Marco Aurélio perseguiu cristãos?

Com certa frequência perguntam se Marco Aurélio perseguiu cristãos. Em suas Meditações, há apenas uma referência aos cristãos na qual, indiretamente, os critica por não fazerem uso da razão:

Que grande alma é aquela que está pronta, em qualquer momento necessário, para ser separada do corpo e depois extinguida ou dispersa ou continuar a existir; mas de modo que esta disponibilidade venha do próprio julgamento do homem, não de mera obstinação, como com os cristãos, mas com ponderação e dignidade e de modo a convencer outro, sem demonstração dramática!” ( Livro XI, 3)

Donald Robertson, autor do excelente livro “Pense como um imperador“, escreveu um artigo sobre o assunto. Abaixo minha tradução, autorizada por Donaldson.

(imagem: As Tochas de Nero, por Henryk Siemiradzki. De acordo com Tácito, Nero usou cristãos como tochas humanas)


Marco Aurélio perseguiu cristãos?

Artigo que examina algumas das evidências a favor e contra a afirmação de que Marco Aurélio perseguia cristãos.

E em minha defesa das inúmeras críticas feitas a Marco por escritores antigos e modernos, dou de longe o maior espaço aos mais severos, que ele perseguiu os cristãos, pois acho que nenhuma acusação o teria surpreendido mais, ou lhe teria parecido mais irracional. (Henry Dwight Sedgwick)

Diz-se frequentemente na Internet, e ocasionalmente em livros, que Marco Aurélio, de alguma forma, perseguiu os cristãos.  No entanto, acho que, muitas vezes, faltam detalhes específicos.  Na verdade, há duas questões que vale a pena considerar aqui:

  1. Será que o imperador estoico Marco Aurélio perseguiu ativamente os cristãos pessoalmente?
    A maioria dos estudiosos modernos pensa que ele quase certamente não o fez.
  2. Será que Marco permitiu que outros perseguissem os cristãos?
    Isto é mais difícil de responder, embora o peso da evidência sugira que Marco Aurélio realmente tentou evitar que outros perseguissem os cristãos.  Certamente houve perseguição aos cristãos durante seu reinado, mas não está claro o quanto, até que ponto ele estava ciente disso, e que chance ele teria tido de impedi-la.

Após rever os relatos da perseguição aos cristãos durante o reinado de Marco Aurélio, H.D. Sedgewick[1] constatou:

A única evidência de que Marco Aurélio tinha alguma relação direta com qualquer destes casos é esta declaração em Eusébio[2] que, durante o julgamento em Lyon, o governador escreveu para pedir instruções a ele.

Portanto, vejamos as principais evidências, começando com esta declaração de Eusébio sobre os supostos eventos em Lyon…

Eusébio

A perseguição mais famosa aos cristãos durante o reinado de Marco Aurélio foi supostamente em Lyon, na Gália, em 177 d.C.  A primeira e única evidência deste incidente vem do historiador cristão Eusébio, que cita uma carta bastante curiosa em sua História Eclesiástica, descrevendo os eventos da seguinte forma:

A grandeza da tribulação nesta região, e a fúria dos pagãos contra os santos, e os sofrimentos das testemunhas abençoadas, não podemos relatar com exatidão, nem mesmo poderiam ser registrados.  Pois com todas as suas forças o adversário [Satanás] caiu sobre nós, dando-nos uma amostra de sua atividade desmedida na sua vinda futura. Ele se esforçou de todas as maneiras para praticar e usar seus servos contra os servos de Deus, não apenas nos expulsando de casas, banhos e mercados, mas proibindo qualquer um de nós de ser visto em qualquer lugar que seja.  Mas a graça de Deus conduziu o conflito contra ele, e libertou os fracos, e os colocou como pilares firmes, capazes por paciência de suportar toda a ira do Maligno.
E se uniram a Ele, sofrendo todo tipo de vergonha e ferimentos; e considerando seus grandes sofrimentos como pouco, agarraram-se a Cristo, manifestando verdadeiramente que “os sofrimentos deste tempo presente não são dignos de serem comparados com a glória que nos será revelada depois”. [Romanos 8:18 7]. Antes de tudo, eles suportaram nobremente os ferimentos que lhes foram infligidos pela multidão; clamores e golpes e arrastões e roubos e apedrejamentos e prisões, e todas as coisas que uma multidão enfurecida se deleita em infligir a inimigos e adversários. Então, sendo levados ao fórum pelo chiliarch [comandante da guarnição?] e pelas autoridades da cidade, foram examinados na presença de toda a multidão, e tendo confessado, foram presos até a chegada do governador.

A carta continua a descrever numerosas torturas sangrentas com um nível de detalhe que pode parecer um tanto excessivo e pitoresco.  Muitos leitores modernos consequentemente acham o estilo como indicativo de ficção, ou pelo menos de exagero.

Além disso, há vários problemas muito marcantes enfrentados por aqueles que querem tentar usar esta carta como prova para a alegação de que Marco perseguia os cristãos:

  1. Eusebius terminou de escrever a História Eclesiástica em cerca de 300 d.C., mais de cento e vinte anos após o suposto incidente.  Não há indicação de quando a carta que ele está citando foi realmente escrita.  Entretanto, ele alega que os eventos descritos nela aconteceram muito antes mesmo de ele nascer.  Portanto, ele não tinha conhecimento em primeira mão, mas confiava inteiramente na narrativa fornecida pela duvidosa carta citada.
  2. Os historiadores têm que levar em conta o “argumento baseado no silêncio”: nenhum outro autor pagão ou cristão do período faz qualquer menção a esses eventos, apesar de sua natureza marcante e dramática.  É altamente notável que nenhum outro autor cristão do período se refira de fato a este incidente.  De fato, o primeiro autor na Gália a mencionar este evento foi Sulpício Severo[3], escrevendo 400 anos depois, e sua única fonte parece ser Eusébio.
  3. O pai da igreja Irineu[4], bispo cristão de Lyon, onde o incidente supostamente ocorreu, escreveu seu gigantesco Adversus Haereses de cinco volumes em 180 d.C., três anos após a suposta perseguição.  E ainda assim, ele não faz absolutamente nenhuma menção a este incrível evento que aconteceu em sua cidade.  Na realidade, ao contrário, ele diz: “Os romanos deram paz ao mundo, e nós [cristãos] viajamos sem medo pelas estradas e através do mar onde quer que seja”. (Contra Heresias, Livro IV, Capítulo 30, Sentença 3).
  4. O pai da igreja, Tertuliano[5], tinha cerca de vinte anos na época em que o incidente em Lyon supostamente aconteceu.  Como veremos, embora ele estivesse realmente vivo na época, ele também não faz nenhuma menção à perseguição em Lyon, e na verdade diz muito enfaticamente que Marco Aurélio era um “protetor” dos cristãos.
  5. A carta citada por Eusébio começa culpando as ações da turba do ” o adversário ” ou no “Maligno”, pelo qual os autores claramente queriam dizer Satanás. Ela continua descrevendo como os mártires cristãos sobreviveram a torturas inconcebíveis e feridas extensas, foram milagrosamente curados e restaurados à saúde quando esticados na cremalheira, e até mesmo ressuscitados dos mortos.  Isto acrescenta um elemento sobrenatural ou implausível ao relato, que muitos leitores modernos podem achar indicativo de falsidade ou exagero.
  6. A carta realmente conclui culpando a multidão e as autoridades da cidade de Lyon – ela não atribui responsabilidade a Marco Aurélio ou a Roma.  Quando este evento supostamente aconteceu, a propósito, Marco estava ocupado em campanha na fronteira norte, a cerca de três semanas de marcha longe de Lyon.
  7. Temos o texto sobrevivente de um édito imperial de Marco Aurélio que fornece provas de que ele realmente tentou evitar a perseguição dos cristãos pelas autoridades provinciais (veja abaixo).
  8. Finalmente, e bizarramente, o próprio Eusébio admitiu várias vezes que sua história eclesiástica continha “falsidades” deliberadas ou fraudes piedosas.  Ele é, portanto, frequentemente visto como uma fonte muito pouco confiável para este tipo de informação.

Edward Gibbon, por exemplo, autor de A História do Declínio e da Queda do Império Romano, gostava de ressaltar que Eusébio admitiu empregar a desinformação deliberada para promover a mensagem cristã.  Um dos cabeçalhos dos capítulos de Eusébio era: “Que às vezes será necessário usar a falsidade como um remédio para o benefício daqueles que requerem tal modo de tratamento”.  O historiador Jacob Burckhardt, portanto, descreveu Eusébio como “o primeiro historiador completamente desonesto da antiguidade”.  De fato, seria mais apropriado referir-se a Eusébio como um propagandista cristão do que como historiador.

Em resumo, por estas e outras razões, Eusébio é considerado por muitos estudiosos modernos como uma fonte extremamente pouco confiável.  Seus relatos de martírio cristão referem-se a eventos várias gerações antes mesmo de ele nascer, como vimos, e são embelezados com detalhes extravagantes que têm o ar de ficção.  Por exemplo, a perseguição não é retratada como esporádica, mas infligida por Satanás em miríades de cristãos em todo o império.  A escala e severidade desta perseguição é totalmente incompatível com o testemunho de outros cristãos vivos na época e difícil de reconciliar com a escassez de provas de outros autores.  Além disso, ele inclui muitas reivindicações sobrenaturais que minam a credibilidade de seus relatos aos olhos dos leitores modernos.  Por exemplo, ele afirma como fatos milagres como o de que mártires cristãos sobreviveram dentro dos estômagos dos leões depois de serem comidos ou que levitavam centenas de metros no ar pela graça de Deus.  Como foi observado acima, a própria carta também descreve a cura milagrosa de mártires gravemente feridos em Lyon, e até mesmo sua ressurreição da morte.  Se questionarmos estas reivindicações sobrenaturais, é difícil saber que outros aspectos da carta devem ser levados a sério.

Eusébio também se mostra particularmente pouco confiável em relação a esta época da história romana porque, notavelmente, em vários pontos ele realmente confunde Marco Aurélio tanto com seu irmão adotivo Lúcio Vero, quanto com seu pai adotivo Antonino Pio.  Além disso, é frequente que os documentos (cartas, etc.) citados em fontes antigas não sejam considerados confiáveis por acadêmicos, porque muitas falsificações circulavam na época e os autores antigos muitas vezes não tinham os recursos para autenticá-los.  Os estudiosos, de fato, já identificaram numerosos documentos citados nos escritos de Eusébio como falsificações definitivas.  Nesta carta em particular, excepcionalmente, nenhuma data é dada na rubrica citada, portanto não está claro em que base Eusébio poderia ter chegado à conclusão de que a intenção era se referir a eventos durante o reinado de Marcus Aurelius.  A própria carta emprega apenas o título genérico de César, para o Imperador.  Eusébio pode estar apenas adivinhando a data, e que o César em questão é Marco Aurélio, embora francamente pareça provável que a carta inteira seja uma falsificação.  Como foi observado acima, porém, este documento é a única e única prova da suposta perseguição em Lyon.

Tertuliano

De fato, as únicas fontes que descrevem a perseguição durante o reinado de Marco Aurélio vêm de gerações posteriores de autores cristãos, que não foram testemunhas dos eventos que eles descrevem.  Nenhum deles realmente atribui responsabilidade a Marco.  O relato mais famoso é a perseguição de Lyon, que, como vimos, é de autenticidade altamente questionável.

Em contraste, o pai da igreja Tertuliano foi na verdade um contemporâneo de Marco Aurélio e seu testemunho é que ele fora enfaticamente um “protetor” dos cristãos.

Mas de tantos príncipes desde aquele tempo até o presente, homens versados em todos os sistemas de conhecimento, produzem se você quiser, um perseguidor dos cristãos. Nós, entretanto, podemos, do outro lado, produzir um protetor, se as cartas do mais sério imperador Marco Aurélio forem revistadas, nas quais ele testemunha que a conhecida seca germânica foi dissipada pela chuva obtida através das orações dos cristãos que por acaso estavam no exército. ( Apologia, 5)

Isto parece criar uma contradição interna na literatura cristã, pelo menos para aqueles que (duvidosamente) desejam ler outros relatos cristãos que culpem Marco pela perseguição a cristãos.  (Como vimos, a carta citada por Eusébio não parece realmente responsabilizar).  Na verdade, nenhum autor, cristão ou pagão, parece citar qualquer édito de Marco que condene os cristãos.  Isto é digno de nota porque se ele tivesse realmente emitido um, eles certamente o teriam mencionado.

Carta de Marco para as Províncias Asiáticas

Temos, no entanto, um decreto sobrevivente atribuído a Marco e intitulado Carta de Antonino à Assembléia Comum da Ásia, que parece fornecer provas de que ele interveio ativamente para evitar a perseguição dos cristãos.  Ela é datada de 161 d.C., e emitida por Marco na qualidade de Imperador, o que sugere que foi uma de suas primeiras ações logo após ter sido aclamado ao trono.

Ele se refere explicitamente ao problema dos cristãos que são considerados pelos romanos como ateus porque eles não adoram os deuses pagãos convencionais.  Marco adverte as autoridades provinciais: “você molesta esses homens e os endurece em suas convicções, às quais se apegam, ao acusá-los de serem ateus”.  Ele afirma que os governadores provinciais escreveram muitas vezes a seu pai adotivo, o imperador Antonino Pio, cuja resposta foi sempre “não molestar tais pessoas”, a menos que eles estivessem realmente fazendo tentativas de prejudicar o governo romano.  Marco diz que ele mesmo, como Imperador, também repete com frequência esta política de não assédio a eles.  Na verdade, ele chega ao ponto de dizer: “E se alguém persistir em trazer qualquer pessoa [cristã] a problemas por ser o que é, que ele, contra quem a acusação é feita, seja absolvido mesmo que a acusação seja feita, mas que aquele que traz a acusação seja chamado a prestar contas”.  Em outras palavras, ele sugere que as autoridades provinciais possam ser punidas por Roma por perseguir os cristãos somente com base em sua religião.

C.R. Haines, que publicou este édito como um apêndice a sua tradução da Loeb das Meditações, incluiu um ensaio intitulado “Nota sobre a Atitude de Marco para com os Cristãos”.  Ele começa “Nada fez tanto mal ao bom nome de Marco quanto sua suposta atitude intransigente para com os cristãos” e conclui:

De fato, Marco foi acusado como perseguidor dos cristãos por razões puramente circunstanciais e bastante insuficientes.  O testemunho geral dos escritores cristãos contemporâneos é contra a suposição.  O mesmo acontece com o caráter conhecido de Marco.

Ele continua argumentando que a afirmação retrospectiva de Eusébio sobre inúmeras miríades de cristãos sendo perseguidos e horrivelmente torturados até a morte em todo o Império Romano dois séculos antes também é inconsistente com numerosos fatos históricos – frequentemente citados pelo próprio Eusébio e outros autores cristãos.  Por exemplo, a presença de um bispo à frente de uma comunidade de cristãos foi tolerada até mesmo em Roma, havia vários cristãos a serviço da própria casa de Marco, e provavelmente até mesmo cristãos no Senado romano.  Segundo Eusébio e outras três fontes cristãs, por exemplo, o senador Apolônio de Roma foi condenado à morte, sob o regime de Commodus.  Entretanto, isso implica que durante o reinado de Marco Apolônio foi permitido servir no Senado, apesar de ser cristão.  Várias fontes, incluindo Tertuliano, atestam que a Legião Fulminante[6] (Legio XII Fulminata) comandada por Marco na fronteira norte era composta em grande parte por soldados cristãos.

A obsessão de Marco Aurélio pela bondade, justiça e clemência é claramente demonstrada ao longo de toda Meditações.  Entretanto, isto é reforçado por numerosas referências a seu caráter nos escritos de outros autores romanos.  Marco é retratado com notável consistência como sendo um homem de excepcional clemência e humanidade – essa era sua reputação universal.  Os autores latinos tipicamente usavam a palavra humanitas (bondade) para descrever seu caráter; em grego a palavra filantropia (amor à humanidade) era preferida.

Haines, portanto, também acha implausível que alguém tão universalmente considerado como um homem de bondade e clemência excepcionais tivesse “encorajado a multidão contra pessoas inofensivas, ordenado a tortura de mulheres e meninos inocentes, e violado os direitos de cidadania”.  De fato, como vimos, não parece haver qualquer evidência de que Marco tenha sido realmente responsável pela perseguição dos cristãos.  O peso das provas, ao contrário, sugere que ele era, como afirma Tertuliano, um “protetor” dos cristãos, e tentou impedir as autoridades provinciais de persegui-los.

Podemos também olhar para o reinado de Antonino Pio, pai adotivo de Marco e predecessor como imperador, em busca de provas.  Desde que Marco foi nomeado César em 140 DC até a morte de Antonino Pio em 161 DC, por mais de vinte anos, Marco foi seu braço direito e praticamente co-regente ao seu lado.  De fato, Marco ajudou Antonino Pio a governar por mais tempo do que ele mesmo reinou, pois ele morreu em 180 DC, após dezenove anos no trono.  Tanto quanto sabemos, eles estavam de acordo em todos os assuntos, e cerca de uma década após sua morte, nas suas Meditações, Marco ainda se lembra de viver como um “discípulo de Antonino”.

De acordo com o epítome da História Romana de Cassius Dio feita por Xifilino:[7]

Antonino é reconhecido por todos como tendo sido nobre e bom, nem opressivo para os cristãos nem violento perante nenhum de seus outros súditos; ao invés disso, ele mostrou aos cristãos grande respeito e acrescentou à honra na qual Adriano costumava mantê-los. (Historia Romana)

Portanto, seria altamente notável se Marco (de todas as pessoas!) que tinha sido o braço direito nesta administração de Antonino, tivesse de repente levado a cabo uma reviravolta política dramática em relação aos cristãos e começasse a persegui-los ativamente em grande escala.

Na verdade, a forma de cristianismo que mais cresceu durante o reinado de Marco foi o Montanismo[8].  Sabemos que os Montanistas foram erradicados da história não porque foram perseguidos por Marco Aurélio ou pelas autoridades romanas, mas porque foram perseguidos e excomungados por outros cristãos, possivelmente incluindo os líderes da igreja ortodoxa de Lião.


[1] Henry Dwight Sedgwick III (24 de setembro de 1861 – 5 de janeiro de 1957) foi um advogado e autor americano. Escreveu uma biografia de Marco Aurélio, obra muito popular.

[2] Eusébio de Cesareia (ca. 265, 30 de maio de 339) (chamado também de Eusebius Pamphili) foi bispo de Cesareia e é referido como o pai da história da Igreja porque nos seus escritos estão os primeiros relatos quanto à história do cristianismo primitivo.

[3] Sulpício Severo (em latim: Sulpicius Severus; c. 363 — ca. 425) foi um escritor cristão nascido na Aquitânia. Ele é conhecido por sua História Sacra, ou a história do mundo desde a criação até seu tempo, e também por sua biografia de Martinho de Tours.

[4] Ireneu ou Irineu de Lyon ou Lião, em grego Εἰρηναῖος [pacífico] transliterado [Eirenaios], em latim Irenaeus, (ca. 130 – 202) foi um bispo grego, teólogo e escritor que nasceu, segundo se crê, na província romana da Ásia Menor Proconsular – a parte mais ocidental da actual Turquia – provavelmente Esmirna. O livro mais famoso de Ireneu, Sobre a detecção e refutação da chamada Gnosis, também conhecido como Contra Heresias (Adversus haereses, ca. 180 d.C.) é um ataque minucioso ao gnosticismo, que era então uma séria ameaça à Igreja primitiva e, especialmente, ao sistema proposto pelo gnóstico Valentim

[5] Tertuliano (em latim: Quintus Septimius Florens Tertullianus; c. 160 — c. 220 (60 anos)) foi um prolífico autor das primeiras fases do Cristianismo, nascido em Cartago na província romana da África Proconsular. Ele foi o primeiro autor cristão a produzir uma obra literária (corpus) em latim. Ele também foi um notável apologista cristão e um polemista contra a heresia.

[6] Legio duodecima Fulminata ou Legio XII Fulminata (“Décima-segunda legião, armada com raios”), também conhecida como “Paterna”, “Victrix”, “Antiqua”, “Certa Constans” e “Galliena”, foi uma legião romana, formada por Júlio César em 58 a.C. e que o acompanhou nas Guerras gálicas até 49 a.C. A unidade permanecia guardando um vau do rio Eufrates perto de Melitene no início do século V d.C. O emblema da legião era um raio (fulmen). Nos séculos finais de sua existência passou a ser conhecida corriqueiramente – e incorretamente – como Legio Fulminatrix, a Legião Fulminante.

[7] João Xifilino (em grego: Ἰωάννης Η΄ Ξιφιλῖνος; em latim: Joannes Xiphilinus), dito Epitomator por sua epítome de Dião Cássio, viveu em Constantinopla durante segunda metade do século XI. Ele foi um monge e era sobrinho do patriarca João VIII de Constantinopla, um pregador renomado.

[8] O montanismo foi um movimento cristão fundado por Montano por volta de 156-157 (ou 172), que se organizou e difundiu em comunidades na Ásia Menor, em Roma e no Norte de África. Por ter se originado na região da Frígia, Eusébio de Cesareia relata em sua História Eclesiástica (V.14-16) que ela era chamada de “Heresia Frígia” na época.

Resenha: Consolação a Márcia

Na Antiguidade, a carta de consolação era um gênero literário popular, sendo essencialmente um veículo para apresentar aspectos cruciais de uma escola filosófica e ao mesmo tempo dar conselhos reais sobre como lidar com a perda e o luto. O gênero literário Consolação foi cultivado por todas as grandes escolas, nela, o filósofo procura entender a dor que abala a pessoa a ser consolada e, ainda, compreender sua visão de mundo para assim expor sua filosofia, de forma que seja melhor assimilada pelo espírito em luto. Cleonice van Raij, diz:

Entre os filósofos e retores romanos o primeiro que se ocupou desse gênero foi Cícero, por ocasião da morte de sua filha Túlia, quando escreveu uma Consolação, a fim de abrandar a própria dor. Tal Consolação, infelizmente, não chegou até nós, restando dela apenas alguns fragmentos conservados nas Tusculanas. Sêneca, sem a menor dúvida, foi o mais fecundo escritor latino de Consolações, se considerarmos não só os textos conhecidos sob esse nome, mas também os vários tratados de alto teor consolatório, como Sobre a brevidade da vidaSobre a tranquilidade da alma, De remediis fortuitorum (Sobre os remédios dos acontecimentos fortuitos) e as cartas que, em grande parte, pertencem a esse gênero, como as LXIII, LXXXIXCIII e CVII, dirigidas a Lucílio. No entanto, as genuínas Consolações, ou seja, aquelas que mais respondem às exigências da tradição consolatória, são três: A MárciaA Hélvia e A Políbio.

Consolação a Márcia, Ad Marciam, De Consolatione”, é a primeira carta de consolação de Sêneca, escrita aproximadamente no ano 40, sendo a obra conhecida mais antiga do filósofo. A carta é endereçada a Márcia, filha do proeminente historiador Aulo Cremúcio Cordo[1].

Sêneca lhe escreve porque seu luto pela morte de seu filho Metílio parecia ter se tornado crônico, continuando três anos após a tragédia. Sêneca adverte Márcia, desde o início, que ele não será gentil:

Que outros usem medidas suaves e carícias; decidi lutar com sua dor, e vou secar esses olhos cansados e exaustos, que já, para dizer a verdade, choram mais por hábito do que por tristeza… Não posso agora influenciar uma dor tão forte por medidas educadas e suaves: ela deve ser destruída pela força”(I, 5, 8) .

Ele então lembra a sua amiga que todos os remédios normais contra seu luto prolongado têm falhado até agora: o consolo de seus amigos, a distração de bons livros, nem mesmo o próprio tempo. Ele teme que neste momento a dor tenha tomado uma morada permanente em sua alma, e que somente a filosofia esteja à altura do trabalho de restaurá-la a uma vida normal, caso contrário “alma infeliz toma uma espécie de mórbido deleite no pesar”.

Esta admirável peça de consolação oferece argumentos da filosofia estoica e sua visão de mundo, a fim de ajudar os enlutados e desolados a considerar outros aspectos da perda e também reconhecer a inevitabilidade da morte. Sêneca tenta transformar a tristeza paralisante de Márcia em belas e agradáveis lembranças do tempo que passaram juntos.

A primeira abordagem utilizada por Sêneca é a de recordar a Márcia dois exemplos contrastantes de luto em duas outras famosas mulheres romanas: Otávia e Lívia, respectivamente irmã e esposa de Otávio Augusto (o primeiro imperador). Ambas haviam perdido um filho, mas reagiram de maneira muito diferente: Otávia fez como Márcia, nunca emergindo de sua dor, negligenciando seus deveres familiares e sociais, e até mesmo ressentindo-se do filho sobrevivente de Lívia.

Sêneca então diz sem rodeios a Márcia que ela tem duas alternativas: seguir uma delas. Por que o caminho de Lívia é melhor que o de Otávia? “Que loucura é essa, castigar a si mesma porque é infeliz, e não para diminuir, mas para aumentar seus males! Você deve mostrar, também neste assunto, aquele comportamento decente e modéstia que tem caracterizado toda a sua vida: pois existe algo como autodomínio no luto também” (IV, 5). Note que este é um bom argumento contra aqueles que acusam os estoicos de reprimir as emoções. Não se trata de reprimir mas sim de administrar de forma razoável. Ter emoções é humano, ser possuído e controlado por elas é o caminho para a própria destruição. Com efeito, Sêneca é explícito a respeito disto:

nem vou tentar secar os olhos de uma mãe no próprio dia do enterro de seu filho. Eu irei me apresentar diante de um árbitro: o assunto sobre o qual iremos nos unir é, se o luto deve ser profundo ou incessante” (IV, 1)

Na sequencia, Sêneca aplica três estratégias contra a dor: Primeiro, ele lembra Márcia que seus próprios amigos agora não sabem como se comportar em sua presença. Em segundo lugar, argumenta que é uma má escolha não considerar a totalidade da vida de seu filho, e concentrar-se apenas no seu fim. Finalmente , ele traz o argumento estoico de que a verdadeira coragem só é testada em águas agitadas:

não há grande crédito em comportar-se corajosamente em tempos de prosperidade, quando a vida desliza facilmente com uma corrente favorável: nem um mar calmo e um vento suave exibem a arte do piloto: algum mau tempo é desejado para provar sua coragem” (V, 5).

Na décima seção Sêneca antecipa o famoso argumento de Epicteto de que não possuímos realmente coisas ou pessoas, elas são simplesmente emprestadas a nós pelo universo, e que “é nosso dever sempre poder colocar nossas mãos sobre o que nos foi emprestado sem data fixa para sua devolução, e restaurá-lo quando chamado sem um murmúrio». Muitos criticam filósofos da antiguidade por ser “sexistas” e desprezarem feminilidade. Na seção 16 Sêneca prova o contrário:

No entanto, quem diria que a natureza tem tratado com rancor as mentes das mulheres, e atrofiado suas virtudes? Acredite, elas têm o mesmo poder intelectual que os homens, e a mesma capacidade de ação honrada e generosa. Se treinadas para isso, elas são igualmente capazes de suportar a tristeza ou o trabalho.” (XVI, 2)

Sêneca aplica dezenas de argumentos de consolo, de fato, a própria vida tem sentido, diz Sêneca a Márcia, precisamente porque morremos. Coloca analogias estoicas que mais tarde foram imortalizadas nos ensinamentos de Epicteto: vida como uma estadia em uma pousada na qual somos hóspedes e Marco Aurélio: pense nos muitos séculos que se foram e nas cidades poderosas que pereceram.

Também apresenta exemplos de estadistas, como Pompeu, que viveram além de seu auge e terminaram sua vida em desgraça ou por traição. Sempre assumimos que quando a vida foi cortada, ela nos privou de uma série de coisas boas, mas isto não é de forma alguma garantido. Às vezes, a morte é na verdade uma bênção. Finalmente, Sêneca argumenta que o tempo transcorrido não é uma boa medida do valor de uma vida:

Passe a contar sua idade, não por anos, mas por virtudes: viveu tempo suficiente” (XXIV, 1)

Em síntese, esta é uma carta impressionante. Sêneca reconhece a humanidade da dor, nunca considera o luto de Márcia como insignificante, mesmo três anos após a morte do filho. Ele emprega grande gama de argumentos da escola estoica para convencê-la de que já passou tempo suficiente, de que ela deveria voltar à sociedade como um membro produtivo, enquanto transforma sua tristeza em doces lembranças de seu filho. É difícil imaginar uma abordagem mais humana do luto.


Disponível nas lojas: Amazon, Kobo, Apple e GooglePlay.


[1] Aulo Cremúcio Cordo (falecido em 25 d.C.) foi um historiador romano. Há muito poucos fragmentos restantes de sua obra, principalmente cobrindo a guerra civil e o reinado de Augusto. Em 25 d.C. ele foi obrigado por Sejano, que foi chefe dos pretorianos sob Tibério, a tirar sua vida depois de ser acusado de traição.

O que os brasileiros poderiam aprender com os estoicos romanos

O Ensaio abaixo borda os principais filósofos estoicos e suas lições para enfrentar a adversidade, escrito sob a ótica da crise recente.

Todos têm de jogar o jogo da vida. Você não pode simplesmente andar por aí dizendo: “Não dou a mínima para a riqueza, a saúde ou se eu for mandado para a prisão ou não”. Epicteto levou tempo para explicar melhor o que quis dizer. Ele diz que todos devem jogar o jogo da vida — que os melhores o jogam com “habilidade, estilo, presteza e graça”. Mas, como a maioria dos jogos, você o joga com uma bola. Seu time intensamente se esforça para fazê-la atravessar a linha de fundo. Mas, depois do jogo, o que se faz com a bola? Ninguém se importa. Não vale a pena se importar com ela. A competição, o jogo, foi a coisa propriamente dita. A bola foi “usada” para tornar o jogo possível, mas em si mesma não tem valor algum que justifique que se lute por ela. Uma vez terminado o jogo, a bola é uma questão indiferente.

(James B. Stockdale)

O espírito do artigo é: “O mundo pode ser cruel, mas nada nos força a ser cruéis com ele. Assim como nada nos obriga a idealizá-lo. A obra da filosofia é simples e discreta.”

Artigo excelente de Donato S. Ferrara.

O que os brasileiros poderiam aprender com os estoicos romanos

26 de Abril, aniversário de Marco Aurélio

Há 1899 anos atras nascia Marco Aurélio, em 26 de abril de 121.

Durante os últimos 14 anos de sua vida ele enfrentou uma das piores pragas da história da Europa, a peste Antonina, que recebeu seu nome. Estima-se que tenha matado até 5 milhões de pessoas, possivelmente incluindo o próprio imperador. No meio desta praga, Marco Aurélio escreveu suas Meditações, o maior clássico do estoicismo, onde registra conselhos morais e psicológicos a si mesmo. Ele frequentemente aplica a filosofia estoica aos desafios de lidar com a dor, a doença, a ansiedade e a perda.

Marco Aurélio nos ensina que o medo nos faz mais mal do que as coisas das quais temos medo. Escrevemos uma série de resenhas das Meditações, uma para cada capítulo.

Pensamento #56: Seja previdente, mas não entre em pânico.

p56-meditacoes IX-2

Como citamos anteriormente, durante o governo de Marco Aurélio ocorreu a Peste Antonina que devastou o Império Romano, causando a morte de cinco milhões de pessoas.

Lidar com o medo da morte é tema recorrente das Meditações. A peste também é citada, como neste trecho, em que o imperador condena atitudes irracionais:

“corrupção da mente é uma doença muito mais grave do que qualquer peste equiparável no ar que nos cerca.  Pois esta corrupção é uma peste animal tanto quanto eles são animais; mas a outra é uma peste de homens tanto quanto eles são homens.”

Livro IX, 2

Todo o terceiro parágrafo aborda a atitude esperada diante da morte: Não ser descuidado, mas não temer.

Não despreze a morte, mas fique em paz com ela, pois esta também é uma daquelas coisas que a natureza quer. Pois tal como é ser jovem e envelhecer, e crescer e alcançar a maturidade, e ter dentes, barba e cabelos brancos, e conceber e estar grávida e procriar, e todas as outras operações naturais que as estações da sua vida trazem, tal também é a dissolução. Isto, portanto, é consistente com o caráter de um homem que reflete – não ser descuidado, nem impaciente, nem desdenhoso em relação à morte, mas esperar por ela como uma das operações da natureza. Como agora espera o momento em que a criança sairá do ventre de sua esposa, assim esteja pronto para o momento em que sua alma sair deste envelope.  (Livro IX, 3)


Disponível na lojas:  GooglePlay,  Amazon,  Kobo e  Apple

Estoicismo no Tempo da Peste: Marco Aurélio e a peste Antonina

Livro - meditacoes IV

Marco Aurélio faleceu há 1840 anos, em 17 de março de 180, durante uma expedição contra os marcomanos em Vindobona (atual Viena). Suas cinzas foram trazidas para Roma e depositadas no mausoléu de Adriano. Ele foi vítima da Peste Antonina que devastou a população do Império Romano, causando a morte de cinco milhões de pessoas, quase 5% da população do império.

“Em meados do século II d.C. a prosperidade comercial e financeira do Império Romano era formidável e quando Antonino Pio morreu, em 161, o superávit financeiro deixado para o seu sucessor, Marco Aurélio, era de 2,7 bilhões de sestércios. A crise que incapacitou o Império Romano no século II d.C. e feriu fatalmente sua supremacia não foi causada por um inimigo humano, mas por um vírus microscópico e legal. A ameaça invisível teve origem na Ásia Central, onde foi liberada na população em expansão no Mundo Antigo. Quando a pandemia chegou ao Oriente distante no ano de 161 d.C., começou a infligir mortes pavorosas na população do Império Han. Nas fronteiras militares, as forças chinesas perderam entre 30% e 40% de seus efetivos, com os soldados ou mortos ou debilitados pelos primeiros surtos mortais da infecção.

O vírus levou a mesma devastação às fortificadas fronteiras romanas e impôs maiores fatalidades entre as legiões do que qualquer horda bárbara pudesse desejar alcançar. A pandemia também espalhou a infecção através do núcleo mediterrâneo do império, transmitida nos bazares romanos lotados de pessoas conduzindo seus negócios. Pela primeira vez, desde a época de Augusto, houve um grave declínio nas finanças do Estado” (Roma e Oriente Distante, Raoul MacLaughlin)

Marco Aurélio conheceu a morte de perto, tanto em batalha como em casa, tendo perdido 6 dos seus 13 filhos. Se consolava da seguinte forma:

Outro indaga: Como não perderei meu filho? Você assim: Como não terei medo de perdê-lo? (IX, 40)

As Meditações contêm inúmeras passagens nos lembrando que a doença e morte são naturais e não devem ser temidas. Por exemplo, Aurélio diz:

“Não faça como se você fosse viver dez mil anos. A morte paira sobre você. Enquanto vive, enquanto está em seu poder, seja bom.” (IV,17)

“Tudo é efêmero, tanto quem se lembra como o que é lembrado”. (IV,35)

“Você é uma pequena alma carregando um cadáver”(IV,41)

Alexandre o macedônio e seu noivo por morte foram levados ao mesmo estado; pois ou foram recebidos nos mesmos princípios seminais do universo, ou foram igualmente dispersos entre os átomos”. (VI, 24)

“como aqueles gladiadores semi-devorados por bestas selvagens, que embora cobertos com feridas e sangue, ainda suplicam ser mantidos mais um dia, embora eles ficarão expostos ao mesmo estado às mesmas garras e mordidas…”( X,8)

Meditações de Marco Aurélio

Donald Robertson autor de “How to Think Like a Roman Emperor: The Stoic Philosophy of Marcus Aurelius” escreveu um um relato dramatizado dos acontecimentos em torno da peste Antonina e a discussão desses eventos em relação à filosofia estoica encontrada. Recomendo a leitura: Stoicism in the Time of Plague



Disponível na lojas:  GooglePlay,  Amazon,  Kobo e  Apple

Resenha: Meditações, Livro XII

Chegamos ao fim das Meditações de Marco Aurélio semana que vem retornamos com as cartas de Sêneca.   No início do capítulo, Marco Aurélio lembra o que é verdadeiramente importante:

“se você tiver medo não porque você deve deixar de viver algum tempo, mas se você temer nunca ter começado a viver de acordo com a natureza – então você será um homem digno do universo que o produziu, e deixará de ser um estranho em sua terra natal, e não se perguntará sobre as coisas que acontecem diariamente como se fossem algo inesperado, nem será dependente disso ou daquilo” (XII,1)

No parágrafo 3 temos uma frase que pode ter inspirado o “penso, logo existo” de Descartes:

“Três são as coisas de que você é composto: um corpo pequeno, um pouco de vida e inteligência. Destes, os dois primeiros são seus, na medida em que é seu dever cuidar deles; mas o terceiro, só o terceiro, é propriamente seu.”(XII,3)

Em seguida duas frases fantásticas sobre a obsessão equivocada das pessoas com o que os outros pensam delas:

“cada um ama a si mesmo mais do que todos os outros homens, mas, no entanto, valoriza menos a sua própria opinião de si mesmo do que a dos outros. (…). Temos muito mais respeito pelo que os nossos vizinhos pensam de nós do que pelo que pensamos de nós mesmos.”(XII,4)

O ponto, deve ser claro, não é que é bom ignorar as opiniões ou críticas dos outros, independentemente dos seus méritos, mas sim que a nossa autoestima não deve depender de algo que claramente não temos controle, e que, portanto, devemos tratar, na melhor das hipóteses, como um indiferente preferido.

Nos parágrafos 17 e 20 recebemos alguns conselhos eminentemente práticos:

“Se não é certo, não o faça: se não é verdade, não o diga”(XII,17)

“Primeiro, não faça nada irrefletidamente, nem sem um propósito. Em segundo lugar, faça com que os seus atos se refiram apenas a um fim social.” (XII,20)

A primeira parte destaca o compromisso estoico com a vida ética, que inclui um dever para com a verdade, enquanto a segunda nos lembra a necessidade de estarmos atentos ao que fazemos e porquê, e que o que fazemos deve ser em benefício da humanidade.

Perto do final do livro Marco Aurélio afirma:

“Quão pequena parte do tempo ilimitado e insondável é destinada a cada homem, pois logo é engolido no eterno! E quão pequena uma parte de toda a substância, e quão pequena uma parte da alma universal, e sobre que pequeno torrão de toda a terra você se arrasta! Refletindo sobre tudo isso, nada considere grande, a não ser agir como a sua natureza o conduz e suportar o que a natureza comum traz”(XII,32)

Que forma maravilhosa de concluir os comentários às Meditações! Recomendo que leiam calmamente a obra, analisando cada passagem,  são ensinamentos do rei-filósofo.


Disponível na lojas:  GooglePlay,  Amazon,  Kobo e  Apple

Leitor recomendado: 

Resenha: Meditações, Livro XI

Analisamos hoje o penúltimo Livro das Meditações de  Marco Aurélio, onde ele cita os cristãos, dentro de uma passagem onde se discute a prontidão de morrer:

“Que grande alma é aquela que está pronta, em qualquer momento necessário, para ser separada do corpo e depois extinguida ou dispersa ou continuar a existir; mas de modo que esta disponibilidade venha do próprio julgamento do homem, não de mera obstinação, como com os cristãos, mas com ponderação e dignidade e de modo a convencer outro, sem demonstração dramática”(XI,3).

Pode-se usar esta citação como mais uma evidência, se alguma fosse necessária, de que os estoicos aprovaram a possibilidade do suicídio.

Toda a seção 18 do livro XI é uma lista de lembretes a si mesmo de como reagir quando alguém o ofende, com nove passos bem definidos.

Se alguém ofendeu você, considere primeiro: Qual é minha relação com os homens, e que somos feitos um para o outro; e por outro lado fui feito para ser colocado por cima deles, como um carneiro sobre o rebanho, ou um touro sobre o gado. Mas examine a questão a partir dos primeiros princípios, a partir disso. Se todas as coisas não são meros átomos, é a natureza que ordena todas as coisas: se é assim, as coisas inferiores existem por causa do superior, e estas por causa umas das outras.

Segundo, considere que tipo de homens eles são à mesa, na cama, e assim por diante; e particularmente, sob que compulsões a respeito das opiniões eles estão; e quanto aos seus atos, considere com que orgulho eles fazem o que eles fazem.

Terceiro, se os homens fazem bem o que fazem, não devemos nos aborrecer; mas se não fazem bem, é evidente que o fazem involuntariamente e na ignorância. Assim como toda alma é privada da verdade sem querer, assim também é privada, sem querer, do poder de se comportar para com cada um segundo os seus desígnios. Consequentemente, os homens se afligem quando são chamados injustos, ingratos e gananciosos, e em uma palavra maldosos aos seus vizinhos.

Quarto, considere que você também faz muitas coisas erradas, e que você é um homem como os outros; e mesmo que você se abstenha de certas falhas, ainda assim você tem a disposição de cometê-las, ainda que por covardia, ou preocupação com reputação, ou por algum motivo mesquinho, você se abstém de tais falhas.

Quinto, considere que você nem mesmo entende se os homens estão fazendo errado ou não, pois muitas coisas são feitas com uma certa referência às circunstâncias. E em resumo, um homem deve aprender muito para poder fazer um julgamento correto sobre os atos de outro homem .

Sexto, considere quando você estiver muito irritado ou triste, que a vida do homem é apenas um momento, e depois de um curto período de tempo todos nós estaremos mortos.

Sétimo, que não são os atos dos homens que nos perturbam, pois esses atos têm seu fundamento nos princípios dominantes dos homens, mas são nossas próprias opiniões que nos perturbam. Retire estas opiniões então, e resolva rejeitar seu julgamento sobre um ato como se fosse algo doloroso, e sua ira se vai. Como, então, removerei essas opiniões? Ao refletir que nenhum ato injusto de outrem traz vergonha para você: porque, se o erro não é só dele, você também deve necessariamente ter feito coisas erradas, e tornar-se um ladrão e tudo mais.

Oitavo, considere quanto mais dor é causada pela ira e irritação do que pelos próprios atos, dos quais estamos indignados e irritados.

Nono, considere que uma boa disposição é invencível se for verdadeira, e não um sorriso afetado e agir um papel. Pois o que lhe fará o homem mais violento, se você continuar a ser de uma disposição bondosa para com ele, e se, como a oportunidade oferece, você gentilmente o aconselhar e calmamente corrigir seus erros no mesmo momento em que ele está tentando fazer-lhe mal, dizendo: Não assim, minha criança: nós somos constituídos por natureza para outra coisa: certamente não vou ser ferido, mas você está se ferindo, minha criança. E mostre-lhe com tato gentil e por princípios gerais que isto é assim, e que mesmo as abelhas não fazem como ele faz, nem quaisquer animais que são formados pela natureza para serem gregários. E você não deve fazer isso nem com nenhum duplo significado nem no caminho da reprovação, mas afetuosamente e sem nenhum rancor em sua alma; e não como se você estivesse dando sermões a ele, nem ainda que qualquer espectador possa contemplá-lo, mas tanto quando ele estiver sozinho, ou se outros estiverem presentes.

Nos parágrafos 33 a 38 cita vários ensinamentos de Epicteto:

“Procurar pelo figo no inverno é ato de um louco: tal é aquele que procura seu filho quando já não é mais possível”(XI,33).

“Quando um homem beija seu filho, dizia Epicteto, deve sussurrar para si mesmo: ‘Amanhã talvez você morra’ – mas essas são palavras de mau presságio – Nenhuma palavra é uma palavra de mau presságio que expresse qualquer obra da natureza”(XI,34).

Neste livro Marco Aurélio além  Epicteto, cita também Sófocles, Aristóteles e Homero


Disponível na lojas:  GooglePlay,  Amazon,  Kobo e  Apple

Livros citados: 

  

Resenha: Meditações, Livro X

No início do livro temos mais um conselho sobre como lidar com seus semelhantes:

“Se um homem está equivocado, instrua-o gentilmente e mostre-lhe seu erro. Mas se não for capaz, culpe-se a si mesmo, ou não culpe nem a si mesmo.” (X,4)

Assim como Sêneca o faz na  Carta 70,  Marco Aurélio critica a bestialidade dos jogos no coliseu:

“como aqueles gladiadores semi-devorados por bestas selvagens, que embora cobertos com feridas e sangue, ainda suplicam ser mantidos mais um dia, embora eles ficarão expostos ao mesmo estado às mesmas garras e mordidas…”( X,8)

Como lidar consigo mesmo, uma das frases mais citadas e repetidas das Meditações:

Não fale mais sobre como o homem bom deve ser, mas seja um bom homem”(X,16)
“Habitue-se o mais possível a si mesmo, por ocasião de qualquer coisa que seja feita por qualquer pessoa a perguntar-se a si mesmo, para que fim está este homem fazendo isto? Mas começa por si mesmo, e se examine primeiro.” (X,38)

Neste livro Marco Aurélio além de fazer referência a Sêneca, cita Platão, Sócrates e Xenofonte.


Disponível na lojas:  GooglePlay,  Amazon,  Kobo e  Apple

Livros citados: 

Resenha: Meditações, Livro IX

O livro IX das Meditações de Marco Aurélio começa com uma passagem interessante:

“Aquele que age injustamente age sem piedade. Porque, uma vez que a natureza universal fez animais racionais uns para os outros, para ajudar uns aos outros de acordo com seus desígnios, e de modo algum para ferir uns aos outros, aquele que transgride sua vontade é claramente culpado de impiedade para com a mais alta divindade”(IX,1).

O termo “divindade” pode ser interpretado, como Deus ou natureza, o que para os estoicos é o mesmo. Marco Aurélio está dizendo algo notavelmente moderno: a natureza nos fez seres sociais racionais, então agir de forma antissocial ou irracional é literalmente ir contra a natureza (humana).

O imperador nos diz por que é irracional – de acordo com a visão estoica das coisas  –  fazer o mal:

” Aquele que faz o mal faz o mal contra si mesmo. Aquele que age injustamente age injustamente contra si mesmo, porque se torna mau”(IX,4).

Mas e se os outros fizerem o mal? Recebemos a resposta:

” Se puder, retifique, ensinando aos que fazem o mal; mas se não puder, lembre-se de que a indulgência é dada a você para este propósito”(IX,11).

Também não há motivo para se surpreender com o mal dos outros,  no fundo a culpa é sempre sua:

” E que mal se faz ou que há de estranho, se o homem que não foi instruído faz os atos de um homem sem instrução? Reflita se não deveria antes culpar-se a si mesmo…  Mas acima de tudo, quando você culpa um homem como infiel ou ingrato, vire-se para si mesmo. Pois a culpa é manifestamente sua, se você confiava que um homem que tivesse tal disposição manteria sua promessa.” (IX,42).

Assim como nos Livros VI e VII, encontramos afirmações recorrentes de Marco Aurélio sobre o “agnosticismo“:

“Numa palavra, se há um Deus, tudo está bem; e se o acaso governa, você tampouco deve ser governado por ele”(IX,28)

Fica claro nas meditações que Marco Aurélio acreditava em Deus, contudo, esta e muitas outras citações das Meditações atestam que os estoicos não pensavam que acreditar em Deus ou providência era essencial para chegar à sua concepção de ética:

“Ou tudo procede de uma só fonte inteligente e se ajunta como num só corpo, e a parte não deve achar culpa do que se faz para o bem do todo; ou só há átomos, e nada mais do que mistura e dispersão. Por que, então, está perturbado?” (IX,39)

Neste livro Marco Aurélio cita  Epicuro, Cícero e a Odisséia de Homero.


Disponível na lojas:  GooglePlay,  Amazon,  Kobo e  Apple

Livros citados: