos, que são formas de transcender a paz e a abundância.

13. Tudo o que parece notável nos assuntos dos homens – por insignificante que sejam, e apenas se destacam em contraste com os objetos mais baixos – é, no entanto, atingido por um caminho difícil e penoso. É um caminho acidentado que leva às alturas da grandeza; mas se você deseja escalar este pico, que está bem acima do alcance da Fortuna, você realmente verá aos seus pés tudo o que os homens consideram como o mais sublime, mas deste ponto em diante você poderá prosseguir para o bem supremo em um terreno plano.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Sêneca viajava de liteira, ou seja, na realidade quem fazia exercício eram os escravos que o carregavam.  Veja carta 55, em que Sêneca cita até que ponto um passeio de liteira pode equivaler a um exercício físico para um homem de idade.

[2] Trecho de Eneida, de Virgílio, I 432-3.

[3] Cana de açúcar é originária da Índia e, posteriormente, foi levada para a Europa e Américas.

Resenha: Sobre a Constância do Sábio

Sobre a Constância do Sábio é um ensaio moral escrito por Sêneca em forma de um diálogo. A obra celebra a serenidade do sábio estoico ideal que, com firmeza interior, é imune às injúrias e adversidades. É dirigido ao seu amigo Aneu Sereno e foi escrito entre os anos 47 e 62, sendo um dos três diálogos endereçados a Sereno, que também inclui “Sobre a tranquilidade da alma” e “Sobre o ócio”.

O ensaio apresenta a ideia do sábio estoico em termos claros e práticos: ele é um modelo a ser almejado, mas é uma figura plausível. De certa forma, o papel do sábio no estoicismo é semelhante ao de Jesus Cristo ou Buda: mostrar o caminho. Contudo Sêneca deixa claro que está falando de pessoas reais ao mencionar uma em particular, Marco Catão:

“Não venha dizer, tal como é seu costume, que esse nosso sábio não existe em lugar algum. Não somos nós que projetamos essa fantasmagoria gloriosa do gênero humano, nem é ela mera idealização grandiosa de uma figura fictícia. …. Além do mais, esse mesmo Catão que motivou toda essa nossa explanação, receio que até supere o modelo em pauta.” (VII, 1)

Sêneca começa o ensaio lembrando seu amigo que o progresso requer esforço, mas que, tornar-se um estoico, não é tão difícil quanto muitos acreditam. Diz que coisas difíceis parecem impossíveis ao olhos dos não iniciados, mas uma vez iniciada a jornada, descobre-se o caminho:

“muitas serras vistas de muito longe parecem íngremes e agrupadas, porque a distância engana nossa visão, e então, à medida que nos aproximamos, aquelas mesmas serras que nossos olhos equivocados haviam unido se desdobram gradualmente, aquelas partes que pareciam precipitadas de longe, assumem um contorno suavemente inclinado.” (I, 2)

No capítulo V, é feita então a distinção entre iniuria (injúria) e contumelia (insulto), seguindo o ensaio com discussões sobre a natureza dos dois temas, mostrando que o sábio é imune tanto a insultos quanto a injúrias. Apesar das palavras soarem como sinônimos atualmente, Sêneca as usa de forma distinta “deixe-nos distinguir injúria e insulto. O primeiro é naturalmente o mais doloroso, o segundo menos importante, e doloroso apenas para os de pele fina, pois enfurece os homens, mas não os fere…” (V,1)

Na sequência, Sêneca afirma que nem mesmo a Fortuna pode tirar-nos o que não nos deu, e que portanto, nada nos pode tirar a virtude, porque a virtude não nos é dada, é algo que vem de dentro. Sendo assim, nenhum dano real pode ser infligido ao homem sábio. O tema da Fortuna volta na seção VI, onde Sêneca diz: “pode suportar as adversidades com calma e a prosperidade com moderação, não cedendo à primeira nem confiando na segunda, podendo permanecer o mesmo em meio a todas as variantes da Fortuna, e não pensando que nada seja seu, a não ser ele próprio“. A frase é um bom resumo da atitude estoica para com os “indiferentes“, ou seja, coisas que estão fora de nosso controle.

Outra característica do sábio é que ele está livre do medo, pois o medo se origina na percepção de que a pessoa pode ser ferida, mas como já vimos, nada pode realmente ferir o sábio. Esse ponto é esclarecido adiante:

Algumas outras coisas atingem o sábio, embora não abalem seus princípios, como a dor e a fraqueza corporal, a perda de amigos e filhos e a ruína de seu país em tempos de guerra.Não negamos que é uma coisa desagradável ser espancado ou golpeado, ou perder um de nossos membros, mas dizemos que nenhuma dessas coisas são injúrias. Não lhes tiramos a sensação de dor, mas o nome de “injúria”, que não pode ser atribuído enquanto a nossa virtude estiver intacta. (X,4 e XVI,2)

Nos capítulos XI e XII Sêneca aprofunda o argumento de que o sábio não pode ser insultado. Ele nos lembra que crianças pequenas nos fazem todo tipo de coisas que não são agradáveis, e ainda assim não nos sentimos ofendidos pelo seu comportamento. De forma análoga, o sábio trata como crianças as pessoas que tentam feri-lo por insultos: devem ser ignoradas, ou corrigidas, se possível. Mais a frente, aprendemos que o sábio não tem prazer em ser admirado, seja por mendigos ou por milionários: “Assim também não se admirará a si mesmo, ainda que muitos homens ricos o admirem; pois sabe que eles não diferem em nenhum aspecto dos mendigos – não, são ainda mais infelizes do que eles; pois os mendigos só querem um pouco, enquanto os ricos querem muito.” (XIII, 3)

Mais uma passagem excepcional vem no capítulo XVI, quando Sêneca considera duas possíveis razões pelas quais algo de ruim nos acontece, e ensina como devemos responder de forma estoica:

Será que estas coisas me acontecem merecidamente ou sem merecer? Se merecidamente, não é um insulto, mas uma sentença judicial; se imerecidamente, quem faz injustiça deve se envergonhar, não eu”. (XVI, 3)

Segue-se com a sugestão de usar o humor autodepreciativo para lidar com insultos, porque é difícil rir de alguém que ri de si próprio antes. Além disso, porque essa é uma maneira muito eficaz de simplesmente estragar a diversão do seu oponente. Em linhas gerais, “o sucesso de um insulto reside na sensibilidade e na raiva da vítima.” (XVI, 4)

Tudo considerado, a imagem do sábio que emerge deste texto é, como prometido no início, a de alguém que pode, com esforço, ser copiado. A sabedoria não é inalcançável e lutar por ela é certamente o objetivo do estudante de estoicismo, ou seja, todos nós que somos imperfeitos.


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