RedPill, Anti-feminismo e Estoicismo

No artigo “Guerreiros estoicos, Red Pill, Resiliência e Juventude Abandonada” Aldo Dinucci explica o movimento RedPill e sua tentativa de associação com o estoicismo, mostrando os equívocos de tal ligação e abordando hipóteses de sua origem.

Artigo publicado originalmente em Estoicismo Artesanal em 12 de junho de 2021.


Guerreiros estoicos, Red Pill, Resiliência e Juventude Abandonada

Todos já devem ter ouvido falar do Red Pill, que é um grupo de homens jovens que lançam mão de estoicismo, entre outras filosofias antigas e modernas, com uma visão bastante negativa do feminismo e dividindo os homens (sexo masculino) em dois grupos principais, os alfas e os betas. Os alfas seriam aqueles com os quais todas as mulheres gostariam de relações sexuais. Os betas, entre os quais esses rapazes se incluem, seriam desprovidos de tal encanto sexual, e as mulheres os buscariam somente por interesse financeiro. Donde concluem que os beta devem seguir um caminho solitário, que a relação com as mulheres não é lucrativa nem benéfica sob nenhum aspecto. Isso é, claro, uma simplificação do que pensam (há canais inteiros no Youtube consagrados ao tema).

Esse pessoal costuma também associar ao estoicismo uma certa ideia de Guerreiro Estoico. Seus vídeos, em geral, têm, ao fundo, músicas de guerra e cenas de filmes sobre os romanos (gostam muito do filme Gladiador). 

Seguindo a onda popular de retomada do estoicismo, enfatizam palavras como resiliência, perseverança.

Já li algumas matérias condenando-os moralmente. Não é o caminho que seguirei aqui. Fiel a Epicteto (Manual, capítulo 45), que nos alerta quanto a emitir juízos de valor sem esforço prévio de compreensão, procurarei lançar alguma luz sobre as condições sociais que levariam à gênese e à proliferação de tais ideários. É claro, o texto é apenas um esboço que representa meu esforço inicial de tentar compreender tal fenômeno. 

Primeiro, entendo que a vida não é nada fácil para a juventude atual: falta de empregos formais (quantos não são os entregadores de comida, os motoristas de Uber), condições terríveis de vida para os pobres (sem saneamento básico, sem lazer, sem educação, sem saúde, sem perspectiva), condições de isolamento para os mais abastados. 

Não é difícil imaginar por qual razão um jovem pobre de periferia se sentiria um beta: na TV e na tela do computador veem os corpos esculturais de mulheres consideradas super-atraentes. Veem também os milionários, com seus super-carros e lanchas, acompanhados sempre de mulheres como aquelas. Os jovens dos condomínios de classe média, por outro lado, têm acesso à mesma realidade virtual. Ambos os grupos não se sentem à altura de se engajarem em uma relação amorosa correspondida, seja com as mulheres idealizadas pela mídia, seja com as que espelham essas idealizações da sociedade de consumo. Assim, saindo à rua e tendo na memória a lembrança das imagens do mundo virtual, não é difícil que um destes conclua que ‘Não sou nada, Jamais serei nada, Não posso sonhar em ser nada’. E efetivamente é esta a mensagem que veiculam em muitos de seus vídeos.

É óbvio que nada disso tem relação essencial com o estoicismo antigo. Epicteto, por exemplo, deixa bem claro que somos filhos de Zeus, que somos parte crucial do Cosmos (Diatribe 1.3). 

Além disso, Musônio, em sua diatribe sobre o casamento, nos diz que homem e mulher devem compor uma unidade, que o ideal da relação amorosa é a amizade entre ambos, que cada um deve velar pela felicidade do outro. 

Quanto à vida militar, os estoicos eram, via de regra,  professores e intelectuais. Tirando Flávio Arriano e Marco Aurélio, não me lembro de outros que tenham ingressado nesta carreira. Flávio comandou legiões para defender as fronteiras romanas contra os alanos em uma situação específica, mas dedicou-se intensamente à literatura e à política. Marco defendeu as margens do Danúbio contra uma multidão de invasores e nunca escondeu de ninguém que gostaria, na verdade, de estar estudando filosofia (como o fez em Atenas) ao invés de guerrear.

Musônio Rufo, por outro lado, tentou deter as tropas de Marco Antonio Primo, que invadiam Roma em 20 de dezembro de 69. 

Mesmo nosso estoico contemporâneo, Stockdale, militar de profissão, se anunciava como filósofo,  e sua grande missão como guerreiro foi coordenar uma resistência pacífica em sua prisão de sete anos e meio no Vietnã.

Vem-nos à memória a metáfora  da missão militar a que Sócrates se refere na Apologia de Platão, que, da mesma forma que ele cumpriria a ordem do estratego em uma batalha, ele não abandonaria sua missão de filósofo. Sócrates foi um grande guerreiro. E Xenofonte também. Mas ambos se apresentavam como filósofos em primeiro lugar.

Este endeusamento do militarismo e da guerra de hoje parece corresponder mais uma vez à triste realidade dos jovens que vivem diante da tela de computadores. Como sabem os que têm um pouco de experiência em conflitos bélicos, não há nada de bom em uma guerra. Meu avô que o diga, que, tendo lutado na maldita guerra dos italianos contra os abissínios, teve, por seus traumas adquiridos em campo de batalha, pesadelos terríveis até o fim da vida. E ele teve sorte, pois não foi ferido, não perdeu algum de seus membros ou a visão, nem algum de seus familiares. Mas o que viu lhe bastou. Fugiu com a minha avó para o Brasil em 39, razão pela qual acabei por nascer no Brasil. Guerras são como operações cardíacas, só devem ser feitas por necessidade. Não são atraentes senão pelas lentes de Hollywood, que, propagando sem cessar a ideia de que a visão do sangue derramado de pessoas sendo estraçalhadas por armas de fogo é não só tolerável, mas um espetáculo belo e moralmente edificante, nos vende o belicismo norte-americano  há décadas. 

Essa triste realidade também explica o afastamento das mulheres. Quando eu era criança, tínhamos, por exemplo, os encontros de jovens católicos, que resultavam em ótima oportunidades para flertes e conversas fora do ambiente escolar. Havia também as colônias de férias do SESC e os bailes de matinês. E, hoje, o que há, no Brasil, para que os jovens com menos de 18 anos possam se encontrar em um ambiente minimamente seguro? 

Além disso, todos nós nos exercitávamos bastante ao ar livre, jogando bola, fazendo caminhadas, razão pela qual éramos bem mais confiantes para interações românticas com jovens de nossa idade. E qual espaço há para os jovens praticarem esportes hoje em dia?

Nos dias de hoje, as periferias foram declaradas oficialmente zonas de guerra. E os jovens abastados vivem literalmente encarcerados, em condomínios, diante dos já mencionados computadores.

Por fim, uma realidade tão dura explica também a ênfase na resiliência. Os estoicos eram (ao contrário da crença comum que hoje se tem) joviais e alegres. Segundo consta, Crisipo morreu de rir. Há inúmeras tiradas de humor em Epicteto. Sêneca escreveu o texto mais cômico que li em minha vida: A ascensão do Cabeça de Abóbora (Apokolokintosis), obra na qual satiriza implacavelmente o então recém-falecido imperador Cláudio. Isso sem mencionar o humor que perpassa muitas das cartas a Lucílio. E a razão do humor deles era evidente: experienciavam a paz interior, razão pela qual Epicteto dizia que o sábio atravessa as dificuldades como se não fossem dificuldades. 

Enfim, há, claro, no estoicismo, recomendações de como suportar as dificuldades, e essa não  é parte desprezível de seu pensamento. Eu mesmo me beneficiei muito disso, como evidencio na introdução de minha seleção de cartas de Sêneca a Lucílio

Essas breves reflexões lançam, ao menos para mim, alguma luz sobre a ascensão dos ideários mencionados, embora obviamente não os justifiquem. Entretanto, a partir do que foi dito, penso que as autoridades (políticos, pais, educadores, meios de comunicação etc.) deveriam começar a pensar em como tornar a vida de nossos jovens mais saudável e menos desgraçada. A vida deles não tem que ser uma guerra. Uma vida com saúde, lazer, educação, infraestrutura e interação saudável entre os jovens é possível. Ainda é possível.      

Pensamento #83: Foque no que é seu encargo

“Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o desejo, a repulsa –em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos –em suma: tudo quanto não seja ação nossa. ” Manual de Epicteto [1.2]

Devemos distinguir cuidadosamente o que é “nosso encargo“, ou seja, algo sob nosso próprio poder, e o que não é. São nosso encargo nossas escolhas voluntárias, a saber, nossas ações e julgamentos, enquanto todo o resto não está sob nosso controle. 

Ver mais em Princípio Estoico #3: Concentre-se no que pode controlar, aceite o que não pode

James Stockdale: Um Filósofo em ação no Vietnã

Abaixo artigo de Aldo Dinucci sobre o filósofo-militar James Stockdale. (Socrates também foi soldado). Artigo publicado originalmente em Estoicismo Artesanal.


STOCKDALE: UM FILÓSOFO EM AÇÃO NO VIETNÃ

James Bond Stockdale era já um experiente piloto de caça da Marinha Norte-Americana quando entrou em contato pela primeira vez com a filosofia e com Epicteto.  Tinha 42 anos, estudava relações internacionais em Stanford e acidentalmente se encontrou com o então decano do departamento de ciências humanas, Philip Rhinelander. Era o ano de 1962, e Rhinelander ministrava seu famoso curso intitulado “Os Problemas do Bem e do Mal”, para o qual o decano convidou Stockdale. Como o piloto iniciara o curso com atraso, Rhinelander encarregou-se de dar-lhe aulas particulares. Stockdale, então, descobriu uma inusitada vocação para a filosofia. Ao final do curso, Rhinelander presenteou-o com um livro que mudaria sua vida: O Manual de Epicteto. Como nos diz o próprio Stockdale: 

Rhinelander simplesmente pensou que Epicteto e eu poderíamos fazer um bom par, e ele estava certíssimo. Eu nunca tinha ouvido falar de Epicteto; de fato, hoje o reconhecimento de seu nome está no terceiro escalão dos filósofos. Mas sua mente é de primeiro escalão. (Stockdale, Tríade do Guerreiro estoico, p. 13-4)

Stockdale, devido ao seu treinamento de piloto, rapidamente leu e decorou os 52 capítulos do Manual de Epicteto. Três anos depois, o piloto teria a oportunidade de pôr à prova os ensinamentos do Manual: seu A4 foi abatido durante missão no Vietnã. Apesar de conseguir ejetar-se a tempo e chegar ao solo são e salvo, foi espancado pelos vietnamitas que o avistaram, o que lhe valeu um joelho permanentemente lesionado, e levado como prisioneiro. Stockdale passaria os próximos sete anos e meio como prisioneiro de guerra no Vietnã. 

As singulares circunstâncias que levaram Stockdale à filosofia e à sua prática fizeram dele um tipo de intelectual pouco frequente na pós-modernidade. Hoje, é dito filósofo o profissional que faz exegeses de textos filosóficos e que leciona ou escreve sobre suas exegeses. Entretanto, na Antiguidade, o termo “filósofo” tinha uma conotação mais ampla. Era dito filósofo: (1) o autor de reflexões, teorias e conceitos filosóficos que não escrevem obras visando a publicação (como Sócrates e Epicteto); (2) quem põe em prática concepções filosóficas, quer escreva sobre elas ou não (como Agripino e Catão); (3) quem escreve sobre filosofia, seja sobre suas ideias próprias e originais (como Platão e Aristóteles), seja transcrevendo concepções alheias (como Xenofonte e Flávio Arriano).  Isso porque, como observa Hadot (Forms of life and forms of discourse, p. 56-7), na Antiguidade, ser filósofo significava primariamente assumir um modo de vida radicalmente distinto do usual, o que levava o filósofo a uma ruptura com o senso comum. Assim, diante do simples cidadão, o filósofo se mostrava como átopos, não classificável, estranho (Hadot, ibidem, p. 57-8). De algum modo essa concepção do filósofo como “louco” ainda resiste no senso comum, embora, hoje, nossos filósofos nada sejam senão pacatos cidadãos de classe média, virtualmente indistinguíveis do homem comum. Na Antiguidade, por outro lado, ser filósofo significava ser e agir de modo diferenciado, isto é, vivificar um ethos da filosofia por ele abraçada. Em outros termos, era dito filósofo, na Antiguidade, o que, por escolha própria, adotava uma vida filosófica. Como nos diz Hadot:

Cada escola então representa uma forma de vida definida por um ideal de sabedoria. O resultado é que cada uma possui sua atitude inerente fundamental correspondente […] Acima de tudo cada escola pratica exercícios projetados para garantir progresso espiritual rumo ao estado ideal de sabedoria, exercícios da razão que serão, para a alma, análogos ao treinamento do atleta ou à aplicação da cura médica.      

(Hadot, ibidem, p. 59) 

Essa transformação através da adoção de um novo modo de vida, um modo de vida filosófico, é entusiasticamente percebida por Stockdale:

Eu pensava que era óbvio para meus amigos mais íntimos, como certamente o era para mim, que eu era um homem mudado, e digo mais, um homem melhor por ter sido introduzido à Filosofia e especialmente a Epicteto. Eu estava trilhando um caminho diferente […] Eu tinha me tornado um homem imparcial – não indiferente, mas imparcial – capaz de lançar fora o livro de normas sem a menor hesitação quando ele não mais fizesse frente às circunstancias externas […] Esse novo desapego e essa nova flexibilidade que eu adquirira me foram cobrados mais tarde, na prisão.

(Stockdale, Coragem sob fogo, p. 12) 

Assim, podemos dizer, Stockdale é primariamente filósofo no sentido de quem adota um estilo de vida filosófico. Mas também o é no sentido de quem escreve sobre suas reflexões filosóficas.

A tradução portuguesa do livro de Stockdale Coragem Sob fogo pode ser obtida aqui.

Pensamento #80: Epicteto, XLI – É sinal de incapacidade ocupar-se excessivamente com as coisas do corpo

Texto de Aldo Dinucci, publicado originalmente no blog Estoicismo Artesanal.

“É sinal de incapacidade ocupar-se excessivamente com as coisas do corpo, tal como se exercitar muito, correr muito, beber muito, sair constantemente para aliviar-se, fazer sexo em demasia. É preciso fazer essas coisas como algo secundário: que a atenção esteja toda voltada para o pensamento.”

Epicteto, Manual, capítulo XLI em Tradução Aldo Dinucci

Comentário:

Diz-nos Aulo Gélio (Noites Áticas, III, XIX, ii, 7-8): “Sócrates costumava dizer que os homens desejam viver para comer e beber, mas ele comia e bebia para viver”. O Estoicismo reafirma essa posição socrática, segundo a qual fazer do prazer a razão do viver é pôr-se sob o domínio da externalidade. Porém, não há aí uma condenação do prazer: ele será bom se o humano usufrui-lo mantendo-se senhor de si mesmo. Além disso, muitas vezes será bom evitar certos prazeres para que o humano, fortalecendo-se, possa suportar determinados sofrimentos. Por exemplo: quem se habituar a uma alimentação requintada terá problemas quando precisar servir-se de alimentos simples; quem se habituar a ser transportado de lá para cá terá problemas quando precisar caminhar. A função do prazer será, como nos diz Epicteto, secundária: um refrigério que nos ajudará a viver (e não algo em razão do que devamos viver). 

Cumpre notar que a própria razão nos diz que, às vezes, é preciso nos afastar dela. O ideal de homem do estoicismo não é um monge de pedra, não é monge algum, mas é um homem integralmente forte, um guerreiro que luta com as armas da razão buscando sua felicidade e, através dela, a felicidade dos demais. Mas o filósofo-guerreiro tem de descansar no intervalo das lutas. Sem isso, tornar-se-á um escravo da própria razão. E, como a sabedoria não admite ninguém como escravo, ela mesma nos ensina sobre a necessidade de buscarmos de quando em vez o devaneio e o descanso. Quanto a isso, diz-nos Sêneca (Da Tranquilidade da Alma, xvii):

[4]  Não se deve manter a mente igualmente na mesma intensidade (tensão), mas deve-se distrai-la com jogos e brincadeiras. Sócrates não enrubescia quando brincava com crianças…  [5] Deve-se dar descanso aos espíritos; repousados, se levantam melhores e mais agudos. Do mesmo modo que não se deve exigir fertilidade à terra —pois, nunca repousando, sua fecundidade rapidamente se exauriria ,— assim também o assíduo labor despedaça o ímpeto dos espíritos, que receberiam forças tendo relaxado e descansado; nasce da constância dos trabalhos dos espíritos um certo entorpecimento e langor… [8] Deve-se ser indulgente com o espírito e dar-lhe de vez em quando tempo livre que lhe conceda espaço para se alimentar e se fortalecer. E deve-se deixá-lo vagar em espaços abertos, para que o espírito se eleve e se estenda no céu aberto e no ar pleno;  [10] pois ou acreditamos no poeta grego Menandro, que nos diz que ‘De vez em quando é agradável enlouquecer,’ ou em Platão, que nos diz que  ‘Em vão bateu às portas da poesia quem estava senhor de si mesmo’ (Fedro, 222, 245 a), ou em Aristóteles, que nos diz que  ‘Não existe grande gênio sem mescla de loucura’. (Tradução do latim: Aldo Dinucci)


Pensamento #75: Dicotomia estoica do controle

“Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o desejo, a repulsa –em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos –em suma: tudo quanto não seja ação nossa. ” Manual de Epicteto [1.2]

Esta passagem, encontrada no início do livro é fundamental para os ensinamentos da filosofia estoica. É denominada “dicotomia estoica do controle“, o princípio mais característico do estoicismo. Devemos distinguir cuidadosamente o que é “nosso encargo“, ou seja, algo sob nosso próprio poder, e o que não é. São nossos encargos as escolhas voluntárias, a saber, nossas ações e julgamentos, enquanto todo o resto não está sob nosso controle.

O termo “encargo” pode gerar confusão, a tradução mais comumente usada em inglês pode ajudar a compreensão: “up to you“.

Aprofunde-se no tema com o Princípio Estoico #3: Concentre-se no que pode controlar, aceite o que não pode.

Livros:

Pensamento #74: O desejo e a felicidade não podem viver juntos

O desejo e a felicidade não podem viver juntos.” —  Epicteto

Ou de forma mais detalhada e próxima ao original:

“É completamente impossível unir a felicidade com um anseio pelo que não temos. A felicidade tem tudo o que ela quer, e que se assemelha ao bem alimentado, não deve haver nele qualquer fome ou sede.”- Epicteto, Discursos, III, 24

(imagem roubada da internet, autor desconhecido)

Pensamento #72: Sofrimento, Honra e Prazer

Quando eu ainda era um menino na escola, ouvi dizer esse ditado grego, e como o sentimento é verdadeiro e marcante, bem como nítido e polido, eu fiquei muito feliz em memorizá-lo. “Caso alguém realize algo nobre embora com sofrimento, o sofrimento passa, mas a nobreza permanece; Caso faça algo desonroso com prazer, o prazer passa, mas a desonra permanece“.

Depois, li esse mesmo sentimento em um discurso de Catão, que foi proferido em Numantia. Embora se expresse de forma um pouco menos compacta e concisa, em comparação com o grego que citei, mas por ser anterior e mais antigo, pode parecer mais impressionante. As palavras de seu discurso são as seguintes: “Considere isto em seus corações: se você realizar algum bem acompanhado com trabalho, a labuta rapidamente deixará você; mas se você fizer algum mal acompanhado com prazer, o prazer passará rapidamente, mas a má ação permanecerá com você sempre“.

Fragmento 51 de Musonio RufoProfessor de Epicteto.

Pensamento #71: Amor Fati

Crisipo, o terceiro escolarca da escola estoica criou uma metáfora poderosa: o cão atrelado a uma carroça:

Imagine um cão preso a uma carroça em movimento. A coleira é longa o suficiente para que o cão tenha duas opções:
1) ele pode seguir suavemente a direção da carroça, sobre a qual ele não tem controle e ao mesmo tempo aproveitar o passeio; ou
2)ele pode obstinadamente resistir a carroça com toda sua força e acabar sendo arrastado pela viagem.

Nós somos esse cachorro. Ou fazemos o melhor da viagem ou lutamos contra cada pequena decisão que o condutor faz. Nos escolhemos. Sejamos um cão sábio e aproveitemos o passeio. Mesmo que o condutor escolha uma estrada rica em obstáculos.

Mais tarde Epicteto coloca dessa maneira:

Não busques que os acontecimentos aconteçam como queres, mas quere que aconteçam como acontecem, e tua vida terá um curso sereno”. 

Manual de Epicteto [8.1]

Estratégias estoicas para eliminar a culpa indevida

Este artigo de Aldo Dinucci aborda o sentimento de culpa na ótica Epicteto e Stockdale.

É ação de quem não se educou acusar os outros pelas coisas que ele próprio faz erroneamente. De quem começou a se educar, acusar a si próprio. De quem já se educou, não acusar os outros nem a si próprio.

Epicteto, Encheirídion, 5b. Tradução: A. Dinucci e A. Julien

Estratégias estoicas para eliminar a culpa indevida