Carta 85: Sobre Silogismos Vazios

A carta 85 é longa, mas muito interessante e de difícil redução. Vale a pena ser lida integralmente. Responde ao pedido de Lucílio por explicações de silogismos da escola estoica e daqueles usados pelos oponentes. Sêneca reclama que não tem prazer ou vê utilidade nisso, e diz que “o resultado será um livro, em vez de uma carta!” (E com razão, a carta ficou com 41 parágrafos.)

Em resumo, trata-se de uma oposição à doutrina aristotélica do meio-termo também conhecida como “média áurea“. Esta doutrina dos peripatéticos defende que a felicidade seria atingida no meio termo desejável entre dois extremos, um de excesso e outro de deficiência. Sêneca discorda e afirma:

Eles não eliminam as paixões; eles apenas as moderam. Mas quão insignificante é a superioridade que atribuímos ao homem sábio, se ele é apenas mais corajoso do que o mais covarde, mais feliz do que o mais abatido, mais autocontrolado do que o mais desenfreado, e maior do que o mais baixo!” (LXXXV, 4)

Descreve e argumenta porque a escola estoica discorda dos seguidores de Artistóteles e aborda a firmeza de caráter do sábio estoico, assunto explorado em profundidade em “Sobre a Constância do Sábio“. A carta é concluída com um memorável parágrafo:

“Não era só de marfim que Fídias sabia fazer estátuas; ele também fez estátuas de bronze. Se você tivesse lhe dado mármore, ou um material ainda pior, ele teria feito dele a melhor estátua que o material permitiria. Assim, o sábio desenvolverá a virtude, se puder, no meio da riqueza ou, se não, no meio da pobreza; se possível, no seu próprio país – se não, no exílio; Se possível, como comandante – se não, como um soldado comum; se possível, em boa saúde – se não, enfraquecido.” (LVVVX, 40)

Imagem: Mural mostrando Aristóteles e Seus Discípulos. Universidade Nacional Kapodistriana de Atenas por Eduard Lebiedzki


LXXXV. Sobre Silogismos Vazios

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu estava inclinado a poupar você, e omitir qualquer problema intricado que ainda não tínhamos discutido; fiquei satisfeito em dar-lhe uma espécie de gosto das opiniões dos homens de nossa escola, que desejam provar que a virtude é por si só suficientemente capaz de obter a vida feliz. Mas agora você me mandou incluir todo o volume de nossos próprios silogismos ou daqueles que foram imaginados por outras escolas com a finalidade de nos menosprezar. Se eu estiver disposto a fazer isso, o resultado será um livro, em vez de uma carta! E declaro repetidas vezes que não tenho prazer em tais provas. Tenho vergonha de entrar na arena e empreender a batalha em nome dos deuses e dos homens armados apenas com uma sovela[1].

2. “Aquele que possui prudência é também contido, o que possui autocontenção também é inabalável, o inabalável é imperturbável, o imperturbável está livre da tristeza, o que está livre da tristeza é feliz. Portanto, o prudente é feliz, e a prudência é suficiente para constituir a vida feliz“.

3. Alguns dos peripatéticos[2] respondem a este silogismo interpretando “imperturbável”, “inabalável” e “livre da tristeza” de modo a tornar “imperturbável” quem raramente é perturbado e apenas um tanto moderado, e não aquele que nunca é perturbado. Da mesma forma, eles dizem que uma pessoa é dita “livre da tristeza” quando não está sujeita à tristeza, uma pessoa que raramente cai nesse estado censurável, e em um grau não muito grande. Não é, dizem eles, o natural humano que o espírito de um homem deva ser isento de tristeza, ou que o sábio não seja dominado pelo sofrimento, mas é apenas tocado por ele, e outros argumentos deste tipo, tudo de acordo com os ensinamentos de sua escola.

4. Eles não eliminam as paixões; eles apenas as moderam. Mas quão insignificante é a superioridade que atribuímos ao homem sábio, se ele é apenas mais corajoso do que o mais covarde, mais feliz do que o mais abatido, mais autocontrolado do que o mais desenfreado, e maior do que o mais baixo! Teria Ladas[3] orgulho de sua rapidez em correr, comparando-se com os coxos e os fracos?

Ela conseguia voar sobre a ponta das espigas de uma seara vi-rente sem na corrida atingir os tenros grãos; ou percorrer, suspensa, as grossas ondas do mar encapelado sem salpicar sequer os pés velozesIlla vel intactae segetis per summa volaret Gramina nec cursu teneras laesisset aristas, Vel mare per medium fluctu suspensa tumenti Ferret iter celeres nec tingueret aequore plantas.[4]

Esta é a velocidade estimada pelo seu próprio padrão, não do tipo que ganha elogios em comparação com o que é mais lento. Você chamaria de saudável um homem que tem um caso leve de febre? Não, pois uma boa saúde não significa doença moderada.

5. Dizem os peripatéticos: “O sábio é chamado imperturbável no sentido em que as romãs são chamadas maduras – não que não haja dureza em todas as suas sementes, mas que a dureza é menor do que era antes“. Essa visão é errada; pois não me refiro à eliminação gradual dos males em um homem bom, mas à completa ausência de males; não deveria haver nele nenhum mal, nem mesmo pequenos. Pois, se houver, crescerão e, à medida que crescerem, o estorvará. Assim como uma catarata completa cega totalmente os olhos, uma catarata de tamanho médio entorpece a visão.

6. Se por sua definição o homem sábio tem quaisquer paixões, sua razão não será nenhum adversário para elas e será carregada rapidamente, por assim dizer, em um córrego agitado. Particularmente se você atribuir a ele, não uma paixão contra qual deva lutar, mas todas as paixões. E uma multidão de tais, embora moderadas, podem afetá-lo mais do que a violência de uma poderosa paixão.

7. O sábio deles tem um desejo por dinheiro, embora em um grau moderado. Ele tem ambição, mas ainda não está totalmente despertada. Ele tem um temperamento quente, mas pode ser apaziguado. Ele tem inconstância, mas não o tipo que é muito caprichosa ou facilmente posta em movimento. Ele tem luxúria, mas não o tipo violento. Poderíamos lidar melhor com uma pessoa que possua um único vício pleno, do que com alguém que possua todos os vícios, mas nenhum deles em forma extrema.

8. Novamente, não faz diferença a grandeza da paixão; não importa qual seu tamanho possa ser, não reconhece nenhuma obediência, e não dá boas-vindas ao conselho. Assim como nenhum animal, selvagem ou domesticado, obedece à razão, já que natureza os fez surdos ao conselho; assim as paixões não seguem nem escutam, por mais que sejam moderadas. Tigres e leões nunca adiam a sua selvageria; eles às vezes a moderam, e então, quando você está menos preparado, sua ferocidade adormecida é despertada para a loucura. Vícios nunca são domesticados.

9. Novamente, se a razão prevalecer, as paixões nem sequer começarão; mas se elas se encaminharem contra a vontade da razão, elas se manterão contra a vontade da razão. Pois é mais fácil detê-las no começo do que controlá-las quando ganham força. Este meio caminho ( atenuação dos vícios, admitida pelos peripatéticos) é, portanto, enganoso e inútil; deve ser considerado como a declaração de que devemos ser moderadamente insanos ou moderadamente doentes.

10. A só a virtude possui moderação; os males que afligem a alma não admitem moderação. Você pode remove-los mais facilmente do que controlá-los. Pode-se duvidar de que os vícios da mente humana, quando se tornam crônicos e insensíveis (“doenças do espírito” nós os chamamos), estão fora de controle, como, por exemplo, a ganância, a crueldade e a indelicadeza? Portanto, as paixões também estão além do controle; porque é das paixões que passamos aos vícios.

11. Novamente, se você conceder quaisquer privilégios à tristeza, ao medo, ao desejo e a todos os outros impulsos errados, eles deixarão de estar sob nossa jurisdição. E porque? Simplesmente porque os meios de controlá-los estão fora do nosso próprio poder. Consequentemente, aumentarão proporcionalmente à medida que as causas pelas quais são agitados são maiores ou menores. O medo crescerá em proporções maiores, se o que causa o terror é visto como de maior magnitude ou em maior proximidade; e o desejo se tornará cada vez mais intenso na medida em que a esperança de um ganho maior o convoca à ação.

12. Se a existência das paixões não está no nosso próprio controle, nem está também a extensão de seu poder; pois se uma vez permitir que elas comecem, elas aumentarão juntamente com suas causas, e serão de qualquer tamanho que quiserem crescer. Além disso, não importa quão pequenos esses vícios são, eles crescem. O que é prejudicial nunca se mantém dentro dos limites. Não importa quão insignificantes sejam as doenças no começo, elas se arrastam rapidamente; e às vezes o menor aumento da doença derruba o corpo enfraquecido!

13. Mas que loucura é, quando o começo de certas coisas está situado fora de nosso controle, acreditar que seus fins estão sob nosso controle! Como terei eu o poder de trazer algo ao fim, quando eu não tive o poder de interromper isso no começo? Pois é mais fácil evitar uma coisa do que mantê-la sob controle após ela ter se estabelecido.

14. Alguns homens fazem uma distinção, dizendo: “Se um homem tem autocontrole e sabedoria, ele está de fato em paz quanto à atitude e ao hábito de sua mente, mas não quanto ao resultado, pois, no que se refere ao seu hábito mental, ele não está perturbado, triste ou temeroso, mas há muitas causas estranhas que o atingem e trazem perturbação a ele.”

15. O que eles querem dizer é isto: “Fulano não é de fato um homem de disposição irritada, mas ainda assim ele às vezes dá lugar à raiva“, e “ele não está, de fato, inclinado a temer, mas ainda assim às vezes tem medo“; em outras palavras, ele está livre da culpa, mas não está livre da paixão do medo. Se, no entanto, ao medo é dado uma entrada, irá pelo uso frequente passar a um vício; e a raiva, uma vez admitida na mente, irá alterar o hábito anterior de uma mente que antes estava livre de raiva.

16. Além disso, se o homem sábio, ao invés de desprezar todas as causas que vêm de fora, sempre teme alguma coisa, quando chegar o momento de ir bravamente de encontro as lanças ou chamas, em nome de seu país, suas leis, e sua liberdade, ele irá adiante relutantemente e com espírito enfraquecido. Tal inconsistência da alma, no entanto, não se adequa ao caráter de um homem sábio.

17. Então, novamente, devemos fazer com que dois princípios que devam ser demonstrados separadamente não devam ser confundidos. Pois a conclusão é alcançada independentemente de que só o que é bom que é honroso, e novamente independente a conclusão de que a virtude é suficiente para a vida feliz. Se só o que é bom que é honroso, todos concordam que a virtude é suficiente para o propósito de viver felizmente; mas, pelo contrário, se a virtude sozinha faz os homens felizes, não se admite que só o que é bom que é honroso.

18. Xenócrates[5] e Espeusipo[6] afirmam que um homem pode tornar-se feliz mesmo pela virtude sozinha, não, no entanto, que o que é honroso é o único bem[7]. Epicuro também decide que aquele que possui virtude é feliz, mas que a própria virtude não é suficiente para a vida feliz, porque o prazer que resulta da virtude, e não a própria virtude, torna-o feliz. Esta é uma distinção fútil. Pois o mesmo filósofo declara que a virtude nunca existe sem prazer; e portanto, se a virtude está sempre ligada ao prazer e sempre inseparável dela, a virtude é por si só suficiente. Pois a virtude mantém o prazer em sua companhia, e não existe sem ele, mesmo quando está sozinha.

19. Mas é absurdo dizer que um homem será feliz pela virtude sozinha, e ainda não absolutamente feliz. Eu não consigo descobrir como isso pode ser, uma vez que a vida feliz contém em si um bem que é perfeito e não pode ser melhorado, se um homem tem este bem, a vida é completamente feliz. Ora, se a vida dos deuses não contém nada maior ou melhor, e a vida feliz é divina, então não há mais altura para a qual um homem possa ser elevado.

20. Também, se à vida feliz não falta nada, então toda vida feliz é perfeita; é feliz e ao mesmo tempo a mais feliz. Você tem alguma dúvida de que a vida feliz é o Supremo Bem? Consequentemente, se ela possui o Bem Supremo, é supremamente feliz. Assim como o Bem Supremo não admite o aumento (pois o que será superior ao que é supremo?), exatamente assim a vida feliz também não pode ser aumentada; pois não existe sem o Bem Supremo. Se então você apresentar um homem que é “mais feliz” do que outro, você também vai apresentar alguém que é “muito mais feliz”; então você estará fazendo inúmeras distinções no Bem Supremo; embora eu entenda que o Bem Supremo seja aquele bem que não admite nenhum grau acima de si.

21. Se uma pessoa é menos feliz do que outra, segue-se que deseja ansiosamente a vida desse outro homem mais feliz do que a sua. Mas o homem feliz prefere a vida de nenhum outro homem a sua. Qualquer uma dessas duas coisas é incrível: que deva haver qualquer coisa faltando para um homem feliz desejar em preferência ao que é, ou que ele não deva preferir a coisa que é melhor do que o que já tem. Com certeza, quanto mais prudente ele for, tanto mais esforçara-se pelo melhor, e desejará alcançá-lo por todos os meios possíveis. Mas como se pode ser feliz quem ainda é capaz, ou melhor, quem ainda está obrigado a desejar algo mais?

22. Eu lhe direi qual é a origem desse erro: os homens não entendem que a vida feliz é uma unidade; pois é sua essência, e não sua extensão, que estabelece tal vida no mais nobre plano. Daí a completa igualdade entre a vida que é longa e a vida curta, entre aquilo que se estende e o que está confinado, entre aquilo cuja influência é sentida em muitos lugares e em muitas direções, e aquilo que se restringe a um interesse. Aqueles que contam a vida em número, ou por medida, ou por partes, roubam sua qualidade distintiva. Agora, na vida feliz, qual é a qualidade distintiva? É a sua plenitude.

23. Saciedade, penso eu, é o limite para o nosso comer ou beber. A come mais e B come menos; que diferença faz? Cada um está agora saciado. Ou A bebe mais e B bebe menos; que diferença faz? Cada um não está mais sedento, da mesma forma, A vive por muitos anos e B por menos; não importa, se os muitos anos de A trouxeram tanta felicidade quanto os poucos anos de B. Aquele que você diz ser “menos feliz” não é feliz; a palavra não admite nenhuma diminuição.

24. “Quem é valente não conhece o medo; quem não conhece o medo não conhece a tristeza; quem não conhece a tristeza é feliz.”. É a nossa própria escola que fabricou este silogismo; eles tentam refutá-lo com esta resposta, ou seja, que nós estoicos estamos assumindo uma premissa que é falsa e claramente controversa, – que o homem corajoso não sente medo. “O que!” Eles dirão: “Será que o homem corajoso não tem medo dos males que o ameaçam? Esta seria a condição de um louco, um lunático, em vez de um homem corajoso. O homem corajoso, é verdade, sentirá medo em apenas um leve grau, mas ele não está absolutamente livre de medo.”

25. Agora, aqueles que afirmam isso estão voltando a seu antigo argumento, na medida em que consideram os vícios de menor grau como equivalentes às virtudes. Pois, de fato, o homem que sente o medo, embora o sinta raramente e em menor grau, não está livre da maldade, mas está apenas perturbado por ela de uma forma suave. “Não é assim“, é a resposta, “porque eu considero que um homem é louco se ele não tem medo de males que pairam sobre sua cabeça.” O que você diz é perfeitamente verdadeiro, se as coisas que ameaçam são realmente males; mas se ele sabe que não são males e acredita que o único mal é a imoralidade, ele será compelido a enfrentar perigos sem ansiedade e desprezar as coisas que outros homens não podem deixar de temer. Ou, se é a característica de um tolo e um louco não temer males, então quanto mais sábio um homem for mais temerá tais coisas!

26. “É a doutrina de vocês estoicos, então,” eles respondem, “que um homem corajoso se exponha a perigos.” De jeito nenhum; ele simplesmente não os temerá, embora os evite. É bom para ele ter cuidado, mas não ter medo. “E então, não temerá a morte, o aprisionamento, o fogo, e todos os outros ataques da Fortuna?” De modo nenhum; pois ele sabe que eles não são males, mas só parecem ser. Ele considera todas essas coisas como espantalhos para assustar os homens.

27. Trace um quadro de escravidão, chicotes, correntes, carestia, mutilação por doença ou por tortura – ou qualquer outra coisa que possa querer mencionar; ele contará todas essas coisas como terrores causados pelo desarranjo da alma. Essas coisas só devem ser temidas por medrosos. Ou você considera como um mal algo que um dia poderemos ser obrigados a recorrer de nossa livre e espontânea vontade?

28. O que então, você pergunta, é um mal? É a submissão às coisas que se chamam males; é a entrega da própria liberdade ao seu controle, quando realmente devemos sofrer todas as coisas para preservar essa liberdade. A liberdade está perdida a menos que desprezemos as coisas que colocam o jugo[8] nos nossos pescoços. Se os homens soubessem o que é a bravura, eles não teriam dúvidas quanto ao que a conduta de um homem corajoso deveria ser. Pois a bravura não é imprudência, ou amor ao perigo, ou o cortejo de objetos inspiradores do medo; é o conhecimento que nos permite distinguir entre o que é o mal e o que não o é[9]. A bravura cuida de si mesmo, e também atura com a maior paciência todas as coisas que têm uma falsa aparência de serem más.

29. “O que então?” É a questão: “Se a espada é brandida sobre o pescoço do seu corajoso, se ele é perfurado neste lugar, se ele vê suas entranhas no colo, se ele for torturado novamente depois de ter descansado para que possa sentir a tortura com mais intensidade, e se o sangue corre novamente de seu intestino, onde há pouco deixou de fluir, ele não terá medo? Você diz que ele também não sente nenhuma dor?” Sim, ele sente dor; pois nenhuma virtude humana pode se livrar de sentidos. Mas ele não tem medo; sem abalo ele olha a baixo de uma altura elevada sobre seus sofrimentos. Você me pergunta que espírito o anima nessas circunstâncias? É o espírito de alguém que está confortando um amigo doente.

30. “Aquilo que é mau prejudica, o que prejudica piora o homem, mas a dor e a pobreza não pioram o homem, por isso não são males“. “Sua proposição,” diz o objetor, “é errada, pois o que prejudica não necessariamente faz alguém pior, a tempestade e a tormenta prejudicam o piloto, mas não fazem dele um piloto pior.”

31. Alguns estoicos respondem a este argumento da seguinte maneira: “O piloto torna-se um piloto pior por causa de tempestades ou rajadas, na medida em que não consegue cumprir o seu propósito e manter-se em seu curso; não se torna um piloto pior, mas em seu trabalho ele piora“. A isto, os peripatéticos retrucam: “Por isso, a pobreza tornará pior até mesmo o homem sábio, e assim também a dor, assim como qualquer outra coisa semelhante, pois, embora essas coisas não o roubem de sua virtude, elas irão prejudicar o trabalho da virtude“.

32. Esta seria uma afirmação correta, não fosse pelo fato de que o piloto e o sábio são dois tipos diferentes de pessoa. O propósito do homem sábio na condução de sua vida não é concluir todos os perigos que prova, mas fazer todas as coisas corretamente; O propósito do piloto, no entanto, é levar seu navio para o porto em todos os perigos. As artes são servas; elas devem realizar o que prometem fazer. Mas a sabedoria é senhora e governante. As artes rendem o serviço de escravo à vida; a sabedoria emite os comandos!

33. Para mim, eu sustento que uma resposta diferente deve ser dada: que a arte do piloto nunca é piorada pela tempestade, nem a aplicação de sua arte também. O piloto prometeu-lhe, não uma viagem próspera, mas um desempenho útil de sua tarefa – isto é, um conhecimento especializado de dirigir um navio. E quanto mais ele é dificultado pelo estresse da Fortuna, tanto mais seu conhecimento se torna aparente. Aquele que foi capaz de dizer: “Netuno, você nunca afundará este navio, exceto em um mar calmo[10]“, cumpriu os requisitos de sua arte; a tempestade não interfere com o trabalho do piloto, mas apenas com seu sucesso.

34. “O que, então”, você diz, “um piloto não é prejudicado por qualquer circunstância que não lhe permita fazer porto, frustre todos os seus esforços, e que o leva para o fundo, ou segura o navio em ferros ou remove seus mastros?” Não, não o prejudica como piloto, mas apenas como um viajante; caso contrário, ele não é um piloto. Na verdade, está longe de dificultar a arte do piloto, e até mesmo exibe a arte; pois qualquer um, nas palavras do provérbio, é um piloto em um mar calmo. Esses percalços obstruem a viagem, mas não o timoneiro na qualidade de timoneiro.

35. Um piloto tem um duplo papel: um que ele compartilha com todos os seus companheiros de viagem, pois ele também é um passageiro; o outro é peculiar a ele, pois ele é o piloto. A tempestade o prejudica como passageiro, mas não como piloto.

36. Mais uma vez, a arte do piloto é voltada ao exterior – diz respeito aos seus passageiros, assim como a arte de um médico diz respeito a seus pacientes. Mas o bem do sábio é um bem interno – pertence tanto àqueles em cuja companhia ele vive, como a ele também. Daí o nosso piloto pode ser prejudicado, uma vez que seus serviços, que foram prometidos aos outros, são prejudicados pela tempestade;

37. Mas o homem sábio não é prejudicado pela pobreza, pela dor ou por qualquer outra tempestade da vida. Pois todas as suas funções não são restringidas, mas apenas as que pertencem aos outros; ele mesmo está sempre em ação, e é maior em desempenho no momento em que a fortuna atrapalha seu caminho. Pois então ele está realmente envolvido no negócio da sabedoria; e esta sabedoria que já declarei ser, tanto o bem dos outros, como também de si próprio.

38. Além disso, ele não está impedido de ajudar os outros, mesmo no momento em que as circunstâncias restritivas o pressionam. Por causa de sua pobreza, ele é impedido de mostrar como o Estado deve ser governado; mas ele ensina, não obstante, como a pobreza deve ser governada. O seu trabalho continua durante toda a sua vida. Assim, nenhuma fortuna, nenhuma circunstância externa, pode isolar o sábio da ação. Pois a própria coisa que envolve sua atenção o impede de atender a outras coisas. Ele está pronto para qualquer resultado: se traz bens, ele os controla; se males, ele os conquista.

39. Tão profundamente, quero dizer, ele se treinou a demonstrar sua virtude tanto na prosperidade quanto na adversidade, e mantém seus olhos na própria virtude, não nos objetos com os quais a virtude trata. Daí que nem a pobreza, nem a dor, nem qualquer outra coisa que desvie os inexperientes e os conduz ao fracasso, o impede o sábio de seguir seu curso.

40. Você acha que ele está sobrecarregado por males? Ele faz uso deles. Não era só de marfim que Fídias[11] sabia fazer estátuas; ele também fez estátuas de bronze. Se você tivesse lhe dado mármore, ou um material ainda pior, ele teria feito dele a melhor estátua que o material permitiria. Assim, o sábio desenvolverá a virtude, se puder, no meio da riqueza ou, se não, no meio da pobreza; se possível, no seu próprio país – se não, no exílio; Se possível, como comandante – se não, como um soldado comum; se possível, em boa saúde – se não, enfraquecido. Qualquer que seja a fortuna que se encontre, conseguirá algo digno de nota.

41. Alguns dos domadores de animais são infalíveis; eles tomam os animais mais selvagens, que podem muito bem aterrorizar qualquer um que os encontrar, e subjuga-os à vontade do homem, não se contentando em expulsar a sua ferocidade, eles até os domam para que habitem a mesma casa. O treinador coloca a mão na boca do leão; o tigre é beijado por seu dono. O minúsculo etíope ordena o elefante afundar-se em seus joelhos, ou andar a corda. Da mesma forma, o sábio é uma mão qualificada para domar males. A dor, a carestia, a desgraça, a prisão, o exílio – estes são universalmente temíveis – mas quando eles encontram o homem sábio, são domesticados!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Sovela é uma ferramenta utilizada em curtumes e marcenarias que é usada para fazer um furo no couro, por onde, posteriormente uma linha com agulha será adentrada para costura. Alusão a arma não apropriada para a batalha em questão.

[2] Membros da Escola Peripatética, um círculo filosófico da Grécia Antiga que basicamente seguia os ensinamentos de Aristóteles, seu fundador. “Peripatético” (em grego, περιπατητικός), é a palavra grega para ‘ambulante’ ou ‘itinerante’. Peripatéticos (ou ‘os que passeiam’) eram assim chamados em razão do hábito do filósofo de ensinar ao ar livre, caminhando enquanto lia e dava preleções.

[3] Ladas de Aegio foi um antigo atleta grego listado por Eusébio de Cesaréia como vitorioso na corrida de estádios da 125ª Olimpíada (280 AC).

[4] Trecho de Eneida,VII, 808-811 de Virgílio. As linhas descrevem Camilla, a guerreira-caçadora dos Volscos.

[5] Xenócrates (406 a.C. — 314 a.C.) foi um filósofo grego discípulo de Platão, a quem acompanhou à Sicília, sucedendo Espeusipo, após o suicídio deste.

[6]Espeusipo (,408 a.C. — 339 a.C.) foi um filósofo grego, sobrinho de Platão, a quem sucedeu na direção da Academia.

[7] Ver carta LXXI, 18

[8] Jugo, parelha ou canga é uma peça de madeira encaixada sobre a cabeça dos bois para que possam ser atrelados a uma carroça ou a um arado.

[9] Além dessa definição (padrão estoico) da terceira virtude cardinal, também encontramos “conhecimento sobre o que escolher e o que evitar”, “saber suportar as coisas” e, finalmente, “a vontade de empreender grandes feitos”.

[10] A figura do piloto é frequente na filosofia, de Platão em diante. Veja Sêneca, Ep. XXX. O mesmo argumento, aplicado ao músico, é encontrado em Ep.LXXXVII.

[11] Fídias foi um célebre escultor da Grécia Antiga. Sua biografia é cheia de lacunas e incertezas, e o que se tem como certo é que ele foi o autor de duas das mais famosas estátuas da Antiguidade, a Atena Partenos e o Zeus Olímpico, e que sob a proteção de Péricles encarregou-se da supervisão de um vasto programa construtivo em Atenas, concentrado na reedificação da Acrópole, devastada pelos persas em 480 a.C.

Catão diante da morte

Marco Pórcio Catão Uticense (Marcus Porcius Cato Uticensis), também conhecido como Catão de Útica ou Catão, o Jovem, foi um político romano célebre pela sua inflexibilidade e integridade moral. Viveu na época de Julio César e foi grande defensor da república.

Sêneca o cita frequentemente como exemplo do sábio estoico ideal. ( aqui e aqui, entre outros)

O artigo “Catão de Útica diante da morte” de Donato Ferrara é uma excelente fonte para conhecermos mais dele.

Catão de Útica diante da morte

Imagem: Morte de Catão por Jean-Paul Laurens

Carta 84: Sobre coletar ideias

Sêneca começa a carta com uma anedota particular: diz estar “fazendo exercício por procuração” ou seja, viajava de liteira, e quem fazia exercício eram os escravos que o carregavam! Não é atoa que ele foi (e continua sendo) acusado de hipocrisia por recomendar pobreza e vida frugal enquanto era um dos homens mais ricos do império.

A carta 84 é uma profunda meditação sobre o processo e o propósito da leitura. Sêneca argumenta que a leitura impede que se absorva a si mesmo e que bons leitores estão envolvidos em uma relação de diálogo com seus textos. Sêneca sustenta ainda que o próprio ato de escrever deve ser um reflexo de leitura cuidadosa:

“a leitura, penso eu, é indispensável: principalmente, para impedir a auto complacência, e, além disso, depois de ter aprendido o que os outros descobriram por meio de seus estudos, me permitir julgar suas descobertas e conjecturar sobre as quais ainda precisam ser feitas.” (LXXXIV, 1)

Acima de tudo, ele se preocupa em que façamos do conhecimento nosso dever. Como sempre, Sêneca não hesita em misturar metáforas para ilustrar seu ponto de vista, ou em mudar rapidamente de uma analogia para outra. Começa com analogia com as abelhas, ou seja, de devemos coletar de diversas fontes, passa para a imagem de um coro de muitas vozes e então diz que a leitura deve ser como os alimentos que consumimos: só nos são benéficos se digeridos e assimilados:

“Devemos seguir o exemplo das abelhas, que esvoaçam e selecionam as flores que são adequadas para a produção de mel, e depois organizar e classificar em seus favos tudo o que trouxeram.” (LXXXIV, 3)

“Devemos digeri-lo; caso contrário, simplesmente entrará na memória e não acrescentará nosso poder de raciocínio.” (LXXXIV, 7)

A seção 11 e seguintes compreende uma exortação geral à filosofia, na qual Sêneca deixa seu ponto central para trás. Observe, no entanto, como a carta termina quando começa com referência a uma viagem. É quase como se estivéssemos imaginando Sêneca escrevendo esta carta no caminho enquanto ele é transportado pela cidade em sua liteira.

(Imagem: pintura por Piotr Stachiewicz)


LXXXIV. Sobre coletar ideias

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. As viagens às quais você se refere – jornadas que afastam a preguiça do meu sistema – considero serem produtivas tanto para a minha saúde como para os meus estudos. Você percebe porque elas beneficiam a minha saúde: uma vez que minha paixão pela literatura me torna preguiçoso e descuidado em relação ao meu corpo, eu posso fazer exercício por procuração[1]; quanto aos meus estudos, mostrar-lhe-ei porque as minhas viagens os ajudam, pois não deixei de ler de forma alguma. E a leitura, penso eu, é indispensável: principalmente, para impedir a auto complacência, e, além disso, depois de ter aprendido o que os outros descobriram por meio de seus estudos, me permitir julgar suas descobertas e conjecturar sobre as quais ainda precisam ser feitas. A leitura nutre a mente e a refresca quando está cansada de estudo; no entanto, este refresco não é obtido sem estudo.

2. Não devemos limitar-nos nem à escrita, nem à leitura; a escrita contínua irá macular nossa força e a esgotará; a leitura sozinha fará a nossa força flácida e aguada. É melhor recorrer a elas alternadamente, e misturar uma com a outra, para que os frutos da leitura possam ser reduzidos à forma concreta pela pena.

3. Devemos seguir, dizem os homens, o exemplo das abelhas, que esvoaçam e selecionam as flores que são adequadas para a produção de mel, e depois organizar e classificar em seus favos tudo o que trouxeram; essas abelhas, como diz nosso Virgílio:

“o liquido mel acumulam, e fazem inchar os alvéolos de doce néctarliquentia mella Stipant et dulci distendunt nectare cellas.[2]

4. Não é certo se o suco que obtêm das flores se forma logo no mel, ou se transformam aquilo que recolhem neste objeto delicioso misturando algo ou por uma determinada propriedade de sua respiração. Pois algumas autoridades acreditam que as abelhas não possuem a arte de fazer mel, mas apenas de colhê-lo; e dizem que na índia o mel é encontrado nas folhas de certos juncos, produzido por um orvalho peculiar a esse clima, ou pelo suco da própria cana[3], que tem uma doçura e uma riqueza incomuns. E em nossas próprias gramíneas também, eles dizem, a mesma qualidade existe, embora menos clara e menos evidente; e uma criatura nascida para cumprir tal função poderia caçá-la e coletá-la. Alguns outros sustentam que os materiais que as abelhas retiraram das mais delicadas plantas florescentes são transformados nessa substância peculiar por um processo de conservação e armazenamento cuidadoso, auxiliado pelo que se poderia chamar de fermentação – por meio do qual elementos separados são unidos em uma substância.

5. Mas eu não devo desviar do assunto que estamos discutindo. Nós também, eu digo, devemos copiar estas abelhas, e peneirar tudo o que temos reunido de um curso variado de leitura, pois tais coisas são melhor preservadas se forem mantidas separadas; então, aplicando o cuidado de supervisão com que a nossa natureza nos dotou, ou seja, os nossos dons naturais, devemos misturar esses vários sabores num delicioso composto que, apesar de revelar sua origem, é certamente uma coisa diferente daquela de onde veio. Isto é o que vemos a natureza fazer em nossos próprios corpos sem nenhum trabalho de nossa parte;

6. O alimento que comemos, enquanto retém a sua qualidade original e permaneça, em nossos estômagos como uma massa não diluída, é um fardo; mas ele se torna tecido e sangue apenas quando for alterado de sua forma original. Assim é com a comida que nutre nossa natureza superior – devemos cuidar para que tudo o que tenhamos ingerido não seja permitido permanecer inalterado, ou não será parte de nós.

7. Devemos digeri-lo; caso contrário, simplesmente entrará na memória e não acrescentará nosso poder de raciocínio. Acolhamos fielmente tais alimentos e os façamos nossos próprios, de modo que algo único possa ser formado de muitos elementos, assim como um número é formado por vários elementos sempre que, segundo nosso cálculo, montantes menores, cada um diferente dos outros, são somados. Isto é o que a nossa mente deve fazer: deve esconder todos os materiais utilizados, e trazer à luz apenas o que foi feito deles.

8. Mesmo que se torne visível em você uma semelhança com um autor que, por causa de sua admiração, deixou-lhe uma profunda impressão, gostaria que se assemelhasse a ele como uma criança se assemelha a seu pai, e não como um retrato se assemelha a seu original; pois uma imagem é uma coisa sem vida. “O que“, você diz, “não será óbvio o estilo cujo qual você está imitando, o método de raciocínio, as palavras pungentes?” Acho que às vezes é impossível ver quem está sendo imitado, se a cópia é verdadeira; pois uma intelegência verdadeira carimba sua própria forma sobre todas as características que ela tirou do que podemos chamar de original, de tal forma que elas são combinadas em uma unidade.

9. Você não vê quantas vozes há em um coro? No entanto, do conjunto resulta-se uma única voz. Nesse coro uma voz toma o tenor outra o baixo, outra o barítono. Há mulheres, também, assim como homens, e a flauta é misturada com elas. Nesse coro as vozes dos cantores individuais estão escondidas; o que ouvimos são as vozes de todos juntos.

10. Certamente, refiro-me ao coro que os antigos filósofos conheciam; em nossas apresentações atuais temos um número maior de cantores do que costumava ter de espectadores nos teatros antigos. Todas as alas estão repletas de filas de cantores; os instrumentos de bronze cercam o auditório; O palco ressoa com flautas e instrumentos de toda descrição; e mesmo assim, dos sons discordantes, é produzida uma harmonia. Eu gostaria de ter tal qualidade como esta para minha mente; ela deve ser equipada com muitas artes, muitos preceitos e padrões de conduta tomados de muitas épocas da história; mas tudo deve misturar harmoniosamente em um todo.

11. “Como“, você pergunta, “isso pode ser realizado?” Por esforço constante, e por não fazer nada sem a aprovação da razão. E, se quiserem ouvir a sua voz, ela lhe dirá: “Abandone as perseguições que até agora lhe fez correr para cá e para lá. Abandone as riquezas, que são um perigo ou um fardo para o possuidor. Abandone os prazeres do corpo e da mente, eles apenas o amolecem e o enfraquecem…” Abandone sua busca por cargos, é uma coisa empolada, ociosa e vazia, uma coisa que não tem limites, tão ansiosa em não ter superiores como em evitar até os iguais, sempre torturada pela inveja, e uma inveja ainda por cima dupla: veja quão miserável é a situação de um homem quando é objeto de inveja ele próprio, tem inveja de outros.

12. Você contempla as casas dos grandes senhores, aquelas de soleiras ruidosas dos clientes que se atropelam na entreda? Eles têm muitos insultos para você assim que entra pela porta, e ainda mais depois de ter entrado. Passe pelos degraus que levam às casas dos ricos, e as varandas tornadas perigosas pela enorme multidão; pois lá você estará, não meramente na borda de um precipício, mas também em um terreno escorregadiço. Em vez disso, dirija o seu caminho para a sabedoria, e procure seus caminhos, que são formas de transcender a paz e a abundância.

13. Tudo o que parece notável nos assuntos dos homens – por insignificante que sejam, e apenas se destacam em contraste com os objetos mais baixos – é, no entanto, atingido por um caminho difícil e penoso. É um caminho acidentado que leva às alturas da grandeza; mas se você deseja escalar este pico, que está bem acima do alcance da Fortuna, você realmente verá aos seus pés tudo o que os homens consideram como o mais sublime, mas deste ponto em diante você poderá prosseguir para o bem supremo em um terreno plano.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Sêneca viajava de liteira, ou seja, na realidade quem fazia exercício eram os escravos que o carregavam.  Veja carta 55, em que Sêneca cita até que ponto um passeio de liteira pode equivaler a um exercício físico para um homem de idade.

[2] Trecho de Eneida, de Virgílio, I 432-3.

[3] Cana de açúcar é originária da Índia e, posteriormente, foi levada para a Europa e Américas.

Resenha: Sobre a Constância do Sábio

Sobre a Constância do Sábio é um ensaio moral escrito por Sêneca em forma de um diálogo. A obra celebra a serenidade do sábio estoico ideal que, com firmeza interior, é imune às injúrias e adversidades. É dirigido ao seu amigo Aneu Sereno e foi escrito entre os anos 47 e 62, sendo um dos três diálogos endereçados a Sereno, que também inclui “Sobre a tranquilidade da alma” e “Sobre o ócio”.

O ensaio apresenta a ideia do sábio estoico em termos claros e práticos: ele é um modelo a ser almejado, mas é uma figura plausível. De certa forma, o papel do sábio no estoicismo é semelhante ao de Jesus Cristo ou Buda: mostrar o caminho. Contudo Sêneca deixa claro que está falando de pessoas reais ao mencionar uma em particular, Marco Catão:

“Não venha dizer, tal como é seu costume, que esse nosso sábio não existe em lugar algum. Não somos nós que projetamos essa fantasmagoria gloriosa do gênero humano, nem é ela mera idealização grandiosa de uma figura fictícia. …. Além do mais, esse mesmo Catão que motivou toda essa nossa explanação, receio que até supere o modelo em pauta.” (VII, 1)

Sêneca começa o ensaio lembrando seu amigo que o progresso requer esforço, mas que, tornar-se um estoico, não é tão difícil quanto muitos acreditam. Diz que coisas difíceis parecem impossíveis ao olhos dos não iniciados, mas uma vez iniciada a jornada, descobre-se o caminho:

“muitas serras vistas de muito longe parecem íngremes e agrupadas, porque a distância engana nossa visão, e então, à medida que nos aproximamos, aquelas mesmas serras que nossos olhos equivocados haviam unido se desdobram gradualmente, aquelas partes que pareciam precipitadas de longe, assumem um contorno suavemente inclinado.” (I, 2)

No capítulo V, é feita então a distinção entre iniuria (injúria) e contumelia (insulto), seguindo o ensaio com discussões sobre a natureza dos dois temas, mostrando que o sábio é imune tanto a insultos quanto a injúrias. Apesar das palavras soarem como sinônimos atualmente, Sêneca as usa de forma distinta “deixe-nos distinguir injúria e insulto. O primeiro é naturalmente o mais doloroso, o segundo menos importante, e doloroso apenas para os de pele fina, pois enfurece os homens, mas não os fere…” (V,1)

Na sequência, Sêneca afirma que nem mesmo a Fortuna pode tirar-nos o que não nos deu, e que portanto, nada nos pode tirar a virtude, porque a virtude não nos é dada, é algo que vem de dentro. Sendo assim, nenhum dano real pode ser infligido ao homem sábio. O tema da Fortuna volta na seção VI, onde Sêneca diz: “pode suportar as adversidades com calma e a prosperidade com moderação, não cedendo à primeira nem confiando na segunda, podendo permanecer o mesmo em meio a todas as variantes da Fortuna, e não pensando que nada seja seu, a não ser ele próprio“. A frase é um bom resumo da atitude estoica para com os “indiferentes“, ou seja, coisas que estão fora de nosso controle.

Outra característica do sábio é que ele está livre do medo, pois o medo se origina na percepção de que a pessoa pode ser ferida, mas como já vimos, nada pode realmente ferir o sábio. Esse ponto é esclarecido adiante:

Algumas outras coisas atingem o sábio, embora não abalem seus princípios, como a dor e a fraqueza corporal, a perda de amigos e filhos e a ruína de seu país em tempos de guerra.Não negamos que é uma coisa desagradável ser espancado ou golpeado, ou perder um de nossos membros, mas dizemos que nenhuma dessas coisas são injúrias. Não lhes tiramos a sensação de dor, mas o nome de “injúria”, que não pode ser atribuído enquanto a nossa virtude estiver intacta. (X,4 e XVI,2)

Nos capítulos XI e XII Sêneca aprofunda o argumento de que o sábio não pode ser insultado. Ele nos lembra que crianças pequenas nos fazem todo tipo de coisas que não são agradáveis, e ainda assim não nos sentimos ofendidos pelo seu comportamento. De forma análoga, o sábio trata como crianças as pessoas que tentam feri-lo por insultos: devem ser ignoradas, ou corrigidas, se possível. Mais a frente, aprendemos que o sábio não tem prazer em ser admirado, seja por mendigos ou por milionários: “Assim também não se admirará a si mesmo, ainda que muitos homens ricos o admirem; pois sabe que eles não diferem em nenhum aspecto dos mendigos – não, são ainda mais infelizes do que eles; pois os mendigos só querem um pouco, enquanto os ricos querem muito.” (XIII, 3)

Mais uma passagem excepcional vem no capítulo XVI, quando Sêneca considera duas possíveis razões pelas quais algo de ruim nos acontece, e ensina como devemos responder de forma estoica:

Será que estas coisas me acontecem merecidamente ou sem merecer? Se merecidamente, não é um insulto, mas uma sentença judicial; se imerecidamente, quem faz injustiça deve se envergonhar, não eu”. (XVI, 3)

Segue-se com a sugestão de usar o humor autodepreciativo para lidar com insultos, porque é difícil rir de alguém que ri de si próprio antes. Além disso, porque essa é uma maneira muito eficaz de simplesmente estragar a diversão do seu oponente. Em linhas gerais, “o sucesso de um insulto reside na sensibilidade e na raiva da vítima.” (XVI, 4)

Tudo considerado, a imagem do sábio que emerge deste texto é, como prometido no início, a de alguém que pode, com esforço, ser copiado. A sabedoria não é inalcançável e lutar por ela é certamente o objetivo do estudante de estoicismo, ou seja, todos nós que somos imperfeitos.


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Resenha: Sobre a Tranquilidade da Alma (Parte 2)

Continuamos com a análise do diálogo Sobre a Tranquilidade da Alma. Primeira parte aqui.

Após tratar de preceitos sobre o patrimônio, “fonte mais fértil das dores humanas“, Sêneca se volta a discutir as vicissitudes da Fortuna, iniciando com a boa e tradicional sugestão estoica sobre como se adaptar a novas situações. Se você perdeu algo, até mesmo algo precioso, por causa das mudanças dos ventos da Fortuna, basta lembrar que “Em cada estação da vida você encontrará diversões, relaxamentos e prazeres; isto é, desde que esteja disposto a fazer dos males mais leves ao invés de odiosos” (X,1).

A isto, seguem citações clássicas que são joias de sabedoria que não requerem nenhuma adição:

Quando (o sábio) for convidado a desistir deles, não se queixará da Fortuna, mas dirá: “Agradeço-lhe pelo que tive em meu poder”. Tenho administrado a sua propriedade de modo a aumentá-la em grande parte, mas como você me ordenou, eu a devolvo e a devolvo de boa vontade e com gratidão” (XI, 2).

Que dificuldade pode haver em retornar ao lugar de onde se veio? Um homem não pode viver bem se não souber morrer bem” (XI, 4).

Doença, cativeiro, desastre, conflagração, nenhum deles é inesperado: Eu sempre soube com que companhia desordenada a Natureza me tinha associado” (XI, 7).

Nos capítulos XII e XIII são abordadas as fontes de inquietações oriundas de circunstâncias pessoais, tendo em vista as atribulações da Fortuna: falsos desejos relativos a bens e honrarias, atividades públicas e privadas. Sêneca adverte seu amigo sobre o perigo de se ocupar apenas para fazer algo, ao invés de fazer boas escolhas sobre como empregar seu tempo. Ele imagina um breve diálogo com quem não sabe o que está fazendo nem o porquê: Para onde você vai?” Ele responderá: “Por Hércules, eu não sei: mas verei algumas pessoas e farei alguma coisa“. Provavelmente conhecemos pessoas assim, veja que as coisas não mudaram tanto assim em dois milênios.

Segue-se que aceitamos o destino pelo que ele é, e de fato tentamos fazer o melhor com as novas circunstâncias. Sêneca lembra o exemplo de Zenão – o fundador da Escola – que perdeu tudo em um naufrágio e começou a estudar filosofia, dizendo:

A fortuna comanda que eu fique mais desimpedido para filosofar” (XIV, 3).

Já nos capítulos XV e XVI são tratadas as fontes de inquietações oriundas de circunstâncias externas. Sêneca compara duas atitudes diferentes em relação à vida: a trágica e a cômica, aconselhando que devemos seguir Demócrito e não Heráclito:

O último deles, sempre que aparecia em público, costumava chorar, o primeiro ria. Um pensava que todos os atos humanos eram tolices, o outro pensava que eram desgraças. Devemos ter uma visão mais elevada de todas as coisas e suportar com mais facilidade. É melhor ser homem a rir da vida do que a lamentar por ela” (XV, 2).

Mas é claro que Sêneca compreende que algumas vezes a vida é uma tragédia, como quando pessoas boas (ele menciona Sócrates, Rutílio, Pompeu, Cícero e Catão) são tratadas com injustiça. Mesmo assim, pode-se tirar lições valiosas:

veja como cada um deles suportou o seu destino, e se o suportaram com bravura. Deseje em seu coração uma coragem tão grande quanto a deles… Todos esses homens descobriram como, ao custo de uma pequena porção de tempo, eles poderiam obter a imortalidade e, com suas mortes, ganharam a vida eterna” (XVI, 2-4).

No último capítulo, Sêneca afirma que a alma dos homens deve ter um repouso, devemos mesclar solidão com contato social, trabalho com lazer e aproveitar jogos, diversão e bebidas, tudo porém, com moderação: “Não devemos forçar as colheitas dos campos férteis, porque um curso ininterrupto de colheitas abundantes logo esgotará sua fertilidade, e assim também a vitalidade de nossas mentes será destruída pelo trabalho incessante, mas elas recuperarão suas forças após um curto período de descanso e alívio.”

Esta última seção aniquila a injustificada acusação de que os estoicos seriam estraga-prazeres, recomendando brincar com crianças como Sócrates, dançar como Cipião, passear ao ar livre e beber como Catão e Sólon:

Por vezes, ganhamos força ao dirigir, ao viajar, ao trocar de paisagem ou de convívio social, ou ao fazer refeições com uma mesa mais generosa de vinho. Às vezes, devemos beber até a embriaguez, não para nos afogarmos, mas apenas para nos imergirmos no vinho, porque o vinho lava os problemas e nos afasta das preocupações das profundezas da mente, e age como remédio para a tristeza” (XVII, 8).

Um brinde a Sêneca!


Não se sabe quando o diálogo Sobre a tranquilidade da alma foi escrito. Pode ter sido composto e publicado no período entre o início dos anos 50 até por volta de 62 ou 63.

Aneu Sereno é destinatário não só da obra Sobre a Tranquilidade da Alma, mas também de Sobre a Constância do Sábio e ainda de Sobre o Ócio. Foi um grande amigo de Sêneca, pertencente à ordem equestre, formada pelos cidadãos mais abastados. Sereno também tinha cargo na administração pública, tendo obtido, por influência de Sêneca, a função de praefectus, responsável por combate a incêndios, atividade importante na cidade de Roma. Era bastante jovem e teve uma morte prematura, segundo Sêneca noticia na carta 63 a Lucílio.

(imagem, Diogenes por John William Waterhouse)

Resenha: Sobre a Tranquilidade da Alma

O diálogo Sobre a Tranquilidade da Alma foi claramente escrito como um meio de orientação para todos aqueles que aspirassem a dedicar-se ao aperfeiçoamento moral. É dirigido ao amigo Aneu Sereno destinatário também das obras Sobre a Constância do Sábio e ainda de Sobre o Ócio. Foi um grande amigo de Sêneca, pertencente à ordem equestre, formada pelos cidadãos mais abastados. Sereno também tinha cargo na administração pública, tendo obtido, por influência de Sêneca, a função de praefectus, responsável por combate a incêndios, atividade importante na cidade de Roma.

No texto é dito que o amigo é seguidor de Epicuro, talvez por isso, Sêneca apresenta o estoicismo em termos muito claros e concentra em conselhos construtivos e práticos. Sêneca apresenta a resposta da doutrina estoica para nos ajudar a superar os tormentos causados pelos temores e desejos humanos e alcançar a tranquilidade, o estado ideal de serenidade vivenciado de forma plena e permanente pelo sábio estoico.

Para que a resenha não fique muito longa, está dividida em duas partes, segue a primeira, com meus comentários sobre os primeiros nove capítulos:

Sobre a Tranquilidade da Alma começa com uma carta de Sereno pedindo conselhos e dizendo que sente ter um bom domínio sobre alguns de seus vícios, mas não sobre outros, e,  como resultado disso, sua alma não tem tranquilidade. Diz “Eu não estou doente nem saudável” e percebe que seu julgamento sobre seus próprios assuntos é distorcido por preconceitos pessoais.

Estou bem ciente de que essas oscilações da alma não são perigosas e nem me ameaçam de nenhuma desordem séria. Para expressar aquilo de que me queixo por um simulacro exato, não estou sofrendo de uma tempestade, mas de enjoo do mar. Tire de mim, pois, esse mal, seja ele qual for, e ajude aquele que está em aflição mesmo ao avistar a terra“. (I, 17)

Sereno lista seus problemas:

  • hesitação diante do desejo de bens e de prazeres corporais (§5-9);
  • alternância entre desejo de atuação social e de recolhimento aos estudos (§10-12) ;
  • dilema ético e estético relativo a busca pela fama (§13-14).

Apresentados os sintomas, fazendo uso da imagem do paciente frente ao médico, Sereno pede o diagnóstico e o remédio: “Rogo, então, se tem algum remédio que possa deter esta minha vacilação e me faça digno de lhe dever a paz de espírito”.

A resposta de Sêneca toma os demais capítulos e começa com a descrição completa das características da doença. Informa a Sereno que ele busca a coisa mais importante da vida, um estado que chama de tranquilidade (tranquillitas) e que os gregos chamavam de euthymía(II,3). A definição de tranquilidade é fantastica, e deve ser colocada na íntegra:

“O que buscamos, então, é como a alma pode sempre seguir um rumo firme, sem percalços, pode estar satisfeita consigo mesma e olhar com prazer para o que a rodeia, e não experimentar nenhuma interrupção dessa alegria, mas permanecer em uma condição pacífica, sem nunca estar eufórica ou deprimida: isso será ‘tranquilidade’.” (II,4)

Ele então explica que há vários tipos de homens que não alcançam a tranquilidade da alma, por diferentes razões. Alguns sofrem de inconstância, mudando continuamente seus objetivos e mesmo assim sempre lamentando do que acabaram de desistir. Outros não são inconstantes, mas ficam numa posição infeliz por seu entorpecimento. Eles “continuam a viver não da maneira que desejam, mas da maneira que começaram a viver“, ou seja, por inércia (II,6). Outros ainda acreditam que a maneira de vencer a sua inconstância é viajando para longe, mas é claro que apenas carregam consigo seus próprios problemas: “Assim, cada um sempre foge de si mesmo” (II,14). Sêneca conclui seu preâmbulo sugerindo que nossos problemas não residem no lugar onde vivemos, mas em nós mesmos, e retoricamente pergunta: “Por quanto tempo vamos continuar fazendo a mesma coisa? (II,15)

A partir do capítulo III Sêneca apresenta uma série de conselhos específicos para Sereno sobre como alcançar a tranquilidade da alma. O primeiro vem de Atenodoro: “O melhor é ocupar-se dos negócios, da gestão dos assuntos do Estado e dos deveres de um cidadão“. Isso porque estar a serviço dos outros e do próprio país é, ao mesmo tempo, exercitar-se em uma atividade e fazer o bem. Mas também se pode fazer o bem e manter-se ocupado engajando-se na filosofia. Esse tipo de ocupação proporcionará satisfação e, portanto, tranquilidade de espírito e tornará nossas vidas diferentes daquelas de pessoas que não terão nada para mostrar ao final das suas: “Muitas vezes um homem de idade avançada não tem outro argumento com que comprove ter vivido longo tempo exceto seus anos.” Segue-se então com preceitos sobre atividades e sobre o ócio (negotia × otium).

Nos capítulos VI e VII Sêneca elucida como se auto avaliar e assim conseguir escolher um caminho onde é possível ter sucesso. Começa por advertir seu amigo que é comum as pessoas pensarem que podem conseguir mais do que realmente conseguem. A pessoa sábia, ao invés disso, está ciente das suas limitações. Também é preciso lembrar que algumas buscas simplesmente não valem o esforço e devemos nos afastar delas porque nosso tempo na vida é curto e precioso. E então, diz Sêneca, “apegue-se a algo que possa terminar, ou, pelo menos, que acredite poder terminar” (VI,4). Devemos também ter cuidado na escolha de nossos associados, dedicando partes de nossas vidas a pessoas que valham o esforço. Além disso, nossas buscas devem ser do tipo que nós realmente gostamos, se possível: “pois nenhum bem se faz forçando a alma a se engajar em um trabalho não apropriado: quando a Natureza resiste, o esforço é vão.“(VII,2)

Os capítulos VIII e IX tratam de preceitos sobre o patrimônio, “fonte mais fértil das dores humanas” (VIII,1). Sêneca adverte Sereno que, em sua experiência, os ricos não suportam perdas melhor do que os pobres, pois “dói aos carecas tanto quanto aos cabeludos terem seus cabelos arrancados” (VIII,3).

“Patrimônio, essa fonte mais fértil das dores humanas: se compararmos todos os outros males de que sofremos – mortes, enfermidades, medos, arrependimentos, dores e fadigas – com as misérias que o nosso dinheiro nos inflige, este último pesará muito mais do que todos os outros. Reflita, pois, quanto menos dor é nunca ter tido dinheiro do que tê-lo perdido. (VIII, 1-2)

É por isso que Diógenes não era dono de nada, para impossibilitar que alguém pudesse tirar algo dele: “Fortuna, não se intrometa: Diógenes não tem mais nada que lhe pertença“(VIII,7).

É claro que o próprio Sêneca não era nenhum Diógenes, e na verdade era um homem muito rico. Ele frequentemente foi atacado e acusado de hipocrisia por causa disso, mas seu ponto é que não se deve ter apego aos bens materiais. É possível ter bens, desde que não seja possuído por seu patrimônio. Ainda assim, na mesma seção ele aconselha a reduzir a quantidade de nossos bens, de modo a diminuir a probabilidade de nos apegarmos a eles de forma exagerada:

Nunca poderemos afastar a tão profunda e vasta diversidade da iniquidade com que somos ameaçados a ponto de não sentir o peso de muitas tempestades, se oferecermos largas velas ao vento do mar” (IX,3).

O capítulo IX termina com uma frase muito citada de Sêneca, porém citada de forma enganosa, pois ele critica homens que compram livros e não os estudam:

Você verá as obras de todos os oradores e historiadores empilhadas sobre estantes que chegam até o teto. Nos dias de hoje, uma biblioteca tornou-se tão necessária como um apêndice de uma casa como um banho quente e frio.” (IX,7)

Paramos por aqui. E alguns dias sigo com o restante da obra.


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Carta 83: Sobre a embriaguez

A Carta 83 trata do tema da bebida, e se um sábio pode ou não se embriagar. A carta, apesar de longa, é de leitura fácil e envolvente, conta com inúmeros exemplos e relatos da época de Roma.

Assim como na carta anterior, Sêneca discorda de Zenão, que proibia totalmente o uso do álcool, dizendo que um bom homem jamais se embriaga ao afirmar que “Ninguém confia um segredo a um homem bêbado, mas confiará um segredo a um homem bom, portanto, o bom homem não vai ficar embriagado“. (§9)

Sêneca considera essa afirmação uma falácia, argumentando:

“Perceba quão ridículo Zenão é feito quando montamos um semelhante silogismo em contraste com o seu. Há muitos, mas um bastará: ‘Ninguém confia um segredo a um homem quando ele está dormindo, mas confia-se um segredo a um homem bom, portanto, o homem bom não vai dormir.'” (LXXXIII, 9)

Para ele é permitido beber, e existem inúmeros exemplos de homens bons e modelos de conduta que eventualmente (ou em alguns casos frequentemente) se embriagam. Contudo, o sábio estoico sabe que não é uma atitute racional e que não deve ser tomada:

“Quão melhor é acusar em público a embriaguez com franqueza e expor seus vícios! Pois mesmo o bom homem médio evita-a, para não mencionar o sábio perfeito, que se satisfaz abrandando sua sede; o sábio, mesmo que de vez em quando guiado pelo bom ânimo, e, por causa de um amigo, seja levado um pouco longe demais, sempre para antes da embriaguez.(LXXXIII, 17)

Conclui a carta com uma frase genial, afirmando ser impossível argumentar que um sábio pode exagerar na bebida e manter um curso reto, o correto, é demonstrar que o que os homens chamam de prazeres são punições assim que ultrapassarem os limites devidos. (§26)

(Imagem: Baco por Guido Reni)


LXXXIII. Sobre a embriaguez

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você me pediu dar-lhe um relato de cada dia separado, e do dia inteiro também; então você me deve ter em boa opinião se acha que nestes meus dias não há nada a esconder. Seja como for, é assim que devemos viver, como se vivêssemos à vista de todos os homens; e é assim que devemos pensar, como se houvesse alguém que pudesse olhar para nossa alma mais íntima; e há quem possa assim olhar. Pois que beneficio há em algo escondido do homem, quando nada escapa da visão de Deus? Ele é testemunha de nossas almas, e Ele entra em nossos pensamentos – entra neles, eu digo, como alguém que pode a qualquer momento partir.

2. Por conseguinte, farei o que me pediu, e com prazer informarei por carta o que faço e em que sequência. Vou continuar observando-me continuamente, e – um hábito muito útil – irei rever cada dia. Pois isto é o que nos torna cheios de vícios: pois nenhum de nós olha para trás sobre sua própria vida. Nossos pensamentos são dedicados apenas ao que estamos prestes a fazer. No entanto, nossos planos para o futuro sempre dependem do passado.

3. Hoje tem sido ininterrupto; ninguém furtou a menor parte de mim. O tempo todo foi dividido entre o leito[1] e a leitura. Um breve espaço foi dado ao exercício físico, e neste terreno eu posso agradecer a velhice – meu exercício custa muito pouco esforço; assim que começo a me mexer, estou cansado. E cansaço é o objetivo e o fim do exercício, não importa quão forte seja.

4. Você pergunta quem são meus treinadores? Um é suficiente para mim, o escravo Fário[2], um companheiro agradável, como você sabe; mas vou trocá-lo por outro. No meu tempo de vida eu preciso de um que seja de ainda mais suaves anos. Fário, pelo menos, diz que ele e eu estamos no mesmo período de vida; pois estamos ambos perdendo os dentes. No entanto, mesmo agora, mal posso seguir o seu ritmo enquanto corre, e dentro de um curto espaço de tempo não poderei segui-lo; assim que você vê quão lucrativo é o exercício diário. Brevemente abre-se um grande intervalo entre duas pessoas que viajam de maneiras diferentes. Meu escravo está subindo no momento em que estou descendo e você certamente sabe quanto mais rápida a última o é. Não, eu estava errado; pois agora minha vida não está descendo; está caindo completamente.

5. Você pergunta, por tudo isso, como nossa corrida resultou hoje? Corremos para um empate, algo que raramente acontece em uma competição em corrida. Depois de me cansar dessa maneira (porque não posso chamar de exercício), tomei um banho frio; isto, em minha casa, significa apenas morno. Eu, o antigo entusiasta da água fria, que costumava celebrar o ano novo mergulhando no canal[3], que, tão naturalmente como eu ia fazer alguma leitura ou escrita, ou compor um discurso, costumava inaugurar o primeiro do ano com um mergulho no aqueduto de Virgo[4], mudei minha fidelidade, primeiro para o Tibre, e depois para o meu tanque favorito, que é aquecido apenas pelo sol, às vezes quando eu sou mais robusto e quando não há sequer uma falha em meus processos corporais. Tenho muito pouca energia para tomar banho.

6. Após o banho, algum pão envelhecido e café-da-manhã sem uma mesa; não há necessidade de lavar as mãos após uma refeição como essa. Então vem uma sesta muito curta. Você conhece meu hábito; aproveito um pouquinho de sono, desarrear, por assim dizer. Pois estou satisfeito se consigo parar de ficar acordado. Às vezes eu sei que dormi; outras vezes, tenho uma mera suspeita.

7. Eis que agora o barulho das corridas soa sobre mim! Meus ouvidos são castigados por aplausos súbitos e gerais. Mas isso não perturba meu pensamento nem quebra sua continuidade. Posso suportar um alvoroço com completa resignação. A mistura de vozes embaralhadas em uma nota soa para mim como o ruído das ondas, ou como o vento que açoita as copas das árvores, ou como qualquer outro som que não traz nenhum significado.

8. O que é, então, você pergunta, a que tenho dado a minha atenção? Vou dizer-lhe, um pensamento apoderou-se de minha mente, desde ontem, ou seja, o que os homens da maior sagacidade têm querido dizer quando ofereceram as provas mais frívolas e intrincadas para problemas da maior importância, provas que podem ser verdade, mas ainda assim se assemelham a falácias.

9. Zenão, o maior dos homens, o reverenciado fundador da nossa brava e sagrada escola de filosofia, deseja desencorajar-nos da embriaguez. Ouça, pois, os seus argumentos para provar que o bom homem não se embriagará: “Ninguém confia um segredo a um homem bêbado, mas confiará um segredo a um homem bom, portanto, o bom homem não vai ficar embriagado“. Perceba quão ridículo Zenão é feito quando montamos um semelhante silogismo em contraste com o seu. Há muitos, mas um bastará: “Ninguém confia um segredo a um homem quando ele está dormindo, mas confia-se um segredo a um homem bom, portanto, o homem bom não vai dormir.”

10. Posidônio advoga a causa de nosso mestre Zenão da única maneira possível; mas não pode, eu mantenho, ser defendido mesmo desta maneira. Pois Posidônio sustenta que a palavra “bêbado” é usada de duas maneiras, – em um o caso de um homem que é carregado de vinho e não tem controle sobre si mesmo; no outro, de um homem que está acostumado a ficar bêbado, e é um escravo do vício. Zenão, diz ele, queria dizer do último, o homem que está acostumado a se embebedar, não o homem que está bêbado; e ninguém poderia confiar a esta pessoa qualquer segredo, pois poderia ser tagarelado quando tal homem estivesse em seus copos.

11. Esta é uma falácia. Pois o primeiro silogismo se refere a aquele que está realmente bêbado e não a aquele que está prestes a ficar bêbado. Você certamente vai admitir que há uma grande diferença entre um homem que está bêbado e um beberrão. Aquele que está realmente bêbado pode estar neste estado pela primeira vez e pode não ter o hábito, enquanto o beberrão muitas vezes está livre da embriaguez. Interpreto, portanto, a palavra em seu sentido usual, especialmente porque o silogismo é estabelecido por um homem que pratica o uso cuidadoso das palavras e que pesa sua linguagem. Além disso, se é isso que Zenão quis dizer, e o que queria que significasse para nós, ele estava tentando aproveitar-se de uma palavra ambígua para atingir uma falácia; e nenhum homem deve fazer isto quando a verdade é o objeto da investigação.

12. Mas admitamos, de fato, que ele quis dizer o que Posidônio diz; mesmo assim, a conclusão é falsa, que segredos não são confiados a um bêbado habitual. Pense quantos soldados que não estão sempre sóbrios foram confiados por um general ou um capitão ou um centurião com mensagens que não poderiam ser divulgadas! Quanto ao notório plano de assassinato de Caio César, quero dizer, o César que conquistou Pompeu e obteve o controle do estado[5], Tílio Cimbro foi confiado por ele pelo não que menos Caio Cássio. Cássio, ao longo da sua vida, bebeu água; Enquanto Tílio Cimbro era um beberrão, bem como um arruaceiro. O próprio Cimbro aludiu a este fato, dizendo: “Eu carrego um mestre, não posso controlar minha bebida!

13. Portanto, cada um lembre-se daqueles que, ao seu conhecimento, não podem ser confiados com vinho, mas são confiados com a palavra; e ainda um caso ocorre a minha mente, que eu relatarei, para que não caia no esquecimento, pois a vida deve ser provida de ilustrações notáveis. Não vamos sempre recordar ao passado obscuro.

14. Lucio Pisão, o diretor de Segurança Pública em Roma, estava bêbado desde o momento de sua nomeação. Costumava passar a maior parte da noite em banquetes e dormia até o meio-dia. Era assim que passava as horas da manhã. No entanto, aplicou-se com toda a diligência aos seus deveres oficiais, que incluía a tutela da cidade. Até o virtuoso Augusto confiava nele com ordens secretas quando o colocou no comando da Trácia[6]. Pisão conquistou aquele país. Tibério também confiava nele quando aproveitava férias na Campânia, deixando para trás, na cidade, muitos assuntos críticos que suscitavam suspeita e ódio.

15. Acho que foi por causa da embriaguez de Pisão ter dado bom resultado para o Imperador que ele nomeou Cosso para o cargo de prefeito de Roma, um homem de autoridade e equilíbrio, mas tão embebido e mergulhado em bebida que uma vez, em uma reunião do Senado, para onde tinha ido depois de banquetear, foi dominado por um sono do qual não podia ser despertado, e teve de ser levado para casa. Foi a este homem que Tibério enviou muitas ordens, escritas em suas próprias mãos, ordens que ele acreditava que não deveria confiar nem mesmo aos oficiais de sua casa. Cosso nunca deixou escapar um único segredo, seja pessoal ou público.

16. Aboliremos, portanto, todas as arengas como esta: “Nenhum homem nos laços da embriaguez tem poder sobre a sua alma. À medida que os próprios toneis são arrebentados pelo vinho novo, e como a escória no fundo é levantada à superfície pela força da fermentação, assim, quando o vinho efervesce, o que está escondido embaixo é levantado e tornado visível. Como um homem subjugado pelo licor não pode manter a sua comida quando ele exagera no vinho, assim também ele não pode manter um segredo. Derrama imparcialmente tanto os seus próprios segredos como os de outras pessoas “.

17. Isto, naturalmente, é o que comumente acontece, mas também acontece – nós discutirmos assuntos sérios com aqueles que sabemos ter o hábito de beber. Por conseguinte, esta proposição, que é estabelecida sob a forma de uma defesa do silogismo de Zenão, é falsa – que os segredos não são confiados ao bêbado habitual. Quão melhor é acusar em público a embriaguez com franqueza e expor seus vícios! Pois mesmo o bom homem médio evita-a, para não mencionar o sábio perfeito, que se satisfaz abrandando sua sede; o sábio, mesmo que de vez em quando guiado pelo bom ânimo, e, por causa de um amigo, seja levado um pouco longe demais, sempre para antes da embriaguez.

18. Investigaremos mais tarde a questão se a mente do sábio é perturbada por excesso de vinho e se comete loucuras como as do bêbado; mas enquanto isso, se quiser provar que um bom homem não deve ficar bêbado, por que trilhar pela lógica? Mostre como é vil beber mais licor do que se pode suportar, e não saber a capacidade de seu próprio estômago; mostre quantas vezes o bêbado faz coisas que o fazem corar quando está sóbrio; afirmam que a embriaguez não é senão uma condição de insanidade propositadamente assumida. Prolongue a condição do bêbado a vários dias; terá alguma dúvida sobre sua loucura? Mesmo assim, a loucura não é menor; meramente dura um tempo mais curto.

19. Pense em Alexandre da Macedônia, que esfaqueou Clito[7], seu amigo mais querido e mais fiel, em um banquete; depois que Alexandre compreendeu o que tinha feito, desejou morrer, e seguramente devia ter morrido. A embriaguez acende e revela todo o tipo de vícios, e elimina o sentimento de vergonha que encobre nossas ações perversas. Pois mais homens se abstêm de ações proibidas porque têm vergonha de pecar do que porque suas inclinações são boas.

20. Quando a força do vinho se torna muito grande e ganha o controle sobre a mente, todo mal escondido sai do seu esconderijo. A embriaguez não cria vícios, apenas os trazem à vista; nessas ocasiões o homem lascivo não espera até a privacidade de um quarto, mas sem postergação dá carta branca às exigências de suas paixões; em tais ocasiões o homem sem castidade proclama e publica sua doença; nessas ocasiões seu companheiro intratável não restringe sua língua ou sua mão. O homem pedante aumenta sua arrogância, o homem cruel sua crueldade, o caluniador seu veneno. A cada vício é dado liberdade.

21. Além disso, esquecemos quem somos, pronunciamos palavras hesitantes e mal enunciadas, o olhar é inseguro, o passo vacilante, a cabeça confusa, o próprio teto se move como se um ciclone estivesse girando toda a casa, e o estômago sofre tortura quando o vinho gera gás e faz com que nossas próprias entranhas inchem. No entanto, na ocasião, esses problemas podem ser suportados, desde que o homem retenha sua força natural; mas o que pode fazer quando o sono prejudica seus poderes, e quando aquilo que foi embriaguez se torna indigestão?

22. Pense nas calamidades causadas pela embriaguez em uma nação! Este mal traiu aos seus inimigos as raças mais espirituosas e guerreiras; este mal abriu brechas em muros defendidos pela guerra obstinada de muitos anos; este mal tem colocado povos sob influência estrangeira, povos que eram totalmente inflexíveis e desafiadores do jugo; este mal conquistou pela taça de vinho aqueles que na batalha eram invencíveis.

23. Alexandre, que acabo de mencionar, passou por suas muitas lutas, suas muitas batalhas, suas muitas campanhas de inverno (através das quais conseguiu superar as desvantagens do tempo e do lugar), os muitos rios que fluíam de fontes desconhecidas e os muitos mares, todos em segurança; foi a intemperança em beber o que derrubou, e a famosa taça mortal de Hércules[8].

24. Que glória há em beber muito? Quando você ganha o prêmio, e os outros convidados do banquete, escarrapachados adormecidos ou vomitando, recusam seu desafio a ainda mais brindes; quando você é o último sobrevivente da orgia; quando vence cada um por seu magnífico espetáculo de proezas e não há nenhum homem que tenha se provado de tão grande capacidade como você, você é vencido pelo barril.

25. Marco Antônio era um grande homem, um homem de habilidade distinta; mas o que o arruinou e o levou a hábitos exóticos e vícios não romanos, se não a embriaguez e – não menos potente que o vinho – o amor por Cleópatra? Foi isso que o fez inimigo do Estado; isto foi o que o tornou fraco para seus inimigos; foi isso que o fez cruel, quando, sentado à mesa, lhe trouxeram as cabeças dos líderes da República[9]; quando no meio das festas mais elaboradas e do luxo régio ele reconhecia os rostos e as mãos dos homens que havia proscrito; quando, ainda que cheio de vinho, ainda tinha sede de sangue. É intolerável que estivesse bebendo enquanto fazia tais coisas; quão mais intolerável que tenha feito essas coisas enquanto realmente bêbado!

26. Crueldade geralmente segue a bebedeira, pois a solidez mental de um homem é corrompida e tornada selvagem. Assim como uma doença persistente faz os homens ranzinzas e irritáveis e os faz selvagens na mínima oposição de seus desejos, assim também ataques contínuos de embriaguez bestializam a alma. Pois quando as pessoas estão frequentemente fora de si, o hábito da loucura perdura, e os vícios que o licor aflora retêm seu poder mesmo quando o licor se vai.

27. Portanto, você deve expor por que o sábio não deve ficar embriagado. Explique por fatos, e não por meras palavras, a hediondez da coisa e seus males assombradores. Faça o que é mais fácil de tudo – ou seja, demonstre que o que os homens chamam de prazeres são punições assim que ultrapassarem os limites devidos. Pois se você tentar provar que o sábio pode se saciar com muito vinho e ainda manter seu curso reto, mesmo que ele esteja bêbado, você vai acabar por inferir por silogismos que ele não vai morrer se ele engolir veneno, que não vai dormir se tomar uma poção sonífera, que não vai vomitar e rejeitar a matéria que entope seu estômago quando você lhe dá heléboro[10]. Mas, quando os pés de um homem cambaleiam e sua língua está instável, que razão você tem para acreditar que ele esteja em parte sóbrio e em parte bêbado?

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Não significa que passou metade do dia a dormir, pois ele necessitava pouco do sono (§ 6). O leito de que se trata aqui, portanto, é uma espécie de divã no qual se reclinava para meditar quando não estava à mesa de trabalho.

[2] Pharius.

[3] Inverno no hemisfério norte.

[4] Construído por Marcos Agripa; Atualmente fonte de Trevi.

[5] O preciosismo de Sêneca é necessário porque Caio César era o nome comumente usado para designar Calígula.

[6] A Trácia é uma região histórica do sudeste da Europa. Antiga região da Macedônia, atualmente é dividida entre a Grécia, Turquia e a Bulgária.

[7] Clito, o Negro foi um oficial do exército macedônio liderado por Alexandre, o Grande. Ele salvou a vida de Alexandre na Batalha do Grânico. Clito foi, mais tarde, morto pelas mãos do próprio Alexandre durante uma bebedeira.

[8] Há uma versão , não confirmada, que Alexandre teria morrido após beber da “Taça de Hércules” em uma sessão de forte bebedeira.

[9] Por ordem de Marco Antônio, a cabeça de Cícero cabeça foi pregada na Rostra no Fórum Romano. Segundo Dião Cássio a esposa de Antônio, Fúlvia, pegou a cabeça de Cícero, arrancou sua língua e a espetou repetidas vezes com um grampo de cabelo, uma vingança final contra o poder da oratória do inimigo de seu marido.

[10][10] Uma planta que possuía propriedades catárticas e era amplamente utilizada pelos antigos. Também aplicada em casos de perturbação mental.