Carta #63: Sobre sofrimento por amigos perdidos

Na carta 63 Sêneca aborda o luto pela morte de pessoas amadas e recomenda “que a lembrança daqueles que perdemos se torne uma agradável lembrança para nós“.  (LXIII,4)

Para Sêneca é importante aproveitar a companhia dos amigos e amados enquanto é possível e sempre ter em mente que somos mortais:

A fortuna tirou, mas a fortuna deu. Vamos gozar com gozo os nossos amigos, porque não sabemos quanto tempo esse privilégio será nosso.(LXIII,7-8)

Um estoico não precisa manter os olhos secos quando perde um amigo, nem os deixá-los transbordar. Podemos chorar, mas não devemos lamuriar.

(imagem, escultura La Desesperación)


LXIII. Sobre sofrimento por amigos perdidos

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Estou triste por saber que seu amigo Flaco está morto, mas eu não recomendaria a você tristeza a mais do que é adequado. Que você não deva chorar eu não ousarei insistir; ainda que saiba que é a melhor maneira. Mas qual homem será tão abençoado com essa firmeza ideal da alma, a menos que já tenha se elevado muito acima do alcance da Fortuna? Mesmo esse homem será atingido por um evento como este, mas será apenas uma picada. Nós, no entanto, podemos ser perdoados por nos rebentar em lágrimas, se apenas as nossas lágrimas não tenham fluido em excesso, e se as tivermos controladas por nossos próprios esforços. Não deixe que os olhos fiquem secos quando perdemos um amigo, nem os deixemos transbordar. Podemos chorar, mas não devemos lamuriar.
  2. Você acha que a lei que eu estabeleço para você é dura, enquanto o maior dos poetas gregos estendeu o privilégio de chorar a um só dia, nas linhas em que ele nos diz que Níobe[1] mesmo pensou em comer? Você deseja saber o motivo de lamentações e choro excessivo? É porque buscamos as provas de nosso luto em nossas lágrimas, e não damos lugar à tristeza, mas meramente ao seu desfilar. Nenhum homem entra em luto por seu melhor interesse. Vergonha essa nossa insensatez inoportuna! Há um elemento de egoísmo, mesmo em nossa tristeza.
  3. “O quê”, você diz, “vou esquecer meu amigo?” É seguramente uma lembrança de curta duração que você lhe concede, se é para durar apenas enquanto seu pesar; dentro em pouco, sua sobrancelha será suavizada em risadas por alguma circunstância, por mais casual que seja. É para um tempo curto que eu coloco o calmante de cada tristeza, o abrandamento de até mesmo o mais amargo sofrimento. Assim que você deixar de se vigiar, a imagem de tristeza que você contemplou desaparecerá; no momento você está vigiando seu próprio sofrimento. Mas mesmo enquanto vigia, ele escapa de você, e quanto mais agudo ele é, mais rapidamente chega ao fim.
  4. Vamos cuidar para que a lembrança daqueles que perdemos se torne uma agradável lembrança para nós. Nenhum homem devolve com prazer qualquer assunto que ele não seja capaz de refletir sem dor. Assim também não pode deixar de ser que os nomes daqueles a quem amamos e perdemos voltem para nós com uma espécie de picada; mas há um prazer mesmo nesta picada.
  5. Como disse meu amigo Atalo[2]: “A lembrança de amigos perdidos é agradável, da mesma forma que certos frutos azedos têm um gosto agradável, ou como em vinhos extremamente antigos em que o próprio amargor nos agrada. Depois de um certo lapso de tempo, todo pensamento que deu dor é extinguido, e o prazer nos vem sem mistura”.
  6. Se considerarmos a palavra de Atalo, “pensar em amigos que estão vivos e bem é como desfrutar de uma refeição de bolos e mel, a lembrança de amigos que passaram dá um prazer que não é sem um toque de amargor, no entanto, quem negará que até mesmo essas coisas, que são amargas e contêm um elemento de acidez, servem para despertar o estômago? “
  7. Por minha parte, eu não concordo com ele. Para mim, o pensamento de meus amigos mortos é doce e atraente. Porque eu os tive como se eu os pudesse perder; eu perdi-os como se eu os ainda tivesse. Portanto, Lucílio, aja como convém a sua própria serenidade de espírito, e deixe de colocar uma interpretação errada sobre os presentes da Fortuna. A fortuna tirou, mas a fortuna deu.
  8. Vamos gozar com gozo os nossos amigos, porque não sabemos quanto tempo esse privilégio será nosso. Pensemos quantas vezes os deixaremos quando nos colocamos em viagens distantes, e quantas vezes não os veremos mesmo quando ficarmos juntos no mesmo lugar; compreenderemos assim que perdemos muito do tempo deles enquanto estavam vivos.
  9. Mas irá tolerar homens que são os mais descuidados com seus amigos, e depois choram por eles mais abjetamente, e não amam ninguém a menos que o tenham perdido? A razão pela qual se lamentam com tanta violência nessas ocasiões é que temem que os homens duvidem se realmente amaram; muito tarde eles procuram provas de suas emoções.
  10. Se tivermos outros amigos, certamente mereceremos sofrer em suas mãos e pensar mal deles, se eles são tão inconsiderados que não consigam nos consolar pela perda. Se, por outro lado, não temos outros amigos, nos ferimos mais do que a fortuna nos feriu; já que a fortuna nos roubou um amigo, mas nós roubamos a nós mesmo de todos os amigos que não fizemos.
  11. Novamente, aquele que é incapaz de amar mais do que um, não tem muito amor mesmo por este. Se um homem que perdeu sua única túnica por roubo escolheu lamentar sua situação, em vez de olhar em torno por alguma maneira de escapar do frio, ou para algo com que se cobrir os ombros, você não o consideraria um tolo absoluto? Você sepultou alguém que amava; procure para alguém amar. É melhor substituir seu amigo do que chorar por ele.
  12. O que vou acrescentar é, eu sei, uma observação muito simplória, mas não a omitirei simplesmente porque é uma frase comum: um homem acaba seu pesar com o simples passar do tempo, mesmo que ele não tenha terminado por sua própria iniciativa. Mas a cura mais vergonhosa para a tristeza, no caso de um homem sensato, é se entediar da tristeza. Eu prefiro que abandone o sofrimento, em vez de deixar o sofrimento abandoná-lo; e deve parar com o luto o mais rapidamente possível, uma vez que, mesmo se quiser fazê-lo, é impossível mantê-lo por um longo tempo.
  13. Nossos antepassados decretaram que, no caso das mulheres, um ano deveria ser o limite para o luto; não que elas precisassem chorar por tanto tempo, mas que elas não deviam chorar mais. No caso dos homens, não foram estabelecidas regras, porque o luto não é considerado honroso. Por tudo isso, qual mulher pode me mostrar, de todas as fêmeas patéticas que dificilmente poderiam ser arrastadas para longe da pira funerária ou arrancadas do cadáver, cujas lágrimas duraram um mês inteiro? Nada se torna ofensivo tão rapidamente quanto o sofrimento; quando fresco, encontra alguém para consolá-lo e atrai um ou outro; mas depois de se tornar crônico, é ridicularizado, e com razão. Pois é simulado ou tolo.
  14. Quem lhe escreve estas palavras não é outro senão eu, que chorou tão excessivamente pelo meu querido amigo Aneo Sereno[3] que, apesar de meus anseios, devo ser incluído entre os exemplos de homens que foram dominados pelo sofrimento. Hoje, no entanto, condeno este ato meu, e entendo que a razão pela qual chorei tanto foi principalmente pois nunca imaginei que sua morte pudesse preceder a minha. O único pensamento que me ocorreu foi que ele era o mais novo, e muito mais novo, – como se o destino seguisse a ordem de nossos tempos!
  15. Portanto, pensemos continuamente tanto sobre nossa própria mortalidade como sobre a de todos aqueles que amamos. Em dias anteriores eu poderia ter dito: “Meu amigo Sereno é mais jovem do que eu, mas o que importa? Ele poderia morrer naturalmente depois de mim, mas ele também poderia me preceder.” Foi apenas porque eu não fiz isso que estava despreparado quando a Fortuna me deu o súbito golpe. Agora é o momento para refletir, não só que todas as coisas são mortais, mas também que sua mortalidade não está sujeita a lei fixa. O que quer que possa acontecer a qualquer momento pode acontecer hoje.
  16. Reflita, portanto, meu amado Lucílio, que logo chegamos a baliza que este amigo, para a nossa própria tristeza, alcançou. E talvez, se somente a fábula contada por homens sábios for verdadeira e houver um nirvana para nos receber, então aquele que nós pensamos que nós perdemos foi enviado somente em nossa frente.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Relatado por Homero. Níobe é uma personagem da Mitologia Grega, que por ser muito fértil, teve catorze filhos (sete homens e sete mulheres). O povo de sua cidade se reuniu para render tributo a deusa Leto. Eis que Níobe aparece insultando a deusa, que só teve dois filhos, Apolo e Ártemis.  Leto indignou-se com a audácia da mortal, e implorou vingança a seus filhos, que eram arqueiros. Apolo e Ártemis, então, mataram todos os sete filhos de Níobe.

[2] Professor de Sêneca.

[3] Um amigo íntimo de Sêneca, provavelmente um parente, que morreu no ano 63 por comer cogumelos envenenados. Sêneca dedicou a Sereno vários de seus ensaios filosóficos.

O que investidores de longo prazo podem aprender com Sêneca?

Texto de Jean Tosetto

O que investidores de longo prazo podem aprender com Sêneca?

 

“A morte de Sêneca” (1773). Pintura de Jacques-Louis David (1748-1825) exposta no Musée du Petit-Palais, Paris, França.
“A morte de Sêneca” (1773). Pintura de Jacques-Louis David (1748-1825) exposta no Musée du Petit-Palais, Paris, França.

Viver é uma arte que requer equilíbrio. O mesmo equilíbrio que as empresas precisam demonstrar em seus balanços patrimoniais. Por isso, ler sobre Filosofia pode ser muito útil para quem atua no mercado financeiro. Afinal de contas, investir não é muito diferente de viver.

Se você pudesse escolher outra época para viver, abriria mão do presente? Eu não. Apesar de ter nascido no analógico século 20, convivo muito bem com o mundo digital do século 21. A Internet abriu a possibilidade de pessoas anônimas se expressarem em público. Antigamente – e não faz tanto tempo assim – apenas quem estava no círculo fechado da imprensa, da política e da universidade, tinha voz, embora tudo fosse editado por muito poucos indivíduos.

Não voltaria para um tempo onde não pudesse ouvir discos dos Beatles e dirigir meu carro, por exemplo. Porém, confesso que não seria de todo ruim viver durante o auge do Império Romano, se pudesse caminhar pelas colinas de Roma e cruzar com gente como Cícero, Ovídio e Sêneca.

Quando pensamos em pessoas do passado remoto, temos a tendência de achar que elas eram ignorantes, dado que não conheciam os avanços científicos, médicos e tecnológicos que qualquer cidadão moderno das grandes cidades tem ao seu alcance. Isto não significa que, antigamente, todos eram burros. Pelo contrário. Os pensadores do período clássico estão entre os mais inteligentes de toda a humanidade.

Eles tinham uma grande vantagem sobre nós: não se distraíam com televisão, YouTube, redes sociais e maratonas de séries da Netflix. Eles tinham tempo para pensar sobre a vida. Por isso, alguns de seus livros sobreviveram por milênios e ainda revelam ensinamentos para nós – e inclusive os investidores de longo prazo no mercado de capitais.

O pretor que também era filósofo

Lúcio Anneo Sêneca nasceu em Córdoba, na Espanha, por volta de quatro anos antes de Cristo. Ainda jovem, foi estudar Filosofia em Roma, tornando-se também advogado. Culto, tinha uma relação de amor e ódio com os poderosos da época. Era conselheiro do imperador Calígula, mas o imperador Cláudio o mandou para o exílio, de onde retornou para ser pretor (educador) de Nero, que também seria imperador mais adiante.

Entre tantas funções, Sêneca era questor. Em Roma, os questores eram responsáveis por administrar bens públicos e cobrar impostos, entre outras coisas, pois eram reconhecidamente bons financistas. Sêneca, portanto, era um filósofo que entendia de questões de mercado. Só por esta breve apresentação, todo investidor moderno deveria ler sua obra, da qual se destaca “Sobre a brevidade da vida”.

O título deste livro, cuja edição brasileira de bolso é mais barata que um cappuccino, é inquietante para quem se considera investidor de longo prazo. Como pode existir o longo prazo se a vida é curta? Sim, a vida é breve e precisa ser vivida com sabedoria, mesmo quando se tem a mentalidade de longo prazo em questões financeiras.

Indagações do questor

Separei algumas passagens da lavra de Sêneca para, quem sabe, despertar em você a vontade de ler seus escritos:

“Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai.”

Segue um alerta para aqueles que programam demais a sua aposentadoria, reprimindo em sua juventude um pouco de equilíbrio entre afazeres e prazeres:

“Ouvirás a maioria dizendo: ‘Aos cinquenta anos me dedicarei ao ócio. Aos sessenta ficarei livre de todos os meus encargos’. Que certeza tens de que há uma vida tão longa? O que garante que as coisas se darão como se dispões? Não ter envergonhas de destinar para ti somente resquícios da vida e reservar para a meditação apenas a idade que já não é produtiva?”

Comprar e abraçar? Já fizeram isso antes

Já em “Aprendendo a viver” – uma compilação de cartas de Sêneca para seu amigo Lucílio, o filósofo romano antecipa, em vários séculos, o conceito do Buy and Hold:

Senecião alcançou a riqueza graças a duas qualidades indispensáveis neste domínio: a arte de adquirir e a arte de conservar. Tanto uma coisa como outra era suficiente para torná-lo rico”.

Sêneca descreve Senecião como um homem “de uma extrema sobriedade e que administrava da mesma maneira a sua pessoa e fortuna”. Eis uma bela definição para os requisitos de um investidor de valor, que não pensa apenas no crescimento de seu patrimônio, mas considera igualmente o seu crescimento pessoal.

Em seus conselhos para Lucílio, Sêneca deixa para a posteridade palavras que se adéquam aos preceitos da educação financeira: “Em tudo, leva em conta a finalidade das coisas, deixando de lado, portanto, o supérfluo”. E continua:

“O que preferes: ter muito ou ter apenas o suficiente? Aquele que tem muito deseja ter mais, o que prova ser insuficiente o que já possui. Aquele que possui o suficiente obteve o que o rico jamais poderá atingir, ou seja, o fim dos seus desejos.”

A palavra é: parcimônia

Neste ponto, fica clara a influência do filósofo Epicuro no pensamento de Sêneca, que em “Da tranquilidade da alma” revela: “Confesso que tenho um grande amor pela parcimônia”. E o que significa parcimônia? De acordo com o dicionário do oráculo Google: “ação ou hábito de fazer economia, de poupar; economia”.

O parcimonioso Sêneca, assim como seu mestre Epicuro, não fazia questão de luxo e pompa. Para eles se alimentarem, ambos preferiam comidas simples e saborosas, ao invés refeições exóticas e de difícil preparo. Podemos traduzir isso para o nosso tempo como ter um padrão de vida equilibrado e controlado. Uma lição útil para quem busca a independência financeira.

Não por acaso, Sêneca era livre de problemas mundanos, como a falta de dinheiro. O dinheiro e as finanças, a propósito, sequer estavam no foco de suas preocupações. O que interessava para ele era debater o medo da morte e defender a eternidade da alma. Assuntos que, aparentemente, não nos dizem mais respeito, quando já somos perpétuos nos arquivos das redes sociais.

A ética acima de tudo

Então, o que a leitura de suas epístolas pode acrescentar para aqueles que exercem o mais mundano dos ofícios, o de negociar em Bolsa de Valores? (A propósito, muitos investidores e especuladores se sentiriam provocados com tais cartas.) A resposta está em valores éticos e morais que podemos assimilar, dado que são perenes e refletem nossas atitudes em qualquer ramo de atividade.

Como ocorre muitas vezes na História, conciliar o livre pensar com a função de conselheiro de poderosos é a receita para um fim amargo, especialmente quando o livre pensar incomoda os medíocres – o que só se agrava quando os medíocres chegam ao poder. O imperador Nero – aquele que botou fogo em Roma – acusou Sêneca de conspiração, lhe ordenando, sem julgamento, que cometesse suicídio.

Vejam como é bom viver em tempos de Internet, repletos de haters – eles incomodam, mas são inofensivos perto dos tiranos.

De algum modo, Sêneca provou-se imortal. Ele mesmo fazia a recomendação para que a gente se servisse da imortalidade daqueles que vieram antes de nós, lendo seus livros. A Filosofia dos antigos é fonte de sabedoria, que por sua vez, é fonte de prosperidade em vários sentidos.

Sêneca arremata: “O sábio não é considerado indigno ao ser agraciado pelo dom da fortuna. Não ama a riqueza, mas a aceita de bom grado. Permite que entre em sua casa, não a rejeita, desde que ela enseje oportunidades para a virtude”.

 

Carta 62: Sobre boa companhia

Na carta 62 Sêneca aborda dois princípios estoicos fundamentais:  o valor da amizade e a frugalidade.

Diz que o “atalho mais curto às riquezas é desprezar as riquezas” (LXII,3) e que devemos nos fazer amigos “dos melhores homens”  não importando  em que “terras eles possam ter vivido, ou em que idade” (LXII,2)

(Imagem Diogenes  por Jean-Léon Gérôme)


LXII. Sobre boa companhia

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Somos enganados por aqueles que nos querem fazer crer que uma multidão de assuntos bloqueia a busca de estudos intelectuais; eles fazem um fingimento de seus compromissos, e os multiplicam, quando seus compromissos são meramente com eles. Quanto a mim, Lucílio, o meu tempo é livre; é de fato livre, e onde quer que eu esteja, sou mestre de mim mesmo. Pois não me entrego a meus negócios, mas empresto-me a eles, e não busco desculpas para desperdiçar meu tempo. E, onde quer que eu esteja, continuo minhas próprias meditações e pondero em minha mente algum pensamento saudável.
  2. Quando me entrego a meus amigos, não me afasto da minha própria companhia, nem permaneço com aqueles que estão associados a mim por alguma ocasião especial ou alguma circunstância que surge da minha posição oficial. Mas eu passo meu tempo na companhia de todos os melhores; não importa em que terras eles possam ter vivido, ou em que idade, eu deixo meus pensamentos voar a eles.
  3. Demétrio[1], por exemplo, o melhor dos homens, eu levo comigo, e, deixando os trajados em linho púrpura e fino, falo com ele, meio nu como ele é, e o tenho em alta estima. Por que eu não deveria mantê-lo em alta estima? Descobri que ele não sente falta de nada. É possível a qualquer homem desprezar todas as coisas, mas impossível a alguém possuir todas as coisas. O atalho mais curto às riquezas é desprezar as riquezas. Nosso amigo Demétrio, no entanto, vive não apenas como se tivesse aprendido a desprezar todas as coisas, mas como se as tivesse entregue para que outras pessoas as possuíssem[2].

 

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Demétrio de Corinto foi um filósofo cínico de Corinto que viveu em Roma durante os reinos de Calígula, Nero e Vespasiano

[2] Isto é, ele alcançou o ideal estoico de independência de todo controle externo; ele é um rei e tem tudo para conceder aos outros, mas não precisa de nada para si mesmo.

Carta 61: Sobre encontrar a morte alegremente

Mais uma vez o assunto é a aceitação da morte e viver uma boa vida.  Logo no início Sêneca diz “Antes de envelhecer, tentei viver bem; agora que estou velho, vou tentar morrer bem; mas morrer bem significa morrer alegremente. Cuide para que você nunca faça nada de má vontade.” (LXI, 2)

A dica dada é fazer aquilo que gosta e evitar fazer coisas contra sua vontade:

“Aquele que acata ordens com prazer, escapa à parte mais amarga da escravidão – fazer aquilo que não quer fazer.” (LXI, 3)

Esta é uma situação muito comum atualmente.  As pessoas, convencidas que precisam de muito dinheiro, bens materiais e experiências caras se prendem em empregos, serviço público e trabalham longas horas fazendo aquilo que não quer fazer.

(imagem A morte de Sêneca por Jacques-Louis David de 1773)


LXI. Sobre encontrar a morte alegremente

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Deixemos de desejar o que desejamos. Eu, pelo menos, estou fazendo isso: na minha velhice, deixei de desejar o que desejava quando era menino. A esta única extremidade meus dias e minhas noites são passados; esta é minha tarefa, este é o objeto de meus pensamentos, – pôr fim aos meus males crônicos. Estou tentando viver todos os dias como se fosse uma vida completa. Não o arrebatarei de fato como se fosse o último; eu o considero, entretanto, como se pudesse mesmo ser meu último.
  2. A presente carta é escrita com isto em mente, como se a morte estivesse prestes a me chamar durante o próprio ato de escrever. Eu estou pronto para partir, e eu devo gozar a vida apenas porque não sou demasiadamente ansioso quanto à data futura de minha partida. Antes de envelhecer, tentei viver bem; agora que estou velho, vou tentar morrer bem; mas morrer bem significa morrer alegremente. Cuide para que você nunca faça nada de má vontade.
  3. O que é obrigado a ser uma imprescindibilidade se você se rebelar, não é uma imprescindibilidade, se você a desejar. É isso que quero dizer: aquele que acata ordens com prazer, escapa à parte mais amarga da escravidão, – fazer aquilo que não quer fazer. O homem que faz alguma coisa sob ordens não é infeliz; é infeliz quem faz algo contra a sua vontade. Portanto, fixemos nossas mentes para que possamos desejar tudo o que é exigido de nós pelas circunstâncias e, acima de tudo, que possamos refletir sobre o nosso fim sem tristeza.
  4. Devemos preparar-nos para a morte antes de nos prepararmos para a vida. A vida está bem mobiliada, mas somos muito gananciosos em relação aos seus móveis; algo sempre nos parece faltar, e sempre parecerá faltar. Ter vivido o suficiente não depende nem de nossos anos, nem de nossos dias, mas de nossas mentes. Já vivi, meu caro amigo Lucílio, o suficiente. Eu tive minha satisfação; aguardo a morte.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Carta #60: Sobre Orações Prejudiciais

Sêneca inicia a carta 60 com alegorias jurídicas,  dizendo que em geral oramos aos deuses pedindo coisas irrelevantes e até mesmo prejudiciais.

Segue afirmando que fazemos pedidos como se fossemos crianças incapazes querendo coisas supérfluas:

“Até quando continuaremos a encher de trigo os mercados de nossas grandes cidades? Por quanto tempo as pessoas devem juntá-lo para nós? Por quanto tempo muitos navios trarão coisas necessárias para uma única refeição, trazendo-os de inúmeros mares? O touro é satisfeito quando se alimenta por alguns acres; e uma floresta é grande o suficiente para um rebanho de elefantes. O homem, entretanto, arranca seu sustento tanto da terra como do mar.” (LX,2)

Aplica o estoicismo ao defender que devemos seguir nossa natureza, que se satisfaz com pouco:  “Não é a fome natural de nossas barrigas que nos custa caro, mas nossos desejos vorazes”. (LX,3)

Suas ideias e ensinamentos se mantêm atuais e relevantes num momento em que voltamos a discutir sustentabilidade e defesa do meio ambiente.

(Imagem detalhe da escultura David, por Michelangelo)


LX. Sobre Orações Prejudiciais

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Eu protocolo uma queixa, eu inicio um processo, eu estou com raiva. Você ainda deseja o que seu mentor, seu guardião[1] ou sua mãe, orem em seu favor? Você ainda não entende por qual mal eles oram? Infelizmente, quão hostis para nós são os desejos dos nossos próprios amigos! E são tanto mais hostis quanto mais plenamente se cumprem. Não é surpresa para mim, na minha idade, que nada mais do que o mal nos assiste desde a nossa juventude; pois crescemos entre as maldições invocadas por nossos pais. E que os deuses deem ouvidos ao nosso clamor também, proferido em nosso próprio interesse, – um que não peça favores!
  2. Quanto tempo continuaremos a fazer exigências aos deuses, como se ainda não pudéssemos nos sustentar? Até quando continuaremos a encher de trigo os mercados de nossas grandes cidades? Por quanto tempo as pessoas devem juntá-lo para nós? Por quanto tempo muitos navios trarão coisas necessárias para uma única refeição, trazendo-os de inúmeros mares? O touro é satisfeito quando se alimenta por alguns acres; e uma floresta é grande o suficiente para um rebanho de elefantes. O homem, entretanto, arranca seu sustento tanto da terra como do mar.
  3. O que, então? Será que a natureza nos deu barrigas tão insaciáveis, quando nos deu esses corpos insignificantes, que devemos superar os animais mais vorazes em ganância? De modo nenhum. Quão pequena é a quantidade que vai satisfazer a natureza? Um pouco vai mandá-la embora satisfeita. Não é a fome natural de nossas barrigas que nos custa caro, mas nossos desejos vorazes.
  4. Portanto, aqueles que, como diz Salústio, “ouvem suas barrigas[2]“, devem ser contados entre os animais, e não entre os homens; e certos homens, na verdade, devem ser contados, nem mesmo entre os animais, mas entre os mortos. Realmente vive quem é usado por muitos; realmente vive quem faz uso de si mesmo. Esses homens, entretanto, que se arrastam para um buraco e ficam torpes não são melhores em suas casas do que se estivessem em seus túmulos. Ali mesmo, na fachada de mármore da casa de tal homem, você pode inscrever seu nome, pois ele morreu antes de ter morrido.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Sêneca usa o termo paedagogus, o escravo incumbido de acompanhar crianças à escola

[2] Caio Salústio Crispo descreve os romanos como escravos da gula em Catilina.

Carta 59: Sobre prazer e alegria

Na carta 59 Sêneca aborda a diferença entre prazer e alegria, reafirmando que o prazer é um vício, e alegria virtude.  Para ele  o prazer é sempre derivado de algo fora de você, enquanto que a alegria parte de seu interior.

Diz que devemos dedicar mais tempo à filosofia e no nos afastar dos bajuladores:

“Mas como um homem pode aprender, na luta contra seus vícios, uma quantia suficiente, se o tempo que ele dedica a aprender é apenas a sobra deixada por seus vícios?” (LIX, 10)

“O que mais nos impede é que estamos prontamente satisfeitos com nós mesmos; se nos encontrarmos com alguém que nos chama de homens bons, ou homens sensatos, ou homens santos, nos vemos em sua descrição, não nos contentamos com louvor em moderação, aceitamos tudo o que a vergonhosa lisonja nos atira, como se fosse nossa. Concordamos com aqueles que nos declaram ser o melhor e o mais sábio dos homens, embora saibamos que eles são dados a muita mentira. … Assim, segue-se que não estamos dispostos a ser reformados, apenas porque acreditamos ser o melhor dos homens.” (LIX, 11)

Conclui a carta dizendo que o prazer é uma alegria falsa, que depende de fontes externas:  O que a Fortuna não deu, ela não pode tirar. (LIX, 18)

(imagem Bacanal por Jan Brueghel o velho e Hendrik van Balen)


LIX. Sobre prazer e alegria

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Recebi grande prazer de sua carta; gentilmente permita-me usar essas palavras em seu significado cotidiano, sem insistir em seu significado estoico. Pois nós estoicos sustentamos que o prazer é um vício. Muito provavelmente é um vício; mas estamos acostumados a usar a palavra quando queremos indicar um estado de espírito feliz.
  2. Estou ciente de que, se testarmos as palavras pela nossa fórmula, até mesmo o prazer é uma coisa de má reputação, e a alegria só pode ser alcançada pelos sábios. Pois a “alegria” é um júbilo do espírito, de um espírito que confia na bondade e na verdade de suas posses. O uso comum, entretanto, é que derivamos grande “alegria” da posição de um amigo como cônsul, ou de seu casamento, ou do nascimento de seu filho; mas esses eventos, longe de ser motivo de alegria, são mais frequentemente o começo da tristeza por vir. Não! É uma característica da alegria real que ela nunca cessa, e nunca se transforma em seu oposto.
  3. Assim, quando nosso Virgílio fala deAs alegrias malignas da mente, [1]Suas palavras são eloquentes, mas não estritamente apropriadas. Pois nenhuma “alegria” pode ser má. Ele deu o nome de “alegria” aos prazeres, e assim expressou seu significado. Pois ele transmitiu a ideia de que os homens se deleitam em seu próprio mal.
  4. No entanto, eu não estava errado ao dizer que eu recebi grande “prazer” de sua carta; pois embora um homem ignorante possa derivar “alegria” se a causa for honrosa, contudo, uma vez que sua emoção é inconstante, e é provável que em breve tome outra direção, chamo-a de “prazer”; pois é inspirado por uma opinião sobre um bem espúrio; excede o controle e é levado ao excesso. Mas, para voltar ao assunto, deixe-me dizer-lhe o que me encantou em sua carta. Você tem suas palavras sob controle. Você não é levado pela sua linguagem, ou carregado além dos limites que você determinou.
  5. Muitos escritores são tentados pelo encanto de alguma frase sedutora para um tópico diferente do que eles tinham se proposto a discutir. Mas não foi assim no seu caso; Todas as suas palavras são compactas e adequadas ao assunto, você diz tudo o que deseja, e quer dizer ainda mais do que você diz. Esta é uma prova da importância de seu assunto, mostrando que sua mente, assim como suas palavras, não contém nada supérfluo ou empolado.
  6. No entanto, encontro algumas metáforas, de fato, ousadas, mas do tipo que já foi posto à prova. Também encontro analogias; é claro, se alguém nos proíbe de usá-las, sustentando que apenas os poetas têm esse privilégio, não tem, aparentemente, lido nenhum de nossos escritores de prosa antiga, que ainda não tinham aprendido a simular um estilo que pudesse ganhar aplausos. Pois aqueles escritores, cuja eloquência era simples e dirigida apenas para provar seu caso, estão cheios de comparações; e penso que estas são necessárias, não pela mesma razão que as torna necessárias para os poetas, mas para que possam servir de sustentação à nossa fraqueza, para levar o orador e o ouvinte face a face com o assunto em discussão.
  7. Por exemplo, estou neste momento lendo Séxtio; Ele é um homem afiado, e um filósofo que, embora escreva em grego, tem o padrão romano de ética. Uma de suas analogias agrada-me em especial, a de um exército marchando em um largo vazio, num lugar onde o inimigo poderia aparecer de qualquer lugar, pronto para a batalha. “Isto”, disse ele, “é exatamente o que o homem sábio deve fazer, ele deve ter todas as suas qualidades de combate dispostas por todos os lados, de modo que de onde quer que o ataque ameace, lá seus suportes estarão prontos e poderão obedecer ao comando do capitão sem confusão”. Isto é o que observamos em exércitos que servem sob grandes líderes; vemos como todas as tropas entendem simultaneamente as ordens de seu general, já que estão dispostas de modo que um sinal dado por um homem passe pelas fileiras da cavalaria e da infantaria no mesmo momento.
  8. Isto, declara ele, é ainda mais necessário para homens como nós; pois os soldados temiam com frequência um inimigo sem motivo, e a marcha que julgavam mais perigosa era de fato a mais segura; mas a insensatez não repousa, o medo assombra tanto na vanguarda como na parte de trás da coluna, e ambos os flancos estão em pânico. A insensatez é perseguida, e confrontada, pelo perigo. Isso esquiva-se por tudo; não se pode estar preparado; assusta-se mesmo por tropas menores. Mas o sábio é fortificado contra todas as incursões; ele está alerta; ele não recuará frente o ataque da pobreza, ou da tristeza, ou da desgraça, ou da dor. Ele andará impávido tanto contra eles como entre eles.
  9. Nós, seres humanos, somos agrilhoados e enfraquecidos por muitos vícios; nós temos chafurdado neles há muito tempo e é difícil para nós sermos purificados. Não estamos apenas contaminados; nós somos tingidos por eles. Mas, para abster-me de passar de uma figura para outra, vou levantar esta questão, que muitas vezes considero em meu próprio coração: por que é que a insensatez nos segura com um aperto tão insistente? É, principalmente, porque não a combatemos com força suficiente, porque não lutamos para a salvação com todas as nossas forças; segundo, porque não depositamos confiança suficiente nas descobertas dos sábios, e não bebemos de suas palavras com corações abertos; nós abordamos este grande problema em espírito muito frívolo.
  10. Mas como um homem pode aprender, na luta contra seus vícios, uma quantia suficiente, se o tempo que ele dedica a aprender é apenas a sobra deixada por seus vícios? Nenhum de nós vai fundo abaixo da superfície. Nós roçamos apenas o topo, e consideramos o breve tempo gasto na busca de sabedoria como suficiente e de sobra para um homem ocupado.
  11. O que mais nos impede é que estamos prontamente satisfeitos com nós mesmos; se nos encontrarmos com alguém que nos chama de homens bons, ou homens sensatos, ou homens santos, nos vemos em sua descrição, não nos contentamos com louvor em moderação, aceitamos tudo o que a vergonhosa lisonja nos atira, como se fosse nossa. Concordamos com aqueles que nos declaram ser o melhor e o mais sábio dos homens, embora saibamos que eles são dados a muita mentira. E somos tão autocomplacentes que desejamos elogios por certas ações quando somos especialmente viciados em exatamente o oposto. Aquele que se ouve chamar de “delicado” enquanto inflige torturas, ou “generoso” quando está empenhado em pilhagem, ou “moderado” quando está no meio da embriaguez e da luxúria. Assim, segue-se que não estamos dispostos a ser reformados, apenas porque acreditamos ser o melhor dos homens.
  12. Alexandre estava vagando até a índia, devastando tribos que eram pouco conhecidas, até mesmo para seus vizinhos. Durante o bloqueio de uma certa cidade, enquanto reconhecia as muralhas e procurava o ponto mais fraco das fortificações, foi ferido por uma flecha. No entanto, ele continuou durante muito tempo o cerco, com a intenção de terminar o que tinha começado. A dor de sua ferida, no entanto, quando a superfície ficou seca e o fluxo de sangue foi limitado, aumentou; sua perna gradualmente ficou entorpecida enquanto sentava seu cavalo; E finalmente, quando foi forçado a retirar-se, exclamou: “Todos os homens juram que eu sou o filho de Júpiter, mas esta ferida grita que eu sou mortal”[2].
  13. Vamos agir da mesma maneira. Todo homem, de acordo com sua sorte na vida, é abobalhado pela lisonja. Deveríamos dizer àquele que nos lisonjeia: “Você me chama de um homem sensato, mas eu entendo quantas das coisas que eu desejo são inúteis, e quantas das coisas que eu desejo me fariam mal. Não tenho sequer o conhecimento, que a saciedade ensina aos animais, do que deveria ser a medida do meu alimento ou da minha bebida. Eu ainda não sei o quanto eu posso ingerir. “
  14. Vou agora mostrar-lhe como você pode saber que não é sábio. O homem sábio é alegre, feliz e calmo, inabalável, vive num mesmo plano que os deuses. Agora vá, pergunte a si mesmo; se você nunca fica abatido, se sua mente não é assediada por minha apreensão, pela antecipação do que está por vir, se dia e noite sua alma continua em seu curso impar e inabalável, reta e contente consigo mesma, então você alcançou o maior bem que os mortais podem possuir. Se, no entanto, você procura prazeres de todos os tipos em todas as direções, você deve saber que está tão longe da sabedoria quanto está aquém de alegria. A alegria é o objetivo que você deseja alcançar, mas você está errando o caminho, se você espera alcançar seu objetivo enquanto está no meio de riquezas e títulos oficiais, – em outras palavras, se você busca a alegria no meio de preocupações, esses objetos pelos quais você se esforça tão ansiosamente, como se pudessem dar felicidade e prazer, são meras causas de dor.
  15. Todos os homens desta estampa, eu sustento, estão focados na busca da alegria, mas eles não sabem onde podem obter uma alegria que é grande e duradoura. Uma pessoa procura-a no banquete e na autoindulgência; outra, em busca de honras e em ser cercado por uma multidão de clientes; outra, em sua amante; outra, em exibição ociosa da cultura e da literatura que não tem poder para curar; todos esses homens são desviados por delícias que são enganosas e de vida curta – como a embriaguez, por exemplo, que paga por uma única hora de loucura hilariante via doença de muitos dias, ou como aplausos e a popularidade da aprovação entusiástica que são obtidos, e expiados, à custa de grande inquietação mental.
  16. Reflita, portanto, sobre isso, que o efeito da sabedoria é uma alegria ininterrupta e contínua. A mente do sábio é como o firmamento ultra lunar; a eterna calma permeia essa região. Você tem, então, uma razão para desejar ser sábio, se o sábio nunca é privado de alegria. Essa alegria brota apenas do conhecimento de que você possui as virtudes. Ninguém exceto o corajoso, o justo, o autocontido, pode se alegrar.
  17. E quando você pergunta: “O que você quer dizer? Não se alegram, os tolos e os ímpios?” Eu respondo, não mais do que leões que pegaram sua presa. Quando os homens se fatigarem com o vinho e a luxúria, quando a noite lhes falhar antes que a sua devassidão seja concluída, quando os prazeres que têm amontoado sobre um corpo que é pequeno demais para segurá-los começam a apodrecer, nesses momentos eles proferem em sua miséria aquelas linhas de Virgílio:
    Tu sabes como, em meio a falsas alegrias brilhantes,
    nós passamos aquelas últimas noites. [3]
  18. Os amantes do prazer passam todas as noites entre alegrias falsas e como se fossem as suas últimas. Mas a alegria que vem aos deuses, e àqueles que imitam aos deuses, não é interrompida, nem cessa; mas certamente cessaria se fosse emprestada do exterior. Exatamente porque não está no poder de outro para doar, também não está sujeita aos caprichos do outro. O que a Fortuna não deu, ela não pode tirar.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


[1] Trecho de Eneida de Virgílio.
Et mala mentis gaudia,

[2] Várias histórias semelhantes são contadas sobre Alexandre, Plutarco, onde ele diz aos seus aduladores, apontando para uma ferida que acabou de receber: “Veja, isso é sangue, não ichor” (ichor sangue dos deuses na mitologia grega)

[3] Trecho de Eneida de Virgílio. Sobre a noite que precedeu o saque de Troia.
Namque ut supremam falsa inter gaudia
noctem Egerimus, nosti.

 

Carta 58: Sobre Ser, Existir e Eutanásia

A carta 58 começa com uma longa reflexão sobre a língua latina e avança para a discussão da metafísica platônica e sua distinção das teses do estoicismo.

O cerne da carta é a afirmação de que, afinal, esse debate de granularidade fina (subtilittts) não é de grande proveito prático; mas podemos usá-lo como oportunidade para refletir sobre a natureza transitória das entidades corpóreas, incluindo, é claro, nós mesmos:

“Muito bem”, diz você, “de que adianta eu obter de todo este bom raciocínio?” De nada, se você deseja que eu responda a sua pergunta. … Esse é o meu hábito, Lucílio: eu tento extrair e tornar útil algum elemento de cada campo do pensamento, não importa quão distante possa ser da filosofia. (LVIII, 25-26)

A mensagem de Sêneca é sobre eutanásia e o valor da vida dizendo que:

É um prazer estar na própria companhia o maior tempo possível, quando um homem se fez valer a pena. A questão, portanto, sobre a qual devemos registrar nosso julgamento, é se alguém deve fugir da extrema velhice e deve apressar o fim artificialmente, em vez de esperar que ele venha. … Pois faz muita diferença se um homem está alongando sua vida ou sua morte. (LVIII, 32-33)

A conclusão de Sêneca é clara e definitiva:

“se a velhice começar a despedaçar a minha mente e a rasgar em pedaços as suas várias faculdades, se ela me deixa, não a vida, mas apenas o sopro da vida, sairei correndo de uma casa que está desmoronando e cambaleando”.  Não vou evitar a doença procurando a morte, desde que a doença seja curável e não impeça minha alma.  Aquele que morre apenas porque está com dor é um fraco, um covarde; mas aquele que vive apenas para afrontar esta dor, é um tolo. (LVIII, 35-36)

Como comumente o faz, Sêneca termina a longa carta monstrando seu excelente bom humor, dizendo que “como um homem pode terminar sua vida, se ele não pode terminar uma carta? Então, adeus

(imagem escultura por Kenneth Treister museu do Holocausto Miami)


LVIII. Sobre Ser, Existir e Eutanásia

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1.  Quão escassa de palavras nossa linguagem é, não, quão miserável, eu não havia entendido completamente até hoje. Passamos a falar de Platão, e mil assuntos vieram à discussão, que precisavam de nomes e ainda não possuíam nenhum; e havia outros que, certa vez, possuíram, mas perderam suas palavras, porque éramos muito sutis quanto ao uso delas. Mas quem pode suportar ser agradável no meio da pobreza? Há um inseto, chamado pelos gregos de “oestrus”[1], que torna o gado selvagem e os põem em fuga sobre suas pastagens; ele costumava ser chamado “asilus” em nossa língua, como você pode acreditar pela autoridade de Virgílio:

2. Perto dos bosques de Silarus, e perto de Alburnus máscaras
de carvalhos verde-folheados voa um inseto, nomeado
Asilus pelos romanos; No grego
a palavra usada é oestro. Com um som áspero
e estridente ele zune e faz selvagens
Os rebanhos aterrorizados pelo bosque. [2]

3. Por isso eu inferi que a palavra está fora de uso. E, para não fazer você esperar muito tempo, havia certas palavras simples atuais, como “cernere ferro inter se“, como será provado novamente por Virgílio:

Grandes heróis, nascidos em várias terras, tinham vindo
Para decidir assuntos mutuamente com a espada. [3]

Este “decidir assuntos” que nós expressamos agora por “decernere“. A palavra simples tornou-se obsoleta.

4. Os antigos costumavam dizer “iusso“, em vez de “iussero“, em cláusulas condicionais. Você não precisa tomar a minha palavra, mas você pode voltar-se novamente para Virgílio:

Os outros soldados conduzirão a luta
Comigo, onde vou oferecer. [4]

5. Não é meu propósito demonstrar, por este conjunto de exemplos, quanto tempo desperdicei no estudo da linguagem; quero apenas que você entenda quantas palavras, atuais nas obras de Ênio e Ácio, se tornaram mofadas com a idade; enquanto que mesmo no caso de Virgílio, cujas obras são exploradas diariamente, algumas de suas palavras foram furtadas de nós.

6. Você vai dizer, eu suponho: “Qual é o propósito e significado deste preâmbulo?” Não te deixarei no escuro; Desejo, se possível, dizer a palavra “essentia” para você e obter uma compreensão favorável. Se eu não posso fazer isso, vou arriscar, mesmo que isso lhe deixe de mal humor. Eu tenho Cícero como autoridade para o uso desta palavra, e eu considero-o como uma poderosa autoridade. Se você desejar testemunho de uma data posterior, citarei Fabiano, cuidadoso na linguagem, refinado, e tão polido em estilo que vai se adequar aos nossos finos gostos. Porque o que podemos fazer, meu querido Lucílio? De que outra forma podemos encontrar uma palavra para aquilo que os gregos chamam de “οὐσία[5], algo que é indispensável, algo que é o substrato natural de tudo? Peço-lhe, portanto, que me permita usar esta palavra essencial. No entanto, tomarei o cuidado de exercer o privilégio que me concedeu, com a mão mais cuidadosa possível; talvez eu me contente com o mero direito.

7. Contudo, de que me servirá a sua indulgência, se eis que não posso expressar, em latim, o significado da palavra que me deu a oportunidade de percorrer a pobreza da nossa língua? E você condenará nossos estreitos limites romanos ainda mais, quando descobrir que há uma palavra de uma sílaba que eu não posso traduzir. “O que é isso?” Você pergunta. É a palavra “ὄν”. Você acha que eu não tenho habilidade; você acredita que a palavra está pronta para ser traduzida por “quod est[6]. Noto, no entanto, uma grande diferença; você está me forçando a apresentar um substantivo por um verbo.

8. Mas se eu tiver que fazê-lo, eu o farei por quod est. Há seis maneiras pelas quais Platão expressa esta ideia, de acordo com um amigo nosso, um homem de grande conhecimento, que mencionou o fato hoje. E vou explicá-las todas a você, se eu puder primeiro apontar que há algo chamado gênero e algo chamado espécie. Por ora, porém, buscamos a ideia primária do gênero, do qual dependem as outras, as diferentes espécies, que é a fonte de toda classificação, o termo sob o qual as ideias universais são abraçadas. E a ideia de gênero será alcançada se começarmos a considerar a partir das características; pois assim seremos conduzidos de volta à noção principal.

9. Agora, “homem” é uma espécie, como diz Aristóteles; assim também é “cavalo”, ou “cão”. Devemos, portanto, descobrir algum vínculo comum para todos esses termos, um que os abrace e os mantenha subordinados a si mesmo. E o que é isso? É “animal”. E assim começa a haver um gênero “animal”, incluindo todos esses termos, “homem”, “cavalo” e “cachorro”.

10. Mas há certas coisas que têm vida (anima) e ainda não são “animais”. Pois é pacífico que as plantas e as árvores possuem vida, e é por isso que falamos deles como vivos ou moribundos. Portanto, o termo “seres vivos” ocupará um lugar ainda mais alto, porque tanto os animais como as plantas estão incluídos nessa categoria. Certos objetos, entretanto, não têm vida, tais como pedras. Haverá, portanto, outro termo para ter precedência sobre “seres vivos”, e que é “substância”. Eu classificarei a “substância” dizendo que todas as substâncias são animadas ou inanimadas.

11. Mas ainda há algo superior à “substância”; porque falamos de certas coisas como possuidoras de substância, e de certas coisas como carentes de substância. Qual será, então, o termo a partir do qual essas coisas derivam? É aquilo a que ultimamente deram um nome impróprio, “o que é”[7]. Pois, usando este termo, eles serão divididos em espécies, de modo que possamos dizer: o que existe ou possui, ou não, substância.

12. Este, portanto, é o gênero que é, – o primário, original e (para brincar com a palavra) “geral”. Claro que existem os outros gêneros: mas eles são gêneros “especiais”: “homem” é, por exemplo, um gênero. Pois “homem” abrange espécies: por nações, – grego, romano, parto; por cores, – branco, preto, amarelo. O termo compreende indivíduos também: Catão, Cicero, Lucrécio. Assim, o “homem” cai na categoria gênero, na medida em que inclui muitos tipos; Mas na medida em que é subordinado a um outro termo, cai na categoria espécie. Mas o gênero “o que é” é geral, e não tem um termo superior a ele. É o primeiro termo na classificação das coisas, e todas as coisas estão incluídas nele.

13. Os estoicos colocariam à frente desse gênero outro ainda mais primário; A respeito do qual falarei imediatamente, depois de provar que o gênero que foi discutido acima foi corretamente colocado em primeiro lugar, sendo, como é, capaz de incluir tudo.

14. Eu por conseguinte, distribuo “o que é” nestas duas espécies, – coisas com, e coisas sem, substância. Não há terceira classe. E como eu distribuo “substância”? Dizendo que é animado ou inanimado. E como faço para distribuir o “animado”? Ao dizer: “Certas coisas têm mente, enquanto outros têm apenas vida.” Ou a ideia pode ser expressa da seguinte maneira: “Certas coisas têm o poder de movimento, de progresso, de mudança de posição, enquanto outras estão enraizadas na terra, são alimentadas e crescem somente através de suas raízes”. Novamente, em quais espécies eu divido “animais”? São perecíveis ou imperecíveis.

15. Alguns estoicos consideram o gênero primário como o “algo”. Vou acrescentar as razões que dão para a sua crença; eles dizem: “na ordem da natureza algumas coisas existem, e outras coisas não existem. E mesmo as coisas que não existem realmente são parte da ordem da natureza. Por exemplo centauros, gigantes, e todas as outras invenções de raciocínio doentio, que começaram a ter uma forma definida, embora não tenham consistência corporal “.

16. Mas eu volto agora ao assunto que eu prometi discutir para você, a saber, como é que Platão divide todas as coisas existentes em seis maneiras diferentes. A primeira classe de “o que é” não pode ser alcançada pela visão ou pelo toque, ou por qualquer dos sentidos; mas pode ser alcançada pelo pensamento. Qualquer concepção genérica, tal como a ideia genérica “homem”, não entra no alcance dos olhos; mas o “homem” em particular o faz; como, por exemplo, Cícero, Catão. O termo “animal” não é visto; Ele é compreendido apenas pelo pensamento. Um animal em particular, no entanto, é visto, por exemplo, um cavalo, um cão.

17. A segunda classe de “coisas que existem”, de acordo com Platão, é a que é eminente e se destaca acima de tudo; isso, diz ele, existe em um grau preeminente. A palavra “poeta” é usada indiscriminadamente, pois este termo é aplicado a todos os escritores de verso; mas entre os gregos passou a ser a marca distintiva de um único indivíduo. Você sabe que Homero é subentendido quando você ouve os homens dizerem “o poeta”. Qual é, então, este Ser preeminente? Deus, certamente, aquele que é maior e mais poderoso do que qualquer outro.

18. A terceira classe é composta das coisas que existem no sentido próprio do termo; elas são incontáveis em número, mas estão situadas além de nossa visão. “Quem são esses?” Você pergunta. São os próprios mobiliários de Platão, por assim dizer; ele os chama de “ideias”, e delas todas as coisas visíveis são criadas, e de acordo com seu padrão todas as coisas são feitas. Elas são imortais, imutáveis, invioláveis.

19. E esta “ideia”, ou melhor, a concepção de Platão sobre ela, é a seguinte: “A ´ideia´ é o molde eterno das coisas que são criadas pela natureza”. Vou explicar esta definição, a fim de colocar o assunto diante de você em uma luz mais clara: Suponha que eu gostaria de fazer uma semelhança de você; eu possuo em sua própria pessoa o padrão deste quadro, do qual minha mente recebe um certo esboço, que é para incorporar em sua própria obra. Essa aparência externa, então, que me dá instrução e orientação, esse padrão para eu imitar, é a “ideia”. Tais padrões, portanto, a natureza possui em número infinito, – de homens, peixes, árvores, segundo cujo modelo tudo o que a natureza tem para criar é elaborado.

20. Em quarto lugar, colocaremos “forma”. E se você souber o que significa “forma”, você deve prestar muita atenção, chamando Platão, e não eu, para explicar a dificuldade do assunto. No entanto, não podemos fazer distinções finas sem encontrar dificuldades. Um momento atrás eu fiz uso do artista como uma ilustração. Quando o artista desejava reproduzir Virgílio em cores, ele olhava para o próprio Virgílio. A “ideia” era a aparência externa de Virgílio, e este era o padrão do trabalho pretendido. Aquilo que o artista extrai dessa “ideia” e encarna em sua própria obra, é a “forma”.

21. Você me pergunta onde está a diferença? O primeiro é o padrão; enquanto a última é a forma retirada do padrão e incorporada no trabalho. Nosso artista segue um, mas cria o outro. Uma estátua tem uma certa aparência externa; esta aparência externa da estátua é a “forma”. E o próprio padrão tem uma certa aparência externa, ao contemplar sobre este o escultor moldou sua estátua; esta é a “ideia”. Se você deseja uma distinção adicional, direi que a “forma” está na obra do artista, a “ideia” fora de sua obra, e não apenas fora dela, mas anterior a ela.

22. A quinta classe é composta das coisas que existem no sentido usual do termo. Essas coisas são as primeiras que têm a ver conosco; aqui temos todas as coisas como homens, gado e coisas. Na sexta classe vai tudo o que tem uma existência fictícia, como vazio, ou tempo. Tudo o que é concreto à visão ou ao toque, Platão não inclui entre as coisas que ele acredita serem existentes no sentido estrito do termo. Essas coisas são as primeiras que têm a ver conosco: aqui temos todas as coisas como homens, gado e coisas. Pois eles estão em um estado de fluxo, constantemente diminuindo ou aumentando. Nenhum de nós é o mesmo homem na velhice que foi na juventude; nem o mesmo no dia seguinte que no dia anterior. Nossos corpos são forjados ao longo como águas fluindo; cada objeto visível acompanha o tempo em sua jornada; das coisas que vemos, nada é fixo. Mesmo eu mesmo, ao comentar sobre essa mudança, estou mudado.

23. É exatamente o que diz Heráclito: “Entramos duas vezes no mesmo rio, e, contudo, num rio diferente.” Pois o curso de água ainda mantém o mesmo nome, mas a água já fluiu ao longo. Claro que isto é muito mais evidente nos rios do que nos seres humanos. Ainda assim, nós, mortais, também somos levados por caminho não menos rápido; e isso me leva a maravilhar-me com a nossa loucura em nos unir com grande afeição a uma coisa tão fugaz como o corpo, e temendo que algum dia nós morramos, quando cada instante significa a morte de nossa condição anterior. Você não vai parar de temer que isso aconteça uma vez que realmente acontece todos os dias?

24. Tanto para o homem, – uma substância que flui e decai, exposta a toda influência; mas também o universo, imortal e duradouro como é, muda e nunca permanece o mesmo. Pois embora tenha em si tudo o que tem, tem-no de uma maneira diferente daquela em que o tinha tido; ele continua mudando seu arranjo.

25. “Muito bem”, diz você, “de que adianta eu obter de todo este bom raciocínio?” De nada, se você deseja que eu responda a sua pergunta. No entanto, assim como um escultor repousa seus olhos quando há muito estão sob tensão e estão cansados, e os retira de seu trabalho, e “os regala”, como diz o ditado; por isso, às vezes, devemos afrouxar nossas mentes e refrescá-las com algum tipo de entretenimento. Mas deixe até nosso entretenimento ser trabalho; e mesmo a partir dessas várias formas de entretenimento que você vai escolher, se você tem estado atento, será algo que pode provar salutar.

26. Esse é o meu hábito, Lucílio: eu tento extrair e tornar útil algum elemento de cada campo do pensamento, não importa quão distante possa ser da filosofia. Agora, o que poderia ser menos provável de reformar o caráter do que os assuntos que temos discutido? E como posso ser feito um homem melhor pelas “ideias” de Platão? O que posso tirar delas que ponha um controle sobre os meus apetites? Talvez o próprio pensamento de que todas estas coisas que ministram aos nossos sentidos, que nos despertam e excitam, são por Platão negadas um lugar entre as coisas que realmente existem.

27. Tais coisas são, portanto, imaginárias e, embora, por enquanto, apresentem uma certa aparência externa, no entanto elas não são em nenhum caso permanentes ou substanciais; Não obstante, nós as desejamos como se fossem existir para sempre, ou como se nós pudéssemos os possuir para sempre. Somos seres fracos e aquosos em pé no meio de irrealidades; portanto, voltemos nossas mentes para as coisas que são eternas. Olhemos para os contornos ideais de todas as coisas, que voam em alto e para o Deus que se move entre elas e planeja como pode defender da morte o que não poderia tornar imperecível porque sua substância impede, e assim por raciocínio pode superar os defeitos do corpo.

28. Porque todas as coisas permanecem, não porque sejam eternas, mas porque são protegidas pelo cuidado de quem governa todas as coisas; mas o que é imperecível não precisa de um guardião. O mestre construtor os mantém seguros, superando a fraqueza de seu tecido por seu próprio poder. Desprezemos tudo o que é tão pouco objeto de valor que nos faz duvidar se Ele existe.

29. Reflitamos ao mesmo tempo, visto que a providência resgata de seus perigos o próprio mundo, que não é menos mortal do que nós mesmos, que até certo ponto nossos corpos mesquinhos podem ser obrigados a permanecer mais tempo na terra por nossa própria providência, se apenas adquirimos a capacidade de controlar e reprimir os prazeres em que a maior parte da humanidade perece.

30. O próprio Platão, a todo o custo, avançou para a velhice. Certamente, ele era o possuidor afortunado de um corpo forte e sadio (seu próprio nome lhe foi dado por causa de seu peito largo); mas sua força foi muito prejudicada por viagens marítimas e aventuras terríveis. No entanto, por meio da vida frugal, estabelecendo um limite sobre tudo o que desperta os apetites, e por uma atenção cuidadosa a si mesmo, ele alcançou essa idade avançada, apesar de muitos obstáculos.

31. Você sabe, tenho certeza, que Platão teve a sorte, graças a sua vida cuidadosa, de morrer no seu aniversário, depois de completar exatamente o seu octogésimo primeiro ano. Por esta razão, os sábios do Oriente, que por acaso estava em Atenas naquela época, sacrificaram-se a ele depois de sua morte, acreditando que sua duração de dias estava muito plena para um homem mortal, uma vez que ele havia completado o número perfeito de nove vezes nove. Eu não duvido que ele teria sido bastante disposto a renunciar a alguns dias a partir deste total, bem como o sacrifício.

32. A vida frugal pode levar alguém à velhice; e para mim a velhice não é para ser recusada, não mais do que deve ser desejada. É um prazer estar na própria companhia o maior tempo possível, quando um homem se fez valer a pena. A questão, portanto, sobre a qual devemos registrar nosso julgamento, é se alguém deve fugir da extrema velhice e deve apressar o fim artificialmente, em vez de esperar que ele venha. Um homem que espera lentamente seu destino é quase um covarde, assim como é exageradamente dado ao vinho aquele que drena o frasco e suga até mesmo a borra.

33. Mas nós faremos esta pergunta também: “A extremidade da vida é a escória, ou é a parte mais clara e pura de todas, desde que apenas a mente esteja desimpedida, e os sentidos, ainda sãos, deem seu apoio ao Espírito, e o corpo não esteja desgastado e morto antes de seu tempo?” Pois faz muita diferença se um homem está alongando sua vida ou sua morte.

34. Mas se o corpo é inútil para o serviço, por que não se deve libertar a alma lutadora? Talvez devêssemos fazer isto um pouco antes que a dívida seja devida, para que, quando vencer, se possa ser capaz de executar o ato. E como o perigo de viver na miséria é maior do que o risco de morrer logo, é um tolo aquele que se recusa a apostar um pouco de tempo e arriscar ganhar um formidável lucro. Poucos têm durado pela extrema velhice até a morte sem prejuízo, e muitos têm estado inertes, não fazendo uso de si mesmos. Quão mais cruel, então, você acha que realmente é ter perdido uma porção de sua vida, do que ter perdido o direito de terminar essa vida?

35. Não me ouça com relutância, como se a minha declaração se aplicasse diretamente a você, mas pondere o que tenho a dizer. É isto que eu não abandonarei na velhice, se a velhice me preservar intacto para mim, e intacto quanto à melhor parte de mim mesmo; mas se a velhice começar a despedaçar a minha mente e a rasgar em pedaços as suas várias faculdades, se ela me deixa, não a vida, mas apenas o sopro da vida, sairei correndo de uma casa que está desmoronando e cambaleando.

36. Não vou evitar a doença procurando a morte, desde que a doença seja curável e não impeça minha alma. Não porei mãos violentas sobre mim só porque estou com dor; pois a morte em tais circunstâncias é a derrota. Mas se eu descobrir que a dor deve sempre ser suportada, devo partir, não por causa da dor, mas porque ela será um obstáculo para mim no que diz respeito a todas as minhas razões para viver. Aquele que morre apenas porque está com dor é um fraco, um covarde; mas aquele que vive apenas para afrontar esta dor, é um tolo.

37. Mas estou discorrendo por muito tempo; e, além disso, há matéria aqui para encher um dia. E como um homem pode terminar sua vida, se ele não pode terminar uma carta? Então, adeus[8]. Esta última palavra você vai ler com maior prazer do que toda minha conversa mortal sobre a morte.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

 


[1] A Mutuca.

[2] Trecho de Eneida de Virgílio.
Est lucum Silari iuxta ! ilicibusque virentem
Plurimus Alburnum volitans, cui nomen asilo
Romanum est, oestrum Grai vertere vocantes,
Asper, acerba sonans, quo tota exterrita silvis
Diffugiunt armenta.

[3] Trecho de Georgicas de Virgílio.Ingentis genitos diversis partibus orbis
Inter se coiisse viros et cernere ferro.

[4] Trecho de Eneida de Virgílio.
Cetera, qua iusso, mecum manus inferat arma.

[5] Ousía (οὐσία, pronúncia moderna “ussía”) é um substantivo da língua grega formado a partir do feminino do particípio presente do verbo “ser”, εἶναι. A palavra é, por vezes, traduzida para português como substância ou essência, devido à sua vulgar tradução para latim como substantia ou essentia.

[6] O que é.

[7] quod est.

[8] A palavra latina “vale” significa tanto adeus como também “fique bem”