Pensamento #48: Homens são punidos por sacrilégio, embora ninguém possa causar dano aos deuses

 

“aquele que carrega armas mortais e tem intenções de roubar e matar, é um bandido antes mesmo de ter mergulhado as mãos no sangue; Sua maldade consiste e é mostrada em ação, mas não começa assim. Homens são punidos por sacrilégio, embora ninguém possa causar dano aos deuses. “

Sêneca Sobre os Benefícios, Livro V,14

(imagem A mártir búlgara de Konstantin Makovsky)

A Tríade do Guerreiro Estoico

A Tríade do Guerreiro Estoico

Recentemente recebi recomendação do texto do almirante James Stockdale A Tríade do Guerreiro Estoico” em tradução de  Aldo Dinucci e Alexandre Cabeceiras. (disponível em https://goo.gl/5pMCtK, texto de Stockdale começa na página 9)

Stockdale foi o mais alto oficial americano aprisionado na guerra do Vietnã. Foi mantido como prisioneiro de guerra em Hoa Lo (o infame “Hanoi Hilton”) por sete anos e meio. Como oficial sênior da Marinha, ele foi um dos principais organizadores da resistência dos prisioneiros. Torturado rotineiramente e sem atenção médica para a perna severamente machucada, Stockdale criou e aplicou um código de conduta para todos os prisioneiros.  Quando foi informado por seus captores que ele seria exibido em público, Stockdale cortou a própria testa com uma navalha para se desfigurar propositalmente, para que seus captores não o pudessem usar como propaganda.

Nesse texto ele narra como usou o estoicismo, as teses de Solzhenitsyn e principalmente os ensinamentos de Epicteto para sobreviver e manter a lucidez todos os anos de prisão:

“Gostaria de dizer de imediato que li e estudei as Diatribes pelo menos 10 vezes, sem mencionar minhas incursões pelo Encheirídion, e jamais achei uma simples inconsistência no código de princípios de Epicteto. É um pacote fechado, livre de contradições. O velho cara pode não instigá-los, mas se ele não o faz, não o censurem por incoerência; Epicteto não tem problemas com a lógica.”

Manteve uma atitude estoica frente a seus torturadores, como podemos ver no trecho que narra sua relação com o principal deles:

Mas nenhum de nós jamais quebrou o código de uma invariavelmente estrita relação na “linha do dever”. Ele nunca me enganou, sempre jogou corretamente, e jamais pedi misericórdia. Eu admirei aquilo nele, e poderia dizer que ele admirou isso em mim. E quando as pessoas dizem: “Ele era um torturador, você não o odeia?” Eu digo, como Solzehnitsyn, para o espanto daqueles que estão à minha volta: “Não, ele era um bom soldado, nunca ultrapassou sua linha do dever”.

Ensina que aprender a comandar suas emoções é fortalecedor e libertador:

Quando se chega nesse ponto, o capítulo 30 do Encheirídion se aplica: “Se não quiseres, outro não te causará dano”. E por “dano” Epicteto quer dizer, como os estoicos sempre o fizeram, danificar seu eu interior, seu auto-respeito, e sua obrigação de ser leal. Podem quebrar seu braço ou sua perna, mas não se preocupem. Eles sararão.

Conclui com o que chama de  Tríade do Guerreiro Estoico:

“Tranquilidade, Destemor e Liberdade”.

Estátua de  James Stockdale, US Naval Academy, Annapolis, Maryland

Estoicos assistem a Copa do Mundo?

Sim. Claro.

Apesar do Futebol ainda não ter sido inventado, os filósofos antigos abordaram o assunto de competição esportiva:

“Certamente, quanto maior a multidão com que nos misturamos, maior o perigo. Mas nada é tão prejudicial ao bom caráter como o hábito de frequentar os estádios [lutas de gladiadores] ; pois é lá que o vício penetra sutilmente por uma avenida de prazer.”(Sêneca, Carta VII.2)

“Do meu preceptor [eu aprendi] a não ter pertencido à facção nem dos Verdes, nem dos Azuis [corridas de cavalos], nem partidário dos Grandes-Escudos, nem dos Pequenos-Escudos [lutas de gladiadores] “(Marco Aurélio, Meditações – I.5)

“Raramente, quando a ocasião pedir, fala algo, mas não sobre coisa ordinária: nada sobre lutas de gladiadores, corridas de cavalos, nem sobre atletas, (…)– assuntos falados por toda parte” (Epiteto, Encherídion[33.2])

Não temos gladiadores hoje em dia, no entanto,  essas três passagens não são sobre rejeitar o prazer oferecido pelo futebol moderno, mas, ao contrário, sobre abordá-lo da maneira correta, no sentido de que pode proporcionar não apenas entretenimento, mas também oportunidades para praticar a virtude.

Antes de eu explicar, deixe-me lembrá-lo que assistir esportes é, na melhor das hipóteses, classificado entre os indiferentes preferidos, ou seja, o tipo de coisa que não faz de você uma pessoa melhor ou pior (não gostar de futebol não faz você mais inteligente). Ou seja, a atividade é moralmente neutra e, além disso, o resultado certamente não está sob seu controle. (Lembrem do 7×1)

Então, quais virtudes podemos treinar assistindo a um jogo de futebol? Todas elas! Especialmente se for ao estádio para assistir ao vivo, ou se estiver na presença de fãs da equipe adversária. Vamos ver:

  • Sabedoria prática (phronesis, ou prudência): Isto é o conhecimento do que é verdadeiramente bom ou mau. Se o “meu” time vence ou perde é irrelevante, o que significa que devo aceitar qualquer resultado com equanimidade.
  • Temperança: Assistir apenas alguns jogos selecionados (senão gastaríamos muito do nosso tempo, que segundo Sêneca, é o único bem que nunca recebemos de volta), e participar da festa com moderação (ao contrário, digamos, de um hooligan bêbado que incomoda as outras pessoas).
  • Coragem: bater palmas para a equipe adversária, ou um de seus jogadores, sempre que merecerem, mesmo que seus amigos e co-fãs fiquem constrangidos com o seu comportamento.
  • Justiça: trate tanto os jogadores quanto os torcedores do outro time como seres humanos, membros da mesma cosmópolis, não os insulte (nem a mãe do árbitro), e, é claro, não parta para a violência.

Agora, se você me der licença, a Argentina logo vai jogar com a Croácia.  Vai Croácia!!!

 

(imagem, escultura de Sêneca por Barron goleando os epicuristas)

(artigo baseado no texto de Massimo Pigliucci)

Princípio Estoico #8: Percepção é chave

“Não são eventos que incomodam as pessoas, são seus julgamentos a respeito deles.”  Manual de Epiteto [5]

O que é percepção?

É como vemos e entendemos o que acontece ao nosso redor e o que decidimos que esses eventos significam. Nossas percepções podem ser como uma bola de chumbo acorrentada aos nossos pés, nos segurando e nos deixando fracos, ou podem ser uma grande fonte de força.

O que nós já aprendemos com os estoicos é que eles vêem eventos externos não como bons ou ruins, mas como indiferentes. Então não são esses eventos, porque eles são indiferentes, mas o seu próprio julgamento deles eventos é que importa.

“Se você está sofrendo por qualquer coisa externa, não é isso que te perturba, mas seu próprio julgamento sobre isso. E está em seu poder acabar com esse julgamento agora” (Meditações de Marco Aurélio)

Isso faz com que você seja responsável por sua vida. Você não controla eventos externos, mas controla como escolhe vê-los e responder a eles. E, no final, isso é tudo que importa.

“Lembre-se de que os infortúnios só podem ser previstos para o seu corpo ou sua propriedade, mas sua mente está sempre disponível para transformá-los em boa sorte, respondendo com virtude.”Manual de Epiteto

Você sempre pode responder com virtude.  Os estoicos tinham essa idéia de que você pode transformar todos os obstáculos em uma oportunidade. Marco Aurélio descreveu assim:

“O impedimento à ação promove a ação. O que fica no caminho se torna o caminho.” (Meditações de Marco Aurélio)

A chave para reconhecer essas oportunidades está na sua percepção. Como você vê as coisas é muito mais importante do que as próprias coisas. Você pode achar o bem em tudo. O estoicismo nos ensina a considerar tudo como uma oportunidade de crescimento.


 

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Princípio Estoico #6: Pratique o Infortúnio – Pergunte-se “O que poderia dar errado?”

Existe o conhecido problema da Adaptação Hedônica,  a tendência observada nas pessoas para regressar rapidamente a um nível relativamente estável de felicidade apesar da ocorrência de importantes acontecimentos positivos ou negativos.

Os estoicos usavam uma ferramenta mental para evitar tal situação, “vacinando” suas mentes contra infortúnios. Eles se prepararam para coisas ruins que pudessem acontecer. Os romanos chamavam de “premeditatio malorum“. Premeditação da adversidade.

William Irvine descreve a solução como “a técnica mais valiosa no conjunto de ferramentas dos estoicos” e a chamou de “visualização negativa“:

“Os estoicos pensaram que tinham uma resposta a esta pergunta. Eles recomendaram  imaginar que perdemos as coisas que valorizamos – que nossa esposa nos deixou, nosso carro foi roubado ou perdemos nosso trabalho. Fazendo isso, os estoicos pensavam, nos fariam valorizar nossa esposa, nosso carro e nosso trabalho. Esta técnica – referimos a ela como visualização negativa – foi empregada pelos estoicos desde Crísipo. É, penso eu, a técnica mais valiosa no kit de ferramentas psicológicas dos estóicos. (A Guide to the Good Life)

Tal prática traz dois benefícios:

  1. Satisfação com o que já temos;
  2. Preparação para adversidades futuras;

Esteja pronto para que as coisas aconteçam de forma diferente do planejado. Tenha um plano alternativo.

Nada acontece com o homem sábio contra suas expectativas.” – Sêneca

Eu deveria me surpreender“, pergunta Sêneca, “se os perigos que sempre vagaram sobre mim possam chegar a mim em algum momento?” (Sobre a Brevidade da Vida)

Assolação – esse sentimento de estarmos absolutamente esmagados e arruinados por um evento – é um fator de quão pouco nós consideramos esse evento em primeiro lugar” – (  The Daily Stoic – Ryan Holiday)

O homem sábio prepara-se mentalmente. Nada pode acontecer que ele não tenha visto chegar. A premeditação da adversidade não faz com que tudo seja indolor e fácil de suportar. Mas isso nos ajuda a não entrar em pânico quando o problema acontece. Podemos enfrentar a adversidade com calma, analisá-la de forma racional e decidir tomar uma ação inteligente.

Experimente agora. O que você está planejando fazer nos próximos dias? O que poderia dar errado?

(Fortuna Marina por Frans Francken, A deusa romana Fortuna distribui aleatoriamente seus favores)


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Princípio Estoico #4: Separe as coisas como sendo boas, ruins e indiferentes

“Sobre as coisas: algumas são boas, algumas são ruins, e algumas são indiferentes. as Boas, então, são virtudes, e as coisas que participam das virtudes, as Más são contrárias, e as indiferentes são a riqueza, a saúde, a reputação”.   Epiteto – Discursos (II.9)

Os estoicos distinguiam coisas como sendo “boas”, “más” e “indiferentes”.

As coisas boas incluem as virtudes cardeais sabedoria,  justiçacoragem e autodisciplina.  As coisas ruins incluem os opostos dessas virtudes, a saber, os quatro vícios: ignorânciainjustiçacovardia e indulgência. As coisas indiferentes incluem todo o resto. São externas.

Agora, o que mais impressiona é o fato de que as coisas tidas como indiferentes pelo estoicismo são exatamente o que as pessoas hoje em dia julgam como boas ou más. No entanto, essas coisas indiferentes não ajudam nem prejudicam nosso desenvolvimento. Elas não desempenham um papel necessário à Vida Feliz. A indiferença não significa frieza. Ser indiferente às coisas indiferentes não significa não fazer diferença entre elas, mas aceitá-las como são.

Mas ser saudável é melhor do que ficar doente, certo?

Sim. Embora as coisas indiferentes não possam realmente ser “boas”, algumas são mais valiosas do que outras e preferíveis a elas. Portanto, os estóicos diferenciaram coisas indiferentes “preferidas” e “despreferidas“. É uma interpretação bastante lógica. As coisas positivas e indiferentes, como boa saúde, amizade, riqueza e boa aparência, foram classificadas como indiferentes preferenciais, enquanto seus opostos eram indiferentes despreferidos.

As pessoas sempre preferem a alegria sobre a dor, a riqueza sobre a pobreza e a boa saúde sobre a doença – então vá em frente e procure por essas coisas, mas não quando isso põe em perigo a sua integridade e virtude. Em outras palavras, é melhor suportar a dor, a pobreza ou a doença de maneira honrosa do que buscar alegria, riqueza ou saúde de forma vergonhosa.

Sêneca diz em sua carta 82:

“Eu classifico como ‘indiferente’ – ou seja, nem o bem nem o mal – a doença, a dor, a pobreza, o exílio, a morte. Nenhuma dessas coisas é intrinsecamente gloriosa; mas nada pode ser glorioso além delas. Pois não é a pobreza que louvamos, é o homem a quem a pobreza não pode humilhar ou dobrar. Nem é o exílio que louvamos, é o homem que se retira para o exílio no espírito em que teria enviado outro para o exílio. Não é a dor que louvamos, é o homem a quem a dor não coagiu. Ninguém elogia a morte, mas o homem cuja alma a morte tira antes que possa amaldiçoa-la.  Todas estas coisas não são em si nem honradas nem gloriosas; mas qualquer uma delas que a virtude tem visitado e tocado é feita honrada e gloriosa pela virtude; elas se limitam ao meio, e a questão decisiva é apenas se a maldade ou a virtude tem sobrepujado sobre elas. Por exemplo, a morte no caso de Catão é gloriosa.” (Carta 82. 10-12).

O único bem é a virtude, que está em nosso encargo. O único mal é o vício, que também está em nosso encargo. Tudo o mais é indiferente  porque não depende de nós. Portanto, não é o que você tem ou não tem, mas o que você faz com isso que importa. O que conta são suas ações. É tudo o que você controla.

(imagem A escolha entre a Virtude e o Vício por Frans Francken)


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Princípio Estoico #3: Concentre-se no que pode controlar, aceite o que não pode

“Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o desejo, a repulsa –em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos –em suma: tudo quanto não seja ação nossa. ” Manual de Epiteto [1.2]

Esta passagem é encontrada logo no início do Enchirídion de Epiteto, porque é fundamental para os ensinamentos da Filosofia Estoica. É denominada “dicotomia estoica do controle“, o princípio mais característico do estoicismo. Devemos distinguir cuidadosamente o que é “nosso encargo“, ou seja, algo sob nosso próprio poder, e o que não é. São nosso encargo nossas escolhas voluntárias, a saber, nossas ações e julgamentos, enquanto todo o resto não está sob nosso controle.

Inclusive nosso corpo não depende de nós, ou pelo menos não inteiramente. Sim,  há muitas coisas que podemos fazer para obter um corpo saudável e atraente. Mas isso só é possível até certo ponto. Podemos controlar nossas ações e manter uma dieta saudável, exercitar sistematicamente e sermos ativos, mas não temos controle sobre outras coisas, como genes e fatores externos, como doenças e lesões .

Só controlamos nossas próprias ações e temos que aceitar o resultado com equanimidade. Teremos satisfação e confiança de saber que estamos fazendo o melhor e tentando tudo o que estiver ao nosso alcance para atingir nosso objetivo. Então,  podemos aceitar o resultado porque fizemos nosso melhor. Se o resultado não é satisfatório, devemos aceitá-lo facilmente e dizer: “Bem, eu fiz o meu melhor”.

Os estoicos usam a Analogia do Arqueiro para explicar isso:

Um arqueiro está tentando atingir um alvo. Ele tem uma série de coisas sob seu controle, como o treinamento, qual arco e flecha usar, quão bem apontar e quando soltar a flecha. Então ele pode fazer o seu melhor até o momento em que a flecha deixa seu arco.

Agora, ele atingirá o alvo?

Isso não depende dele. Afinal, uma rajada de vento, um movimento súbito do alvo, ou algo pode entrar entre a flecha e o alvo. E o arqueiro estoico está pronto para aceitar todos os resultados possíveis com tranquilidade, porque ele fez o seu melhor e deixou o resto (o que ele não podia controlar) para a natureza.

Massimo Pigliucci coloca em seu livro How to Be a Stoic:

“Este é precisamente o poder do estoicismo: a internalização da verdade básica que podemos controlar nosso comportamento, mas não os seus resultados – e muito menos os resultados dos comportamentos de outras pessoas – o que leva à aceitação tranquila do que acontece, assegurando o conhecimento de que nós fizemos o nosso melhor, tendo em conta as circunstâncias”.

E o que sempre podemos tentar o nosso melhor? viver de acordo com a virtude. Sim, podemos sempre tentar aplicar a razão, atuar com coragem, tratar com justiça e exercitar a moderação.

Vejamos um dos exercícios práticos recomendado por Epiteto:

“Faça uma prática dizer a todas as impressões fortes: ‘Uma impressão é tudo o que você é’. Em seguida, teste e avalie com seus critérios, mas um principalmente: pergunte: ‘Isso é algo que está ou não está sob meu controle?’ E se não é uma das coisas que você controla, diga: ‘Então não é minha preocupação’.  Epiteto – Discursos (II.18)

Se é seu encargo, então faça algo sobre isso, se não, aceite como está.

As coisas que dependem de você, ou seja seus pensamentos e ações, são as coisas mais importantes. Donald Robertson disse isso bem em seu livro Estoicismo e Arte da Felicidade:

“A conclusão filosófica de que o principal bem, o mais importante na vida, deve necessariamente ser aquilo que está a “nosso encargo” é ao mesmo tempo o aspecto mais difícil e mais atraente do estoicismo. Isso nos torna completamente e totalmente responsáveis pela nossa vida, privando-nos de desculpas para não florescer e alcançar a melhor vida possível, porque isso está sempre ao nosso alcance “.

Então, a lição chave para tirar aqui é concentrar nossa atenção e esforços onde temos mais poder e deixar o universo cuidar do resto.


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Princípio Estoico #2: Viva pela Virtude

Alcançar a “virtude” é o bem mais elevado.

O que os estoicos denotavam como “virtude” era sobressair ou florescer em termos de nossa natureza humana racional. Basicamente, quando você vive de acordo com a virtude, você está vivendo a Boa Vida. Essa excelência humana se dá em diferentes formas de virtude destacada nas quatro virtudes cardeais:

  • Sabedoria prática: a habilidade de navegar situações complexas de forma lógica, informada e calma;
  • Autodisciplina ou Temperança: o exercício de autorrestrição e moderação em todos os aspectos da vida;
  • Justiça: tratar outros justamente mesmo quando fazem algo errado;
  • e Coragem: não só em circunstâncias extraordinárias, mas ao encararmos desafios diários com claridade e integridade.

Quando agimos de acordo com essas virtudes, caminhamos para a Boa Vida. No sentido estoico, você só pode ser virtuoso se praticar todas as virtudes. A virtude é um pacote tudo-ou-nada e somente um Sábio as têm completamente. É importante entender que o conceito “sábio” para os filósofos antigos é um ideal a ser atingido, e não alguém real. Segundo Sêneca o sábio se equivale aos deuses, com a única distinção do sábio ser humano e mortal.

Para os estóicos, é indiscutível que a virtude deva ser sua própria recompensa. Você faz algo porque é a coisa certa a fazer. Você age virtuosamente por sua própria causa.  Às vezes, agir de acordo com a virtude traz benefícios adicionais,  no entanto, esses benefícios devem ser interpretados como “bônus adicional” e não podem ser o principal motivo da ação.

(Imagem: Escolha de Hercules entre a Virtude e Vício por Pelagio Pelagi)

 


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Princípio Estoico #1: Viver de acordo com a natureza – O objetivo estoico de vida

O objetivo derradeiro da vida de acordo com todas as escolas de filosofia da Grécia antiga é a Eudaimonia. Pense nisso como sendo suprema felicidade ou realização alcançável por seres humanos. A Boa Vida – uma vida prospera, elevada e fluindo em harmonia.

O objetivo da vida = A Boa Vida. Como viver para atingir a “Boa Vida”?

Os estoicos apresentaram muitas estratégias práticas para avançar para a Boa Vida. Examinaremos estratégias e ideias específicas nos próximos princípios. Primeiro, vamos aprender como os estoicos resumiram o objetivo de vida:

“Viver de acordo com a natureza”

Viver de acordo com a natureza” era um slogan central do estoicismo, mas requer uma explicação adicional, uma vez que levanta a questão: “O que exatamente isso significa?” Epiteto dizia:

“Então, o que é um Homem? Um animal racional, sujeito à morte. Perguntamos, de que o elemento racional nos distingue? De bestas selvagens. E de que mais? De ovelhas e similares. Atente-se para que você não faça nada como uma fera, senão você destruirá o Homem em você e não atingirá seu potencial. Veja que você não haja como uma ovelha, ou então o Homem em você perece.
Você pergunta como agimos como ovelhas?
Quando consultamos a barriga ou as nossas paixões, quando nossas ações são aleatórias ou obscenas ou irrefletidas, não estamos caindo para o estado das ovelhas? O que destruímos? A faculdade da razão. Quando nossas ações são agressivas, prejudiciais, irritadas e grosseiras, não decaímos e nos tornamos animais selvagens?”

O ser humano é um animal racional. Isso é o que nos separa de ovelhas e bestas selvagens. Nós somos diferentes de todas as outras espécies no planeta Terra, tanto para o bem como para o mal. O ponto central é nosso intelecto, nossas habilidades sociais e mentais.

“Viver de acordo com a natureza” trata-se de se comportar de forma racional como um ser humano, ao invés de aleatoriamente (ou por paixão e desejos) como uma fera. Em outras palavras, sempre devemos aplicar nossa habilidade natural da “razão” em todas as nossas ações. Se aplicarmos a razão viveremos de acordo com a natureza, agindo como seres humanos devem agir.

(imagem, Olivia Beaumont | The Baroque Beasts)


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