Carta 41: Sobre o Deus dentro de nós

Religião e filosofia parecem em conflito hoje em dia, onde a religião freqüentemente é mostrada como fé cega, até mesmo fanatismo. No entanto, o estoicismo de Sêneca alinhava a religião e a filosofia de maneira notável, relacionando sincreticamente o cerne da filosofia, a razão:

Deus está perto de você, ele está com você, ele está dentro de você. É isso que quero dizer, Lucílio: um espírito santo mora dentro de nós, aquele que anota nossas boas e más ações e é nosso guardião. À medida que tratamos esse espírito, também somos tratados por ele. De fato, nenhum homem pode ser bom sem a ajuda de Deus.”  (XLI,1-2)

Sêneca continua a carta a partir da sugestão de reverência religiosa na presença de um local numinoso, comenta em uma passagem cuidadosamente estruturada que a qualidade mística de lugares como bosques, cavernas, nascente de rios, fontes termais e piscinas profundas inspira reverência religiosa:

“Se alguma vez você se deparou com um bosque cheio de árvores antigas que cresceram a uma altura incomum, fechando a visão do céu por um véu de ramos cheios e entrelaçados, então a imponência da floresta, a reclusão do lugar, e sua admiração com a espessa sombra ininterrupta no meio dos espaços abertos, irá provar-lhe a presença da deidade. Ou se uma caverna, feita pelo profundo desmoronamento das rochas, sustenta uma montanha em seu arco, um lugar não construído com as mãos, mas esvaziado em tais espaços por causas naturais, sua alma será profundamente comovida por uma certa intimação da existência de Deus.” (XLI,3-4)

É significativo que a natureza  seja reconhecida como o divino pois para os estóicos viver de acordo com a natureza era o objetivo apropriado do ser humano. E sua naturalidade garante sua confiabilidade. Diz que nenhum homem deve se gloriar, exceto naquilo que é seu,  no sentido intrínseco, ou seja, seu próprio e não bens materiais que possam ser perdidos.

Sêneca então termina a carta descrevendo que a razão exige de nós viver de acordo com a natureza. Isto permite-lhe tornar explícito um contraste presente na última metade da carta, entre o que é natural e o que a sociedade humana viciada criou. Ele apresenta isso como um paradoxo, observando que viver de acordo com a natureza é algo muito fácil (rem facillimam), mas a loucura geral da humanidade torna difícil (difficilem).

“E o que é que a razão exige dele? A coisa mais fácil do mundo, – viver de acordo com sua própria natureza. Mas isso é transformado em uma tarefa difícil pela loucura geral da humanidade; nós impulsionamos um ao outro ao vício. E como pode um homem ser lembrado para a redenção, quando não tem ninguém para refreá-lo, e toda a humanidade para instigá-lo?” (XLI, 9)

(Imagem, detalhe da escultura David por Michelangelo)


XLI. Sobre o Deus dentro de nós

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você está fazendo uma coisa excelente, que será saudável para você, se, como você escreve-me, está a persistir em seu esforço para alcançar o discernimento sólido; é tolo rezar por isso quando pode adquiri-lo por si mesmo. Não precisamos elevar nossas mãos para o céu, nem implorar ao defensor de um templo que nos deixe chegar à orelha de seu ídolo, como se desse modo nossas orações fossem mais prováveis de serem ouvidas. Deus está perto de você, ele está com você, ele está dentro de você.

2. É isso que quero dizer, Lucílio: um espírito santo mora dentro de nós, aquele que anota nossas boas e más ações e é nosso guardião. À medida que tratamos esse espírito, também somos tratados por ele. De fato, nenhum homem pode ser bom sem a ajuda de Deus. Pode alguém elevar-se acima da fortuna, a menos que Deus o ajude a se levantar? Ele é Aquele que dá conselhos nobres e retos.

Em cada homem bom um deus habita, mas o que deus sabe nos não sabemos. Quis deus incertum est, habitat deus.[1]

3. Se alguma vez você se deparou com um bosque cheio de árvores antigas que cresceram a uma altura incomum, fechando a visão do céu por um véu de ramos cheios e entrelaçados, então a imponência da floresta, a reclusão do lugar, e sua admiração com a espessa sombra ininterrupta no meio dos espaços abertos, irá provar-lhe a presença da deidade. Ou se uma caverna, feita pelo profundo desmoronamento das rochas, sustenta uma montanha em seu arco, um lugar não construído com as mãos, mas esvaziado em tais espaços por causas naturais, sua alma será profundamente comovida por uma certa intimação da existência de Deus. Nós adoramos as fontes de rios poderosos; erguemos altares em lugares onde grandes riachos brotam subitamente de fontes ocultas; adoramos as fontes de água quente como divinas, e consagramos certas poças por causa de suas águas escuras ou sua imensurável profundidade.

4. Se você vê um homem que está sem medo no meio de perigos, intocado por desejos, feliz na adversidade, pacífico em meio à tempestade, que olha para os homens de um plano superior, e vê os deuses em pé de igualdade, não irá um sentimento de reverência por ele abater sobre você? Você não vai dizer: “Esta qualidade é muito grande e muito sublime para ser considerada como semelhante a este pequeno corpo em que habita? Um poder divino desceu sobre esse homem”.

5. Quando uma alma se eleva superior a outras almas, quando está sob controle, quando passa por cada experiência como se fosse de pequena conta, quando sorri aos nossos medos e às nossas orações, é inspirada por uma força do céu. Uma coisa como esta não pode ficar de pé, a menos que seja sustentada pelo divino. Portanto, uma maior parte dela permanece naquele lugar de onde veio à terra. Assim como os raios do sol realmente tocam a terra, mas ainda permanecem na fonte de onde são enviados; assim também a alma grande e santificada, que desceu para que possamos ter um conhecimento mais próximo da divindade, de fato se associe a nós, mas ainda se apega à sua origem; nessa fonte ela depende, para onde vira seu olhar e se esforça a ir, e se preocupa com nossas ações apenas como um ser superior a nós mesmos.

6. O que, então, é tal alma? Uma que é resplandecente sem nenhum bem externo, mas apenas com si própria. Pois o que é mais tolo do que louvar em um homem as qualidades que vêm de fora? E o que é mais insano do que maravilhar-se com características que podem, no instante seguinte, ser transmitidas a outra pessoa? Um freio de ouro não faz um cavalo melhor. O leão com juba adornada por ouro, em processo de treinamento e forçado pelo cansaço a suportar a decoração, é enviado para a arena de uma maneira completamente diferente do leão selvagem cujo espírito é intacto; este último, de fato, ousado em seu ataque, como a natureza desejava que fosse, impressionante por causa de sua aparência selvagem, e é sua a glória que ninguém consiga olhar para ele sem medo, é preferível ao outro leão, aquela fera apática e dourada.

7. Nenhum homem deve se gloriar, exceto naquilo que é seu. Nós louvamos uma videira se faz os brotos crescerem com progresso, se pelo seu peso ela dobra ao solo as estacas que suportam seu fruto; iria algum homem preferir a esta videira uma onde pendem uvas douradas e folhas douradas? Em uma videira a virtude peculiarmente própria é a fertilidade; no homem também devemos louvar o que é seu. Suponha que ele tem um séquito de escravos agradáveis e uma bela casa, que sua fazenda é grande e grande sua renda; nenhuma dessas coisas está no próprio homem; elas estão todas do lado de fora.

8. Elogie a qualidade nele que não pode ser dada ou retirada, que é a propriedade peculiar do homem. Você pergunta o que é isso? É a alma, e a razão trazida à perfeição na alma. Pois o homem é um animal de raciocínio. Portanto, o maior bem do homem é atingido, se ele cumpriu o bem para o qual a natureza o projetou no nascimento.

9. E o que é que a razão exige dele? A coisa mais fácil do mundo, – viver de acordo com sua própria natureza. Mas isso é transformado em uma tarefa difícil pela loucura geral da humanidade; nós impulsionamos um ao outro ao vício. E como pode um homem ser lembrado para a redenção, quando não tem ninguém para refreá-lo, e toda a humanidade para instigá-lo?

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Trecho de Eneida de Virgílio.

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