Resenha: Consolação a Márcia

Na Antiguidade, a carta de consolação era um gênero literário popular, sendo essencialmente um veículo para apresentar aspectos cruciais de uma escola filosófica e ao mesmo tempo dar conselhos reais sobre como lidar com a perda e o luto. O gênero literário Consolação foi cultivado por todas as grandes escolas, nela, o filósofo procura entender a dor que abala a pessoa a ser consolada e, ainda, compreender sua visão de mundo para assim expor sua filosofia, de forma que seja melhor assimilada pelo espírito em luto. Cleonice van Raij, diz:

Entre os filósofos e retores romanos o primeiro que se ocupou desse gênero foi Cícero, por ocasião da morte de sua filha Túlia, quando escreveu uma Consolação, a fim de abrandar a própria dor. Tal Consolação, infelizmente, não chegou até nós, restando dela apenas alguns fragmentos conservados nas Tusculanas. Sêneca, sem a menor dúvida, foi o mais fecundo escritor latino de Consolações, se considerarmos não só os textos conhecidos sob esse nome, mas também os vários tratados de alto teor consolatório, como Sobre a brevidade da vidaSobre a tranquilidade da alma, De remediis fortuitorum (Sobre os remédios dos acontecimentos fortuitos) e as cartas que, em grande parte, pertencem a esse gênero, como as LXIII, LXXXIXCIII e CVII, dirigidas a Lucílio. No entanto, as genuínas Consolações, ou seja, aquelas que mais respondem às exigências da tradição consolatória, são três: A MárciaA Hélvia e A Políbio.

Consolação a Márcia, Ad Marciam, De Consolatione”, é a primeira carta de consolação de Sêneca, escrita aproximadamente no ano 40, sendo a obra conhecida mais antiga do filósofo. A carta é endereçada a Márcia, filha do proeminente historiador Aulo Cremúcio Cordo[1].

Sêneca lhe escreve porque seu luto pela morte de seu filho Metílio parecia ter se tornado crônico, continuando três anos após a tragédia. Sêneca adverte Márcia, desde o início, que ele não será gentil:

Que outros usem medidas suaves e carícias; decidi lutar com sua dor, e vou secar esses olhos cansados e exaustos, que já, para dizer a verdade, choram mais por hábito do que por tristeza… Não posso agora influenciar uma dor tão forte por medidas educadas e suaves: ela deve ser destruída pela força”(I, 5, 8) .

Ele então lembra a sua amiga que todos os remédios normais contra seu luto prolongado têm falhado até agora: o consolo de seus amigos, a distração de bons livros, nem mesmo o próprio tempo. Ele teme que neste momento a dor tenha tomado uma morada permanente em sua alma, e que somente a filosofia esteja à altura do trabalho de restaurá-la a uma vida normal, caso contrário “alma infeliz toma uma espécie de mórbido deleite no pesar”.

Esta admirável peça de consolação oferece argumentos da filosofia estoica e sua visão de mundo, a fim de ajudar os enlutados e desolados a considerar outros aspectos da perda e também reconhecer a inevitabilidade da morte. Sêneca tenta transformar a tristeza paralisante de Márcia em belas e agradáveis lembranças do tempo que passaram juntos.

A primeira abordagem utilizada por Sêneca é a de recordar a Márcia dois exemplos contrastantes de luto em duas outras famosas mulheres romanas: Otávia e Lívia, respectivamente irmã e esposa de Otávio Augusto (o primeiro imperador). Ambas haviam perdido um filho, mas reagiram de maneira muito diferente: Otávia fez como Márcia, nunca emergindo de sua dor, negligenciando seus deveres familiares e sociais, e até mesmo ressentindo-se do filho sobrevivente de Lívia.

Sêneca então diz sem rodeios a Márcia que ela tem duas alternativas: seguir uma delas. Por que o caminho de Lívia é melhor que o de Otávia? “Que loucura é essa, castigar a si mesma porque é infeliz, e não para diminuir, mas para aumentar seus males! Você deve mostrar, também neste assunto, aquele comportamento decente e modéstia que tem caracterizado toda a sua vida: pois existe algo como autodomínio no luto também” (IV, 5). Note que este é um bom argumento contra aqueles que acusam os estoicos de reprimir as emoções. Não se trata de reprimir mas sim de administrar de forma razoável. Ter emoções é humano, ser possuído e controlado por elas é o caminho para a própria destruição. Com efeito, Sêneca é explícito a respeito disto:

nem vou tentar secar os olhos de uma mãe no próprio dia do enterro de seu filho. Eu irei me apresentar diante de um árbitro: o assunto sobre o qual iremos nos unir é, se o luto deve ser profundo ou incessante” (IV, 1)

Na sequencia, Sêneca aplica três estratégias contra a dor: Primeiro, ele lembra Márcia que seus próprios amigos agora não sabem como se comportar em sua presença. Em segundo lugar, argumenta que é uma má escolha não considerar a totalidade da vida de seu filho, e concentrar-se apenas no seu fim. Finalmente , ele traz o argumento estoico de que a verdadeira coragem só é testada em águas agitadas:

não há grande crédito em comportar-se corajosamente em tempos de prosperidade, quando a vida desliza facilmente com uma corrente favorável: nem um mar calmo e um vento suave exibem a arte do piloto: algum mau tempo é desejado para provar sua coragem” (V, 5).

Na décima seção Sêneca antecipa o famoso argumento de Epicteto de que não possuímos realmente coisas ou pessoas, elas são simplesmente emprestadas a nós pelo universo, e que “é nosso dever sempre poder colocar nossas mãos sobre o que nos foi emprestado sem data fixa para sua devolução, e restaurá-lo quando chamado sem um murmúrio». Muitos criticam filósofos da antiguidade por ser “sexistas” e desprezarem feminilidade. Na seção 16 Sêneca prova o contrário:

No entanto, quem diria que a natureza tem tratado com rancor as mentes das mulheres, e atrofiado suas virtudes? Acredite, elas têm o mesmo poder intelectual que os homens, e a mesma capacidade de ação honrada e generosa. Se treinadas para isso, elas são igualmente capazes de suportar a tristeza ou o trabalho.” (XVI, 2)

Sêneca aplica dezenas de argumentos de consolo, de fato, a própria vida tem sentido, diz Sêneca a Márcia, precisamente porque morremos. Coloca analogias estoicas que mais tarde foram imortalizadas nos ensinamentos de Epicteto: vida como uma estadia em uma pousada na qual somos hóspedes e Marco Aurélio: pense nos muitos séculos que se foram e nas cidades poderosas que pereceram.

Também apresenta exemplos de estadistas, como Pompeu, que viveram além de seu auge e terminaram sua vida em desgraça ou por traição. Sempre assumimos que quando a vida foi cortada, ela nos privou de uma série de coisas boas, mas isto não é de forma alguma garantido. Às vezes, a morte é na verdade uma bênção. Finalmente, Sêneca argumenta que o tempo transcorrido não é uma boa medida do valor de uma vida:

Passe a contar sua idade, não por anos, mas por virtudes: viveu tempo suficiente” (XXIV, 1)

Em síntese, esta é uma carta impressionante. Sêneca reconhece a humanidade da dor, nunca considera o luto de Márcia como insignificante, mesmo três anos após a morte do filho. Ele emprega grande gama de argumentos da escola estoica para convencê-la de que já passou tempo suficiente, de que ela deveria voltar à sociedade como um membro produtivo, enquanto transforma sua tristeza em doces lembranças de seu filho. É difícil imaginar uma abordagem mais humana do luto.


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[1] Aulo Cremúcio Cordo (falecido em 25 d.C.) foi um historiador romano. Há muito poucos fragmentos restantes de sua obra, principalmente cobrindo a guerra civil e o reinado de Augusto. Em 25 d.C. ele foi obrigado por Sejano, que foi chefe dos pretorianos sob Tibério, a tirar sua vida depois de ser acusado de traição.