Resenha: Estoicismo, por George Stock

A obra “Estoicismo” de George Stock é uma envolvente explicação do estoicismo clássico. O autor, de forma concisa e compreensível, escreveu o guia desta escola, abordando não só a Ética estoica, mas também sua LógicaFísica, tanto ignoradas nos estudos atuais.

Logo no início, de forma até injuriosa, Stock afirma: “Se você despir o estoicismo de seus paradoxos e seu mau uso intencional da linguagem, o que resta é simplesmente a filosofia moral de Sócrates, Platão e Aristóteles, temperada com a física de Heráclito“. Contudo, no decorrer do texto Stock se mostra um erudito com profundo conhecimento dos autores estoicos e da filosofia clássica como um todo.

Todas suas afirmações são fundamentas por textos clássicos. Nas centenas de notas de rodapé Stock cita com precisão filósofos como Sêneca, Cícero, Aristóteles, Epicteto, Marco Aurélio; historiadores como Plutarco, Diógenes Laércio, Estobeu e poetas como Horácio, Pérsio, Virgílio e Juvenal. Nenhuma afirmação importante é deixada sem a indicação da autoridade clássica que defende a tese. Stock demonstra conhecimento enciclopédico da filosofia greco-romana.

Nas seções abaixo, um breve sumário de cada capítulo com alguns trechos:

Filosofia entre os Gregos e Romanos

Stock explica a relação dos antigos com a filosofia, afirmando que seria algo similar a função hoje ocupada pela religião. Na sequencia fala sobre o criador do estoicismo, Zenão das bases da escola.

  • Entre os gregos e romanos clássicos, a filosofia ocupava o lugar que a religião tem entre nós. O apelo deles era à razão, não à revelação. Onde, pergunta Cícero, devemos buscar a formação em virtude, se não na filosofia?
  • O estoicismo foi criado a partir do cinismo, enquanto o epicurismo foi criado a partir da escola cirenaica.
  • … os estoicos identificaram uma vida de acordo com a natureza com uma vida de acordo com a mais alta perfeição à qual o homem poderia alcançar. … E a perfeição da razão era a virtude.

Divisão da Filosofia

Descreve como a filosofia estoica é divida e os motivos dessa divisão:

  • A filosofia era definida pelos estoicos como “o conhecimento das coisas divinas e humanas“. Foi dividida em três tópicos: lógica, ética e física.
  • A filosofia deve estudar a natureza (incluindo a natureza divina) ou o homem e, se estuda o homem, deve considerá-lo do lado do intelecto ou dos sentimentos, seja como um ser pensante (lógica) ou como um ser atuante (ético).
  • É uma metáfora preferida da escola comparar a filosofia a um vinhedo ou pomar fértil. Ética era o bom fruto, física as plantas altas, e lógica o muro forte. O muro existia apenas para guardar as árvores, e as árvores apenas para produzir os frutos

Lógica

Stock parte então para detalhar cada uma das divisões, começando pela Lógica que afirma ser o ponto forte dos estoicos, em oposição retórica onde deixavam a desejar. Aborda os silogismos e questões dialéticas debatidas pelos estoicos gregos:

  • Lógica no seu conjunto é dividida em retórica e dialética: a retórica foi definida como o conhecimento de como falar bem nos discursos expositivos e dialética como o conhecimento de como argumentar corretamente em assuntos de pergunta e resposta.
  • A famosa comparação da mente infantil com uma folha de papel em branco, que ligamos tão de perto com o nome de Locke, vem realmente dos estoicos. Os caracteres mais antigos nela inscritos eram as impressões de sentido, que os gregos chamavam de “representações”. Uma representação foi definida por Zenão como “uma impressão na alma”.
  • Ao examinarmos os detalhes que nos restam da lógica estoica, a primeira coisa que nos impressiona é a sua extrema complexidade em comparação com a aristotélica.

Ética

Este é o capítulo mais interessante do livro, onde Stock explica as quatro virtudes cardeais da Sabedoria, Temperança, Coragem e Justiça que os estoicos definiram como ramos do conhecimento. O conceito de “Indiferentes” é magnificamente clarificado:

  • Para a teoria estoica, as paixões eram simplesmente o intelecto em estado de doença, devido às perversões da falsidade. É por isso que os estoicos não se deixariam enganar pela paixão, concebendo que, uma vez deixada entrar na cidadela da alma, ela se sobreporia ao governante legítimo.
  • Embora todas as paixões fossem condenadas em si mesmas, havia, no entanto, certas “eupatias“, ou boas emoções (ou paixões saudáveis), que seriam experimentadas pelo homem idealmente bom e sábio.
  • As coisas foram divididas por Zenão em boas, más e indiferentes. Ao que era bom pertencia a virtude; ao que era mau, o vício. Todas as outras coisas eram indiferentes.
  • Por coisas indiferentes, entendidas como não necessariamente contribuintes para a virtude. Seriam por exemplo, saúde, riqueza, força e honra. É possível ter tudo isso e não ser virtuoso, é possível também ser virtuoso sem isso. Mas agora temos de aprender que, embora essas coisas não sejam boas nem más e, portanto, não sejam matéria de escolha ou de abstinência, elas estão longe de ser indiferentes, no sentido de não suscitar nem impulso nem repulsa.

Física

Neste capítulo é abordado a visão estoica da natureza. Qual era a visão estoica sobre as leis do universo no que diz respeito à matéria e à energia, seus constituintes, e suas interações. Para os estoicos o espírito era algo material, um tipo de gás ou éter.

  • O passivo era aquele ser inqualificável que é conhecido como Matéria. O ativo era o Logos, ou a razão nela, que é Deus. Sustentavam que impregnava infinitamente a matéria e criava todas as coisas
  • Um elemento era definido como aquele a partir do qual as coisas surgiram no início e no qual serão finalmente dissolvidas. Os termos terra, ar, fogo e água tinham de ser tomados num sentido amplo: terra significa tudo o que era da natureza da terra, ar, tudo o que era da natureza do ar e assim por diante. Portanto, na estrutura humana, os ossos e os nervos pertenciam à terra.

Conclusão

No último capítulo Stock faz um resumo do estoicismo e, em oposição ao dito no prefácio, se mostra extremamente favorável à escola, destaca o as aspecto cosmopolita e tolerante dos estoicos, afirmando terem sido os primeiros a “reconhecer plenamente o valor do homem como homem“:

  • A ausência de qualquer apelo a recompensas e castigos era uma consequência natural do princípio central da moral estoica: essa virtude é em si a mais desejável de todas as coisas.
  • Apesar da falta de sentimento de que os estoicos se glorificaram, ainda é verdade dizer que a humanidade de seu sistema constitui uma de suas mais justas reivindicações em nossa admiração. Foram os primeiros a reconhecer plenamente o valor do homem como homem;
  • O Estado ideal de Aristóteles, como a República de Platão, ainda é uma cidade grega; Zenão foi o primeiro a sonhar com uma república que deveria abraçar toda a humanidade.
  • A virtude, com os primeiros filósofos gregos, era aristocrática e exclusiva. O estoicismo, assim como o cristianismo, abriu-a para o mais insignificante da humanidade.
  • Onde quer que houvesse um ser humano, lá o estoicismo via um campo para o bem fazer. Seus seguidores deviam ter sempre na boca e no coração a conhecida frase: “Sou homem; nada do que é humano, considero estranho a mim

Este livro, relativamente curto, é um excelente guia da escola do pórtico.


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Resenha: A Vida Feliz (De Vita Beata)

Depois da Leitura da Carta de Epicuro sobre a Felicidade, retomamos o estoicismo com uma nova leitura de Vita Beata,  Sobre a Felicidade de Sêneca.

Sêneca faz grande oposição ao epicurismo, corrente filosófica que valoriza o prazer como fonte de felicidade. Talvez este diálogo tenha sido escrito como um contraponto à Carta a Meneceu:Você se dedica aos prazeres, eu os controlo; você se entrega ao prazer, eu o uso; você pensa que é o bem maior, eu nem penso que seja bom: por prazer não faço nada, você faz tudo.”  (X, 3 ).

A principal coisa a entender sobre o texto é o próprio título: ‘Feliz‘ aqui não tem a conotação moderna de se sentir bem, mas é o equivalente da palavra grega eudaimonia, que é melhor compreendida como uma vida digna de ser vivida, um estado de plenitude do ser. Para Sêneca e para os estoicos, a única vida que vale a pena ser vivida é aquela de retidão moral, o tipo de existência à qual olhamos no final e podemos dizer honestamente que não nos envergonhamos.

Logo no primeiro parágrafo Sêneca dá a linha da argumentação estoica: Não devemos ter a felicidade como objetivo: “não é fácil alcançar a felicidade já que quanto mais avidamente um homem se esforça para alcançá-la mais ele se afasta”.(I,1) a conclusão é que A solução é ter como objetivo a virtude, a felicidade será consequência.

No capítulo XV, Sêneca explica por que não se pode simplesmente associar a virtude ao prazer. O problema é que, mais cedo ou mais tarde, o prazer o levará a territórios não virtuosos:

Quem, por outro lado, forma uma aliança, entre a virtude e o prazer, obstrui qualquer força que uma possa possuir pela fraqueza da outra, e envia liberdade sob o jugo, pois a liberdade só pode permanece inconquistável enquanto não sabe nada mais valioso do que ela mesma: pois começa a precisar da ajuda da Fortuna, o que é a mais completa escravidão: sua vida torna-se ansiosa, cheia de suspeitas, tímida, temerosa de acidentes, esperando em agonia por momentos críticos. Você não oferece à virtude uma base sólida e imóvel se você a colocar sobre o que é instável: e o que pode ser tão instável quanto a dependência do mero acaso e as vicissitudes do corpo e daquelas coisas que agem sobre o corpo?”. (XV, 3 )

O livro fornece uma lista de regras pelas quais Sêneca está tentando viver. Vale a pena considerá-las na íntegra:

• Eu vou encarar a morte ou a vida a mesma expressão de semblante;
• Eu desprezarei as riquezas quando as tiver tanto quanto quando não as tiver;
• Verei todas as terras como se pertencessem a mim, e as minhas terras como se pertencessem a toda a humanidade;
• Seja o que for que eu possua, eu não vou acumulá-lo avidamente nem o desperdiçar de forma imprudente;
• Não farei nada por causa da opinião pública, mas tudo por causa da consciência;
• Ao comer e beber, meu objetivo é extinguir os desejos da natureza, não encher e esvaziar minha barriga;
• Eu serei agradável com meus amigos, gentil e suave com meus inimigos;
• Sempre que a Natureza exigir minha vida, ou a razão me pedir que a rejeite, vou desistir desta vida, chamando a todos para testemunhar que amei uma boa consciência e boas atividades;

(imagem  Herbert James DraperUlises e as Sereias)


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Resenha: Meditações, Livros I e II

Nos próximos dias farei uma série de posts comentando as Meditações de Marco Aurélio.

É provavelmente o clássico estoico mais lido de todos. Como é sabido, foi escrito como um diário pessoal do imperador romano e, portanto, não foi escrito para publicação. Isso explica a estranha estrutura, bem como o estilo.

Hoje começamos com os dois primeiros livros.

Livro I

O primeiro livro das Meditações é essencialmente uma lista de pessoas a quem Marcos agradece, cada uma acompanhada de uma explicação sobre o motivo de sua gratidão. É, naturalmente, uma lista esclarecedora. Termina por agradecer aos deuses (ou Fortuna) por lhe terem dado muitas coisas boas em sua vida, incluindo bons pais, bons professores e bons amigos.

A impressão geral que se tem do Livro I é de um homem humilde, apesar de sua posição muito poderosa, alguém que está pronto para aprender e tenta seriamente fazer o seu melhor na vida para melhorar a si mesmo e ajudar os outros.

Livro II

O segundo livro começa com uma de suas passagens mais citadas:

“Comece a manhã dizendo a si mesmo, eu me encontrarei com o intrometido, o ingrato, arrogante, enganador, invejoso, anti-social. Tudo isso acontece com eles por causa de sua ignorância do que é bom e mau.” (II,1)

Outra preciosidade vem no parágrafo 8, onde ele diz: “O fracasso em observar o que está na mente de outro raramente fez um homem infeliz; mas aqueles que não observam os movimentos de suas próprias mentes devem ser necessariamente infelizes.”

Mais ao final, parágrafo 11, Marco Aurélio reafirma a doutrina estoica sobre as coisas indiferentes:

“a morte, e a vida, a honra e a desonra, a dor e o prazer, todas essas coisas acontecem igualmente aos homens bons e maus, sendo coisas que não nos tornam nem melhores nem piores. Portanto, não são nem boas nem ruins.” (II,11)

Conclui com sua definição de filosofia, que ele diz ser o único guia para os homens:

“consiste em manter o daemon dentro de um homem livre de violência e ileso, superior às dores e prazeres, não fazendo nada sem um propósito, nem ainda falsamente e com hipocrisia, não sentindo a necessidade de outro homem fazer ou não fazer nada; e além disso, aceitando tudo o que acontece, e, finalmente, esperando a morte com uma mente alegre”

 


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A Tríade do Guerreiro Estoico

A Tríade do Guerreiro Estoico

Recentemente recebi recomendação do texto do almirante James Stockdale A Tríade do Guerreiro Estoico” em tradução de  Aldo Dinucci e Alexandre Cabeceiras. (disponível em https://goo.gl/5pMCtK, texto de Stockdale começa na página 9)

Stockdale foi o mais alto oficial americano aprisionado na guerra do Vietnã. Foi mantido como prisioneiro de guerra em Hoa Lo (o infame “Hanoi Hilton”) por sete anos e meio. Como oficial sênior da Marinha, ele foi um dos principais organizadores da resistência dos prisioneiros. Torturado rotineiramente e sem atenção médica para a perna severamente machucada, Stockdale criou e aplicou um código de conduta para todos os prisioneiros.  Quando foi informado por seus captores que ele seria exibido em público, Stockdale cortou a própria testa com uma navalha para se desfigurar propositalmente, para que seus captores não o pudessem usar como propaganda.

Nesse texto ele narra como usou o estoicismo, as teses de Solzhenitsyn e principalmente os ensinamentos de Epicteto para sobreviver e manter a lucidez todos os anos de prisão:

“Gostaria de dizer de imediato que li e estudei as Diatribes pelo menos 10 vezes, sem mencionar minhas incursões pelo Encheirídion, e jamais achei uma simples inconsistência no código de princípios de Epicteto. É um pacote fechado, livre de contradições. O velho cara pode não instigá-los, mas se ele não o faz, não o censurem por incoerência; Epicteto não tem problemas com a lógica.”

Manteve uma atitude estoica frente a seus torturadores, como podemos ver no trecho que narra sua relação com o principal deles:

Mas nenhum de nós jamais quebrou o código de uma invariavelmente estrita relação na “linha do dever”. Ele nunca me enganou, sempre jogou corretamente, e jamais pedi misericórdia. Eu admirei aquilo nele, e poderia dizer que ele admirou isso em mim. E quando as pessoas dizem: “Ele era um torturador, você não o odeia?” Eu digo, como Solzehnitsyn, para o espanto daqueles que estão à minha volta: “Não, ele era um bom soldado, nunca ultrapassou sua linha do dever”.

Ensina que aprender a comandar suas emoções é fortalecedor e libertador:

Quando se chega nesse ponto, o capítulo 30 do Encheirídion se aplica: “Se não quiseres, outro não te causará dano”. E por “dano” Epicteto quer dizer, como os estoicos sempre o fizeram, danificar seu eu interior, seu auto-respeito, e sua obrigação de ser leal. Podem quebrar seu braço ou sua perna, mas não se preocupem. Eles sararão.

Conclui com o que chama de  Tríade do Guerreiro Estoico:

“Tranquilidade, Destemor e Liberdade”.

Estátua de  James Stockdale, US Naval Academy, Annapolis, Maryland

Consolação a Minha Mãe Hélvia

No ano 41, Sêneca foi condenado ao exílio pelo imperador Cláudio por um alegado caso com a irmã do imperador Calígula. A acusação provavelmente foi inventada por uma vingança pessoal. Pouco antes ele havia sido condenado à morte e posteriormente perdoado pelo anterior imperador, o louco Calígula. Do exílio ele escreveu uma de suas obras mais extraordinárias – a carta Consolação a Minha Mãe Hélvia.

Hélvia era uma mulher cuja vida tinha sido marcada por uma perda inimaginável – sua própria mãe havia morrido enquanto ela a nascera, e ela enterrou seu marido, seu tio amado e três de seus netos. Vinte dias depois que um de seus netos – o próprio filho de Sêneca – morrera em seus braços, Hélvia recebeu notícias de que Sêneca fora levado para a Córsega, condenado à vida no exílio.

Em vez de meras palavras, Sêneca produz uma obra-prima retórica, trazendo a essência da filosofia do Estoicismo, com partes iguais de lógica e estilo literário. “Todas as suas dores foram desperdiçadas se você ainda não aprendeu a sofrer“.

Sêneca faz uma sólida defesa do mecanismo de auto-proteção mais poderoso da vida – a disciplina de não tomar nada por certo:

Nunca me entreguei à fortuna, mesmo quando parecia que estava em paz comigo; todos os favores, dos quais muito generosamente me cercava (riquezas, cargos, prestígio), coloquei-os em tal lugar de onde a mesma fortuna pudesse retomá-los, sem me aborrecer. Deixei sempre grande distância entre mim e eles: tirou-me os favores, portanto, não os arrancou. A fortuna contrária não diminui senão os homens que se deixaram enganar pela prosperidade.

Os homens que se agarram a seus presentes como a coisas das quais tem perpétua propriedade, e que por eles querem ser invejados pelos outros, jazem prostrados e aflitos, quando os deleites falsos e fugazes abandonam sua alma vil e pueril, que ignora qualquer prazer real; mas quem na prosperidade não se orgulhou, não se abala se as coisas mudam.

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