Pensamento do dia #10: Sobre Viajar como cura para o descontentamento 1-2

Você está surpreso, como se fosse uma novidade, que depois de tão longa viagem e tantas mudanças de cena você não tenha sido capaz de se livrar da tristeza e do peso de sua mente? Você precisa de uma mudança de alma, em vez de uma mudança de clima.

Sócrates fez a mesma observação a alguém que se queixou; ele disse: “Por que você se admira que viajar o globo não o ajuda, visto que você sempre se leva consigo? A razão que o colocou a vagar está sempre em seu calcanhar.” Que prazer há em ver novas terras? Ou na inspeção de cidades e pontos de interesse? Toda a sua agitação é inútil. Você pergunta por que tal fuga não o ajuda? É porque você foge acompanhado de você mesmo. Você deve deixar de lado os fardos da mente; até que você faça isso, nenhum lugar irá satisfazê-lo.

(Sêneca, Carta XXVIII.  Sobre Viajar como cura para o descontentamento 1-2 ) (Imagem: Stoopendaal, mapa do Mundo)

Carta 5: Sobre a virtude do Filósofo

Sêneca explica o significado do lema “Viva de acordo com a Natureza” e recomenda um estilo de vida frugal e comedido , evitando avarice e luxos extremos. Fala sobre esperança e medo, apresentando uma relação surpreendente entre ambos.

Finalmente exorta a aproveitarmos o presente sem ansiedade pelo futuro ou atormentação pelo passado.

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Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Eu o elogio e me encho de contentamento pelo fato de você ser persistente em seus estudos, e que, colocando tudo de lado, você a cada dia se esforça para se tornar um homem melhor. Não me limito a exortá-lo a continuar; eu realmente imploro que você faça isso. Advirto-o, no entanto, para não agir de acordo com a moda daqueles que desejam ser notáveis em vez de melhorar, fazendo coisas que despertarão comentários sobre o seu vestido ou estilo geral de vida.
  2. Deve ser evitado trajes repulsivos, cabelos desgrenhados, barba desleixada, desprezo aberto ao uso de talheres e quaisquer outras formas pervertidas de auto exibição. O mero conceito de filosofia, ainda que silenciosamente perseguido, é objeto de suficiente desprezo; E o que aconteceria se começássemos a nos afastar dos costumes de nossos semelhantes? Internamente, devemos ser diferentes em todos os aspectos, mas nosso exterior deve estar em conformidade com a sociedade.
  3. Não se vista demasiadamente elegante, nem ainda demasiadamente desleixado. Não se precisa de peitoral de prata, incrustado e gravado em ouro maciço; mas não devemos acreditar que a falta de prata e ouro seja prova da vida simples. Procuremos manter um padrão de vida mais elevado do que o da multidão, mas não um padrão contrário; caso contrário, assustaremos e repeliremos as mesmas pessoas que estamos tentando melhorar. Temos que compreender que eles estão relutantes a nos imitar em qualquer coisa, porque eles têm medo de que eles sejam compelidos a imitar-nos em tudo.
  4. A primeira coisa que a filosofia se compromete a dar é o companheirismo entre todos os homens; em outras palavras, simpatia e sociabilidade. Nós nos diferenciamos se nós somos diferentes dos outros homens. Devemos velar para que os meios pelos quais desejamos atrair admiração não sejam absurdos e odiosos. Nosso lema, como você sabe, é “Viva de acordo com a Natureza[1]; mas é bastante contrário à natureza torturar o corpo, odiar a elegância espontânea, ser sujo de propósito, comer comida que não é somente simples, mas repugnante e desagradável.
  5. Assim como é um sinal de luxo procurar finas iguarias, é loucura evitar o que é habitual e pode ser comprado a preço razoável. Filosofia exige vida simples, mas não de penitência; e podemos perfeitamente ser simples e asseados ao mesmo tempo. Este é o meio de que eu sanciono; nossa vida deve se guiar entre os caminhos de um sábio e os caminhos do mundo em geral; todos os homens devem admirá-la, mas devem compreendê-la também.
  6. “Bem, então, agiremos como os outros homens? Não haverá distinção entre nós e o mundo?” Sim, muito grande; que os homens descubram que somos diferentes do rebanho comum, se olharem de perto. Se eles nos visitam em casa, eles devem nos admirar, ao invés de nossas mobílias. É um grande homem quem usa pratos de barro como se fossem de prata; mas é igualmente grande quem usa prataria como se de barro fosse. É o sinal de uma mente instável não poder tolerar riquezas.
  7. Mas desejo compartilhar com você o saldo positivo de hoje também. Encontro nos escritos de nosso Hecato[2] que a limitação dos desejos ajuda também a curar medos: “Deixe de ter esperança”, diz ele, “e deixará de temer”. Mas como, “você vai responder, “coisas tão diferentes podem ir lado a lado?” Deste modo, meu caro Lucílio: embora pareçam divergentes, contudo estão realmente unidas. Assim como a mesma cadeia prende o prisioneiro e o carcereiro que o guarda, assim a esperança e o medo, por mais dissimilares que sejam, caminham juntas; o medo segue a esperança.
  8. Não me surpreende que procedam dessa maneira; cada conceito pertence a uma mente que está incerta, uma mente que está preocupada aguardando com ansiedade o futuro. Mas a causa principal de ambos os males é que não nos adaptamos ao presente, mas enviamos nossos pensamentos a um futuro distante. E assim a previdência, a mais bela benção da raça humana, torna-se pervertida.
  9. Animais evitam os perigos que veem, e quando escapam estão livres de preocupação; mas nós homens nos atormentamos sobre o que há de vir, assim como sobre o que é passado. Muitas de nossas bênçãos trazem a nós desgraça; pois a memória recorda as torturas do medo, enquanto a antevisão as antecipa. O presente sozinho não faz nenhum homem infeliz.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Lema da escola estoica.

[2] Hecato de Rodes foi um filósofo estoico, discípulo de Panécio de Rodes.

(imagem: Entre Esperanaça e Medo – por Lawrence Alma-Tadema )

A filosofia do Estoicismo

Ao invés de imaginar uma sociedade ideal, o estoico tenta lidar com o mundo do jeito que é enquanto persegue autodesenvolvimento através de quatro virtudes cardinais:
  • Sabedoria prática, a habilidade de navegar situações complexas de forma lógica, informada e calma;
  • Temperança, o exercício de autorrestrição e moderação em todos os aspectos da vida;
  • Justiça, tratar outros justamente mesmo quando eles fizeram algo errado;
  • e Coragem, não só em circunstâncias extraordinárias, mas ao encararmos desafios diários com claridade e integridade.
  

Excelente resumo do estoicismo, apesar de falado somente em inglês as legendas em português estão bastante razoáveis:

Carta 1: Sobre aproveitar o tempo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Continue a agir assim, meu querido Lucílio – liberte-se por conta própria; poupe e salve o seu tempo, que até recentemente tem sido retirado a força de você, ou furtado, ou simplesmente escapado de suas mãos. Faça-se acreditar na verdade de minhas palavras, – que certos momentos são arrancados de nós, que alguns são removidos suavemente, e que outros fogem além de nosso alcance. O tipo mais desgraçado de perda, no entanto, é aquela, devida ao descuido. Ademais, se você prestar atenção ao problema, você verá que a maior parte de nossa vida passa enquanto estamos fazendo coisas desagradáveis, uma boa parte enquanto não estamos fazendo nada, e tudo isso enquanto estamos fazendo o que não se deveria fazer.
  2. Qual homem você pode me mostrar que coloque algum valor em seu tempo, que dá o devido valor a cada dia, que entende que está morrendo diariamente? Pois estamos equivocados quando pensamos que a morte é coisa do futuro; a maior parte da morte já passou. Quaisquer anos atrás de nós já estão nas mãos da morte. Portanto, Lucílio, faça como você me escreve que você está fazendo: mantenha cada hora ao seu alcance. Agarre a tarefa de hoje, e você não precisará depender tanto do amanhã. Enquanto estamos postergando, a vida corre.
  3. Nada, Lucílio, é nosso, exceto o tempo. A natureza nos deu o privilégio desta única coisa, tão fugaz e escorregadia que qualquer um pode esbulhar tal posse. Que tolos esses mortais são! Eles permitem que as coisas mais baratas e inúteis, que podem ser facilmente substituídas, sejam contabilizadas depois de terem sido adquiridas; mas nunca se consideram em dívida quando recebem parte dessa preciosa mercadoria, o tempo! E, no entanto, o tempo é o único empréstimo que nem o mais agradecido destinatário pode pagar.
  4. Você pode desejar saber como eu, que prego a você, estou praticando. Confesso francamente: meu saldo em conta corrente é como o esperado de alguém generoso mas cuidadoso. Não posso vangloriar-me de não desperdiçar nada, mas pelo menos posso lhe dizer o que estou desperdiçando, a causa e a maneira de desperdício; posso lhe dar as razões pelas quais sou um homem pobre. Minha situação, no entanto, é a mesma de muitos que são reduzidos a miséria sem culpa própria: todos os perdoam, mas ninguém vem em seu socorro.
  5. Qual é o estado das coisas, então? É isto: eu não considero um homem como pobre, se o pouco que lhe resta o é suficiente. Contudo, aconselho-o a preservar o que é realmente seu; e nunca é cedo demais para começar. Pois, como acreditavam os nossos antepassados, é demasiado tarde para gastarmos quando chegarmos à raspa do tacho. Daquilo que permanece no fundo, a quantidade é pouca, e a qualidade é vil.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.