Carta 31: Sobre o canto da Sereia

Na carta 31 Sêneca desafia-nos a rejeitar, até mesmo desafiar ativamente, os  bons desejos de outras pessoas, porque elas tendem a desejar para nós os tipos errados de coisas (o sucesso, beleza, dinheiro, etc.). O que devemos desejar é tornar-se o tipo de pessoa que faz coisas honrosas e duradouras; outros têm a tendência de não orar por isso em nosso nome:

“Seja surdo para aqueles que mais te amam; eles rezam por coisas ruins com boas intenções. E, se você quiser ser feliz, suplique aos deuses que nenhuma das preces para você sejam levadas a cabo. O que eles desejam acumular sobre você não são realmente coisas boas; há apenas um bem, a causa e o sustento de uma vida feliz – confiar em si mesmo.” (XXXI.2-3)

Esta carta é mais densa e complexa do que a maioria das já publicadas, então o melhor é lê-la com calma e tirar você mesmo suas conclusões, sem ser influenciados por este interprete.

Gostaria de destacar no entanto que esta é a primeira carta na qual Sêneca transmite sua ideia de Deus:

“Seu dinheiro, entretanto, não o colocará em nível com Deus; porque Deus não tem posses. Seu manto bordado não fará isso; porque Deus não traja vestes; nem irá a sua reputação, nem a notoriedade de seu nome por todo o mundo; porque ninguém conhece a Deus. A multidão de escravos que carrega sua liteira ao longo das ruas da cidade e em lugares estrangeiros não irá ajudá-lo, porque este Deus de quem falo, embora seja o mais alto e poderoso dos seres, carrega todas as coisas em seus próprios ombros. Nem a beleza nem a força podem fazer você abençoado, pois nenhuma dessas qualidades pode resistir à velhice. O que temos de procurar, então, é o que não passa cada dia mais e mais ao controle de algum poder que não pode ser resistido. E o que é isso? É a alma, mas a alma que é justa, boa e grande. O que mais você poderia chamar de tal alma do que um deus morando como convidado em um corpo humano?  Esta modelagem não será feita em ouro ou prata; uma imagem que deve ser à semelhança de Deus não pode ser moldada de tais materiais; lembre-se que os deuses, quando eram bons para com os homens, eram moldados em barro.” (XXXI.10-11)

(imagem Criação de Adão, Michelangelo, Capela Sistina)


XXXI. Sobre o canto da Sereia

Saudações de Sêneca a Lucílio.  

  1. Agora reconheço o meu Lucílio! Ele está começando a revelar o caráter prometido. Acompanhe o ímpeto que o levou a fazer tudo o que é melhor, trabalhando de forma aprovada pela multidão. Eu não o consideraria maior ou melhor do que você planejou; pois no seu caso as fundações cobrem uma grande extensão de terreno; apenas acabe com tudo o que planejou e tome controle dos planos que você teve em mente.
  2. Em suma, você será um homem sábio, se você tapar seus ouvidos; nem é suficiente fechá-los com cera; você precisa de um abafador mais potente do que aquele que dizem Ulysses usou para seus camaradas. A música que ele temia era sedutora, mas não vinha de todos os lados; a canção, no entanto, que você tem que temer, ecoa em torno de você não de um único promontório, mas de cada canto do mundo. Navegue, portanto, não apenas evitando uma região que você desconfie por causa de suas traiçoeiras delícias, mas de todas as cidades. Seja surdo para aqueles que mais te amam; eles rezam por coisas ruins com boas intenções. E, se você quiser ser feliz, suplique aos deuses que nenhuma das preces para você sejam levadas a cabo.
  3. O que eles desejam acumular sobre você não são realmente coisas boas; há apenas um bem, a causa e o sustento de uma vida feliz – confiar em si mesmo. Mas isso não pode ser alcançado, a menos que se aprenda a desprezar o trabalho e a considerá-lo entre as coisas que não são nem boas nem más. Pois não é possível que uma única coisa seja ruim em um momento e boa em outro, às vezes leve e para ser suportada, e às vezes uma causa de pavor.
  4. O trabalho não é um bem. Então, o que é um bem? Eu digo, o desprezo ao trabalho[1]. É por isso que eu devo repreender homens que trabalham sem propósito. Mas quando, por outro lado, um homem luta por coisas honrosas, à proporção em que se aplica cada vez mais, e se permite cada vez menos ser derrotado ou deter-se, eu recomendarei sua conduta e gritarei meu encorajamento, dizendo: “Por tanto você é melhor! Levante-se, inspire o ar fresco, e supere essa colina, se possível, em um único arranco!”
  5. O trabalho é o sustento das mentes nobres. Não há, portanto, nenhuma razão para que, de acordo com essa velha promessa de seus pais, você deva escolher a fortuna que você deseja, ou o que você deva orar por ela; além disso, é vil para um homem que já recebeu toda a rodada de honras mais altas ainda importunar os deuses. Que necessidade há de juramentos? Faça-se feliz através de seus próprios esforços; você pode fazer isso, quando compreender que tudo o que é misturado com a virtude é bom, e que tudo o que é ligado ao vício é ruim. Da mesma forma que nada brilha se não tem luz misturada em si, e nada é negro a menos que contenha a escuridão ou atraia para si algo de penumbra, e como nada é quente sem o auxílio do fogo e nada frio sem ar; assim é a associação da virtude e do vício que torna as coisas honradas ou vis.
  6. O que então é o Bem? O conhecimento das coisas. O que é Mal? A falta de conhecimento das coisas. O seu sábio, que também é um artesão, vai rejeitar ou escolher em cada caso, como convém à ocasião; mas ele não teme o que ele rejeita, nem admira o que ele escolhe, se ele tiver uma alma forte e inconquistável. Eu o proíbo de ficar abatido ou deprimido. Não é suficiente se você não fugir do trabalho; peça por ele.
  7. “Mas,” você diz, “não é o trabalho insignificante e supérfluo, e trabalho inspirado por causas ignóbeis, um trabalho ruim?” Não; não mais do que o que é gasto em nobres empreendimentos, já que a própria qualidade que suporta o trabalho e se ergue a um árduo esforço é do espírito que diz: “Por que se torna negligente? Não é a digno de um homem temer o suor”.
  8. E além disto, para que a virtude seja perfeita, deve haver um temperamento e um esquema de vida uniforme que seja consistente consigo mesmo; e esse resultado não pode ser alcançado sem o conhecimento das coisas, e sem a arte que nos permite compreender as coisas humanas e as coisas divinas. Esse é o maior bem. Se você aproveitar este bem, você começa a ser um associado dos deuses, e não seu suplicante.
  9. “Mas como,” você pergunta, “alguém atinge esse objetivo?” Você não precisa atravessar as colinas de Peninos ou Graian, ou atravessar o deserto de Candavian, ou enfrentar o Sirte, ou Cila ou Caribdis[2], embora você tenha viajado através de todos estes lugares pelo suborno de um pequeno governador; a viagem pela qual a natureza o equipou é segura e agradável. Ela lhe deu tais dons para que possa, se não for desonesto com eles, elevar-se ao nível de Deus.
  10. Seu dinheiro, entretanto, não o colocará em nível com Deus; porque Deus não tem posses. Seu manto bordado não fará isso; porque Deus não traja vestes; nem irá a sua reputação, nem a sua própria presença, nem a notoriedade de seu nome por todo o mundo; porque ninguém conhece a Deus; muitos até o tem em baixa estima, e não sofrem por fazê-lo. A multidão de escravos que carrega sua liteira ao longo das ruas da cidade e em lugares estrangeiros não irá ajudá-lo, porque este Deus de quem falo, embora seja o mais alto e poderoso dos seres, carrega todas as coisas em seus próprios ombros. Nem a beleza nem a força podem fazer você abençoado, pois nenhuma dessas qualidades pode resistir à velhice.
  11. O que temos de procurar, então, é o que não passa cada dia mais e mais ao controle de algum poder que não pode ser resistido. E o que é isso? É a alma, mas a alma que é justa, boa e grande. O que mais você poderia chamar de tal alma do que um deus morando como convidado em um corpo humano? Uma alma como esta pode descer para um cavaleiro romano, assim como para um filho de liberto ou a um escravo. Pois o que é um cavaleiro romano, ou o filho de um liberto, ou um escravo? São meros títulos, nascidos da ambição ou do mal. Pode-se saltar para o céu das próprias favelas. Apenas eleve-se
e molde-se a de acordo com seu Deus. et te quoque dignum Finge deo.[3]

Esta modelagem não será feita em ouro ou prata; uma imagem que deve ser à semelhança de Deus não pode ser moldada de tais materiais; lembre-se que os deuses, quando eram bons para com os homens, eram moldados em barro.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] O argumento é que o trabalho não é, em si mesmo, um bem; se fosse, não seria louvável a um tempo e censurável em outro. Pertence, portanto, à classe de coisa que os estoicos chamavam de indiferente (indifferentia).

[2] Cila ou Caribdis: Sêneca estende a metáfora da ascensão para incluir as cadeias de montanha que atravessam a região montanhosa da Candávia, perto da Via Egnatia na Macedônia, depois (retornando aos perigos marítimos) os Sirtes da Líbia (bancos de areia traiçoeiros) e os dois perigos do estreito da Sicília confrontadas por Ulysses: Cila na costa da Calábria e Char Caribdis da Sicília (ver a carta XIV.8).

[3] Trecho de Eneida de Virgílio.

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