Resenha: Tradução do Latim de Sobre a Brevidade da Vida

Professor Aldo Dinucci lançou recentemente sua nova tradução, direto do latim, de AD PAVLINVM, DE BREVITATE VITAE, Sobre a Brevidade da Vida de Sêneca.

Aldo resume os ensinamentos de forma brilhante e concisa:

1. A maioria dos mortais reclama da Natureza por ela supostamente nos ter dado uma vida breve. Entretanto, a vida humana só é breve se o tempo dado não for bem empregado.


2. Muitos clamam por ócio, mas não dão essa oportunidade a si próprios, pois vivem sobrecarregados em suas ocupações diárias. Sêneca oferece vários exemplos de homens célebres que ilustram esse fato, como César Augusto e Cícero.


3. Muitos dos que se dedicam ao ócio também tornam sua vida pior e mais curta por causa dele. Sêneca esclarece que ócio não é, como muitos pensavam e muitos mais pensam hoje, se dedicar aos prazeres excessivos, como embebedar-se em banquetes (uma preferência nacional romana, que corresponde de certa forma ao nossos churrascos) e consagrar sua vida ao sexo.


4. O ócio também não consiste em se consagrar a estudos estéreis, erudições vazias e pedantes. O verdadeiro ócio, consagrado ao estudo da filosofia, deve tornar melhor o humano e abrir-lhe as portas para o conhecimento das coisas do mundo e da Divindade que as governa.Sêneca, portanto, nos ensina a administrar e bem empregar nosso tempo. Ele nota que não temos ciência da importância de nosso tempo por ele, embora seja necessariamente limitado, nos parecer infinito, razão pela qual o desperdiçamos e deixamos que nos seja tomado por ocupações e preocupações inúteis e por pessoas que nada nos acrescentam. 


Disponível na Amazon:

Nossa tradução, do inglês:

Resenha: O estoicismo de Tchekhov: Enfermaria n°6

Enfermaria nº 6 é o conto mais famoso de Tchekhov. A história é ambientada em um hospital provincial e explora o conflito filosófico entre Ivan Dmitritch, um paciente, e Andrey Ragin, médico-chefe do hospital. Ivan denuncia a injustiça que vê em toda parte, enquanto o médico insiste em ignorar a injustiça e outros males; parcialmente como resultado desta forma de pensar, ele negligencia resolver as péssimas condições da ala psiquiátrica.

O conto pode ser visto como uma analogia ao comportamento humano, que, em vez de lidar com os problemas, opta por vê-los à distância e ignorá-los. É uma história de ideias sobre a vontade, ação e inação, e o lugar do indivíduo na sociedade. Gira em torno do principal dilema de Tchekhov – Será possível o progresso? Ou em milhares de anos apenas os aspectos superficiais da vida terão mudado, enquanto os instintos humanos básicos permanecerão os mesmos?

No conto, o paciente desafia o estoicismo do médico-chefe e abala os fundamentos de sua crença. O médico nunca sofreu, diz o paciente, e portanto suas convicções sobre os ciclos intermináveis e repetitivos da vida e da história só podem ser acadêmicas, teóricas e, portanto, sem sentido. O Dr. Ragin é eloquente em sua defesa do estoicismo:

A vida é uma armadilha vexatória; quando um homem pensante atinge a maturidade e atinge a plena consciência, não pode deixar de sentir que está em uma armadilha da qual não há como escapar. De fato, ele é convocado sem sua escolha por circunstâncias fortuitas de não-existência para a vida… Para quê? Ele tenta descobrir o significado e o objeto de sua existência … Se se considera que o objetivo da medicina consiste em aliviar a dor, surge a pergunta: Para quê aliviá-la? Em primeiro lugar, dizem que a dor leva o homem à perfeição e, em segundo, que se a humanidade aprender, efetivamente, a aliviar as suas dores com a ajuda de pílulas e remédios, abandonará por completo a religião e a filosofia, em que até agora encontrara não apenas defesa contra todos os males mas também a felicidade.” (Enfermaria nº 6, VI)

Toda escolha, diz Ragin, é uma não escolha – sem sentido em um mundo definido pelo nascimento casual e pela morte inevitável. Um quarto aconchegante junto a um fogo é igual a uma cela de prisão, ele justifica, porque a aleatoriedade que produziu ambos não tem nenhum significado ou valor inerente. O mundo externo não tem nenhum propósito, nenhum futuro e nenhum significado; e a única expressão válida da humanidade é a aceitação incondicional desta realidade. Há apenas duas qualidades admiráveis do homem – a busca da compreensão e o desprezo pela vaidade. “O homem verdadeiramente sábio não se surpreende com nada“, diz Ragin.

Dr. Ragin: — Você é um homem que sabe pensar. Em qualquer situação pode encontrar tranquilidade interior. O pensamento livre e profundo, que aspira a compreender a vida, e o desprezo total pela estúpida vaidade humana são os dois bens supremos que o homem conhece, e você pode possuí-los ainda que viva atrás de grades. Diógenes viveu num barril, mas, apesar disso, foi mais feliz que todos os reis da Terra.
Ivan Dmitritch: — Diógenes não precisava de um escritório e uma casa aquecida; a Grécia é um país quente; podia permanecer no seu tonel comendo laranjas e azeitonas. Mas se tivesse vivido na Rússia, já não digo em Dezembro, mas mesmo em Maio, teria pedido uma casa. Ficaria gelado.
Dr. Ragin:— Não. Uma pessoa pode ser insensível ao frio como a qualquer outra dor. Marco Aurélio diz: “Uma dor é uma ideia vívida de dor; faça um esforço de vontade para mudar essa ideia, rejeitá-la, parar de reclamar e a dor desaparecerá”. Isso é verdade. O homem sábio, ou simplesmente o homem reflexivo e pensativo, distingue-se precisamente por seu desprezo pelo sofrimento; está sempre contente e surpreso por nada.
(Enfermaria nº 6, IX)

O doente mental, a única pessoa inteligente em toda a cidade, mostra o cinismo e falhas do falso estoicismo do médico:

Ivan Dmitritch: — Os estoicos a que você se refere eram homens notáveis, mas a sua doutrina estagnou há dois mil anos e não avançou mais, nem avançará, porque não é praticado nem tem vida. Apenas obteve um certo êxito entre uma minoria que passa o seu tempo a estudar e a ruminar toda a espécie de doutrinas; a maior parte das pessoas não chegou a compreendê-la. Uma doutrina que preconiza a indiferença em relação às riquezas, às comodidades da vida, e o desdém pelos sofrimentos e a morte, é totalmente incompreensível para a imensa maioria, já que esta não conheceu nunca as riquezas nem as comodidades. E desprezar o sofrimento significaria para eles desprezar a própria vida, visto que o homem na sua essência é feito de sensações de fome, frio, desconsiderações, derrotas, e um medo perante a morte à semelhança de Hamlet. Nestas sensações está encerrada a vida inteira: pode cansar-nos, podemos odiá-la, mas não desprezá-la. Assim, portanto, repito: a doutrina dos estoicos nunca poderá ter futuro. Pelo contrário, aquilo que progride, conforme pode observar, desde o princípio do mundo até ao dia de hoje, é a luta, a sensibilidade perante a dor, a capacidade de responder às excitações…
(Enfermaria nº 6, X)

Fazer vista grossa ao sofrimento com base em sua perpetuidade é de alguma forma errado ou mesmo imoral? Será que o sofrimento nega automaticamente a teoria filosófica? Se Ragin chora quando seu dedo é preso em uma porta, isso significa que ele tem instintivamente, e por isso corretamente, descartado o estoicismo?

O progressivo e inevitável declínio do Dr. Ragin é doloroso de se observar. Quando o próprio médico é lá internado, ele percebe a falácia de sua filosofia e, tarde demais, entende que o mal deve ser enfrentado. O livro, como a instituição em que é ambientado, é frio, insensível e hostil. Somente as idéias e o debate entre Dr. Ragin e Ivan Dmitrich têm vida.

Livro Disponível nas lojas: Amazon, Kobo, Apple e GooglePlay.

Resenha: Sobre a Constância de Justo Lípsio

Nascemos sob um reinado e obedecer a Deus é liberdade

Justo Lípsio ( 1547 – 1606 d.C), foi filólogo e humanista flamengo considerado um dos eruditos mais famosos do século XVI. Autor de uma série de obras que pretendiam recuperar a antiga corrente filosófica do estoicismo num formato compatível com o cristianismo tomando como modelo de partida a obra Sêneca.  Viveu, toda sua vida, em meio a Guerra dos 80 anos  (1568 a 1648). Na época os Países Baixos pertenciam ao Império Espanhol. Altos impostos, desemprego e a perseguição católica contra os calvinistas criaram uma perigosa oposição e revolta liberal. Nascido em família católica, troca de lado, aliando-se aos calvinistas, para depois retornar à fé católica.

Em Sobre a Constância Justo Lípsio aconselha a busca de um estado de espírito reto e inabalável, baseado em uma firmeza interior (constância), que emana, não de mera opinião, mas de julgamento e razão justos.

Lípsio se concentra no valor do estoicismo para fortalecimento da mente contra problemas e ansiedades externas. Em uma época de disputas e perseguições religiosas, Lípsio pretendia que o livro fosse tanto um consolo quanto uma solução para as calamidades que ele e seus contemporâneos estavam sofrendo. O resultado é um manual para a vida prática e, como tal, está mais focado em regras morais do que em argumentos filosóficos rigorosos. O tema central do livro é a necessidade de cultivar a resistência voluntária e inflexível para todas as circunstâncias humanas.

O livro é escrito na forma de um diálogo entre Lípsio e seu velho amigo Carlos Langhe, no texto lançado no papel de um sábio estoico que havia conseguido o domínio sobre suas emoções pela razão.

O jovem Lípsio começou seu estudo de Sêneca, bem como o de Tácito, durante a época que morou em Roma, em 1569. Foi seu professor Marc-Antoine Muret quem primeiro estimulou seu interesse em Sêneca e no estoicismo romano, dando origem a uma obsessão vitalícia que alternaria entre filologia e filosofia. O interesse filosófico de Lípsio pelo estoicismo romano levou à publicação de seu diálogo baseado em Sêneca de grande sucesso, estabelecido em meio às violentas lutas religiosas e políticas da Holanda, De constantia in publicis malis (“Sobre a Constância em Tempos de Calamidade Pública”). Esta foi sua primeira tentativa de combinar estoicismo e cristianismo a fim de criar uma nova filosofia que ajudaria os indivíduos a viver o difícil período de guerras civis e religiosas que estavam dilacerando o norte da Europa.

Um olhar mais atento ao primeiro trabalho neo-estoico de Lípsio revela que de constantia era o manifesto de um humanista que estava convencido de ter encontrado na filosofia de Sêneca tanto um consolo quanto uma solução para as calamidades públicas que ele e seus contemporâneos estavam suportando.

Do livro A Vida Feliz de Sêneca, Lípsio toma o lema: “Nascemos sob um reinado e obedecer a Deus é liberdade( I.14). Depois de definir Deus, providência e destino, ele chega à necessidade (necessitas), a conclusão lógica de sua mútua cooperação: tudo que é governado pelo destino acontece por necessidade (I.19). O exemplo mais óbvio desta necessidade natural é a decadência e destruição de todas as coisas temporais (I.15-16).

Embora consolando seus leitores, Lípsio não nega a arrogância do poder, as atrocidades da história ou a crueldade de tiranos e imperadores. No entanto, ele tenta encorajar seus leitores a adotar uma atitude de constância, listando uma longa série de divinae clades (desastres aprovados por Deus): exemplos horríveis da história destinados a ilustrar a utilidade do castigo divino e a demonstrar que males como terremotos, pestilência, guerra e tirania fazem parte da condição humana – na verdade,  do plano de Deus para a preservação e melhoria do mundo como um todo. Além disso, argumenta ele, os males do tempo presente não são particularmente graves nem piores do que os que existiam no passado: “Pois como o trabalho dividido entre muitos é fácil: do mesmo modo, também é com a tristeza” (II.26).

Espera-se, portanto, que o homem verdadeiramente sábio aceite a lei da necessidade com firmeza e fortaleza mental, ao mesmo tempo em que perceba que o homem é uma sombra e um sonho” (I,17), ele deve mostrar desprezo pelo curso dos acontecimentos humanos cultivando constância: “a razão correta como sendo um verdadeiro sentido e julgamento das coisas humanas e divinas (I.4). A mãe desta constância é a paciência, que é governada pela razão. A razão – ao contrário das falsas opiniões – não é nada mais que um verdadeiro julgamento sobre as coisas humanas e divinas. É esta transformação interior –  baseada nos princípios estoicos essenciais da razão, coragem, justiça e sujeição à vontade de Deus – que torna possível viver feliz em meio à inevitável decadência e agitação do mundo.

Assim, “envoltos pela névoa e pelas nuvens da opinião” (I.2), nunca devemos parar de tentar dominar, pela razão, nossas paixões e emoções (adfectus) – desejo, alegria, medo e dor (cupiditas, gaudium, metus e dolor) – e nossas falsas opiniões. As emoções não apenas perturbam o equilíbrio da alma e impedem a constância, elas são falsas e perigosas, pois podem perturbar o desapego necessário ao homem sábio. Consequentemente, é necessário “acirrar nossa mente e temperá-la de modo que possamos alcançar a paz em meio à agitação e a tranquilidade em meio ao conflito (I.1). Se a razão, a governante legítima de nossa mente, puder vencer nossas paixões e falsas opiniões, poderemos enfrentar o mal público e privado com verdadeira constância. Devido a três emoções, porém – engano, patriotismo, e piedade pelos infortúnios dos outros – todos nós carregamos a guerra dentro de nós mesmos. Pior ainda, o que nos parece ser uma virtude é na verdade um vício, pois pensar que sofremos por causa do sofrimento de nosso país nos faz sofrer por nós mesmos e por nossa propriedade, enquanto a pena pelo sofrimento dos outros é indigna em um homem sábio. Devemos, portanto, obedecer à prescrição estoica para extirpar todas essas emoções nocivas.

O diálogo entre Lípsio e seu velho amigo Langhe –  lançado no papel de um sábio estoico que havia conseguido o domínio sobre suas emoções pela razão – tem claramente o objetivo de proporcionar aos leitores algo mais simples do que a filosofia contemporânea, que Lípsio criticava por sua sutileza excessiva, e de estabelecer a constância como principal virtude. O Sobre a Constância de Lípsio tem assim um foco diferente do tratado de Sêneca De constantia sapientis (“Sobre a Constância do Sábio“), no qual foi ostensivamente modelado; pois nos capítulos 1a 12 do Livro I Lípsio apresenta a virtude da constância como um remédio para o tumulto dos tempos e exorta os leitores a se distanciarem completamente de todos os sentimentos que poderiam levar a qualquer tipo de envolvimento emocional nas guerras políticas e religiosas que os rodeavam.

No entanto, ele não aconselhou o abandono dos assuntos públicos e a retirada para a vida privada. Estoicos e cristãos eram cosmopolitas, cuja verdadeira pátria era o céu. Eles deveriam ser bons cidadãos para serem bons homens, “executará mais em obras do que em palavras: e estenderá sua mão aos pobres e necessitados, em vez de sua língua. (1.12) e, como tal, render-se ao plano de Deus para a humanidade e ao imutável poder da providência.

Lípsio reformula a apatheia estoica como um antídoto adequado às paixões religiosas e políticas de sua época e transforma a Fortuna estoica na providência divina cristã (ficando o destino subordinado a Deus em vez do contrário).

Embora o livro Sobre a Constância não fosse o tratamento mais sistemático ou teórico da ética estoica de Lípsio, mas sim um texto de filosofia prática, um manual para uma vida sábia, este adquiriu uma posição de destaque no pensamento europeu. Tendo mais de oitenta edições entre os séculos XVI e XVIII, sendo mais de quarenta no latim original e o restante em traduções para uma ampla gama de línguas europeias. O tratado, que incorpora elementos do calvinismo militante juntamente com argumentos sobre o livre arbítrio utilizado pelos jesuítas, tornou-se patrimônio cultural universal durante o período barroco, influenciando a erudição, a poesia e a arte até o Iluminismo.

Resenha: Estoicismo aplicado aos investimentos de Jean Tosetto

Jean Tosetto, em parceria com a Suno Research, lançou esta semana o livro Estoicismo aplicado aos investimentos no qual defende que a ataraxia, estado mental emulado pelos estoicos, beneficia investidores cientes de que a prosperidade vai além do progresso material, lhes provendo maior controle sobre as emoções para lidar com os riscos inerentes da renda variável.

O livro, na verdade um longo artigo, é muito bem escrito e trata um assunto importante sem cair na falha, tão comum atualmente, de confundir o estoicismo como uma “auto ajuda para ficar rico rápido”. Aborda as razões para estudar as finanças e os estoicos, a relação entre o processo de investimento e as emoções e os benefícios do estoicismo para os investidores, sem nunca descuidar do principal ponto, que o dinheiro não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta que pode ser útil para o desenvolvimento pessoal e para se entregar algo de bom para a sociedade.

Trechos:

  • Numa sociedade que cada vez mais estabelece estereótipos para os indivíduos, ao invés de tentar compreender suas idiossincrasias, é comum retratarem estudantes de filosofia como avessos aos assuntos financeiros, ao passo que entusiastas dos investimentos são vistos como pessoas egocêntricas, sem interesse por assuntos fora da esfera monetária – o que é um erro conceitual.
  • Podemos não concordar com alguns aspectos desumanizantes do capitalismo, mas devemos tomar ações para nos proteger das consequências que atingem quem ignora as regras do dinheiro, do qual muitas pessoas são escravas e não donas provisórias. Como poucas coisas no mundo estão mais associadas às emoções do que o dinheiro, estudar filosofia estoica para adquirir autoconhecimento e para controlar minimamente as emoções, se mostra uma atitude bastante sensata.
  • Adotar um comportamento estoico visando apenas o enriquecimento monetário seria um autoengano emocionalmente custoso quando a essência do indivíduo se sobressaísse. Ao contrário, é a prática dos investimentos que pode servir de apoio para um sujeito se desenvolver pessoalmente, através do autoconhecimento patrocinado por uma condição financeira estável e livre das dívidas que escravizam as pessoas.
  • Um estudante de filosofia estoica não deve ser avesso ao capitalismo, mas transitar por ele de modo a extrair de seus mecanismos de criação de riqueza a manifestação de algo bom para a sociedade de sua época.

O pensamento de Jean está em linha com os grandes mestres do estoicismo. Sêneca no livro A Vida Feliz  aborda a relação do dinheiro e virtude:

Ninguém condenou a sabedoria à pobreza. O filósofo pode possuir ampla riqueza, mas não possuirá riqueza que tenha sido arrancada de outro, ou que esteja manchada com o sangue de outra pessoa: ela deve ser obtida sem prejudicar qualquer homem e sem que ela seja obtida por meios vis; deve ser honrosamente acessível e honrosamente gasta.” (XXIII,1)

Se as minhas riquezas me deixarem, não levarão consigo nada além de si mesmas: já vocês ficarão desnorteadas e parecerão ficar fora de si se as perderem: comigo as riquezas ocupam um certo lugar, mas com você elas ocupam lugar mais alto de todos. Em suma, minhas riquezas pertencem a mim, você pertence às suas riquezas.” (XXII, 5)

O Autor palestrou sobre o tema na Stoicon X-Aracaju, evento de filosofia organizado pelo GT Epicteto e pelo grupo Viva Vox, sob a supervisão do Professor Doutor Aldo Dinucci, da Universidade Federal de Sergipe.

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Stoicon-X: Boécio e Justo Lípsio – Conciliando estoicismo e religião

Neste sábado, 20 de novembro acontece o Stoicon-X Aracaju. Irei falar brevemente sobre estoicismo e religião, focando na obra de Boécio e Justo Lípsio.

Boécio (480 a 524 d.C.) foi um filósofo, poeta, estadista e teólogo romano, cujas obras tiveram uma profunda influência na filosofia Patrística e Escolástica. Sua principal obra A Consolação da Filosofia foi escrita na prisão à espera da morte. Trata-se de uma obra-prima da literatura e do pensamento europeu; ela se basta, e teria o mesmo valor se ignorássemos tudo a respeito daquele que a concebeu entre duas sessões de tortura, à espera de sua execução. Contudo, a história pessoal do autor é bem conhecida. Ele foi um homem cuja fortuna se elevou ao mais alto nível possível; mas que experimentou o colapso total dessa fortuna, ficando conhecido por ter se mantido firme na prisão até mesmo sob tortura.

Justus Lipsius ( 1547 – 1606 d.C) foi um filólogo e humanista flamengo considerado um dos eruditos mais famosos do século XVI. Foi autor de uma série de obras que pretendiam recuperar a antiga corrente filosófica do estoicismo num formato compatível com o cristianismo tomando como modelo de partida a obra Sêneca. A mais importante dessas obras foi Sobre a constância. Sua nova forma de estoicismo influenciou grande número de seus contemporâneos intelectuais dando lugar ao movimento conhecido como neoestoicismo.

INSCRIÇÕES GRÁTIS para o Stoicon-X  AQUI

Livros:


Carnuntum 2021: Festival da antiguidade tardia

A 60km de Viena estão as ruínas da antiga cidade romana de Carnuntum. Lá o imperador Marco Aurélio escreveu o segundo livro suas meditações.

Reconstruíram uma parte das ruínas, para mostrar como eram as construções da época. Semana passada houve uma encenação do cotidiano da época do fim do império Romano. Para aqueles que tiverem oportunidade de vir a Viena, vale muito a pena uma visita.

Abaixo texto completo das Meditações de Marco Aurélio escrito na cidade.

Gosto especialmente do trecho sobre autoconhecimento:

O fracasso em observar o que está na mente de outro raramente fez um homem infeliz; mas aqueles que não observam os movimentos de suas próprias mentes devem ser necessariamente infelizes.

——

LIVRO II

1. Comece a manhã dizendo a si mesmo, eu me encontrarei com o intrometido, o ingrato, arrogante, enganador, invejoso, anti-social. Tudo isso acontece com eles por causa de sua ignorância do que é bom e mau. Mas eu, que vi a natureza do bem que é belo, e do mal que é feio, e a natureza do que é maligno, que é semelhante a mim; não [só] do mesmo sangue ou semente, mas que participa da [mesma] inteligência e [mesma] parte da divindade, não posso ser ferido por nenhum deles, pois ninguém pode prender em mim o mal, nem posso ficar bravo com meu próximo, nem o odiar. Porque somos feitos para a cooperação, assim como pés, como mãos, como pálpebras, como as linhas dos dentes superiores e inferiores[1]. Agir uns contra os outros, portanto, é contrário à natureza; e agir uns contra os outros é importunar-se e desviar-se.

2. O que quer que eu seja, eu sou um pouco de carne, sopro de vida[2] e a parte que reina. Jogue fora os seus livros; não se distraia mais; isso não é permitido; mas, como se estivesse agora morrendo, despreze a carne; é sangue, ossos e tecido, uma conjuntura de nervos, veias e artérias. Veja também o sopro, que tipo de coisa é; ar, e nem sempre o mesmo, mas cada momento emitido e novamente aspirado. O terceiro, então, é a parte que rege; considere assim: Você é um homem de idade; não mais deixe que isso seja escravizador, não mais seja puxado pelas linhas como um fantoche para movimentos anti-sociais, não fique mais insatisfeito com sua sorte atual, ou hesite com o futuro.

3. Tudo o que vem dos deuses está cheio de providência. O que é da fortuna não está separado da natureza ou sem interligação e inflexão com as coisas que são ordenadas pela providência. De lá todas as coisas fluem; e há além da necessidade, e aquilo que é para a vantagem de todo o universo, do qual você é uma parte. Mas isso é bom para cada parte da natureza que a natureza do todo traz, e o que serve para sustentar esta natureza. Agora o universo é preservado, assim como pelas mudanças dos elementos, assim como pelas mudanças das coisas compostas dos elementos. Que estes princípios sejam suficientes para você; que sejam sempre opiniões firmes. Mas rejeite a sede dos livros, para que não morra murmurando, mas alegremente, verdadeiramente, e de coração seja grato aos deuses.

4. Lembre-se de quanto tempo você tem postergado estas coisas, e quantas vezes você tem recebido uma oportunidade dos deuses, e ainda assim não a tem usado. Você deve agora finalmente perceber de que universo você é uma parte, e de que mestre do universo sua existência é um efluxo, e que um limite de tempo foi fixado para você, que se você não o usar para limpar as nuvens de seu espírito, ele vai, e você vai, e ele nunca mais voltará.

5. Cada momento pense firmemente como um romano e homem para fazer o que você tem em mãos com perfeita e simples dignidade, e sentimento de afeto, e liberdade, e justiça, e para dar a si mesmo o descanso de todos os outros pensamentos. E você se aliviará se fizer cada ato de sua vida como se fosse o último, deixando de lado todo descuido e aversão passional aos mandamentos da razão, e toda hipocrisia, egoismo e insatisfação com a parte que foi dada a você. Você vê quão poucas são as coisas às quais um homem precisa seguir para ser capaz de viver uma vida que flui em tranquilidade como a dos deuses; pois os deuses por sua parte não exigirão nada mais daquele que observa essas coisas.

6. Faça mal a você mesma, faz mal a você mesma, minha alma, mas não terá mais a oportunidade de honrar-se a si mesma[3]. A vida de cada homem é suficiente.  † Mas a sua está quase terminada, embora a sua alma não reverencie a si mesma, mas coloque a sua felicidade nas almas dos outros.

7. As coisas externas que recaem sobre você o distraem? Dê a si mesmo tempo para aprender algo novo e bom, e deixe de ser rodopiado como um pião. Mas então você também deve evitar ser levado para o outro lado; pois esses também são insignificantes que se cansaram na vida pela sua atividade, e ainda não têm nenhum objeto ao qual dirigir cada um dos seus passos, e, em uma palavra, todos os seus pensamentos.

8. O fracasso em observar o que está na mente de outro raramente fez um homem infeliz; mas aqueles que não observam os movimentos de suas próprias mentes devem ser necessariamente infelizes.

9. Isto você deve sempre ter em mente, qual é a natureza do todo, e qual é a minha natureza, e como isto está relacionado com aquilo, e que tipo de parte é de que tipo de todo, e que não há ninguém que o impeça de sempre fazer e dizer as coisas que são de acordo com a natureza da qual você é uma parte.

10. Teofrasto[4], em sua comparação de maus feitos —  uma comparação como se faria de acordo com as noções comuns da humanidade —  diz, como um verdadeiro filósofo, que as ofensas que são cometidas pelo desejo são mais culpáveis do que aquelas que são cometidas pela ira. Pois aquele que se excita com a ira parece afastar-se da razão com uma certa dor e contração inconsciente; mas aquele que ofende pelo prazer, sendo dominado pelo prazer, parece estar de uma maneira mais desmedida e mais feminina em suas ofensas. Com razão, então, e de uma forma digna de filosofia, ele disse que a ofensa que é cometida por prazer é mais censurável do que aquela que é cometida pela dor, e no conjunto, uma é mais como uma pessoa que foi injustiçada primeiro e através da dor é compelida a ficar irritada, mas a outra é movida pelo seu próprio impulso de fazer o mal, sendo levada a fazer algo pelo prazer.

11. Uma vez que é possível que se retire da vida neste exato momento[5], controle todos os atos e pensamentos em concordância[6]. Mas sair do meio dos homens, se há deuses, não é uma coisa a temer, pois os deuses não o envolverão no mal; mas se realmente não existem, ou se eles não têm preocupação com assuntos humanos, o que é para mim viver em um universo sem deuses ou sem providência? Mas na verdade eles existem, e eles se importam com as coisas humanas, e eles puseram todos os recursos ao alcance do homem para capacitá-lo a não cair em males reais. E, quanto ao resto, se existisse algo de mal, eles teriam providenciado para que isso também estivesse totalmente no poder de um homem de não cair nele. Agora, o que não torna um homem pior, como pode piorar a vida de um homem? Mas nem por ignorância, nem tendo o conhecimento, mas não o poder de proteger contra ou corrigir essas coisas, é possível que a natureza do universo tenha negligenciado essas coisas, nem é possível que ela tenha cometido um erro tão grande, seja por falta de poder ou falta de habilidade, que o bem e o mal devem ocorrer indiscriminadamente para o bom e o mau. Mas a morte certamente, e a vida, a honra e a desonra, a dor e o prazer, todas essas coisas acontecem igualmente aos homens bons e maus, sendo coisas que não nos tornam nem melhores nem piores. Portanto, não são nem boas nem ruins.

12. Quão rapidamente todas as coisas desaparecem, no universo os próprios corpos, mas com o tempo a lembrança deles. Qual é a natureza de todas as coisas sensatas, e particularmente aquelas que atraem com a sedução do prazer ou aterrorizam pela dor, ou são apregoadas pela fama vaporosa; quão sem valor, e desprezíveis, e sórdidas, e perecíveis, e mortas elas estão, tudo isso é parte da faculdade intelectual de observação. Observe também de quem são essas opiniões e vozes, o que é a morte, e o fato de que, se o ser humano olhar para ela em si mesmo, e pela força abstrata da reflexão determinar em suas partes todas as coisas que nela se apresentam à imaginação, então a considerará como nada mais que uma atividade da natureza; e se alguém tiver medo de uma atividade da natureza, será uma criança. No entanto, essa não é apenas uma atividade da natureza, mas é também uma coisa que conduz aos propósitos da natureza. Observe também como o homem se aproxima da Divindade…[7]

13. Nada é mais miserável do que um homem que atravessa tudo em círculos e se empenha nas coisas debaixo da terra, como diz o poeta[8], e procura por conjectura o que está na mente de seus semelhantes, sem perceber que basta cuidar do daemon[9] dentro dele, e reverenciá-lo sinceramente. E a reverência do daemon consiste em mantê-lo livre de paixão e inconsciência, e de insatisfação com o que vem dos deuses e dos homens. Pois as coisas dos deuses merecem veneração por sua excelência; e as coisas dos homens devem ser-nos queridas em razão do parentesco; e às vezes até, de certo modo, elas despertam nossa piedade em razão da ignorância dos homens do bem e do mal; sendo este defeito não menos do que a cegueira que nos priva do poder de distinguir as coisas brancas e negras.

14. Ainda que você vá viver três mil anos, e tantas vezes dez mil anos, lembre-se ainda que nenhum homem perde outra vida além da que agora vive, nem outra vida além da que agora perde. O mais longo e o mais curto são assim levados ao mesmo. Porque o presente é o mesmo para todos, embora o que perece não seja o mesmo; e assim o que está perdido parece ser um mero momento. Pois um homem não pode perder nem o passado nem o futuro: pois aquilo que um homem não tem, como pode alguém tirar-lho? Estas duas coisas, então, você deve ter em mente: a primeira, que todas as coisas desde a eternidade são de semelhantes formas e vêm em círculos, e que não faz diferença se um homem deve ver as mesmas coisas durante cem anos, ou duzentos, ou um tempo infinito; e a segunda, que o que tem maior longevidade e aquele que vai morrer logo perderão exatamente a mesma coisa. Porque o presente é a única coisa de que um homem pode ser privado, se é verdade que isto é a única coisa […].

15. Lembre-se que tudo é opinião. Pois o que foi dito pelo cínico Mônimo[10] é evidente: e também evidente é a utilidade do que foi dito, se um homem se apropria do essencial.

16. A alma do homem comete atos de violência contra si mesma, antes de mais nada, quando se torna um tumor e, por assim dizer, uma excrescência no universo. Pois ser incomodado com tudo o que acontece é uma dissociação de nós mesmos da natureza, em alguma parte da qual estão contidas as naturezas de todas as outras coisas. Em segundo lugar, a alma violenta-se a si mesma quando se afasta de qualquer ser humano, ou mesmo se dirige a ele com a intenção de ferir, como o são as almas dos que se enfurecem. Em terceiro lugar, a alma comete violência a si mesma quando é dominada pelo prazer ou pela dor. Em quarto lugar, quando ela desempenha um papel, e faz ou diz qualquer coisa dissimulada e indisciplinada. Em quinto lugar, quando permite que qualquer ato próprio e qualquer ação seja sem finalidade, e faz qualquer coisa sem pensar e sem considerar o que é, sendo certo que mesmo as menores coisas sejam feitas com referência a um fim; e a finalidade das criaturas racionais é seguir a razão e a lei mais venerada.

17. Da vida humana o tempo é um ponto, e a substância está em fluxo, e a percepção difícil, e a composição do corpo como um todo sujeita à putrefação, e a alma um turbilhão, e a fortuna difícil de ser revelada, e a fama uma coisa sem discernimento. E, para dizer tudo em uma palavra, tudo o que pertence ao corpo é uma torrente, e o que pertence à alma é um sonho e um vapor, e a vida é uma guerra e uma viagem ao estrangeiro, e depois da fama está o esquecimento. O que é então aquilo que é capaz de conduzir um homem? Uma coisa, e só uma, é a filosofia. Mas isto consiste em manter o daemon, dentro de um homem livre de violência e ileso, superior às dores e prazeres, não fazendo nada sem um propósito, nem ainda falsamente e com hipocrisia, não sentindo a necessidade de outro homem fazer ou não fazer nada; e além disso, aceitando tudo o que acontece, e tudo o que lhe é atribuído, como vindo de lá, de onde quer que esteja, de onde ele mesmo veio; e, finalmente, esperando a morte com uma mente alegre, como sendo nada mais que uma dissolução dos elementos de que todo ser vivo é composto. Mas, se não há malefício para os próprios elementos em cada um deles, que se transformam continuamente em outros, por que haveria o ser humano de ter qualquer receio da mudança e da dissolução de todos os elementos? Pois isso está de acordo com a natureza, e nada existe de mal que esteja de acordo com a natureza.

Isso foi escrito em Carnuntum[11].


[1] Xenofonte, Memorabilia. Livro II. 3, 18

[2] Pneuma: na filosofia estoica é o conceito de “sopro de vida”, uma mistura dos elementos ar (em movimento) e fogo (como calor).

[3] Talvez devesse ser: “Estás a fazer violência a ti mesmo“. ὑβρίζείς

[4]Teofrasto (Eresos, 372 a.C. — 287 a.C.) foi um filósofo da Grécia Antiga, sucessor de Aristóteles na escola peripatética. Era oriundo de Eressos, em Lesbos, seu nome original era Tirtamo, mas ficou conhecido pela alcunha de ‘Teofrasto’, que lhe foi dada por Aristóteles, segundo se diz, para indicar as qualidades de orador.

[5]Ou pode significar, “uma vez que está em seu poder partir;” o que dá um significado um pouco diferente.

[6]Ver Cícero, Discussões Tusculanas, I, 49.

[7]Trecho não disponível.  Ver também Livro VI. 28.

[8]Píndaro também conhecido como Píndaro de Cinoscefale ou Píndaro de Beozia, foi um poeta grego, autor de Epinícios ou Odes Triunfais.  Veja em Teeteto de Platão, XI,1.

[9]Daemon (em grego δαίμων, transliteração daímôn)  tradução “divindade”, “espírito”, no plural daemones. A palavra daímôn se originou com os gregos na Antiguidade; no entanto, ao longo da História, surgiram diversas descrições para esses seres. O nome em latim é daemon, que veio a dar o vocábulo em português demônio. A palavra grega que designa o fenômeno da felicidade é Eudaimonia (εὐδαιμονία). Ser feliz para os gregos é viver sob a influência de um bom daemon. Assim é a forma como Sócrates se refere a seu daemon.

[10] Mônimo de Siracusa foi um filósofo cínico de Siracusa. De acordo com Diógenes Laércio, Mônimo foi escravo de um cambista de coríntio. A fim de que pudesse se tornar um aluno de Diógenes, Mônimo fingiu ter enlouquecido e começou a atirar dinheiro para a rua até que seu senhor o descartou.

[11] Carnuntum era uma cidade de Panónia, no lado sul do Danúbio, a cerca de trinta milhas a leste de Vindobona (atual Viena).

Resenha: A Consolação da Filosofia

Oh, Fortuna, deusa cega e negligente, estou preso à sua roda –não me esmague entre suas trevas. Eleve-me bem alto, ó deusa!” — arrotou Ignatius.

Apesar de estudar e traduzir filosofia estoica, meu interesse pela A Consolação da Filosofia surgiu da leitura do incrível romance “Uma Confraria de Tolos” de John Kennedy Toole, onde o texto de Boécio, bem como as deusas Fortuna e Filosofia, são protagonistas centrais.

O personagem principal do romance, Ignatius Reilly, é um trintão obeso, glutão, flatulento e mal-humorado, que mora com a mãe e vive amaldiçoando o mundo moderno. Ignatius é um anti-herói, deslocado do mundo e nascido na época errada, que se considera sempre perseguido por uma “confraria de tolos”. Trata-se de um misto de Dom Quixote gordo com Tomás de Aquino teimoso, que tem como Boécio seu conselheiro e companheiro de sofrimento.

Toole resume de forma concisa e precisa a obra de Boécio:

Ignatius acreditava na roda da Fortuna, o conceito central de De consolatione philosophiae, tratado filosófico que lançou os fundamentos do pensamento medieval. Boécio, que nos estertores do Império Romano escrevera a Consolatione durante sua injusta passagem pela prisão a mando do imperador, dissera que uma divindade cega nos prega a uma roda, e que nossa sorte obedece a ciclos. … O livro nos ensina a aceitar o que não podemos mudar. Descreve a luta do homem honesto numa sociedade desonesta. É a base do pensamento medieval.

Vamos então à nossa análise.

A Consolação da Filosofia foi escrita na prisão por um condenado à morte. A admiração que esse texto suscitou deve muito pouco às circunstâncias trágicas de sua composição. Trata-se de uma obra-prima da literatura e do pensamento europeu; ela se basta, e teria o mesmo valor se ignorássemos tudo a respeito daquele que a concebeu entre duas sessões de tortura, à espera de sua execução. Contudo, a história pessoal do autor é bem conhecida. Ele foi um homem cuja fortuna se elevou ao mais alto nível possível; mas que experimentou o colapso total dessa fortuna, ficando conhecido por ter se mantido firme na prisão até mesmo sob tortura.

Filho de uma das mais nobres famílias senatoriais romanas, teve sucesso ascendente e ininterrupto. Adotado pelo ilustre Símaco acabou casando-se com a filha de seu pai adotivo, Rusticiana. Aos 25 anos de idade entrou para o senado e com menos de 30 anos foi eleito cônsul. Durante o reinado de Teodorico, Boécio ocupou muitos cargos importantes, na Consolação, ele próprio afirma que sua maior realização foi ter, no mesmo ano, ambos os filhos feitos cônsules, um representando o leste e outro o oeste. Em 522, no mesmo ano em que seus dois filhos foram nomeados cônsules conjuntos, Boécio aceitou a nomeação para o cargo de Mestre dos Ofícios (magister officiorum), chefe de todos os serviços do governo e da corte.

Talvez o que de fato tenha arruinado a vida política de Boécio tenha sido a defesa do senador Albino, por ele realizada. Albino havia sido acusado de estabelecer correspondências com algumas pessoas próximas de Justino, Imperador de Constantinopla, traindo assim, Teodorico. Boécio foi requisitado à apreciação do caso do senador e acabou por defendê-lo e, consequentemente, foi envolvido na delação. Assim, dentro desse contexto de acusações e traições, o autor foi condenado à morte e ao confisco de todos os seus bens. Privado do direito de apresentar sua defesa, Boécio acabou sendo executado no ano de 524.

O conteúdo da Consolação está disposto em cinco livros, compostos por versos e prosas que se apresentam de forma intercalada. No primeiro livro Boécio apresenta sua condição de profunda tristeza e indignação com o infortúnio que lhe abate por encontrar-se na prisão; e é neste momento que ele recebe a visita de sua musa consoladora, a Filosofia, que ao se personificar busca, através do diálogo, mostrar ao prisioneiro o que o mesmo parece ter esquecido: qual é a natureza humana e qual o verdadeiro objetivo dos homens. No segundo livro, a Filosofia visa demonstrar a Boécio qual é a verdadeira natureza da Fortuna. No terceiro livro temos que todos os homens buscam naturalmente a Felicidade. Assim, inicia-se este livro com a apresentação dos presentes da Fortuna com o intuito de demonstrar porque estes não podem dar ao homem a verdadeira felicidade tão almejada. Aponta como conclusão que a verdadeira felicidade encontra-se no Bem Supremo que é uno: Deus. No quarto livro, é tratada a questão do mal no mundo e apresenta-se a distinção entre Providência e destino. No quinto e último livro, discorre-se sobre o problema, aparentemente incompatível, que surge da discussão da onisciência divina e do livre arbítrio humano.

A incompatibilidade do sofrimento dos homens bons, a impunidade e o sucesso dos homens maus, com o governo do mundo por um Deus bom, tem sido um tema de reflexão entre os homens desde que a religião e as questões abstratas têm ocupado os pensamentos da humanidade. Os livros poéticos da Bíblia estão cheios dela, particularmente o livro de Jó, que é um poema dramático inteiramente dedicado ao assunto. O Novo Testamento contém muito material doutrinário sobre a mesma questão. Já os gregos em suas tragédias e também os filósofos posteriores, se encantaram em resolver esta incompatibilidade. Mas do sexto ao décimo sétimo século de nossa era a Consolação de Boécio, em seu latim original e em muitas traduções, esteve nas mãos de quase todas as pessoas cultas do mundo.

É uma obra que atraiu tanto pagãos quanto cristãos. Não há nenhuma doutrina cristã na qual se baseie toda a obra, mas também não há nada que possa estar em conflito com o cristianismo. Mesmo a personificação da Filosofia, embora na forma de uma deusa pagã, é precisamente como a “Sabedoria” de Salomão na bíblia e a “Palavra de Deus” usada pelos judeus. Portanto, se não há nada distinto ou dogmaticamente cristão no texto, também não há nada que possa ser condenado como pagão, apesar da forte influência da filosofia pagã, com a qual Boécio era íntimo.

Contudo, sua ligação com a Igreja é inquestionável. O Papa Leão XIII aprovou o culto a Boécio pela Diocese de Pavia, que guarda os seus restos mortais na basílica de San Pietro in Ciel d’Oro, que  também é o lugar de descanso de Santo Agostinho. Foi posteriormente canonizado pela Igreja Católica. Ele é “São Severino” que deriva do seu nome completo, Severinus Boethius. Dante faz São Tomás de Aquino apontar o espírito de Boécio na Divina Comédia, Paraíso, X, 124-132.

A Consolação da Filosofia não é a primeira obra filosófica na qual a Filosofia personifica-se como uma dama. Esta ideia já fora sugerida por filósofos anteriores tais como: Platão, Cícero e Sêneca. Boécio considera-se um eclético e acredita que as escolas filosóficas da antiguidade eram incompletas, cada uma contendo apenas “uma parte” da filosofia (sinônimo da sabedoria). Nas palavras da própria Lady Filosofia.

Também em sua vida, Sócrates, seu mestre, venceu com minha ajuda a vitória de uma morte injusta. E quando, um após outro, o grupo epicurista, os estoicos, e os demais, cada um deles até onde estavam, foram tomar a herança que ele deixou, e me arrastaram para fora protestando e resistindo, como seu espólio, rasgaram em pedaços a roupa que eu havia tecido com minhas próprias mãos, e, agarrando os pedaços rasgados, partiram, acreditando que a totalidade de mim havia passado para a posse deles. (…) Talvez você não saiba do banimento de Anaxágoras, do veneno de Sócrates, nem da tortura de Zenão, porque estas coisas aconteceram em um país distante; mas talvez você tenha conhecido o destino de Cano, de Sêneca, de Sorano, cujas histórias não são antigas nem desconhecidas. Estes homens foram levados à destruição por nenhuma outra razão que não seja a de que, estabelecidos como estavam em meus princípios, suas vidas eram um manifesto contraste com os caminhos dos ímpios.” (Livro I, VI.)

Dessa forma, a musa consoladora demonstra ao prisioneiro que ele pertence a um grupo de homens capazes de compreender as adversidades da vida sob um outro enfoque, considerando que este grupo possui uma diferenciação de ordem moral, certamente incutida pela própria Filosofia. Ressaltando que os homens que se deixam conduzir pelos caprichos da Fortuna não possuem algo maior que os possa guiar e permanecem na ignorância.

Ou seja, Boécio é muito próximo da doutrina estoica. Isso fica claro quando a personagem Filosofia, ao colocar-se como médica e fazer uso de metáforas médicas, está resgatando a prática estoica. Para curar o prisioneiro a Filosofia o lembra que o mundo não é governado pelo acaso, mas sim, por uma razão superior, a Natureza. Compreender que o mundo é governado por uma razão divina e que o homem possui uma natureza racional, a qual deve guiar as ações humanas, justifica que a virtude da sabedoria é exatamente isso: viver em conformidade com sua própria natureza. Natureza esta que não deve se deixar abalar pelas turbulentas paixões humanas, pois elas impedem a progressão da virtude. Assim, a virtude da sabedoria consiste em não se deixar ludibriar pelos impulsos excessivos e sim, deixar-se conduzir pela racionalidade que é própria do ser humano. Conforme aponta a Filosofia:

… a Sabedoria consiste em avaliar a finalidade de todas as coisas, e esta mesma mutabilidade, com seus dois aspectos, torna as ameaças da Fortuna vazias de terror, e suas carícias pouco desejáveis.

Logo, para saber avaliar corretamente qual é o fim de todas as coisas, faz-se necessário reconhecer-se como um ser racional e fazer uso dessa natureza. Desta forma, podemos compreender que a noção de virtude no sistema boeciano aproxima-se muito da concepção dos estoicos. Boécio perdeu as riquezas, as honras, o poder e os prazeres que constituem a felicidade dos homens? O que são esses bens que, se possuem o brilho do vidro, também têm sua fragilidade?

O conceito de Felicidade, ou eudaimonia, de Boécio é totalmente estoico:

E para que possa ver que a felicidade não pode consistir nessas coisas que são o esporte do acaso, reflita que, se a felicidade é o maior bem de uma criatura vivendo de acordo com a razão, e se uma coisa pode de alguma forma ser tirada não é o maior bem, já que aquilo que não pode ser tirado é melhor do que isso, é claro que a Fortuna não pode aspirar a dar felicidade em razão de sua instabilidade. E, além disso, um homem carregado por essa felicidade transitória deve conhecer ou não a sua instabilidade. Se ele não a conhece, quão pobre é uma felicidade que depende da cegueira por ignorância! Se ele sabe, ele deve temer perder uma felicidade cuja perda ele acredita ser possível.” (Livro II, VII)

Nos dois últimos livros, o ambiente filosófico muda: do estoicismo, apropriado à cura pessoal, Boécio passa à uma discussão mais abstrata, a da teodiceia de inspiração platônica, isto é, a existência de Deus a partir do problema da existência do mal e de sua relação com um Deus bondoso onisciente e onipotente.

Neste ponto, o prisioneiro, voltando a ser um filósofo, já se libertou da opressão subjetiva da infelicidade que pesava sobre seus sentidos. É preciso agora libertar-se do peso de uma dúvida de gravidade diferente que atormenta sua razão: Como pode Deus, a própria Bondade, a Ideia do Bem, permitir uma desordem tal que os inocentes sejam oprimidos e os criminosos recompensados?

O último livro é focado em conciliar a liberdade humana, isto é, o livre-arbítrio, com a onipotência providencial de Deus. A Filosofia faz Boécio entender que a presciência divina não é um determinismo, mas que, por isso mesmo, ela não abandona a alma que escolheu o Bem aos caprichos cegos da Fortuna. O livre-arbítrio não é uma ilusão, mesmo que a escolha do mal busque para si desculpas na Fortuna.

Quinze séculos após ter sido escrito, A Consolação da Filosofia parece dirigido à nossa realidade, o que só confirma que o progresso técnico em nada muda as leis da biologia ou nossas carências espirituais e filosóficas.


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Resenha: Cícero – Sobre a Amizade

A vida sem amigos não vale a pena viver

Cícero se definia como um cético acadêmico, isto é, um seguidor da Academia de Platão. Além disso particularmente se apunha à alegação epistemológica estoica de que a certeza absoluta de certas impressões era possível. Entretanto, foi solidário defensor da ética estoica. Com veremos neste livro, ele baseava seus ensinamentos éticos essencialmente nas premissas estoicas de que a virtude é a responsável pela felicidade e a tranquilidade espiritual. Hoje é uma de nossas fontes mais detalhadas sobre a doutrina do estoicismo.

Outro elemento que caracteriza Cícero como um dos campeões do estoicismo é sua forte oposição ao epicurismo. É importante notar aqui que Cícero tinha a tendência de reduzir Epicuro a uma filosofia que busca apenas prazer com o objetivo de gratificação instantânea.

No ano 44 a.C., Cícero estava em seus sessenta anos, afastado do poder político pela ditadura de Júlio César. Ele se dedicou a escrever para aliviar a dor do exílio e a recente perda de sua amada filha. Em um período de meses, ele produziu alguns dos mais lidos e influentes ensaios já escritos sobre assuntos que vão desde a natureza dos deuses e o papel adequado do governo até as alegrias de envelhecer e o segredo para encontrar a felicidade em vida. Entre estes trabalhos estava o breve ensaio Sobre a Amizade dedicado a Ático, seu melhor amigo.

Ele e Cícero tornaram-se amigos quando homens jovens e assim permaneceram durante todas suas vidas. Cícero dedicou-se à política romana e passou a maior parte de seus anos naquela cidade, uma época de tremenda agitação e guerra civil. Ático, por outro lado, observava a política romana a partir da distância segura de Atenas, enquanto permanecia em contato próximo com os principais homens de ambos os lados em Roma. Mesmo estando frequentemente separados, Cícero e Ático trocaram cartas ao longo dos anos que revelam uma amizade de rara devoção e calorosa afeição.

Sobre a Amizade é sem dúvida o melhor livro já escrito sobre o assunto. O conselho sincero que ele dá é honesto e comovente de uma forma que poucas obras dos tempos antigos são. Alguns romanos tinham visto a amizade em termos principalmente práticos como uma relação entre as pessoas para vantagem mútua. Cícero não nega que tais amizades sejam importantes, mas ele vai além do utilitarismo para enaltecer um tipo mais profundo de amizade em que duas pessoas se encontram um no outro sem buscar lucro ou vantagem do outro. Filósofos gregos como Platão e Aristóteles haviam escrito sobre a amizade centenas de anos antes. De fato, Cícero foi profundamente influenciado por seus escritos. Mas Cícero vai além de seus predecessores e cria nesta sucinta obra um guia convincente para encontrar, manter e apreciar essas pessoas em nossas vidas que valorizamos não pelo que elas podem nos dar, mas porque encontramos nelas uma alma semelhante a nossa. Sobre a Amizade está repleto de conselhos atemporais sobre amizade. Entre os melhores estão:

1. Existem diferentes tipos de amizades: Cícero reconhece que há muitas pessoas boas com quem entramos em contato em nossas vidas que chamamos de amigos, sejam eles sócios de negócios, vizinhos ou qualquer tipo de conhecidos. Mas ele faz uma distinção fundamental entre estas amizades comuns e bastante úteis e aqueles raros amigos aos quais nos ligamos em um nível muito mais profundo. Estas amizades especiais são necessariamente raras, pois exigem muito tempo e investimento de nós mesmos. Mas estes são os amigos que mudam profundamente nossas vidas, assim como nós mudamos a deles. Cícero escreve: “Com exceção da sabedoria, estou inclinado a acreditar que os deuses imortais não deram nada melhor à humanidade do que a amizade“. (§VI, 20)

2. Somente pessoas boas podem ser verdadeiras amigas: Pessoas de pobre caráter moral podem ter amigos, mas só podem ser amigos de utilidade pela simples razão de que a amizade real requer confiança, sabedoria e benevolência de base. Os tiranos e canalhas podem usar uns aos outros, assim como podem usar pessoas boas, mas as pessoas más nunca podem encontrar uma amizade verdadeira na vida.

3. Devemos escolher nossos amigos com cuidado: Temos que ser deliberados na escolha de nossas amizades pois pode ser muito confuso e doloroso descobrir que o suposto amigo não era a pessoa que pensávamos. Devemos ter calma, mover-nos lentamente e descobrir o que está no fundo do coração de uma pessoa antes de fazer o investimento pessoal que a verdadeira amizade exige.

4. Faça novos amigos, mas mantenha os antigos: Ninguém é um amigo mais agradável do que alguém que está com você desde o início. Mas não se limite aos companheiros da juventude, cuja amizade pode ter sido baseada em interesses não mais partilhados por você. Esteja sempre aberto a novas amizades, inclusive aquelas com pessoas mais jovens. Tanto você quanto eles serão privilegiados por isso.

5. Os amigos fazem de você uma pessoa melhor: Ninguém pode prosperar isoladamente. Deixados por nossa conta, estagnaremos e nos tornaremos incapazes de nos ver como somos. Um verdadeiro amigo o desafiará a se tornar melhor porque ele aprecia o potencial dentro de você.

6. Os amigos são francos: Os amigos sempre lhe dirão o que você precisa ouvir, não o que você quer que eles digam. Há muitas pessoas no mundo que o lisonjearão para seus próprios propósitos, mas somente um verdadeiro amigo – ou um inimigo – arriscará sua raiva dizendo-lhe a verdade. E sendo você mesmo uma boa pessoa, você deve ouvir seus amigos e acolher o que eles têm a dizer.

7. A recompensa da amizade é a própria amizade: Cícero reconhece que há vantagens práticas na amizade – conselho, companheirismo, apoio em tempos difíceis – mas em seu coração a verdadeira amizade não é uma relação de negócios. Ela não busca reembolso e não mantém contabilização. Não somos tão mesquinhos a ponto de “cobrar juros sobre nossos favores”, escreve Cícero. Ele acrescenta: “A recompensa da amizade é a própria amizade“.

8. Um amigo nunca pede que se faça algo errado: Um amigo arriscará muito por outro, mas não a honra. Se um amigo lhe pede para mentir, trapacear ou fazer algo vergonhoso, considere cuidadosamente se essa pessoa é quem você realmente pensava que era. Como a amizade é baseada na virtude, ela não pode existir quando se espera o mal de uma amizade.

9. As amizades podem mudar com o tempo: As amizades da juventude não serão as mesmas na velhice – nem deveriam ser. A vida muda todos nós com o tempo, mas os valores e qualidades essenciais que nos atraíram aos amigos em anos passados podem sobreviver ao teste do tempo. E, assim como o vinho, a melhor das amizades vai melhorar com a idade.

10. Sem amigos, não vale a pena viver a vida: Ou como diz Cícero: “Suponha que um deus o leve para longe, para um lugar onde lhe foi concedida uma abundância de todo bem material da natureza, mas lhe negue a possibilidade de alguma vez ver um ser humano. Quem teria a alma suficientemente temperada para suportar esse gênero de vida, e para evitar que a solidão retirasse de seus prazeres todo o seu sabor? (§XXIII, 87-88)

O livro Sobre a Amizade teve uma tremenda influência sobre escritores nos tempos que o seguiram, desde Santo Agostinho até o poeta italiano Dante e mais além Thomas Jefferson. Não é menos valioso hoje em dia. Em uma era moderna da tecnologia e um foco implacável no eu que ameaça a própria ideia de amizades profundas e duradouras, Cícero tem mais a nos dizer do que nunca.

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Lançamento da segunda edição das Cartas de um Estoico

Quem vem acompanhando o site e a página no facebook sabe que nos últimos três anos venho publicando as carta que havia traduzido em 2017. Desse exercício resultou o lançamento da segunda edição revisada, com muitas alterações de interpretação bem como correção de gramática e ortografia.

Nas próximas semanas além da versão em ebook, estará disponível também o livro impresso no Brasil, com custo mais acessível que a versão anterior, impressa nos EUA.


Prefácio da segunda edição

Após a publicação da primeira edição no final de 2017, criei o website O Estoico e também uma página no Facebook para divulgar o estoicismo e as cartas de Sêneca. Neste espaço venho colocando textos dos filósofos estoicos, principalmente Sêneca, e comentando brevemente cada carta e obra de Sêneca.

Nos dois últimos anos, 2019 e 2020, traduzi todas as outras obras filosóficas de Sêneca bem como sua biografia por Francis Holland.[3] Com esse exercício e com ajuda dos debates com internautas, acabei aprofundando meu entendimento do estoicismo e percebendo várias interpretações imperfeitas contidas na primeira edição. Esta nova tradução é o resultado de três anos de análise e estudo do estoicismo.

Sêneca tem uma retórica dramática e maravilhosa. Não só prende a atenção, mas eleva o espírito do leitor. As cartas são alívios que curam a alma de ignorâncias e medos infundados. Este livro não tem outro objetivo senão o de ajudá-lo nisto. Escritas no auge de uma das maiores civilizações da história, as cartas a Lucílio são consideradas a obra mais importante de Sêneca, já que foram produzidas na última fase de sua vida e refletem, portanto, a forma mais amadurecida do seu pensamento.

Após a morte do imperador Cláudio e o acesso de Nero ao poder, Sêneca, que era seu preceptor, passou a orientar a política romana como conselheiro do jovem imperador, provavelmente porque pensou ter nas mãos uma oportunidade única de agir, através da política, sobre a vida moral de Roma. O quinquennium neronis,[4] – os cinco primeiros anos do principado de Nero, que foram marcados por grande desenvolvimento econômico e social – teria sido influenciado por Sêneca. Só que as realidades do poder e o idealismo da filosofia uma vez mais se mostraram inconciliáveis, e o resultado foi Sêneca ter de acabar por afastar-se do exercício de um poder que cada vez mais lhe escapava. Daí que ele tenha afirmado no seu breve ensaio Sobre o ócio,[5] em resposta precisamente a uma objeção de Lucílio, que estranhava vê-lo contrariando os princípios da escola estoica ao defender o afastamento do sábio da vida pública: segundo Sêneca o sábio só deve participar na vida política se o puder fazer dentro da maior dignidade e se a sua ação tiver possibilidade de ser benéfica para a comunidade; se, pelo contrário, as condições forem tais que o sábio só possa estar na política com o abandono da moral, então deverá retirar-se. Tais condições impuseram o afastamento de Sêneca e constituíram o cenário em que escreveu estas cartas. Não há, pois, contradição, apenas a necessidade de salvaguardar a independência e a dignidade moral ameaçadas.

Além disso pela própria amplitude dos temas abordados, as cartas expõem uma soma de reflexões sobre enorme variedade de problemas, num quadro teórico perfeitamente delimitado e coerente, e ainda mais, que se revestem de um carácter extremamente prático, isto é, que constituem uma análise de situações concretas e de apreciações de grande agudeza sobre a natureza e o comportamento humanos.

O leitor saberá avivar a sabedoria de Sêneca com uma chama nova que brotará de sua própria consciência. Por si só, um texto não é nada. Faz-se necessária uma alma para concatenar seus méritos às frases do texto. O efeito de um livro depende de cada um de nós. A última etapa definitivamente não é o texto que sai da pena do autor (ou do computador do tradutor), mas o verbo mental que o próprio leitor elabora.

Aí está o motivo pelo qual reeditei este trabalho. Gostaria muito que a obra de Sêneca se difundisse em outros lugares e épocas, bem longe daquela de onde veio ao mundo.


[1] https://estoico.com.br

[2] http://www.facebook.com/Oestoico

[3] Ver Francis Holland, “Sêneca, Vida e Filosofia

[4] Quinquennium neronis, Ver Klain Belchior, Ygor, Faversani, Fábio: “O papel da clemência senequiana na narrativa dos annales de publius cornelius tacitus”. Revista Archai. 2009: “A primeira parte de seu governo, nomeada por muitos historiadores como quinquennium neronis, teria sido positiva, já que os vícios do Princeps e os excessos de sua mãe foram controlados por Sêneca e Burro. A mudança de qualidade do governo ocorre com a morte de Burro e a afastamento de Sêneca do poder, levando ao período considerado como um mau governo, quando Nero teria sua administração voltada aos vícios por sua própria vontade e pela influência negativa de Tigelino”.

[5] Ver Sêneca, “Sobre o ócio