Eis nossa Luta: Enlouquecer ou não.

Mais um excelente artigo de Aldo Dinucci, falando da industria cultural e como garimpar joias culturais na imensidão de banalidades da internet. Critica também o modismo do estoicismo como autoajuda voltado ao sucesso pessoal.

Para se tornar produto vendável e caber na diminuta caixinha de papelão do mercado, foi preciso amputar boa parte de sua proposta filosófica original. Pior: deixou de ser uma filosofia, lançou-se no lixo sua lógica, sua metafísica, sua crítica aos costumes, seu pensamento político, e foi reduzido a um prontuário de prescrições para indivíduos vitimados pela falta de perspectivas da atualidade, para os quais já se produz a literatura de autoajuda em geral. 

Se não é possível mudar o mundo em larga escala, é sempre possível mudar o mundo no nosso entorno imediato e em nossa cabeça. 

Artigo publicado originalmente VIVA VOX ESTOICISMO em 04 de maio de 2022.


Eu, os Estoicos e a Indústria Cultural

Por Aldo Dinucci

Tive o privilégio de viver parte de minha infância e de minha adolescência em Petrópolis, entre os anos 70 e 80. Na época, era uma cidade ainda pacata, mas com tradição cultural. Havia vários sebos pela Rua do Imperador, nos quais excelentes bibliotecas de falecidos intelectuais petropolitanos podiam ser compradas a retalho. Graças a esse fato, tive acesso à grandes obra da literatura ocidental e brasileira: boas edições de obras de Homero, Virgílio, Dante, Kaváfis, Gide, Exupéry, Graciliano, Mário de Andrade, Vinicius, Jung, Platão, Lucrécio, entre outros, podiam ser compradas por uns trocados. Tive acesso assim à boa literatura, evidentemente fundamental para a minha formação. A atmosfera bucólica da cidade, o clima ameno, o casario antigo e suas montanhas repletas de florestas da Mata Atlântica de Altitude colaboraram para que eu pudesse ler e absorver essas obras.

Não havia internet, mas, pelo rádio, podíamos ouvir uma programação musical de qualidade. Havia, por exemplo, a JB FM, que transmitia músicas clássicas pela noite, em uma programação que enviavam pelo correio em um folheto aos que o requisitassem por carta. Havia também a Rádio Mec, que apresentava sempre o melhor da MPB. Por esses meios, conheci Rachmaninoff, Prokofiev, Jobim, Vinicius (de novo!), Dick Farney, Chopin, Debussy, Cartola, entre tantos outros, responsáveis por constituir, nota por nota, diversos platôs de minha alma.

Os estoicos, na Antiguidade, viviam imersos culturalmente no que havia de melhor em sua época: conheciam profundamente os poetas trágicos, sabiam de cor miríades de versos de Homero e Virgílio, além, é claro, de todo o tesouro cultural filosófico da Antiguidade. Eram intelectuais, incluindo polímatas, como Possidônio; lógicos, como Crisipo, Carnéades e Antípatro; astrônomos, como Gêmino de Rodes e Cleomedes; intelectuais multifacetados, como Sêneca. 

Naqueles tempos, como em todos os tempos, havia uma cultura popular. Entre os ingredientes nada apetecíveis da cultura popular romana, estavam os jogos de gladiadores, que envolviam, como bem se sabe, grande carnificina, e eram assistidos por multidões ensandecidas. Assim, não é de estranhar que filósofos como Sêneca e Marco Aurélio repudiassem essas manifestações culturais.

Os estoicos partem da tese socrática segundo a qual a humanidade é fundamentalmente insana, porque mergulhada na ignorância. A filosofia estoica, nesse sentido, consiste em reeducar o indivíduo para que ele possa se livrar dessa herança má do senso comum, o qual está sempre repleto de equívocos sobre o que é o humano e qual é sua relação com o Cosmos. Então, não é de surpreender que os estoicos fossem críticos ferrenhos dos costumes, não tentando corrigi-los diretamente, pois isso era algo que viam como ao mesmo tempo impossível e imoral, já que eles mesmos não se viam como detentores da verdade capazes de reeducar a humanidade, transmitindo suas reflexões somente àqueles que iam às escolas de filosofia em busca de esclarecimento. Epicteto resume, em um fragmento, a missão da filosofia estoica: 

Eis nossa Luta: Enlouquecer ou não. 

Passemos, agora, à nossa época. Podemos dizer que hoje temos o predomínio da indústria cultural [1], que tem, como critério principal, além da ideologia que tentam nos impingir, o lucro. Some-se a isso que, no Brasil, atravessamos um verdadeiro processo de invasão cultural norte-americana, via internet, tv, literatura etc desde os anos 80 [2]. Isso poderia até ser bom em alguma medida se não fosse acompanhado pela destruição de nossa cultura nacional e se o que eles nos enviam fosse cultura de qualidade. Mas, claro, não é. São filmes, música e literatura sem qualquer senso estético ou autenticidade. E sequer podemos criticar essas subculturas abertamente, pois logo somos tachados de elitistas.

Coloquei em itálico no parágrafo anterior o termo critério: de fato, já se sabe que não temos mais critérios estéticos nos dias de hoje, e como poderíamos tê-los se o critério passou a ser precipuamente o lucro? Assim, vivemos o predomínio absoluto, nas artes e na mídia, do que vende mais. Isso atinge todas as áreas da cultura: música, literatura, cinema, religião e… agora também filosofia. 

Como é sabido, a religião se tornou também um produto da indústria cultural, sobretudo através da teologia da prosperidade [3], que está de pleno acordo com o capitalismo e o consumismo atuais, o que explica seu grande sucesso de vendas.

Lamentavelmente, o estoicismo também virou um produto a mais da indústria cultural, vendido como panaceia contra os sofrimentos impostos pelo capitalismo tardio, enfatizando a resiliência e a luta contra o sofrimento. Para se tornar produto vendável e caber na diminuta caixinha de papelão do mercado, foi preciso amputar boa parte de sua proposta filosófica original. Pior: deixou de ser uma filosofia, lançou-se no lixo sua lógica, sua metafísica, sua crítica aos costumes, seu pensamento político, e foi reduzido a um prontuário de prescrições para indivíduos vitimados pela falta de perspectivas da atualidade, para os quais já se produz a literatura de autoajuda em geral. 

Não é preciso dizer que esse tal estoicismo, produto da cultura industrial, está em completa contradição com o estoicismo originário, que se constituía como escola filosófica, investigando em detalhe todas as partes da filosofia e criando laços de amizade e amor fraternal entre seus membros.

Finalmente chego ao ponto que almejei ao começar a escrever este texto. O que fazer diante desse cenário? Ou melhor, como um estoico antigo agiria diante de uma situação como a que vivemos? Primeiro, como observei em texto anterior, um estoico antigo não tentaria mudar o mundo sozinho, pois nem se vê com tal estatura moral, nem vê isso como possível. Segundo, creio eu, buscaria selecionar cultura de qualidade para si, como de fato o faziam. Aceitar que esta seja a situação do mundo não implica que aceitemos esta situação para nós mesmos. Se não é possível mudar o mundo em larga escala, é sempre possível mudar o mundo no nosso entorno imediato e em nossa cabeça. 

Assim, se a indústria cultural se me é imposta pela TV, desligo a TV. Se o jornal passa a ser suspeitoso quanto a me empurrar ideologia barata, evito lê-lo. Se a TV a cabo passa a me bombardear com filmes comerciais ruins, cancelo minha inscrição. Entrementes, me volto para os textos e para as culturas autênticas que formaram nossa civilização, como as dos gregos, dos romanos, dos orientais, dos africanos. Esses objetos culturais autênticos ainda existem e se escondem (ou antes foram abandonados) nas bibliotecas e nos museus, reais ou virtuais. Portanto, se não há mais critério de qualidade no mundo em que vivo senão aquele que a cultura industrial quer me impor, crio eu mesmo meus critérios e deixo o que a indústria cultural produz a quem interessar possa.

Efetivamente, não mudarei o mundo em larga escala com ações assim, e não o pretendo. Mas farei aquilo que os estoicos antigos almejavam: buscarei minha felicidade através de critérios escolhidos por mim mesmo, selecionando as coisas externas (que incluem livros, músicas, lugares, viagens, pessoas) de acordo com meus próprios critérios e gostos. Tenho praticado isso e isso tem me trazido grande alegria e felicidade. Afinal, a indústria cultural, apesar de poderosa financeiramente e espalhafatosa, entra em minha casa pelas estreitas portas das telas de TV, de computador e de celular. E posso fechar essas portas com apenas um dedo      

P.S. Este texto é resultado de conversas minhas com Marcos Vinícios Pereira de Almeida, mestrando em filosofia pela UFG, a quem agradeço pelas conversas inspiradoras.


[1] Que se pode definir como “ramo de negócios… que se apropriou dos meios tecnológicos surgidos na virada do século XIX para o XX com objetivos não apenas de lucrar com a produção e a venda de mercadorias culturais, mas também de direcionar… o comportamento das massas…” (Rodrigo Duarte, Indústria cultural e meios de comunicação. São Paulo: Martins Fontes, 2014, p. 28-9). 

[2] Quanto a isso, ver Júlia Falivene Alves, A invasão cultural norte-americana. São Paulo: Moderna, 2004.   

[3] “Teologia da prosperidade (também conhecida como Evangelho da prosperidade) é uma doutrina religiosa cristã que defende que a bênção financeira é o desejo de Deus para os cristãos e que a fé, o discurso positivo e as doações para os ministérios cristãos irão sempre aumentar a riqueza material do fiel. Baseada em interpretações não-tradicionais da Bíblia, geralmente com ênfase no Livro de Malaquias, a doutrina interpreta a Bíblia como um contrato entre Deus e os humanos; se os humanos tiverem fé em Deus, Ele irá cumprir suas promessas de segurança e prosperidade. Reconhecer tais promessas como verdadeiras é percebido como um ato de fé, o que Deus irá honrar.” (Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_prosperidade)

Eram os estoicos reformadores morais?

No artigo “Eram os estoicos reformadores morais?” Aldo Dinucci explica que os estoicos entendem que o progresso através da filosofia deve ser buscado espontaneamente. Eles faziam sim propaganda de seus ensinamentos, mas os ensinavam apenas para aqueles que por sua própria vontade os buscavam. 

“Portanto, um estoico não ficará por aí importunando quem quer que seja com sua filosofia, buscando convencimento e aceitação, mas cumprirá bem os papéis que lhe foram atribuídos. Se, por acaso, é político, proporá leis equitativas e justas e buscará implementar na medida do possível o bem comum, sem, entretanto, se iludir com utopias. Os estoicos sabem que um mundo perfeito requer humanos perfeitos, como a República de Zenão, na qual todos são igualmente sábios e livres. Mas sabem também que o mundo humano é o mundo das imperfeições e das paixões e que o sábio estoico perfeito é só um ideal.”

Aldo Dinucci

Artigo publicado originalmente em Estoicismo Artesanal em 06 de fevereiro de 2022.

https://aldodinucci.blogspot.com/2022/02/eram-os-estoicos-paladinos-da-moralidade.html

Sêneca escreveu uma carta sobre isso:

“não se deve falar com um homem a menos que ele esteja disposto a ouvir.”

Sêneca, carta XXIX, 1

E também que não devemos imaginar que a filosofia possa atrair a maioria:

“Eu nunca quis atender à multidão, pois o que eu sei, eles não aprovam, e o que eles aprovam, eu não sei.”

Sêneca, carta XXIX, 10

Suspensão de juízo no estoicismo

No artigo “Como conciliar a suspensão de juízo proposta por Epicteto ao que diz Marco Aurélio em suas Meditações 2.1?” Aldo Dinucci explica o que é “suspensão de juízo” e como conciliar ensinamentos aparentemente contraditórios de Epicteto e Marco Aurélio.

Suspensão de juízo é em resumo entender antes de adjetivar, só dar nossa opinião sobre fatos ou atos depois de entender profundamente seus motivos. Muito relevante nessa época de cancelamentos sumários.

Os atos de julgar e adjetivar, mais uma vez, nos afastam da realidade, razão pela qual nos tornamos incapazes de compreender os demais justamente quando pensamos compreender suas ações. Prova disso é que nos tornamos intolerantes e agressivos com elas.

Artigo publicado originalmente em Estoicismo Artesanal em 29 de outubro de 2021.


Como conciliar a suspensão de juízo proposta por Epicteto ao que diz Marco Aurélio em suas Meditações 2.1?

Aldo Dinucci

Danilo Gavião, que conheci em um grupo de estudos de estoicismo dirigido por Donato Ferrara, me fez uma pergunta relacionada àquela que me foi feita recentemente por Selmo Gliksman, meu colega dos tempos de pós na PUC/RJ, e que respondi em um post anterior

Danilo indaga: Como conciliar a suspensão de juízo proposta por Epicteto ao que diz Marco Aurélio em suas Meditações: 

Marco Aurélio, Meditações, 2.1: Prediga a si mesmo na alvorada: encontrarei um inquisitivo, um ingrato, um insolente, um traiçoeiro, um caluniador, um indivíduo antissocial.  (Tradução: Aldo Dinucci)

Isso parece se contrapôr ao que Epicteto diz no Manual:

Epicteto, Manual, XLV: Alguém se banha de modo apressado: não digas que ele se banha de modo ruim, mas de modo apressado. Alguém bebe muito vinho: não digas que ele bebe de modo ruim, mas muito. Pois, antes que compreendas a opinião [dele], por que pensas que ele o faz de modo ruim? Assim, não te acontecerá, <ao> apreenderes as impressões compreensivas de algumas coisas, dares assentimento a outras. (IN: Epicteto, Manual Edição original de 2007,  Tradução dos originais em grego: Aldo Dinucci) 

Epicteto nos ensina que não devemos qualificar pessoas e suas ações como boas ou más sem sabermos por qual razão agem assim. Isso lembra o que Jesus Cristo teria dito sobre não julgarmos para não sermos julgados, mas em Epicteto o sentido é outro. O que Epicteto está dizendo é que estas palavras ‘bem’ ou ‘mal’ são usadas de forma inapropriada e acabam nos impedindo acesso à realidade (a ‘impressão compreensiva’ que podemos ter das coisas), pois seu uso nos faz crer possuir um conhecimento que efetivamente não temos sobre ações e pessoas.

Assim, o ‘banho ruim’ de alguém pode ser sido feito por uma série de razões que nos escapam e que fariam do banho rápido um ato adequado. Da mesma forma, o ‘beber mal’ pode estar associado da mesma forma a estados mentais de um indivíduo que podem tornar compreensível e justificável o seu modo de beber.

Epicteto está dizendo que usar essas palavras não nos confere nenhum conhecimento sobre a realidade, só evidenciando, de fato, nossa ignorância sobre a ação e a pessoa. Assim, ao invés de usarmos adjetivos tais como ‘bom, ótimo, excelente, péssimo, ruim’ etc, devemos procurar entender o que está acontecendo, descrevendo da melhor forma possível a ação e a pessoa e, ao mesmo tempo, estabelecendo os limites de nosso conhecimento do caso, suspendendo o juízo sobre o que não sabemos. Exemplos:

Fulano banhou-se rápido e saiu. Não compreendo por qual razão ele agiu assim. É possível que estivesse apressado para outro compromisso. 

Fulano bebeu muito na festa de ontem. Estará ele comemorando alguma vitória? Estará ele triste com algum fato? Não sei a razão pela qual ele agiu assim. No momento, só posso fazer conjecturas.  

Isso pode ser aplicado também ao modo como falamos aos nossos alunos sobre seus trabalhos e provas. Ao invés de um mero ‘excelente’, devemos descrever o trabalho e suas qualidades. Exemplo:

Seu trabalho foi escrito de acordo com as normas ortográficas e de forma escorreita, demonstrando conhecimento da linguagem culta. Você tratou o tema com precisão e senso crítico etc.

E o mesmo vale para os defeitos dos trabalhos. Voltemo-nos agora à passagem de Marco, que é um exemplo de praemeditatio malorum, do que falamos no outro post. Marco começa a passagem adjetivando um série de indivíduos que encontraria pela frente durante o seu dia. No entanto, na linha seguinte, ele mesmo rechaça essas adjetivações, afirmando uma causa comum para agirem de modo inadequado:

Marco Aurélio, Meditações, 2.1: Prediga a si mesmo na alvorada: encontrarei um inquisitivo, um ingrato, um insolente, um traiçoeiro, um caluniador, um indivíduo antissocial. Todas essas coisas lhes ocorrem pela ignorância dos bens e dos males. (Tradução: Aldo Dinucci)

Marco, mais à frente, na mesma citação, afirma um preceito básico do estoicismo e do socratismo: a ação inadequada é fruto da ignorância. Para Sócrates e para os estoicos, não há algo como pessoas naturalmente malignas. O que há são pessoas ignorantes ou mentalmente enfermas (os limites entre a loucura epistêmica e a psíquica são, para estoicos, imprecisos, e muitas vezes uma implica a outra):   

Marco Aurélio, Meditações, 2.1: Mas eu teorizei a natureza do bem e do mal… e que a natureza do que erra é da minha mesma estirpe, não segundo o sangue ou o mesmo esperma, mas que partilho o mesmo espírito e a mesma porção divina… Nascemos, pois, para agir conjuntamente como os pés, como as mãos, como as pálpebras… estarmos em conflito uns contra os outros é contra a natureza: entrar em conflito e irritar-se é, portanto,  opôr~se <à natureza>. (Tradução: Aldo Dinucci)

Marco Aurélio, portanto, substitui os adjetivos que usara no princípio de sua reflexão pela compreensão de que tais pessoas agem inadequadamente por ignorância. E acrescenta que, na verdade, os que erram são de nossa mesma estirpe, razão pela qual devemos não nos opor a eles, mas tentar colaborar com eles apesar dos defeitos que venham a ter.

O movimento, aqui, é essencialmente o mesmo que vemos no Manual de Epicteto: partimos de adjetivações que pretendem descrever a realidade, mas que só escondem nossa incompreensão dos fatos, das ações e das pessoas, nos afastando e nos pondo em oposição a elas, e rumamos para uma compreensão real das pessoas e de seus possíveis erros, não mais nos opondo ou julgando, mas, através de uma atitude verdadeiramente compreensiva, buscando agir conjuntamente com elas.

Os atos de julgar e adjetivar, mais uma vez, nos afastam da realidade, razão pela qual nos tornamos incapazes de compreender os demais justamente quando pensamos compreender suas ações. Prova disso é que nos tornamos intolerantes e agressivos com elas. Pois se os compreendêssemos realmente, jamais o seríamos.

Aldo Dinucci

Foto de Anastasia Zhenina no Pexels

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Como lidar com as ofensas: uma lição estoica

Por Aryane Raysa Araújo dos Santos [1]

A maioria das pessoas, em maior ou menor grau, já foram vítimas de fofocas ou de algum comentário ofensivo ao longo da vida. Normalmente a reação emocional é imediata, e a forma geralmente utilizada para lidar com esses comportamentos é reagir com raiva, frustração e agressividade. É inegável que esse modo de lidar com as ofensas causa um sofrimento imensurável. Diante disso, é necessário encontrar uma forma distinta de encarar esses acontecimentos.

Um autor que tem muito a nos dizer a respeito do modo como devemos lidar com as ofensas é o filósofo estoico Sêneca, que pertence ao estoicismo romano da Era Imperial (I e II d.C). Sêneca tratou extensivamente das questões referentes ao modo de lidar com as injúrias. Na obra Sobre a firmeza do homem sábio, podemos extrair diversas lições acerca desse tema. O filósofo romano afirma que as injúrias vêm das pessoas más, considerando que pessoas boas vivem em paz e não se ocupam em destilar maldade nos outros indivíduos. Ademais, Sêneca acrescenta que a maior parte das calúnias são feitas por insolentes, arrogantes e por aqueles que não suportam a felicidade alheia.

É imprescindível observarmos os indivíduos que nos cercam, pois falar mal das outras pessoas é um traço forte dos indivíduos viciosos. Por isso, Sêneca nos aconselha a fugir das multidões. Para o filósofo estoico, é perigoso o convívio com muita gente, pois é muito fácil nos contagiarmos pelos vícios se andarmos na companhia de pessoas viciosas. No que se refere às amizades, devemos ter o trabalho de escolher os menos maculados. Sêneca nos diz que “nada, pois, é mais proveitoso a uma alma do que uma amizade fiel e doce. Quão bom é encontrar corações preparados para guardar todo segredo. Tu temes menos a consciência deles que a tua própria[2].

Assim, Sêneca nos indica que o melhor modo de encarar as injúrias é ignorá-las. Mas, ele assegura que isso não é uma tarefa fácil; por isso só o sábio – aquele que está isento de todas as paixões – é capaz de nunca se afetar com nenhuma ofensa. Normalmente, as pessoas comuns ao terem conhecimento das ofensas proferidas são tomadas pela ira e, consequentemente, são impulsionadas a ter ódio do ofensor e às vezes até a afrontá-lo. Na obra Sobre a ira, Sêneca nos diz que o melhor remédio para a raiva sempre é o adiamento. Por isso é necessário ponderar e esperar até que o sentimento de raiva seja amenizado, para posteriormente refletir sobre as circunstâncias do acontecimento.

Sêneca afirma que, entre as coisas que nos ofendem, existem aquelas que nós vemos e as que nos foram relatadas. Em relação às que nos foram relatadas, ele nos aconselha que “sempre se deve aguardar: o passar do tempo nos revela a verdade. Não sejam os nossos ouvidos fáceis as acusações. Suspeitemos e estejamos cientes desse vício da natureza humana[3].  Quanto às que nós vemos, devemos ignorá-las. Sêneca assegura que quem conhece a si mesmo não se ofende com o indivíduo que proferiu a calúnia. Em outras palavras, se formos injustamente acusados de algo que não cometemos, não devemos nos sentir enraivecidos, podemos apenas constatar que certamente a acusação não tem a ver com a pessoa que recebeu a ofensa, mas com quem a proferiu.  Existe a possibilidade de que alguém faça uma injúria e, no entanto, o indivíduo que foi caluniado não seja vítima dela, pois se a pessoa tem plena consciência do que ela é, não deve se afetar pelas falsas acusações. O importante é que essa circunstância torna claro a má intenção do caluniador, mesmo que ele não consiga causar nenhum dano à pessoa que foi caluniada.A esse respeito, Sêneca destaca no seu Tratado sobre a clemência que “Ninguém pode usar uma máscara por muito tempo: o fingimento retorna rápido à sua própria natureza[4]; isto é, o lado ruim e bestial de uma pessoa não pode permanecer escondido por muito tempo, pois a máscara termina um dia por cair.

A preocupação de Sêneca não era, tão somente, apontar o modo como lidar com as injúrias, mas apresentar os exemplos de homens que encararam com grandeza de alma todo tipo de ofensas. Ao longo das suas obras, as figuras exemplares são um recurso muito utilizado, os exempla são pessoas que não se abalaram frente a todo tipo de ofensas, e podem ser fonte de inspiração para que possamos alcançar um nível de tranquilidade de alma capaz de nos afetarmos minimamente frente às injúrias. Sócrates é o modelo de homem sábio para a escola estoica. Por isso é comumente citado como um indivíduo que alcançou uma firmeza de alma capaz de não se deixar afetar por nenhuma injúria. Segundo Sêneca, uma vez Sócrates proferiu as seguintes palavras: “prometi a mim mesmo com mais firmeza do que não submeter os atos de minha vida à opinião alheia. Joguem sobre mim suas duras palavras. Não pensarei estar sendo injuriado”.[5]  Em uma outra passagem, na obra Sobre a firmeza do homem sábio, Sêneca narra um episódio de Catão, outra figura exemplar: “Catão, quando lhe bateram no rosto: não ardeu de raiva, não se vingou, nem sequer a desculpou, porém disse que não havia feita. Uma maior grandeza de espírito constitui em ignorar do que perdoar[6]. Alcançar esse grau de sabedoria é uma tarefa árdua. Talvez a maior parte dos homens jamais alcançaram esse nível de firmeza de alma. Mas esses exemplos podem servir de inspiração para todos nós, pois eles indicam o caminho para quem quer guiar-se pela sabedoria estoica.

Sêneca não entendia a filosofia como uma teoria desligada da realidade, esta por sua vez só faz sentido se puder modificar a conduta dos homens. Nesse sentido, os ensinamentos do filósofo estoico devem ser praticados no cotidiano, para que os vícios possam se transformar em virtudes por meio do hábito. A grande lição que Sêneca nos oferece é que a vontade(querer)é suficiente para que possamos nos tornar pessoas melhores; não nos afetando pelas injúrias e não revidando, certamente nos aproximaremos da verdadeira virtude. Mais do que isso, Sêneca nos ensina que qualquer pessoa pode alcançar um estado de tranquilidade que o torne indiferente frente às fofocas, provocações e insultos.


Obras citadas:


[1] Mestre em filosofia pela Universidade federal do Piauí. Aryane pode ser contatada no email: raysa17@ufpi.edu.br

[2] Sobre a tranquilidade da alma. Livro VII,7,3

[3] Sobre a Ira, Livro II, 20.

[4] Tratado sobre a clemência, L.I,c.I.

[5] Da felicidade, XXVI

[6] Sobre a firmeza do homem sábio,14.3

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Imagem: Pollice Verso de Jean-Leon Gerome

RedPill, Anti-feminismo e Estoicismo

No artigo “Guerreiros estoicos, Red Pill, Resiliência e Juventude Abandonada” Aldo Dinucci explica o movimento RedPill e sua tentativa de associação com o estoicismo, mostrando os equívocos de tal ligação e abordando hipóteses de sua origem.

Artigo publicado originalmente em Estoicismo Artesanal em 12 de junho de 2021.


Guerreiros estoicos, Red Pill, Resiliência e Juventude Abandonada

Todos já devem ter ouvido falar do Red Pill, que é um grupo de homens jovens que lançam mão de estoicismo, entre outras filosofias antigas e modernas, com uma visão bastante negativa do feminismo e dividindo os homens (sexo masculino) em dois grupos principais, os alfas e os betas. Os alfas seriam aqueles com os quais todas as mulheres gostariam de relações sexuais. Os betas, entre os quais esses rapazes se incluem, seriam desprovidos de tal encanto sexual, e as mulheres os buscariam somente por interesse financeiro. Donde concluem que os beta devem seguir um caminho solitário, que a relação com as mulheres não é lucrativa nem benéfica sob nenhum aspecto. Isso é, claro, uma simplificação do que pensam (há canais inteiros no Youtube consagrados ao tema).

Esse pessoal costuma também associar ao estoicismo uma certa ideia de Guerreiro Estoico. Seus vídeos, em geral, têm, ao fundo, músicas de guerra e cenas de filmes sobre os romanos (gostam muito do filme Gladiador). 

Seguindo a onda popular de retomada do estoicismo, enfatizam palavras como resiliência, perseverança.

Já li algumas matérias condenando-os moralmente. Não é o caminho que seguirei aqui. Fiel a Epicteto (Manual, capítulo 45), que nos alerta quanto a emitir juízos de valor sem esforço prévio de compreensão, procurarei lançar alguma luz sobre as condições sociais que levariam à gênese e à proliferação de tais ideários. É claro, o texto é apenas um esboço que representa meu esforço inicial de tentar compreender tal fenômeno. 

Primeiro, entendo que a vida não é nada fácil para a juventude atual: falta de empregos formais (quantos não são os entregadores de comida, os motoristas de Uber), condições terríveis de vida para os pobres (sem saneamento básico, sem lazer, sem educação, sem saúde, sem perspectiva), condições de isolamento para os mais abastados. 

Não é difícil imaginar por qual razão um jovem pobre de periferia se sentiria um beta: na TV e na tela do computador veem os corpos esculturais de mulheres consideradas super-atraentes. Veem também os milionários, com seus super-carros e lanchas, acompanhados sempre de mulheres como aquelas. Os jovens dos condomínios de classe média, por outro lado, têm acesso à mesma realidade virtual. Ambos os grupos não se sentem à altura de se engajarem em uma relação amorosa correspondida, seja com as mulheres idealizadas pela mídia, seja com as que espelham essas idealizações da sociedade de consumo. Assim, saindo à rua e tendo na memória a lembrança das imagens do mundo virtual, não é difícil que um destes conclua que ‘Não sou nada, Jamais serei nada, Não posso sonhar em ser nada’. E efetivamente é esta a mensagem que veiculam em muitos de seus vídeos.

É óbvio que nada disso tem relação essencial com o estoicismo antigo. Epicteto, por exemplo, deixa bem claro que somos filhos de Zeus, que somos parte crucial do Cosmos (Diatribe 1.3). 

Além disso, Musônio, em sua diatribe sobre o casamento, nos diz que homem e mulher devem compor uma unidade, que o ideal da relação amorosa é a amizade entre ambos, que cada um deve velar pela felicidade do outro. 

Quanto à vida militar, os estoicos eram, via de regra,  professores e intelectuais. Tirando Flávio Arriano e Marco Aurélio, não me lembro de outros que tenham ingressado nesta carreira. Flávio comandou legiões para defender as fronteiras romanas contra os alanos em uma situação específica, mas dedicou-se intensamente à literatura e à política. Marco defendeu as margens do Danúbio contra uma multidão de invasores e nunca escondeu de ninguém que gostaria, na verdade, de estar estudando filosofia (como o fez em Atenas) ao invés de guerrear.

Musônio Rufo, por outro lado, tentou deter as tropas de Marco Antonio Primo, que invadiam Roma em 20 de dezembro de 69. 

Mesmo nosso estoico contemporâneo, Stockdale, militar de profissão, se anunciava como filósofo,  e sua grande missão como guerreiro foi coordenar uma resistência pacífica em sua prisão de sete anos e meio no Vietnã.

Vem-nos à memória a metáfora  da missão militar a que Sócrates se refere na Apologia de Platão, que, da mesma forma que ele cumpriria a ordem do estratego em uma batalha, ele não abandonaria sua missão de filósofo. Sócrates foi um grande guerreiro. E Xenofonte também. Mas ambos se apresentavam como filósofos em primeiro lugar.

Este endeusamento do militarismo e da guerra de hoje parece corresponder mais uma vez à triste realidade dos jovens que vivem diante da tela de computadores. Como sabem os que têm um pouco de experiência em conflitos bélicos, não há nada de bom em uma guerra. Meu avô que o diga, que, tendo lutado na maldita guerra dos italianos contra os abissínios, teve, por seus traumas adquiridos em campo de batalha, pesadelos terríveis até o fim da vida. E ele teve sorte, pois não foi ferido, não perdeu algum de seus membros ou a visão, nem algum de seus familiares. Mas o que viu lhe bastou. Fugiu com a minha avó para o Brasil em 39, razão pela qual acabei por nascer no Brasil. Guerras são como operações cardíacas, só devem ser feitas por necessidade. Não são atraentes senão pelas lentes de Hollywood, que, propagando sem cessar a ideia de que a visão do sangue derramado de pessoas sendo estraçalhadas por armas de fogo é não só tolerável, mas um espetáculo belo e moralmente edificante, nos vende o belicismo norte-americano  há décadas. 

Essa triste realidade também explica o afastamento das mulheres. Quando eu era criança, tínhamos, por exemplo, os encontros de jovens católicos, que resultavam em ótima oportunidades para flertes e conversas fora do ambiente escolar. Havia também as colônias de férias do SESC e os bailes de matinês. E, hoje, o que há, no Brasil, para que os jovens com menos de 18 anos possam se encontrar em um ambiente minimamente seguro? 

Além disso, todos nós nos exercitávamos bastante ao ar livre, jogando bola, fazendo caminhadas, razão pela qual éramos bem mais confiantes para interações românticas com jovens de nossa idade. E qual espaço há para os jovens praticarem esportes hoje em dia?

Nos dias de hoje, as periferias foram declaradas oficialmente zonas de guerra. E os jovens abastados vivem literalmente encarcerados, em condomínios, diante dos já mencionados computadores.

Por fim, uma realidade tão dura explica também a ênfase na resiliência. Os estoicos eram (ao contrário da crença comum que hoje se tem) joviais e alegres. Segundo consta, Crisipo morreu de rir. Há inúmeras tiradas de humor em Epicteto. Sêneca escreveu o texto mais cômico que li em minha vida: A ascensão do Cabeça de Abóbora (Apokolokintosis), obra na qual satiriza implacavelmente o então recém-falecido imperador Cláudio. Isso sem mencionar o humor que perpassa muitas das cartas a Lucílio. E a razão do humor deles era evidente: experienciavam a paz interior, razão pela qual Epicteto dizia que o sábio atravessa as dificuldades como se não fossem dificuldades. 

Enfim, há, claro, no estoicismo, recomendações de como suportar as dificuldades, e essa não  é parte desprezível de seu pensamento. Eu mesmo me beneficiei muito disso, como evidencio na introdução de minha seleção de cartas de Sêneca a Lucílio

Essas breves reflexões lançam, ao menos para mim, alguma luz sobre a ascensão dos ideários mencionados, embora obviamente não os justifiquem. Entretanto, a partir do que foi dito, penso que as autoridades (políticos, pais, educadores, meios de comunicação etc.) deveriam começar a pensar em como tornar a vida de nossos jovens mais saudável e menos desgraçada. A vida deles não tem que ser uma guerra. Uma vida com saúde, lazer, educação, infraestrutura e interação saudável entre os jovens é possível. Ainda é possível.      

James Stockdale: Um Filósofo em ação no Vietnã

Abaixo artigo de Aldo Dinucci sobre o filósofo-militar James Stockdale. (Socrates também foi soldado). Artigo publicado originalmente em Estoicismo Artesanal.


STOCKDALE: UM FILÓSOFO EM AÇÃO NO VIETNÃ

James Bond Stockdale era já um experiente piloto de caça da Marinha Norte-Americana quando entrou em contato pela primeira vez com a filosofia e com Epicteto.  Tinha 42 anos, estudava relações internacionais em Stanford e acidentalmente se encontrou com o então decano do departamento de ciências humanas, Philip Rhinelander. Era o ano de 1962, e Rhinelander ministrava seu famoso curso intitulado “Os Problemas do Bem e do Mal”, para o qual o decano convidou Stockdale. Como o piloto iniciara o curso com atraso, Rhinelander encarregou-se de dar-lhe aulas particulares. Stockdale, então, descobriu uma inusitada vocação para a filosofia. Ao final do curso, Rhinelander presenteou-o com um livro que mudaria sua vida: O Manual de Epicteto. Como nos diz o próprio Stockdale: 

Rhinelander simplesmente pensou que Epicteto e eu poderíamos fazer um bom par, e ele estava certíssimo. Eu nunca tinha ouvido falar de Epicteto; de fato, hoje o reconhecimento de seu nome está no terceiro escalão dos filósofos. Mas sua mente é de primeiro escalão. (Stockdale, Tríade do Guerreiro estoico, p. 13-4)

Stockdale, devido ao seu treinamento de piloto, rapidamente leu e decorou os 52 capítulos do Manual de Epicteto. Três anos depois, o piloto teria a oportunidade de pôr à prova os ensinamentos do Manual: seu A4 foi abatido durante missão no Vietnã. Apesar de conseguir ejetar-se a tempo e chegar ao solo são e salvo, foi espancado pelos vietnamitas que o avistaram, o que lhe valeu um joelho permanentemente lesionado, e levado como prisioneiro. Stockdale passaria os próximos sete anos e meio como prisioneiro de guerra no Vietnã. 

As singulares circunstâncias que levaram Stockdale à filosofia e à sua prática fizeram dele um tipo de intelectual pouco frequente na pós-modernidade. Hoje, é dito filósofo o profissional que faz exegeses de textos filosóficos e que leciona ou escreve sobre suas exegeses. Entretanto, na Antiguidade, o termo “filósofo” tinha uma conotação mais ampla. Era dito filósofo: (1) o autor de reflexões, teorias e conceitos filosóficos que não escrevem obras visando a publicação (como Sócrates e Epicteto); (2) quem põe em prática concepções filosóficas, quer escreva sobre elas ou não (como Agripino e Catão); (3) quem escreve sobre filosofia, seja sobre suas ideias próprias e originais (como Platão e Aristóteles), seja transcrevendo concepções alheias (como Xenofonte e Flávio Arriano).  Isso porque, como observa Hadot (Forms of life and forms of discourse, p. 56-7), na Antiguidade, ser filósofo significava primariamente assumir um modo de vida radicalmente distinto do usual, o que levava o filósofo a uma ruptura com o senso comum. Assim, diante do simples cidadão, o filósofo se mostrava como átopos, não classificável, estranho (Hadot, ibidem, p. 57-8). De algum modo essa concepção do filósofo como “louco” ainda resiste no senso comum, embora, hoje, nossos filósofos nada sejam senão pacatos cidadãos de classe média, virtualmente indistinguíveis do homem comum. Na Antiguidade, por outro lado, ser filósofo significava ser e agir de modo diferenciado, isto é, vivificar um ethos da filosofia por ele abraçada. Em outros termos, era dito filósofo, na Antiguidade, o que, por escolha própria, adotava uma vida filosófica. Como nos diz Hadot:

Cada escola então representa uma forma de vida definida por um ideal de sabedoria. O resultado é que cada uma possui sua atitude inerente fundamental correspondente […] Acima de tudo cada escola pratica exercícios projetados para garantir progresso espiritual rumo ao estado ideal de sabedoria, exercícios da razão que serão, para a alma, análogos ao treinamento do atleta ou à aplicação da cura médica.      

(Hadot, ibidem, p. 59) 

Essa transformação através da adoção de um novo modo de vida, um modo de vida filosófico, é entusiasticamente percebida por Stockdale:

Eu pensava que era óbvio para meus amigos mais íntimos, como certamente o era para mim, que eu era um homem mudado, e digo mais, um homem melhor por ter sido introduzido à Filosofia e especialmente a Epicteto. Eu estava trilhando um caminho diferente […] Eu tinha me tornado um homem imparcial – não indiferente, mas imparcial – capaz de lançar fora o livro de normas sem a menor hesitação quando ele não mais fizesse frente às circunstancias externas […] Esse novo desapego e essa nova flexibilidade que eu adquirira me foram cobrados mais tarde, na prisão.

(Stockdale, Coragem sob fogo, p. 12) 

Assim, podemos dizer, Stockdale é primariamente filósofo no sentido de quem adota um estilo de vida filosófico. Mas também o é no sentido de quem escreve sobre suas reflexões filosóficas.

A tradução portuguesa do livro de Stockdale Coragem Sob fogo pode ser obtida aqui.

Revista Perspectiva Filosófica, dossiê Estoicismo

A revista Perspectiva Filosófica da UFPE, em sua edição 47, tem o tema Estoicismo e Aldo Dinucci como editor convidado, trazendo treze artigos acadêmicos sobre variados temas e filósofos estoicos.
Os artigos cobrem Zenão, Crisipo, Paulo de Tarso (São Paulo), Epicteto e Possidônio. Como não poderia deixar de ser, Sêneca se sobressai com cinco textos.

Alguns destaques:

Texto completo em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/perspectivafilosofica/issue/view/3102

Estratégias estoicas para eliminar a culpa indevida

Este artigo de Aldo Dinucci aborda o sentimento de culpa na ótica Epicteto e Stockdale.

É ação de quem não se educou acusar os outros pelas coisas que ele próprio faz erroneamente. De quem começou a se educar, acusar a si próprio. De quem já se educou, não acusar os outros nem a si próprio.

Epicteto, Encheirídion, 5b. Tradução: A. Dinucci e A. Julien

Estratégias estoicas para eliminar a culpa indevida

Marco Aurélio perseguiu cristãos?

Com certa frequência perguntam se Marco Aurélio perseguiu cristãos. Em suas Meditações, há apenas uma referência aos cristãos na qual, indiretamente, os critica por não fazerem uso da razão:

Que grande alma é aquela que está pronta, em qualquer momento necessário, para ser separada do corpo e depois extinguida ou dispersa ou continuar a existir; mas de modo que esta disponibilidade venha do próprio julgamento do homem, não de mera obstinação, como com os cristãos, mas com ponderação e dignidade e de modo a convencer outro, sem demonstração dramática!” ( Livro XI, 3)

Donald Robertson, autor do excelente livro “Pense como um imperador“, escreveu um artigo sobre o assunto. Abaixo minha tradução, autorizada por Donaldson.

(imagem: As Tochas de Nero, por Henryk Siemiradzki. De acordo com Tácito, Nero usou cristãos como tochas humanas)


Marco Aurélio perseguiu cristãos?

Artigo que examina algumas das evidências a favor e contra a afirmação de que Marco Aurélio perseguia cristãos.

E em minha defesa das inúmeras críticas feitas a Marco por escritores antigos e modernos, dou de longe o maior espaço aos mais severos, que ele perseguiu os cristãos, pois acho que nenhuma acusação o teria surpreendido mais, ou lhe teria parecido mais irracional. (Henry Dwight Sedgwick)

Diz-se frequentemente na Internet, e ocasionalmente em livros, que Marco Aurélio, de alguma forma, perseguiu os cristãos.  No entanto, acho que, muitas vezes, faltam detalhes específicos.  Na verdade, há duas questões que vale a pena considerar aqui:

  1. Será que o imperador estoico Marco Aurélio perseguiu ativamente os cristãos pessoalmente?
    A maioria dos estudiosos modernos pensa que ele quase certamente não o fez.
  2. Será que Marco permitiu que outros perseguissem os cristãos?
    Isto é mais difícil de responder, embora o peso da evidência sugira que Marco Aurélio realmente tentou evitar que outros perseguissem os cristãos.  Certamente houve perseguição aos cristãos durante seu reinado, mas não está claro o quanto, até que ponto ele estava ciente disso, e que chance ele teria tido de impedi-la.

Após rever os relatos da perseguição aos cristãos durante o reinado de Marco Aurélio, H.D. Sedgewick[1] constatou:

A única evidência de que Marco Aurélio tinha alguma relação direta com qualquer destes casos é esta declaração em Eusébio[2] que, durante o julgamento em Lyon, o governador escreveu para pedir instruções a ele.

Portanto, vejamos as principais evidências, começando com esta declaração de Eusébio sobre os supostos eventos em Lyon…

Eusébio

A perseguição mais famosa aos cristãos durante o reinado de Marco Aurélio foi supostamente em Lyon, na Gália, em 177 d.C.  A primeira e única evidência deste incidente vem do historiador cristão Eusébio, que cita uma carta bastante curiosa em sua História Eclesiástica, descrevendo os eventos da seguinte forma:

A grandeza da tribulação nesta região, e a fúria dos pagãos contra os santos, e os sofrimentos das testemunhas abençoadas, não podemos relatar com exatidão, nem mesmo poderiam ser registrados.  Pois com todas as suas forças o adversário [Satanás] caiu sobre nós, dando-nos uma amostra de sua atividade desmedida na sua vinda futura. Ele se esforçou de todas as maneiras para praticar e usar seus servos contra os servos de Deus, não apenas nos expulsando de casas, banhos e mercados, mas proibindo qualquer um de nós de ser visto em qualquer lugar que seja.  Mas a graça de Deus conduziu o conflito contra ele, e libertou os fracos, e os colocou como pilares firmes, capazes por paciência de suportar toda a ira do Maligno.
E se uniram a Ele, sofrendo todo tipo de vergonha e ferimentos; e considerando seus grandes sofrimentos como pouco, agarraram-se a Cristo, manifestando verdadeiramente que “os sofrimentos deste tempo presente não são dignos de serem comparados com a glória que nos será revelada depois”. [Romanos 8:18 7]. Antes de tudo, eles suportaram nobremente os ferimentos que lhes foram infligidos pela multidão; clamores e golpes e arrastões e roubos e apedrejamentos e prisões, e todas as coisas que uma multidão enfurecida se deleita em infligir a inimigos e adversários. Então, sendo levados ao fórum pelo chiliarch [comandante da guarnição?] e pelas autoridades da cidade, foram examinados na presença de toda a multidão, e tendo confessado, foram presos até a chegada do governador.

A carta continua a descrever numerosas torturas sangrentas com um nível de detalhe que pode parecer um tanto excessivo e pitoresco.  Muitos leitores modernos consequentemente acham o estilo como indicativo de ficção, ou pelo menos de exagero.

Além disso, há vários problemas muito marcantes enfrentados por aqueles que querem tentar usar esta carta como prova para a alegação de que Marco perseguia os cristãos:

  1. Eusebius terminou de escrever a História Eclesiástica em cerca de 300 d.C., mais de cento e vinte anos após o suposto incidente.  Não há indicação de quando a carta que ele está citando foi realmente escrita.  Entretanto, ele alega que os eventos descritos nela aconteceram muito antes mesmo de ele nascer.  Portanto, ele não tinha conhecimento em primeira mão, mas confiava inteiramente na narrativa fornecida pela duvidosa carta citada.
  2. Os historiadores têm que levar em conta o “argumento baseado no silêncio”: nenhum outro autor pagão ou cristão do período faz qualquer menção a esses eventos, apesar de sua natureza marcante e dramática.  É altamente notável que nenhum outro autor cristão do período se refira de fato a este incidente.  De fato, o primeiro autor na Gália a mencionar este evento foi Sulpício Severo[3], escrevendo 400 anos depois, e sua única fonte parece ser Eusébio.
  3. O pai da igreja Irineu[4], bispo cristão de Lyon, onde o incidente supostamente ocorreu, escreveu seu gigantesco Adversus Haereses de cinco volumes em 180 d.C., três anos após a suposta perseguição.  E ainda assim, ele não faz absolutamente nenhuma menção a este incrível evento que aconteceu em sua cidade.  Na realidade, ao contrário, ele diz: “Os romanos deram paz ao mundo, e nós [cristãos] viajamos sem medo pelas estradas e através do mar onde quer que seja”. (Contra Heresias, Livro IV, Capítulo 30, Sentença 3).
  4. O pai da igreja, Tertuliano[5], tinha cerca de vinte anos na época em que o incidente em Lyon supostamente aconteceu.  Como veremos, embora ele estivesse realmente vivo na época, ele também não faz nenhuma menção à perseguição em Lyon, e na verdade diz muito enfaticamente que Marco Aurélio era um “protetor” dos cristãos.
  5. A carta citada por Eusébio começa culpando as ações da turba do ” o adversário ” ou no “Maligno”, pelo qual os autores claramente queriam dizer Satanás. Ela continua descrevendo como os mártires cristãos sobreviveram a torturas inconcebíveis e feridas extensas, foram milagrosamente curados e restaurados à saúde quando esticados na cremalheira, e até mesmo ressuscitados dos mortos.  Isto acrescenta um elemento sobrenatural ou implausível ao relato, que muitos leitores modernos podem achar indicativo de falsidade ou exagero.
  6. A carta realmente conclui culpando a multidão e as autoridades da cidade de Lyon – ela não atribui responsabilidade a Marco Aurélio ou a Roma.  Quando este evento supostamente aconteceu, a propósito, Marco estava ocupado em campanha na fronteira norte, a cerca de três semanas de marcha longe de Lyon.
  7. Temos o texto sobrevivente de um édito imperial de Marco Aurélio que fornece provas de que ele realmente tentou evitar a perseguição dos cristãos pelas autoridades provinciais (veja abaixo).
  8. Finalmente, e bizarramente, o próprio Eusébio admitiu várias vezes que sua história eclesiástica continha “falsidades” deliberadas ou fraudes piedosas.  Ele é, portanto, frequentemente visto como uma fonte muito pouco confiável para este tipo de informação.

Edward Gibbon, por exemplo, autor de A História do Declínio e da Queda do Império Romano, gostava de ressaltar que Eusébio admitiu empregar a desinformação deliberada para promover a mensagem cristã.  Um dos cabeçalhos dos capítulos de Eusébio era: “Que às vezes será necessário usar a falsidade como um remédio para o benefício daqueles que requerem tal modo de tratamento”.  O historiador Jacob Burckhardt, portanto, descreveu Eusébio como “o primeiro historiador completamente desonesto da antiguidade”.  De fato, seria mais apropriado referir-se a Eusébio como um propagandista cristão do que como historiador.

Em resumo, por estas e outras razões, Eusébio é considerado por muitos estudiosos modernos como uma fonte extremamente pouco confiável.  Seus relatos de martírio cristão referem-se a eventos várias gerações antes mesmo de ele nascer, como vimos, e são embelezados com detalhes extravagantes que têm o ar de ficção.  Por exemplo, a perseguição não é retratada como esporádica, mas infligida por Satanás em miríades de cristãos em todo o império.  A escala e severidade desta perseguição é totalmente incompatível com o testemunho de outros cristãos vivos na época e difícil de reconciliar com a escassez de provas de outros autores.  Além disso, ele inclui muitas reivindicações sobrenaturais que minam a credibilidade de seus relatos aos olhos dos leitores modernos.  Por exemplo, ele afirma como fatos milagres como o de que mártires cristãos sobreviveram dentro dos estômagos dos leões depois de serem comidos ou que levitavam centenas de metros no ar pela graça de Deus.  Como foi observado acima, a própria carta também descreve a cura milagrosa de mártires gravemente feridos em Lyon, e até mesmo sua ressurreição da morte.  Se questionarmos estas reivindicações sobrenaturais, é difícil saber que outros aspectos da carta devem ser levados a sério.

Eusébio também se mostra particularmente pouco confiável em relação a esta época da história romana porque, notavelmente, em vários pontos ele realmente confunde Marco Aurélio tanto com seu irmão adotivo Lúcio Vero, quanto com seu pai adotivo Antonino Pio.  Além disso, é frequente que os documentos (cartas, etc.) citados em fontes antigas não sejam considerados confiáveis por acadêmicos, porque muitas falsificações circulavam na época e os autores antigos muitas vezes não tinham os recursos para autenticá-los.  Os estudiosos, de fato, já identificaram numerosos documentos citados nos escritos de Eusébio como falsificações definitivas.  Nesta carta em particular, excepcionalmente, nenhuma data é dada na rubrica citada, portanto não está claro em que base Eusébio poderia ter chegado à conclusão de que a intenção era se referir a eventos durante o reinado de Marcus Aurelius.  A própria carta emprega apenas o título genérico de César, para o Imperador.  Eusébio pode estar apenas adivinhando a data, e que o César em questão é Marco Aurélio, embora francamente pareça provável que a carta inteira seja uma falsificação.  Como foi observado acima, porém, este documento é a única e única prova da suposta perseguição em Lyon.

Tertuliano

De fato, as únicas fontes que descrevem a perseguição durante o reinado de Marco Aurélio vêm de gerações posteriores de autores cristãos, que não foram testemunhas dos eventos que eles descrevem.  Nenhum deles realmente atribui responsabilidade a Marco.  O relato mais famoso é a perseguição de Lyon, que, como vimos, é de autenticidade altamente questionável.

Em contraste, o pai da igreja Tertuliano foi na verdade um contemporâneo de Marco Aurélio e seu testemunho é que ele fora enfaticamente um “protetor” dos cristãos.

Mas de tantos príncipes desde aquele tempo até o presente, homens versados em todos os sistemas de conhecimento, produzem se você quiser, um perseguidor dos cristãos. Nós, entretanto, podemos, do outro lado, produzir um protetor, se as cartas do mais sério imperador Marco Aurélio forem revistadas, nas quais ele testemunha que a conhecida seca germânica foi dissipada pela chuva obtida através das orações dos cristãos que por acaso estavam no exército. ( Apologia, 5)

Isto parece criar uma contradição interna na literatura cristã, pelo menos para aqueles que (duvidosamente) desejam ler outros relatos cristãos que culpem Marco pela perseguição a cristãos.  (Como vimos, a carta citada por Eusébio não parece realmente responsabilizar).  Na verdade, nenhum autor, cristão ou pagão, parece citar qualquer édito de Marco que condene os cristãos.  Isto é digno de nota porque se ele tivesse realmente emitido um, eles certamente o teriam mencionado.

Carta de Marco para as Províncias Asiáticas

Temos, no entanto, um decreto sobrevivente atribuído a Marco e intitulado Carta de Antonino à Assembléia Comum da Ásia, que parece fornecer provas de que ele interveio ativamente para evitar a perseguição dos cristãos.  Ela é datada de 161 d.C., e emitida por Marco na qualidade de Imperador, o que sugere que foi uma de suas primeiras ações logo após ter sido aclamado ao trono.

Ele se refere explicitamente ao problema dos cristãos que são considerados pelos romanos como ateus porque eles não adoram os deuses pagãos convencionais.  Marco adverte as autoridades provinciais: “você molesta esses homens e os endurece em suas convicções, às quais se apegam, ao acusá-los de serem ateus”.  Ele afirma que os governadores provinciais escreveram muitas vezes a seu pai adotivo, o imperador Antonino Pio, cuja resposta foi sempre “não molestar tais pessoas”, a menos que eles estivessem realmente fazendo tentativas de prejudicar o governo romano.  Marco diz que ele mesmo, como Imperador, também repete com frequência esta política de não assédio a eles.  Na verdade, ele chega ao ponto de dizer: “E se alguém persistir em trazer qualquer pessoa [cristã] a problemas por ser o que é, que ele, contra quem a acusação é feita, seja absolvido mesmo que a acusação seja feita, mas que aquele que traz a acusação seja chamado a prestar contas”.  Em outras palavras, ele sugere que as autoridades provinciais possam ser punidas por Roma por perseguir os cristãos somente com base em sua religião.

C.R. Haines, que publicou este édito como um apêndice a sua tradução da Loeb das Meditações, incluiu um ensaio intitulado “Nota sobre a Atitude de Marco para com os Cristãos”.  Ele começa “Nada fez tanto mal ao bom nome de Marco quanto sua suposta atitude intransigente para com os cristãos” e conclui:

De fato, Marco foi acusado como perseguidor dos cristãos por razões puramente circunstanciais e bastante insuficientes.  O testemunho geral dos escritores cristãos contemporâneos é contra a suposição.  O mesmo acontece com o caráter conhecido de Marco.

Ele continua argumentando que a afirmação retrospectiva de Eusébio sobre inúmeras miríades de cristãos sendo perseguidos e horrivelmente torturados até a morte em todo o Império Romano dois séculos antes também é inconsistente com numerosos fatos históricos – frequentemente citados pelo próprio Eusébio e outros autores cristãos.  Por exemplo, a presença de um bispo à frente de uma comunidade de cristãos foi tolerada até mesmo em Roma, havia vários cristãos a serviço da própria casa de Marco, e provavelmente até mesmo cristãos no Senado romano.  Segundo Eusébio e outras três fontes cristãs, por exemplo, o senador Apolônio de Roma foi condenado à morte, sob o regime de Commodus.  Entretanto, isso implica que durante o reinado de Marco Apolônio foi permitido servir no Senado, apesar de ser cristão.  Várias fontes, incluindo Tertuliano, atestam que a Legião Fulminante[6] (Legio XII Fulminata) comandada por Marco na fronteira norte era composta em grande parte por soldados cristãos.

A obsessão de Marco Aurélio pela bondade, justiça e clemência é claramente demonstrada ao longo de toda Meditações.  Entretanto, isto é reforçado por numerosas referências a seu caráter nos escritos de outros autores romanos.  Marco é retratado com notável consistência como sendo um homem de excepcional clemência e humanidade – essa era sua reputação universal.  Os autores latinos tipicamente usavam a palavra humanitas (bondade) para descrever seu caráter; em grego a palavra filantropia (amor à humanidade) era preferida.

Haines, portanto, também acha implausível que alguém tão universalmente considerado como um homem de bondade e clemência excepcionais tivesse “encorajado a multidão contra pessoas inofensivas, ordenado a tortura de mulheres e meninos inocentes, e violado os direitos de cidadania”.  De fato, como vimos, não parece haver qualquer evidência de que Marco tenha sido realmente responsável pela perseguição dos cristãos.  O peso das provas, ao contrário, sugere que ele era, como afirma Tertuliano, um “protetor” dos cristãos, e tentou impedir as autoridades provinciais de persegui-los.

Podemos também olhar para o reinado de Antonino Pio, pai adotivo de Marco e predecessor como imperador, em busca de provas.  Desde que Marco foi nomeado César em 140 DC até a morte de Antonino Pio em 161 DC, por mais de vinte anos, Marco foi seu braço direito e praticamente co-regente ao seu lado.  De fato, Marco ajudou Antonino Pio a governar por mais tempo do que ele mesmo reinou, pois ele morreu em 180 DC, após dezenove anos no trono.  Tanto quanto sabemos, eles estavam de acordo em todos os assuntos, e cerca de uma década após sua morte, nas suas Meditações, Marco ainda se lembra de viver como um “discípulo de Antonino”.

De acordo com o epítome da História Romana de Cassius Dio feita por Xifilino:[7]

Antonino é reconhecido por todos como tendo sido nobre e bom, nem opressivo para os cristãos nem violento perante nenhum de seus outros súditos; ao invés disso, ele mostrou aos cristãos grande respeito e acrescentou à honra na qual Adriano costumava mantê-los. (Historia Romana)

Portanto, seria altamente notável se Marco (de todas as pessoas!) que tinha sido o braço direito nesta administração de Antonino, tivesse de repente levado a cabo uma reviravolta política dramática em relação aos cristãos e começasse a persegui-los ativamente em grande escala.

Na verdade, a forma de cristianismo que mais cresceu durante o reinado de Marco foi o Montanismo[8].  Sabemos que os Montanistas foram erradicados da história não porque foram perseguidos por Marco Aurélio ou pelas autoridades romanas, mas porque foram perseguidos e excomungados por outros cristãos, possivelmente incluindo os líderes da igreja ortodoxa de Lião.


[1] Henry Dwight Sedgwick III (24 de setembro de 1861 – 5 de janeiro de 1957) foi um advogado e autor americano. Escreveu uma biografia de Marco Aurélio, obra muito popular.

[2] Eusébio de Cesareia (ca. 265, 30 de maio de 339) (chamado também de Eusebius Pamphili) foi bispo de Cesareia e é referido como o pai da história da Igreja porque nos seus escritos estão os primeiros relatos quanto à história do cristianismo primitivo.

[3] Sulpício Severo (em latim: Sulpicius Severus; c. 363 — ca. 425) foi um escritor cristão nascido na Aquitânia. Ele é conhecido por sua História Sacra, ou a história do mundo desde a criação até seu tempo, e também por sua biografia de Martinho de Tours.

[4] Ireneu ou Irineu de Lyon ou Lião, em grego Εἰρηναῖος [pacífico] transliterado [Eirenaios], em latim Irenaeus, (ca. 130 – 202) foi um bispo grego, teólogo e escritor que nasceu, segundo se crê, na província romana da Ásia Menor Proconsular – a parte mais ocidental da actual Turquia – provavelmente Esmirna. O livro mais famoso de Ireneu, Sobre a detecção e refutação da chamada Gnosis, também conhecido como Contra Heresias (Adversus haereses, ca. 180 d.C.) é um ataque minucioso ao gnosticismo, que era então uma séria ameaça à Igreja primitiva e, especialmente, ao sistema proposto pelo gnóstico Valentim

[5] Tertuliano (em latim: Quintus Septimius Florens Tertullianus; c. 160 — c. 220 (60 anos)) foi um prolífico autor das primeiras fases do Cristianismo, nascido em Cartago na província romana da África Proconsular. Ele foi o primeiro autor cristão a produzir uma obra literária (corpus) em latim. Ele também foi um notável apologista cristão e um polemista contra a heresia.

[6] Legio duodecima Fulminata ou Legio XII Fulminata (“Décima-segunda legião, armada com raios”), também conhecida como “Paterna”, “Victrix”, “Antiqua”, “Certa Constans” e “Galliena”, foi uma legião romana, formada por Júlio César em 58 a.C. e que o acompanhou nas Guerras gálicas até 49 a.C. A unidade permanecia guardando um vau do rio Eufrates perto de Melitene no início do século V d.C. O emblema da legião era um raio (fulmen). Nos séculos finais de sua existência passou a ser conhecida corriqueiramente – e incorretamente – como Legio Fulminatrix, a Legião Fulminante.

[7] João Xifilino (em grego: Ἰωάννης Η΄ Ξιφιλῖνος; em latim: Joannes Xiphilinus), dito Epitomator por sua epítome de Dião Cássio, viveu em Constantinopla durante segunda metade do século XI. Ele foi um monge e era sobrinho do patriarca João VIII de Constantinopla, um pregador renomado.

[8] O montanismo foi um movimento cristão fundado por Montano por volta de 156-157 (ou 172), que se organizou e difundiu em comunidades na Ásia Menor, em Roma e no Norte de África. Por ter se originado na região da Frígia, Eusébio de Cesareia relata em sua História Eclesiástica (V.14-16) que ela era chamada de “Heresia Frígia” na época.

Crescendo como estoico: Uma educação filosófica voltada para o caráter, a persistência e a garra

Artigo útil e prático para os estoicos com filhos, do site devitastoica.

Começa advertindo que, como pais, temos de dar o bom exemplo, só depois lições. Leah Goldrick aborda então como ensinar as quatro virtudes cardeais dos estoicos, tudo baseado em Musônio Rufo.

Gostei especialmente do exercício sugerido para praticar “determinação”, a jardinagem:

“Mexer com plantas é particularmente educativo para elas, visto que envolve o adiamento da gratificação e, ocasionalmente, a lição de que o trabalho duro nem sempre é recompensado. A determinação é requerida quando se está semeando, regando e cultivando as plantas, e somente no fim é que você aproveitará a comida que produziu.”

Leah Goldrick, traduzido pelo site.