Eis nossa Luta: Enlouquecer ou não.

Mais um excelente artigo de Aldo Dinucci, falando da industria cultural e como garimpar joias culturais na imensidão de banalidades da internet. Critica também o modismo do estoicismo como autoajuda voltado ao sucesso pessoal.

Para se tornar produto vendável e caber na diminuta caixinha de papelão do mercado, foi preciso amputar boa parte de sua proposta filosófica original. Pior: deixou de ser uma filosofia, lançou-se no lixo sua lógica, sua metafísica, sua crítica aos costumes, seu pensamento político, e foi reduzido a um prontuário de prescrições para indivíduos vitimados pela falta de perspectivas da atualidade, para os quais já se produz a literatura de autoajuda em geral. 

Se não é possível mudar o mundo em larga escala, é sempre possível mudar o mundo no nosso entorno imediato e em nossa cabeça. 

Artigo publicado originalmente VIVA VOX ESTOICISMO em 04 de maio de 2022.


Eu, os Estoicos e a Indústria Cultural

Por Aldo Dinucci

Tive o privilégio de viver parte de minha infância e de minha adolescência em Petrópolis, entre os anos 70 e 80. Na época, era uma cidade ainda pacata, mas com tradição cultural. Havia vários sebos pela Rua do Imperador, nos quais excelentes bibliotecas de falecidos intelectuais petropolitanos podiam ser compradas a retalho. Graças a esse fato, tive acesso à grandes obra da literatura ocidental e brasileira: boas edições de obras de Homero, Virgílio, Dante, Kaváfis, Gide, Exupéry, Graciliano, Mário de Andrade, Vinicius, Jung, Platão, Lucrécio, entre outros, podiam ser compradas por uns trocados. Tive acesso assim à boa literatura, evidentemente fundamental para a minha formação. A atmosfera bucólica da cidade, o clima ameno, o casario antigo e suas montanhas repletas de florestas da Mata Atlântica de Altitude colaboraram para que eu pudesse ler e absorver essas obras.

Não havia internet, mas, pelo rádio, podíamos ouvir uma programação musical de qualidade. Havia, por exemplo, a JB FM, que transmitia músicas clássicas pela noite, em uma programação que enviavam pelo correio em um folheto aos que o requisitassem por carta. Havia também a Rádio Mec, que apresentava sempre o melhor da MPB. Por esses meios, conheci Rachmaninoff, Prokofiev, Jobim, Vinicius (de novo!), Dick Farney, Chopin, Debussy, Cartola, entre tantos outros, responsáveis por constituir, nota por nota, diversos platôs de minha alma.

Os estoicos, na Antiguidade, viviam imersos culturalmente no que havia de melhor em sua época: conheciam profundamente os poetas trágicos, sabiam de cor miríades de versos de Homero e Virgílio, além, é claro, de todo o tesouro cultural filosófico da Antiguidade. Eram intelectuais, incluindo polímatas, como Possidônio; lógicos, como Crisipo, Carnéades e Antípatro; astrônomos, como Gêmino de Rodes e Cleomedes; intelectuais multifacetados, como Sêneca. 

Naqueles tempos, como em todos os tempos, havia uma cultura popular. Entre os ingredientes nada apetecíveis da cultura popular romana, estavam os jogos de gladiadores, que envolviam, como bem se sabe, grande carnificina, e eram assistidos por multidões ensandecidas. Assim, não é de estranhar que filósofos como Sêneca e Marco Aurélio repudiassem essas manifestações culturais.

Os estoicos partem da tese socrática segundo a qual a humanidade é fundamentalmente insana, porque mergulhada na ignorância. A filosofia estoica, nesse sentido, consiste em reeducar o indivíduo para que ele possa se livrar dessa herança má do senso comum, o qual está sempre repleto de equívocos sobre o que é o humano e qual é sua relação com o Cosmos. Então, não é de surpreender que os estoicos fossem críticos ferrenhos dos costumes, não tentando corrigi-los diretamente, pois isso era algo que viam como ao mesmo tempo impossível e imoral, já que eles mesmos não se viam como detentores da verdade capazes de reeducar a humanidade, transmitindo suas reflexões somente àqueles que iam às escolas de filosofia em busca de esclarecimento. Epicteto resume, em um fragmento, a missão da filosofia estoica: 

Eis nossa Luta: Enlouquecer ou não. 

Passemos, agora, à nossa época. Podemos dizer que hoje temos o predomínio da indústria cultural [1], que tem, como critério principal, além da ideologia que tentam nos impingir, o lucro. Some-se a isso que, no Brasil, atravessamos um verdadeiro processo de invasão cultural norte-americana, via internet, tv, literatura etc desde os anos 80 [2]. Isso poderia até ser bom em alguma medida se não fosse acompanhado pela destruição de nossa cultura nacional e se o que eles nos enviam fosse cultura de qualidade. Mas, claro, não é. São filmes, música e literatura sem qualquer senso estético ou autenticidade. E sequer podemos criticar essas subculturas abertamente, pois logo somos tachados de elitistas.

Coloquei em itálico no parágrafo anterior o termo critério: de fato, já se sabe que não temos mais critérios estéticos nos dias de hoje, e como poderíamos tê-los se o critério passou a ser precipuamente o lucro? Assim, vivemos o predomínio absoluto, nas artes e na mídia, do que vende mais. Isso atinge todas as áreas da cultura: música, literatura, cinema, religião e… agora também filosofia. 

Como é sabido, a religião se tornou também um produto da indústria cultural, sobretudo através da teologia da prosperidade [3], que está de pleno acordo com o capitalismo e o consumismo atuais, o que explica seu grande sucesso de vendas.

Lamentavelmente, o estoicismo também virou um produto a mais da indústria cultural, vendido como panaceia contra os sofrimentos impostos pelo capitalismo tardio, enfatizando a resiliência e a luta contra o sofrimento. Para se tornar produto vendável e caber na diminuta caixinha de papelão do mercado, foi preciso amputar boa parte de sua proposta filosófica original. Pior: deixou de ser uma filosofia, lançou-se no lixo sua lógica, sua metafísica, sua crítica aos costumes, seu pensamento político, e foi reduzido a um prontuário de prescrições para indivíduos vitimados pela falta de perspectivas da atualidade, para os quais já se produz a literatura de autoajuda em geral. 

Não é preciso dizer que esse tal estoicismo, produto da cultura industrial, está em completa contradição com o estoicismo originário, que se constituía como escola filosófica, investigando em detalhe todas as partes da filosofia e criando laços de amizade e amor fraternal entre seus membros.

Finalmente chego ao ponto que almejei ao começar a escrever este texto. O que fazer diante desse cenário? Ou melhor, como um estoico antigo agiria diante de uma situação como a que vivemos? Primeiro, como observei em texto anterior, um estoico antigo não tentaria mudar o mundo sozinho, pois nem se vê com tal estatura moral, nem vê isso como possível. Segundo, creio eu, buscaria selecionar cultura de qualidade para si, como de fato o faziam. Aceitar que esta seja a situação do mundo não implica que aceitemos esta situação para nós mesmos. Se não é possível mudar o mundo em larga escala, é sempre possível mudar o mundo no nosso entorno imediato e em nossa cabeça. 

Assim, se a indústria cultural se me é imposta pela TV, desligo a TV. Se o jornal passa a ser suspeitoso quanto a me empurrar ideologia barata, evito lê-lo. Se a TV a cabo passa a me bombardear com filmes comerciais ruins, cancelo minha inscrição. Entrementes, me volto para os textos e para as culturas autênticas que formaram nossa civilização, como as dos gregos, dos romanos, dos orientais, dos africanos. Esses objetos culturais autênticos ainda existem e se escondem (ou antes foram abandonados) nas bibliotecas e nos museus, reais ou virtuais. Portanto, se não há mais critério de qualidade no mundo em que vivo senão aquele que a cultura industrial quer me impor, crio eu mesmo meus critérios e deixo o que a indústria cultural produz a quem interessar possa.

Efetivamente, não mudarei o mundo em larga escala com ações assim, e não o pretendo. Mas farei aquilo que os estoicos antigos almejavam: buscarei minha felicidade através de critérios escolhidos por mim mesmo, selecionando as coisas externas (que incluem livros, músicas, lugares, viagens, pessoas) de acordo com meus próprios critérios e gostos. Tenho praticado isso e isso tem me trazido grande alegria e felicidade. Afinal, a indústria cultural, apesar de poderosa financeiramente e espalhafatosa, entra em minha casa pelas estreitas portas das telas de TV, de computador e de celular. E posso fechar essas portas com apenas um dedo      

P.S. Este texto é resultado de conversas minhas com Marcos Vinícios Pereira de Almeida, mestrando em filosofia pela UFG, a quem agradeço pelas conversas inspiradoras.


[1] Que se pode definir como “ramo de negócios… que se apropriou dos meios tecnológicos surgidos na virada do século XIX para o XX com objetivos não apenas de lucrar com a produção e a venda de mercadorias culturais, mas também de direcionar… o comportamento das massas…” (Rodrigo Duarte, Indústria cultural e meios de comunicação. São Paulo: Martins Fontes, 2014, p. 28-9). 

[2] Quanto a isso, ver Júlia Falivene Alves, A invasão cultural norte-americana. São Paulo: Moderna, 2004.   

[3] “Teologia da prosperidade (também conhecida como Evangelho da prosperidade) é uma doutrina religiosa cristã que defende que a bênção financeira é o desejo de Deus para os cristãos e que a fé, o discurso positivo e as doações para os ministérios cristãos irão sempre aumentar a riqueza material do fiel. Baseada em interpretações não-tradicionais da Bíblia, geralmente com ênfase no Livro de Malaquias, a doutrina interpreta a Bíblia como um contrato entre Deus e os humanos; se os humanos tiverem fé em Deus, Ele irá cumprir suas promessas de segurança e prosperidade. Reconhecer tais promessas como verdadeiras é percebido como um ato de fé, o que Deus irá honrar.” (Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_prosperidade)

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