Carta 99: Sobre consolo a quem se encontra em luto

Na carta 99 Sêneca fala sobre a consolação estoica para aqueles que sofrem com a morte. É uma carta severa, na qual vemos que o estoicismo pode ser duro, mas oferece um caminho para o fim do luto.

Nesta carta, Sêneca é bastante firme em sua oposição ao Epicurismo, contudo quebra o mito de que o estoicismo e insensível ao sofrimento:

Quer dizer quer agora, neste momento, estaria eu aconselhando você a ter um coração duro, desejando que você mantenha seu semblante imóvel na cerimônia fúnebre e não permitindo que sua alma sinta mesmo uma pitada de dor? De modo algum! Isso significaria insensibilidade e não virtude – participar da cerimônia de enterro daqueles próximos e queridos com a mesma expressão que você vê suas formas vivas e não mostrar nenhuma emoção pela primeira privação de seus familiares. Ainda assim, suponha que eu proíba você de mostrar emoção, há certos sentimentos que reivindicam seus direitos próprios. As lágrimas caem, não importa como tentamos controla-las e, sendo derramadas, aliviam a alma.” (XCIX, 15)

Ou seja, o estoico sente emoções e sofre por elas, apenas tenta mante-las sob controle, ao invés de ficar sob controle delas.

Imagem: Morte tocando violino, por Frans Francken.


XCIX. Sobre consolo a quem se encontra em luto

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Anexei uma cópia da carta que escrevi a Marulo[1] na ocasião da perda de seu filho em tenra idade – morte que, fiquei sabendo, ele suportou com quase nula coragem, comportando-se de forma bastante afeminada em sua dor. Nesta carta não observei a forma habitual de condolências: pois não acreditava que ele deveria ser tratado suavemente já que, na minha opinião, ele merecia críticas e não consolação. Quando um homem é atingido e está achando difícil suportar um ferimento grave, devemos fazer sua vontade por um tempo: permitamos que ele satisfaça seu pesar ou, de qualquer forma, dissipe o primeiro choque, até que a dor vá esmorecendo e perca a violência inicial.

2. Mas aqueles que adotam indulgência no sofrimento devem ser repreendidos imediatamente e devem saber que existe alguma insensatez, mesmo nas lágrimas.[2] “É consolação que você procura? Deixe-me dar-lhe uma repreensão em vez disso! Você se comporta como uma mulher na maneira em que você encara a morte do seu filho, o que faria se tivesse perdido um amigo íntimo? Um filho, um filho pequeno de futuro incerto está morto, apenas um fragmento de tempo foi perdido!

3. Nós caçamos desculpas para o sofrimento, nós até mesmo proferimos queixas injustas sobre a Fortuna, como se a Fortuna nunca nos desse motivos para reclamar! Mas eu realmente acreditava que você possuísse espírito suficiente para lidar com problemas concretos, sem contar os problemas irreais sobre os quais os homens se lamentam por força do hábito. Se você tivesse perdido um amigo (o maior golpe de todos),[3] mesmo assim você deveria tentar se regozijar por tê-lo possuído em vez de lamentar sua perda.

4. Mas muitos homens não conseguem contar quão variados foram seus ganhos, quão ótimas foram as suas alegrias. Sofrimento como o seu tem isso entre outros males: não é apenas inútil, mas ingrato. Foi tudo em vão ter tido tantos amigos? Durante tantos anos, em meio a associações tão próximas, depois de uma comunhão tão íntima de interesses pessoais, nada foi realizado? Você enterra a amizade com um amigo? E por que lamentar-se por ter perdido, se não foi útil tê-lo tido? Acredite-me, grande parte daqueles que amamos, embora o acaso tenha removido suas pessoas, ainda permanecem conosco. O passado é nosso e não há nada mais seguro para nós do que aquilo que se foi.

5. Nós somos ingratos pelos ganhos passados porque esperamos o futuro, como se o futuro (na hipótese de lá chegarmos) não fosse ser rapidamente misturado com o passado. As pessoas estabelecem um limite estreito para suas alegrias se elas só as aproveitam no presente, tanto o futuro quanto o passado servem para nosso deleite: um pela antecipação e o outro pelas memórias, mas o primeiro é contingente e pode não acontecer, enquanto o segundo é certo. Que loucura é, portanto, perder o controle sobre o que é o mais certo de tudo? Vamos descansar contentes com os prazeres que nos foram dados a desfrutar, se no entanto, enquanto nós os desfrutamos, a alma não foi perfurada como uma peneira, apenas para perder novamente o que havia recebido.

6. Existem inúmeros casos de homens que, sem lágrimas, enterraram filhos no auge da vida – homens que voltaram da pira funerária para a câmara do Senado ou para quaisquer outros deveres oficiais e imediatamente se ocuparam de outra coisa. E com razão pois, em primeiro lugar, é inútil se afligir se não for receber ajuda da aflição. Em segundo lugar, é injusto se queixar sobre o que aconteceu com um homem, mas que está reservado a todos. Mais uma vez, é tolo lamentar a perda, quando existe um intervalo tão curto entre os perdidos e os perdedores. Portanto, devemos ser mais resignados em espírito, porque acompanharemos de perto aqueles que perdemos.

7. Observe a rapidez do Tempo – a mais rápida das coisas – considere a brevidade do curso ao longo do qual aceleramos à velocidade máxima, perceba essa multidão de humanos que se esforça para o mesmo ponto com breves intervalos entre eles – mesmo quando eles parecem mais longos, aquele que você conta como morto simplesmente se postou à frente.[4] E o que é mais irracional do que lamentar o seu antecessor, quando você mesmo deve viajar a mesma jornada?

8. Um homem lamenta um evento que ele sabe que irá acontecer? Ou, se não pensar que a morte está no futuro do homem, se enganou. Um homem lamenta um evento que admite ser inevitável? Quem se queixa da morte de alguém, está se queixando de que ele era humano. Todos estamos vinculados pelo mesmo termo: aquele que tem o privilégio de nascer, está destinado a morrer.

9. Períodos de tempo nos separam, a morte nos nivela. O período que se situa entre o nosso primeiro dia e o nosso último é inconstante e incerto: se você o contar pelos problemas, é longo até para um rapaz, se por sua velocidade, é escasso mesmo para um idoso. Tudo é instável, traiçoeiro e mais incerto do que qualquer clima. Todas as coisas são jogadas e se deslocam para os seus opostos ao comando da Fortuna, em meio a esta turbulência de assuntos mortais, nada além da morte está mais certamente reservado a qualquer um. E, no entanto, todos os homens se queixam da única coisa da qual nenhum deles é iludido.

10. “Mas ele morreu na infância”. Eu ainda não estou preparado para dizer que aquele que rapidamente chega ao fim de sua vida conseguiu o melhor da barganha, voltemos a considerar o caso daquele que atingiu a velhice. Quão exíguo é o tempo que ele tem de vantagem sobre a criança! Pondere a grande extensão do abismo do tempo e considere o universo e depois contraste nossa vida humana com o infinito, então você verá quão breve é aquilo pelo que oramos e que procuramos alongar.

11. Quanto deste tempo é desperdiçado com o choro, quanto com preocupação! Quanto com orações para a morte antes da chegada da morte, quanto com nossa saúde, quanto com nossos medos! Quanto é ocupado por nossos anos de inexperiência ou de esforço inútil! E metade de todo esse tempo é desperdiçado em dormir. Adicione, além disso, nossos problemas, nossas dores, nossos perigos e você compreenderá que, mesmo da vida mais longa, a vida real é a menor parcela.

12. No entanto, quem irá admitir algo como: “Não está em melhor condição um homem que tem permissão para voltar para casa rapidamente, cuja jornada é realizada antes que ele fique cansado”? A vida não é um bem nem um mal: é simplesmente o lugar onde o bem e o mal existem. Por isso, este menino não perdeu nada além de uma aposta onde a chance de perder era mais provável que a de ganhar. Ele poderia ter se tornado sóbrio e prudente, ele poderia, via educação cuidadosa, ter sido moldado ao melhor padrão, mas (e esse medo é mais razoável), ele poderia ter se tornado exatamente como muitos.

13. Observe os jovens da linhagem mais nobre cuja extravagância os jogou na arena[5], note aqueles homens escravos de suas paixões próprias e as de outros em luxúria mútua, cujos dias nunca passam sem embriaguez ou algum ato vergonhoso, assim será claro para você que havia mais a temer do que a esperar. Por esta razão, você não deve dar desculpas para o sofrimento ou exasperar os ligeiros revezes, indignando-se.

14. Eu não estou exortando você a fazer um esforço e se levantar a grandes alturas, pois a minha opinião sobre você não é tão baixa que me faça pensar que é necessário que invoque todos os seus poderes para enfrentar esse problema que não é dor, é uma mera picada – e é você mesmo quem está transformando isso em dor. Sem dúvida, a filosofia lhe fará bom serviço, se você puder suportar corajosamente a perda de um menino que ainda era melhor conhecido por sua babá do que por seu pai.

15. E então? Quer dizer quer agora, neste momento, estaria eu aconselhando você a ter um coração duro, desejando que você mantenha seu semblante imóvel na cerimônia fúnebre e não permitindo que sua alma sinta mesmo uma pitada de dor? De modo algum! Isso significaria insensibilidade e não virtude – participar da cerimônia de enterro daqueles próximos e queridos com a mesma expressão que você vê suas formas vivas e não mostrar nenhuma emoção pela primeira privação de seus familiares. Ainda assim, suponha que eu proíba você de mostrar emoção, há certos sentimentos que reivindicam seus direitos próprios. As lágrimas caem, não importa como tentamos controla-las e, sendo derramadas, aliviam a alma.

16. O que então devemos fazer? Deixe-nos permitir que caiam, mas não ordenemo-las a fazê-lo, deixe-as, de acordo com a emoção, inundar os nossos olhos, mas não como a mera atuação. Deixe-nos, de fato, não adicionar nada ao sofrimento natural, nem o aumentar seguindo o exemplo dos outros. A exibição do sofrimento faz mais demandas do que o próprio sofrimento. Como poucos homens estão tristes em sua própria companhia! Eles lamentam mais alto para serem ouvidos, pessoas, que reservadas e silenciosas quando sozinhas, são induzidas a novos acessos de lágrimas quando veem outras perto delas! Nessas ocasiões elas se debatem, embora pudessem fazer isso com mais facilidade se ninguém estivesse presente para controlá-las, nessas ocasiões elas rezam pela morte, nessas ocasiões elas se revolvem em seus leitos. Mas seu sofrimento afrouxa com a saída dos espectadores.

17. Neste assunto, como em outros também, estamos cometemos a falha de nos ajustar ao padrão dos muitos e de atuamos de acordo ao que é convencional e não ao que é certo. Nós abandonamos a natureza e nos rendemos à multidão, que nunca é boa conselheira em nada e, a este respeito, como em todos os outros, é modelo de inconstância. As pessoas veem um homem que sofre seu sofrimento com bravura: o chamam de desalmado e selvagem; elas veem um homem que colapsa e se agarra aos seus mortos: o chamam de efeminado e fraco.

18. Tudo, portanto, deve ser baseado na razão. Mas nada é mais tolo do que cortejar uma reputação de tristeza e sancionar lágrimas, pois eu acredito que, em um homem sábio, algumas lágrimas caem por consentimento, outras por sua própria força. Eu vou explicar a diferença da seguinte maneira: quando a primeira notícia de alguma grave perda nos choca, quando abraçamos o corpo que em breve passará de nossos braços para as chamas funerárias, então as lágrimas são expelidas de nós pela necessidade da natureza. E a força vital, ferida pelo golpe de tristeza, sacode o corpo inteiro e também os olhos que, pressionados, fazem fluir a umidade que neles se encontra.

19. Lágrimas como essas caem por um processo próprio, processo esse involuntário, mas diferentes são as lágrimas que permitimos escapar quando nós meditamos em memória daqueles que perdemos. E há nelas uma certa tristeza quando lembramos o som de uma voz agradável, uma conversa cordial e os afazeres de outrora, em tal momento os olhos se afrouxam, por assim dizer, com alegria. A esse tipo de lágrimas nos entregamos, já o primeiro tipo nos subjuga.

20. Não há portanto, somente porque um grupo de pessoas está em sua presença ou sentado ao seu lado, nenhum motivo para você segurar ou derramar suas lágrimas, sejam elas impedidas ou derramadas, elas nunca são tão vergonhosas como quando fingidas. Deixe-as fluir naturalmente. Mas é possível que as lágrimas fluam dos olhos daqueles que estão quietos e em paz. Elas costumam fluir sem prejudicar a influência do sábio, com tanta restrição que elas não mostram nenhuma carência de sentimento ou auto respeito.

21. Podemos, asseguro-lhe, obedecer à natureza e ainda manter a nossa dignidade. Vi homens dignos de reverência, durante o enterro daqueles próximos e queridos, com semblantes sobre os quais o amor foi escrito, claro, mesmo depois que todo o aparato do luto foi removido e que não mostrou outra conduta do que aquela de verdadeira emoção. Há uma graciosidade mesmo no sofrimento. Isso deve ser cultivado pelo sábio, mesmo em lágrimas; assim como em outros assuntos também, há uma certa suficiência, é com o imprudente que tanto as dores quanto as alegrias transbordam.

22. Aceite com um espírito sereno o que é inevitável. Por acaso lhe aconteceu algo inacreditável, extraordinário? Ou que seja inédito? Quantos homens neste momento estão fazendo arranjos para funerais! Quantos estão comprando roupas de luto! Quantos estão chorando, quando você mesmo encerrou seu luto! Tão frequentemente quanto você reflete sobre a perda de seu filho, reflita também sobre o homem, que não tem nenhuma promessa segura de nada, a quem a Fortuna não acompanha inevitavelmente os confins da velhice, mas deixa-o ir apenas até qualquer ponto que julga adequado.

23. Você pode, no entanto, falar com frequência sobre os falecidos e celebrar sua memória na medida do possível. Essa memória irá retornar a você com mais frequência se você receber sua chegada sem amarguras, pois ninguém gosta de conversar com alguém que é triste e muito menos com a própria tristeza. As conversas dele, as brincadeiras de infância que fazia, se você as escutava com prazer, relembre delas frequentemente, afirme com decisão que ele poderia ter realizado todas as esperanças que você concebeu em seu espírito paterno.

24. De fato, esquecer os amados mortos, enterrar a memória junto com seus corpos, encharcá-los com lágrimas e depois deixar de pensar neles: essa é a marca de uma alma inferior à do homem. Pois é assim que os pássaros e as bestas amam seus jovens, seu afeto é rapidamente despertado e quase atinge loucura, mas esfria totalmente quando seu objeto morre. Essa qualidade não beneficia um homem de bom senso. Este deve continuar a lembrar, mas deve deixar de lamentar.

25. E, em nenhum caso, aprovo a observação de Metrodoro, de que há um certo prazer inerente à tristeza e que se deve obter esse prazer em momentos como estes. Estou citando as palavras reais de Metrodoro em ‘Cartas de Metrodoro à irmã’: “Há um certo prazer que nasce simultaneamente com a dor e que é preciso captar no próprio momento”.[6]

26. Não tenho dúvidas sobre quais serão seus sentimentos nesses assuntos, pois o que é mais vil do que “perseguir” o prazer no meio do luto – sim, em luto – e mesmo entre as lágrimas de alguém perseguir o que dará prazer? Estes são os homens que nos acusam de um rigor muito grande, caluniando nossos preceitos por causa da suposta dureza – porque, dizem eles, declaramos que o sofrimento não deve ser colocado na alma, ou então deve ser descartado imediatamente. Mas qual é o mais incrível ou desumano: não sentir nenhum sofrimento pela perda de um amigo ou ir a procura do prazer no meio do sofrimento?

27. O que nós estoicos aconselhamos é honrável: quando a emoção provoca um fluxo moderado de lágrimas e, por assim dizer, deixa de efervescer, a alma não deve ser entregue ao sofrimento. Mas o que você quer dizer, Metrodoro, ao afirmar que na grande dor deveria haver uma mistura de prazer? Esse é o método doce para pacificar as crianças, essa é a maneira como acalmamos os gritos dos bebês, derramando leite em suas gargantas! Mesmo no momento em que o corpo do seu filho está na pira, ou seu amigo em seu último suspiro, você não sofrerá a suspensão do prazer, em vez de agradar seu próprio sofrimento com prazer? O que é o mais honrado:  remover o sofrimento de sua alma ou admitir o prazer até mesmo na companhia do sofrimento? Eu disse “admitir”? Não, eu quero dizer “perseguir” e também através do próprio sofrimento.

28. Metrodoro diz: “Há um certo prazer que nasce simultaneamente com a dor”. Nós, estoicos, podemos dizer isso, mas você não pode. O único bem que você reconhece é o prazer e o único mal, a dor. Que relação pode haver entre um bem e um mal? Mas suponha que tal relação exista; agora, a todo tempo, deveria ser descartada? Devemos examinar o sofrimento também e ver com que elementos de deleite e prazer está rodeado?

29. Certos remédios, que são benéficos para algumas partes do corpo, não podem ser aplicados a outras partes porque a estas são, de certa forma, irritantes e impróprios. O que, em certos casos, funcionaria para um bom propósito sem qualquer prejuízo ao respeito próprio, pode tornar-se impróprio por causa da situação da ferida. Você também não ficaria envergonhado de curar a tristeza com o prazer? Não, este ponto dolorido deve ser tratado de forma mais drástica. Isto é o que você deve recomendar de preferência: que nenhuma sensação de mal pode alcançar alguém que esteja morto, pois se pode alcançá-lo, ele não está morto.

30. E eu digo que nada pode machucar aquele que é tão insignificante, pois se um homem pode ser ferido, ele está vivo. Você acha que ele está mal porque ele não existe mais ou porque ele ainda existe como alguém? E, no entanto, nenhum tormento pode vir a ele pelo fato de não existir mais, pois que sentimento pode pertencer a alguém que não existe? Nem tampouco do fato de que ele existe, pois ele escapou da maior desvantagem que a morte tem em si, ou seja, a inexistência.

31. Digamos, portanto a um homem que chora com saudades de um filho arrebatado na primeira infância: no que concerne à brevidade da existência, todos nós, jovens ou velhos, em comparação com o universo, estamos em pé de igualdade. O que nos cabe de toda a sucessão dos tempos é menos que uma ínfima parte, porque uma parte, mesmo ínfima, é uma parte, enquanto o tempo da nossa vida é praticamente nada. E ainda assim, ó loucura humana, que planos grandiosos nós fazemos para esta nulidade que é a existência!

32. Estas palavras que eu escrevi para você, não com a ideia de que você deva esperar de mim uma cura em uma data tão tardia – pois é claro para mim que você se contou tudo o que você vai ler na minha carta – mas com a ideia de que eu deveria repreendê-lo, mesmo pelo leve atraso durante o qual você regrediu de seu verdadeiro ser e que eu deva encorajá-lo para o futuro, despertar seu espírito contra a Fortuna e ficar atento a todos os seus golpes, não como se eles fossem possíveis, mas como se fossem inevitáveis e certos de chegar.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Provavelmente Quinto Júnio Marulo que foi um senador romano da gente Júnia nomeado cônsul sufecto para o nundínio de setembro a dezembro de 62. Ver Tácito, Anais, XIV, 48.

[2] Como Lipsius assinalou, o restante da carta de Sêneca consiste na citada carta a Marulo.

[3] A visão romana difere da visão moderna, assim como esta carta é bastante mais severa do que a Carta LXIII (sobre a morte de Flaco).

[4] Linguagem quase idêntica às palavras finais da carta LXIII: “quem putamus perisse, praemissus est

[5] Na época de Nero muitos jovens de classe nobre passaram a participar dos jogos de arena e corridas de biga, seguindo o (mau) exemplo do imperador. Ver Francis Holland no livro “Sêneca, Vida e Filosofia”.

[6] Ver Diógenes Laércio, Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, livro X

Resenha: A Apocoloquintose do divino Cláudio

O texto de hoje não é sobre estoicismo, mas sobre uma sátira, escrita por Sêneca. Interessante comparar o tratamento dado a Cláudio, quando em vida, no livro Consolação a Políbio.

Além de filosofia, ele escreveu também tragédias e peças de teatro, bastante populares em sua época: como Hércules furioso (Hercules furens), As Troianas (Troades), As Fenícias (Phoenissae), Medeia (Medea), Fedra (Phaedra), Édipo (Oedipus), Agamemnon, Tiestes (Thyestes) e Hércules no Eta (Hercules Oetaeus)

A sátira A Apocoloquintose do divino Cláudio também é atribuída à Sêneca, tanto pela tradição antiga, quanto por estudiosos modernos. Contudo é impossível provar que é dele, e impossível provar que não é. O assunto provavelmente continuará a ser decidido por cada um de acordo com sua visão do caráter e habilidades de Sêneca: em matéria de estilo e de sentimento muito pode ser dito de ambos os lados. 

A Apocoloquintose do divino Cláudio, literalmente “A Transformação de Cláudio em Abóbora”, é uma sátira sobre o imperador romano Cláudio. Apocoloquintose é um jogo de palavras em torno do termo “apoteose1”, o processo pelo qual os imperadores romanos mortos eram reconhecidos como deuses. Trata-se de uma “sátira menipéia2”, mista de verso e prosa: os códices lhe dão o titulo de “Divi Claudii Apotheosis Annaei Senecae per Saturam”; mas Dião Cássio3 dá-lhe o titulo de “Divii Claudii Apokolokyntosis”, isto é, “apoteose daquela abóbora de Cláudio”. 

A obra acompanha a morte de Cláudio, sua ascensão ao céu, seu julgamento pelos deuses e a eventual descida ao Hades. Em cada etapa, é claro, Sêneca zomba dos falhas de caráter do falecido imperador, principalmente de sua crueldade, arrogância e desarticulação. Após Mercúrio persuadir Cloto a matar o imperador, Cláudio caminha para o Monte Olimpo, onde convence Hércules a influenciar os deuses para que ouçam seu processo de deificação em uma sessão do senado do Olimpo. Os procedimentos iniciais são favoráveis a Cláudio até que Augusto profere um longo e sincero discurso listando alguns dos crimes mais notórios do falecido imperador. 

Contudo Cláudio é rejeitado pela celeste reunião e Mercúrio o acompanha até o inferno. No caminho, ele é obrigado a ver sua procissão fúnebre, na qual um grupo de personagens venais chora a perda da perpétua Saturnália do reinado anterior. No mundo inferior, Cláudio é saudado pelos fantasmas de todos os amigos e vítimas que ele assassinou. Estes fantasmas o levam a ser punido, e o tormento imposto pelos deuses é que ele jogue os dados para sempre em um copo sem fundo (o jogo era um dos vícios de Cláudio): toda vez que ele tenta jogar os dados eles caem e ele tem que procurar por eles no chão. De repente, Calígula aparece, afirma que Cláudio é um ex-escravo e o entrega para ser esbirro80 no tribunal do submundo.

É uma sátira mordaz contra o imperador Cláudio, ou melhor, contra o Senado que decretou honras divinas ao príncipe. Sêneca, brilhante na filosofia e tragédia, não tinha alma de escritor satírico; todavia, notasse amiúde a genialidade de um intelecto que, também num gênero pouco adaptável à própria sensibilidade, demonstra a força da indignação contra um tirano e contra uma assembleia corrupta e imoral. A obras trás ricas referências tanto a história romana, quanto sua mitologia e poética.

Disponível nas lojas: Amazon, Kobo e Apple

Resenha: Consolação a Márcia

Na Antiguidade, a carta de consolação era um gênero literário popular, sendo essencialmente um veículo para apresentar aspectos cruciais de uma escola filosófica e ao mesmo tempo dar conselhos reais sobre como lidar com a perda e o luto. O gênero literário Consolação foi cultivado por todas as grandes escolas, nela, o filósofo procura entender a dor que abala a pessoa a ser consolada e, ainda, compreender sua visão de mundo para assim expor sua filosofia, de forma que seja melhor assimilada pelo espírito em luto. Cleonice van Raij, diz:

Entre os filósofos e retores romanos o primeiro que se ocupou desse gênero foi Cícero, por ocasião da morte de sua filha Túlia, quando escreveu uma Consolação, a fim de abrandar a própria dor. Tal Consolação, infelizmente, não chegou até nós, restando dela apenas alguns fragmentos conservados nas Tusculanas. Sêneca, sem a menor dúvida, foi o mais fecundo escritor latino de Consolações, se considerarmos não só os textos conhecidos sob esse nome, mas também os vários tratados de alto teor consolatório, como Sobre a brevidade da vidaSobre a tranquilidade da alma, De remediis fortuitorum (Sobre os remédios dos acontecimentos fortuitos) e as cartas que, em grande parte, pertencem a esse gênero, como as LXIII, LXXXIXCIII e CVII, dirigidas a Lucílio. No entanto, as genuínas Consolações, ou seja, aquelas que mais respondem às exigências da tradição consolatória, são três: A MárciaA Hélvia e A Políbio.

Consolação a Márcia, Ad Marciam, De Consolatione”, é a primeira carta de consolação de Sêneca, escrita aproximadamente no ano 40, sendo a obra conhecida mais antiga do filósofo. A carta é endereçada a Márcia, filha do proeminente historiador Aulo Cremúcio Cordo[1].

Sêneca lhe escreve porque seu luto pela morte de seu filho Metílio parecia ter se tornado crônico, continuando três anos após a tragédia. Sêneca adverte Márcia, desde o início, que ele não será gentil:

Que outros usem medidas suaves e carícias; decidi lutar com sua dor, e vou secar esses olhos cansados e exaustos, que já, para dizer a verdade, choram mais por hábito do que por tristeza… Não posso agora influenciar uma dor tão forte por medidas educadas e suaves: ela deve ser destruída pela força”(I, 5, 8) .

Ele então lembra a sua amiga que todos os remédios normais contra seu luto prolongado têm falhado até agora: o consolo de seus amigos, a distração de bons livros, nem mesmo o próprio tempo. Ele teme que neste momento a dor tenha tomado uma morada permanente em sua alma, e que somente a filosofia esteja à altura do trabalho de restaurá-la a uma vida normal, caso contrário “alma infeliz toma uma espécie de mórbido deleite no pesar”.

Esta admirável peça de consolação oferece argumentos da filosofia estoica e sua visão de mundo, a fim de ajudar os enlutados e desolados a considerar outros aspectos da perda e também reconhecer a inevitabilidade da morte. Sêneca tenta transformar a tristeza paralisante de Márcia em belas e agradáveis lembranças do tempo que passaram juntos.

A primeira abordagem utilizada por Sêneca é a de recordar a Márcia dois exemplos contrastantes de luto em duas outras famosas mulheres romanas: Otávia e Lívia, respectivamente irmã e esposa de Otávio Augusto (o primeiro imperador). Ambas haviam perdido um filho, mas reagiram de maneira muito diferente: Otávia fez como Márcia, nunca emergindo de sua dor, negligenciando seus deveres familiares e sociais, e até mesmo ressentindo-se do filho sobrevivente de Lívia.

Sêneca então diz sem rodeios a Márcia que ela tem duas alternativas: seguir uma delas. Por que o caminho de Lívia é melhor que o de Otávia? “Que loucura é essa, castigar a si mesma porque é infeliz, e não para diminuir, mas para aumentar seus males! Você deve mostrar, também neste assunto, aquele comportamento decente e modéstia que tem caracterizado toda a sua vida: pois existe algo como autodomínio no luto também” (IV, 5). Note que este é um bom argumento contra aqueles que acusam os estoicos de reprimir as emoções. Não se trata de reprimir mas sim de administrar de forma razoável. Ter emoções é humano, ser possuído e controlado por elas é o caminho para a própria destruição. Com efeito, Sêneca é explícito a respeito disto:

nem vou tentar secar os olhos de uma mãe no próprio dia do enterro de seu filho. Eu irei me apresentar diante de um árbitro: o assunto sobre o qual iremos nos unir é, se o luto deve ser profundo ou incessante” (IV, 1)

Na sequencia, Sêneca aplica três estratégias contra a dor: Primeiro, ele lembra Márcia que seus próprios amigos agora não sabem como se comportar em sua presença. Em segundo lugar, argumenta que é uma má escolha não considerar a totalidade da vida de seu filho, e concentrar-se apenas no seu fim. Finalmente , ele traz o argumento estoico de que a verdadeira coragem só é testada em águas agitadas:

não há grande crédito em comportar-se corajosamente em tempos de prosperidade, quando a vida desliza facilmente com uma corrente favorável: nem um mar calmo e um vento suave exibem a arte do piloto: algum mau tempo é desejado para provar sua coragem” (V, 5).

Na décima seção Sêneca antecipa o famoso argumento de Epicteto de que não possuímos realmente coisas ou pessoas, elas são simplesmente emprestadas a nós pelo universo, e que “é nosso dever sempre poder colocar nossas mãos sobre o que nos foi emprestado sem data fixa para sua devolução, e restaurá-lo quando chamado sem um murmúrio». Muitos criticam filósofos da antiguidade por ser “sexistas” e desprezarem feminilidade. Na seção 16 Sêneca prova o contrário:

No entanto, quem diria que a natureza tem tratado com rancor as mentes das mulheres, e atrofiado suas virtudes? Acredite, elas têm o mesmo poder intelectual que os homens, e a mesma capacidade de ação honrada e generosa. Se treinadas para isso, elas são igualmente capazes de suportar a tristeza ou o trabalho.” (XVI, 2)

Sêneca aplica dezenas de argumentos de consolo, de fato, a própria vida tem sentido, diz Sêneca a Márcia, precisamente porque morremos. Coloca analogias estoicas que mais tarde foram imortalizadas nos ensinamentos de Epicteto: vida como uma estadia em uma pousada na qual somos hóspedes e Marco Aurélio: pense nos muitos séculos que se foram e nas cidades poderosas que pereceram.

Também apresenta exemplos de estadistas, como Pompeu, que viveram além de seu auge e terminaram sua vida em desgraça ou por traição. Sempre assumimos que quando a vida foi cortada, ela nos privou de uma série de coisas boas, mas isto não é de forma alguma garantido. Às vezes, a morte é na verdade uma bênção. Finalmente, Sêneca argumenta que o tempo transcorrido não é uma boa medida do valor de uma vida:

Passe a contar sua idade, não por anos, mas por virtudes: viveu tempo suficiente” (XXIV, 1)

Em síntese, esta é uma carta impressionante. Sêneca reconhece a humanidade da dor, nunca considera o luto de Márcia como insignificante, mesmo três anos após a morte do filho. Ele emprega grande gama de argumentos da escola estoica para convencê-la de que já passou tempo suficiente, de que ela deveria voltar à sociedade como um membro produtivo, enquanto transforma sua tristeza em doces lembranças de seu filho. É difícil imaginar uma abordagem mais humana do luto.


Disponível nas lojas: Amazon, Kobo, Apple e GooglePlay.


[1] Aulo Cremúcio Cordo (falecido em 25 d.C.) foi um historiador romano. Há muito poucos fragmentos restantes de sua obra, principalmente cobrindo a guerra civil e o reinado de Augusto. Em 25 d.C. ele foi obrigado por Sejano, que foi chefe dos pretorianos sob Tibério, a tirar sua vida depois de ser acusado de traição.

Resenha: Consolação a Políbio

Consolação a Políbio, ad Polybium, De Consolatione”, é a terceira carta de consolação de Sêneca, escrita no ano 44 quando o filósofo se encontrava no exílio na ilha de Córsega para o qual fora enviado sob a acusação de adultério com Júlia Lívila, irmã de Calígula.

A obra dirige-se a Políbio, Secretário particular do Imperador Cláudio, para consolá-lo sobre a morte de seu irmão. O ensaio contém a filosofia estoica de Sêneca, com particular atenção à inescapável realidade da morte. Embora seja sobre um assunto muito pessoal, o ensaio em si não parece particularmente empático ao caso específico de Políbio, dando uma visão mais ampla sobre a dor e o luto, sem nunca citar o nome do irmão falecido.

O texto é, sem dúvida, uma tentativa de Sêneca de conseguir seu retorno do exílio, usando boa parte do texto  para lisonjear e vergonhosamente bajular o Imperador Cláudio, ironicamente procurando atrair empatia para si mesmo no processo: “Eu forçaria algumas gotas a fluir destes olhos, exaustos como estão com o choro sobre as minhas próprias aflições domésticas, se isso pudesse ser de alguma utilidade para você.” (II, 1)

Estudiosos são unânimes na consideração de que Consolação a Políbio é uma adulação para que Políbio interceda junto a Cláudio em favor de Sêneca. Isso mostra um momento de fraqueza do filósofo já que Sêneca faz uso da dor alheia para tirar vantagens pessoais. Essa realidade não impede a obra de exemplificar uma das mais significativas faces do brilhante autor e de documentar lados menos explorados de sua personalidade histórica.

O gênero literário Consolação foi cultivado por todas as grandes escolas, nela, o filósofo procura entender a dor que abala a pessoa a ser consolada e, ainda, compreender sua visão de mundo para assim expor sua filosofia, de forma que seja melhor assimilada pelo espírito em luto. Cleonice van Raij[1], diz:

Entre os filósofos e retores romanos o primeiro que se ocupou desse gênero foi Cícero, por ocasião da morte de sua filha Túlia, quando escreveu uma Consolação, a fim de abrandar a própria dor. Tal Consolação, infelizmente, não chegou até nós, restando dela apenas alguns fragmentos conservados nas Tusculanas. Sêneca, sem a menor dúvida, foi o mais fecundo escritor latino de Consolações, se considerarmos não só os textos conhecidos sob esse nome, mas também os vários tratados de alto teor consolatório, como Sobre a brevidade da vida, Sobre a tranquilidade da alma, De remediis fortuitorum[2] (Sobre os remédios dos acontecimentos fortuitos) e as cartas que, em grande parte, pertencem a esse gênero, como as LXIII, LXXXI, XCIII e CVII, dirigidas a Lucílio. No entanto, as genuínas Consolações, ou seja, aquelas que mais respondem às exigências da tradição consolatória, são três: A Márcia, A Hélvia e A Políbio.

A carta começa com uma interpretação de Sêneca do significado de memeto mori[3], ajudando o amigo a colocar as coisas em perspectiva e fazendo referência à cosmologia estoica e sua ideia de que o universo é cíclico e que passa por séries de criação e destruição:

“O que, de fato, já fez mãos mortais que não seja mortal? As sete maravilhas do mundo, e quaisquer maravilhas ainda maiores que a ambição de eras posteriores tenha construído, serão vistas um dia niveladas com o chão. Assim é: nada dura para sempre, poucas coisas duram até mesmo por muito tempo… todo esse universo, contendo deuses e homens e todas as suas obras, um dia será varrido e mergulhado uma segunda vez em sua escuridão e caos originais”. (I, 1-2)

A finalidade é dupla: lembrar a Políbio que seria soberba pensar que nosso próprio destino deve ser diferente do de qualquer outro, e também levar consolo com a compreensão do funcionamento do mundo. Na seção IV Sêneca volta para a ideia estoica da imparcialidade da fortuna (destino):

Podemos continuar culpando o destino por muito mais tempo, mas não podemos alterá-lo: ele permanece duro e inexorável: ninguém pode movê-lo por reprovações, por lágrimas ou pela justiça. A fortuna nunca poupa ninguém, nunca faz concessões a ninguém…. Olhe em volta, para todos os mortais: em todos os lugares há razões amplas e constantes para chorar:” (IV, 1-2)

Na quinta seção vemos mais uma técnica de abordagem: Políbio é exortado a pensar sobre o que seu próprio irmão falecido desejaria. Além disso, ele tem que pensar no restante de sua família, incluindo seus outros irmãos, não os desanimando com a própria depressão:

“Você deve imitar os grandes generais em tempos de desastre, quando eles têm o cuidado de provocar um comportamento alegre e esconder as desgraças por uma alegria manipulada, de modo que, se os soldados vissem seu líder derrubado, eles mesmos ficariam desanimados”. (V, 2)

No meio do ensaio, Sêneca alerta Políbio que os piores momentos serão quando ele se encontrar sozinho em casa. Mas um remédio está à mão: ocupar a mente, não permitir nenhum momento desocupado. Sêneca acaba sugerindo perseguições literárias já que Políbio havia traduzido para o latim Homero e escrito uma versão em prosa do poema épico de Virgílio. Ainda em outra investida, Sêneca diz que não se deve lamentar por si mesmo: pergunte a si mesmo: “sofro por minha causa ou por aquele que se foi”? Depois afirma que não se deve sofrer temendo a sorte do falecido seguido com uma análise estoica do significado de estar morto, lembrando a Políbio que, embora seu irmão não possa mais desfrutar de uma série de prazeres oferecidos pela vida, agora ele também está sendo poupado das muitas tristezas e reviravoltas da fortuna que caracterizam a existência humana, pois no final: “Nada há de certo sequer um dia inteiro. Quem pode dizer se a morte veio a seu irmão por malícia ou por bondade?” (IX, 6)

Na 10° seção Sêneca aplica um dos conceitos estoicos favoritos, que mais tarde, fora muito muito utilizado por Epicteto, isto é, que as coisas e as pessoas de nossas vidas nunca são nossas, mas sim emprestadas do universo:

você não precisa pensar por quanto tempo mais você poderia tê-lo, mas por quanto tempo você o teve. A natureza o deu a você, assim como dá outros a outros irmãos, não como uma propriedade absoluta, mas como um empréstimo: depois, quando achou oportuno, o acolheu de volta e seguiu suas próprias regras de ação, em vez de esperar até que você tivesse entregado seu amor à saciedade.” (X, 4)

As seções XII a XVII são usadas praticamente na íntegra para bajular o imperador Cláudio, na tentativa de ganhar sua graça e conseguir escapar do exílio. Algumas partes são tão exageradas que beiram à comédia:

“…fixe seus olhos em César sempre que as lágrimas se aproximarem deles; eles ficarão secos ao contemplar aquela luz maior e mais brilhante; seu esplendor os atrairá e os prenderá firmemente a si mesmo” (XII, 3) “…tão bondoso e gracioso como é para com todos os seus seguidores que já colocou muitos bálsamos curativos sobre esta sua ferida, e lhe forneceu muitos antídotos para sua tristeza. Por que, mesmo se ele não tivesse feito nada disso, não é a mera visão e o pensamento de César em si o seu maior consolo?” (XII, 3) “Que os deuses e deusas o preservem por muito tempo na terra: que ele rivalize com os feitos do imperador Augusto, e o ultrapasse em longos dias!” (XII, 5)

Ao final Sêneca sugere como terapia para seu amigo, que escreva sobre o irmão: “prolongue a lembrança de seu irmão inserindo algumas memórias dele entre seus outros escritos: pois esse é o único tipo de monumento que pode ser erguido pelo homem que nenhuma tempestade pode ferir, nenhum tempo destruir.” (XVIII, 2). Sêneca, por todo seu legado, é o mais compassivo, o mais humano, dos estoicos. O final da carta nos dá muitos exemplos disso, dois deles:

Eu sei, de fato, que há alguns homens, cuja inteligência é mais áspera do que brava, que dizem que o homem sábio nunca choraria.” (XVIII, 5). “Deixe suas lágrimas fluírem, mas deixe-as um dia parar de fluir: lamente tão profundamente quanto você quiser, mas deixe seus lamentos cessarem um dia: regule sua conduta de modo que tanto filósofos quanto irmãos possam aprová-la.” (XVIII, 7)

Consolação a Políbio confirma que Sêneca, como o próprio reafirma inúmeras vezes em sua obra, não é o sábio estoico ideal, mas alguém meramente humano, que precisa se esforçar diariamente para trilhar o caminho da virtude. Por isso mesmo, considero o mais autêntico e convincente dos filósofos estoicos.

Em tempo, a bajulação não teve nenhum efeito sobre Políbio ou Cláudio e Sêneca permaneceu no exílio até a morte do imperador.

Sobre Políbio:

Gaio Júlio Políbio foi um escravo liberto do Imperador Cláudio que foi elevado ao secretariado durante seu reinado. No começo do governo de Cláudio, Políbio, de acordo com Sêneca, tinha o cargo de libellis, responsável pelas petições dirigidas ao imperador[4]. Já Suetônio[5] defende que antes da ascensão do imperador, ele auxiliava Cláudio em suas atividades literárias, judiciais e históricas como pesquisador e assim tomou o lugar oficial na burocracia imperial, com o título de studiis. O mesmo Suetônio, que era biógrafo e secretário do Imperador Adriano, afirma que Cláudio apreciava tanto a ajuda que era permitido a Políbio caminhar entre os cônsules quando em assuntos oficiais.

No resumo bizantino do relato de Dião Cássio[6], Pallas, Calisto e Narciso, outros três libertos graduados na administração imperial, têm grande preeminência, mas Políbio aparece separado do grupo mais poderoso de liberto. Nesse relato, os três libertos aparecem atuando em conjunto, inicialmente em acordo com Messalina e depois contrários a ela. A deslealdade levou Políbio à sua derrocada. Ele foi executado por crimes contra o Estado enquanto Sêneca vivia em exílio. Dião Cássio afirmou que a imperatriz Messalina preparou sua morte quando ela se cansou dele como amante.


Disponível nas lojas: Amazon, Kobo, Apple e GooglePlay.


[1] Raij, Cleonice. 1999. A Filosofia Da Dor Nas Consolações De Sêneca. Letras Clássicas, nº 3 (outubro), 11-21. https://doi.org/10.11606/issn.2358-3150.v0i3p11-21.

[2] Este texto não é de Sêneca, mas falsamente atribuído a ele na idade média, assim como suas supostas cartas a Paulo de Tarso (São Paulo)

[3] Memento mori é uma expressão latina que significa algo como “lembre-se de que você é mortal”, “lembre-se de que você vai morrer” ou traduzido literalmente como “lembre-se da morte”.

[4] Sêneca descreve as funções de Políbio na seção VI, 5.

[5] Caio Suetônio Tranquilo, (em latim: Gaius Suetonius Tranquillus, Roma, 69 d.C. — ca. 141 d.C.) dedicou-se às armas e às letras. Escreveu as Vidas dos Doze Césares, tendo sido contemporâneo na idade adulta apenas do último de seus biografados, Domiciano. Teve prestígio na corte de Adriano, tendo sido secretário. Suetônio foi um grande estudioso dos costumes de sua gente e de seu tempo e escreveu um grande volume de obras eruditas, nas quais descrevia os principais personagens da época. Foi, sobretudo, um indiscreto devassador das intimidades da corte romana, dando-nos uma visão íntima dos vícios dos imperadores e das picuinhas que dividiam a nobreza.

[6] Dião Cássio foi um historiador romano, publicou a História de Roma em 80 volumes.

Carta #63: Sobre sofrimento por amigos perdidos

Na carta 63 Sêneca aborda o luto pela morte de pessoas amadas e recomenda “que a lembrança daqueles que perdemos se torne uma agradável lembrança para nós“.  (LXIII,4)

Para Sêneca é importante aproveitar a companhia dos amigos e amados enquanto é possível e sempre ter em mente que somos mortais:

A fortuna tirou, mas a fortuna deu. Vamos gozar com gozo os nossos amigos, porque não sabemos quanto tempo esse privilégio será nosso.(LXIII,7-8)

Um estoico não precisa manter os olhos secos quando perde um amigo, nem os deixá-los transbordar. Podemos chorar, mas não devemos lamuriar.

(imagem, escultura La Desesperación)


LXIII. Sobre sofrimento por amigos perdidos

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Estou triste por saber que seu amigo Flaco está morto, mas eu não recomendaria a você tristeza a mais do que é adequado. Que você não deva chorar eu não ousarei insistir; ainda que saiba que é a melhor maneira. Mas qual homem será tão abençoado com essa firmeza ideal da alma, a menos que já tenha se elevado muito acima do alcance da Fortuna? Mesmo esse homem será atingido por um evento como este, mas será apenas uma picada. Nós, no entanto, podemos ser perdoados por nos rebentar em lágrimas, se apenas as nossas lágrimas não tenham fluido em excesso, e se as tivermos controladas por nossos próprios esforços. Não deixe que os olhos fiquem secos quando perdemos um amigo, nem os deixemos transbordar. Podemos chorar, mas não devemos lamuriar.
  2. Você acha que a lei que eu estabeleço para você é dura, enquanto o maior dos poetas gregos estendeu o privilégio de chorar a um só dia, nas linhas em que ele nos diz que Níobe[1] até mesmo pensou em comer? Você deseja saber o motivo de lamentações e choro excessivo? É porque buscamos as provas de nosso luto em nossas lágrimas, e não damos lugar à tristeza, mas meramente ao seu desfilar. Nenhum homem entra em luto por seu melhor interesse. Vergonha essa nossa insensatez inoportuna! Há um elemento de egoísmo, mesmo em nossa tristeza.
  3. O quê”, você diz, “vou esquecer meu amigo?” É seguramente uma lembrança de curta duração que você lhe concede, se é para durar apenas enquanto seu pesar; dentro em pouco, sua sobrancelha será suavizada em risadas por alguma circunstância, por mais casual que seja. É para um tempo curto que eu coloco o calmante de cada tristeza, o abrandamento de até mesmo o mais amargo sofrimento. Assim que você deixar de se vigiar, a imagem de tristeza que você contemplou desaparecerá; no momento você está vigiando seu próprio sofrimento. Mas mesmo enquanto vigia, ele escapa de você, e quanto mais agudo ele é, mais rapidamente chega ao fim.
  4. Vamos cuidar para que a lembrança daqueles que perdemos se torne uma agradável lembrança para nós. Nenhum homem devolve com prazer qualquer assunto que ele não seja capaz de refletir sem dor. Assim também não pode deixar de ser que os nomes daqueles a quem amamos e perdemos voltem para nós com uma espécie de picada; mas há um prazer mesmo nesta picada.
  5. Como disse meu amigo Átalo[2]: “A lembrança de amigos perdidos é agradável, da mesma forma que certos frutos azedos têm um gosto agradável, ou como em vinhos extremamente antigos em que o próprio amargor nos agrada. Depois de um certo lapso de tempo, todo pensamento que deu dor é extinguido, e o prazer nos vem sem mistura”.
  6. Se considerarmos a palavra de Átalo, “pensar em amigos que estão vivos e bem é como desfrutar de uma refeição de bolos e mel, a lembrança de amigos que passaram dá um prazer que não é sem um toque de amargor, no entanto, quem negará que até mesmo essas coisas, que são amargas e contêm um elemento de acidez, servem para despertar o estômago?
  7. Por minha parte, eu não concordo com ele. Para mim, o pensamento de meus amigos mortos é doce e atraente. Porque eu os tive como se eu os pudesse perder; eu perdi-os como se eu os ainda tivesse. Portanto, Lucílio, aja como convém a sua própria serenidade de espírito, e deixe de colocar uma interpretação errada sobre os presentes da Fortuna. A fortuna tirou, mas a fortuna deu.
  8. Vamos gozar intensamente a companhia dos nossos amigos, porque não sabemos quanto tempo esse privilégio será nosso. Pensemos quantas vezes os deixaremos quando nos colocamos em viagens distantes, e quantas vezes não os veremos mesmo quando ficarmos juntos no mesmo lugar; compreenderemos assim que perdemos muito do tempo deles enquanto estavam vivos.
  9. Mas irá tolerar homens que são os mais descuidados com seus amigos, e depois choram por eles mais abjetamente, e não amam ninguém a menos que o tenham perdido? A razão pela qual se lamentam com tanta violência nessas ocasiões é que temem que os homens duvidem se realmente amaram; muito tarde eles procuram provas de suas emoções.
  10. Se tivermos outros amigos, certamente mereceremos sofrer em suas mãos e pensar mal deles, se eles são tão inconsiderados que não consigam nos consolar pela perda. Se, por outro lado, não temos outros amigos, nos ferimos mais do que a fortuna nos feriu; já que a fortuna nos roubou um amigo, mas nós roubamos a nós mesmo de todos os amigos que não fizemos.
  11. Novamente, aquele que é incapaz de amar mais do que um, não tem muito amor mesmo por este. Se um homem que perdeu sua única túnica por roubo escolheu lamentar sua situação, em vez de olhar em torno por alguma maneira de escapar do frio, ou para algo com que se cobrir os ombros, você não o consideraria um tolo absoluto? Você sepultou alguém que amava; procure para alguém amar. É mais importante encontrar um novo amigo do que chorar pelo desaparecido.
  12. O que vou acrescentar é, eu sei, uma observação muito simplória, mas não a omitirei simplesmente porque é uma frase comum: um homem acaba seu pesar com o simples passar do tempo, mesmo que ele não tenha terminado por sua própria iniciativa. Mas a cura mais vergonhosa para a tristeza, no caso de um homem sensato, é se entediar da tristeza. Eu prefiro que abandone o sofrimento, em vez de deixar o sofrimento abandoná-lo; e deve parar com o luto o mais rapidamente possível, uma vez que, mesmo se quiser fazê-lo, é impossível mantê-lo por um longo tempo.
  13. Nossos antepassados decretaram que, no caso das mulheres, um ano deveria ser o limite para o luto; não que elas precisassem chorar por tanto tempo, mas que elas não deviam chorar mais. No caso dos homens, não foram estabelecidas regras, porque o luto não é considerado honroso. Por tudo isso, qual mulher pode me mostrar, de todas essas pobres mulheres que dificilmente poderiam ser arrastadas para longe da pira funerária ou arrancadas do cadáver, cujas lágrimas duraram um mês inteiro? Nada se torna ofensivo tão rapidamente quanto o sofrimento; quando fresco, encontra alguém para consolá-lo e atrai um ou outro; mas depois de se tornar crônico, é ridicularizado, e com razão. Pois é simulado ou tolo.
  14. Quem lhe escreve estas palavras não é outro senão eu, que chorou tão excessivamente pelo meu querido amigo Aneu Sereno[3] que, apesar de meus anseios, devo ser incluído entre os exemplos de homens que foram dominados pelo sofrimento. Hoje, no entanto, condeno este ato meu, e entendo que a razão pela qual chorei tanto foi principalmente pois nunca imaginei que sua morte pudesse preceder a minha. O único pensamento que me ocorreu foi que ele era o mais novo, e muito mais novo – como se o destino seguisse a ordem de nossos tempos!
  15. Portanto, pensemos continuamente tanto sobre nossa própria mortalidade como sobre a de todos aqueles que amamos. Em dias anteriores eu poderia ter dito: “Meu amigo Sereno é mais jovem do que eu, mas o que importa? Ele poderia morrer naturalmente depois de mim, mas ele também poderia me preceder.” Foi apenas porque eu não fiz isso que estava despreparado quando a Fortuna me deu o súbito golpe. Agora é o momento para refletir, não só que todas as coisas são mortais, mas também que sua mortalidade não está sujeita a lei fixa. O que quer que possa acontecer a qualquer momento pode acontecer hoje.
  16. Reflita, portanto, meu amado Lucílio, que logo chegamos a baliza que este amigo, para a nossa própria tristeza, alcançou. E talvez, se somente a fábula contada por homens sábios for verdadeira e houver um nirvana para nos receber, então aquele que nós pensamos que nós perdemos foi enviado somente em nossa frente.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Relatado por Homero. Níobe é uma personagem da Mitologia Grega, que por ser muito fértil, teve catorze filhos (sete homens e sete mulheres). O povo de sua cidade se reuniu para render tributo a deusa Leto. Eis que Níobe aparece insultando a deusa, que só teve dois filhos, Apolo e Ártemis.  Leto indignou-se com a audácia da mortal, e implorou vingança a seus filhos, que eram arqueiros. Apolo e Ártemis, então, mataram todos os sete filhos de Níobe.

[2] Professor de Sêneca. Átalo foi um filósofo estoico atuante no reinado de Tibério. Ele foi defraudado de sua propriedade por Sejano, e exilado onde foi reduzido a cultivador do solo. Sêneca, o velho, o descreve como um homem de grande eloquência e, de longe, o filósofo mais acérrimo de sua época. Ele ensinou a filosofia estoica a Sêneca, o Jovem, que o cita com frequência e fala dele nos mais altos termos. Veja também carta 108.

[3] Um amigo íntimo de Sêneca, provavelmente um parente, que morreu no ano 63 por comer cogumelos envenenados. Sêneca dedicou a Sereno três de seus ensaios filosóficos: Sobre a Constância do Sábio, Sobre o ócio e Sobre a tranquilidade da alma.

Consolação a Minha Mãe Hélvia

No ano 41, Sêneca foi condenado ao exílio pelo imperador Cláudio por um alegado caso com a irmã do imperador Calígula. A acusação provavelmente foi inventada por uma vingança pessoal. Pouco antes ele havia sido condenado à morte e posteriormente perdoado pelo anterior imperador, o louco Calígula. Do exílio ele escreveu uma de suas obras mais extraordinárias – a carta Consolação a Minha Mãe Hélvia.

Hélvia era uma mulher cuja vida tinha sido marcada por uma perda inimaginável – sua própria mãe havia morrido enquanto ela a nascera, e ela enterrou seu marido, seu tio amado e três de seus netos. Vinte dias depois que um de seus netos – o próprio filho de Sêneca – morrera em seus braços, Hélvia recebeu notícias de que Sêneca fora levado para a Córsega, condenado à vida no exílio.

Em vez de meras palavras, Sêneca produz uma obra-prima retórica, trazendo a essência da filosofia do Estoicismo, com partes iguais de lógica e estilo literário. “Todas as suas dores foram desperdiçadas se você ainda não aprendeu a sofrer“.

Sêneca faz uma sólida defesa do mecanismo de auto-proteção mais poderoso da vida – a disciplina de não tomar nada por certo:

Nunca me entreguei à fortuna, mesmo quando parecia que estava em paz comigo; todos os favores, dos quais muito generosamente me cercava (riquezas, cargos, prestígio), coloquei-os em tal lugar de onde a mesma fortuna pudesse retomá-los, sem me aborrecer. Deixei sempre grande distância entre mim e eles: tirou-me os favores, portanto, não os arrancou. A fortuna contrária não diminui senão os homens que se deixaram enganar pela prosperidade.

Os homens que se agarram a seus presentes como a coisas das quais tem perpétua propriedade, e que por eles querem ser invejados pelos outros, jazem prostrados e aflitos, quando os deleites falsos e fugazes abandonam sua alma vil e pueril, que ignora qualquer prazer real; mas quem na prosperidade não se orgulhou, não se abala se as coisas mudam.

Leia mais em: