Carta 83: Sobre a embriaguez

A Carta 83 trata do tema da bebida, e se um sábio pode ou não se embriagar. A carta, apesar de longa, é de leitura fácil e envolvente, conta com inúmeros exemplos e relatos da época de Roma.

Assim como na carta anterior, Sêneca discorda de Zenão, que proibia totalmente o uso do álcool, dizendo que um bom homem jamais se embriaga ao afirmar que “Ninguém confia um segredo a um homem bêbado, mas confiará um segredo a um homem bom, portanto, o bom homem não vai ficar embriagado“. (§9)

Sêneca considera essa afirmação uma falácia, argumentando:

“Perceba quão ridículo Zenão é feito quando montamos um semelhante silogismo em contraste com o seu. Há muitos, mas um bastará: ‘Ninguém confia um segredo a um homem quando ele está dormindo, mas confia-se um segredo a um homem bom, portanto, o homem bom não vai dormir.'” (LXXXIII, 9)

Para ele é permitido beber, e existem inúmeros exemplos de homens bons e modelos de conduta que eventualmente (ou em alguns casos frequentemente) se embriagam. Contudo, o sábio estoico sabe que não é uma atitute racional e que não deve ser tomada:

“Quão melhor é acusar em público a embriaguez com franqueza e expor seus vícios! Pois mesmo o bom homem médio evita-a, para não mencionar o sábio perfeito, que se satisfaz abrandando sua sede; o sábio, mesmo que de vez em quando guiado pelo bom ânimo, e, por causa de um amigo, seja levado um pouco longe demais, sempre para antes da embriaguez.(LXXXIII, 17)

Conclui a carta com uma frase genial, afirmando ser impossível argumentar que um sábio pode exagerar na bebida e manter um curso reto, o correto, é demonstrar que o que os homens chamam de prazeres são punições assim que ultrapassarem os limites devidos. (§26)

(Imagem: Baco por Guido Reni)


LXXXIII. Sobre a embriaguez

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você me pediu dar-lhe um relato de cada dia separado, e do dia inteiro também; então você me deve ter em boa opinião se acha que nestes meus dias não há nada a esconder. Seja como for, é assim que devemos viver, como se vivêssemos à vista de todos os homens; e é assim que devemos pensar, como se houvesse alguém que pudesse olhar para nossa alma mais íntima; e há quem possa assim olhar. Pois que beneficio há em algo escondido do homem, quando nada escapa da visão de Deus? Ele é testemunha de nossas almas, e Ele entra em nossos pensamentos – entra neles, eu digo, como alguém que pode a qualquer momento partir.

2. Por conseguinte, farei o que me pediu, e com prazer informarei por carta o que faço e em que sequência. Vou continuar observando-me continuamente, e – um hábito muito útil – irei rever cada dia. Pois isto é o que nos torna cheios de vícios: pois nenhum de nós olha para trás sobre sua própria vida. Nossos pensamentos são dedicados apenas ao que estamos prestes a fazer. No entanto, nossos planos para o futuro sempre dependem do passado.

3. Hoje tem sido ininterrupto; ninguém furtou a menor parte de mim. O tempo todo foi dividido entre o leito[1] e a leitura. Um breve espaço foi dado ao exercício físico, e neste terreno eu posso agradecer a velhice – meu exercício custa muito pouco esforço; assim que começo a me mexer, estou cansado. E cansaço é o objetivo e o fim do exercício, não importa quão forte seja.

4. Você pergunta quem são meus treinadores? Um é suficiente para mim, o escravo Fário[2], um companheiro agradável, como você sabe; mas vou trocá-lo por outro. No meu tempo de vida eu preciso de um que seja de ainda mais suaves anos. Fário, pelo menos, diz que ele e eu estamos no mesmo período de vida; pois estamos ambos perdendo os dentes. No entanto, mesmo agora, mal posso seguir o seu ritmo enquanto corre, e dentro de um curto espaço de tempo não poderei segui-lo; assim que você vê quão lucrativo é o exercício diário. Brevemente abre-se um grande intervalo entre duas pessoas que viajam de maneiras diferentes. Meu escravo está subindo no momento em que estou descendo e você certamente sabe quanto mais rápida a última o é. Não, eu estava errado; pois agora minha vida não está descendo; está caindo completamente.

5. Você pergunta, por tudo isso, como nossa corrida resultou hoje? Corremos para um empate, algo que raramente acontece em uma competição em corrida. Depois de me cansar dessa maneira (porque não posso chamar de exercício), tomei um banho frio; isto, em minha casa, significa apenas morno. Eu, o antigo entusiasta da água fria, que costumava celebrar o ano novo mergulhando no canal[3], que, tão naturalmente como eu ia fazer alguma leitura ou escrita, ou compor um discurso, costumava inaugurar o primeiro do ano com um mergulho no aqueduto de Virgo[4], mudei minha fidelidade, primeiro para o Tibre, e depois para o meu tanque favorito, que é aquecido apenas pelo sol, às vezes quando eu sou mais robusto e quando não há sequer uma falha em meus processos corporais. Tenho muito pouca energia para tomar banho.

6. Após o banho, algum pão envelhecido e café-da-manhã sem uma mesa; não há necessidade de lavar as mãos após uma refeição como essa. Então vem uma sesta muito curta. Você conhece meu hábito; aproveito um pouquinho de sono, desarrear, por assim dizer. Pois estou satisfeito se consigo parar de ficar acordado. Às vezes eu sei que dormi; outras vezes, tenho uma mera suspeita.

7. Eis que agora o barulho das corridas soa sobre mim! Meus ouvidos são castigados por aplausos súbitos e gerais. Mas isso não perturba meu pensamento nem quebra sua continuidade. Posso suportar um alvoroço com completa resignação. A mistura de vozes embaralhadas em uma nota soa para mim como o ruído das ondas, ou como o vento que açoita as copas das árvores, ou como qualquer outro som que não traz nenhum significado.

8. O que é, então, você pergunta, a que tenho dado a minha atenção? Vou dizer-lhe, um pensamento apoderou-se de minha mente, desde ontem, ou seja, o que os homens da maior sagacidade têm querido dizer quando ofereceram as provas mais frívolas e intrincadas para problemas da maior importância, provas que podem ser verdade, mas ainda assim se assemelham a falácias.

9. Zenão, o maior dos homens, o reverenciado fundador da nossa brava e sagrada escola de filosofia, deseja desencorajar-nos da embriaguez. Ouça, pois, os seus argumentos para provar que o bom homem não se embriagará: “Ninguém confia um segredo a um homem bêbado, mas confiará um segredo a um homem bom, portanto, o bom homem não vai ficar embriagado“. Perceba quão ridículo Zenão é feito quando montamos um semelhante silogismo em contraste com o seu. Há muitos, mas um bastará: “Ninguém confia um segredo a um homem quando ele está dormindo, mas confia-se um segredo a um homem bom, portanto, o homem bom não vai dormir.”

10. Posidônio advoga a causa de nosso mestre Zenão da única maneira possível; mas não pode, eu mantenho, ser defendido mesmo desta maneira. Pois Posidônio sustenta que a palavra “bêbado” é usada de duas maneiras, – em um o caso de um homem que é carregado de vinho e não tem controle sobre si mesmo; no outro, de um homem que está acostumado a ficar bêbado, e é um escravo do vício. Zenão, diz ele, queria dizer do último, o homem que está acostumado a se embebedar, não o homem que está bêbado; e ninguém poderia confiar a esta pessoa qualquer segredo, pois poderia ser tagarelado quando tal homem estivesse em seus copos.

11. Esta é uma falácia. Pois o primeiro silogismo se refere a aquele que está realmente bêbado e não a aquele que está prestes a ficar bêbado. Você certamente vai admitir que há uma grande diferença entre um homem que está bêbado e um beberrão. Aquele que está realmente bêbado pode estar neste estado pela primeira vez e pode não ter o hábito, enquanto o beberrão muitas vezes está livre da embriaguez. Interpreto, portanto, a palavra em seu sentido usual, especialmente porque o silogismo é estabelecido por um homem que pratica o uso cuidadoso das palavras e que pesa sua linguagem. Além disso, se é isso que Zenão quis dizer, e o que queria que significasse para nós, ele estava tentando aproveitar-se de uma palavra ambígua para atingir uma falácia; e nenhum homem deve fazer isto quando a verdade é o objeto da investigação.

12. Mas admitamos, de fato, que ele quis dizer o que Posidônio diz; mesmo assim, a conclusão é falsa, que segredos não são confiados a um bêbado habitual. Pense quantos soldados que não estão sempre sóbrios foram confiados por um general ou um capitão ou um centurião com mensagens que não poderiam ser divulgadas! Quanto ao notório plano de assassinato de Caio César, quero dizer, o César que conquistou Pompeu e obteve o controle do estado[5], Tílio Cimbro foi confiado por ele pelo não que menos Caio Cássio. Cássio, ao longo da sua vida, bebeu água; Enquanto Tílio Cimbro era um beberrão, bem como um arruaceiro. O próprio Cimbro aludiu a este fato, dizendo: “Eu carrego um mestre, não posso controlar minha bebida!

13. Portanto, cada um lembre-se daqueles que, ao seu conhecimento, não podem ser confiados com vinho, mas são confiados com a palavra; e ainda um caso ocorre a minha mente, que eu relatarei, para que não caia no esquecimento, pois a vida deve ser provida de ilustrações notáveis. Não vamos sempre recordar ao passado obscuro.

14. Lucio Pisão, o diretor de Segurança Pública em Roma, estava bêbado desde o momento de sua nomeação. Costumava passar a maior parte da noite em banquetes e dormia até o meio-dia. Era assim que passava as horas da manhã. No entanto, aplicou-se com toda a diligência aos seus deveres oficiais, que incluía a tutela da cidade. Até o virtuoso Augusto confiava nele com ordens secretas quando o colocou no comando da Trácia[6]. Pisão conquistou aquele país. Tibério também confiava nele quando aproveitava férias na Campânia, deixando para trás, na cidade, muitos assuntos críticos que suscitavam suspeita e ódio.

15. Acho que foi por causa da embriaguez de Pisão ter dado bom resultado para o Imperador que ele nomeou Cosso para o cargo de prefeito de Roma, um homem de autoridade e equilíbrio, mas tão embebido e mergulhado em bebida que uma vez, em uma reunião do Senado, para onde tinha ido depois de banquetear, foi dominado por um sono do qual não podia ser despertado, e teve de ser levado para casa. Foi a este homem que Tibério enviou muitas ordens, escritas em suas próprias mãos, ordens que ele acreditava que não deveria confiar nem mesmo aos oficiais de sua casa. Cosso nunca deixou escapar um único segredo, seja pessoal ou público.

16. Aboliremos, portanto, todas as arengas como esta: “Nenhum homem nos laços da embriaguez tem poder sobre a sua alma. À medida que os próprios toneis são arrebentados pelo vinho novo, e como a escória no fundo é levantada à superfície pela força da fermentação, assim, quando o vinho efervesce, o que está escondido embaixo é levantado e tornado visível. Como um homem subjugado pelo licor não pode manter a sua comida quando ele exagera no vinho, assim também ele não pode manter um segredo. Derrama imparcialmente tanto os seus próprios segredos como os de outras pessoas “.

17. Isto, naturalmente, é o que comumente acontece, mas também acontece – nós discutirmos assuntos sérios com aqueles que sabemos ter o hábito de beber. Por conseguinte, esta proposição, que é estabelecida sob a forma de uma defesa do silogismo de Zenão, é falsa – que os segredos não são confiados ao bêbado habitual. Quão melhor é acusar em público a embriaguez com franqueza e expor seus vícios! Pois mesmo o bom homem médio evita-a, para não mencionar o sábio perfeito, que se satisfaz abrandando sua sede; o sábio, mesmo que de vez em quando guiado pelo bom ânimo, e, por causa de um amigo, seja levado um pouco longe demais, sempre para antes da embriaguez.

18. Investigaremos mais tarde a questão se a mente do sábio é perturbada por excesso de vinho e se comete loucuras como as do bêbado; mas enquanto isso, se quiser provar que um bom homem não deve ficar bêbado, por que trilhar pela lógica? Mostre como é vil beber mais licor do que se pode suportar, e não saber a capacidade de seu próprio estômago; mostre quantas vezes o bêbado faz coisas que o fazem corar quando está sóbrio; afirmam que a embriaguez não é senão uma condição de insanidade propositadamente assumida. Prolongue a condição do bêbado a vários dias; terá alguma dúvida sobre sua loucura? Mesmo assim, a loucura não é menor; meramente dura um tempo mais curto.

19. Pense em Alexandre da Macedônia, que esfaqueou Clito[7], seu amigo mais querido e mais fiel, em um banquete; depois que Alexandre compreendeu o que tinha feito, desejou morrer, e seguramente devia ter morrido. A embriaguez acende e revela todo o tipo de vícios, e elimina o sentimento de vergonha que encobre nossas ações perversas. Pois mais homens se abstêm de ações proibidas porque têm vergonha de pecar do que porque suas inclinações são boas.

20. Quando a força do vinho se torna muito grande e ganha o controle sobre a mente, todo mal escondido sai do seu esconderijo. A embriaguez não cria vícios, apenas os trazem à vista; nessas ocasiões o homem lascivo não espera até a privacidade de um quarto, mas sem postergação dá carta branca às exigências de suas paixões; em tais ocasiões o homem sem castidade proclama e publica sua doença; nessas ocasiões seu companheiro intratável não restringe sua língua ou sua mão. O homem pedante aumenta sua arrogância, o homem cruel sua crueldade, o caluniador seu veneno. A cada vício é dado liberdade.

21. Além disso, esquecemos quem somos, pronunciamos palavras hesitantes e mal enunciadas, o olhar é inseguro, o passo vacilante, a cabeça confusa, o próprio teto se move como se um ciclone estivesse girando toda a casa, e o estômago sofre tortura quando o vinho gera gás e faz com que nossas próprias entranhas inchem. No entanto, na ocasião, esses problemas podem ser suportados, desde que o homem retenha sua força natural; mas o que pode fazer quando o sono prejudica seus poderes, e quando aquilo que foi embriaguez se torna indigestão?

22. Pense nas calamidades causadas pela embriaguez em uma nação! Este mal traiu aos seus inimigos as raças mais espirituosas e guerreiras; este mal abriu brechas em muros defendidos pela guerra obstinada de muitos anos; este mal tem colocado povos sob influência estrangeira, povos que eram totalmente inflexíveis e desafiadores do jugo; este mal conquistou pela taça de vinho aqueles que na batalha eram invencíveis.

23. Alexandre, que acabo de mencionar, passou por suas muitas lutas, suas muitas batalhas, suas muitas campanhas de inverno (através das quais conseguiu superar as desvantagens do tempo e do lugar), os muitos rios que fluíam de fontes desconhecidas e os muitos mares, todos em segurança; foi a intemperança em beber o que derrubou, e a famosa taça mortal de Hércules[8].

24. Que glória há em beber muito? Quando você ganha o prêmio, e os outros convidados do banquete, escarrapachados adormecidos ou vomitando, recusam seu desafio a ainda mais brindes; quando você é o último sobrevivente da orgia; quando vence cada um por seu magnífico espetáculo de proezas e não há nenhum homem que tenha se provado de tão grande capacidade como você, você é vencido pelo barril.

25. Marco Antônio era um grande homem, um homem de habilidade distinta; mas o que o arruinou e o levou a hábitos exóticos e vícios não romanos, se não a embriaguez e – não menos potente que o vinho – o amor por Cleópatra? Foi isso que o fez inimigo do Estado; isto foi o que o tornou fraco para seus inimigos; foi isso que o fez cruel, quando, sentado à mesa, lhe trouxeram as cabeças dos líderes da República[9]; quando no meio das festas mais elaboradas e do luxo régio ele reconhecia os rostos e as mãos dos homens que havia proscrito; quando, ainda que cheio de vinho, ainda tinha sede de sangue. É intolerável que estivesse bebendo enquanto fazia tais coisas; quão mais intolerável que tenha feito essas coisas enquanto realmente bêbado!

26. Crueldade geralmente segue a bebedeira, pois a solidez mental de um homem é corrompida e tornada selvagem. Assim como uma doença persistente faz os homens ranzinzas e irritáveis e os faz selvagens na mínima oposição de seus desejos, assim também ataques contínuos de embriaguez bestializam a alma. Pois quando as pessoas estão frequentemente fora de si, o hábito da loucura perdura, e os vícios que o licor aflora retêm seu poder mesmo quando o licor se vai.

27. Portanto, você deve expor por que o sábio não deve ficar embriagado. Explique por fatos, e não por meras palavras, a hediondez da coisa e seus males assombradores. Faça o que é mais fácil de tudo – ou seja, demonstre que o que os homens chamam de prazeres são punições assim que ultrapassarem os limites devidos. Pois se você tentar provar que o sábio pode se saciar com muito vinho e ainda manter seu curso reto, mesmo que ele esteja bêbado, você vai acabar por inferir por silogismos que ele não vai morrer se ele engolir veneno, que não vai dormir se tomar uma poção sonífera, que não vai vomitar e rejeitar a matéria que entope seu estômago quando você lhe dá heléboro[10]. Mas, quando os pés de um homem cambaleiam e sua língua está instável, que razão você tem para acreditar que ele esteja em parte sóbrio e em parte bêbado?

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Não significa que passou metade do dia a dormir, pois ele necessitava pouco do sono (§ 6). O leito de que se trata aqui, portanto, é uma espécie de divã no qual se reclinava para meditar quando não estava à mesa de trabalho.

[2] Pharius.

[3] Inverno no hemisfério norte.

[4] Construído por Marcos Agripa; Atualmente fonte de Trevi.

[5] O preciosismo de Sêneca é necessário porque Caio César era o nome comumente usado para designar Calígula.

[6] A Trácia é uma região histórica do sudeste da Europa. Antiga região da Macedônia, atualmente é dividida entre a Grécia, Turquia e a Bulgária.

[7] Clito, o Negro foi um oficial do exército macedônio liderado por Alexandre, o Grande. Ele salvou a vida de Alexandre na Batalha do Grânico. Clito foi, mais tarde, morto pelas mãos do próprio Alexandre durante uma bebedeira.

[8] Há uma versão , não confirmada, que Alexandre teria morrido após beber da “Taça de Hércules” em uma sessão de forte bebedeira.

[9] Por ordem de Marco Antônio, a cabeça de Cícero cabeça foi pregada na Rostra no Fórum Romano. Segundo Dião Cássio a esposa de Antônio, Fúlvia, pegou a cabeça de Cícero, arrancou sua língua e a espetou repetidas vezes com um grampo de cabelo, uma vingança final contra o poder da oratória do inimigo de seu marido.

[10][10] Uma planta que possuía propriedades catárticas e era amplamente utilizada pelos antigos. Também aplicada em casos de perturbação mental.

Carta 80: Sobre Decepções mundanas

slave-market-in-rome-Jean-Léon_Gérôme

A carta 80, uma de minhas preferidas, se mostra atual e apropriada ao momento que estamos passando. Sêneca fala sobre os falsos valores que a sociedade contemporânea dá coisas mundanas. Critica que hoje “treinamos nossos corpos, enquanto quão poucos treinam suas mentes“.

Devido a crise do coronavírus, hoje nos dividimos entre aqueles que temem pela vida e os que temem pela pobreza. Sêneca diz que a liberdade não pode ser comprada ou vendida, mas buscada individualmente quando deixamos de temer a morte e a pobreza:

“… a liberdade não é possuída nem por aqueles que a compraram, nem por aqueles que a venderam. Você deve dar este bem a si mesmo, e buscá-lo por si mesmo. Antes de tudo, liberte-se do medo da morte, pois a morte põe a canga sobre nossos pescoços; então liberte-se do medo da pobreza.” (LXXX, 5)

Como se estivesse falando das redes sociais, das fotos postadas no Facebook e Instagram, Sêneca alerta sobre a felicidade fingida:

Mas a alegria daqueles a quem os homens chamam de feliz é fingida, enquanto sua tristeza é pesada e supurada, e mais pesada, porque eles não podem, entretanto, exibir sua tristeza, mas devem fingir o papel da felicidade no meio das aflições que devoram seus próprios corações.” (LXXX, 6)

Assim como o comprador de um cavalo olha os dentes, ignorando a sela, e o comprador de escravos quer ver o corpo nu e não as vestes, devemos avaliar as pessoas, e a nós mesmo, não por posses ou cargos, mas por aquilo que realmente são:

“Mas por que eu falo dos outros? Se você deseja definir um valor em si mesmo, coloque ao lado seu dinheiro, suas propriedades, suas honrarias, e olhe para sua própria alma. No momento, você está tomando a palavra dos outros pelo o que você é ” (LXXX, 10)

Imagem: Mercado de Escravos em Roma pintura de Jean-Léon Gérôme


LXXX. Sobre Decepções mundanas

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Hoje eu tenho algum tempo livre, graças não tanto a mim, mas sim aos jogos, que atraíram todos os chatos para a luta de boxe[1]. Ninguém vai me interromper ou perturbar o trem de meus pensamentos, que irá em frente com mais ousadia como resultado da minha própria confiança. A minha porta não tem continuamente rangido em suas dobradiças nem minha cortina tem sido puxada para o lado; meus pensamentos podem marchar com segurança, e isso é tanto mais necessário para quem é independente e segue seu próprio caminho. Posso então não seguir antecessores? Sim, mas me permito descobrir algo novo, alterar, rejeitar. Eu não sou um escravo deles, embora eu lhes dê minha aprovação.

2. E, no entanto, essa foi uma palavra muito ousada que eu falei quando me assegurei de que deveria ter um pouco de aposentadoria tranquila e ininterrupta. Pois bem, uma grande ovação vem do estádio, e enquanto isso não me deixa distraído, ela muda meu pensamento para um contraste sugerido por este mesmo barulho. Quantos homens, digo a mim mesmo, treinam seus corpos, e quão poucos treinam suas mentes! Que multidões se reúnem aos jogos, espúrios como são e dispostas apenas para o passatempo, – e que solidão reina aonde as artes boas são ensinadas! Como são imbecis os atletas cujos músculos e ombros nós admiramos!

3. A questão que eu mais pondero é a seguinte: Se o corpo pode ser treinado a tal grau de resistência que vai suportar os golpes e chutes de vários oponentes de uma só vez e em tal grau que um homem pode durar o dia e resistir ao sol escaldante no meio da poeira ardente, encharcado todo o tempo com seu próprio sangue, – se isso puder ser feito, quanto mais facilmente a mente poderia ser fortalecida para que pudesse receber os golpes da Fortuna e não ser conquistada, para que pudesse lutar novamente depois de ser derrubada, depois que foi pisada e espezinhada? Pois, embora o corpo precise de muitas coisas para ser forte, a mente cresce de dentro, dando-se nutrição e exercício. Os atletas de lá devem ter comida abundante, copiosa bebida, quantidades copiosas de óleo, e longo treinamento também; mas você pode adquirir virtude sem equipamento e sem despesas. Tudo o que vai fazer de você um homem bom está dentro de você.

4. E o que você precisa para se tornar bom? Basta desejar. Mas que melhor coisa você poderia desejar do que romper com essa escravidão, uma escravidão que nos oprime a todos, uma escravidão que até mesmo nossas menores propriedades, nascidas em meio a tal degradação, se esforça de toda maneira possível para nos despojar? Em troca da liberdade eles entregam economias que rasparam enganando suas próprias barrigas; você não estará ansioso para alcançar a liberdade a qualquer preço, visto que você a reivindica como seu direito de primogenitura?

5. Por que lança olhares em direção a sua caixa forte? A liberdade não pode ser comprada. Portanto, é inútil entrar em seu livro-razão o item de “Liberdade”, pois a liberdade não é possuída nem por aqueles que a compraram, nem por aqueles que a venderam. Você deve dar este bem a si mesmo, e buscá-lo por si mesmo. Antes de tudo, liberte-se do medo da morte, pois a morte põe a canga sobre nossos pescoços; então liberte-se do medo da pobreza.

6. Se você soubesse quão pouco mal há na pobreza; compare os rostos dos pobres com os dos ricos; o homem pobre sorri com mais frequência e mais genuinamente; seus problemas não vão em profundidade; mesmo que alguma ansiedade vá de encontro com ele, passa como uma nuvem agitada. Mas a alegria daqueles a quem os homens chamam de feliz é fingida, enquanto sua tristeza é pesada e supurada, e mais pesada, porque eles não podem, entretanto, exibir sua tristeza, mas devem fingir o papel da felicidade no meio das aflições que devoram seus próprios corações.

7. Muitas vezes me sinto chamado a usar a seguinte ilustração, e parece-me que nada expressa mais eficazmente este drama da vida humana, onde nos são atribuídas as partes que devemos desempenhar tão mal. Lá está o homem que atua no palco com esplendido estilo de vida e a cabeça jogada para trás e diz:

Ei!, Eu sou aquele quem Argos chama de senhor, a quem Pélope deixou terras que se espalham Do Helesponto[2] e do mar Jónico até o estreito Ístmico. En impero Argis; regna mihi liquit Pelops, Qua ponto ab Helles atque ab Ionio mari Urgetur Isthmos[3],

E quem é esse homem? Ele é apenas um escravo; seu salário é de cinco medidas de grãos e cinco denários[4].

8. Acolá outro que, orgulhoso e rebelde e empolado pela confiança em seu poder, declama:

Paz, Menelau[5], ou esta mão te matará!. Quod nisi quieris, Menelae, hac dextra occides,

Recebe uma miséria diária e dorme em trapos. Você pode falar da mesma maneira sobre todos estes fanfarrões que você vê em liteiras acima das cabeças dos homens e acima da multidão; em todos os casos sua felicidade é vestida como a máscara do ator. Rasgue-a, e você vai desprezá-los.

9. Quando você compra um cavalo, você pede que seu cobertor seja removido; você tira as roupas dos escravos que são anunciados para venda, de modo que nenhuma falha corporal possa escapar a sua observação; se você julgar um homem, você o julga quando está envolvido em um disfarce? Os negociantes de escravos escondem sob algum tipo de adorno qualquer defeito que possa ofender, e por essa razão os próprios ornamentos despertam a suspeita do comprador. Se você avista uma perna ou um braço que está amarrado em panos, você exige que ele seja desnudado e que o próprio corpo seja revelado a você.

10. Você vê aquele rei da Cítia ou da Sármata, com a cabeça adornada com o distintivo de seu ofício? Se você desejar ver o que ele vale, e saber o seu valor total, tire a sua coroa; muito mal se esconde debaixo dela. Mas por que eu falo dos outros? Se você deseja definir um valor em si mesmo, coloque ao lado seu dinheiro, suas propriedades, suas honrarias, e olhe para sua própria alma. No momento, você está tomando a palavra dos outros pelo o que você é.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Provavelmente uma disputa em que os participantes juntaram pesos de chumbo às mãos para aumentar a força dos golpes.

[2] Atual Dardanelos, é um estreito no noroeste da Turquia ligando o mar Egeu ao mar de Mármara.

[3] Autoria desconhecida.

[4] Uma pequena moeda de prata que era a de maior circulação no Império Romano. É geralmente aceito que no fim da República e no início do Principado, um denário correspondia ao salário diário de um trabalhador. Com um denário era possível comprar em torno de 8 quilos de pão.

[5] Menelau, na mitologia grega, foi um rei lendário de Esparta, irmão mais novo de Agamémnon. O rapto da sua mulher (Helena) por Alexandre, deu origem à Guerra de Troia.

Apatheia e Ataraxia: conceito e diferenças

Apatheia e Ataraxia: conceito e diferenças

Ataraxia (em grego: Ἀταραξία) traduz-se por “ausência de inquietude/preocupação“, “tranquilidade de ânimo”. É um conceito epicurista.

Apatheia (em grego: ἀπάθεια, (a)- “ausência” e  (pathos) – “sofrimento” ou “paixão”) é um estado de espírito alcançado quando uma pessoa está livre de perturbações emocionais. É um conceito estoico.

Os estoicos e os epicuristas frequentemente travavam disputa uns com os outros. Epicteto explica em várias passagens onde a Estoa difere do Jardim (“Contra Epicuro”, Discursos 1.23), já Sêneca diz a seu amigo Lucílio que toma emprestado alegremente de Epicuro quando faz sentido, dado que é seu “porque eu sou acostumado a entrar até mesmo no campo do inimigo, – não como um desertor, mas como um observador.” (Carta 2: Sobre a falta de foco no Estudo).

A grande diferença entre as duas escolas, como sabemos, é que os estoicos acreditavam que a coisa crucial na vida era a virtude e o seu desenvolvimento, enquanto os epicuristas defendiam que o propósito seria buscar o prazer e evitar o dor.

Não obstante, as duas escolas defendiam que um componente crucial da eudaimonia (vida boa) era algo muito similar, ao que os estoicos se referiam como apatheia (literalmente, estar sem paixões) e os epicuristas, como ataraxia (literalmente, “tranquilidade”). Há, no entanto, algumas diferenças entre os dois conceitos na maneira como as duas escolas ensinavam como se atingir estes respectivos estados de espírito.

No que diz respeito aos estoicos, é bom lembrar que “paixão” não significava o que agora queremos dizer pelo termo, e de fato não significava sequer “emoção” no sentido moderno do termo. É por isso que é incorreto dizer que os estoicos visavam a uma vida desapaixonada, ou à supressão das emoções.

De fato, eles dividem as “paixões” em insalubres e salubres. O primeiro grupo incluía a dor, o medo, a ânsia e o prazer. O segundo, a cautela, a vontade e a alegria/deleite. Os últimos três eram o oposto do primeiro grupo, com a exceção da dor, que não tem uma contraparte positiva. Eis um diagrama sumário:

Pathê
paixões insalubres
Eupatheiai
Paixões saudáveis
Dor (ou sofrimento): falha em evitar algo ruim / (não há dor emocional racional)
Medo: expectativa irracional de algo nocivo xCautela: aversão racional ao vício e coisas nocivas
Ânsia (ou Luxúria): busca irracional por algo considerado bom por erro. x Desejo/vontade: busca racional pelo que é virtuoso
Prazer: euforia irracional por algo que não vale ser perseguido xAlegria/deleite: gozo racional pela virtuoso (o que é bom)

No que diz respeito aos estoicos, é bom lembrar que “paixão” não tinha o significado atual, e na verdade nem sequer significava “emoção” no sentido moderno do termo. Assim, é completamente incorreto dizer que os estoicos visavam uma vida sem paixão, ou a supressão da emoção. Na verdade, eles dividiram as “paixões” em paixões insalubres e saudáveis. O primeiro grupo incluiu o medo, o desejo, o prazer/luxúria e a dor. O segundo, “cautela“, “vontade” e “deleite“. Para a “dor” não havia uma contraparte positva.

Assim, para os estoicos, as “paixões” não são reações automáticas, instintivas, que não podemos evitar sentir. Pelo contrário, são o resultado de um julgamento, de um consentimento a uma sensação. Portanto, ao ler a palavra “medo”, não pense na resposta automática que é de fato inevitável quando nos é apresentado algo perigoso (mesmo que apenas aparentemente). O que os estoicos queriam dizer com “medo” era o que vem depois: a nossa opinião ponderada sobre o que causou a reação instintiva. A psicologia estoica é sutil: eles sabiam que nós temos respostas automáticas que não estão sob nosso controle. Por isso eles se concentraram no que está sob nosso controle: o julgamento feito sobre as causas prováveis de nossas reações instintivas, um julgamento feito pelo que Marco Aurélio chamava de faculdade dominante (raciocínio).

Os estoicos também usam em seu vocabulário ataraxia, não apenas apatheia. Uma maneira de pensar sobre a relação entre os dois é que a apatheia, uma mudança de emoções negativas para positivas, que por sua vez produz ataraxia, uma sensação de tranquilidade que vem de ter desenvolvido uma atitude de equanimidade em relação ao que quer que o mundo nos lance.

A diferença crucial entre as duas escolas é que chegam até a eudaimonia a por caminhos bem diferentes. Os epicuristas buscaram acima de tudo evitar a dor, o que significava especialmente privar-se da vida social e política. Era bom, para Epicuro, cultivar suas amizades íntimas, mas tentar ter um papel pleno na política era uma maneira segura de sofrer (física e mentalmente) e portanto deveria ser evitado. Os estoicos, ao contrário, abraçavam a vida social. Marco Aurélio escreve constantemente nas Meditações que precisamos levantar de manhã e fazer o trabalho de um ser humano, que significa sermos úteis para a sociedade. Para os estoicos, o sábio poderia ser feliz até na ruína e passando por enorme sofrimento, contanto que esteja exercendo a sua virtude e agindo para o benefício da humanidade. Isso seria inconcebível para um epicurista.

Leia também:

Pensamento #50: Cuidado com as Multidões

bacanal

Época de carnaval é bom lembrar dos ensinamentos de Sêneca, em sua sétima carta:

O jovem caráter, que não consegue se manter íntegro, deve ser resgatado da multidão; é muito fácil tomar o partido da maioria. Mesmo Sócrates, Catão e Lélio poderiam ter sido abalados em sua força moral por uma multidão que era diferente deles; tão verdadeiro é que nenhum de nós, por mais que cultive suas habilidades, pode resistir ao choque de falhas que se acercam, por assim dizer, de tão grande séquito.”

Sêneca, Carta VII, 6

(Imagem: Um Bacanal por Jan Brueghel the Elder e Hendrik van Balen)

Pensamento #49: Dicotomia estoica do controle

dicotomia controle

“Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o desejo, a repulsa –em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos –em suma: tudo quanto não seja ação nossa. ” Manual de Epicteto [1.2]

Esta passagem, encontrada no início do Enchirídion de Epicteto, é fundamental para os ensinamentos da Filosofia Estoica. É denominada “dicotomia estoica do controle“, o princípio mais característico do estoicismo. Devemos distinguir cuidadosamente o que é “nosso encargo“, ou seja, algo sob nosso próprio poder, e o que não é. São nosso encargo nossas escolhas voluntárias, a saber, nossas ações e julgamentos, enquanto todo o resto não está sob nosso controle.

O termo “encargo” pode gerar confusão, a tradução mais comumente usada em inglês pode ajudar a compreensão: “up to you“.

Aprofunde-se no tema com o Princípio Estoico #3: Concentre-se no que pode controlar, aceite o que não pode.

Livros:

Carta 72: Sobre os negócios como inimigo da filosofia

Na carta 72 Sêneca diz que, ao invés do usualmente feito,  devemos priorizar o estudo da filosofia, deixando os negócios em segundo plano, ou melhor ainda, abandonado completamente.

Segundo ele, a preocupação com negócios é sinal de uma sabedoria imperfeita, sinal de preocupação com bens materiais externos:

“São aqueles que ainda estão aquém da perfeição cuja felicidade pode ser quebrada; a alegria de um homem sábio, por outro lado, é um tecido entrelaçado, quebrada por nenhum acontecimento casual e ou mudança de sorte; em todos os momentos e em todos os lugares ele está em paz. Pois a sua alegria não depende de nada externo e não busca nenhuma bênção do homem ou da fortuna. Sua felicidade é algo dentro de si mesmo.” (LXXII, 4)

Precisamos ter em mente que Sêneca estava falando da alta classe romana, pessoas de muitas posses que não precisavam “cuidar dos negócios” para manterem um alto padrão material de vida. Ele próprio, sempre atarefado e comprometido com negócios (como afirma no início da carta) ainda está se esforçando para atingir a sabedoria.

O importante é saber se contentar com o suficiente e lembrar que “a fortuna não nos dá nada que possamos realmente possuir.” Ao final da carta cita uma analogia de seu professor de estoicismo, Átalo:

“Você alguma vez já viu um cachorro que pula com mandíbulas abertas em pedaços de pão ou carne que seu mestre atira a ele? Seja o que for que pegar, imediatamente engolirá tudo e sempre abre suas mandíbulas na esperança de algo mais, assim é com nós mesmos, ficamos expectantes, e tudo o que a Fortuna nos lança, abocanhamos imediatamente sem nenhum prazer real, e logo ficamos atentos e frenéticos por algo mais a arrebatar”. (LXXII, 8)

Sêneca diz que não é assim com o sábio; ele está satisfeito. Mesmo que lhe seja oferecido algo, ele simplesmente o aceita e o deixa de lado.

Imagem: Detalhe de David de Michelangelo.


LXXII. Sobre os negócios como inimigo da filosofia

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. O assunto sobre o qual você me pergunta já estava claro em minha mente, e não exigiu nenhum pensamento, tão completamente eu o tinha dominado. Mas não testei a minha memória por algum tempo, e, portanto, não o tinha de prontidão. Sinto que sofri o destino de um livro cujas páginas estão presas por desuso; minha mente precisa ser desenrolada, e tudo o que foi armazenado lá deve ser examinado de vez em quando, para que possa estar pronto para uso quando a ocasião exigir. Vamos, portanto, colocar este assunto para o presente; pois exige muito trabalho e muito cuidado. Assim que eu puder esperar permanecer por algum tempo no mesmo lugar, eu então tomarei sua pergunta à mão.
  2. Pois há certos assuntos sobre os quais você pode escrever, mesmo quando viaja em uma biga, e há também assuntos que precisam de uma cadeira de estudo, calma e reclusão. No entanto, eu deveria concluir algo mesmo em dias como estes, – dias que são totalmente empregados, e de fato de manhã até à noite. Pois nunca há um momento em que novas ocupações não surjam; nós as semeamos, e por esta razão várias germinam. Então, continuamos adiando nossos próprios casos, dizendo: “Assim que eu terminar com isso, eu estabelecerei um trabalho árduo”, ou: “Se eu conseguir colocar este assunto problemático em ordem, deverei dedicar-me ao estudo.”
  3. Mas o estudo da filosofia não deve ser adiado até que você tenha tempo livre; tudo o mais deve ser negligenciado para que possamos atender à filosofia, pois não há tempo suficiente para isso, mesmo que nossas vidas sejam prolongadas desde a infância até os limites extremos do tempo alocado ao homem. Faz pouca diferença se você abandona completamente a filosofia ou a estuda intermitentemente; porque ela não permanece como estava quando você a deixou, mas, porque sua continuidade foi quebrada, ela volta para a posição em que estava no início, como coisas que se despedaçam quando são tensionadas. Devemos resistir aos assuntos que ocupam nosso tempo; eles não devem ser desembaraçados, mas sim colocados fora do caminho. Na verdade, não há tempo que seja inadequado para estudos úteis; e ainda assim muitos homens falham em estudar em meio às circunstâncias que tornam necessário o estudo.
  4. Ele diz: “Algo acontecerá para me atrasar.” Não, não no caso do homem cujo espírito, não importa qual seja o seu negócio, está feliz e alerta. São aqueles que ainda estão aquém da perfeição cuja felicidade pode ser quebrada; a alegria de um homem sábio, por outro lado, é um tecido entrelaçado, quebrada por nenhum acontecimento casual e ou mudança de sorte; em todos os momentos e em todos os lugares ele está em paz. Pois a sua alegria não depende de nada externo e não busca nenhuma bênção do homem ou da fortuna. Sua felicidade é algo dentro de si mesmo; ele se afastaria de sua própria alma se ela tivesse vindo de fora; contudo ela nasce dentro.
  5. Às vezes, um acontecimento externo lembra sua mortalidade, mas é um golpe leve, e apenas roça a superfície de sua pele. Alguns problemas, repito, podem tocá-lo como um sopro de vento, mas esse Bem Supremo dele é inabalável. Isto é o que quero dizer: há desvantagens externas, como espinhas e furúnculos que irrompem sobre um corpo que é normalmente forte e sadio; mas não há uma doença profunda.
  6. A diferença, digamos, entre um homem de sabedoria perfeita e outro que está progredindo em sabedoria é a mesma diferença entre um homem saudável e um que está convalescente de uma doença grave e prolongada, para quem a “saúde” significa apenas um ataque mais leve de sua doença. Se este não toma cuidado, há uma recaída imediata e um retorno ao mesmo velho problema; mas o homem sábio não pode escorregar para trás, ou escorregar em qualquer doença. Pois a saúde do corpo é uma questão temporária que o médico não pode garantir, mesmo que tenha restaurado; e, muitas vezes, é retirado de sua cama para visitar o mesmo paciente que o convocou antes. A mente, entretanto, uma vez curada, é curada para sempre.
  7. Vou dizer-lhe o que quero dizer com saúde: se a mente está contente com seu próprio eu; se tiver confiança em si mesmo; se compreender que todas as coisas pelas quais os homens oram, todos os benefícios que são concedidos e pedidos, não são importantes em relação a uma vida de felicidade; Pois qualquer coisa que pode ser acrescida é imperfeita; qualquer coisa que possa sofrer perda não é duradoura; mas deixe o homem cuja felicidade é duradoura regozijar-se no que é verdadeiramente seu[1]. Agora tudo o que a multidão se embasbaca, mais tarde decai e escoa. A fortuna não nos dá nada que possamos realmente possuir. Mas mesmo esses presentes da Fortuna nos satisfazem quando a razão os tem temperado e misturado a nosso gosto; pois é a razão que nos torna aceitáveis até mesmo bens externos que são desagradáveis usar se os absorvemos com avidez.
  8. Átalo costumava empregar a seguinte analogia: “Você alguma vez já viu um cachorro que pula com mandíbulas abertas em pedaços de pão ou carne que seu mestre atira a ele? Seja o que for que pegar, imediatamente engolirá tudo e sempre abre suas mandíbulas na esperança de algo mais, assim é com nós mesmos, ficamos expectantes, e tudo o que a Fortuna nos lança, abocanhamos imediatamente sem nenhum prazer real, e logo ficamos atentos e frenéticos por algo mais a arrebatar”. Mas não é assim com o sábio; ele está satisfeito. Mesmo que lhe seja oferecido algo, ele simplesmente o aceita descuidadamente e o deixa de lado.
  9. A felicidade que ele desfruta é supremamente grande, é duradoura, é sua própria. Suponha que um homem tenha boas intenções e faça progressos, mas ainda esteja longe das alturas; o resultado é uma série de altos e baixos; ele agora é elevado ao céu, agora trazido à terra. Para aqueles que não têm experiência e treinamento, não há limite para o curso de decadência; tal cair no Caos de Epicuro[2], – vazio e ilimitado.
  10. Há ainda uma terceira classe de homens, aqueles que brincam com sabedoria, eles ainda não a tocaram, mas a têm a vista, e a têm, por assim dizer, a uma distância razoável. Eles não são precipitados, tampouco derrapam; eles não estão em terra firme, mas já estão no porto.
  11. Portanto, considerando a grande diferença entre as alturas e as profundezas, e vendo que mesmo aqueles no meio são perseguidos por um fluxo e refluxo peculiar ao seu estado e perseguido também por um enorme risco de retornar aos seus degenerados costumes, não devemos nos entregar a assuntos que ocupam nosso tempo. Eles devem ser excluídos; se uma vez ganharem entrada, eles trarão outros ainda para tomar seus lugares. Vamos resistir a eles em seus estágios iniciais. É melhor que eles nunca comecem do que tenham que ser eliminados.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Nossas vidas são meramente emprestadas para nós; A natureza retém o dominium. Compare também a figura frequente por Sêneca de que a vida é como uma pousada, em contraste com uma casa sobre a qual se é proprietário.

[2] O vazio (oco), ou espaço infinito, em contraste com os átomos que formam novos mundos em sucessão contínua.

Carta 69: Sobre estar quieto e Inquietação

Após as resenhas das Meditações de Marco Aurélio, voltamos com a análise das cartas de Sêneca.

Na Carta 69 volta a discussão o tempo de devemos dedicar ao estudo, o problema com mudanças constantes e as distrações causadas pela busca do prazer.

Vale lembrar da Carta 28, onde Sêneca questiona:

“Você pergunta por que tal fuga não o ajuda? É porque você foge acompanhado de você mesmo. Você deve deixar de lado os fardos da mente; até que você faça isso, nenhum lugar irá satisfazê-lo.” (XXVIII.2)

Diz que devemos aplicar o remédio da filosofia longamente, sem interrupção, mantendo a tranquilidade da alma.  Afirma que a mudança traz de volta anseios esquecidos, e que aquele que se afasta do mundo dos homens ocupados, não deve se colocar como alvo da tentação:

“Assim como aquele que tenta livrar-se de um amor antigo deve evitar todo lembrete da pessoa que antes era querida (pois nada cresce tão facilmente como o amor), da mesma forma, aquele que deixaria de lado o seu desejo por todas as coisas que costumava desejar tão apaixonadamente, deve afastar olhos e ouvidos dos objetos que abandonou.” (LXIX, 3)

Conclui a carta falando  da morte, e instiga Lucílio a não temê-la.

(Imagem Diógenes em busca de um homem honesto por Jacob Jordaens)


LXIX. Sobre estar quieto e Inquietação

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Eu não gosto que você mude sua sede e debande de um lugar a outro. Minhas razões são, primeiro, que tal emigração frequente signifique um espírito instável. E o espírito não pode, através do retiro, crescer em harmonia, a menos que tenha cessado sua curiosidade e suas andanças. Para ser capaz de manter seu espírito sob controle, você deve primeiro parar a fuga constante do corpo.
  2. A minha segunda razão é que os remédios que são mais úteis são aqueles que não são interrompidos. Você não deve permitir que sua tranquilidade, ou o esquecimento a que você consignou sua vida anterior, serem penetrados. Dê a seus olhos tempo para desaprender o que eles viram, e seus ouvidos para se acostumar a palavras mais saudáveis. Sempre que você se move ao exterior você encontrará, mesmo quando passa de um lugar para outro, coisas que trarão de volta seus anseios antigos.
  3. Assim como aquele que tenta livrar-se de um amor antigo deve evitar todo lembrete da pessoa que antes era querida (pois nada cresce tão facilmente como o amor), da mesma forma, aquele que deixaria de lado o seu desejo por todas as coisas que costumava desejar tão apaixonadamente, deve afastar olhos e ouvidos dos objetos que abandonou. As emoções logo retornam ao ataque;
  4. Em cada turno elas vão notar diante de seus olhos um objeto digno de sua atenção. Não há mal que não ofereça incentivos. A Avareza promete dinheiro; Luxúria, variado sortimento de prazeres; a Ambição, um manto roxo[1] e aplausos, e a influência que resulta dos aplausos, e tudo que essa influência pode fazer.
  5. Vícios o tentam pelas recompensas que oferecem; mas na vida de que falo, você deve viver sem ser pago. Dificilmente bastará uma vida inteira para subjugar nossos vícios e fazê-los aceitar o julgo, inchados por longas indulgências; e ainda menos, se golpearmos nosso breve intervalo por qualquer interrupção. Mesmo cuidado e atenção constantes dificilmente podem trazer uma empreitada a conclusão completa.
  6. Se você vai dar ouvidos ao meu conselho, pondere e pratique isso, – como acolher a morte, ou mesmo, se as circunstâncias recomendarem esse curso, convidá-la. Não há diferença se a morte vem a nós, ou se nós vamos à morte. Faça-se crer que todos os homens ignorantes estão errados quando dizem: “É uma coisa linda morrer a própria morte”[2]. Mas não há homem que não morra sua própria morte. E mais, você pode refletir sobre este pensamento: Ninguém morre exceto em seu próprio dia. Você está jogando fora nada de seu próprio tempo; porque o que você deixa para trás não pertence a você.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Símbolo de poder estatal,  cargo público relavante.

[2] Talvez a ideia inversa de “viver a própria vida”. Significa “morrer quando chega o devido tempo”, e é o argumento do homem comum contra o suicídio. Entretanto, talvez sugira o assunto da próxima carta.

Resenha: Meditações, Livro IV

Livro - meditacoes IV

No Livro 4, Marco Aurélio aborda o tipo de santuário que melhor sustenta o indivíduo . Ele alerta contra a vã acumulação de riqueza material. Em vez disso, ele sugere a prática da autodisciplina, criando ordem pessoal e tranquilidade a partir de dentro. A prática proporciona proteção contra a inveja, e lembra o homem de refrear o apetite pela fama, fortuna e louvor.

Segundo o imperador “Os homens buscam retiros para si mesmos, casas no campo, a beira-mar e nas montanhas … Mas está em seu poder sempre que você escolher se retirar em si mesmo”(§3), ou seja, em nenhum outro lugar há mais sossego ou mais liberdade dos problemas do que em sua própria alma. O livro IV pode ser resumido pelo parágrafo 7:

“O universo é transformação: a vida é opinião. Retire a sua opinião, e então é tirada a reclamação: ‘Fui prejudicado’. Tire a queixa: ‘fui ferido’, e o dano é tirado.” (IV,7)

Marco Aurélio também traz à tona o tema da comunidade política apoiada e sustentada pelos mesmos princípios racionais daqueles que sustentam um bom homem. O que é bom para o todo na ordenação do universo é bom para a sociedade e também é bom para o indivíduo. Não se pode ser um estranho ao universo e ao que ali se passa; agir desta forma é ser como um filósofo sem roupa.

Não só a vida é breve tanto para o “mendigo como para o rei”, diz Aurélio, mas seus eventos e acontecimentos (nascimento, doença, saúde, casamento, guerra, banquetes, etc.) são recorrentes e cíclicos. As mesmas coisas acontecem a todas as pessoas em suas vidas. A diferença está em como as contínuas mudanças de um estado para o outro (exemplificadas pelas mutações entre os elementos da terra, do ar, do fogo e da água) são percebidos. Uma pessoa enterra outra, assim como cidades inteiras, como Pompeia e Herculano, já foram enterradas. Não faz sentido, portanto, deixar que o medo da morte guie a vida.

O Livro 4 contém uma série de aforismos curtos. Por exemplo, Aurélio diz:

“Não faça como se você fosse viver dez mil anos. A morte paira sobre você. Enquanto vive, enquanto está em seu poder, seja bom.” (IV,17)

“Tudo é efêmero, tanto quem se lembra como o que é lembrado”. (IV,35)

“Você é uma pequena alma carregando um cadáver”(IV,41)

“Seja como o promontório contra o qual as ondas se quebram continuamente, contudo, ele permanece firme e doma a fúria da água que o circunda.”(IV,49)


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Resenha: Meditações, Livro III

No Livro III o foco está nos conceitos de Vida, Morte e Divindade.  Devemos fazer o certo não nos importar com riqueza, fama e opinião dos outros

“Hipócrates, depois de curar muitas doenças, ele próprio adoeceu e morreu… Alexandre e Pompeu, e Caio César, depois de tantas vezes destruírem completamente cidades inteiras,  eles também finalmente se retiraram da vida… Você embarcou, fez a viagem, veio à praia; saia. Se de fato há outra vida, não há falta de deuses, nem mesmo ali; mas se a um estado sem sensação, você deixará de ser dominado por dores e prazeres, e de ser um escravo do corpo, que é tão inferior quanto aquele que o serve é superior.” (III,3)

Marco Aurélio, assim como Epiteto, muitas vezes se refere a deuses, e contempla a possibilidade de que não há nenhum, que morremos e entramos em um estado “sem sensação”. E, no entanto, isso não muda as coisas na perspectiva estoica:

“Se você trabalhar naquilo que está diante de você, seguindo a razão correta com seriedade, vigor, calma, sem permitir que nada mais o distraia, mas mantendo sua alma pura, como se você fosse obrigado a devolvê-la imediatamente; se você não esperasse nada, nada temendo, mas satisfeito com sua atividade atual, segundo a natureza, e com a verdade absoluta em cada palavra e som que você proferir, você vai viver feliz. E não há nenhum homem que seja capaz de impedir isso.” (III,12)

Perto do final do Livro III vem outra citação popular:

“Curto é, pois, o tempo que cada homem vive; e pequeno é o canto da terra onde vive; e curta é também a mais longa fama póstuma, e mesmo isto só continuado por uma sucessão de humanos, que morrerão muito cedo, e que não conhecem sequer a si mesmos, e menos ainda aquele que morreu há muito tempo.” (III,10)

Ou seja, ele nos lembra, de uma perspectiva mais ampla: que a busca por riqueza e fama é ridícula e sem sentido. Marco Aurélio então nos lembra (bem, a si  mesmo, já que as meditações eram seu diário pessoal) de nunca comprometer o bem comum e o que é certo para obter elogios dos outros, poder ou prazer. Segundo ele, não devemos desejar “precisar de muros e cortinas:“, ou seja, desejar qualquer coisa de que nos envergonhemos em público.

“Então, o dever de um homem é permanecer em pé, não ser mantido em pé pelos outros.” (III,5)


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