O que os brasileiros poderiam aprender com os estoicos romanos

O Ensaio abaixo borda os principais filósofos estoicos e suas lições para enfrentar a adversidade, escrito sob a ótica da crise recente.

Todos têm de jogar o jogo da vida. Você não pode simplesmente andar por aí dizendo: “Não dou a mínima para a riqueza, a saúde ou se eu for mandado para a prisão ou não”. Epicteto levou tempo para explicar melhor o que quis dizer. Ele diz que todos devem jogar o jogo da vida — que os melhores o jogam com “habilidade, estilo, presteza e graça”. Mas, como a maioria dos jogos, você o joga com uma bola. Seu time intensamente se esforça para fazê-la atravessar a linha de fundo. Mas, depois do jogo, o que se faz com a bola? Ninguém se importa. Não vale a pena se importar com ela. A competição, o jogo, foi a coisa propriamente dita. A bola foi “usada” para tornar o jogo possível, mas em si mesma não tem valor algum que justifique que se lute por ela. Uma vez terminado o jogo, a bola é uma questão indiferente.

(James B. Stockdale)

O espírito do artigo é: “O mundo pode ser cruel, mas nada nos força a ser cruéis com ele. Assim como nada nos obriga a idealizá-lo. A obra da filosofia é simples e discreta.”

Artigo excelente de Donato S. Ferrara.

O que os brasileiros poderiam aprender com os estoicos romanos

26 de Abril, aniversário de Marco Aurélio

Há 1899 anos atras nascia Marco Aurélio, em 26 de abril de 121.

Durante os últimos 14 anos de sua vida ele enfrentou uma das piores pragas da história da Europa, a peste Antonina, que recebeu seu nome. Estima-se que tenha matado até 5 milhões de pessoas, possivelmente incluindo o próprio imperador. No meio desta praga, Marco Aurélio escreveu suas Meditações, o maior clássico do estoicismo, onde registra conselhos morais e psicológicos a si mesmo. Ele frequentemente aplica a filosofia estoica aos desafios de lidar com a dor, a doença, a ansiedade e a perda.

Marco Aurélio nos ensina que o medo nos faz mais mal do que as coisas das quais temos medo. Escrevemos uma série de resenhas das Meditações, uma para cada capítulo.

Pensamento #56: Seja previdente, mas não entre em pânico.

p56-meditacoes IX-2

Como citamos anteriormente, durante o governo de Marco Aurélio ocorreu a Peste Antonina que devastou o Império Romano, causando a morte de cinco milhões de pessoas.

Lidar com o medo da morte é tema recorrente das Meditações. A peste também é citada, como neste trecho, em que o imperador condena atitudes irracionais:

“corrupção da mente é uma doença muito mais grave do que qualquer peste equiparável no ar que nos cerca.  Pois esta corrupção é uma peste animal tanto quanto eles são animais; mas a outra é uma peste de homens tanto quanto eles são homens.”

Livro IX, 2

Todo o terceiro parágrafo aborda a atitude esperada diante da morte: Não ser descuidado, mas não temer.

Não despreze a morte, mas fique em paz com ela, pois esta também é uma daquelas coisas que a natureza quer. Pois tal como é ser jovem e envelhecer, e crescer e alcançar a maturidade, e ter dentes, barba e cabelos brancos, e conceber e estar grávida e procriar, e todas as outras operações naturais que as estações da sua vida trazem, tal também é a dissolução. Isto, portanto, é consistente com o caráter de um homem que reflete – não ser descuidado, nem impaciente, nem desdenhoso em relação à morte, mas esperar por ela como uma das operações da natureza. Como agora espera o momento em que a criança sairá do ventre de sua esposa, assim esteja pronto para o momento em que sua alma sair deste envelope.  (Livro IX, 3)


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Estoicismo no Tempo da Peste: Marco Aurélio e a peste Antonina

Livro - meditacoes IV

Marco Aurélio faleceu há 1840 anos, em 17 de março de 180, durante uma expedição contra os marcomanos em Vindobona (atual Viena). Suas cinzas foram trazidas para Roma e depositadas no mausoléu de Adriano. Ele foi vítima da Peste Antonina que devastou a população do Império Romano, causando a morte de cinco milhões de pessoas, quase 5% da população do império.

“Em meados do século II d.C. a prosperidade comercial e financeira do Império Romano era formidável e quando Antonino Pio morreu, em 161, o superávit financeiro deixado para o seu sucessor, Marco Aurélio, era de 2,7 bilhões de sestércios. A crise que incapacitou o Império Romano no século II d.C. e feriu fatalmente sua supremacia não foi causada por um inimigo humano, mas por um vírus microscópico e legal. A ameaça invisível teve origem na Ásia Central, onde foi liberada na população em expansão no Mundo Antigo. Quando a pandemia chegou ao Oriente distante no ano de 161 d.C., começou a infligir mortes pavorosas na população do Império Han. Nas fronteiras militares, as forças chinesas perderam entre 30% e 40% de seus efetivos, com os soldados ou mortos ou debilitados pelos primeiros surtos mortais da infecção.

O vírus levou a mesma devastação às fortificadas fronteiras romanas e impôs maiores fatalidades entre as legiões do que qualquer horda bárbara pudesse desejar alcançar. A pandemia também espalhou a infecção através do núcleo mediterrâneo do império, transmitida nos bazares romanos lotados de pessoas conduzindo seus negócios. Pela primeira vez, desde a época de Augusto, houve um grave declínio nas finanças do Estado” (Roma e Oriente Distante, Raoul MacLaughlin)

Marco Aurélio conheceu a morte de perto, tanto em batalha como em casa, tendo perdido 6 dos seus 13 filhos. Se consolava da seguinte forma:

Outro indaga: Como não perderei meu filho? Você assim: Como não terei medo de perdê-lo? (IX, 40)

As Meditações contêm inúmeras passagens nos lembrando que a doença e morte são naturais e não devem ser temidas. Por exemplo, Aurélio diz:

“Não faça como se você fosse viver dez mil anos. A morte paira sobre você. Enquanto vive, enquanto está em seu poder, seja bom.” (IV,17)

“Tudo é efêmero, tanto quem se lembra como o que é lembrado”. (IV,35)

“Você é uma pequena alma carregando um cadáver”(IV,41)

Alexandre o macedônio e seu noivo por morte foram levados ao mesmo estado; pois ou foram recebidos nos mesmos princípios seminais do universo, ou foram igualmente dispersos entre os átomos”. (VI, 24)

“como aqueles gladiadores semi-devorados por bestas selvagens, que embora cobertos com feridas e sangue, ainda suplicam ser mantidos mais um dia, embora eles ficarão expostos ao mesmo estado às mesmas garras e mordidas…”( X,8)

Meditações de Marco Aurélio

Donald Robertson autor de “How to Think Like a Roman Emperor: The Stoic Philosophy of Marcus Aurelius” escreveu um um relato dramatizado dos acontecimentos em torno da peste Antonina e a discussão desses eventos em relação à filosofia estoica encontrada. Recomendo a leitura: Stoicism in the Time of Plague



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Resenha: Meditações, Livro XII

Chegamos ao fim das Meditações de Marco Aurélio semana que vem retornamos com as cartas de Sêneca.   No início do capítulo, Marco Aurélio lembra o que é verdadeiramente importante:

“se você tiver medo não porque você deve deixar de viver algum tempo, mas se você temer nunca ter começado a viver de acordo com a natureza – então você será um homem digno do universo que o produziu, e deixará de ser um estranho em sua terra natal, e não se perguntará sobre as coisas que acontecem diariamente como se fossem algo inesperado, nem será dependente disso ou daquilo” (XII,1)

No parágrafo 3 temos uma frase que pode ter inspirado o “penso, logo existo” de Descartes:

“Três são as coisas de que você é composto: um corpo pequeno, um pouco de vida e inteligência. Destes, os dois primeiros são seus, na medida em que é seu dever cuidar deles; mas o terceiro, só o terceiro, é propriamente seu.”(XII,3)

Em seguida duas frases fantásticas sobre a obsessão equivocada das pessoas com o que os outros pensam delas:

“cada um ama a si mesmo mais do que todos os outros homens, mas, no entanto, valoriza menos a sua própria opinião de si mesmo do que a dos outros. (…). Temos muito mais respeito pelo que os nossos vizinhos pensam de nós do que pelo que pensamos de nós mesmos.”(XII,4)

O ponto, deve ser claro, não é que é bom ignorar as opiniões ou críticas dos outros, independentemente dos seus méritos, mas sim que a nossa autoestima não deve depender de algo que claramente não temos controle, e que, portanto, devemos tratar, na melhor das hipóteses, como um indiferente preferido.

Nos parágrafos 17 e 20 recebemos alguns conselhos eminentemente práticos:

“Se não é certo, não o faça: se não é verdade, não o diga”(XII,17)

“Primeiro, não faça nada irrefletidamente, nem sem um propósito. Em segundo lugar, faça com que os seus atos se refiram apenas a um fim social.” (XII,20)

A primeira parte destaca o compromisso estoico com a vida ética, que inclui um dever para com a verdade, enquanto a segunda nos lembra a necessidade de estarmos atentos ao que fazemos e porquê, e que o que fazemos deve ser em benefício da humanidade.

Perto do final do livro Marco Aurélio afirma:

“Quão pequena parte do tempo ilimitado e insondável é destinada a cada homem, pois logo é engolido no eterno! E quão pequena uma parte de toda a substância, e quão pequena uma parte da alma universal, e sobre que pequeno torrão de toda a terra você se arrasta! Refletindo sobre tudo isso, nada considere grande, a não ser agir como a sua natureza o conduz e suportar o que a natureza comum traz”(XII,32)

Que forma maravilhosa de concluir os comentários às Meditações! Recomendo que leiam calmamente a obra, analisando cada passagem,  são ensinamentos do rei-filósofo.


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Leitor recomendado: 

Resenha: Meditações, Livro XI

Analisamos hoje o penúltimo Livro das Meditações de  Marco Aurélio, onde ele cita os cristãos, dentro de uma passagem onde se discute a prontidão de morrer:

“Que grande alma é aquela que está pronta, em qualquer momento necessário, para ser separada do corpo e depois extinguida ou dispersa ou continuar a existir; mas de modo que esta disponibilidade venha do próprio julgamento do homem, não de mera obstinação, como com os cristãos, mas com ponderação e dignidade e de modo a convencer outro, sem demonstração dramática”(XI,3).

Pode-se usar esta citação como mais uma evidência, se alguma fosse necessária, de que os estoicos aprovaram a possibilidade do suicídio.

Toda a seção 18 do livro XI é uma lista de lembretes a si mesmo de como reagir quando alguém o ofende, com nove passos bem definidos.

Se alguém ofendeu você, considere primeiro: Qual é minha relação com os homens, e que somos feitos um para o outro; e por outro lado fui feito para ser colocado por cima deles, como um carneiro sobre o rebanho, ou um touro sobre o gado. Mas examine a questão a partir dos primeiros princípios, a partir disso. Se todas as coisas não são meros átomos, é a natureza que ordena todas as coisas: se é assim, as coisas inferiores existem por causa do superior, e estas por causa umas das outras.

Segundo, considere que tipo de homens eles são à mesa, na cama, e assim por diante; e particularmente, sob que compulsões a respeito das opiniões eles estão; e quanto aos seus atos, considere com que orgulho eles fazem o que eles fazem.

Terceiro, se os homens fazem bem o que fazem, não devemos nos aborrecer; mas se não fazem bem, é evidente que o fazem involuntariamente e na ignorância. Assim como toda alma é privada da verdade sem querer, assim também é privada, sem querer, do poder de se comportar para com cada um segundo os seus desígnios. Consequentemente, os homens se afligem quando são chamados injustos, ingratos e gananciosos, e em uma palavra maldosos aos seus vizinhos.

Quarto, considere que você também faz muitas coisas erradas, e que você é um homem como os outros; e mesmo que você se abstenha de certas falhas, ainda assim você tem a disposição de cometê-las, ainda que por covardia, ou preocupação com reputação, ou por algum motivo mesquinho, você se abstém de tais falhas.

Quinto, considere que você nem mesmo entende se os homens estão fazendo errado ou não, pois muitas coisas são feitas com uma certa referência às circunstâncias. E em resumo, um homem deve aprender muito para poder fazer um julgamento correto sobre os atos de outro homem .

Sexto, considere quando você estiver muito irritado ou triste, que a vida do homem é apenas um momento, e depois de um curto período de tempo todos nós estaremos mortos.

Sétimo, que não são os atos dos homens que nos perturbam, pois esses atos têm seu fundamento nos princípios dominantes dos homens, mas são nossas próprias opiniões que nos perturbam. Retire estas opiniões então, e resolva rejeitar seu julgamento sobre um ato como se fosse algo doloroso, e sua ira se vai. Como, então, removerei essas opiniões? Ao refletir que nenhum ato injusto de outrem traz vergonha para você: porque, se o erro não é só dele, você também deve necessariamente ter feito coisas erradas, e tornar-se um ladrão e tudo mais.

Oitavo, considere quanto mais dor é causada pela ira e irritação do que pelos próprios atos, dos quais estamos indignados e irritados.

Nono, considere que uma boa disposição é invencível se for verdadeira, e não um sorriso afetado e agir um papel. Pois o que lhe fará o homem mais violento, se você continuar a ser de uma disposição bondosa para com ele, e se, como a oportunidade oferece, você gentilmente o aconselhar e calmamente corrigir seus erros no mesmo momento em que ele está tentando fazer-lhe mal, dizendo: Não assim, minha criança: nós somos constituídos por natureza para outra coisa: certamente não vou ser ferido, mas você está se ferindo, minha criança. E mostre-lhe com tato gentil e por princípios gerais que isto é assim, e que mesmo as abelhas não fazem como ele faz, nem quaisquer animais que são formados pela natureza para serem gregários. E você não deve fazer isso nem com nenhum duplo significado nem no caminho da reprovação, mas afetuosamente e sem nenhum rancor em sua alma; e não como se você estivesse dando sermões a ele, nem ainda que qualquer espectador possa contemplá-lo, mas tanto quando ele estiver sozinho, ou se outros estiverem presentes.

Nos parágrafos 33 a 38 cita vários ensinamentos de Epicteto:

“Procurar pelo figo no inverno é ato de um louco: tal é aquele que procura seu filho quando já não é mais possível”(XI,33).

“Quando um homem beija seu filho, dizia Epicteto, deve sussurrar para si mesmo: ‘Amanhã talvez você morra’ – mas essas são palavras de mau presságio – Nenhuma palavra é uma palavra de mau presságio que expresse qualquer obra da natureza”(XI,34).

Neste livro Marco Aurélio além  Epicteto, cita também Sófocles, Aristóteles e Homero


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Livros citados: 

  

Resenha: Meditações, Livro X

No início do livro temos mais um conselho sobre como lidar com seus semelhantes:

“Se um homem está equivocado, instrua-o gentilmente e mostre-lhe seu erro. Mas se não for capaz, culpe-se a si mesmo, ou não culpe nem a si mesmo.” (X,4)

Assim como Sêneca o faz na  Carta 70,  Marco Aurélio critica a bestialidade dos jogos no coliseu:

“como aqueles gladiadores semi-devorados por bestas selvagens, que embora cobertos com feridas e sangue, ainda suplicam ser mantidos mais um dia, embora eles ficarão expostos ao mesmo estado às mesmas garras e mordidas…”( X,8)

Como lidar consigo mesmo, uma das frases mais citadas e repetidas das Meditações:

Não fale mais sobre como o homem bom deve ser, mas seja um bom homem”(X,16)
“Habitue-se o mais possível a si mesmo, por ocasião de qualquer coisa que seja feita por qualquer pessoa a perguntar-se a si mesmo, para que fim está este homem fazendo isto? Mas começa por si mesmo, e se examine primeiro.” (X,38)

Neste livro Marco Aurélio além de fazer referência a Sêneca, cita Platão, Sócrates e Xenofonte.


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Livros citados: 

Resenha: Meditações, Livro IX

O livro IX das Meditações de Marco Aurélio começa com uma passagem interessante:

“Aquele que age injustamente age sem piedade. Porque, uma vez que a natureza universal fez animais racionais uns para os outros, para ajudar uns aos outros de acordo com seus desígnios, e de modo algum para ferir uns aos outros, aquele que transgride sua vontade é claramente culpado de impiedade para com a mais alta divindade”(IX,1).

O termo “divindade” pode ser interpretado, como Deus ou natureza, o que para os estoicos é o mesmo. Marco Aurélio está dizendo algo notavelmente moderno: a natureza nos fez seres sociais racionais, então agir de forma antissocial ou irracional é literalmente ir contra a natureza (humana).

O imperador nos diz por que é irracional – de acordo com a visão estoica das coisas  –  fazer o mal:

” Aquele que faz o mal faz o mal contra si mesmo. Aquele que age injustamente age injustamente contra si mesmo, porque se torna mau”(IX,4).

Mas e se os outros fizerem o mal? Recebemos a resposta:

” Se puder, retifique, ensinando aos que fazem o mal; mas se não puder, lembre-se de que a indulgência é dada a você para este propósito”(IX,11).

Também não há motivo para se surpreender com o mal dos outros,  no fundo a culpa é sempre sua:

” E que mal se faz ou que há de estranho, se o homem que não foi instruído faz os atos de um homem sem instrução? Reflita se não deveria antes culpar-se a si mesmo…  Mas acima de tudo, quando você culpa um homem como infiel ou ingrato, vire-se para si mesmo. Pois a culpa é manifestamente sua, se você confiava que um homem que tivesse tal disposição manteria sua promessa.” (IX,42).

Assim como nos Livros VI e VII, encontramos afirmações recorrentes de Marco Aurélio sobre o “agnosticismo“:

“Numa palavra, se há um Deus, tudo está bem; e se o acaso governa, você tampouco deve ser governado por ele”(IX,28)

Fica claro nas meditações que Marco Aurélio acreditava em Deus, contudo, esta e muitas outras citações das Meditações atestam que os estoicos não pensavam que acreditar em Deus ou providência era essencial para chegar à sua concepção de ética:

“Ou tudo procede de uma só fonte inteligente e se ajunta como num só corpo, e a parte não deve achar culpa do que se faz para o bem do todo; ou só há átomos, e nada mais do que mistura e dispersão. Por que, então, está perturbado?” (IX,39)

Neste livro Marco Aurélio cita  Epicuro, Cícero e a Odisséia de Homero.


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Livros citados: 

     

 

Resenha: Meditações, Livro VIII

A primeira seção do oitavo livro de Meditações de Marco Aurélio apresenta uma pergunta que todos devemos fazer a nós mesmos, em vários momentos de nossas vidas:

” você teve a experiência de muitas andanças sem ter encontrado a felicidade em qualquer lugar, nem em silogismos, nem em riqueza, nem em reputação, nem em gozo, nem em qualquer outro lugar. Onde está então? Em fazer o que a natureza do homem requer”. (VIII,1)

E pela “natureza do homem“, os estoicos queriam dizer a natureza de um animal social racional. Em outras palavras, para Marco Aurélio, o verdadeira significado pode ser encontrado apenas na contribuição para o funcionamento da sociedade, ajudando seres humanos. E a melhor maneira de conseguir isso é aplicando nossa faculdade de razão.

As seções 4, 5 e 16 também dão bons conselhos:

“Considere que os homens farão as mesmas coisas, mesmo que você se irrite.(VIII, 4)
Este é o ponto principal: Não se perturbe, porque todas as coisas estão de acordo com a natureza do universal; e em pouco tempo não será ninguém e em lugar nenhum, como Adriano e Augusto”. (VIII, 5)
Lembre-se de que mudar sua opinião e seguir aquele que corrige seu erro é tão consistente com a liberdade quanto persistir em seu erro.” (VIII, 16)

No parágrafo 13, Marco lembra-nos da abordagem clássica do estoicismo, que é encapsulada por três domínios: “Constantemente, e se possível, por ocasião de cada impressão na alma, aplique a ela os princípios da Física, da Ética e da Dialética.” onde aqui “dialética” significa lógica.

No parágrafo 33 encontramos uma jóia que encapsula a doutrina estoica dos indiferentes preferidos:

” Receba [riqueza ou prosperidade] sem arrogância; e esteja pronto para deixá-la ir.” (VIII,33)

Portanto, a ideia não é buscar um estilo de vida ascético a todo custo (como recomendavam os cínicos), mas sim tratar a presença ou ausência de riqueza como indiferente à qualidade moral e à busca de sabedoria. Se você tem riqueza, use-a para o melhor; se você a perder, não se arrependa; se você não a tem, não a inveje.

No parágrafo 44, Marco escreve sobre outra ideia central do estoicismo:

“aqueles que preferem perseguir a fama póstuma não consideram que os homens de outros tempos serão exatamente como estes que não pode suportar agora”(VIII,44).

No parágrafo 48 temos a citação que deu título a um famoso livro sobre estoicismo de Pierre Hadot:

“a mente livre de paixões é uma cidadela, pois o ser humano não tem nada mais seguro para o qual possa se refugiar e para o qual o futuro seja inexpugnável”(VIII,48).


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Livros recomendados:  Pierre Hadot

   

Resenha: Meditações, Livro VII

O uso da razão é o foco do Livro VII:

“As coisas que são externas à minha mente não têm nenhuma relação com a minha mente.” (VII,2)

Marco Aurélio aborda o conceito de eudaemonia e como se manter são:

“Que fique no exterior o que cair sobre as partes que podem sentir os efeitos desta queda. Porque aquelas partes que sentirem se queixarão, se quiserem. Mas eu, a menos que pense que o que aconteceu é um mal, não sou ferido. E está em meu poder pensar assim.” (VII,14)

Um pouco mais tarde (#27) Marco Aurélio escreve sobre como se deve apreciar o que se tem, enquanto ao mesmo tempo não se apegar muito a isso, um lembrete da famosa máxima de Epicteto de que não possuímos nada (nem ninguém), nós apenas os “emprestamos”:

Não pense tanto no que você não tem quanto no que você tem: mas nas coisas que você escolheu o melhor, e então reflita quão ansiosamente elas teriam sido procuradas, se você não as tivesse. Ao mesmo tempo, no entanto, tome cuidado para que você não se acostume a supervalorizá-las, de modo a ser incomodado se você não as tiver no futuro.  (VII,27)

No final, temos uma frase fantástica, quando Marco diz que não adianta tentar fugir do mal dos outros, mas que devemos evitar o mal em nós mesmos:

“É uma coisa ridícula para um homem não fugir da sua própria maldade, que é realmente possível, mas tentar fugir da maldade de outros homens, que é impossível.” (VII, 71)


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