Livro: Carta a Meneceu sobre a felicidade

Com muito cuidado e desconfiança, O Estoico,  seguindo o conselho de Sêneca, resolveu entrar no campo do inimigo!

“A reflexão para hoje é uma que eu descobri em Epicuro; porque eu sou acostumado a entrar até mesmo no campo do inimigo, – não como um desertor, mas como um observador.” (II,2)

Em suas Cartas a Lucílio, Sêneca usa o nome “Epicuro” 78 vezes.  Além das referências explícitas, usa em diversas ocasiões utiliza os termos “jardim“(8x) e “antagonista / oponente“(6x) sempre em alusão ao epicurismo.

Obviamente vale a pena estudar e conhecer mais do epicurismo, para que possamos fazer uma oposição justa e ponderada. Vamos a resenha:

A busca pela felicidade é o tema central da Carta a Meneceu, e os caminhos para se chegar a ela são dois: a saúde do corpo e a serenidade do espírito. O controle sobre o desejo também é visto como um importante meio para a felicidade e que o homem sábio consegue ser feliz só com o que é estritamente necessário. Aborda também o medo da morte, e sua futilidade.

Pelos pontos abordados, vemos que a preocupação de Epicuro é a mesma dos estoicos, ou seja,  como viver uma boa vida.

“Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.”

O parágrafo acima não tem conflito algum com a teoria estoica.  Poderia estar num livro do Sêneca. (pensando bem,  está! consultem “Sobre a Brevidade da Vida“)

Depois escorrega feio e diz algo completamente oposto ao estoicismo:

“É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.”

Mas depois dessa decaída ao hedonismo, Epicuro tenta colocar ordem na casa, colocando limites ao prazer: “Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida“.

Recomendo a leitura,  é interessante para conhecer, perceber as semelhanças e traçar as diferenças do Epicurismo e Estoicismo, os arquirrivais da filosofia.


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Carta 69: Sobre estar quieto e Inquietação

Após as resenhas das Meditações de Marco Aurélio, voltamos com a análise das cartas de Sêneca.

Na Carta 69 volta a discussão o tempo de devemos dedicar ao estudo, o problema com mudanças constantes e as distrações causadas pela busca do prazer.

Vale lembrar da Carta 28, onde Sêneca questiona:

“Você pergunta por que tal fuga não o ajuda? É porque você foge acompanhado de você mesmo. Você deve deixar de lado os fardos da mente; até que você faça isso, nenhum lugar irá satisfazê-lo.” (XXVIII.2)

Diz que devemos aplicar o remédio da filosofia longamente, sem interrupção, mantendo a tranquilidade da alma.  Afirma que a mudança traz de volta anseios esquecidos, e que aquele que se afasta do mundo dos homens ocupados, não deve se colocar como alvo da tentação:

“Assim como aquele que tenta livrar-se de um amor antigo deve evitar todo lembrete da pessoa que antes era querida (pois nada cresce tão facilmente como o amor), da mesma forma, aquele que deixaria de lado o seu desejo por todas as coisas que costumava desejar tão apaixonadamente, deve afastar olhos e ouvidos dos objetos que abandonou.” (LXIX, 3)

Conclui a carta falando  da morte, e instiga Lucílio a não temê-la.

(Imagem Diógenes em busca de um homem honesto por Jacob Jordaens)


LXIX. Sobre estar quieto e Inquietação

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Eu não gosto que você mude sua sede e debande de um lugar a outro. Minhas razões são, primeiro, que tal emigração frequente signifique um espírito instável. E o espírito não pode, através do retiro, crescer em harmonia, a menos que tenha cessado sua curiosidade e suas andanças. Para ser capaz de manter seu espírito sob controle, você deve primeiro parar a fuga constante do corpo.
  2. A minha segunda razão é que os remédios que são mais úteis são aqueles que não são interrompidos. Você não deve permitir que sua tranquilidade, ou o esquecimento a que você consignou sua vida anterior, serem penetrados. Dê a seus olhos tempo para desaprender o que eles viram, e seus ouvidos para se acostumar a palavras mais saudáveis. Sempre que você se move ao exterior você encontrará, mesmo quando passa de um lugar para outro, coisas que trarão de volta seus anseios antigos.
  3. Assim como aquele que tenta livrar-se de um amor antigo deve evitar todo lembrete da pessoa que antes era querida (pois nada cresce tão facilmente como o amor), da mesma forma, aquele que deixaria de lado o seu desejo por todas as coisas que costumava desejar tão apaixonadamente, deve afastar olhos e ouvidos dos objetos que abandonou. As emoções logo retornam ao ataque;
  4. Em cada turno elas vão notar diante de seus olhos um objeto digno de sua atenção. Não há mal que não ofereça incentivos. A Avareza promete dinheiro; Luxúria, variado sortimento de prazeres; a Ambição, um manto roxo[1] e aplausos, e a influência que resulta dos aplausos, e tudo que essa influência pode fazer.
  5. Vícios o tentam pelas recompensas que oferecem; mas na vida de que falo, você deve viver sem ser pago. Dificilmente bastará uma vida inteira para subjugar nossos vícios e fazê-los aceitar o julgo, inchados por longas indulgências; e ainda menos, se golpearmos nosso breve intervalo por qualquer interrupção. Mesmo cuidado e atenção constantes dificilmente podem trazer uma empreitada a conclusão completa.
  6. Se você vai dar ouvidos ao meu conselho, pondere e pratique isso, – como acolher a morte, ou mesmo, se as circunstâncias recomendarem esse curso, convidá-la. Não há diferença se a morte vem a nós, ou se nós vamos à morte. Faça-se crer que todos os homens ignorantes estão errados quando dizem: “É uma coisa linda morrer a própria morte”[2]. Mas não há homem que não morra sua própria morte. E mais, você pode refletir sobre este pensamento: Ninguém morre exceto em seu próprio dia. Você está jogando fora nada de seu próprio tempo; porque o que você deixa para trás não pertence a você.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Símbolo de poder estatal,  cargo público relavante.

[2] Talvez a ideia inversa de “viver a própria vida”. Significa “morrer quando chega o devido tempo”, e é o argumento do homem comum contra o suicídio. Entretanto, talvez sugira o assunto da próxima carta.

Resenha: Meditações, Livro XII

Chegamos ao fim das Meditações de Marco Aurélio semana que vem retornamos com as cartas de Sêneca.   No início do capítulo, Marco Aurélio lembra o que é verdadeiramente importante:

“se você tiver medo não porque você deve deixar de viver algum tempo, mas se você temer nunca ter começado a viver de acordo com a natureza – então você será um homem digno do universo que o produziu, e deixará de ser um estranho em sua terra natal, e não se perguntará sobre as coisas que acontecem diariamente como se fossem algo inesperado, nem será dependente disso ou daquilo” (XII,1)

No parágrafo 3 temos uma frase que pode ter inspirado o “penso, logo existo” de Descartes:

“Três são as coisas de que você é composto: um corpo pequeno, um pouco de vida e inteligência. Destes, os dois primeiros são seus, na medida em que é seu dever cuidar deles; mas o terceiro, só o terceiro, é propriamente seu.”(XII,3)

Em seguida duas frases fantásticas sobre a obsessão equivocada das pessoas com o que os outros pensam delas:

“cada um ama a si mesmo mais do que todos os outros homens, mas, no entanto, valoriza menos a sua própria opinião de si mesmo do que a dos outros. (…). Temos muito mais respeito pelo que os nossos vizinhos pensam de nós do que pelo que pensamos de nós mesmos.”(XII,4)

O ponto, deve ser claro, não é que é bom ignorar as opiniões ou críticas dos outros, independentemente dos seus méritos, mas sim que a nossa autoestima não deve depender de algo que claramente não temos controle, e que, portanto, devemos tratar, na melhor das hipóteses, como um indiferente preferido.

Nos parágrafos 17 e 20 recebemos alguns conselhos eminentemente práticos:

“Se não é certo, não o faça: se não é verdade, não o diga”(XII,17)

“Primeiro, não faça nada irrefletidamente, nem sem um propósito. Em segundo lugar, faça com que os seus atos se refiram apenas a um fim social.” (XII,20)

A primeira parte destaca o compromisso estoico com a vida ética, que inclui um dever para com a verdade, enquanto a segunda nos lembra a necessidade de estarmos atentos ao que fazemos e porquê, e que o que fazemos deve ser em benefício da humanidade.

Perto do final do livro Marco Aurélio afirma:

“Quão pequena parte do tempo ilimitado e insondável é destinada a cada homem, pois logo é engolido no eterno! E quão pequena uma parte de toda a substância, e quão pequena uma parte da alma universal, e sobre que pequeno torrão de toda a terra você se arrasta! Refletindo sobre tudo isso, nada considere grande, a não ser agir como a sua natureza o conduz e suportar o que a natureza comum traz”(XII,32)

Que forma maravilhosa de concluir os comentários às Meditações! Recomendo que leiam calmamente a obra, analisando cada passagem,  são ensinamentos do rei-filósofo.


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Leitor recomendado: 

Resenha: Meditações, Livro XI

Analisamos hoje o penúltimo Livro das Meditações de  Marco Aurélio, onde ele cita os cristãos, dentro de uma passagem onde se discute a prontidão de morrer:

“Que grande alma é aquela que está pronta, em qualquer momento necessário, para ser separada do corpo e depois extinguida ou dispersa ou continuar a existir; mas de modo que esta disponibilidade venha do próprio julgamento do homem, não de mera obstinação, como com os cristãos, mas com ponderação e dignidade e de modo a convencer outro, sem demonstração dramática”(XI,3).

Pode-se usar esta citação como mais uma evidência, se alguma fosse necessária, de que os estoicos aprovaram a possibilidade do suicídio.

Toda a seção 18 do livro XI é uma lista de lembretes a si mesmo de como reagir quando alguém o ofende, com nove passos bem definidos.

Se alguém ofendeu você, considere primeiro: Qual é minha relação com os homens, e que somos feitos um para o outro; e por outro lado fui feito para ser colocado por cima deles, como um carneiro sobre o rebanho, ou um touro sobre o gado. Mas examine a questão a partir dos primeiros princípios, a partir disso. Se todas as coisas não são meros átomos, é a natureza que ordena todas as coisas: se é assim, as coisas inferiores existem por causa do superior, e estas por causa umas das outras.

Segundo, considere que tipo de homens eles são à mesa, na cama, e assim por diante; e particularmente, sob que compulsões a respeito das opiniões eles estão; e quanto aos seus atos, considere com que orgulho eles fazem o que eles fazem.

Terceiro, se os homens fazem bem o que fazem, não devemos nos aborrecer; mas se não fazem bem, é evidente que o fazem involuntariamente e na ignorância. Assim como toda alma é privada da verdade sem querer, assim também é privada, sem querer, do poder de se comportar para com cada um segundo os seus desígnios. Consequentemente, os homens se afligem quando são chamados injustos, ingratos e gananciosos, e em uma palavra maldosos aos seus vizinhos.

Quarto, considere que você também faz muitas coisas erradas, e que você é um homem como os outros; e mesmo que você se abstenha de certas falhas, ainda assim você tem a disposição de cometê-las, ainda que por covardia, ou preocupação com reputação, ou por algum motivo mesquinho, você se abstém de tais falhas.

Quinto, considere que você nem mesmo entende se os homens estão fazendo errado ou não, pois muitas coisas são feitas com uma certa referência às circunstâncias. E em resumo, um homem deve aprender muito para poder fazer um julgamento correto sobre os atos de outro homem .

Sexto, considere quando você estiver muito irritado ou triste, que a vida do homem é apenas um momento, e depois de um curto período de tempo todos nós estaremos mortos.

Sétimo, que não são os atos dos homens que nos perturbam, pois esses atos têm seu fundamento nos princípios dominantes dos homens, mas são nossas próprias opiniões que nos perturbam. Retire estas opiniões então, e resolva rejeitar seu julgamento sobre um ato como se fosse algo doloroso, e sua ira se vai. Como, então, removerei essas opiniões? Ao refletir que nenhum ato injusto de outrem traz vergonha para você: porque, se o erro não é só dele, você também deve necessariamente ter feito coisas erradas, e tornar-se um ladrão e tudo mais.

Oitavo, considere quanto mais dor é causada pela ira e irritação do que pelos próprios atos, dos quais estamos indignados e irritados.

Nono, considere que uma boa disposição é invencível se for verdadeira, e não um sorriso afetado e agir um papel. Pois o que lhe fará o homem mais violento, se você continuar a ser de uma disposição bondosa para com ele, e se, como a oportunidade oferece, você gentilmente o aconselhar e calmamente corrigir seus erros no mesmo momento em que ele está tentando fazer-lhe mal, dizendo: Não assim, minha criança: nós somos constituídos por natureza para outra coisa: certamente não vou ser ferido, mas você está se ferindo, minha criança. E mostre-lhe com tato gentil e por princípios gerais que isto é assim, e que mesmo as abelhas não fazem como ele faz, nem quaisquer animais que são formados pela natureza para serem gregários. E você não deve fazer isso nem com nenhum duplo significado nem no caminho da reprovação, mas afetuosamente e sem nenhum rancor em sua alma; e não como se você estivesse dando sermões a ele, nem ainda que qualquer espectador possa contemplá-lo, mas tanto quando ele estiver sozinho, ou se outros estiverem presentes.

Nos parágrafos 33 a 38 cita vários ensinamentos de Epicteto:

“Procurar pelo figo no inverno é ato de um louco: tal é aquele que procura seu filho quando já não é mais possível”(XI,33).

“Quando um homem beija seu filho, dizia Epicteto, deve sussurrar para si mesmo: ‘Amanhã talvez você morra’ – mas essas são palavras de mau presságio – Nenhuma palavra é uma palavra de mau presságio que expresse qualquer obra da natureza”(XI,34).

Neste livro Marco Aurélio além  Epicteto, cita também Sófocles, Aristóteles e Homero


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Livros citados: 

  

Resenha: Meditações, Livro X

No início do livro temos mais um conselho sobre como lidar com seus semelhantes:

“Se um homem está equivocado, instrua-o gentilmente e mostre-lhe seu erro. Mas se não for capaz, culpe-se a si mesmo, ou não culpe nem a si mesmo.” (X,4)

Assim como Sêneca o faz na  Carta 70,  Marco Aurélio critica a bestialidade dos jogos no coliseu:

“como aqueles gladiadores semi-devorados por bestas selvagens, que embora cobertos com feridas e sangue, ainda suplicam ser mantidos mais um dia, embora eles ficarão expostos ao mesmo estado às mesmas garras e mordidas…”( X,8)

Como lidar consigo mesmo, uma das frases mais citadas e repetidas das Meditações:

Não fale mais sobre como o homem bom deve ser, mas seja um bom homem”(X,16)
“Habitue-se o mais possível a si mesmo, por ocasião de qualquer coisa que seja feita por qualquer pessoa a perguntar-se a si mesmo, para que fim está este homem fazendo isto? Mas começa por si mesmo, e se examine primeiro.” (X,38)

Neste livro Marco Aurélio além de fazer referência a Sêneca, cita Platão, Sócrates e Xenofonte.


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Livros citados: 

Resenha: Meditações, Livro IX

O livro IX das Meditações de Marco Aurélio começa com uma passagem interessante:

“Aquele que age injustamente age sem piedade. Porque, uma vez que a natureza universal fez animais racionais uns para os outros, para ajudar uns aos outros de acordo com seus desígnios, e de modo algum para ferir uns aos outros, aquele que transgride sua vontade é claramente culpado de impiedade para com a mais alta divindade”(IX,1).

O termo “divindade” pode ser interpretado, como Deus ou natureza, o que para os estoicos é o mesmo. Marco Aurélio está dizendo algo notavelmente moderno: a natureza nos fez seres sociais racionais, então agir de forma antissocial ou irracional é literalmente ir contra a natureza (humana).

O imperador nos diz por que é irracional – de acordo com a visão estoica das coisas  –  fazer o mal:

” Aquele que faz o mal faz o mal contra si mesmo. Aquele que age injustamente age injustamente contra si mesmo, porque se torna mau”(IX,4).

Mas e se os outros fizerem o mal? Recebemos a resposta:

” Se puder, retifique, ensinando aos que fazem o mal; mas se não puder, lembre-se de que a indulgência é dada a você para este propósito”(IX,11).

Também não há motivo para se surpreender com o mal dos outros,  no fundo a culpa é sempre sua:

” E que mal se faz ou que há de estranho, se o homem que não foi instruído faz os atos de um homem sem instrução? Reflita se não deveria antes culpar-se a si mesmo…  Mas acima de tudo, quando você culpa um homem como infiel ou ingrato, vire-se para si mesmo. Pois a culpa é manifestamente sua, se você confiava que um homem que tivesse tal disposição manteria sua promessa.” (IX,42).

Assim como nos Livros VI e VII, encontramos afirmações recorrentes de Marco Aurélio sobre o “agnosticismo“:

“Numa palavra, se há um Deus, tudo está bem; e se o acaso governa, você tampouco deve ser governado por ele”(IX,28)

Fica claro nas meditações que Marco Aurélio acreditava em Deus, contudo, esta e muitas outras citações das Meditações atestam que os estoicos não pensavam que acreditar em Deus ou providência era essencial para chegar à sua concepção de ética:

“Ou tudo procede de uma só fonte inteligente e se ajunta como num só corpo, e a parte não deve achar culpa do que se faz para o bem do todo; ou só há átomos, e nada mais do que mistura e dispersão. Por que, então, está perturbado?” (IX,39)

Neste livro Marco Aurélio cita  Epicuro, Cícero e a Odisséia de Homero.


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Livros citados: 

     

 

Resenha: Meditações, Livro VIII

A primeira seção do oitavo livro de Meditações de Marco Aurélio apresenta uma pergunta que todos devemos fazer a nós mesmos, em vários momentos de nossas vidas:

” você teve a experiência de muitas andanças sem ter encontrado a felicidade em qualquer lugar, nem em silogismos, nem em riqueza, nem em reputação, nem em gozo, nem em qualquer outro lugar. Onde está então? Em fazer o que a natureza do homem requer”. (VIII,1)

E pela “natureza do homem“, os estoicos queriam dizer a natureza de um animal social racional. Em outras palavras, para Marco Aurélio, o verdadeira significado pode ser encontrado apenas na contribuição para o funcionamento da sociedade, ajudando seres humanos. E a melhor maneira de conseguir isso é aplicando nossa faculdade de razão.

As seções 4, 5 e 16 também dão bons conselhos:

“Considere que os homens farão as mesmas coisas, mesmo que você se irrite.(VIII, 4)
Este é o ponto principal: Não se perturbe, porque todas as coisas estão de acordo com a natureza do universal; e em pouco tempo não será ninguém e em lugar nenhum, como Adriano e Augusto”. (VIII, 5)
Lembre-se de que mudar sua opinião e seguir aquele que corrige seu erro é tão consistente com a liberdade quanto persistir em seu erro.” (VIII, 16)

No parágrafo 13, Marco lembra-nos da abordagem clássica do estoicismo, que é encapsulada por três domínios: “Constantemente, e se possível, por ocasião de cada impressão na alma, aplique a ela os princípios da Física, da Ética e da Dialética.” onde aqui “dialética” significa lógica.

No parágrafo 33 encontramos uma jóia que encapsula a doutrina estoica dos indiferentes preferidos:

” Receba [riqueza ou prosperidade] sem arrogância; e esteja pronto para deixá-la ir.” (VIII,33)

Portanto, a ideia não é buscar um estilo de vida ascético a todo custo (como recomendavam os cínicos), mas sim tratar a presença ou ausência de riqueza como indiferente à qualidade moral e à busca de sabedoria. Se você tem riqueza, use-a para o melhor; se você a perder, não se arrependa; se você não a tem, não a inveje.

No parágrafo 44, Marco escreve sobre outra ideia central do estoicismo:

“aqueles que preferem perseguir a fama póstuma não consideram que os homens de outros tempos serão exatamente como estes que não pode suportar agora”(VIII,44).

No parágrafo 48 temos a citação que deu título a um famoso livro sobre estoicismo de Pierre Hadot:

“a mente livre de paixões é uma cidadela, pois o ser humano não tem nada mais seguro para o qual possa se refugiar e para o qual o futuro seja inexpugnável”(VIII,48).


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Livros recomendados:  Pierre Hadot

   

Resenha: Meditações, Livro VII

O uso da razão é o foco do Livro VII:

“As coisas que são externas à minha mente não têm nenhuma relação com a minha mente.” (VII,2)

Marco Aurélio aborda o conceito de eudaemonia e como se manter são:

“Que fique no exterior o que cair sobre as partes que podem sentir os efeitos desta queda. Porque aquelas partes que sentirem se queixarão, se quiserem. Mas eu, a menos que pense que o que aconteceu é um mal, não sou ferido. E está em meu poder pensar assim.” (VII,14)

Um pouco mais tarde (#27) Marco Aurélio escreve sobre como se deve apreciar o que se tem, enquanto ao mesmo tempo não se apegar muito a isso, um lembrete da famosa máxima de Epicteto de que não possuímos nada (nem ninguém), nós apenas os “emprestamos”:

Não pense tanto no que você não tem quanto no que você tem: mas nas coisas que você escolheu o melhor, e então reflita quão ansiosamente elas teriam sido procuradas, se você não as tivesse. Ao mesmo tempo, no entanto, tome cuidado para que você não se acostume a supervalorizá-las, de modo a ser incomodado se você não as tiver no futuro.  (VII,27)

No final, temos uma frase fantástica, quando Marco diz que não adianta tentar fugir do mal dos outros, mas que devemos evitar o mal em nós mesmos:

“É uma coisa ridícula para um homem não fugir da sua própria maldade, que é realmente possível, mas tentar fugir da maldade de outros homens, que é impossível.” (VII, 71)


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Resenha: Meditações, Livro VI

O livro VI começa com um exemplo da atitude estoica de perseverança:

“Que não faça diferença para você se está frio ou quente, se está cumprindo seu dever; e se está sonolento ou saciado de sono; e se foi mal falado ou louvado; e se está morrendo ou fazendo outra coisa. Pois é um dos atos da vida, este ato pelo qual morremos; é suficiente então neste ato também fazer bem o que temos em mãos.”(VI,2)

No parágrafo 18 ele novamente alerta contra perseguir a fama, um de seus temas recorrentes:

“Como estranhamente os homens agem. Eles não louvarão aqueles que vivem ao mesmo tempo e vivem consigo mesmos, mas para serem elogiados pela posteridade, por aqueles que nunca viram ou jamais verão, isso eles valorizam muito”. (VI,18)

No 21  há outra frase esplêndida, esta sobre a racionalidade de mudar de ideia quando necessário:

Se alguém for capaz de me convencer e me mostrar que não penso nem ajo corretamente, de bom grado mudarei, pois busco a verdade, pela qual nenhum homem jamais foi ferido. Mas aquele que permanece no seu erro e na sua ignorância é ferido.” (VI,21)

Uma das discussões em curso entre os estoicos modernos é até que ponto se deve aceitar a providência divina e uma visão teleológica do universo, que era certamente popular entre os estoicos antigos. Marco Aurélio frequentemente expressa uma atitude que hoje poderíamos chamar de agnóstica, implicando ou mesmo afirmando diretamente que não importa se alguém acredita na providência divina (para os estoicos Deus era a própria natureza) ou em apenas átomos e caos (a visão epicureana). Aqui está uma dessas passagens:

“Alexandre o macedônio e seu noivo por morte foram levados ao mesmo estado; pois ou foram recebidos nos mesmos princípios seminais do universo, ou foram igualmente dispersos entre os átomos”. (VI, 24)

Dois conceitos estoicos importantes são abordados: a perspectiva das coisas e o cosmopolitismo estoico:

“Ásia, Europa, são cantos do universo; todo o mar uma gota no universo; Athos um pequeno torrão do universo: todo o tempo presente é um ponto na eternidade.” (VI,36)

“meu país, enquanto Antonino, é Roma; mas enquanto homem, é o mundo”.(VI,44)

No livro Marco faz referências a textos de Cícero e Plutarco


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Veja também:

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