Catão diante da morte

Marco Pórcio Catão Uticense (Marcus Porcius Cato Uticensis), também conhecido como Catão de Útica ou Catão, o Jovem, foi um político romano célebre pela sua inflexibilidade e integridade moral. Viveu na época de Julio César e foi grande defensor da república.

Sêneca o cita frequentemente como exemplo do sábio estoico ideal. ( aqui e aqui, entre outros)

O artigo “Catão de Útica diante da morte” de Donato Ferrara é uma excelente fonte para conhecermos mais dele.

Catão de Útica diante da morte

Imagem: Morte de Catão por Jean-Paul Laurens

Carta 84: Sobre coletar ideias

Sêneca começa a carta com uma anedota particular: diz estar “fazendo exercício por procuração” ou seja, viajava de liteira, e quem fazia exercício eram os escravos que o carregavam! Não é atoa que ele foi (e continua sendo) acusado de hipocrisia por recomendar pobreza e vida frugal enquanto era um dos homens mais ricos do império.

A carta 84 é uma profunda meditação sobre o processo e o propósito da leitura. Sêneca argumenta que a leitura impede que se absorva a si mesmo e que bons leitores estão envolvidos em uma relação de diálogo com seus textos. Sêneca sustenta ainda que o próprio ato de escrever deve ser um reflexo de leitura cuidadosa:

“a leitura, penso eu, é indispensável: principalmente, para impedir a auto complacência, e, além disso, depois de ter aprendido o que os outros descobriram por meio de seus estudos, me permitir julgar suas descobertas e conjecturar sobre as quais ainda precisam ser feitas.” (LXXXIV, 1)

Acima de tudo, ele se preocupa em que façamos do conhecimento nosso dever. Como sempre, Sêneca não hesita em misturar metáforas para ilustrar seu ponto de vista, ou em mudar rapidamente de uma analogia para outra. Começa com analogia com as abelhas, ou seja, de devemos coletar de diversas fontes, passa para a imagem de um coro de muitas vozes e então diz que a leitura deve ser como os alimentos que consumimos: só nos são benéficos se digeridos e assimilados:

“Devemos seguir o exemplo das abelhas, que esvoaçam e selecionam as flores que são adequadas para a produção de mel, e depois organizar e classificar em seus favos tudo o que trouxeram.” (LXXXIV, 3)

“Devemos digeri-lo; caso contrário, simplesmente entrará na memória e não acrescentará nosso poder de raciocínio.” (LXXXIV, 7)

A seção 11 e seguintes compreende uma exortação geral à filosofia, na qual Sêneca deixa seu ponto central para trás. Observe, no entanto, como a carta termina quando começa com referência a uma viagem. É quase como se estivéssemos imaginando Sêneca escrevendo esta carta no caminho enquanto ele é transportado pela cidade em sua liteira.

(Imagem: pintura por Piotr Stachiewicz)


LXXXIV. Sobre coletar ideias

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. As viagens às quais você se refere – jornadas que afastam a preguiça do meu sistema – considero serem produtivas tanto para a minha saúde como para os meus estudos. Você percebe porque elas beneficiam a minha saúde: uma vez que minha paixão pela literatura me torna preguiçoso e descuidado em relação ao meu corpo, eu posso fazer exercício por procuração[1]; quanto aos meus estudos, mostrar-lhe-ei porque as minhas viagens os ajudam, pois não deixei de ler de forma alguma. E a leitura, penso eu, é indispensável: principalmente, para impedir a auto complacência, e, além disso, depois de ter aprendido o que os outros descobriram por meio de seus estudos, me permitir julgar suas descobertas e conjecturar sobre as quais ainda precisam ser feitas. A leitura nutre a mente e a refresca quando está cansada de estudo; no entanto, este refresco não é obtido sem estudo.

2. Não devemos limitar-nos nem à escrita, nem à leitura; a escrita contínua irá macular nossa força e a esgotará; a leitura sozinha fará a nossa força flácida e aguada. É melhor recorrer a elas alternadamente, e misturar uma com a outra, para que os frutos da leitura possam ser reduzidos à forma concreta pela pena.

3. Devemos seguir, dizem os homens, o exemplo das abelhas, que esvoaçam e selecionam as flores que são adequadas para a produção de mel, e depois organizar e classificar em seus favos tudo o que trouxeram; essas abelhas, como diz nosso Virgílio:

“o liquido mel acumulam, e fazem inchar os alvéolos de doce néctarliquentia mella Stipant et dulci distendunt nectare cellas.[2]

4. Não é certo se o suco que obtêm das flores se forma logo no mel, ou se transformam aquilo que recolhem neste objeto delicioso misturando algo ou por uma determinada propriedade de sua respiração. Pois algumas autoridades acreditam que as abelhas não possuem a arte de fazer mel, mas apenas de colhê-lo; e dizem que na índia o mel é encontrado nas folhas de certos juncos, produzido por um orvalho peculiar a esse clima, ou pelo suco da própria cana[3], que tem uma doçura e uma riqueza incomuns. E em nossas próprias gramíneas também, eles dizem, a mesma qualidade existe, embora menos clara e menos evidente; e uma criatura nascida para cumprir tal função poderia caçá-la e coletá-la. Alguns outros sustentam que os materiais que as abelhas retiraram das mais delicadas plantas florescentes são transformados nessa substância peculiar por um processo de conservação e armazenamento cuidadoso, auxiliado pelo que se poderia chamar de fermentação – por meio do qual elementos separados são unidos em uma substância.

5. Mas eu não devo desviar do assunto que estamos discutindo. Nós também, eu digo, devemos copiar estas abelhas, e peneirar tudo o que temos reunido de um curso variado de leitura, pois tais coisas são melhor preservadas se forem mantidas separadas; então, aplicando o cuidado de supervisão com que a nossa natureza nos dotou, ou seja, os nossos dons naturais, devemos misturar esses vários sabores num delicioso composto que, apesar de revelar sua origem, é certamente uma coisa diferente daquela de onde veio. Isto é o que vemos a natureza fazer em nossos próprios corpos sem nenhum trabalho de nossa parte;

6. O alimento que comemos, enquanto retém a sua qualidade original e permaneça, em nossos estômagos como uma massa não diluída, é um fardo; mas ele se torna tecido e sangue apenas quando for alterado de sua forma original. Assim é com a comida que nutre nossa natureza superior – devemos cuidar para que tudo o que tenhamos ingerido não seja permitido permanecer inalterado, ou não será parte de nós.

7. Devemos digeri-lo; caso contrário, simplesmente entrará na memória e não acrescentará nosso poder de raciocínio. Acolhamos fielmente tais alimentos e os façamos nossos próprios, de modo que algo único possa ser formado de muitos elementos, assim como um número é formado por vários elementos sempre que, segundo nosso cálculo, montantes menores, cada um diferente dos outros, são somados. Isto é o que a nossa mente deve fazer: deve esconder todos os materiais utilizados, e trazer à luz apenas o que foi feito deles.

8. Mesmo que se torne visível em você uma semelhança com um autor que, por causa de sua admiração, deixou-lhe uma profunda impressão, gostaria que se assemelhasse a ele como uma criança se assemelha a seu pai, e não como um retrato se assemelha a seu original; pois uma imagem é uma coisa sem vida. “O que“, você diz, “não será óbvio o estilo cujo qual você está imitando, o método de raciocínio, as palavras pungentes?” Acho que às vezes é impossível ver quem está sendo imitado, se a cópia é verdadeira; pois uma intelegência verdadeira carimba sua própria forma sobre todas as características que ela tirou do que podemos chamar de original, de tal forma que elas são combinadas em uma unidade.

9. Você não vê quantas vozes há em um coro? No entanto, do conjunto resulta-se uma única voz. Nesse coro uma voz toma o tenor outra o baixo, outra o barítono. Há mulheres, também, assim como homens, e a flauta é misturada com elas. Nesse coro as vozes dos cantores individuais estão escondidas; o que ouvimos são as vozes de todos juntos.

10. Certamente, refiro-me ao coro que os antigos filósofos conheciam; em nossas apresentações atuais temos um número maior de cantores do que costumava ter de espectadores nos teatros antigos. Todas as alas estão repletas de filas de cantores; os instrumentos de bronze cercam o auditório; O palco ressoa com flautas e instrumentos de toda descrição; e mesmo assim, dos sons discordantes, é produzida uma harmonia. Eu gostaria de ter tal qualidade como esta para minha mente; ela deve ser equipada com muitas artes, muitos preceitos e padrões de conduta tomados de muitas épocas da história; mas tudo deve misturar harmoniosamente em um todo.

11. “Como“, você pergunta, “isso pode ser realizado?” Por esforço constante, e por não fazer nada sem a aprovação da razão. E, se quiserem ouvir a sua voz, ela lhe dirá: “Abandone as perseguições que até agora lhe fez correr para cá e para lá. Abandone as riquezas, que são um perigo ou um fardo para o possuidor. Abandone os prazeres do corpo e da mente, eles apenas o amolecem e o enfraquecem…” Abandone sua busca por cargos, é uma coisa empolada, ociosa e vazia, uma coisa que não tem limites, tão ansiosa em não ter superiores como em evitar até os iguais, sempre torturada pela inveja, e uma inveja ainda por cima dupla: veja quão miserável é a situação de um homem quando é objeto de inveja ele próprio, tem inveja de outros.

12. Você contempla as casas dos grandes senhores, aquelas de soleiras ruidosas dos clientes que se atropelam na entreda? Eles têm muitos insultos para você assim que entra pela porta, e ainda mais depois de ter entrado. Passe pelos degraus que levam às casas dos ricos, e as varandas tornadas perigosas pela enorme multidão; pois lá você estará, não meramente na borda de um precipício, mas também em um terreno escorregadiço. Em vez disso, dirija o seu caminho para a sabedoria, e procure seus caminhos, que são formas de transcender a paz e a abundância.

13. Tudo o que parece notável nos assuntos dos homens – por insignificante que sejam, e apenas se destacam em contraste com os objetos mais baixos – é, no entanto, atingido por um caminho difícil e penoso. É um caminho acidentado que leva às alturas da grandeza; mas se você deseja escalar este pico, que está bem acima do alcance da Fortuna, você realmente verá aos seus pés tudo o que os homens consideram como o mais sublime, mas deste ponto em diante você poderá prosseguir para o bem supremo em um terreno plano.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Sêneca viajava de liteira, ou seja, na realidade quem fazia exercício eram os escravos que o carregavam.  Veja carta 55, em que Sêneca cita até que ponto um passeio de liteira pode equivaler a um exercício físico para um homem de idade.

[2] Trecho de Eneida, de Virgílio, I 432-3.

[3] Cana de açúcar é originária da Índia e, posteriormente, foi levada para a Europa e Américas.

Resenha: Sobre a Constância do Sábio

Sobre a Constância do Sábio é um ensaio moral escrito por Sêneca em forma de um diálogo. A obra celebra a serenidade do sábio estoico ideal que, com firmeza interior, é imune às injúrias e adversidades. É dirigido ao seu amigo Aneu Sereno e foi escrito entre os anos 47 e 62, sendo um dos três diálogos endereçados a Sereno, que também inclui “Sobre a tranquilidade da alma” e “Sobre o ócio”.

O ensaio apresenta a ideia do sábio estoico em termos claros e práticos: ele é um modelo a ser almejado, mas é uma figura plausível. De certa forma, o papel do sábio no estoicismo é semelhante ao de Jesus Cristo ou Buda: mostrar o caminho. Contudo Sêneca deixa claro que está falando de pessoas reais ao mencionar uma em particular, Marco Catão:

“Não venha dizer, tal como é seu costume, que esse nosso sábio não existe em lugar algum. Não somos nós que projetamos essa fantasmagoria gloriosa do gênero humano, nem é ela mera idealização grandiosa de uma figura fictícia. …. Além do mais, esse mesmo Catão que motivou toda essa nossa explanação, receio que até supere o modelo em pauta.” (VII, 1)

Sêneca começa o ensaio lembrando seu amigo que o progresso requer esforço, mas que, tornar-se um estoico, não é tão difícil quanto muitos acreditam. Diz que coisas difíceis parecem impossíveis ao olhos dos não iniciados, mas uma vez iniciada a jornada, descobre-se o caminho:

“muitas serras vistas de muito longe parecem íngremes e agrupadas, porque a distância engana nossa visão, e então, à medida que nos aproximamos, aquelas mesmas serras que nossos olhos equivocados haviam unido se desdobram gradualmente, aquelas partes que pareciam precipitadas de longe, assumem um contorno suavemente inclinado.” (I, 2)

No capítulo V, é feita então a distinção entre iniuria (injúria) e contumelia (insulto), seguindo o ensaio com discussões sobre a natureza dos dois temas, mostrando que o sábio é imune tanto a insultos quanto a injúrias. Apesar das palavras soarem como sinônimos atualmente, Sêneca as usa de forma distinta “deixe-nos distinguir injúria e insulto. O primeiro é naturalmente o mais doloroso, o segundo menos importante, e doloroso apenas para os de pele fina, pois enfurece os homens, mas não os fere…” (V,1)

Na sequência, Sêneca afirma que nem mesmo a Fortuna pode tirar-nos o que não nos deu, e que portanto, nada nos pode tirar a virtude, porque a virtude não nos é dada, é algo que vem de dentro. Sendo assim, nenhum dano real pode ser infligido ao homem sábio. O tema da Fortuna volta na seção VI, onde Sêneca diz: “pode suportar as adversidades com calma e a prosperidade com moderação, não cedendo à primeira nem confiando na segunda, podendo permanecer o mesmo em meio a todas as variantes da Fortuna, e não pensando que nada seja seu, a não ser ele próprio“. A frase é um bom resumo da atitude estoica para com os “indiferentes“, ou seja, coisas que estão fora de nosso controle.

Outra característica do sábio é que ele está livre do medo, pois o medo se origina na percepção de que a pessoa pode ser ferida, mas como já vimos, nada pode realmente ferir o sábio. Esse ponto é esclarecido adiante:

Algumas outras coisas atingem o sábio, embora não abalem seus princípios, como a dor e a fraqueza corporal, a perda de amigos e filhos e a ruína de seu país em tempos de guerra.Não negamos que é uma coisa desagradável ser espancado ou golpeado, ou perder um de nossos membros, mas dizemos que nenhuma dessas coisas são injúrias. Não lhes tiramos a sensação de dor, mas o nome de “injúria”, que não pode ser atribuído enquanto a nossa virtude estiver intacta. (X,4 e XVI,2)

Nos capítulos XI e XII Sêneca aprofunda o argumento de que o sábio não pode ser insultado. Ele nos lembra que crianças pequenas nos fazem todo tipo de coisas que não são agradáveis, e ainda assim não nos sentimos ofendidos pelo seu comportamento. De forma análoga, o sábio trata como crianças as pessoas que tentam feri-lo por insultos: devem ser ignoradas, ou corrigidas, se possível. Mais a frente, aprendemos que o sábio não tem prazer em ser admirado, seja por mendigos ou por milionários: “Assim também não se admirará a si mesmo, ainda que muitos homens ricos o admirem; pois sabe que eles não diferem em nenhum aspecto dos mendigos – não, são ainda mais infelizes do que eles; pois os mendigos só querem um pouco, enquanto os ricos querem muito.” (XIII, 3)

Mais uma passagem excepcional vem no capítulo XVI, quando Sêneca considera duas possíveis razões pelas quais algo de ruim nos acontece, e ensina como devemos responder de forma estoica:

Será que estas coisas me acontecem merecidamente ou sem merecer? Se merecidamente, não é um insulto, mas uma sentença judicial; se imerecidamente, quem faz injustiça deve se envergonhar, não eu”. (XVI, 3)

Segue-se com a sugestão de usar o humor autodepreciativo para lidar com insultos, porque é difícil rir de alguém que ri de si próprio antes. Além disso, porque essa é uma maneira muito eficaz de simplesmente estragar a diversão do seu oponente. Em linhas gerais, “o sucesso de um insulto reside na sensibilidade e na raiva da vítima.” (XVI, 4)

Tudo considerado, a imagem do sábio que emerge deste texto é, como prometido no início, a de alguém que pode, com esforço, ser copiado. A sabedoria não é inalcançável e lutar por ela é certamente o objetivo do estudante de estoicismo, ou seja, todos nós que somos imperfeitos.


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Resenha: Sobre a Tranquilidade da Alma (Parte 2)

Continuamos com a análise do diálogo Sobre a Tranquilidade da Alma. Primeira parte aqui.

Após tratar de preceitos sobre o patrimônio, “fonte mais fértil das dores humanas“, Sêneca se volta a discutir as vicissitudes da Fortuna, iniciando com a boa e tradicional sugestão estoica sobre como se adaptar a novas situações. Se você perdeu algo, até mesmo algo precioso, por causa das mudanças dos ventos da Fortuna, basta lembrar que “Em cada estação da vida você encontrará diversões, relaxamentos e prazeres; isto é, desde que esteja disposto a fazer dos males mais leves ao invés de odiosos” (X,1).

A isto, seguem citações clássicas que são joias de sabedoria que não requerem nenhuma adição:

Quando (o sábio) for convidado a desistir deles, não se queixará da Fortuna, mas dirá: “Agradeço-lhe pelo que tive em meu poder”. Tenho administrado a sua propriedade de modo a aumentá-la em grande parte, mas como você me ordenou, eu a devolvo e a devolvo de boa vontade e com gratidão” (XI, 2).

Que dificuldade pode haver em retornar ao lugar de onde se veio? Um homem não pode viver bem se não souber morrer bem” (XI, 4).

Doença, cativeiro, desastre, conflagração, nenhum deles é inesperado: Eu sempre soube com que companhia desordenada a Natureza me tinha associado” (XI, 7).

Nos capítulos XII e XIII são abordadas as fontes de inquietações oriundas de circunstâncias pessoais, tendo em vista as atribulações da Fortuna: falsos desejos relativos a bens e honrarias, atividades públicas e privadas. Sêneca adverte seu amigo sobre o perigo de se ocupar apenas para fazer algo, ao invés de fazer boas escolhas sobre como empregar seu tempo. Ele imagina um breve diálogo com quem não sabe o que está fazendo nem o porquê: Para onde você vai?” Ele responderá: “Por Hércules, eu não sei: mas verei algumas pessoas e farei alguma coisa“. Provavelmente conhecemos pessoas assim, veja que as coisas não mudaram tanto assim em dois milênios.

Segue-se que aceitamos o destino pelo que ele é, e de fato tentamos fazer o melhor com as novas circunstâncias. Sêneca lembra o exemplo de Zenão – o fundador da Escola – que perdeu tudo em um naufrágio e começou a estudar filosofia, dizendo:

A fortuna comanda que eu fique mais desimpedido para filosofar” (XIV, 3).

Já nos capítulos XV e XVI são tratadas as fontes de inquietações oriundas de circunstâncias externas. Sêneca compara duas atitudes diferentes em relação à vida: a trágica e a cômica, aconselhando que devemos seguir Demócrito e não Heráclito:

O último deles, sempre que aparecia em público, costumava chorar, o primeiro ria. Um pensava que todos os atos humanos eram tolices, o outro pensava que eram desgraças. Devemos ter uma visão mais elevada de todas as coisas e suportar com mais facilidade. É melhor ser homem a rir da vida do que a lamentar por ela” (XV, 2).

Mas é claro que Sêneca compreende que algumas vezes a vida é uma tragédia, como quando pessoas boas (ele menciona Sócrates, Rutílio, Pompeu, Cícero e Catão) são tratadas com injustiça. Mesmo assim, pode-se tirar lições valiosas:

veja como cada um deles suportou o seu destino, e se o suportaram com bravura. Deseje em seu coração uma coragem tão grande quanto a deles… Todos esses homens descobriram como, ao custo de uma pequena porção de tempo, eles poderiam obter a imortalidade e, com suas mortes, ganharam a vida eterna” (XVI, 2-4).

No último capítulo, Sêneca afirma que a alma dos homens deve ter um repouso, devemos mesclar solidão com contato social, trabalho com lazer e aproveitar jogos, diversão e bebidas, tudo porém, com moderação: “Não devemos forçar as colheitas dos campos férteis, porque um curso ininterrupto de colheitas abundantes logo esgotará sua fertilidade, e assim também a vitalidade de nossas mentes será destruída pelo trabalho incessante, mas elas recuperarão suas forças após um curto período de descanso e alívio.”

Esta última seção aniquila a injustificada acusação de que os estoicos seriam estraga-prazeres, recomendando brincar com crianças como Sócrates, dançar como Cipião, passear ao ar livre e beber como Catão e Sólon:

Por vezes, ganhamos força ao dirigir, ao viajar, ao trocar de paisagem ou de convívio social, ou ao fazer refeições com uma mesa mais generosa de vinho. Às vezes, devemos beber até a embriaguez, não para nos afogarmos, mas apenas para nos imergirmos no vinho, porque o vinho lava os problemas e nos afasta das preocupações das profundezas da mente, e age como remédio para a tristeza” (XVII, 8).

Um brinde a Sêneca!


Não se sabe quando o diálogo Sobre a tranquilidade da alma foi escrito. Pode ter sido composto e publicado no período entre o início dos anos 50 até por volta de 62 ou 63.

Aneu Sereno é destinatário não só da obra Sobre a Tranquilidade da Alma, mas também de Sobre a Constância do Sábio e ainda de Sobre o Ócio. Foi um grande amigo de Sêneca, pertencente à ordem equestre, formada pelos cidadãos mais abastados. Sereno também tinha cargo na administração pública, tendo obtido, por influência de Sêneca, a função de praefectus, responsável por combate a incêndios, atividade importante na cidade de Roma. Era bastante jovem e teve uma morte prematura, segundo Sêneca noticia na carta 63 a Lucílio.

(imagem, Diogenes por John William Waterhouse)

Resenha: Sobre a Tranquilidade da Alma

O diálogo Sobre a Tranquilidade da Alma foi claramente escrito como um meio de orientação para todos aqueles que aspirassem a dedicar-se ao aperfeiçoamento moral. É dirigido ao amigo Aneu Sereno destinatário também das obras Sobre a Constância do Sábio e ainda de Sobre o Ócio. Foi um grande amigo de Sêneca, pertencente à ordem equestre, formada pelos cidadãos mais abastados. Sereno também tinha cargo na administração pública, tendo obtido, por influência de Sêneca, a função de praefectus, responsável por combate a incêndios, atividade importante na cidade de Roma.

No texto é dito que o amigo é seguidor de Epicuro, talvez por isso, Sêneca apresenta o estoicismo em termos muito claros e concentra em conselhos construtivos e práticos. Sêneca apresenta a resposta da doutrina estoica para nos ajudar a superar os tormentos causados pelos temores e desejos humanos e alcançar a tranquilidade, o estado ideal de serenidade vivenciado de forma plena e permanente pelo sábio estoico.

Para que a resenha não fique muito longa, está dividida em duas partes, segue a primeira, com meus comentários sobre os primeiros nove capítulos:

Sobre a Tranquilidade da Alma começa com uma carta de Sereno pedindo conselhos e dizendo que sente ter um bom domínio sobre alguns de seus vícios, mas não sobre outros, e,  como resultado disso, sua alma não tem tranquilidade. Diz “Eu não estou doente nem saudável” e percebe que seu julgamento sobre seus próprios assuntos é distorcido por preconceitos pessoais.

Estou bem ciente de que essas oscilações da alma não são perigosas e nem me ameaçam de nenhuma desordem séria. Para expressar aquilo de que me queixo por um simulacro exato, não estou sofrendo de uma tempestade, mas de enjoo do mar. Tire de mim, pois, esse mal, seja ele qual for, e ajude aquele que está em aflição mesmo ao avistar a terra“. (I, 17)

Sereno lista seus problemas:

  • hesitação diante do desejo de bens e de prazeres corporais (§5-9);
  • alternância entre desejo de atuação social e de recolhimento aos estudos (§10-12) ;
  • dilema ético e estético relativo a busca pela fama (§13-14).

Apresentados os sintomas, fazendo uso da imagem do paciente frente ao médico, Sereno pede o diagnóstico e o remédio: “Rogo, então, se tem algum remédio que possa deter esta minha vacilação e me faça digno de lhe dever a paz de espírito”.

A resposta de Sêneca toma os demais capítulos e começa com a descrição completa das características da doença. Informa a Sereno que ele busca a coisa mais importante da vida, um estado que chama de tranquilidade (tranquillitas) e que os gregos chamavam de euthymía(II,3). A definição de tranquilidade é fantastica, e deve ser colocada na íntegra:

“O que buscamos, então, é como a alma pode sempre seguir um rumo firme, sem percalços, pode estar satisfeita consigo mesma e olhar com prazer para o que a rodeia, e não experimentar nenhuma interrupção dessa alegria, mas permanecer em uma condição pacífica, sem nunca estar eufórica ou deprimida: isso será ‘tranquilidade’.” (II,4)

Ele então explica que há vários tipos de homens que não alcançam a tranquilidade da alma, por diferentes razões. Alguns sofrem de inconstância, mudando continuamente seus objetivos e mesmo assim sempre lamentando do que acabaram de desistir. Outros não são inconstantes, mas ficam numa posição infeliz por seu entorpecimento. Eles “continuam a viver não da maneira que desejam, mas da maneira que começaram a viver“, ou seja, por inércia (II,6). Outros ainda acreditam que a maneira de vencer a sua inconstância é viajando para longe, mas é claro que apenas carregam consigo seus próprios problemas: “Assim, cada um sempre foge de si mesmo” (II,14). Sêneca conclui seu preâmbulo sugerindo que nossos problemas não residem no lugar onde vivemos, mas em nós mesmos, e retoricamente pergunta: “Por quanto tempo vamos continuar fazendo a mesma coisa? (II,15)

A partir do capítulo III Sêneca apresenta uma série de conselhos específicos para Sereno sobre como alcançar a tranquilidade da alma. O primeiro vem de Atenodoro: “O melhor é ocupar-se dos negócios, da gestão dos assuntos do Estado e dos deveres de um cidadão“. Isso porque estar a serviço dos outros e do próprio país é, ao mesmo tempo, exercitar-se em uma atividade e fazer o bem. Mas também se pode fazer o bem e manter-se ocupado engajando-se na filosofia. Esse tipo de ocupação proporcionará satisfação e, portanto, tranquilidade de espírito e tornará nossas vidas diferentes daquelas de pessoas que não terão nada para mostrar ao final das suas: “Muitas vezes um homem de idade avançada não tem outro argumento com que comprove ter vivido longo tempo exceto seus anos.” Segue-se então com preceitos sobre atividades e sobre o ócio (negotia × otium).

Nos capítulos VI e VII Sêneca elucida como se auto avaliar e assim conseguir escolher um caminho onde é possível ter sucesso. Começa por advertir seu amigo que é comum as pessoas pensarem que podem conseguir mais do que realmente conseguem. A pessoa sábia, ao invés disso, está ciente das suas limitações. Também é preciso lembrar que algumas buscas simplesmente não valem o esforço e devemos nos afastar delas porque nosso tempo na vida é curto e precioso. E então, diz Sêneca, “apegue-se a algo que possa terminar, ou, pelo menos, que acredite poder terminar” (VI,4). Devemos também ter cuidado na escolha de nossos associados, dedicando partes de nossas vidas a pessoas que valham o esforço. Além disso, nossas buscas devem ser do tipo que nós realmente gostamos, se possível: “pois nenhum bem se faz forçando a alma a se engajar em um trabalho não apropriado: quando a Natureza resiste, o esforço é vão.“(VII,2)

Os capítulos VIII e IX tratam de preceitos sobre o patrimônio, “fonte mais fértil das dores humanas” (VIII,1). Sêneca adverte Sereno que, em sua experiência, os ricos não suportam perdas melhor do que os pobres, pois “dói aos carecas tanto quanto aos cabeludos terem seus cabelos arrancados” (VIII,3).

“Patrimônio, essa fonte mais fértil das dores humanas: se compararmos todos os outros males de que sofremos – mortes, enfermidades, medos, arrependimentos, dores e fadigas – com as misérias que o nosso dinheiro nos inflige, este último pesará muito mais do que todos os outros. Reflita, pois, quanto menos dor é nunca ter tido dinheiro do que tê-lo perdido. (VIII, 1-2)

É por isso que Diógenes não era dono de nada, para impossibilitar que alguém pudesse tirar algo dele: “Fortuna, não se intrometa: Diógenes não tem mais nada que lhe pertença“(VIII,7).

É claro que o próprio Sêneca não era nenhum Diógenes, e na verdade era um homem muito rico. Ele frequentemente foi atacado e acusado de hipocrisia por causa disso, mas seu ponto é que não se deve ter apego aos bens materiais. É possível ter bens, desde que não seja possuído por seu patrimônio. Ainda assim, na mesma seção ele aconselha a reduzir a quantidade de nossos bens, de modo a diminuir a probabilidade de nos apegarmos a eles de forma exagerada:

Nunca poderemos afastar a tão profunda e vasta diversidade da iniquidade com que somos ameaçados a ponto de não sentir o peso de muitas tempestades, se oferecermos largas velas ao vento do mar” (IX,3).

O capítulo IX termina com uma frase muito citada de Sêneca, porém citada de forma enganosa, pois ele critica homens que compram livros e não os estudam:

Você verá as obras de todos os oradores e historiadores empilhadas sobre estantes que chegam até o teto. Nos dias de hoje, uma biblioteca tornou-se tão necessária como um apêndice de uma casa como um banho quente e frio.” (IX,7)

Paramos por aqui. E alguns dias sigo com o restante da obra.


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Carta 83: Sobre a embriaguez

A Carta 83 trata do tema da bebida, e se um sábio pode ou não se embriagar. A carta, apesar de longa, é de leitura fácil e envolvente, conta com inúmeros exemplos e relatos da época de Roma.

Assim como na carta anterior, Sêneca discorda de Zenão, que proibia totalmente o uso do álcool, dizendo que um bom homem jamais se embriaga ao afirmar que “Ninguém confia um segredo a um homem bêbado, mas confiará um segredo a um homem bom, portanto, o bom homem não vai ficar embriagado“. (§9)

Sêneca considera essa afirmação uma falácia, argumentando:

“Perceba quão ridículo Zenão é feito quando montamos um semelhante silogismo em contraste com o seu. Há muitos, mas um bastará: ‘Ninguém confia um segredo a um homem quando ele está dormindo, mas confia-se um segredo a um homem bom, portanto, o homem bom não vai dormir.'” (LXXXIII, 9)

Para ele é permitido beber, e existem inúmeros exemplos de homens bons e modelos de conduta que eventualmente (ou em alguns casos frequentemente) se embriagam. Contudo, o sábio estoico sabe que não é uma atitute racional e que não deve ser tomada:

“Quão melhor é acusar em público a embriaguez com franqueza e expor seus vícios! Pois mesmo o bom homem médio evita-a, para não mencionar o sábio perfeito, que se satisfaz abrandando sua sede; o sábio, mesmo que de vez em quando guiado pelo bom ânimo, e, por causa de um amigo, seja levado um pouco longe demais, sempre para antes da embriaguez.(LXXXIII, 17)

Conclui a carta com uma frase genial, afirmando ser impossível argumentar que um sábio pode exagerar na bebida e manter um curso reto, o correto, é demonstrar que o que os homens chamam de prazeres são punições assim que ultrapassarem os limites devidos. (§26)

(Imagem: Baco por Guido Reni)


LXXXIII. Sobre a embriaguez

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você me pediu dar-lhe um relato de cada dia separado, e do dia inteiro também; então você me deve ter em boa opinião se acha que nestes meus dias não há nada a esconder. Seja como for, é assim que devemos viver, como se vivêssemos à vista de todos os homens; e é assim que devemos pensar, como se houvesse alguém que pudesse olhar para nossa alma mais íntima; e há quem possa assim olhar. Pois que beneficio há em algo escondido do homem, quando nada escapa da visão de Deus? Ele é testemunha de nossas almas, e Ele entra em nossos pensamentos – entra neles, eu digo, como alguém que pode a qualquer momento partir.

2. Por conseguinte, farei o que me pediu, e com prazer informarei por carta o que faço e em que sequência. Vou continuar observando-me continuamente, e – um hábito muito útil – irei rever cada dia. Pois isto é o que nos torna cheios de vícios: pois nenhum de nós olha para trás sobre sua própria vida. Nossos pensamentos são dedicados apenas ao que estamos prestes a fazer. No entanto, nossos planos para o futuro sempre dependem do passado.

3. Hoje tem sido ininterrupto; ninguém furtou a menor parte de mim. O tempo todo foi dividido entre o leito[1] e a leitura. Um breve espaço foi dado ao exercício físico, e neste terreno eu posso agradecer a velhice – meu exercício custa muito pouco esforço; assim que começo a me mexer, estou cansado. E cansaço é o objetivo e o fim do exercício, não importa quão forte seja.

4. Você pergunta quem são meus treinadores? Um é suficiente para mim, o escravo Fário[2], um companheiro agradável, como você sabe; mas vou trocá-lo por outro. No meu tempo de vida eu preciso de um que seja de ainda mais suaves anos. Fário, pelo menos, diz que ele e eu estamos no mesmo período de vida; pois estamos ambos perdendo os dentes. No entanto, mesmo agora, mal posso seguir o seu ritmo enquanto corre, e dentro de um curto espaço de tempo não poderei segui-lo; assim que você vê quão lucrativo é o exercício diário. Brevemente abre-se um grande intervalo entre duas pessoas que viajam de maneiras diferentes. Meu escravo está subindo no momento em que estou descendo e você certamente sabe quanto mais rápida a última o é. Não, eu estava errado; pois agora minha vida não está descendo; está caindo completamente.

5. Você pergunta, por tudo isso, como nossa corrida resultou hoje? Corremos para um empate, algo que raramente acontece em uma competição em corrida. Depois de me cansar dessa maneira (porque não posso chamar de exercício), tomei um banho frio; isto, em minha casa, significa apenas morno. Eu, o antigo entusiasta da água fria, que costumava celebrar o ano novo mergulhando no canal[3], que, tão naturalmente como eu ia fazer alguma leitura ou escrita, ou compor um discurso, costumava inaugurar o primeiro do ano com um mergulho no aqueduto de Virgo[4], mudei minha fidelidade, primeiro para o Tibre, e depois para o meu tanque favorito, que é aquecido apenas pelo sol, às vezes quando eu sou mais robusto e quando não há sequer uma falha em meus processos corporais. Tenho muito pouca energia para tomar banho.

6. Após o banho, algum pão envelhecido e café-da-manhã sem uma mesa; não há necessidade de lavar as mãos após uma refeição como essa. Então vem uma sesta muito curta. Você conhece meu hábito; aproveito um pouquinho de sono, desarrear, por assim dizer. Pois estou satisfeito se consigo parar de ficar acordado. Às vezes eu sei que dormi; outras vezes, tenho uma mera suspeita.

7. Eis que agora o barulho das corridas soa sobre mim! Meus ouvidos são castigados por aplausos súbitos e gerais. Mas isso não perturba meu pensamento nem quebra sua continuidade. Posso suportar um alvoroço com completa resignação. A mistura de vozes embaralhadas em uma nota soa para mim como o ruído das ondas, ou como o vento que açoita as copas das árvores, ou como qualquer outro som que não traz nenhum significado.

8. O que é, então, você pergunta, a que tenho dado a minha atenção? Vou dizer-lhe, um pensamento apoderou-se de minha mente, desde ontem, ou seja, o que os homens da maior sagacidade têm querido dizer quando ofereceram as provas mais frívolas e intrincadas para problemas da maior importância, provas que podem ser verdade, mas ainda assim se assemelham a falácias.

9. Zenão, o maior dos homens, o reverenciado fundador da nossa brava e sagrada escola de filosofia, deseja desencorajar-nos da embriaguez. Ouça, pois, os seus argumentos para provar que o bom homem não se embriagará: “Ninguém confia um segredo a um homem bêbado, mas confiará um segredo a um homem bom, portanto, o bom homem não vai ficar embriagado“. Perceba quão ridículo Zenão é feito quando montamos um semelhante silogismo em contraste com o seu. Há muitos, mas um bastará: “Ninguém confia um segredo a um homem quando ele está dormindo, mas confia-se um segredo a um homem bom, portanto, o homem bom não vai dormir.”

10. Posidônio advoga a causa de nosso mestre Zenão da única maneira possível; mas não pode, eu mantenho, ser defendido mesmo desta maneira. Pois Posidônio sustenta que a palavra “bêbado” é usada de duas maneiras, – em um o caso de um homem que é carregado de vinho e não tem controle sobre si mesmo; no outro, de um homem que está acostumado a ficar bêbado, e é um escravo do vício. Zenão, diz ele, queria dizer do último, o homem que está acostumado a se embebedar, não o homem que está bêbado; e ninguém poderia confiar a esta pessoa qualquer segredo, pois poderia ser tagarelado quando tal homem estivesse em seus copos.

11. Esta é uma falácia. Pois o primeiro silogismo se refere a aquele que está realmente bêbado e não a aquele que está prestes a ficar bêbado. Você certamente vai admitir que há uma grande diferença entre um homem que está bêbado e um beberrão. Aquele que está realmente bêbado pode estar neste estado pela primeira vez e pode não ter o hábito, enquanto o beberrão muitas vezes está livre da embriaguez. Interpreto, portanto, a palavra em seu sentido usual, especialmente porque o silogismo é estabelecido por um homem que pratica o uso cuidadoso das palavras e que pesa sua linguagem. Além disso, se é isso que Zenão quis dizer, e o que queria que significasse para nós, ele estava tentando aproveitar-se de uma palavra ambígua para atingir uma falácia; e nenhum homem deve fazer isto quando a verdade é o objeto da investigação.

12. Mas admitamos, de fato, que ele quis dizer o que Posidônio diz; mesmo assim, a conclusão é falsa, que segredos não são confiados a um bêbado habitual. Pense quantos soldados que não estão sempre sóbrios foram confiados por um general ou um capitão ou um centurião com mensagens que não poderiam ser divulgadas! Quanto ao notório plano de assassinato de Caio César, quero dizer, o César que conquistou Pompeu e obteve o controle do estado[5], Tílio Cimbro foi confiado por ele pelo não que menos Caio Cássio. Cássio, ao longo da sua vida, bebeu água; Enquanto Tílio Cimbro era um beberrão, bem como um arruaceiro. O próprio Cimbro aludiu a este fato, dizendo: “Eu carrego um mestre, não posso controlar minha bebida!

13. Portanto, cada um lembre-se daqueles que, ao seu conhecimento, não podem ser confiados com vinho, mas são confiados com a palavra; e ainda um caso ocorre a minha mente, que eu relatarei, para que não caia no esquecimento, pois a vida deve ser provida de ilustrações notáveis. Não vamos sempre recordar ao passado obscuro.

14. Lucio Pisão, o diretor de Segurança Pública em Roma, estava bêbado desde o momento de sua nomeação. Costumava passar a maior parte da noite em banquetes e dormia até o meio-dia. Era assim que passava as horas da manhã. No entanto, aplicou-se com toda a diligência aos seus deveres oficiais, que incluía a tutela da cidade. Até o virtuoso Augusto confiava nele com ordens secretas quando o colocou no comando da Trácia[6]. Pisão conquistou aquele país. Tibério também confiava nele quando aproveitava férias na Campânia, deixando para trás, na cidade, muitos assuntos críticos que suscitavam suspeita e ódio.

15. Acho que foi por causa da embriaguez de Pisão ter dado bom resultado para o Imperador que ele nomeou Cosso para o cargo de prefeito de Roma, um homem de autoridade e equilíbrio, mas tão embebido e mergulhado em bebida que uma vez, em uma reunião do Senado, para onde tinha ido depois de banquetear, foi dominado por um sono do qual não podia ser despertado, e teve de ser levado para casa. Foi a este homem que Tibério enviou muitas ordens, escritas em suas próprias mãos, ordens que ele acreditava que não deveria confiar nem mesmo aos oficiais de sua casa. Cosso nunca deixou escapar um único segredo, seja pessoal ou público.

16. Aboliremos, portanto, todas as arengas como esta: “Nenhum homem nos laços da embriaguez tem poder sobre a sua alma. À medida que os próprios toneis são arrebentados pelo vinho novo, e como a escória no fundo é levantada à superfície pela força da fermentação, assim, quando o vinho efervesce, o que está escondido embaixo é levantado e tornado visível. Como um homem subjugado pelo licor não pode manter a sua comida quando ele exagera no vinho, assim também ele não pode manter um segredo. Derrama imparcialmente tanto os seus próprios segredos como os de outras pessoas “.

17. Isto, naturalmente, é o que comumente acontece, mas também acontece – nós discutirmos assuntos sérios com aqueles que sabemos ter o hábito de beber. Por conseguinte, esta proposição, que é estabelecida sob a forma de uma defesa do silogismo de Zenão, é falsa – que os segredos não são confiados ao bêbado habitual. Quão melhor é acusar em público a embriaguez com franqueza e expor seus vícios! Pois mesmo o bom homem médio evita-a, para não mencionar o sábio perfeito, que se satisfaz abrandando sua sede; o sábio, mesmo que de vez em quando guiado pelo bom ânimo, e, por causa de um amigo, seja levado um pouco longe demais, sempre para antes da embriaguez.

18. Investigaremos mais tarde a questão se a mente do sábio é perturbada por excesso de vinho e se comete loucuras como as do bêbado; mas enquanto isso, se quiser provar que um bom homem não deve ficar bêbado, por que trilhar pela lógica? Mostre como é vil beber mais licor do que se pode suportar, e não saber a capacidade de seu próprio estômago; mostre quantas vezes o bêbado faz coisas que o fazem corar quando está sóbrio; afirmam que a embriaguez não é senão uma condição de insanidade propositadamente assumida. Prolongue a condição do bêbado a vários dias; terá alguma dúvida sobre sua loucura? Mesmo assim, a loucura não é menor; meramente dura um tempo mais curto.

19. Pense em Alexandre da Macedônia, que esfaqueou Clito[7], seu amigo mais querido e mais fiel, em um banquete; depois que Alexandre compreendeu o que tinha feito, desejou morrer, e seguramente devia ter morrido. A embriaguez acende e revela todo o tipo de vícios, e elimina o sentimento de vergonha que encobre nossas ações perversas. Pois mais homens se abstêm de ações proibidas porque têm vergonha de pecar do que porque suas inclinações são boas.

20. Quando a força do vinho se torna muito grande e ganha o controle sobre a mente, todo mal escondido sai do seu esconderijo. A embriaguez não cria vícios, apenas os trazem à vista; nessas ocasiões o homem lascivo não espera até a privacidade de um quarto, mas sem postergação dá carta branca às exigências de suas paixões; em tais ocasiões o homem sem castidade proclama e publica sua doença; nessas ocasiões seu companheiro intratável não restringe sua língua ou sua mão. O homem pedante aumenta sua arrogância, o homem cruel sua crueldade, o caluniador seu veneno. A cada vício é dado liberdade.

21. Além disso, esquecemos quem somos, pronunciamos palavras hesitantes e mal enunciadas, o olhar é inseguro, o passo vacilante, a cabeça confusa, o próprio teto se move como se um ciclone estivesse girando toda a casa, e o estômago sofre tortura quando o vinho gera gás e faz com que nossas próprias entranhas inchem. No entanto, na ocasião, esses problemas podem ser suportados, desde que o homem retenha sua força natural; mas o que pode fazer quando o sono prejudica seus poderes, e quando aquilo que foi embriaguez se torna indigestão?

22. Pense nas calamidades causadas pela embriaguez em uma nação! Este mal traiu aos seus inimigos as raças mais espirituosas e guerreiras; este mal abriu brechas em muros defendidos pela guerra obstinada de muitos anos; este mal tem colocado povos sob influência estrangeira, povos que eram totalmente inflexíveis e desafiadores do jugo; este mal conquistou pela taça de vinho aqueles que na batalha eram invencíveis.

23. Alexandre, que acabo de mencionar, passou por suas muitas lutas, suas muitas batalhas, suas muitas campanhas de inverno (através das quais conseguiu superar as desvantagens do tempo e do lugar), os muitos rios que fluíam de fontes desconhecidas e os muitos mares, todos em segurança; foi a intemperança em beber o que derrubou, e a famosa taça mortal de Hércules[8].

24. Que glória há em beber muito? Quando você ganha o prêmio, e os outros convidados do banquete, escarrapachados adormecidos ou vomitando, recusam seu desafio a ainda mais brindes; quando você é o último sobrevivente da orgia; quando vence cada um por seu magnífico espetáculo de proezas e não há nenhum homem que tenha se provado de tão grande capacidade como você, você é vencido pelo barril.

25. Marco Antônio era um grande homem, um homem de habilidade distinta; mas o que o arruinou e o levou a hábitos exóticos e vícios não romanos, se não a embriaguez e – não menos potente que o vinho – o amor por Cleópatra? Foi isso que o fez inimigo do Estado; isto foi o que o tornou fraco para seus inimigos; foi isso que o fez cruel, quando, sentado à mesa, lhe trouxeram as cabeças dos líderes da República[9]; quando no meio das festas mais elaboradas e do luxo régio ele reconhecia os rostos e as mãos dos homens que havia proscrito; quando, ainda que cheio de vinho, ainda tinha sede de sangue. É intolerável que estivesse bebendo enquanto fazia tais coisas; quão mais intolerável que tenha feito essas coisas enquanto realmente bêbado!

26. Crueldade geralmente segue a bebedeira, pois a solidez mental de um homem é corrompida e tornada selvagem. Assim como uma doença persistente faz os homens ranzinzas e irritáveis e os faz selvagens na mínima oposição de seus desejos, assim também ataques contínuos de embriaguez bestializam a alma. Pois quando as pessoas estão frequentemente fora de si, o hábito da loucura perdura, e os vícios que o licor aflora retêm seu poder mesmo quando o licor se vai.

27. Portanto, você deve expor por que o sábio não deve ficar embriagado. Explique por fatos, e não por meras palavras, a hediondez da coisa e seus males assombradores. Faça o que é mais fácil de tudo – ou seja, demonstre que o que os homens chamam de prazeres são punições assim que ultrapassarem os limites devidos. Pois se você tentar provar que o sábio pode se saciar com muito vinho e ainda manter seu curso reto, mesmo que ele esteja bêbado, você vai acabar por inferir por silogismos que ele não vai morrer se ele engolir veneno, que não vai dormir se tomar uma poção sonífera, que não vai vomitar e rejeitar a matéria que entope seu estômago quando você lhe dá heléboro[10]. Mas, quando os pés de um homem cambaleiam e sua língua está instável, que razão você tem para acreditar que ele esteja em parte sóbrio e em parte bêbado?

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Não significa que passou metade do dia a dormir, pois ele necessitava pouco do sono (§ 6). O leito de que se trata aqui, portanto, é uma espécie de divã no qual se reclinava para meditar quando não estava à mesa de trabalho.

[2] Pharius.

[3] Inverno no hemisfério norte.

[4] Construído por Marcos Agripa; Atualmente fonte de Trevi.

[5] O preciosismo de Sêneca é necessário porque Caio César era o nome comumente usado para designar Calígula.

[6] A Trácia é uma região histórica do sudeste da Europa. Antiga região da Macedônia, atualmente é dividida entre a Grécia, Turquia e a Bulgária.

[7] Clito, o Negro foi um oficial do exército macedônio liderado por Alexandre, o Grande. Ele salvou a vida de Alexandre na Batalha do Grânico. Clito foi, mais tarde, morto pelas mãos do próprio Alexandre durante uma bebedeira.

[8] Há uma versão , não confirmada, que Alexandre teria morrido após beber da “Taça de Hércules” em uma sessão de forte bebedeira.

[9] Por ordem de Marco Antônio, a cabeça de Cícero cabeça foi pregada na Rostra no Fórum Romano. Segundo Dião Cássio a esposa de Antônio, Fúlvia, pegou a cabeça de Cícero, arrancou sua língua e a espetou repetidas vezes com um grampo de cabelo, uma vingança final contra o poder da oratória do inimigo de seu marido.

[10][10] Uma planta que possuía propriedades catárticas e era amplamente utilizada pelos antigos. Também aplicada em casos de perturbação mental.

Resenha: Estoicismo, por George Stock

A obra “Estoicismo” de George Stock é uma envolvente explicação do estoicismo clássico. O autor, de forma concisa e compreensível, escreveu o guia desta escola, abordando não só a Ética estoica, mas também sua LógicaFísica, tanto ignoradas nos estudos atuais.

Logo no início, de forma até injuriosa, Stock afirma: “Se você despir o estoicismo de seus paradoxos e seu mau uso intencional da linguagem, o que resta é simplesmente a filosofia moral de Sócrates, Platão e Aristóteles, temperada com a física de Heráclito“. Contudo, no decorrer do texto Stock se mostra um erudito com profundo conhecimento dos autores estoicos e da filosofia clássica como um todo.

Todas suas afirmações são fundamentas por textos clássicos. Nas centenas de notas de rodapé Stock cita com precisão filósofos como Sêneca, Cícero, Aristóteles, Epicteto, Marco Aurélio; historiadores como Plutarco, Diógenes Laércio, Estobeu e poetas como Horácio, Pérsio, Virgílio e Juvenal. Nenhuma afirmação importante é deixada sem a indicação da autoridade clássica que defende a tese. Stock demonstra conhecimento enciclopédico da filosofia greco-romana.

Nas seções abaixo, um breve sumário de cada capítulo com alguns trechos:

Filosofia entre os Gregos e Romanos

Stock explica a relação dos antigos com a filosofia, afirmando que seria algo similar a função hoje ocupada pela religião. Na sequencia fala sobre o criador do estoicismo, Zenão das bases da escola.

  • Entre os gregos e romanos clássicos, a filosofia ocupava o lugar que a religião tem entre nós. O apelo deles era à razão, não à revelação. Onde, pergunta Cícero, devemos buscar a formação em virtude, se não na filosofia?
  • O estoicismo foi criado a partir do cinismo, enquanto o epicurismo foi criado a partir da escola cirenaica.
  • … os estoicos identificaram uma vida de acordo com a natureza com uma vida de acordo com a mais alta perfeição à qual o homem poderia alcançar. … E a perfeição da razão era a virtude.

Divisão da Filosofia

Descreve como a filosofia estoica é divida e os motivos dessa divisão:

  • A filosofia era definida pelos estoicos como “o conhecimento das coisas divinas e humanas“. Foi dividida em três tópicos: lógica, ética e física.
  • A filosofia deve estudar a natureza (incluindo a natureza divina) ou o homem e, se estuda o homem, deve considerá-lo do lado do intelecto ou dos sentimentos, seja como um ser pensante (lógica) ou como um ser atuante (ético).
  • É uma metáfora preferida da escola comparar a filosofia a um vinhedo ou pomar fértil. Ética era o bom fruto, física as plantas altas, e lógica o muro forte. O muro existia apenas para guardar as árvores, e as árvores apenas para produzir os frutos

Lógica

Stock parte então para detalhar cada uma das divisões, começando pela Lógica que afirma ser o ponto forte dos estoicos, em oposição retórica onde deixavam a desejar. Aborda os silogismos e questões dialéticas debatidas pelos estoicos gregos:

  • Lógica no seu conjunto é dividida em retórica e dialética: a retórica foi definida como o conhecimento de como falar bem nos discursos expositivos e dialética como o conhecimento de como argumentar corretamente em assuntos de pergunta e resposta.
  • A famosa comparação da mente infantil com uma folha de papel em branco, que ligamos tão de perto com o nome de Locke, vem realmente dos estoicos. Os caracteres mais antigos nela inscritos eram as impressões de sentido, que os gregos chamavam de “representações”. Uma representação foi definida por Zenão como “uma impressão na alma”.
  • Ao examinarmos os detalhes que nos restam da lógica estoica, a primeira coisa que nos impressiona é a sua extrema complexidade em comparação com a aristotélica.

Ética

Este é o capítulo mais interessante do livro, onde Stock explica as quatro virtudes cardeais da Sabedoria, Temperança, Coragem e Justiça que os estoicos definiram como ramos do conhecimento. O conceito de “Indiferentes” é magnificamente clarificado:

  • Para a teoria estoica, as paixões eram simplesmente o intelecto em estado de doença, devido às perversões da falsidade. É por isso que os estoicos não se deixariam enganar pela paixão, concebendo que, uma vez deixada entrar na cidadela da alma, ela se sobreporia ao governante legítimo.
  • Embora todas as paixões fossem condenadas em si mesmas, havia, no entanto, certas “eupatias“, ou boas emoções (ou paixões saudáveis), que seriam experimentadas pelo homem idealmente bom e sábio.
  • As coisas foram divididas por Zenão em boas, más e indiferentes. Ao que era bom pertencia a virtude; ao que era mau, o vício. Todas as outras coisas eram indiferentes.
  • Por coisas indiferentes, entendidas como não necessariamente contribuintes para a virtude. Seriam por exemplo, saúde, riqueza, força e honra. É possível ter tudo isso e não ser virtuoso, é possível também ser virtuoso sem isso. Mas agora temos de aprender que, embora essas coisas não sejam boas nem más e, portanto, não sejam matéria de escolha ou de abstinência, elas estão longe de ser indiferentes, no sentido de não suscitar nem impulso nem repulsa.

Física

Neste capítulo é abordado a visão estoica da natureza. Qual era a visão estoica sobre as leis do universo no que diz respeito à matéria e à energia, seus constituintes, e suas interações. Para os estoicos o espírito era algo material, um tipo de gás ou éter.

  • O passivo era aquele ser inqualificável que é conhecido como Matéria. O ativo era o Logos, ou a razão nela, que é Deus. Sustentavam que impregnava infinitamente a matéria e criava todas as coisas
  • Um elemento era definido como aquele a partir do qual as coisas surgiram no início e no qual serão finalmente dissolvidas. Os termos terra, ar, fogo e água tinham de ser tomados num sentido amplo: terra significa tudo o que era da natureza da terra, ar, tudo o que era da natureza do ar e assim por diante. Portanto, na estrutura humana, os ossos e os nervos pertenciam à terra.

Conclusão

No último capítulo Stock faz um resumo do estoicismo e, em oposição ao dito no prefácio, se mostra extremamente favorável à escola, destaca o as aspecto cosmopolita e tolerante dos estoicos, afirmando terem sido os primeiros a “reconhecer plenamente o valor do homem como homem“:

  • A ausência de qualquer apelo a recompensas e castigos era uma consequência natural do princípio central da moral estoica: essa virtude é em si a mais desejável de todas as coisas.
  • Apesar da falta de sentimento de que os estoicos se glorificaram, ainda é verdade dizer que a humanidade de seu sistema constitui uma de suas mais justas reivindicações em nossa admiração. Foram os primeiros a reconhecer plenamente o valor do homem como homem;
  • O Estado ideal de Aristóteles, como a República de Platão, ainda é uma cidade grega; Zenão foi o primeiro a sonhar com uma república que deveria abraçar toda a humanidade.
  • A virtude, com os primeiros filósofos gregos, era aristocrática e exclusiva. O estoicismo, assim como o cristianismo, abriu-a para o mais insignificante da humanidade.
  • Onde quer que houvesse um ser humano, lá o estoicismo via um campo para o bem fazer. Seus seguidores deviam ter sempre na boca e no coração a conhecida frase: “Sou homem; nada do que é humano, considero estranho a mim

Este livro, relativamente curto, é um excelente guia da escola do pórtico.


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Carta 82: Sobre o medo natural da morte

300

Após algum tempo, retomamos a programação normal, as cartas de Sêneca. Na carta 82 mais uma vez o tema é a medo da morte, usando o assunto para se aprofundar num conceito muito importante do estoicismo: o significado de “indiferente“.

A carta é interessante pois mostra a independência de Sêneca ao discordar e criticar Zenão, o fundador do estoicismo. Sêneca diz que não é papel de um filósofo discutir silogismos e dialética, mas sim criar mecanismos para nos ajudar a enfrentar ansiedades e medos:

“Mas, de minha parte, recuso-me a reduzir tais assuntos a uma questão de regras dialéticas ou às sutilezas de um sistema completamente desgastado. Fora, eu digo, com todo esse tipo de coisa que faz um homem sentir-se, quando lhe é proposta uma pergunta, que ele está cercado e forçado a admitir uma premissa, e então o faz dizer uma coisa em sua resposta quando sua verdadeira opinião é outra”. (LXXXII, 19)

A definição de Indiferentes de Sêneca é a clássica do estoicismo:

Eu classifico como “indiferente” – ou seja, nem o bem nem o mal – a doença, a dor, a pobreza, o exílio, a morte. Nenhuma dessas coisas é intrinsecamente gloriosa; mas nada pode ser glorioso além delas. Pois não é a pobreza que louvamos, é o homem a quem a pobreza não pode humilhar ou dobrar. (…) É a maldade ou a virtude que concede o nome de bem ou mal. Um objeto não é por sua própria essência nem quente nem frio; ele é aquecido quando jogado em um forno, e resfriado quando colocado em água”. (LXXXII, 10-11;14)

Contudo, Sêneca diz que chamar a morte de indiferente é “forçar a barra” e que as pessoas dificilmente concordariam com isso. Portanto, embora a morte seja algo indiferente, não é, algo que seja facilmente ignorado, pois:

“Não é natural que um homem proceda de bom grado a um destino que acredita ser ruim; ele irá lentamente e com relutância. Mas nada glorioso pode resultar da relutância e covardia; a virtude não faz nada sob compulsão”. (LXXXII, 17)

Sêneca conclui a carta citando os trezentos de Leônidas e os Fábios, exemplos de comandantes que conduziram seus exércitos para a morte certa pois era o que deveria ser feito.


Imagem cena do filme 300.

Iria usar a pintura clássica de Leônidas nas Termópilas por Jacques Louis David… mas por algum motivo, esses guerreiros não me convencem.


LXXXII. Sobre o medo natural da morte

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Já deixei de estar ansioso por você. “Quem, então, dos deuses”, você pergunta, “você encontrou um fiador?” Um deus, deixe-me dizer-lhe, que não engana ninguém, – uma alma em amor com o que é reto e bom. A melhor parte de si mesmo está em terreno seguro. A fortuna pode infligir dano a você; o que é mais pertinente é que não tenho medo de que você cause dano a si mesmo. Proceda como você começou, e resolva-se neste modo de vida, não com luxo, mas com calma.

2. Prefiro estar em apuros ao invés de em luxo; e você deve interpretar melhor o termo “em apuros”, como o uso popular costuma interpretá-lo: viver uma vida “dura”, “áspera”, “cansativa”. Nós costumamos ouvir a vida de certos homens enaltecidas dessa forma, quando eles são objetos de impopularidade: “Fulano vive luxuosamente”; mas com isso eles querem dizer: “Ele é amolecido pelo luxo.” Pois a alma é efeminada gradualmente e enfraquecida até corresponder ao sossego e preguiça em que se encontra. Eis que não é melhor para alguém que é mesmo um homem se endurecer, ter ânimo vigoroso? Em seguida, estes mesmos fanfarrões temem que o que fizeram de suas próprias vidas. Há muita diferença entre estar ocioso e estar enterrado!

3. “Mas”, você diz, “não é melhor até mesmo estar ocioso do que girar nesses redemoinhos de distração empresarial?” Ambos os extremos devem ser depreciados – tanto a tensão e lassidão. Considero que aquele que está deitado em um leito perfumado não é menos morto do que aquele que é arrastado pela forca do carrasco. Ociosidade sem estudo é a morte; é um túmulo para o homem vivo.

4. Qual é a vantagem da aposentadoria? Como se as verdadeiras causas de nossas ansiedades não nos seguissem através dos mares! Que esconderijo existe, onde o medo da morte não possa entrar? Que covil pacífico existe, tão fortificado e até agora seguro que a dor não o encha de medo? Onde quer que você se esconda, os males humanos farão um alvoroço ao redor. Há muitas coisas externas que nos cercam, para nos enganar ou pesar sobre nós; há muitas coisas dentro das quais, mesmo em meio à solidão, se preocupam e fermentam.

5. Portanto, envolva-se com a filosofia, uma muralha inexpugnável. Embora seja assaltada por muitos mecanismos, a Fortuna não pode encontrar passagem nela. A alma permanece em terreno inatacável, quando abandona as coisas externas; é independente em sua própria fortaleza; e cada arma que é atirada fica aquém do alvo. A fortuna não tem o longo alcance com que creditamos a ela; ela não pode atingir ninguém a não ser aquele que se apega a ela.

6. Vamos então recuar dela o mais que pudermos. Isso só será possível para nós por via do autoconhecimento e da natureza[1]. A alma deve saber para onde vai e de onde veio, o que é bom para ela e o que é mau, o que procurar e o que evitar, e o que a razão distingue entre o que é desejável e indesejável e, assim, domina a loucura de nossos desejos e acalma a violência de nossos medos.

7. Alguns homens se lisonjeiam de terem controlado esses males sozinhos, mesmo sem o auxílio da filosofia; mas quando algum acidente os tira da guarda, uma confissão tardia de erro é arrancada deles. Suas palavras atrevidas perecem de seus lábios quando o torturador lhes ordena que estendam suas mãos, e quando a morte se aproxima! Poderia dizer a esse homem: “Era fácil para você desafiar males que não estavam próximos, mas aqui vem a dor, que você declarou que poderia suportar, aqui vem a morte, contra a qual você se gabou! O chicote estala, a espada cintila:

Ah, mostra agora, Eneias, a sua coragem, a sua energia!”Nunc anirais opus, Aenea, nunc pectore firmo.[2]

8. Esta força de coração, no entanto, virá de estudo constante, desde que você pratique, não com a língua, mas com a alma, e desde que você se prepare para enfrentar a morte. Para se capacitar para encontrar a morte, você não pode esperar nenhum incentivo ou elogio daqueles que tentam fazer você acreditar, por meio de sua lógica minuciosa, que a morte não é nenhum mal. Pois eu tenho prazer, ó excelente Lucílio, em zombar dos absurdos dos gregos, dos quais, para minha contínua surpresa, ainda não consegui me livrar.

9. Nosso mestre Zenão usa um silogismo como este: “Nenhum mal é glorioso, mas a morte é gloriosa, portanto a morte não é mal[3]“. Uma cura, Zenão! Fiquei livre do medo; doravante, não hesitarei em pôr meu pescoço sobre o patíbulo. Você não vai pronunciar palavras mais severas em vez de despertar um moribundo para o riso? De fato, Lucílio, eu não poderia facilmente dizer-lhe se aquele que pensa que esta removendo o medo da morte por estabelecer este silogismo é o mais tolo, ou aquele que tenta refutá-lo, como se tivesse algo a ver com o assunto!

10. Pois o próprio contestante propôs um contra silogismo, baseado na proposição de que consideramos a morte como “indiferente” – uma das coisas que os gregos chamam de “Adiáfora[4]”. “Nada”, diz ele, “que é indiferente pode ser glorioso, a morte é gloriosa, portanto a morte não é indiferente”. Você compreende a falácia complicada que está contida neste silogismo. – a mera morte não é, de fato, gloriosa; Mas uma morte corajosa é gloriosa. E quando você diz: “Nada que seja indiferente é glorioso”, eu te concedo isso, e declaro que nada é glorioso exceto quando trata de coisas indiferentes. Eu classifico como “indiferente” – ou seja, nem o bem nem o mal – a doença, a dor, a pobreza, o exílio, a morte.

11. Nenhuma dessas coisas é intrinsecamente gloriosa; mas nada pode ser glorioso além delas. Pois não é a pobreza que louvamos, é o homem a quem a pobreza não pode humilhar ou dobrar. Nem é o exílio que louvamos, é o homem que se retira para o exílio no espírito em que teria enviado outro para o exílio[5]. Não é a dor que louvamos, é o homem a quem a dor não coagiu. Ninguém elogia a morte em si, mas o homem cuja alma a morte tira antes que possa amaldiçoa-la.

12. Todas estas coisas não são em si nem honradas nem gloriosas; mas qualquer uma delas que a virtude tem visitado e tocado é feita honrada e gloriosa pela virtude; elas se limitam ao meio, e a questão decisiva é apenas se a maldade ou a virtude tem sobrepujado sobre elas. Por exemplo, a morte que no caso de Catão é gloriosa, no caso de Brutus[6] é vil e vergonhosa. Pois este Brutus, condenado à morte, estava tentando obter protelação; retirou-se um instante para se aliviar; quando convocado para morrer e ordenado a desnudar sua garganta, ele exclamou: “Vou mostrar a minha garganta, se apenas eu puder viver!” Que loucura é fugir, quando é impossível voltar atrás! “Vou desnudar minha garganta, se eu puder viver!” Ele chegou muito perto de dizer também: “mesmo sob Antônio!” Este sujeito merecia, de fato, ser condenado à vida!

13. Mas, como eu comentava, você vê que a morte em si não é nem um mal nem um bem; Catão experimentou a morte com a maior honra, Brutus do modo mais indigno. Tudo, se você adicionar virtude, assume uma glória que não possuía antes. Falamos de um quarto muito claro, mesmo que o mesmo quarto seja completamente escuro durante a noite.

14. É o dia que o enche de luz, e a noite que rouba a luz; assim é com as coisas que chamamos de indiferentes ou “intermediárias”, como a riqueza, a força, a beleza, os títulos, a realeza e os seus opostos, a morte, o exílio, a má saúde, a dor e todos esses males, medos que nos perturbam em maior ou menor grau; é a maldade ou a virtude que concede o nome de bem ou mal. Um objeto não é por sua própria essência nem quente nem frio; ele é aquecido quando jogado em um forno, e resfriado quando colocado em água. A morte é honrosa quando relacionada com aquilo que é honroso; como honroso quero dizer virtude e uma alma que despreze as piores dificuldades.

15. Além disso, há grandes distinções entre essas qualidades que chamamos de “medianas”. Por exemplo, a morte não é tão indiferente quanto a questão de saber se os cabelos devem ser usados lisos ou cacheados. A morte pertence àquelas coisas que não são realmente más, mas ainda têm nelas uma aparência de mal; pois há arraigado em nós o amor próprio, o desejo de existência e autopreservação, e também a aversão pela extinção, porque a morte parece roubar-nos de muitos bens e nos retirar da abundância a que nos acostumamos. E há outro elemento que nos distingue da morte, já estamos familiarizados com o presente, mas ignoramos o futuro em que nos transferiremos, e nos afastamos do desconhecido. Além disso, é natural temer o mundo das sombras, onde a morte supostamente nos conduz.

16. Portanto, embora a morte seja algo indiferente, não é, no entanto, uma coisa que possamos facilmente ignorar. A alma deve ser afiada pela longa prática, para que possa aprender a suportar a visão e a aproximação da morte. A morte deve ser desprezada mais do que costuma ser desprezada. Porque acreditamos em muitas das histórias sobre a morte. Muitos poetas se esforçaram para aumentar sua má reputação; eles retratam a prisão no mundo inferior e a terra oprimida pela noite eterna, onde

o gigantesco porteiro do Orca, estendido no antro sangrento sobre ossadas meio roídas, assusta com o seu ladrar incessante as almas exangues!”Ingens ianitor Orci Ossa super recubans antro semesa cruento, Aeternum latrans exsangues terreat umbras.[7]

Mesmo se você possa ganhar o seu ponto e provar que estas são meras histórias[8] e que nada deve ser temido pelos mortos, outro medo se apodera de você. Pois o medo de ir ao mundo subterrâneo é igualado pelo medo de não ir a lugar algum.

17. Em face dessas noções, que a opinião duradoura tem alimentado em nossos ouvidos, como pode a corajosa resistência sobre morte ser algo mais que glorioso e digno de se classificar entre as maiores realizações da mente humana? Pois a mente nunca se elevará à virtude se acreditar que a morte é um mal; mas ela se elevará se considerar que a morte é uma questão indiferente. Não é natural que um homem proceda de bom grado a um destino que acredita ser ruim; ele irá lentamente e com relutância. Mas nada glorioso pode resultar da relutância e covardia; a virtude não faz nada sob compulsão.

18. Além disso, nenhum ato que um homem faz é honroso, a menos que tenha se dedicado a ele e atendido a ele com todo o seu coração, rebelando contra ele com nenhuma porção de seu ser. Quando, no entanto, um homem afronta um mal, seja pelo medo de males piores, seja na esperança de bens cujo alcance é suficiente para poder engolir o único mal que ele deve suportar – nesse caso o julgamento do agente é puxado em duas direções. Por um lado, está o motivo que o obriga a realizar seu propósito; por outro, o motivo que o restringe e o faz fugir de algo que despertou sua apreensão ou o levou ao perigo. Por isso, ele está rasgado em diferentes direções; e se isso acontecer, a glória de seu ato se foi. Pois a virtude realiza seus planos somente quando o espírito está em harmonia consigo mesmo, sem nenhum elemento de medo em qualquer de suas ações.

Não ceda ao mal, mas ainda valente vá, onde tua fortuna permitir.Tu ne cede malis, sed contra audentior ito Qua tua te fortuna sinet.[9]

19. Você não pode “ainda valente ir“, se está convencido de que essas coisas são os males reais. Arranque esta ideia de sua alma; caso contrário, suas apreensões permanecerão indecisas e, assim, restringirão o impulso à ação. Você será empurrado para aquilo para o qual deveria avançar como um soldado. Aqueles da nossa escola, é verdade, pensam que o silogismo de Zenão está correto, mas que o segundo que mencionei, que é contrario ao dele, é enganoso e errado. Mas, de minha parte, recuso-me a reduzir tais assuntos a uma questão de regras dialéticas ou às sutilezas de um sistema completamente desgastado. Fora, eu digo, com todo esse tipo de coisa que faz um homem sentir-se, quando lhe é proposta uma pergunta, que ele está cercado e forçado a admitir uma premissa, e então o faz dizer uma coisa em sua resposta quando sua verdadeira opinião é outra. Quando a verdade está em jogo, devemos agir com mais franqueza; e quando o medo deve ser combatido, devemos agir com mais coragem.

20. Essas questões, que os sofistas envolvem em sutilezas, prefiro resolver e pesar racionalmente, com o objetivo de conquistar a convicção e não de forçar o julgamento. Quando um general está prestes a levar ao combate um exército preparado para encontrar a morte por suas esposas e filhos, como ele os exorta à batalha? Lembro-o dos Fábios[10], que assumiram por um único clã uma guerra que dizia respeito a todo o Estado. Eu aponto os espartanos em guarda no próprio desfiladeiro das Termópilas![11] Eles não têm esperança de vitória, nenhuma esperança de retornar. O lugar onde eles estão será o seu túmulo.

21. Em que palavras você encoraja-os a trancar o caminho com seus corpos e assumir sobre si a ruína de toda a sua tribo, e recuar da vida em vez de seu posto? Poderia dizer: “O mal não é glorioso, mas a morte é gloriosa, por isso a morte não é um mal?” Que discurso persuasivo! Depois de tais palavras, quem hesitaria em se jogar sobre as lanças serradas dos inimigos e morrer aos seus pés? Mas pegue Leônidas: quão bravamente ele discursou aos seus homens! Ele disse: “Companheiros, vamos ao nosso café da manhã, sabendo que vamos jantar no Hades[12]!” A comida destes homens não lhes pareceu amargas em suas bocas, ou grudou lhes em suas gargantas, ou escorregou de seus dedos; ansiosamente eles aceitaram o convite para o café da manhã, e para jantar também!

22. Pense também no famoso general romano[13]; seus soldados haviam sido enviados para ocupar uma posição e, quando estavam prestes a atravessar um enorme exército do inimigo, dirigiu-se a eles com as palavras: Vocês devem ir agora, companheiros soldados, para o outro lugar, de onde não há “obrigação” sobre o seu retorno! Você vê, então, como a virtude é direta e peremptória; mas qual homem sobre a terra poderia com sua lógica enganosa tornar mais corajoso ou mais ereto? Em vez disso, quebra o espírito, que nunca deve ser forçado a lidar com pequenos e espinhosos problemas quando algum grande trabalho está sendo planejado.

23. Não são os trezentos, é toda a humanidade que deve ser aliviada do medo da morte. Mas como você pode provar a todos aqueles homens que a morte não é nenhum mal? Como você pode superar as noções de toda a nossa vida passada, – noções com as quais somos tingidos desde nossa infância? Que socorro você pode descobrir para o desespero do homem? O que você pode dizer que fará com que os homens se atirem, ardentes em zelo, no meio do perigo? Por qual discurso persuasivo você pode desviar esse sentimento universal de medo, por qual força de inteligência pode desviar a convicção da raça humana que se opõe firmemente a você? Você propõe construir palavras de ordem para mim, ou encadear silogismos mesquinhos? É preciso grandes armas para derrubar grandes monstros.

24. Você se lembra da serpente feroz na África, mais funestra para as legiões romanas do que a própria guerra, e atacada em vão por flechas e pedras; não podia ser ferida mesmo por Apolo Pítio, já que seu tamanho enorme, e a tenacidade com que combinava com sua massa corporal, faziam lanças, ou qualquer arma usada pela mão do homem, resvalar para fora. Foi finalmente destruída por rochas iguais em tamanho a mós[14]. Você está, então, usando armas insignificantes como a sua mesmo contra a morte? Você pode impedir o ataque de um leão por uma sovela[15]? Seus argumentos são realmente afiados; mas não há nada mais afiado do que uma haste de trigo. E certos argumentos são tornados inúteis e ineficazes por sua própria sutileza.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Sobre a importância do conhecimento da natureza para o autoconhecimento veja o prefácio das Naturales Quaestiones que Sêneca dedicou ao seu amigo Lucílio.

[2] Trecho de Eneida, de Virgílio.

[3] Veja Diógenes Laércio, Livro VII, §40.

[4] Adiáfora (em grego antigo: ἀδιάφορα adiaforon) é uma palavra de uso polissêmico, tendo sido utilizada primeiramente pelos estoicos, como algo que não era nem obrigatório, nem proibido. Em outros contextos, possui também um sentido de “insignificante”. Sendo assim, são classificados adiáforos os assuntos que não alteram, nem para mais, nem para menos a essência de algo.

[5] Mais uma vez, o célebre exemplo de Rutílio.

[6] Presumivelmente, D. Junius Brutus, que finalmente incorreu a inimizade de Octavio e Antônio. Ele foi vergonhosamente morto por um Gaulês enquanto fugia para se juntar M. Brutus na Macedônia.

[7] Trecho invertido de Eneida, de Virgílio. Sêneca citava de cor, daí a falha. – O “porteiro do Orco” é

Cérbero, o cão infernal de três cabeças.

[8] Também em As Troianas, tragédia escrita por Sêneca, ele chama às tradicionais descrições do mundo infernal de “ocos boatos, palavras sem sentido, fábulas semelhantes a pesadelos”. Mostrando o completo o acordo entre estoicos e epicuristas neste ponto.

[9] Trecho de Eneida, de Virgílio. VI, 95-6

[10] Os Fábios eram os membros do clã Fábia (em latim: gens Fabia; pl. Fabii), uma das mais antigas gentes patrícias da Roma Antiga. Tiveram um papel muito importante logo depois da fundação da República Romana. A casa dos Fábios derivou seu maior prestígio por sua coragem patriótica pelo trágico destino de 306 de seus membros na Batalha do Crêmera, em 477 a.C..

[11] A Batalha das Termópilas foi travada no contexto da Segunda Guerra Médica entre uma aliança de pólis gregas liderados pelo rei de Esparta Leônidas I e o Império Aquemênida de Xerxes I. A batalha durou três dias e se desenrolou no desfiladeiro das Termópilas em agosto ou setembro de 480 a.C.

[12] Hades na mitologia grega, é o deus do mundo inferior e dos mortos. Seu nome era usado frequentemente para designar tanto o deus quanto o reino que governa, nos subterrâneos da Terra.

[13] Calpúrnio, na Sicília, durante a primeira guerra púnica.

[14] Mó (do latim mola) é cada uma do par de pedras duras, redondas e planas com as quais, nos moinhos, se trituram grãos.

[15] Sovela é uma ferramenta utilizada em curtumes e marcenarias que é usada para fazer um furo no couro.