Resenha: Consolação a Márcia

Na Antiguidade, a carta de consolação era um gênero literário popular, sendo essencialmente um veículo para apresentar aspectos cruciais de uma escola filosófica e ao mesmo tempo dar conselhos reais sobre como lidar com a perda e o luto. O gênero literário Consolação foi cultivado por todas as grandes escolas, nela, o filósofo procura entender a dor que abala a pessoa a ser consolada e, ainda, compreender sua visão de mundo para assim expor sua filosofia, de forma que seja melhor assimilada pelo espírito em luto. Cleonice van Raij, diz:

Entre os filósofos e retores romanos o primeiro que se ocupou desse gênero foi Cícero, por ocasião da morte de sua filha Túlia, quando escreveu uma Consolação, a fim de abrandar a própria dor. Tal Consolação, infelizmente, não chegou até nós, restando dela apenas alguns fragmentos conservados nas Tusculanas. Sêneca, sem a menor dúvida, foi o mais fecundo escritor latino de Consolações, se considerarmos não só os textos conhecidos sob esse nome, mas também os vários tratados de alto teor consolatório, como Sobre a brevidade da vidaSobre a tranquilidade da alma, De remediis fortuitorum (Sobre os remédios dos acontecimentos fortuitos) e as cartas que, em grande parte, pertencem a esse gênero, como as LXIII, LXXXIXCIII e CVII, dirigidas a Lucílio. No entanto, as genuínas Consolações, ou seja, aquelas que mais respondem às exigências da tradição consolatória, são três: A MárciaA Hélvia e A Políbio.

Consolação a Márcia, Ad Marciam, De Consolatione”, é a primeira carta de consolação de Sêneca, escrita aproximadamente no ano 40, sendo a obra conhecida mais antiga do filósofo. A carta é endereçada a Márcia, filha do proeminente historiador Aulo Cremúcio Cordo[1].

Sêneca lhe escreve porque seu luto pela morte de seu filho Metílio parecia ter se tornado crônico, continuando três anos após a tragédia. Sêneca adverte Márcia, desde o início, que ele não será gentil:

Que outros usem medidas suaves e carícias; decidi lutar com sua dor, e vou secar esses olhos cansados e exaustos, que já, para dizer a verdade, choram mais por hábito do que por tristeza… Não posso agora influenciar uma dor tão forte por medidas educadas e suaves: ela deve ser destruída pela força”(I, 5, 8) .

Ele então lembra a sua amiga que todos os remédios normais contra seu luto prolongado têm falhado até agora: o consolo de seus amigos, a distração de bons livros, nem mesmo o próprio tempo. Ele teme que neste momento a dor tenha tomado uma morada permanente em sua alma, e que somente a filosofia esteja à altura do trabalho de restaurá-la a uma vida normal, caso contrário “alma infeliz toma uma espécie de mórbido deleite no pesar”.

Esta admirável peça de consolação oferece argumentos da filosofia estoica e sua visão de mundo, a fim de ajudar os enlutados e desolados a considerar outros aspectos da perda e também reconhecer a inevitabilidade da morte. Sêneca tenta transformar a tristeza paralisante de Márcia em belas e agradáveis lembranças do tempo que passaram juntos.

A primeira abordagem utilizada por Sêneca é a de recordar a Márcia dois exemplos contrastantes de luto em duas outras famosas mulheres romanas: Otávia e Lívia, respectivamente irmã e esposa de Otávio Augusto (o primeiro imperador). Ambas haviam perdido um filho, mas reagiram de maneira muito diferente: Otávia fez como Márcia, nunca emergindo de sua dor, negligenciando seus deveres familiares e sociais, e até mesmo ressentindo-se do filho sobrevivente de Lívia.

Sêneca então diz sem rodeios a Márcia que ela tem duas alternativas: seguir uma delas. Por que o caminho de Lívia é melhor que o de Otávia? “Que loucura é essa, castigar a si mesma porque é infeliz, e não para diminuir, mas para aumentar seus males! Você deve mostrar, também neste assunto, aquele comportamento decente e modéstia que tem caracterizado toda a sua vida: pois existe algo como autodomínio no luto também” (IV, 5). Note que este é um bom argumento contra aqueles que acusam os estoicos de reprimir as emoções. Não se trata de reprimir mas sim de administrar de forma razoável. Ter emoções é humano, ser possuído e controlado por elas é o caminho para a própria destruição. Com efeito, Sêneca é explícito a respeito disto:

nem vou tentar secar os olhos de uma mãe no próprio dia do enterro de seu filho. Eu irei me apresentar diante de um árbitro: o assunto sobre o qual iremos nos unir é, se o luto deve ser profundo ou incessante” (IV, 1)

Na sequencia, Sêneca aplica três estratégias contra a dor: Primeiro, ele lembra Márcia que seus próprios amigos agora não sabem como se comportar em sua presença. Em segundo lugar, argumenta que é uma má escolha não considerar a totalidade da vida de seu filho, e concentrar-se apenas no seu fim. Finalmente , ele traz o argumento estoico de que a verdadeira coragem só é testada em águas agitadas:

não há grande crédito em comportar-se corajosamente em tempos de prosperidade, quando a vida desliza facilmente com uma corrente favorável: nem um mar calmo e um vento suave exibem a arte do piloto: algum mau tempo é desejado para provar sua coragem” (V, 5).

Na décima seção Sêneca antecipa o famoso argumento de Epicteto de que não possuímos realmente coisas ou pessoas, elas são simplesmente emprestadas a nós pelo universo, e que “é nosso dever sempre poder colocar nossas mãos sobre o que nos foi emprestado sem data fixa para sua devolução, e restaurá-lo quando chamado sem um murmúrio». Muitos criticam filósofos da antiguidade por ser “sexistas” e desprezarem feminilidade. Na seção 16 Sêneca prova o contrário:

No entanto, quem diria que a natureza tem tratado com rancor as mentes das mulheres, e atrofiado suas virtudes? Acredite, elas têm o mesmo poder intelectual que os homens, e a mesma capacidade de ação honrada e generosa. Se treinadas para isso, elas são igualmente capazes de suportar a tristeza ou o trabalho.” (XVI, 2)

Sêneca aplica dezenas de argumentos de consolo, de fato, a própria vida tem sentido, diz Sêneca a Márcia, precisamente porque morremos. Coloca analogias estoicas que mais tarde foram imortalizadas nos ensinamentos de Epicteto: vida como uma estadia em uma pousada na qual somos hóspedes e Marco Aurélio: pense nos muitos séculos que se foram e nas cidades poderosas que pereceram.

Também apresenta exemplos de estadistas, como Pompeu, que viveram além de seu auge e terminaram sua vida em desgraça ou por traição. Sempre assumimos que quando a vida foi cortada, ela nos privou de uma série de coisas boas, mas isto não é de forma alguma garantido. Às vezes, a morte é na verdade uma bênção. Finalmente, Sêneca argumenta que o tempo transcorrido não é uma boa medida do valor de uma vida:

Passe a contar sua idade, não por anos, mas por virtudes: viveu tempo suficiente” (XXIV, 1)

Em síntese, esta é uma carta impressionante. Sêneca reconhece a humanidade da dor, nunca considera o luto de Márcia como insignificante, mesmo três anos após a morte do filho. Ele emprega grande gama de argumentos da escola estoica para convencê-la de que já passou tempo suficiente, de que ela deveria voltar à sociedade como um membro produtivo, enquanto transforma sua tristeza em doces lembranças de seu filho. É difícil imaginar uma abordagem mais humana do luto.


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[1] Aulo Cremúcio Cordo (falecido em 25 d.C.) foi um historiador romano. Há muito poucos fragmentos restantes de sua obra, principalmente cobrindo a guerra civil e o reinado de Augusto. Em 25 d.C. ele foi obrigado por Sejano, que foi chefe dos pretorianos sob Tibério, a tirar sua vida depois de ser acusado de traição.

Resenha: Consolação a Políbio

Consolação a Políbio, ad Polybium, De Consolatione”, é a terceira carta de consolação de Sêneca, escrita no ano 44 quando o filósofo se encontrava no exílio na ilha de Córsega para o qual fora enviado sob a acusação de adultério com Júlia Lívila, irmã de Calígula.

A obra dirige-se a Políbio, Secretário particular do Imperador Cláudio, para consolá-lo sobre a morte de seu irmão. O ensaio contém a filosofia estoica de Sêneca, com particular atenção à inescapável realidade da morte. Embora seja sobre um assunto muito pessoal, o ensaio em si não parece particularmente empático ao caso específico de Políbio, dando uma visão mais ampla sobre a dor e o luto, sem nunca citar o nome do irmão falecido.

O texto é, sem dúvida, uma tentativa de Sêneca de conseguir seu retorno do exílio, usando boa parte do texto  para lisonjear e vergonhosamente bajular o Imperador Cláudio, ironicamente procurando atrair empatia para si mesmo no processo: “Eu forçaria algumas gotas a fluir destes olhos, exaustos como estão com o choro sobre as minhas próprias aflições domésticas, se isso pudesse ser de alguma utilidade para você.” (II, 1)

Estudiosos são unânimes na consideração de que Consolação a Políbio é uma adulação para que Políbio interceda junto a Cláudio em favor de Sêneca. Isso mostra um momento de fraqueza do filósofo já que Sêneca faz uso da dor alheia para tirar vantagens pessoais. Essa realidade não impede a obra de exemplificar uma das mais significativas faces do brilhante autor e de documentar lados menos explorados de sua personalidade histórica.

O gênero literário Consolação foi cultivado por todas as grandes escolas, nela, o filósofo procura entender a dor que abala a pessoa a ser consolada e, ainda, compreender sua visão de mundo para assim expor sua filosofia, de forma que seja melhor assimilada pelo espírito em luto. Cleonice van Raij[1], diz:

Entre os filósofos e retores romanos o primeiro que se ocupou desse gênero foi Cícero, por ocasião da morte de sua filha Túlia, quando escreveu uma Consolação, a fim de abrandar a própria dor. Tal Consolação, infelizmente, não chegou até nós, restando dela apenas alguns fragmentos conservados nas Tusculanas. Sêneca, sem a menor dúvida, foi o mais fecundo escritor latino de Consolações, se considerarmos não só os textos conhecidos sob esse nome, mas também os vários tratados de alto teor consolatório, como Sobre a brevidade da vida, Sobre a tranquilidade da alma, De remediis fortuitorum[2] (Sobre os remédios dos acontecimentos fortuitos) e as cartas que, em grande parte, pertencem a esse gênero, como as LXIII, LXXXI, XCIII e CVII, dirigidas a Lucílio. No entanto, as genuínas Consolações, ou seja, aquelas que mais respondem às exigências da tradição consolatória, são três: A Márcia, A Hélvia e A Políbio.

A carta começa com uma interpretação de Sêneca do significado de memeto mori[3], ajudando o amigo a colocar as coisas em perspectiva e fazendo referência à cosmologia estoica e sua ideia de que o universo é cíclico e que passa por séries de criação e destruição:

“O que, de fato, já fez mãos mortais que não seja mortal? As sete maravilhas do mundo, e quaisquer maravilhas ainda maiores que a ambição de eras posteriores tenha construído, serão vistas um dia niveladas com o chão. Assim é: nada dura para sempre, poucas coisas duram até mesmo por muito tempo… todo esse universo, contendo deuses e homens e todas as suas obras, um dia será varrido e mergulhado uma segunda vez em sua escuridão e caos originais”. (I, 1-2)

A finalidade é dupla: lembrar a Políbio que seria soberba pensar que nosso próprio destino deve ser diferente do de qualquer outro, e também levar consolo com a compreensão do funcionamento do mundo. Na seção IV Sêneca volta para a ideia estoica da imparcialidade da fortuna (destino):

Podemos continuar culpando o destino por muito mais tempo, mas não podemos alterá-lo: ele permanece duro e inexorável: ninguém pode movê-lo por reprovações, por lágrimas ou pela justiça. A fortuna nunca poupa ninguém, nunca faz concessões a ninguém…. Olhe em volta, para todos os mortais: em todos os lugares há razões amplas e constantes para chorar:” (IV, 1-2)

Na quinta seção vemos mais uma técnica de abordagem: Políbio é exortado a pensar sobre o que seu próprio irmão falecido desejaria. Além disso, ele tem que pensar no restante de sua família, incluindo seus outros irmãos, não os desanimando com a própria depressão:

“Você deve imitar os grandes generais em tempos de desastre, quando eles têm o cuidado de provocar um comportamento alegre e esconder as desgraças por uma alegria manipulada, de modo que, se os soldados vissem seu líder derrubado, eles mesmos ficariam desanimados”. (V, 2)

No meio do ensaio, Sêneca alerta Políbio que os piores momentos serão quando ele se encontrar sozinho em casa. Mas um remédio está à mão: ocupar a mente, não permitir nenhum momento desocupado. Sêneca acaba sugerindo perseguições literárias já que Políbio havia traduzido para o latim Homero e escrito uma versão em prosa do poema épico de Virgílio. Ainda em outra investida, Sêneca diz que não se deve lamentar por si mesmo: pergunte a si mesmo: “sofro por minha causa ou por aquele que se foi”? Depois afirma que não se deve sofrer temendo a sorte do falecido seguido com uma análise estoica do significado de estar morto, lembrando a Políbio que, embora seu irmão não possa mais desfrutar de uma série de prazeres oferecidos pela vida, agora ele também está sendo poupado das muitas tristezas e reviravoltas da fortuna que caracterizam a existência humana, pois no final: “Nada há de certo sequer um dia inteiro. Quem pode dizer se a morte veio a seu irmão por malícia ou por bondade?” (IX, 6)

Na 10° seção Sêneca aplica um dos conceitos estoicos favoritos, que mais tarde, fora muito muito utilizado por Epicteto, isto é, que as coisas e as pessoas de nossas vidas nunca são nossas, mas sim emprestadas do universo:

você não precisa pensar por quanto tempo mais você poderia tê-lo, mas por quanto tempo você o teve. A natureza o deu a você, assim como dá outros a outros irmãos, não como uma propriedade absoluta, mas como um empréstimo: depois, quando achou oportuno, o acolheu de volta e seguiu suas próprias regras de ação, em vez de esperar até que você tivesse entregado seu amor à saciedade.” (X, 4)

As seções XII a XVII são usadas praticamente na íntegra para bajular o imperador Cláudio, na tentativa de ganhar sua graça e conseguir escapar do exílio. Algumas partes são tão exageradas que beiram à comédia:

“…fixe seus olhos em César sempre que as lágrimas se aproximarem deles; eles ficarão secos ao contemplar aquela luz maior e mais brilhante; seu esplendor os atrairá e os prenderá firmemente a si mesmo” (XII, 3) “…tão bondoso e gracioso como é para com todos os seus seguidores que já colocou muitos bálsamos curativos sobre esta sua ferida, e lhe forneceu muitos antídotos para sua tristeza. Por que, mesmo se ele não tivesse feito nada disso, não é a mera visão e o pensamento de César em si o seu maior consolo?” (XII, 3) “Que os deuses e deusas o preservem por muito tempo na terra: que ele rivalize com os feitos do imperador Augusto, e o ultrapasse em longos dias!” (XII, 5)

Ao final Sêneca sugere como terapia para seu amigo, que escreva sobre o irmão: “prolongue a lembrança de seu irmão inserindo algumas memórias dele entre seus outros escritos: pois esse é o único tipo de monumento que pode ser erguido pelo homem que nenhuma tempestade pode ferir, nenhum tempo destruir.” (XVIII, 2). Sêneca, por todo seu legado, é o mais compassivo, o mais humano, dos estoicos. O final da carta nos dá muitos exemplos disso, dois deles:

Eu sei, de fato, que há alguns homens, cuja inteligência é mais áspera do que brava, que dizem que o homem sábio nunca choraria.” (XVIII, 5). “Deixe suas lágrimas fluírem, mas deixe-as um dia parar de fluir: lamente tão profundamente quanto você quiser, mas deixe seus lamentos cessarem um dia: regule sua conduta de modo que tanto filósofos quanto irmãos possam aprová-la.” (XVIII, 7)

Consolação a Políbio confirma que Sêneca, como o próprio reafirma inúmeras vezes em sua obra, não é o sábio estoico ideal, mas alguém meramente humano, que precisa se esforçar diariamente para trilhar o caminho da virtude. Por isso mesmo, considero o mais autêntico e convincente dos filósofos estoicos.

Em tempo, a bajulação não teve nenhum efeito sobre Políbio ou Cláudio e Sêneca permaneceu no exílio até a morte do imperador.

Sobre Políbio:

Gaio Júlio Políbio foi um escravo liberto do Imperador Cláudio que foi elevado ao secretariado durante seu reinado. No começo do governo de Cláudio, Políbio, de acordo com Sêneca, tinha o cargo de libellis, responsável pelas petições dirigidas ao imperador[4]. Já Suetônio[5] defende que antes da ascensão do imperador, ele auxiliava Cláudio em suas atividades literárias, judiciais e históricas como pesquisador e assim tomou o lugar oficial na burocracia imperial, com o título de studiis. O mesmo Suetônio, que era biógrafo e secretário do Imperador Adriano, afirma que Cláudio apreciava tanto a ajuda que era permitido a Políbio caminhar entre os cônsules quando em assuntos oficiais.

No resumo bizantino do relato de Dião Cássio[6], Pallas, Calisto e Narciso, outros três libertos graduados na administração imperial, têm grande preeminência, mas Políbio aparece separado do grupo mais poderoso de liberto. Nesse relato, os três libertos aparecem atuando em conjunto, inicialmente em acordo com Messalina e depois contrários a ela. A deslealdade levou Políbio à sua derrocada. Ele foi executado por crimes contra o Estado enquanto Sêneca vivia em exílio. Dião Cássio afirmou que a imperatriz Messalina preparou sua morte quando ela se cansou dele como amante.


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[1] Raij, Cleonice. 1999. A Filosofia Da Dor Nas Consolações De Sêneca. Letras Clássicas, nº 3 (outubro), 11-21. https://doi.org/10.11606/issn.2358-3150.v0i3p11-21.

[2] Este texto não é de Sêneca, mas falsamente atribuído a ele na idade média, assim como suas supostas cartas a Paulo de Tarso (São Paulo)

[3] Memento mori é uma expressão latina que significa algo como “lembre-se de que você é mortal”, “lembre-se de que você vai morrer” ou traduzido literalmente como “lembre-se da morte”.

[4] Sêneca descreve as funções de Políbio na seção VI, 5.

[5] Caio Suetônio Tranquilo, (em latim: Gaius Suetonius Tranquillus, Roma, 69 d.C. — ca. 141 d.C.) dedicou-se às armas e às letras. Escreveu as Vidas dos Doze Césares, tendo sido contemporâneo na idade adulta apenas do último de seus biografados, Domiciano. Teve prestígio na corte de Adriano, tendo sido secretário. Suetônio foi um grande estudioso dos costumes de sua gente e de seu tempo e escreveu um grande volume de obras eruditas, nas quais descrevia os principais personagens da época. Foi, sobretudo, um indiscreto devassador das intimidades da corte romana, dando-nos uma visão íntima dos vícios dos imperadores e das picuinhas que dividiam a nobreza.

[6] Dião Cássio foi um historiador romano, publicou a História de Roma em 80 volumes.

Resenha: Sobre a Providência Divina

o desastre é a oportunidade da virtude

IV, 6

Sobre a Providência DivinaDe Providentia” é um ensaio em forma de diálogo em seis breves seções, escrito por Sêneca nos últimos anos de sua vida. Trata do problema da coexistência da providência divina com o mal no mundo. Foi endereçado á Lucílio, também destinatário das 124 cartas morais escritas por Sêneca.

O título completo da obra é “Quare bonis viris multa mala accidant, cum sit providentia” (“Por que infortúnios atingem os homens de bem, mesmo existindo a providência”). Este título mais longo reflete o verdadeiro tema do ensaio, que não se preocupa tanto com a providência[1], mas com a teodiceia[2] e a questão de por que coisas ruins acontecem com as pessoas boas.

O diálogo é iniciado por Lucílio reclamando com seu amigo Sêneca que adversidades e infortúnios também podem acontecer com homens bons. Como isso pode se encaixar com a bondade associada ao desígnio da providência? Sêneca responde de acordo com o ponto de vista estoico. Nada realmente ruim pode acontecer com o homem bom (o sábio), porque os opostos não se misturam. O que parece adversidade é na verdade um meio pelo qual o homem exerce as suas virtudes. Como tal, ele pode sair da experiência mais forte do que antes pois as calamidades não passam de desafios impostos aos homens de valor, para que se fortaleçam. Sêneca afirma que o homem de bem ”considera todas as desgraças como exercícios para sua própria firmeza” (§II, 2).

Assim, em perfeita harmonia com a filosofia estoica, Sêneca explica que o homem verdadeiramente sábio jamais poderá se render diante das desgraças, mas que como sempre passará por elas e mesmo que caia, continuará lutando de joelhos (“si cecidit de genu pugnat“). O sábio compreende a Fortuna e seu desígnio, e por isso não tem nada a temer do futuro. Tampouco tem expectativa de qualquer coisa, pois já tem tudo o que precisa: sua a virtude.

Sêneca não se apóia exclusivamente no estoicismo, mas também nas lições de sua vida glorioa e atribulada, em que não faltaram desafios. Sobre a Providência Divina foi escrito pouco tempo antes de Sêneca ser condenado a cometer suicídio por ordem de Nero. Antes Sêneca fora condenado à morte (e perdoado) por Calígula e também a oito anos de exílio pelo imperador Cláudio. Semanas antes de seus exílio Sêneca sofreu com a morte de seu único filho, ainda criança.

Conhecendo sua história, as palavras têm relevância e sabor especial. Sêneca torna o texto interessante graças a seu estilo persuasivo e poético, repleto de figuras de linguagem, parábolas e anedotas edificantes e enfáticas de personagens da antiguidade. O recurso, no entanto, o que se tomou sua marca foi o uso esmerado de frases curtas e pungentes, de muito efeito e alta expressividade, em forma de provérbios: “força e coragem definham sem um antagonista”(§II); “a má Fortuna que descobre gloriosos exemplos.”(§III); “o desastre é a oportunidade da virtude”(§IV);

Sêneca afirma que a má sorte além de provar o caráter do homem, atrás a verdadeira felicidade:

Ninguém me parece mais infeliz do que o homem a quem nenhuma desgraça jamais aconteceu. Nunca teve a oportunidade de testar a si mesmo; embora tudo lhe tenha acontecido conforme seu desejo, não, mesmo antes de ter formado um desejo, ainda assim os deuses o julgaram mal; nunca foi considerado digno de vencer a má fortuna, o que evita os maiores covardes.” (III, 3)

A conclusão é que, na verdade, nada de mal acontece aos homens bons. Basta entender o que significa mau: mau para o sábio seria ter maus pensamentos, cometer crimes, desejar dinheiro ou fama. Quem se comporta sabiamente, já tem todo o bem possível, todo o restante é indiferente.

Os únicos bens verdadeiros são os interiores, permanentes, e invulneráveis pelo destino(Fortuna), ao passo que a riqueza exterior é fútil e passageira acarretando uma felicidade fraca.


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Notas

[1] A Providência designa a ação no mundo de uma vontade externa (não humana, transcendente), levando os eventos a um fim. Referida como providência divina é um termo teológico que se refere a um poder supremo, superintendência, ou agência de Deus ou alguma divindade sobre eventos. Durante a Antiguidade, os debates filosóficos opuseram os epicuristas, segundo os quais a origem e a evolução do universo são precisamente apenas uma questão de acaso, aos estoicos neoplatonistas, para os quais – pelo contrário – elas resultam da vontade de um Criador ou mesmo da ação da natureza/universo (Logos para os estoicos).

[2] Teodiceia é um termo derivado do título da obra Ensaio de Teodiceia do filósofo alemão Leibniz, que justifica a existência de Deus a partir da discussão do problema da existência do mal e de sua relação com a bondade de Deus.

Resenha: Sobre a Constância do Sábio

Sobre a Constância do Sábio é um ensaio moral escrito por Sêneca em forma de um diálogo. A obra celebra a serenidade do sábio estoico ideal que, com firmeza interior, é imune às injúrias e adversidades. É dirigido ao seu amigo Aneu Sereno e foi escrito entre os anos 47 e 62, sendo um dos três diálogos endereçados a Sereno, que também inclui “Sobre a tranquilidade da alma” e “Sobre o ócio”.

O ensaio apresenta a ideia do sábio estoico em termos claros e práticos: ele é um modelo a ser almejado, mas é uma figura plausível. De certa forma, o papel do sábio no estoicismo é semelhante ao de Jesus Cristo ou Buda: mostrar o caminho. Contudo Sêneca deixa claro que está falando de pessoas reais ao mencionar uma em particular, Marco Catão:

“Não venha dizer, tal como é seu costume, que esse nosso sábio não existe em lugar algum. Não somos nós que projetamos essa fantasmagoria gloriosa do gênero humano, nem é ela mera idealização grandiosa de uma figura fictícia. …. Além do mais, esse mesmo Catão que motivou toda essa nossa explanação, receio que até supere o modelo em pauta.” (VII, 1)

Sêneca começa o ensaio lembrando seu amigo que o progresso requer esforço, mas que, tornar-se um estoico, não é tão difícil quanto muitos acreditam. Diz que coisas difíceis parecem impossíveis ao olhos dos não iniciados, mas uma vez iniciada a jornada, descobre-se o caminho:

“muitas serras vistas de muito longe parecem íngremes e agrupadas, porque a distância engana nossa visão, e então, à medida que nos aproximamos, aquelas mesmas serras que nossos olhos equivocados haviam unido se desdobram gradualmente, aquelas partes que pareciam precipitadas de longe, assumem um contorno suavemente inclinado.” (I, 2)

No capítulo V, é feita então a distinção entre iniuria (injúria) e contumelia (insulto), seguindo o ensaio com discussões sobre a natureza dos dois temas, mostrando que o sábio é imune tanto a insultos quanto a injúrias. Apesar das palavras soarem como sinônimos atualmente, Sêneca as usa de forma distinta “deixe-nos distinguir injúria e insulto. O primeiro é naturalmente o mais doloroso, o segundo menos importante, e doloroso apenas para os de pele fina, pois enfurece os homens, mas não os fere…” (V,1)

Na sequência, Sêneca afirma que nem mesmo a Fortuna pode tirar-nos o que não nos deu, e que portanto, nada nos pode tirar a virtude, porque a virtude não nos é dada, é algo que vem de dentro. Sendo assim, nenhum dano real pode ser infligido ao homem sábio. O tema da Fortuna volta na seção VI, onde Sêneca diz: “pode suportar as adversidades com calma e a prosperidade com moderação, não cedendo à primeira nem confiando na segunda, podendo permanecer o mesmo em meio a todas as variantes da Fortuna, e não pensando que nada seja seu, a não ser ele próprio“. A frase é um bom resumo da atitude estoica para com os “indiferentes“, ou seja, coisas que estão fora de nosso controle.

Outra característica do sábio é que ele está livre do medo, pois o medo se origina na percepção de que a pessoa pode ser ferida, mas como já vimos, nada pode realmente ferir o sábio. Esse ponto é esclarecido adiante:

Algumas outras coisas atingem o sábio, embora não abalem seus princípios, como a dor e a fraqueza corporal, a perda de amigos e filhos e a ruína de seu país em tempos de guerra.Não negamos que é uma coisa desagradável ser espancado ou golpeado, ou perder um de nossos membros, mas dizemos que nenhuma dessas coisas são injúrias. Não lhes tiramos a sensação de dor, mas o nome de “injúria”, que não pode ser atribuído enquanto a nossa virtude estiver intacta. (X,4 e XVI,2)

Nos capítulos XI e XII Sêneca aprofunda o argumento de que o sábio não pode ser insultado. Ele nos lembra que crianças pequenas nos fazem todo tipo de coisas que não são agradáveis, e ainda assim não nos sentimos ofendidos pelo seu comportamento. De forma análoga, o sábio trata como crianças as pessoas que tentam feri-lo por insultos: devem ser ignoradas, ou corrigidas, se possível. Mais a frente, aprendemos que o sábio não tem prazer em ser admirado, seja por mendigos ou por milionários: “Assim também não se admirará a si mesmo, ainda que muitos homens ricos o admirem; pois sabe que eles não diferem em nenhum aspecto dos mendigos – não, são ainda mais infelizes do que eles; pois os mendigos só querem um pouco, enquanto os ricos querem muito.” (XIII, 3)

Mais uma passagem excepcional vem no capítulo XVI, quando Sêneca considera duas possíveis razões pelas quais algo de ruim nos acontece, e ensina como devemos responder de forma estoica:

Será que estas coisas me acontecem merecidamente ou sem merecer? Se merecidamente, não é um insulto, mas uma sentença judicial; se imerecidamente, quem faz injustiça deve se envergonhar, não eu”. (XVI, 3)

Segue-se com a sugestão de usar o humor autodepreciativo para lidar com insultos, porque é difícil rir de alguém que ri de si próprio antes. Além disso, porque essa é uma maneira muito eficaz de simplesmente estragar a diversão do seu oponente. Em linhas gerais, “o sucesso de um insulto reside na sensibilidade e na raiva da vítima.” (XVI, 4)

Tudo considerado, a imagem do sábio que emerge deste texto é, como prometido no início, a de alguém que pode, com esforço, ser copiado. A sabedoria não é inalcançável e lutar por ela é certamente o objetivo do estudante de estoicismo, ou seja, todos nós que somos imperfeitos.


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Resenha: Sobre a Tranquilidade da Alma (Parte 2)

Continuamos com a análise do diálogo Sobre a Tranquilidade da Alma. Primeira parte aqui.

Após tratar de preceitos sobre o patrimônio, “fonte mais fértil das dores humanas“, Sêneca se volta a discutir as vicissitudes da Fortuna, iniciando com a boa e tradicional sugestão estoica sobre como se adaptar a novas situações. Se você perdeu algo, até mesmo algo precioso, por causa das mudanças dos ventos da Fortuna, basta lembrar que “Em cada estação da vida você encontrará diversões, relaxamentos e prazeres; isto é, desde que esteja disposto a fazer dos males mais leves ao invés de odiosos” (X,1).

A isto, seguem citações clássicas que são joias de sabedoria que não requerem nenhuma adição:

Quando (o sábio) for convidado a desistir deles, não se queixará da Fortuna, mas dirá: “Agradeço-lhe pelo que tive em meu poder”. Tenho administrado a sua propriedade de modo a aumentá-la em grande parte, mas como você me ordenou, eu a devolvo e a devolvo de boa vontade e com gratidão” (XI, 2).

Que dificuldade pode haver em retornar ao lugar de onde se veio? Um homem não pode viver bem se não souber morrer bem” (XI, 4).

Doença, cativeiro, desastre, conflagração, nenhum deles é inesperado: Eu sempre soube com que companhia desordenada a Natureza me tinha associado” (XI, 7).

Nos capítulos XII e XIII são abordadas as fontes de inquietações oriundas de circunstâncias pessoais, tendo em vista as atribulações da Fortuna: falsos desejos relativos a bens e honrarias, atividades públicas e privadas. Sêneca adverte seu amigo sobre o perigo de se ocupar apenas para fazer algo, ao invés de fazer boas escolhas sobre como empregar seu tempo. Ele imagina um breve diálogo com quem não sabe o que está fazendo nem o porquê: Para onde você vai?” Ele responderá: “Por Hércules, eu não sei: mas verei algumas pessoas e farei alguma coisa“. Provavelmente conhecemos pessoas assim, veja que as coisas não mudaram tanto assim em dois milênios.

Segue-se que aceitamos o destino pelo que ele é, e de fato tentamos fazer o melhor com as novas circunstâncias. Sêneca lembra o exemplo de Zenão – o fundador da Escola – que perdeu tudo em um naufrágio e começou a estudar filosofia, dizendo:

A fortuna comanda que eu fique mais desimpedido para filosofar” (XIV, 3).

Já nos capítulos XV e XVI são tratadas as fontes de inquietações oriundas de circunstâncias externas. Sêneca compara duas atitudes diferentes em relação à vida: a trágica e a cômica, aconselhando que devemos seguir Demócrito e não Heráclito:

O último deles, sempre que aparecia em público, costumava chorar, o primeiro ria. Um pensava que todos os atos humanos eram tolices, o outro pensava que eram desgraças. Devemos ter uma visão mais elevada de todas as coisas e suportar com mais facilidade. É melhor ser homem a rir da vida do que a lamentar por ela” (XV, 2).

Mas é claro que Sêneca compreende que algumas vezes a vida é uma tragédia, como quando pessoas boas (ele menciona Sócrates, Rutílio, Pompeu, Cícero e Catão) são tratadas com injustiça. Mesmo assim, pode-se tirar lições valiosas:

veja como cada um deles suportou o seu destino, e se o suportaram com bravura. Deseje em seu coração uma coragem tão grande quanto a deles… Todos esses homens descobriram como, ao custo de uma pequena porção de tempo, eles poderiam obter a imortalidade e, com suas mortes, ganharam a vida eterna” (XVI, 2-4).

No último capítulo, Sêneca afirma que a alma dos homens deve ter um repouso, devemos mesclar solidão com contato social, trabalho com lazer e aproveitar jogos, diversão e bebidas, tudo porém, com moderação: “Não devemos forçar as colheitas dos campos férteis, porque um curso ininterrupto de colheitas abundantes logo esgotará sua fertilidade, e assim também a vitalidade de nossas mentes será destruída pelo trabalho incessante, mas elas recuperarão suas forças após um curto período de descanso e alívio.”

Esta última seção aniquila a injustificada acusação de que os estoicos seriam estraga-prazeres, recomendando brincar com crianças como Sócrates, dançar como Cipião, passear ao ar livre e beber como Catão e Sólon:

Por vezes, ganhamos força ao dirigir, ao viajar, ao trocar de paisagem ou de convívio social, ou ao fazer refeições com uma mesa mais generosa de vinho. Às vezes, devemos beber até a embriaguez, não para nos afogarmos, mas apenas para nos imergirmos no vinho, porque o vinho lava os problemas e nos afasta das preocupações das profundezas da mente, e age como remédio para a tristeza” (XVII, 8).

Um brinde a Sêneca!


Não se sabe quando o diálogo Sobre a tranquilidade da alma foi escrito. Pode ter sido composto e publicado no período entre o início dos anos 50 até por volta de 62 ou 63.

Aneu Sereno é destinatário não só da obra Sobre a Tranquilidade da Alma, mas também de Sobre a Constância do Sábio e ainda de Sobre o Ócio. Foi um grande amigo de Sêneca, pertencente à ordem equestre, formada pelos cidadãos mais abastados. Sereno também tinha cargo na administração pública, tendo obtido, por influência de Sêneca, a função de praefectus, responsável por combate a incêndios, atividade importante na cidade de Roma. Era bastante jovem e teve uma morte prematura, segundo Sêneca noticia na carta 63 a Lucílio.

(imagem, Diogenes por John William Waterhouse)

Resenha: Sobre a Tranquilidade da Alma

O diálogo Sobre a Tranquilidade da Alma foi claramente escrito como um meio de orientação para todos aqueles que aspirassem a dedicar-se ao aperfeiçoamento moral. É dirigido ao amigo Aneu Sereno destinatário também das obras Sobre a Constância do Sábio e ainda de Sobre o Ócio. Foi um grande amigo de Sêneca, pertencente à ordem equestre, formada pelos cidadãos mais abastados. Sereno também tinha cargo na administração pública, tendo obtido, por influência de Sêneca, a função de praefectus, responsável por combate a incêndios, atividade importante na cidade de Roma.

No texto é dito que o amigo é seguidor de Epicuro, talvez por isso, Sêneca apresenta o estoicismo em termos muito claros e concentra em conselhos construtivos e práticos. Sêneca apresenta a resposta da doutrina estoica para nos ajudar a superar os tormentos causados pelos temores e desejos humanos e alcançar a tranquilidade, o estado ideal de serenidade vivenciado de forma plena e permanente pelo sábio estoico.

Para que a resenha não fique muito longa, está dividida em duas partes, segue a primeira, com meus comentários sobre os primeiros nove capítulos:

Sobre a Tranquilidade da Alma começa com uma carta de Sereno pedindo conselhos e dizendo que sente ter um bom domínio sobre alguns de seus vícios, mas não sobre outros, e,  como resultado disso, sua alma não tem tranquilidade. Diz “Eu não estou doente nem saudável” e percebe que seu julgamento sobre seus próprios assuntos é distorcido por preconceitos pessoais.

Estou bem ciente de que essas oscilações da alma não são perigosas e nem me ameaçam de nenhuma desordem séria. Para expressar aquilo de que me queixo por um simulacro exato, não estou sofrendo de uma tempestade, mas de enjoo do mar. Tire de mim, pois, esse mal, seja ele qual for, e ajude aquele que está em aflição mesmo ao avistar a terra“. (I, 17)

Sereno lista seus problemas:

  • hesitação diante do desejo de bens e de prazeres corporais (§5-9);
  • alternância entre desejo de atuação social e de recolhimento aos estudos (§10-12) ;
  • dilema ético e estético relativo a busca pela fama (§13-14).

Apresentados os sintomas, fazendo uso da imagem do paciente frente ao médico, Sereno pede o diagnóstico e o remédio: “Rogo, então, se tem algum remédio que possa deter esta minha vacilação e me faça digno de lhe dever a paz de espírito”.

A resposta de Sêneca toma os demais capítulos e começa com a descrição completa das características da doença. Informa a Sereno que ele busca a coisa mais importante da vida, um estado que chama de tranquilidade (tranquillitas) e que os gregos chamavam de euthymía(II,3). A definição de tranquilidade é fantastica, e deve ser colocada na íntegra:

“O que buscamos, então, é como a alma pode sempre seguir um rumo firme, sem percalços, pode estar satisfeita consigo mesma e olhar com prazer para o que a rodeia, e não experimentar nenhuma interrupção dessa alegria, mas permanecer em uma condição pacífica, sem nunca estar eufórica ou deprimida: isso será ‘tranquilidade’.” (II,4)

Ele então explica que há vários tipos de homens que não alcançam a tranquilidade da alma, por diferentes razões. Alguns sofrem de inconstância, mudando continuamente seus objetivos e mesmo assim sempre lamentando do que acabaram de desistir. Outros não são inconstantes, mas ficam numa posição infeliz por seu entorpecimento. Eles “continuam a viver não da maneira que desejam, mas da maneira que começaram a viver“, ou seja, por inércia (II,6). Outros ainda acreditam que a maneira de vencer a sua inconstância é viajando para longe, mas é claro que apenas carregam consigo seus próprios problemas: “Assim, cada um sempre foge de si mesmo” (II,14). Sêneca conclui seu preâmbulo sugerindo que nossos problemas não residem no lugar onde vivemos, mas em nós mesmos, e retoricamente pergunta: “Por quanto tempo vamos continuar fazendo a mesma coisa? (II,15)

A partir do capítulo III Sêneca apresenta uma série de conselhos específicos para Sereno sobre como alcançar a tranquilidade da alma. O primeiro vem de Atenodoro: “O melhor é ocupar-se dos negócios, da gestão dos assuntos do Estado e dos deveres de um cidadão“. Isso porque estar a serviço dos outros e do próprio país é, ao mesmo tempo, exercitar-se em uma atividade e fazer o bem. Mas também se pode fazer o bem e manter-se ocupado engajando-se na filosofia. Esse tipo de ocupação proporcionará satisfação e, portanto, tranquilidade de espírito e tornará nossas vidas diferentes daquelas de pessoas que não terão nada para mostrar ao final das suas: “Muitas vezes um homem de idade avançada não tem outro argumento com que comprove ter vivido longo tempo exceto seus anos.” Segue-se então com preceitos sobre atividades e sobre o ócio (negotia × otium).

Nos capítulos VI e VII Sêneca elucida como se auto avaliar e assim conseguir escolher um caminho onde é possível ter sucesso. Começa por advertir seu amigo que é comum as pessoas pensarem que podem conseguir mais do que realmente conseguem. A pessoa sábia, ao invés disso, está ciente das suas limitações. Também é preciso lembrar que algumas buscas simplesmente não valem o esforço e devemos nos afastar delas porque nosso tempo na vida é curto e precioso. E então, diz Sêneca, “apegue-se a algo que possa terminar, ou, pelo menos, que acredite poder terminar” (VI,4). Devemos também ter cuidado na escolha de nossos associados, dedicando partes de nossas vidas a pessoas que valham o esforço. Além disso, nossas buscas devem ser do tipo que nós realmente gostamos, se possível: “pois nenhum bem se faz forçando a alma a se engajar em um trabalho não apropriado: quando a Natureza resiste, o esforço é vão.“(VII,2)

Os capítulos VIII e IX tratam de preceitos sobre o patrimônio, “fonte mais fértil das dores humanas” (VIII,1). Sêneca adverte Sereno que, em sua experiência, os ricos não suportam perdas melhor do que os pobres, pois “dói aos carecas tanto quanto aos cabeludos terem seus cabelos arrancados” (VIII,3).

“Patrimônio, essa fonte mais fértil das dores humanas: se compararmos todos os outros males de que sofremos – mortes, enfermidades, medos, arrependimentos, dores e fadigas – com as misérias que o nosso dinheiro nos inflige, este último pesará muito mais do que todos os outros. Reflita, pois, quanto menos dor é nunca ter tido dinheiro do que tê-lo perdido. (VIII, 1-2)

É por isso que Diógenes não era dono de nada, para impossibilitar que alguém pudesse tirar algo dele: “Fortuna, não se intrometa: Diógenes não tem mais nada que lhe pertença“(VIII,7).

É claro que o próprio Sêneca não era nenhum Diógenes, e na verdade era um homem muito rico. Ele frequentemente foi atacado e acusado de hipocrisia por causa disso, mas seu ponto é que não se deve ter apego aos bens materiais. É possível ter bens, desde que não seja possuído por seu patrimônio. Ainda assim, na mesma seção ele aconselha a reduzir a quantidade de nossos bens, de modo a diminuir a probabilidade de nos apegarmos a eles de forma exagerada:

Nunca poderemos afastar a tão profunda e vasta diversidade da iniquidade com que somos ameaçados a ponto de não sentir o peso de muitas tempestades, se oferecermos largas velas ao vento do mar” (IX,3).

O capítulo IX termina com uma frase muito citada de Sêneca, porém citada de forma enganosa, pois ele critica homens que compram livros e não os estudam:

Você verá as obras de todos os oradores e historiadores empilhadas sobre estantes que chegam até o teto. Nos dias de hoje, uma biblioteca tornou-se tão necessária como um apêndice de uma casa como um banho quente e frio.” (IX,7)

Paramos por aqui. E alguns dias sigo com o restante da obra.


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Resenha: Estoicismo, por George Stock

A obra “Estoicismo” de George Stock é uma envolvente explicação do estoicismo clássico. O autor, de forma concisa e compreensível, escreveu o guia desta escola, abordando não só a Ética estoica, mas também sua LógicaFísica, tanto ignoradas nos estudos atuais.

Logo no início, de forma até injuriosa, Stock afirma: “Se você despir o estoicismo de seus paradoxos e seu mau uso intencional da linguagem, o que resta é simplesmente a filosofia moral de Sócrates, Platão e Aristóteles, temperada com a física de Heráclito“. Contudo, no decorrer do texto Stock se mostra um erudito com profundo conhecimento dos autores estoicos e da filosofia clássica como um todo.

Todas suas afirmações são fundamentas por textos clássicos. Nas centenas de notas de rodapé Stock cita com precisão filósofos como Sêneca, Cícero, Aristóteles, Epicteto, Marco Aurélio; historiadores como Plutarco, Diógenes Laércio, Estobeu e poetas como Horácio, Pérsio, Virgílio e Juvenal. Nenhuma afirmação importante é deixada sem a indicação da autoridade clássica que defende a tese. Stock demonstra conhecimento enciclopédico da filosofia greco-romana.

Nas seções abaixo, um breve sumário de cada capítulo com alguns trechos:

Filosofia entre os Gregos e Romanos

Stock explica a relação dos antigos com a filosofia, afirmando que seria algo similar a função hoje ocupada pela religião. Na sequencia fala sobre o criador do estoicismo, Zenão das bases da escola.

  • Entre os gregos e romanos clássicos, a filosofia ocupava o lugar que a religião tem entre nós. O apelo deles era à razão, não à revelação. Onde, pergunta Cícero, devemos buscar a formação em virtude, se não na filosofia?
  • O estoicismo foi criado a partir do cinismo, enquanto o epicurismo foi criado a partir da escola cirenaica.
  • … os estoicos identificaram uma vida de acordo com a natureza com uma vida de acordo com a mais alta perfeição à qual o homem poderia alcançar. … E a perfeição da razão era a virtude.

Divisão da Filosofia

Descreve como a filosofia estoica é divida e os motivos dessa divisão:

  • A filosofia era definida pelos estoicos como “o conhecimento das coisas divinas e humanas“. Foi dividida em três tópicos: lógica, ética e física.
  • A filosofia deve estudar a natureza (incluindo a natureza divina) ou o homem e, se estuda o homem, deve considerá-lo do lado do intelecto ou dos sentimentos, seja como um ser pensante (lógica) ou como um ser atuante (ético).
  • É uma metáfora preferida da escola comparar a filosofia a um vinhedo ou pomar fértil. Ética era o bom fruto, física as plantas altas, e lógica o muro forte. O muro existia apenas para guardar as árvores, e as árvores apenas para produzir os frutos

Lógica

Stock parte então para detalhar cada uma das divisões, começando pela Lógica que afirma ser o ponto forte dos estoicos, em oposição retórica onde deixavam a desejar. Aborda os silogismos e questões dialéticas debatidas pelos estoicos gregos:

  • Lógica no seu conjunto é dividida em retórica e dialética: a retórica foi definida como o conhecimento de como falar bem nos discursos expositivos e dialética como o conhecimento de como argumentar corretamente em assuntos de pergunta e resposta.
  • A famosa comparação da mente infantil com uma folha de papel em branco, que ligamos tão de perto com o nome de Locke, vem realmente dos estoicos. Os caracteres mais antigos nela inscritos eram as impressões de sentido, que os gregos chamavam de “representações”. Uma representação foi definida por Zenão como “uma impressão na alma”.
  • Ao examinarmos os detalhes que nos restam da lógica estoica, a primeira coisa que nos impressiona é a sua extrema complexidade em comparação com a aristotélica.

Ética

Este é o capítulo mais interessante do livro, onde Stock explica as quatro virtudes cardeais da Sabedoria, Temperança, Coragem e Justiça que os estoicos definiram como ramos do conhecimento. O conceito de “Indiferentes” é magnificamente clarificado:

  • Para a teoria estoica, as paixões eram simplesmente o intelecto em estado de doença, devido às perversões da falsidade. É por isso que os estoicos não se deixariam enganar pela paixão, concebendo que, uma vez deixada entrar na cidadela da alma, ela se sobreporia ao governante legítimo.
  • Embora todas as paixões fossem condenadas em si mesmas, havia, no entanto, certas “eupatias“, ou boas emoções (ou paixões saudáveis), que seriam experimentadas pelo homem idealmente bom e sábio.
  • As coisas foram divididas por Zenão em boas, más e indiferentes. Ao que era bom pertencia a virtude; ao que era mau, o vício. Todas as outras coisas eram indiferentes.
  • Por coisas indiferentes, entendidas como não necessariamente contribuintes para a virtude. Seriam por exemplo, saúde, riqueza, força e honra. É possível ter tudo isso e não ser virtuoso, é possível também ser virtuoso sem isso. Mas agora temos de aprender que, embora essas coisas não sejam boas nem más e, portanto, não sejam matéria de escolha ou de abstinência, elas estão longe de ser indiferentes, no sentido de não suscitar nem impulso nem repulsa.

Física

Neste capítulo é abordado a visão estoica da natureza. Qual era a visão estoica sobre as leis do universo no que diz respeito à matéria e à energia, seus constituintes, e suas interações. Para os estoicos o espírito era algo material, um tipo de gás ou éter.

  • O passivo era aquele ser inqualificável que é conhecido como Matéria. O ativo era o Logos, ou a razão nela, que é Deus. Sustentavam que impregnava infinitamente a matéria e criava todas as coisas
  • Um elemento era definido como aquele a partir do qual as coisas surgiram no início e no qual serão finalmente dissolvidas. Os termos terra, ar, fogo e água tinham de ser tomados num sentido amplo: terra significa tudo o que era da natureza da terra, ar, tudo o que era da natureza do ar e assim por diante. Portanto, na estrutura humana, os ossos e os nervos pertenciam à terra.

Conclusão

No último capítulo Stock faz um resumo do estoicismo e, em oposição ao dito no prefácio, se mostra extremamente favorável à escola, destaca o as aspecto cosmopolita e tolerante dos estoicos, afirmando terem sido os primeiros a “reconhecer plenamente o valor do homem como homem“:

  • A ausência de qualquer apelo a recompensas e castigos era uma consequência natural do princípio central da moral estoica: essa virtude é em si a mais desejável de todas as coisas.
  • Apesar da falta de sentimento de que os estoicos se glorificaram, ainda é verdade dizer que a humanidade de seu sistema constitui uma de suas mais justas reivindicações em nossa admiração. Foram os primeiros a reconhecer plenamente o valor do homem como homem;
  • O Estado ideal de Aristóteles, como a República de Platão, ainda é uma cidade grega; Zenão foi o primeiro a sonhar com uma república que deveria abraçar toda a humanidade.
  • A virtude, com os primeiros filósofos gregos, era aristocrática e exclusiva. O estoicismo, assim como o cristianismo, abriu-a para o mais insignificante da humanidade.
  • Onde quer que houvesse um ser humano, lá o estoicismo via um campo para o bem fazer. Seus seguidores deviam ter sempre na boca e no coração a conhecida frase: “Sou homem; nada do que é humano, considero estranho a mim

Este livro, relativamente curto, é um excelente guia da escola do pórtico.


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Resenha: Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres por Diógenes Laércio

Livro - Diogenesv

Li o livro sobre os estoicos de Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres por Diógenes Laércio em tradução publicada pela Montecristo Editora.

Trata-se de uma compilação da vida e as ideias dos mais importantes pensadores gregos. É principalmente uma história da vida dos filósofos, tendo a filosofia defendida por estes apenas como parte acessória do texto.

Começa com a vida de Zenão, o fundador do estoicismo, narrando como ele veio a ter contato com a filosofia, como estudou com os cínicos e depois criou sua própria linha de pensamento. Outro grande mérito da obra é a narrativa viva da atmosfera do mundo antigo, via numerosos detalhes anedóticos das vidas dos mestres:

A um rapaz que falava tolices suas palavras foram: “A razão de termos duas orelhas e somente uma boca é que devemos ouvir mais e falar menos.” (VII, 23)

Apolônio de Tiro conta  a seguinte anedota: quando Crates o puxou pelo manto para afastá-lo de Estilpo, Zenão disse: “Os filósofos dispõem de um meio excelente, Crates: atacar os outros pelos ouvidos. Persuada-me, então, e leve-me contigo; mas, se me levar à força, meu corpo estará contigo, porém a alma permanecerá com Estilpo.” (VII, 24)

Após a biografia de Zenão, vem o componente principal do livro, a Exposição da filosofia estoica por Diógenes Laércio. Esta sem dúvida constitui a fonte principal para o conhecimento do estoicismo grego, e é importante para o estudo do ceticismo e das ramificações da filosofia socrática bem como do epicurismo. Os parágrafos 39 a 159 são o cerne da obra e merecem leitura atenta. Alguns trechos:

  • Os estoicos dividem a filosofia em três partes: física, ética e lógica. (…) comparam a filosofia a um ser vivo, onde os ossos e os fibras correspondem à lógica, as partes carnosas à ética e a alma à física. Ou então comparam a um ovo: casca à lógica, a parte seguinte (a clara) à ética, e a parte central (a gema) à física. (VII, 39-40);
  • Afirmam que é extremamente útil o estudo da teoria dos silogismos. Ela ensina o método demonstrativo, que contribui consideravelmente para a formação correta dos juízos, para sua disposição e para sua memorização, e ensina ainda a adquirir com bastante segurança conhecimentos científicos. (VII, 45);
  • Por isso Zenão foi o primeiro, em sua obra Da Natureza do Homem, a definir o fim supremo como viver de acordo com a natureza, ou seja, viver segundo a excelência, porque a excelência é o fim para o qual a natureza nos guia. (VII, 87);
  • Segundo os estoicos, a alma se compõe de oito partes: os cinco sentidos, o órgão vocal, a faculdade de pensar (que é a própria mente) e a faculdade geradora. Do falso resulta a perversão do pensamento, e dessa perversão resultam muitas paixões causadoras de instabilidade. (VII, 110);

Após o resumo do estoicismo, Laércio passa para a biografia dos discípulos e sucessores de Zenão, indicando os pontos sobre os quais estes estoicos se diferenciaram do mestre. Os filósofos descritos são Aríston, Hérilos, Dionísio, Cleantes, Esfero e Crísipo.  Infelizmente parte da obra foi perdida e o texto termina abruptamente durante o relato da vida de Crísipo, sabe-se que continuava com outros 13 filósofos.

Alguns trechos são pouco interessantes, e têm linguagem estranha. De toda forma é uma excelente leitura para quem quer conhecer os primórdios do estoicismo.

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