Marco Aurélio perseguiu cristãos?

Com certa frequência perguntam se Marco Aurélio perseguiu cristãos. Em suas Meditações, há apenas uma referência aos cristãos na qual, indiretamente, os critica por não fazerem uso da razão:

Que grande alma é aquela que está pronta, em qualquer momento necessário, para ser separada do corpo e depois extinguida ou dispersa ou continuar a existir; mas de modo que esta disponibilidade venha do próprio julgamento do homem, não de mera obstinação, como com os cristãos, mas com ponderação e dignidade e de modo a convencer outro, sem demonstração dramática!” ( Livro XI, 3)

Donald Robertson, autor do excelente livro “Pense como um imperador“, escreveu um artigo sobre o assunto. Abaixo minha tradução, autorizada por Donaldson.

(imagem: As Tochas de Nero, por Henryk Siemiradzki. De acordo com Tácito, Nero usou cristãos como tochas humanas)


Marco Aurélio perseguiu cristãos?

Artigo que examina algumas das evidências a favor e contra a afirmação de que Marco Aurélio perseguia cristãos.

E em minha defesa das inúmeras críticas feitas a Marco por escritores antigos e modernos, dou de longe o maior espaço aos mais severos, que ele perseguiu os cristãos, pois acho que nenhuma acusação o teria surpreendido mais, ou lhe teria parecido mais irracional. (Henry Dwight Sedgwick)

Diz-se frequentemente na Internet, e ocasionalmente em livros, que Marco Aurélio, de alguma forma, perseguiu os cristãos.  No entanto, acho que, muitas vezes, faltam detalhes específicos.  Na verdade, há duas questões que vale a pena considerar aqui:

  1. Será que o imperador estoico Marco Aurélio perseguiu ativamente os cristãos pessoalmente?
    A maioria dos estudiosos modernos pensa que ele quase certamente não o fez.
  2. Será que Marco permitiu que outros perseguissem os cristãos?
    Isto é mais difícil de responder, embora o peso da evidência sugira que Marco Aurélio realmente tentou evitar que outros perseguissem os cristãos.  Certamente houve perseguição aos cristãos durante seu reinado, mas não está claro o quanto, até que ponto ele estava ciente disso, e que chance ele teria tido de impedi-la.

Após rever os relatos da perseguição aos cristãos durante o reinado de Marco Aurélio, H.D. Sedgewick[1] constatou:

A única evidência de que Marco Aurélio tinha alguma relação direta com qualquer destes casos é esta declaração em Eusébio[2] que, durante o julgamento em Lyon, o governador escreveu para pedir instruções a ele.

Portanto, vejamos as principais evidências, começando com esta declaração de Eusébio sobre os supostos eventos em Lyon…

Eusébio

A perseguição mais famosa aos cristãos durante o reinado de Marco Aurélio foi supostamente em Lyon, na Gália, em 177 d.C.  A primeira e única evidência deste incidente vem do historiador cristão Eusébio, que cita uma carta bastante curiosa em sua História Eclesiástica, descrevendo os eventos da seguinte forma:

A grandeza da tribulação nesta região, e a fúria dos pagãos contra os santos, e os sofrimentos das testemunhas abençoadas, não podemos relatar com exatidão, nem mesmo poderiam ser registrados.  Pois com todas as suas forças o adversário [Satanás] caiu sobre nós, dando-nos uma amostra de sua atividade desmedida na sua vinda futura. Ele se esforçou de todas as maneiras para praticar e usar seus servos contra os servos de Deus, não apenas nos expulsando de casas, banhos e mercados, mas proibindo qualquer um de nós de ser visto em qualquer lugar que seja.  Mas a graça de Deus conduziu o conflito contra ele, e libertou os fracos, e os colocou como pilares firmes, capazes por paciência de suportar toda a ira do Maligno.
E se uniram a Ele, sofrendo todo tipo de vergonha e ferimentos; e considerando seus grandes sofrimentos como pouco, agarraram-se a Cristo, manifestando verdadeiramente que “os sofrimentos deste tempo presente não são dignos de serem comparados com a glória que nos será revelada depois”. [Romanos 8:18 7]. Antes de tudo, eles suportaram nobremente os ferimentos que lhes foram infligidos pela multidão; clamores e golpes e arrastões e roubos e apedrejamentos e prisões, e todas as coisas que uma multidão enfurecida se deleita em infligir a inimigos e adversários. Então, sendo levados ao fórum pelo chiliarch [comandante da guarnição?] e pelas autoridades da cidade, foram examinados na presença de toda a multidão, e tendo confessado, foram presos até a chegada do governador.

A carta continua a descrever numerosas torturas sangrentas com um nível de detalhe que pode parecer um tanto excessivo e pitoresco.  Muitos leitores modernos consequentemente acham o estilo como indicativo de ficção, ou pelo menos de exagero.

Além disso, há vários problemas muito marcantes enfrentados por aqueles que querem tentar usar esta carta como prova para a alegação de que Marco perseguia os cristãos:

  1. Eusebius terminou de escrever a História Eclesiástica em cerca de 300 d.C., mais de cento e vinte anos após o suposto incidente.  Não há indicação de quando a carta que ele está citando foi realmente escrita.  Entretanto, ele alega que os eventos descritos nela aconteceram muito antes mesmo de ele nascer.  Portanto, ele não tinha conhecimento em primeira mão, mas confiava inteiramente na narrativa fornecida pela duvidosa carta citada.
  2. Os historiadores têm que levar em conta o “argumento baseado no silêncio”: nenhum outro autor pagão ou cristão do período faz qualquer menção a esses eventos, apesar de sua natureza marcante e dramática.  É altamente notável que nenhum outro autor cristão do período se refira de fato a este incidente.  De fato, o primeiro autor na Gália a mencionar este evento foi Sulpício Severo[3], escrevendo 400 anos depois, e sua única fonte parece ser Eusébio.
  3. O pai da igreja Irineu[4], bispo cristão de Lyon, onde o incidente supostamente ocorreu, escreveu seu gigantesco Adversus Haereses de cinco volumes em 180 d.C., três anos após a suposta perseguição.  E ainda assim, ele não faz absolutamente nenhuma menção a este incrível evento que aconteceu em sua cidade.  Na realidade, ao contrário, ele diz: “Os romanos deram paz ao mundo, e nós [cristãos] viajamos sem medo pelas estradas e através do mar onde quer que seja”. (Contra Heresias, Livro IV, Capítulo 30, Sentença 3).
  4. O pai da igreja, Tertuliano[5], tinha cerca de vinte anos na época em que o incidente em Lyon supostamente aconteceu.  Como veremos, embora ele estivesse realmente vivo na época, ele também não faz nenhuma menção à perseguição em Lyon, e na verdade diz muito enfaticamente que Marco Aurélio era um “protetor” dos cristãos.
  5. A carta citada por Eusébio começa culpando as ações da turba do ” o adversário ” ou no “Maligno”, pelo qual os autores claramente queriam dizer Satanás. Ela continua descrevendo como os mártires cristãos sobreviveram a torturas inconcebíveis e feridas extensas, foram milagrosamente curados e restaurados à saúde quando esticados na cremalheira, e até mesmo ressuscitados dos mortos.  Isto acrescenta um elemento sobrenatural ou implausível ao relato, que muitos leitores modernos podem achar indicativo de falsidade ou exagero.
  6. A carta realmente conclui culpando a multidão e as autoridades da cidade de Lyon – ela não atribui responsabilidade a Marco Aurélio ou a Roma.  Quando este evento supostamente aconteceu, a propósito, Marco estava ocupado em campanha na fronteira norte, a cerca de três semanas de marcha longe de Lyon.
  7. Temos o texto sobrevivente de um édito imperial de Marco Aurélio que fornece provas de que ele realmente tentou evitar a perseguição dos cristãos pelas autoridades provinciais (veja abaixo).
  8. Finalmente, e bizarramente, o próprio Eusébio admitiu várias vezes que sua história eclesiástica continha “falsidades” deliberadas ou fraudes piedosas.  Ele é, portanto, frequentemente visto como uma fonte muito pouco confiável para este tipo de informação.

Edward Gibbon, por exemplo, autor de A História do Declínio e da Queda do Império Romano, gostava de ressaltar que Eusébio admitiu empregar a desinformação deliberada para promover a mensagem cristã.  Um dos cabeçalhos dos capítulos de Eusébio era: “Que às vezes será necessário usar a falsidade como um remédio para o benefício daqueles que requerem tal modo de tratamento”.  O historiador Jacob Burckhardt, portanto, descreveu Eusébio como “o primeiro historiador completamente desonesto da antiguidade”.  De fato, seria mais apropriado referir-se a Eusébio como um propagandista cristão do que como historiador.

Em resumo, por estas e outras razões, Eusébio é considerado por muitos estudiosos modernos como uma fonte extremamente pouco confiável.  Seus relatos de martírio cristão referem-se a eventos várias gerações antes mesmo de ele nascer, como vimos, e são embelezados com detalhes extravagantes que têm o ar de ficção.  Por exemplo, a perseguição não é retratada como esporádica, mas infligida por Satanás em miríades de cristãos em todo o império.  A escala e severidade desta perseguição é totalmente incompatível com o testemunho de outros cristãos vivos na época e difícil de reconciliar com a escassez de provas de outros autores.  Além disso, ele inclui muitas reivindicações sobrenaturais que minam a credibilidade de seus relatos aos olhos dos leitores modernos.  Por exemplo, ele afirma como fatos milagres como o de que mártires cristãos sobreviveram dentro dos estômagos dos leões depois de serem comidos ou que levitavam centenas de metros no ar pela graça de Deus.  Como foi observado acima, a própria carta também descreve a cura milagrosa de mártires gravemente feridos em Lyon, e até mesmo sua ressurreição da morte.  Se questionarmos estas reivindicações sobrenaturais, é difícil saber que outros aspectos da carta devem ser levados a sério.

Eusébio também se mostra particularmente pouco confiável em relação a esta época da história romana porque, notavelmente, em vários pontos ele realmente confunde Marco Aurélio tanto com seu irmão adotivo Lúcio Vero, quanto com seu pai adotivo Antonino Pio.  Além disso, é frequente que os documentos (cartas, etc.) citados em fontes antigas não sejam considerados confiáveis por acadêmicos, porque muitas falsificações circulavam na época e os autores antigos muitas vezes não tinham os recursos para autenticá-los.  Os estudiosos, de fato, já identificaram numerosos documentos citados nos escritos de Eusébio como falsificações definitivas.  Nesta carta em particular, excepcionalmente, nenhuma data é dada na rubrica citada, portanto não está claro em que base Eusébio poderia ter chegado à conclusão de que a intenção era se referir a eventos durante o reinado de Marcus Aurelius.  A própria carta emprega apenas o título genérico de César, para o Imperador.  Eusébio pode estar apenas adivinhando a data, e que o César em questão é Marco Aurélio, embora francamente pareça provável que a carta inteira seja uma falsificação.  Como foi observado acima, porém, este documento é a única e única prova da suposta perseguição em Lyon.

Tertuliano

De fato, as únicas fontes que descrevem a perseguição durante o reinado de Marco Aurélio vêm de gerações posteriores de autores cristãos, que não foram testemunhas dos eventos que eles descrevem.  Nenhum deles realmente atribui responsabilidade a Marco.  O relato mais famoso é a perseguição de Lyon, que, como vimos, é de autenticidade altamente questionável.

Em contraste, o pai da igreja Tertuliano foi na verdade um contemporâneo de Marco Aurélio e seu testemunho é que ele fora enfaticamente um “protetor” dos cristãos.

Mas de tantos príncipes desde aquele tempo até o presente, homens versados em todos os sistemas de conhecimento, produzem se você quiser, um perseguidor dos cristãos. Nós, entretanto, podemos, do outro lado, produzir um protetor, se as cartas do mais sério imperador Marco Aurélio forem revistadas, nas quais ele testemunha que a conhecida seca germânica foi dissipada pela chuva obtida através das orações dos cristãos que por acaso estavam no exército. ( Apologia, 5)

Isto parece criar uma contradição interna na literatura cristã, pelo menos para aqueles que (duvidosamente) desejam ler outros relatos cristãos que culpem Marco pela perseguição a cristãos.  (Como vimos, a carta citada por Eusébio não parece realmente responsabilizar).  Na verdade, nenhum autor, cristão ou pagão, parece citar qualquer édito de Marco que condene os cristãos.  Isto é digno de nota porque se ele tivesse realmente emitido um, eles certamente o teriam mencionado.

Carta de Marco para as Províncias Asiáticas

Temos, no entanto, um decreto sobrevivente atribuído a Marco e intitulado Carta de Antonino à Assembléia Comum da Ásia, que parece fornecer provas de que ele interveio ativamente para evitar a perseguição dos cristãos.  Ela é datada de 161 d.C., e emitida por Marco na qualidade de Imperador, o que sugere que foi uma de suas primeiras ações logo após ter sido aclamado ao trono.

Ele se refere explicitamente ao problema dos cristãos que são considerados pelos romanos como ateus porque eles não adoram os deuses pagãos convencionais.  Marco adverte as autoridades provinciais: “você molesta esses homens e os endurece em suas convicções, às quais se apegam, ao acusá-los de serem ateus”.  Ele afirma que os governadores provinciais escreveram muitas vezes a seu pai adotivo, o imperador Antonino Pio, cuja resposta foi sempre “não molestar tais pessoas”, a menos que eles estivessem realmente fazendo tentativas de prejudicar o governo romano.  Marco diz que ele mesmo, como Imperador, também repete com frequência esta política de não assédio a eles.  Na verdade, ele chega ao ponto de dizer: “E se alguém persistir em trazer qualquer pessoa [cristã] a problemas por ser o que é, que ele, contra quem a acusação é feita, seja absolvido mesmo que a acusação seja feita, mas que aquele que traz a acusação seja chamado a prestar contas”.  Em outras palavras, ele sugere que as autoridades provinciais possam ser punidas por Roma por perseguir os cristãos somente com base em sua religião.

C.R. Haines, que publicou este édito como um apêndice a sua tradução da Loeb das Meditações, incluiu um ensaio intitulado “Nota sobre a Atitude de Marco para com os Cristãos”.  Ele começa “Nada fez tanto mal ao bom nome de Marco quanto sua suposta atitude intransigente para com os cristãos” e conclui:

De fato, Marco foi acusado como perseguidor dos cristãos por razões puramente circunstanciais e bastante insuficientes.  O testemunho geral dos escritores cristãos contemporâneos é contra a suposição.  O mesmo acontece com o caráter conhecido de Marco.

Ele continua argumentando que a afirmação retrospectiva de Eusébio sobre inúmeras miríades de cristãos sendo perseguidos e horrivelmente torturados até a morte em todo o Império Romano dois séculos antes também é inconsistente com numerosos fatos históricos – frequentemente citados pelo próprio Eusébio e outros autores cristãos.  Por exemplo, a presença de um bispo à frente de uma comunidade de cristãos foi tolerada até mesmo em Roma, havia vários cristãos a serviço da própria casa de Marco, e provavelmente até mesmo cristãos no Senado romano.  Segundo Eusébio e outras três fontes cristãs, por exemplo, o senador Apolônio de Roma foi condenado à morte, sob o regime de Commodus.  Entretanto, isso implica que durante o reinado de Marco Apolônio foi permitido servir no Senado, apesar de ser cristão.  Várias fontes, incluindo Tertuliano, atestam que a Legião Fulminante[6] (Legio XII Fulminata) comandada por Marco na fronteira norte era composta em grande parte por soldados cristãos.

A obsessão de Marco Aurélio pela bondade, justiça e clemência é claramente demonstrada ao longo de toda Meditações.  Entretanto, isto é reforçado por numerosas referências a seu caráter nos escritos de outros autores romanos.  Marco é retratado com notável consistência como sendo um homem de excepcional clemência e humanidade – essa era sua reputação universal.  Os autores latinos tipicamente usavam a palavra humanitas (bondade) para descrever seu caráter; em grego a palavra filantropia (amor à humanidade) era preferida.

Haines, portanto, também acha implausível que alguém tão universalmente considerado como um homem de bondade e clemência excepcionais tivesse “encorajado a multidão contra pessoas inofensivas, ordenado a tortura de mulheres e meninos inocentes, e violado os direitos de cidadania”.  De fato, como vimos, não parece haver qualquer evidência de que Marco tenha sido realmente responsável pela perseguição dos cristãos.  O peso das provas, ao contrário, sugere que ele era, como afirma Tertuliano, um “protetor” dos cristãos, e tentou impedir as autoridades provinciais de persegui-los.

Podemos também olhar para o reinado de Antonino Pio, pai adotivo de Marco e predecessor como imperador, em busca de provas.  Desde que Marco foi nomeado César em 140 DC até a morte de Antonino Pio em 161 DC, por mais de vinte anos, Marco foi seu braço direito e praticamente co-regente ao seu lado.  De fato, Marco ajudou Antonino Pio a governar por mais tempo do que ele mesmo reinou, pois ele morreu em 180 DC, após dezenove anos no trono.  Tanto quanto sabemos, eles estavam de acordo em todos os assuntos, e cerca de uma década após sua morte, nas suas Meditações, Marco ainda se lembra de viver como um “discípulo de Antonino”.

De acordo com o epítome da História Romana de Cassius Dio feita por Xifilino:[7]

Antonino é reconhecido por todos como tendo sido nobre e bom, nem opressivo para os cristãos nem violento perante nenhum de seus outros súditos; ao invés disso, ele mostrou aos cristãos grande respeito e acrescentou à honra na qual Adriano costumava mantê-los. (Historia Romana)

Portanto, seria altamente notável se Marco (de todas as pessoas!) que tinha sido o braço direito nesta administração de Antonino, tivesse de repente levado a cabo uma reviravolta política dramática em relação aos cristãos e começasse a persegui-los ativamente em grande escala.

Na verdade, a forma de cristianismo que mais cresceu durante o reinado de Marco foi o Montanismo[8].  Sabemos que os Montanistas foram erradicados da história não porque foram perseguidos por Marco Aurélio ou pelas autoridades romanas, mas porque foram perseguidos e excomungados por outros cristãos, possivelmente incluindo os líderes da igreja ortodoxa de Lião.


[1] Henry Dwight Sedgwick III (24 de setembro de 1861 – 5 de janeiro de 1957) foi um advogado e autor americano. Escreveu uma biografia de Marco Aurélio, obra muito popular.

[2] Eusébio de Cesareia (ca. 265, 30 de maio de 339) (chamado também de Eusebius Pamphili) foi bispo de Cesareia e é referido como o pai da história da Igreja porque nos seus escritos estão os primeiros relatos quanto à história do cristianismo primitivo.

[3] Sulpício Severo (em latim: Sulpicius Severus; c. 363 — ca. 425) foi um escritor cristão nascido na Aquitânia. Ele é conhecido por sua História Sacra, ou a história do mundo desde a criação até seu tempo, e também por sua biografia de Martinho de Tours.

[4] Ireneu ou Irineu de Lyon ou Lião, em grego Εἰρηναῖος [pacífico] transliterado [Eirenaios], em latim Irenaeus, (ca. 130 – 202) foi um bispo grego, teólogo e escritor que nasceu, segundo se crê, na província romana da Ásia Menor Proconsular – a parte mais ocidental da actual Turquia – provavelmente Esmirna. O livro mais famoso de Ireneu, Sobre a detecção e refutação da chamada Gnosis, também conhecido como Contra Heresias (Adversus haereses, ca. 180 d.C.) é um ataque minucioso ao gnosticismo, que era então uma séria ameaça à Igreja primitiva e, especialmente, ao sistema proposto pelo gnóstico Valentim

[5] Tertuliano (em latim: Quintus Septimius Florens Tertullianus; c. 160 — c. 220 (60 anos)) foi um prolífico autor das primeiras fases do Cristianismo, nascido em Cartago na província romana da África Proconsular. Ele foi o primeiro autor cristão a produzir uma obra literária (corpus) em latim. Ele também foi um notável apologista cristão e um polemista contra a heresia.

[6] Legio duodecima Fulminata ou Legio XII Fulminata (“Décima-segunda legião, armada com raios”), também conhecida como “Paterna”, “Victrix”, “Antiqua”, “Certa Constans” e “Galliena”, foi uma legião romana, formada por Júlio César em 58 a.C. e que o acompanhou nas Guerras gálicas até 49 a.C. A unidade permanecia guardando um vau do rio Eufrates perto de Melitene no início do século V d.C. O emblema da legião era um raio (fulmen). Nos séculos finais de sua existência passou a ser conhecida corriqueiramente – e incorretamente – como Legio Fulminatrix, a Legião Fulminante.

[7] João Xifilino (em grego: Ἰωάννης Η΄ Ξιφιλῖνος; em latim: Joannes Xiphilinus), dito Epitomator por sua epítome de Dião Cássio, viveu em Constantinopla durante segunda metade do século XI. Ele foi um monge e era sobrinho do patriarca João VIII de Constantinopla, um pregador renomado.

[8] O montanismo foi um movimento cristão fundado por Montano por volta de 156-157 (ou 172), que se organizou e difundiu em comunidades na Ásia Menor, em Roma e no Norte de África. Por ter se originado na região da Frígia, Eusébio de Cesareia relata em sua História Eclesiástica (V.14-16) que ela era chamada de “Heresia Frígia” na época.

Crescendo como estoico: Uma educação filosófica voltada para o caráter, a persistência e a garra

Artigo útil e prático para os estoicos com filhos, do site devitastoica.

Começa advertindo que, como pais, temos de dar o bom exemplo, só depois lições. Leah Goldrick aborda então como ensinar as quatro virtudes cardeais dos estoicos, tudo baseado em Musônio Rufo.

Gostei especialmente do exercício sugerido para praticar “determinação”, a jardinagem:

“Mexer com plantas é particularmente educativo para elas, visto que envolve o adiamento da gratificação e, ocasionalmente, a lição de que o trabalho duro nem sempre é recompensado. A determinação é requerida quando se está semeando, regando e cultivando as plantas, e somente no fim é que você aproveitará a comida que produziu.”

Leah Goldrick, traduzido pelo site.

Catão diante da morte

Marco Pórcio Catão Uticense (Marcus Porcius Cato Uticensis), também conhecido como Catão de Útica ou Catão, o Jovem, foi um político romano célebre pela sua inflexibilidade e integridade moral. Viveu na época de Julio César e foi grande defensor da república.

Sêneca o cita frequentemente como exemplo do sábio estoico ideal. ( aqui e aqui, entre outros)

O artigo “Catão de Útica diante da morte” de Donato Ferrara é uma excelente fonte para conhecermos mais dele.

Catão de Útica diante da morte

Imagem: Morte de Catão por Jean-Paul Laurens

Joaquim Nabuco, Epicteto e a Abolição da Escravatura

Joaquim Nabuco e Epicteto

Passado 13 de maio, é interessante relembrar o movimento abolicionista. Hoje li um artigo que discorre sobre como Joaquim Nabuco uso o exemplo de Epicteto, um escravo liberto, em sua luta contra a escravidão no Brasil.

Trata-se do artigo Joaquim Nabuco, Epicteto e a Abolição da Escravatura por Aldo Dinucci, publicado pela revista Fêlix da Universidade Federal de Uberlândia. É uma análise do texto de Nabuco, intitulado Escravos! Versos Franceses a Epicteto.

Nele é explicado como Joaquim Nabuco juntou literariamente suas forças a Epicteto, fazendo uma comparação entre a escravidão dos tempos antigos e a moderna e demonstrando que a instituição da escravidão corrompe as demais instituições sociais e ameaça a sociedade como um todo, tornando-a iníqua.

Alguns trechos:

Nabuco evidentemente não defende a escravidão na Antigüidade, mas percebe-a como sendo menos brutal que aquela de seu tempo, na medida em que a diade senhor-escravo de então era uma relação acidental. Senhor e escravo eram papéis que se davam pelas circunstâncias do mundo e não por uma falha ou uma debilidade intrínseca.Assim, grandes homens foram escravos por algum tempo: Platão, Fédon de Élis, Diógenes de Sínope, por exemplo. Outros chegam como escravos em Roma e logo adquirem liberdade e reconhecimento, tais como Plutarco e Epicteto.”

” A escravidão dos tempos de Nabuco, porém, tem uma característica terrível: o escravo é declarado escravo por nascença, por natureza, por origem. A pele negra e a origem africana eram a marca do escravo.”

” Epicteto é paradigma desta verdade que diz que os homens todos são potencialmente humanos, não importando a origem ou o que for, e que essa humanidade é derivada do conhecimento que se tem sobre si mesmo e sobre a sua condição.”

Epicteto eventualmente tornou-se aprendiz do melhor professor de estoicismo do império, Musônio Rufo, e, depois de dez anos ou mais de estudo, alcançou, por seus próprios méritos, o status de filósofo. Com isso lhe adveio a verdadeira liberdade em Roma, e a preciosidade deste acontecimento foi devidamente celebrada pelo ex-escravo.

Artigo completo em: http://www.revistafenix.pro.br/PDF17/ARTIGO_01_ALDO_LOPES_DINUCCI_FENIX_OUT_NOV_DEZ_2008.pdf

O que os brasileiros poderiam aprender com os estoicos romanos

O Ensaio abaixo borda os principais filósofos estoicos e suas lições para enfrentar a adversidade, escrito sob a ótica da crise recente.

Todos têm de jogar o jogo da vida. Você não pode simplesmente andar por aí dizendo: “Não dou a mínima para a riqueza, a saúde ou se eu for mandado para a prisão ou não”. Epicteto levou tempo para explicar melhor o que quis dizer. Ele diz que todos devem jogar o jogo da vida — que os melhores o jogam com “habilidade, estilo, presteza e graça”. Mas, como a maioria dos jogos, você o joga com uma bola. Seu time intensamente se esforça para fazê-la atravessar a linha de fundo. Mas, depois do jogo, o que se faz com a bola? Ninguém se importa. Não vale a pena se importar com ela. A competição, o jogo, foi a coisa propriamente dita. A bola foi “usada” para tornar o jogo possível, mas em si mesma não tem valor algum que justifique que se lute por ela. Uma vez terminado o jogo, a bola é uma questão indiferente.

(James B. Stockdale)

O espírito do artigo é: “O mundo pode ser cruel, mas nada nos força a ser cruéis com ele. Assim como nada nos obriga a idealizá-lo. A obra da filosofia é simples e discreta.”

Artigo excelente de Donato S. Ferrara.

O que os brasileiros poderiam aprender com os estoicos romanos

26 de Abril, aniversário de Marco Aurélio

Há 1899 anos atras nascia Marco Aurélio, em 26 de abril de 121.

Durante os últimos 14 anos de sua vida ele enfrentou uma das piores pragas da história da Europa, a peste Antonina, que recebeu seu nome. Estima-se que tenha matado até 5 milhões de pessoas, possivelmente incluindo o próprio imperador. No meio desta praga, Marco Aurélio escreveu suas Meditações, o maior clássico do estoicismo, onde registra conselhos morais e psicológicos a si mesmo. Ele frequentemente aplica a filosofia estoica aos desafios de lidar com a dor, a doença, a ansiedade e a perda.

Marco Aurélio nos ensina que o medo nos faz mais mal do que as coisas das quais temos medo. Escrevemos uma série de resenhas das Meditações, uma para cada capítulo.

Morte de Sêneca: Uma lição de como abordar a Adversidade

“O desastre é a oportunidade da virtude. “

Sêneca, Sobre a Providência

Quando algo negativo acontece, ou quando somos atingidos pela adversidade, não devemos nos surpreender, mas encarar isso como uma oportunidade de criar uma situação melhor.

Para os estoicos, todo desafio ou adversidade que encontramos é visto como uma oportunidade para testar e desenvolver nosso caráter interior. Além disso, acreditar que as desgraças nunca nos acontecerão é estar fora de sintonia com a realidade, por isso, devemos esperar ativamente por eventuais solavancos na estrada, e às vezes grandes solavancos.

Sêneca e a Transformação da Adversidade

Comecei a escrever esta nota em 12 de abril, dia em que Sêneca foi morto por seu tutelado e empregador, o Imperador Nero.

Apesar de Sêneca ter se tornado um dos homens mais ricos do Império Romano, sua vida foi repleta de consideráveis adversidades. No entanto ele tentou transformar essas desgraças em algo melhor, até mesmo a sentença de morte que recebeu de Nero.

Sob Calígula, como senador, Sêneca começou a acumular grandes riquezas pessoais, o que continuaria a fazer ao longo de sua vida. Mas essas recompensas financeiras eram de fato bênçãos mistas, pois sua vida se tornava cada vez mais perigosa, e muitas vezes sob grave ameaça. Os problemas de Sêneca começaram por volta da idade de quarenta e três anos, quando Calígula quis matá-lo por inveja da qualidade de seus discursos ao Senado. Afortunadamente, o círculo de amigos de Sêneca convenceu Calígula a não matá-lo afirmando que estava doente e que morreria em breve de toda forma.

Mais tarde, quando Sêneca completava os quarenta e cinco anos, o imperador Cláudio o exilou na ilha da Córsega por oito anos e tomou metade de seus bens, sob acusações falsas (a alternativa seria a morte). Esse exílio ocorreu apenas algumas semanas após a morte de seu único filho, que faleceu ainda quando criança (ocorrência comum na época), e implicou na separação completa de sua esposa.

Depois de passar oito anos em Córsega, onde conseguiu escrever bastante (até porque não havia mais nada que ele pudesse fazer lá), finalmente foi chamado de volta a Roma, mas apenas sob a condição de se tornar tutor do jovem Nero, que na época tinha onze anos de idade.

Sêneca não mediu esforços para ajudar Nero a desenvolver um bom caráter, como vemos no livro Da Clemência, dedicado ao jovem imperador. Infelizmente o projeto foi um fracasso total, Nero não tinha nenhum interesse em filosofia ou ética. À medida que Nero crescia, ele se interessava apenas pela sua auto-gratificação e no poder às custas dos outros, o que o transformava em um tirano e um monstro. No final, Nero mandou matar muitos que o rodeavam, incluindo sua própria mãe, seu irmão e depois sua esposa. Nero finalmente mandou matar Sêneca também, para não mencionar muitos outros.

Mas apesar desses sérios obstáculos, que hoje destruiriam psicologicamente muitas pessoas, a filosofia estoica de Sêneca o ajudou a suportar essas dificuldades e a transformá-las em algo positivo. Mesmo quando Nero forçou Sêneca a cometer suicídio – o que seria de longe preferível às formas alternativas de execução disponíveis – Sêneca aproveitou a ocasião de sua própria morte para dar uma última palestra sobre filosofia a vários amigos que estavam presentes, como Sócrates o fez quando foi obrigado a beber o veneno da cicuta.

Como um bom estoico, Sêneca havia se preparado para a morte ao longo de muitos anos, como parte de sua prática e treinamento filosófico, e não mostrou um único traço de preocupação ou medo ao entregar sua vida.

É relatado que ele disse, “Dado o fato de Nero ter matado sua mãe e seu irmão, não é de se estranhar que ele tenha matado também seu tutor”. E embora as últimas palavras de Sêneca sobre filosofia não tenham chegado até nós, é fácil imaginá-lo ecoando os ditos de Sócrates sobre sua morte: “Enquanto você pode me matar, você não pode me prejudicar.”

Imagem: Manuel Domínguez Sánchez, A Morte de Sêneca

Estoicismo no Tempo da Peste: Marco Aurélio e a peste Antonina

Livro - meditacoes IV

Marco Aurélio faleceu há 1840 anos, em 17 de março de 180, durante uma expedição contra os marcomanos em Vindobona (atual Viena). Suas cinzas foram trazidas para Roma e depositadas no mausoléu de Adriano. Ele foi vítima da Peste Antonina que devastou a população do Império Romano, causando a morte de cinco milhões de pessoas, quase 5% da população do império.

“Em meados do século II d.C. a prosperidade comercial e financeira do Império Romano era formidável e quando Antonino Pio morreu, em 161, o superávit financeiro deixado para o seu sucessor, Marco Aurélio, era de 2,7 bilhões de sestércios. A crise que incapacitou o Império Romano no século II d.C. e feriu fatalmente sua supremacia não foi causada por um inimigo humano, mas por um vírus microscópico e legal. A ameaça invisível teve origem na Ásia Central, onde foi liberada na população em expansão no Mundo Antigo. Quando a pandemia chegou ao Oriente distante no ano de 161 d.C., começou a infligir mortes pavorosas na população do Império Han. Nas fronteiras militares, as forças chinesas perderam entre 30% e 40% de seus efetivos, com os soldados ou mortos ou debilitados pelos primeiros surtos mortais da infecção.

O vírus levou a mesma devastação às fortificadas fronteiras romanas e impôs maiores fatalidades entre as legiões do que qualquer horda bárbara pudesse desejar alcançar. A pandemia também espalhou a infecção através do núcleo mediterrâneo do império, transmitida nos bazares romanos lotados de pessoas conduzindo seus negócios. Pela primeira vez, desde a época de Augusto, houve um grave declínio nas finanças do Estado” (Roma e Oriente Distante, Raoul MacLaughlin)

Marco Aurélio conheceu a morte de perto, tanto em batalha como em casa, tendo perdido 6 dos seus 13 filhos. Se consolava da seguinte forma:

Outro indaga: Como não perderei meu filho? Você assim: Como não terei medo de perdê-lo? (IX, 40)

As Meditações contêm inúmeras passagens nos lembrando que a doença e morte são naturais e não devem ser temidas. Por exemplo, Aurélio diz:

“Não faça como se você fosse viver dez mil anos. A morte paira sobre você. Enquanto vive, enquanto está em seu poder, seja bom.” (IV,17)

“Tudo é efêmero, tanto quem se lembra como o que é lembrado”. (IV,35)

“Você é uma pequena alma carregando um cadáver”(IV,41)

Alexandre o macedônio e seu noivo por morte foram levados ao mesmo estado; pois ou foram recebidos nos mesmos princípios seminais do universo, ou foram igualmente dispersos entre os átomos”. (VI, 24)

“como aqueles gladiadores semi-devorados por bestas selvagens, que embora cobertos com feridas e sangue, ainda suplicam ser mantidos mais um dia, embora eles ficarão expostos ao mesmo estado às mesmas garras e mordidas…”( X,8)

Meditações de Marco Aurélio

Donald Robertson autor de “How to Think Like a Roman Emperor: The Stoic Philosophy of Marcus Aurelius” escreveu um um relato dramatizado dos acontecimentos em torno da peste Antonina e a discussão desses eventos em relação à filosofia estoica encontrada. Recomendo a leitura: Stoicism in the Time of Plague



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