Carta 62: Sobre boa companhia

Na carta 62 Sêneca aborda dois princípios estoicos fundamentais:  o valor da amizade e a frugalidade.

Diz que o “atalho mais curto às riquezas é desprezar as riquezas” (LXII,3) e que devemos nos fazer amigos “dos melhores homens”  não importando  em que “terras eles possam ter vivido, ou em que idade” (LXII,2)

(Imagem Diogenes  por Jean-Léon Gérôme)


LXII. Sobre boa companhia

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Somos enganados por aqueles que nos querem fazer crer que uma multidão de assuntos bloqueia a busca de estudos intelectuais; eles fazem um fingimento de seus compromissos, e os multiplicam, quando seus compromissos são meramente com eles. Quanto a mim, Lucílio, o meu tempo é livre; é de fato livre, e onde quer que eu esteja, sou mestre de mim mesmo. Pois não me entrego a meus negócios, mas empresto-me a eles, e não busco desculpas para desperdiçar meu tempo. E, onde quer que eu esteja, continuo minhas próprias meditações e pondero em minha mente algum pensamento saudável.
  2. Quando me entrego a meus amigos, não me afasto da minha própria companhia, nem permaneço com aqueles que estão associados a mim por alguma ocasião especial ou alguma circunstância que surge da minha posição oficial. Mas eu passo meu tempo na companhia de todos os melhores; não importa em que terras eles possam ter vivido, ou em que idade, eu deixo meus pensamentos voar a eles.
  3. Demétrio[1], por exemplo, o melhor dos homens, eu levo comigo, e, deixando os trajados em linho púrpura e fino, falo com ele, meio nu como ele é, e o tenho em alta estima. Por que eu não deveria mantê-lo em alta estima? Descobri que ele não sente falta de nada. É possível a qualquer homem desprezar todas as coisas, mas impossível a alguém possuir todas as coisas. O atalho mais curto às riquezas é desprezar as riquezas. Nosso amigo Demétrio, no entanto, vive não apenas como se tivesse aprendido a desprezar todas as coisas, mas como se as tivesse entregue para que outras pessoas as possuíssem[2].

 

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Demétrio de Corinto foi um filósofo cínico de Corinto que viveu em Roma durante os reinos de Calígula, Nero e Vespasiano

[2] Isto é, ele alcançou o ideal estoico de independência de todo controle externo; ele é um rei e tem tudo para conceder aos outros, mas não precisa de nada para si mesmo.

Pensamento do Dia #38: As riquezas pertencem à classe das coisas desejáveis.

No ensaio A Vida Feliz Sêneca toca num ponto cheio de hipocrisia e  atual até hoje: a relação do dinheiro e virtude:

“Ninguém condenou a sabedoria à pobreza. O filósofo pode possuir ampla riqueza, mas não possuirá riqueza que tenha sido arrancada de outro, ou que esteja manchada com o sangue de outra pessoa: ela deve ser obtida sem prejudicar qualquer homem e sem que ela seja obtida por meios vis; deve ser honrosamente acessível e honrosamente gasta.” (XXIII,1)

“Se as minhas riquezas me deixarem, não levarão consigo nada além de si mesmas: já vocês ficarão desnorteadas e parecerão ficar fora de si se as perderem: comigo as riquezas ocupam um certo lugar, mas com você elas ocupam lugar mais alto de todos. Em suma, minhas riquezas pertencem a mim, você pertence às suas riquezas.” (XXII, 5)

(imagem O beijo de Gustav Klimt, Belvedere-Viena)

 

 

Livro: A Vida Feliz (De Vita Beata)

O diálogo A Vida Feliz foi escrito por volta do ano 58 dC., destinado ao seu irmão mais velho, Gálio.

A principal coisa a entender sobre o texto é o próprio título: ‘Feliz‘ aqui não tem a conotação moderna de se sentir bem, mas é o equivalente da palavra grega eudaimonia, que é melhor compreendida como uma vida digna de ser vivida, um estado de plenitude do ser. Para Sêneca e para os estoicos, a única vida que vale a pena ser vivida é aquela de retidão moral, o tipo de existência à qual olhamos no final e podemos dizer honestamente que não nos envergonhamos.

Logo no primeiro parágrafo Sêneca dá a linha da argumentação estoica: Não devemos ter a felicidade como objetivo: “não é fácil alcançar a felicidade já que quanto mais avidamente um homem se esforça para alcançá-la mais ele se afasta”.(I,1) A solução é ter como objetivo a virtude. A felicidade será consequência.

Sêneca faz grande oposição ao epicurismo, corrente filosófica que valoriza o prazer como fonte de felicidade, como vemos: “Você se dedica aos prazeres, eu os controlo; você se entrega ao prazer, eu o uso; você pensa que é o bem maior, eu nem penso que seja bom: por prazer não faço nada, você faz tudo.”  (X, 3 ).

No capítulo XV, Sêneca explica por que não se pode simplesmente associar a virtude ao prazer. O problema é que, mais cedo ou mais tarde, o prazer o levará a territórios não virtuosos: “Quem, por outro lado, forma uma aliança, entre a virtude e o prazer, obstrui qualquer força que uma possa possuir pela fraqueza da outra, e envia liberdade sob o jugo, pois a liberdade só pode permanece inconquistável enquanto não sabe nada mais valioso do que ela mesma: pois começa a precisar da ajuda da Fortuna, o que é a mais completa escravidão: sua vida torna-se ansiosa, cheia de suspeitas, tímida, temerosa de acidentes, esperando em agonia por momentos críticos. Você não oferece à virtude uma base sólida e imóvel se você a colocar sobre o que é instável: e o que pode ser tão instável quanto a dependência do mero acaso e as vicissitudes do corpo e daquelas coisas que agem sobre o corpo?”. (XV, 3 )

O livro fornece uma lista de regras pelas quais Sêneca está tentando viver. Vale a pena considerá-las na íntegra:

• Eu vou encarar a morte ou a vida a mesma expressão de semblante;
• Eu desprezarei as riquezas quando as tiver tanto quanto quando não as tiver;
• Verei todas as terras como se pertencessem a mim, e as minhas terras como se pertencessem a toda a humanidade;
• Seja o que for que eu possua, eu não vou acumulá-lo avidamente nem o desperdiçar de forma imprudente;
• Não farei nada por causa da opinião pública, mas tudo por causa da consciência;
• Ao comer e beber, meu objetivo é extinguir os desejos da natureza, não encher e esvaziar minha barriga;
• Eu serei agradável com meus amigos, gentil e suave com meus inimigos;
• Sempre que a Natureza exigir minha vida, ou a razão me pedir que a rejeite, vou desistir desta vida, chamando a todos para testemunhar que amei uma boa consciência e boas atividades;

Neste ensaio Sêneca aprofunda a explicação sobre os indiferentes preferidos e despreferidos. E faz uma longa exposição ( capítulos 21 a 26) da relação entre riqueza, virtude e felicidade:

“Portanto, não cometa nenhum erro: as riquezas pertencem à classe das coisas desejáveis. “Por que então”, você diz, “você ri de mim, já que você as coloca na mesma posição que eu?” 5. Você deseja saber quão diferente é a posição em que as colocamos? Se as minhas riquezas me deixarem, não levarão consigo nada além de si mesmas: já vocês ficarão desnorteadas e parecerão ficar fora de si se as perderem: comigo as riquezas ocupam um certo lugar, mas com você elas ocupam lugar mais alto de todos. Em suma, minhas riquezas pertencem a mim, você pertence às suas riquezas.”  (XXII, 4.5)

(imagem  Herbert James DraperUlises e as Sereias)

Livro disponível na lojas:

GooglePlay,  Amazon,  Kobo e  Apple

 

Carta 27: Sobre o Bem que Permanece

Na carta 27 Sêneca fala dos problemas que prazeres passageiros causam e da incômoda culpa que deixam muito depois do prazer acabar.

“Afaste-se daqueles prazeres desordenados, que devem ser pagos regiamente, não são apenas os que estão para vir que me prejudicam, mas também aqueles que vieram e foram. Assim como os crimes, mesmo que não tenham sido detectados ao serem cometidos, não permitem que a ansiedade acabe com eles, da mesma forma são os prazeres mundanos, o arrependimento permanece mesmo depois que os prazeres terminaram. ” (XXVII.2)

Sempre atual, Sêneca fala do pouco valor dado a sabedoria: “Nenhum homem é capaz de emprestar ou comprar uma mente sã; na verdade, como me parece, mesmo que mentes sãs estivessem à venda, não encontrariam compradores. No entanto, as mentes depravadas são compradas e vendidas todos os dias.” (XXVII.8)

Conclui a carta com mais um dito de Epicuro: “A riqueza real é a pobreza ajustada à lei da natureza.” (XXVII.9)

(Imagem, Denário de prata de Metelo Cipião, exemplo de conduta estoica segundo Sêneca)


XXVII. Sobre o Bem que permanece

Saudações de Sêneca a Lucílio.  

  1. “O que?”, diz você, “Está me dando conselhos?” De fato, você já se aconselhou, já corrigiu suas próprias falhas? É esta a razão por que você tem tempo livre para reformar outros homens? Não, não sou desavergonhado ao ponto de pretender curar meus semelhantes quando estou doente. Estou, no entanto, discutindo com você problemas que afetam a nos dois, e compartilhando o remédio com você, como se estivéssemos padecendo no mesmo hospital. Ouça-me, portanto, como faria se eu estivesse falando sozinho. Eu estou confessando a você meus pensamentos mais íntimos, e estou discutindo comigo mesmo, usando-o apenas como pretexto.
  2. Eu continuo gritando para mim mesmo: “Conte seus anos, e você terá vergonha de desejar e perseguir as mesmas coisas que você desejou em seus dias de juventude. Certifique-se desta única coisa antes de morrer, – deixe suas falhas perecerem antes. Afaste-se daqueles prazeres desordenados, que devem ser pagos regiamente, não são apenas os que estão para vir que me prejudicam, mas também aqueles que vieram e foram. Assim como os crimes, mesmo que não tenham sido detectados ao serem cometidos, não permitem que a ansiedade acabe com eles, da mesma forma são os prazeres mundanos, o arrependimento permanece mesmo depois que os prazeres terminaram. Eles não são substanciais, eles não são confiáveis, mesmo se eles não nos prejudicam, eles são passageiros.
  3. Procure ao invés bens que permanecem. Mas não há tal bem, a não ser aquele descoberto pela alma por si mesma: só a virtude proporciona uma alegria eterna e tranquilizadora, mesmo que surja algum obstáculo, mas como uma nuvem passageira, que se interpõe frente ao sol, mas nunca prevalece contra ele. “
  4. Quando será sua vez de alcançar esta alegria? Até agora, você realmente não foi lerdo, mas você deve acelerar o seu ritmo. Resta muito trabalho; para enfrentá-lo, você deve usar todas suas horas de vigília, e todos seus esforços, se você deseja o resultado realizado. Este assunto não pode ser delegado a outra pessoa.
  5. O outro tipo de atividade intelectual admite assistência externa. Em nossa época havia um certo homem rico chamado Calvísio Sabino; ele tinha a conta bancária e o cérebro de um escravo liberto. Nunca vi um homem cuja boa fortuna tenha sido uma ofensa maior a sua propriedade. Sua memória era tão falha que ele às vezes esqueceria o nome de Ulisses, ou Aquiles, ou Príamo, nomes que conhecemos tão bem quanto conhecemos os de nossos próprios assistentes. Nenhum idoso senil, que não pode dar a homens seus nomes próprios, mas é compelido a inventar nomes para eles, – nenhum homem, eu digo, clama os nomes dos membros de sua tribo de forma tão atroz como Sabino costumava chamar os heróis de Troia e Aqueus. Mas, no entanto, ele desejava parecer erudito.
  6. Assim ele inventou este atalho para aprender: ele pagou preços fabulosos por escravos, – um para conhece Homero de cor e outro para Hesíodo; ele também delegou um escravo especial para cada um dos nove poetas líricos[1]. Você não precisa se admirar que ele tenha pago altos preços por esses escravos; se ele não os encontrava prontos à mão ele encomendava um a ser feito sob medida. Depois de recolher este séquito, ele começou a aborrecer seus convidados; Ele mantinha esses ajudantes ao pé de seu sofá, e pedia de vez em quando os versos para que ele os repetisse, que, muitas vezes, eram quebrados no meio de uma palavra.
  7. Satelio Quadrato, um instigador e, consequentemente, um puxa-saco de milionários fúteis, e também (pois esta qualidade vai com as outras duas) um zombador deles, sugeriu a Sabino que ele deveria ter filólogos para reunir os pedaços. Sabino observou que cada escravo havia lhe custado cem mil sestércios; Satelio respondeu: “Você poderia ter comprado tantas quantas estantes de livros por uma quantia menor.” Mas Sabino sustentou que o que qualquer membro de sua casa sabe, ele mesmo também sabe.
  8. Este mesmo Satelio começou a aconselhar Sabino a tomar lições de luta, mesmo doentio, pálido e magro como era, Sabino respondeu: “Como posso? Eu mal posso ficar vivo agora.” – “Não diga isso, eu lhe suplico” – replicou o outro -, “considere quantos escravos perfeitamente saudáveis você tem!” Nenhum homem é capaz de emprestar ou comprar uma mente sã; na verdade, como me parece, mesmo que mentes sãs estivessem à venda, não encontrariam compradores. No entanto, as mentes depravadas são compradas e vendidas todos os dias.
  9. Mas deixe-me pagar a minha dívida e dizer adeus: “A riqueza real é a pobreza ajustada à lei da natureza.” Epicuro repete este dizer de várias maneiras e contextos; mas nunca pode ser repetido em excesso, já que nunca é compreendido muito bem. Pois para algumas pessoas o remédio deve ser meramente prescrito; no caso de outras, deve ser forçado goela abaixo.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Troia e Aqueus: a Ilíada era a leitura de matéria-prima dos estudantes romanos de elite, mas Calvísio, nem conseguia lembrar seus heróis homéricos. (Os assistentes pessoais atendiam os políticos fornecendo os nomes de quem eles encontravam no fórum.) Hesíodo era muito favorecido por suas máximas morais, mas os nove poetas líricos são muito menos propensos a fazer parte do repertório romano e a compra de nove escravos, um por cada poeta, certamente foi adicionado por Sêneca para animar a história.

Carta 22: Sobre a Futilidade de Meias Medidas

A carta começa com Sêneca se desculpando  por não poder lhe dar conselhos exatos além dos princípios gerais. Com o que Lucílio está preocupado? Aparentemente, com a versão romana antiga de uma corrida de ratos, e como sair dela. A análise de Sêneca começa com as desculpas típicas das pessoas  em busca de riqueza:

A explicação usual que os homens oferecem é errada: “Eu fui compelido a fazê-lo, suponho que era contra minha vontade, eu tinha que fazê-lo.” Mas ninguém é obrigado a perseguir a prosperidade à velocidade máxima;” (XXII.4)

Observe um ponto sutil aqui: Sêneca não está dizendo que a prosperidade não vale a pena prosseguir. É, afinal, um preferido indiferente. Lucílio estava preocupado com suas próprias ocupações. É por isso que seu amigo lembra que ele não tem nenhuma obrigação de viver freneticamente.

Sêneca então acrescenta: “Dos negócios, no entanto, meu caro Lucílio, é fácil escapar, basta você desprezar suas recompensas. Nós somos retidos e impedidos de escapar por pensamentos como estes: “O que, então? Deixarei para trás estas grandes oportunidades? Devo partir no momento da colheita? Não terei escravos ao meu lado? Nenhum empregado para minha prole? Nenhuma multidão na minha recepção? Assim, os homens deixam tais vantagens com relutância; eles amam a recompensa de suas dificuldades, mas amaldiçoam as dificuldades em si.” (XXII.9)

Este é um belo parágrafo, vale a pena meditar. Comece com o fim: as pessoas amam a recompensa de suas dificuldades, mas amaldiçoam as próprias dificuldades. De fato, e o que realmente é gratificante na vida é a experiência em si, não tanto o resultado final. Você já esteve em uma caminhada? Claro, há satisfação quando você chega ao cume e pode olhar para a vista. Mas é todo o processo, bolhas e tudo, que vale a pena.

“Procure na mente daqueles que lamentam o que já desejaram, que falam em fugir de coisas que não podem deixar de ter; você vai compreender que eles estão se demorando por vontade própria em uma situação que eles declaram achar difícil e miserável de suportar. É assim, meu caro Lucílio; existem alguns homens que a escravidão mantém presos, mas há muitos mais que se apegam à escravidão.” (XXII.10-11)

Novamente, que bela frase, especialmente no final: a pior escravidão é aquela a quem nos condenamos, mesmo sem perceber.  A carta termina com uma contemplação mais geral da morte, que Sêneca diz ser o teste final de nossa virtude e nossa filosofia:

Mas o que é mais vil do que se preocupar no próprio limiar da paz?” (XXII.16)

No entanto, muitos simplesmente não conseguem, ou talvez não desejem ouvir, a mensagem, e é por isso que Sêneca conclui com esse sentimento: “Os homens não se importam quão nobremente vivem, mas só por quanto tempo, embora esteja ao alcance de cada homem a viver nobremente, mas é impossível a qualquer homem viver por muito tempo” (XXII.17).

(imagem Boulanger Gustave, o mercado de escravos)


 

XXII. Sobre a Futilidade de Meias Medidas

Saudações de Sêneca a Lucílio.  

  1. Você entende, a este ponto, que deve retirar-se daquelas buscas exibicionistas e depravadas; mas você ainda deseja saber como isso pode ser realizado. Há certas coisas que só podem ser apontadas por alguém que está presente. O médico não pode receitar por carta o tempo adequado para comer ou tomar banho; ele deve sentir o pulso. Há um velho ditado sobre gladiadores, – que eles planejam sua luta no ringue; a medida que observam atentamente, algo no olhar do adversário, algum movimento de sua mão, até mesmo algum detalhe de seu corpo passa uma dica.
  2. Podemos formular regras gerais e coloca-las por escrito, quanto ao que geralmente é feito ou deveria ser feito; tal conselho pode ser dado, não somente a nossos amigos ausentes, mas também às gerações seguintes. No que diz respeito, no entanto, a esta segunda questão, – quando ou como o seu plano deve ser realizado, – ninguém vai aconselhar a distância; temos de nos aconselhar na presença da situação real.
  3. Você deve estar não somente presente em corpo, mas vigilante na mente, se você quiser aproveitar de oportunidade fugaz. Consequentemente, olhe ao redor por uma oportunidade; se você a vê, agarre-a, e com toda sua energia e com toda sua força dedique-se a esta tarefa – livre-se daqueles outros afazeres. Agora ouça atentamente o alvitre que vou oferecer; é minha opinião que você deve retirar-se desse tipo de existência, ou então da existência completamente. Mas eu também defendo que você deva tomar um caminho suave, para que você possa desatar, em vez de cortar o nó que você tem se empenhando tanto em amarrar, apenas se não houver outra maneira de soltá-lo, então poderá cortá-lo. Nenhum homem é tão covarde que prefira pendurar-se em suspense para sempre do que soltar-se de uma vez por todas.
  4. Enquanto isso, – e isso é de primeira importância, – não se prejudique; esteja satisfeito com o negócio ao qual você se dedicou, ou, como prefere que as pessoas pensem, o negócio que lhe foi imposto. Não há nenhuma razão pela qual você deva estar lutando para mais; se o fizer, perderá toda a credibilidade, e os homens verão que não foi uma imposição. A explicação usual que os homens oferecem é errada: “Eu fui compelido a fazê-lo, suponho que era contra minha vontade, eu tinha que fazê-lo.” Mas ninguém é obrigado a perseguir a prosperidade à velocidade máxima; significa algo uma parada – mesmo que não ofereça resistência – em vez de pedir ansiosamente por mais favores da fortuna.
  5. Você deveria me expulsar, se eu não só lhe aconselhar, mas não chamar outros para aconselhá-lo – cabeças mais sábias do que as minhas, homens diante dos quais eu vou colocar qualquer problema sobre o qual estou ponderando. Leia a carta de Epicuro sobre esta matéria; é dirigida a Idomeneu. O escritor pede que se apresse o mais rápido que puder, a bater em retirada antes que alguma influência mais forte se apresente e retire dele a liberdade de fugir.
  6. Mas ele também acrescenta que ninguém deve tentar nada, exceto no momento em que possa ser feito de forma adequada e oportuna. Então, quando a ocasião procurada chegar, esteja pronto. Epicuro nos proíbe de cochilar quando estamos planejando fugir; ele nos oferece a esperança de uma liberação das provações mais duras, desde que não tenhamos pressa demais antes do tempo, nem que sejamos muito lentos quando chegar o momento.
  7. Agora, eu suponho, você também está procurando um lema estoico. Não há realmente nenhuma razão pela qual alguém deva criticar essa escola para você em razão de sua dureza; de fato, sua prudência é maior do que sua coragem. Talvez você esteja esperando que a seita diga palavras como estas: “É vil recuar diante de uma tarefa. Lute pelas obrigações que você uma vez aceitou.” Nenhum homem é corajoso e sério se ele evita o perigo, se seu espírito se fortalece com a própria dificuldade de sua incumbência.”
  8. Ser-lhe-ão faladas palavras como estas, se a sua perseverança tiver um objeto que valha a pena, se você não tiver que fazer ou sofrer algo indigno de um bom homem; além disso, um bom homem não se desperdiçará com o trabalho desprezível e desacreditado, nem estará ocupado apenas por estar ocupado. Nem ele, como você imagina, se tornará tão envolvido em esquemas ambiciosos que terá que suportar continuamente o seu fluxo e refluxo. Não, quando ele vê os perigos, incertezas e riscos em que foi anteriormente jogado, ele vai se retirar, não virando as costas para o inimigo, mas retrocedendo pouco a pouco para uma posição segura.
  9. Dos negócios, no entanto, meu caro Lucílio, é fácil escapar, basta você desprezar suas recompensas. Nós somos retidos e impedidos de escapar por pensamentos como estes: “O que, então? Deixarei para trás estas grandes oportunidades? Devo partir no momento da colheita? Não terei escravos ao meu lado? Nenhum empregado para minha prole? Nenhuma multidão na minha recepção? Assim, os homens deixam tais vantagens com relutância; eles amam a recompensa de suas dificuldades, mas amaldiçoam as dificuldades em si.
  10. Os homens se queixam de suas ambições da mesma forma que se queixam de suas amantes; em outras palavras, se você penetrar seus sentimentos reais, você vai encontrar, não ódio, mas implicância. Procure na mente daqueles que lamentam o que já desejaram, que falam em fugir de coisas que não podem deixar de ter; você vai compreender que eles estão se demorando por vontade própria em uma situação que eles declaram achar difícil e miserável de suportar.
  11. É assim, meu caro Lucílio; existem alguns homens que a escravidão mantém presos, mas há muitos mais que se apegam à escravidão. Se, no entanto, você pretende se livrar dessa escravidão; se a liberdade é genuinamente agradável aos seus olhos; e se você procurar apoio para este propósito único, – que você possa ter a fortuna de realizar este propósito sem perpétua irritação, – como pode toda a escola de pensadores estoicos não aprovar a sua conduta? Zenão, Crisipo, e todos de seu grupo dar-lhe-ão conselho que é moderado, honrável e apropriado.
  12. Mas se você se virar e olhar ao redor, a fim de ver o quanto pode levar com você, e quanto dinheiro você pode manter para equipar-se para a vida de lazer, você nunca vai encontrar uma saída. Nenhum homem pode nadar até a terra e levar sua bagagem com ele. Ascenda-se à uma vida superior, com a benevolência dos deuses; mas que não seja benevolência do tipo que os deuses dão aos homens quando com rostos gentis e amáveis outorgam males magníficos, justificando que coisas que irritam e torturam são concedidas em resposta à oração.
  13. Eu estava colocando o selo nesta carta; mas deve ser aberta outra vez, a fim de que possa entregar a você a contribuição usual, levando com ela alguma palavra nobre. E eis uma coisa que me ocorre; eu não sei o que é maior, sua verdade ou sua nobreza de enunciação. “Falado por quem?” Você pergunta. Por Epicuro; pois ainda estou me apropriando dos pertences de outros homens.
  14. As palavras são: “Todo mundo sai da vida como se tivesse acabado de entrar nela.” Tome alguém de sua relação, jovem, velho ou de meia-idade; você verá que todos têm igualmente medo da morte, e são igualmente ignorantes sobre a vida. Ninguém tem nada terminado, porque mantivemos adiando para o futuro todos os nossos empreendimentos. Nenhum pensamento na citação dada acima me agrada mais do que isso, que insulta velhos como sendo bebês.
  15. “Ninguém”, diz ele, “deixa este mundo de maneira diferente daquele que acaba de nascer”. Isso não é verdade; porque somos piores quando morremos do que quando nascemos; mas é nossa culpa, e não a da natureza. A natureza deveria repreender-nos, dizendo: “O que é isso? Eu lhe trouxe ao mundo sem desejos ou medos, livre da superstição, da traição e das outras maldições. Saiam como eram quando entraram!”
  16. Um homem capturou a mensagem da sabedoria, se ele puder morrer despreocupado como era ao nascer; mas a realidade é que estamos todos tremulantes na aproximação do temido final. Nossa coragem nos falha, nossas bochechas empalidecem; nossas lágrimas caem, embora sejam inúteis. Mas o que é mais vil do que se preocupar no próprio limiar da paz?
  17. A razão, entretanto, é que somos despojados de todos os nossos bens, abandonamos a carga de nossa vida e estamos em perigo; pois nenhuma parte da mesma foi acondicionada no porão; tudo foi lançado ao mar e se afastou. Os homens não se importam quão nobremente vivem, mas só por quanto tempo, embora esteja ao alcance de cada homem a viver nobremente, mas é impossível a qualquer homem viver por muito tempo.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Carta 21: Sobre o reconhecimento que meus escritos o trarão

A vigésima primeira carta de Seneca é muito peculiar. Enquanto estoicos não procuram fama, Sêneca promete a Lucílio manter seu nome conhecido após sua morte. Ele parece até se gabar do alcance e da importância de seus próprios escritos. Isso faz com que seja uma carta bastante “não-estoica”. (Contudo a promessa foi integralmente cumprida!)

“Eu encontrarei benevolência entre gerações posteriores; posso levar comigo nomes que durarão tanto quanto o meu. (XXI.5)”

Curiosamente, o que é mais valioso desta carta não é ensinado diretamente por Sêneca, mas o repetido de Epicuro: se você busca a felicidade, não tente aumentá-la, mas tente diminuir seu desejo. E é o mesmo com tudo que você luta: não corra atrás, mas controle o seu desejo.

“Se você quiser, enriquecer Pitão, não adicione dinheiro, mas subtraia seus desejos.” Esta ideia é muito clara para necessitar maior explicação, e muito inteligente para precisar de reforço. No entanto, há um ponto sobre o qual eu gostaria de alertá-lo – não considere que esta afirmação se aplica apenas às riquezas; seu valor será o mesmo, não importa como você aplique-a. “Se você quiser fazer Pitão honroso, não adicione às suas honras, mas subtraia de seus desejos”; “Se você desejar que Pitão tenha prazer para sempre, não adicione a seus prazeres, mas subtraia de seus desejos”…  (XXI.7-8)”

Enquanto a escola epicurista e a escola estoica estão em desacordo em muitos pontos, há também um grande terreno comum. Muitas vezes pensamos nos estoicos como seres sem emoção, racionais e nos epicuristas como hedonistas buscadores de prazer. A verdade é, como sempre, tem mais nuances. Talvez seja isso que se possa aprender com essa carta.

 

(imagem Alexandre, o grande no templo de Jerusalém por Sebastiano Conca)


XXI. Sobre o reconhecimento que meus escritos o trarão

Saudações de Sêneca a Lucílio.  

  1. Você conclui que está tendo dificuldades com aqueles homens sobre quem me escreveu? Sua maior dificuldade é com você mesmo; pois você é seu próprio obstáculo. Você não sabe o que quer. Você é melhor em escolher o curso correto do que em segui-lo. Você vê aonde está a verdadeira felicidade, mas não tem coragem de alcançá-la. Deixe-me dizer-lhe o que lhe impede, visto que você não o percebe.
  2. Você acha que este cargo, que você deseja abandonar, é de importância, e depois de decidir por aquele estado ideal de calma que você espera atingir, você é retido pelo brilho de sua vida presente, a qual tem intenção de abandonar, como se estivesse prestes a cair em um estado de trevas e imoralidade. Isso é um erro, Lucílio; passar de sua vida presente para outra é uma promoção. Há a mesma diferença entre essas duas vidas, como existe entre o mero reflexo e a luz real; a última tem uma fonte definida dentro de si, a outra empresta seu brilho; uma é suscitada por uma claridade que vem do exterior, e qualquer um que se coloque entre a fonte e o objeto transforma imediatamente este último em uma densa sombra; mas a outra tem um brilho que vem de dentro. São seus próprios estudos que farão você brilhar e torná-lo eminente, permita-me mencionar o caso de Epicuro.
  3. Ele estava escrevendo a Idomeneu[1] e tentando leva-lo de uma existência exibicionista para uma reputação segura e firme. Idomeneu era naquele tempo um ministro do estado que exercia uma autoridade severa e tinha assuntos importantes à mão. “Se”, disse Epicuro, “você é atraído pela fama, minhas cartas o farão mais famoso do que todas as coisas que você estima e que o fazem estimado.”
  4. Epicuro falou perfidamente? Quem hoje conheceria Idomeneu, se não tivesse o filósofo gravado seu nome nessas suas cartas? Todos os grandes senhores e sátrapas[2], até mesmo o próprio rei, que foi peticionado ao cargo que Idomeneu procurava, estão imersos em profundo esquecimento. As cartas de Cícero evitaram o perecimento do nome de Ático. De nada teria aproveitado Ático ter Agripa como genro, Tibério como marido de sua neta, e um Druso César como bisneto; mesmo estando rodeado desses poderosos nomes nunca se falaria seu nome, se Cícero não o tivesse associando-o a si mesmo.
  5. A força inexpugnável do tempo rolará sobre nós; alguns poucos grandes homens elevarão suas cabeças acima dele, e, embora destinados derradeiramente aos mesmos reinos do silêncio, batalharão contra o esquecimento e manterão seu terreno por muito tempo. O que Epicuro podia prometer a seu amigo, o mesmo lhe prometo, Lucílio. Eu encontrarei benevolência entre gerações posteriores; posso levar comigo nomes que durarão tanto quanto o meu. Nosso poeta Virgílio prometeu um nome eterno a dois heróis, e está mantendo sua promessa:
    Bem-aventurado par de heróis! Se minha canção tem poder, O registro de seus nomes nunca será apagado do livro do Tempo, enquanto ainda

    A tribo de Enéias manter o Capitólio, Aquela rocha impassível, e a majestade Romana

    O império se manterá.

    Fortunati ambo! Siquid mea carmina possunt,

    Nulla dies umquam memori vos eximet aevo,

    Dum domus Aeneae Capitoli immobile saxum

    Accolet imperiumque pater Romanus habebit.[3]

  6. Sempre que os homens são empurrados para a frente pela fortuna, sempre que eles se tornam parte integrante da influência de outrem, eles encontram abundante favor, suas casas são providas, apenas enquanto eles próprios mantêm sua posição; quando eles a deixam, eles desaparecem imediatamente da memória dos homens. Mas no caso da habilidade inata, o respeito por ela aumenta, e não só a honra se acumula no próprio homem, mas em tudo o que tem a sua memória é transmitido de um para outro.
  7. A fim de que Idomeneu não seja introduzido gratuitamente na minha carta, ele deve compensar o endividamento de sua própria conta. Foi a ele quem Epicuro dirigiu o conhecido ditado que o incitava a enriquecer Pitão, mas não rico do jeito vulgar e equivocado. “Se você quiser,” disse ele, “enriquecer Pitão, não adicione dinheiro, mas subtraia seus desejos.”
  8. Esta ideia é muito clara para necessitar maior explicação, e muito inteligente para precisar de reforço. No entanto, há um ponto sobre o qual eu gostaria de alertá-lo – não considere que esta afirmação se aplica apenas às riquezas; seu valor será o mesmo, não importa como você aplique-a. “Se você quiser fazer Pitão honroso, não adicione às suas honras, mas subtraia de seus desejos”; “Se você desejar que Pitão tenha prazer para sempre, não adicione a seus prazeres, mas subtraia de seus desejos”; “Se você deseja fazer Pitão um homem velho, enchendo sua vida ao máximo, não adicione a seus anos, mas subtraia de seus desejos.”
  9. Não há razão para que você considere que essas palavras pertencem somente a Epicuro; elas são propriedade pública. Penso que devemos fazer em filosofia como costumam fazer no Senado: quando alguém faz uma moção, da qual eu aprovo até certo ponto, peço-lhe que faça sua moção em duas partes, e eu voto pela parte que eu aprovo. Assim, fico ainda mais contente de repetir as ilustres palavras de Epicuro, para que eu possa provar àqueles que recorrem a ele por um mau motivo, pensando que terão uma tela para seus próprios vícios, que devem viver honrosamente, não importa qual escola sigam.
  10. Vá ao jardim dele e leia o lema esculpido lá:
    “Estranho, aqui você fará bem em se demorar, aqui nosso bem mais elevado é prazer.” Hospes, hic bene manebis, hic summum bonum voluptas est.

     

    O zelador daquela morada, amável anfitrião, estará pronto para você; ele o receberá com farinha de cevada e também servirá água em abundância, com estas palavras: “Você não está bem entretido?” “Este jardim, diz ele, não aguça o apetite, ele o apaga, nem o deixa mais sedento com cada gole, ele abranda a sede por um remédio natural, um remédio que não exige nenhuma recompensa. Este é o “Prazer” em que eu tenho envelhecido

  11. Ao falar com você, no entanto, eu me refiro a esses desejos que recusam alívio, que carecem de suborno para cessar. Pois em relação aos desejos excepcionais, que podem ser adiados, que podem ser corrigidos e controlados, eu tenho este pensamento para compartilhar com você: um prazer desse tipo é natural, mas não é necessário; não lhe devemos nada; tudo o que é gasto com ele é uma prenda gratuita. A barriga não ouve conselhos; faz exigências, importuna. E mesmo assim, não é uma credora problemática; você pode despacha-la a pequeno custo, desde que somente você lhe de o que você deve, não meramente tudo que você poderia dar.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Idomeneu de Lampsaco, foi um amigo e discípulo de Epicuro.

[2] Sátrapa era o nome dado aos governadores das províncias, chamadas satrapias, nos antigos impérios Aquemênida e Sassânida da Pérsia. Cada satrapia era governada por um sátrapa, que era nomeado pelo rei.

[3] Trecho de Eneida de Virgílio.

Carta 20: Sobre praticar o que se prega

Sêneca começa sua vigésima carta pedindo para Lucílio provar suas palavras por meio de suas ações. É um lembrete gritante de que o estoicismo é uma filosofia prática, destinada a ser implantada diariamente durante a vida, e não simplesmente contemplada por algumas horas por semana, quando podemos ler um livro por lazer.

Sêneca diz que devemos nos esforçar para manter “escrita e ações” de acordo uns com os outros, mas também reconhece imediatamente que este é um padrão elevado, difícil de manter. Por que as pessoas se comportam de maneira incoerente? Segundo Sêneca, esse é o resultado de dois problemas. O primeiro é que muitas pessoas simplesmente não se incomodam com as inconsistências entre suas ações e suas palavras, ou seja, não levam a sério a busca pela virtude. A segunda é que, mesmo que algumas pessoas estejam incomodadas, elas facilmente retornam a velhos hábitos, por falta de sabedoria.

Sêneca imagina Lucílio objetando que ele tem uma grande família para cuidar e que, portanto, precisa de muito dinheiro. Esse pode ser o caso, diz o filósofo, mas seus dependentes irão se virar ele parar de mimá-los, sugerindo que uma das vantagens da pobreza é que ela imediatamente revela quem são seus verdadeiros amigos: aqueles que ficam por perto mesmo quando há pouca vantagem material a ser obtida.

Essa linha de raciocínio leva Sêneca a sugerir  o exercício da autodeprivação moderada: “Considero, portanto, essencial fazer o que os grandes homens fazem com frequência: reservar alguns dias para nos prepararmos para a pobreza real por meio da pobreza imaginada…. Nenhum homem nasce rico. Todo homem, quando vê pela primeira vez a luz, é condenado a se contentar com leite e trapos.”(XX.13)

Esta prática pode tomar a forma de uma ducha fria (para lembrar de como é bom poder tomar as mais quentes), um dia ou dois de jejum (para aproveitar melhor a próxima refeição), uma semana ou mais sem comprar nada além de comida. Os exercícios de privação, então, têm múltiplas funções: eles testam nossa resistência, eles nos preparam para possíveis adversidades, eles nos lembram que muitas coisas que achamos que precisamos não são realmente necessárias, e eles reajustam nosso ciclo hedônico, fazendo-nos apreciar o que nós já temos.

( imagem Diógenes por Jean-Leon Gerome)


 

XX. Sobre praticar o que se prega

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Se você está em boa saúde e se você se considera digno de finalmente se tornar seu próprio mestre, estou contente. Pois o crédito será meu, se eu puder salvá-lo das inundações de golpes sem esperança de fim. Porém, meu caro Lucílio, peço e suplico, por sua parte, que deixe a sabedoria penetrar em sua alma, e teste seu progresso, não por mero discurso ou escritos, mas por força de coração e redução do desejo. Prove suas palavras por suas ações.
  2. Diferente é o propósito daqueles que discursam e tentam ganhar a aprovação de uma multidão de ouvintes, muito diferente daqueles que seduzem os ouvidos dos jovens e dos ociosos por meio de argumentação fluente; A filosofia nos ensina a agir, não a falar; exige de cada homem que viva de acordo com o seu próprio padrão, que a sua vida não esteja em desacordo com as suas palavras, e que, além disso, a sua vida interior deva ser não destoante, mas em harmonia com todas as suas atividades. Isto, eu digo, é o mais alto dever e a mais alta prova de sabedoria, – que ações e palavras estejam em acordo, que um homem deve ser sempre o mesmo sob todas as condições. “Mas,” você responde, “quem pode manter este nível?” Muito poucos, com certeza; mas há alguns. É de fato um empreendimento árduo, e não digo que o filósofo possa sempre manter o mesmo ritmo. Mas ele sempre pode seguir o mesmo caminho.
  3. Observe-se, então, e veja se suas vestes e sua casa são inconsistentes, se você se trata generosamente, mas sua família mal, se você come frugalmente, mas ainda constrói casas de luxo. Você deve aplicar, uma vez por todas, um único padrão de vida, e deve regular toda a sua vida de acordo com este padrão. Alguns homens se restringem em casa, mas andam empertigados diante do público; tal discordância é uma falha, e indica uma mente vacilante que ainda não pode manter seu equilíbrio.
  4. E eu posso dizer-lhe, ainda, de onde surge esta instabilidade e desacordo de ação e propósito; é porque nenhum homem decide o que deseja, e mesmo que o tenha feito, não persiste nisso, desiste; não só vacila, mas volta para a conduta que abandonou e repudiou.
  5. Portanto, omitindo as antigas definições de sabedoria e incluindo todo o modo de vida humana, posso ficar satisfeito com o seguinte: “O que é sabedoria? Sempre desejar as mesmas coisas, e sempre recusar as mesmas coisas[1]“. Você pode acrescentar uma pequena condição, – que o que se deseja, seja o certo; já que nenhum homem pode sempre estar satisfeito com a mesma coisa, a menos que esteja ela seja a certa.
  6. Por isso os homens não sabem o que desejam, a não ser no momento em que desejam; nenhum homem decidiu de uma vez por todas desejar ou recusar. O julgamento varia de dia para dia, e muda para o oposto, fazendo com que muitos homens passem a vida em uma espécie de jogo. Prossiga, portanto, como você começou; talvez você seja levado à perfeição, ou a um ponto no qual só você considere aquém da perfeição.
  7. “Mas o que,” você diz, “se tornará da minha casa cheia de gente sem uma renda?” Se você parar de apoiar essa gente, ela se sustentará; ou talvez vá aprender graças a pobreza o que não pode aprender por conta própria. A pobreza manterá para você seus amigos verdadeiros e provados; você será livrado dos homens que não o procuraram por você mesmo, mas por algo que você tem. Não é certo, no entanto, que você ame a pobreza, ainda que apenas por essa única razão, para mostrar por quem você é amado? Ou quando chegará esse ponto, quando ninguém disser mentiras para congratula-lo!
  8. Assim, deixe que seus pensamentos, seus esforços, seus desejos, ajudem a torná-lo satisfeito com seu próprio eu e com os bens que brotam de si mesmo; e empenhe todas as orações à Deus! Que felicidade poderia se aproximar de você? Traga-se a condições humildes, das quais você não pode ser expulso e para que você possa fazê-lo com maior espontaneidade, a contribuição contida nesta carta irá se referir a esse assunto; eu o concederei imediatamente.
  9. Embora você possa olhar com desconfiança, Epicuro, mais uma vez, ficará contente em liquidar meu endividamento: “Acredite, suas palavras serão mais imponentes se você dormir em uma cama estreita e usar trapos, pois nesse caso você não estará simplesmente dizendo, você estará demonstrando sua verdade.” De qualquer modo, escuto com um espírito diferente as palavras de nosso amigo Demétrio, depois que o vi recostado sem sequer um manto para cobri-lo, e, mais do que isso, sem tapetes para deitar. Ele não é apenas um mestre da verdade, mas uma testemunha da verdade.
  10. “Não pode um homem, no entanto, desprezar a riqueza quando ela está em seu próprio bolso?” Claro; também é de grande alma, quem vê riquezas amontoadas em torno de si e, depois de se perguntar longa e profundamente porque elas chegaram em sua posse, sorri e ouve, em vez de sentir que elas são suas. Significa muito não ser estragado pela intimidade com as riquezas; e é verdadeiramente grande, quem é pobre em meio às riquezas.
  11. “Sim, mas eu não sei”, você diz, “como o homem de quem você fala sofrerá a pobreza, se cair nela de repente”. Nem eu, Epicuro, sei se o pobre de quem você fala vai desprezar as riquezas, se esta, de repente, chegar a ele; portanto, no caso de ambos, é a mente que deve ser avaliada, e devemos investigar se o seu homem está satisfeito com a sua pobreza, e se o meu homem está descontente com suas riquezas. Caso contrário, a cama estreita e os trapos são uma prova fraca de suas boas intenções, se não for deixado claro que a pessoa referida sofre essas provações não por necessidade, mas por escolha.
  12. É, contudo, a marca de um espírito nobre não se precipitar em tais coisas por serem melhores, mas pô-las à pratica, porque são desse modo fáceis de suportar. E são fáceis de suportar, Lucílio; quando, no entanto, você chegar a elas depois de uma longa prova, elas são ainda agradáveis; pois elas contêm uma sensação de liberdade, – e sem isso nada é agradável.
  13. Considero, portanto, essencial fazer o que os grandes homens fazem com frequência: reservar alguns dias para nos prepararmos para a pobreza real por meio da pobreza imaginada. Há mais razão para fazer isso, porque estamos impregnados de luxo e consideramos todos os deveres árduos e onerosos. Em vez disso, deixe a alma ser despertada de seu sono e ser estimulada, e que seja lembrada que a natureza prescreveu muito pouco para nós. Nenhum homem nasce rico. Todo homem, quando vê pela primeira vez a luz, é condenado a se contentar com leite e trapos. Tal é o nosso começo, e ainda assim os reinos são todos muito pequenos para nós[2]!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Sêneca aplica à sabedoria a definição de amizade de Salústio, ” idem velle atque idem nolle, ea demui firma amicitia est“.

[2] Adaptado do epigrama sobre Alexandre o Grande, “hic est quem non capit orbis” em Plutarco.

Carta 19. Sobre Materialismo e Retiro

Nesta carta Sêneca nos alerta sobre a verdadeira amizade e mais uma vez mostra os riscos da ganância.

Sêneca diz que devemos escolher nossos amigos sem pensar nos benefícios que iremos receber destes, ou que a eles daremos: “é um erro escolher o seu amigo no salão de recepção ou testá-lo na mesa de jantar. O infortúnio mais grave para um homem ocupado que é dominado por suas posses é quando ele acredita que os homens são seus amigos mesmo que ele próprio não seja um amigo para estes e que ele considere seus favores eficazes na conquista de amigos, certos homens, quanto mais devem, mais odeiam. Uma dívida insignificante torna um homem seu devedor; uma grande faz dele um inimigo.” (XIX.11)

Termina a carta com mais uma citação de Epicuro: “Você deve refletir cuidadosamente com quem você deve comer e beber, ao invés do que você deve comer e beber, pois um jantar de carnes sem a companhia de um amigo é como a vida de um leão ou um lobo.” (XIX. 10)

(Imagem Daniel na cova dos Leões  por Rubens. )


 

Sobre Materialismo e Retiro

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Pulo de alegria sempre que recebo cartas de você. Pois me enchem de esperança; não são meras presunções sobre você, mas garantias reais. E rogo que continue neste caminho; pois que melhor pedido eu poderia fazer a um amigo do que um que possa ser feito para seu próprio bem? Se possível, retire-se de todos os negócios de que fala; e se você não pode fazer isto, afaste-se mesmo com prejuízo. Já gastamos bastante do nosso tempo – vamos na velhice começar a arrumar nossa bagagem.
  2. Certamente não há nada nisso que os homens possam cobiçar. Passamos nossas vidas em alto mar; que morramos no porto. Não que eu aconselhe você a tentar ganhar renome por seu retiro; O retiro não deve ser alardeado nem ocultado. Não ocultado, eu digo, porque não vou exortá-lo a rejeitar todos os homens como loucos e depois procurar a si mesmo um refugio; ao invés de fazer isso sua prática, que seu retiro não seja notável, embora deva ser evidente.
  3. Em segundo lugar, enquanto aqueles cuja escolha é livre desde o início irão deliberar sobre essa questão, caso eles queiram passar a vida em obscuridade. No seu caso, não há uma livre escolha. Sua habilidade e energia o empurraram para os negócios do mundo; assim tem o encanto de seus escritos e as amizades que você fez com homens famosos e notáveis. A fama já o conquistou. Você pode se afundar nas profundezas da obscuridade e se esconder completamente; contudo seus atos anteriores o revelarão.
  4. Você não pode manter-se à espreita no escuro; muito do brilho anterior lhe seguirá onde quer que vá. Paz que você pode reivindicar para si mesmo sem ser detestado por ninguém, sem qualquer sensação de perda, e sem dores de espírito. Por que você deixaria para trás algo que você pode imaginar-se relutante em abandonar? Seus clientes? Mas nenhum desses homens lhe corteja por você mesmo; eles meramente cortejam algo de você. As pessoas costumavam caçar amigos, mas agora elas caçam o dinheiro; se um velho solitário muda seu testamento, o visitante assíduo se transfere para outra porta. Grandes coisas não podem ser compradas por pequenas somas; por isso considere se é preferível deixar seu próprio eu verdadeiro, ou apenas alguns de seus pertences.
  5. Que você tivesse o privilégio de envelhecer em meio às circunstâncias limitadas de sua origem, e que sua fortuna não o tivesse elevado a tais alturas! Você foi afastado da oportunidade da vida saudável por sua rápida ascensão à prosperidade, pela sua província, pelo seu cargo de procurador[1] e por tudo o que tais coisas prometem; Em seguida, você vai adquirir responsabilidades mais importantes e depois delas ainda mais. E qual será o resultado?
  6. Por que esperar até que não haja nada para você desejar? Esse tempo nunca chegará. Nós sustentamos que há uma sucessão de causas, das quais o destino é tecido; Da mesma forma, você pode ter certeza, há uma sucessão em nossos desejos; pois um começa onde seu antecessor termina. Você foi empurrado para uma existência que nunca por si só porá fim na sua miséria e sua escravidão. Retire seu pescoço cansado da canga; é melhor tê-lo cortado uma vez por todas, do que escoriado eternamente.
  7. Se você se manter em privacidade, tudo estará em menor escala, mas você ficará abundantemente satisfeito; na sua condição atual, no entanto, não há satisfação na abundância que é jogada em cima de você por todos os lados. Você prefere ser pobre e saciado, ou rico e faminto? A prosperidade não é apenas gananciosa, mas também é exposta à ganância dos outros. E desde que nada o satisfaça, você mesmo não pode satisfazer os outros.
  8. “Mas”, você diz, “como posso me retirar?” De qualquer maneira que lhe agrade. Reflita quantos riscos você correu por causa do dinheiro, e quanto trabalho você empreendeu para um título! Você deve ousar algo para ganhar tempo livre também – ou então envelhecerá em meio às preocupações de atribuições no exterior e, posteriormente, a deveres cívicos em seu país, vivendo em agitação e em inundações de novas responsabilidades, que ninguém jamais conseguiu evitar por discrição ou por reclusão. Qual a influência no caso tem seu desejo pessoal de uma vida isolada? Sua posição no mundo deseja o oposto! E se, ainda agora, você permitir que essa posição cresça mais? Tudo o que for adicionado aos seus sucessos será adicionado aos seus medos.
  9. Neste ponto, gostaria de citar uma frase de Mecenas, que falou a verdade quando em seu auge: “Há trovões mesmo nos picos mais altos”. Se você me perguntar em que livro essas palavras são encontradas, elas ocorrem no volume intitulado Prometeu. Ele simplesmente queria dizer que esses altos picos têm seus cumes rodeados de trovoadas. Mas será que qualquer poder vale tão alto preço que um homem como você jamais conseguiria, para obtê-lo, adotar um estilo tão pervertido? Mecenas era de fato um homem de recursos, que teria deixado um grande exemplo para o oratório romano seguir, se sua boa fortuna não o tivesse tornado afeminado, – não, se não o tivesse emasculado! Um fim como o dele também o espera, a não ser que você baixe imediatamente as velas e – deferentemente de Mecenas, esteja disposto a abraçar a praia!
  10. Este texto de Mecenas pôde ter quitado minha divida com você; mas tenho certeza, conhecendo-lhe, de que obterá uma penhora contra mim, e que não estará disposto a aceitar o pagamento da minha dívida em moeda tão grosseira e vil. Seja como for, devo recorrer ao relato de Epicuro. Ele diz: “Você deve refletir cuidadosamente com quem você deve comer e beber, ao invés do que você deve comer e beber, pois um jantar de carnes sem a companhia de um amigo é como a vida de um leão ou um lobo.
  11. Este privilégio não será seu a menos que você se afaste do mundo; caso contrário, você terá como convidados apenas aqueles que seu secretário selecionar na multidão de peticionários. No entanto, é um erro escolher o seu amigo no salão de recepção ou testá-lo na mesa de jantar. O infortúnio mais grave para um homem ocupado que é dominado por suas posses é quando ele acredita que os homens são seus amigos mesmo que ele próprio não seja um amigo para estes e que ele considere seus favores eficazes na conquista de amigos, certos homens, quanto mais devem, mais odeiam. Uma dívida insignificante torna um homem seu devedor; uma grande faz dele um inimigo.
  12. “O quê”, você diz, “Bondades não estabelecem amizades?” Elas as estabelecem, se tiverem o privilégio de escolher aqueles que devam recebê-las, e se forem colocadas judiciosamente, em vez de serem espalhadas ao acaso. Portanto, enquanto você está começando a criar uma mente própria, aplique esta máxima do sábio: considere que é mais importante quem recebe uma coisa, do que aquilo que ele recebe.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] O procurador fazia o trabalho de um questor em uma província imperial. Posições em Roma a que Lucílio poderia ter sucesso seriam as de praefectus annonae, encarregado do fornecimento de grãos, ou praefectus urbi, Diretor de Segurança Pública e outros.

Carta 17: Sobre Filosofia e Riquezas

Mais uma vez Sêneca aborda a questão da pouca importância do dinheiro para a felicidade e exalta Lucílio colocar o estudo da filosofia em primeiro plano, deixando a acumulação de riquezas em segundo.

Tal conselho, vindo de um dos mais ricos homens de Roma pode parecer hipócrita, e o próprio Sêneca era alvo de seus críticos, que perguntavam: “Por que você fala muito melhor do que vive?” Sêneca em seus escritos discorre sobre a possibilidade de alguém ser rico, até mesmo extremamente rico, e manter a integridade ética. Existem três critérios principais para isso, Sêneca nos diz.

  1. O rico virtuoso deve manter a atitude correta, alheia e não-escrava em relação à sua riqueza, possuindo-a sem obrigação e disposto a desistir de tudo quando necessário: “Ele é um grande homem que usa pratos de barro como se fossem de prata; mas é igualmente grande quem usa a prata como se fosse barro“. (Carta 98:  Sobre a inconstância da fortuna)
  2. Em segundo lugar, ele deve adquirir riquezas de maneira moralmente legítima, para que seu dinheiro não seja “manchado de sangue ”.
  3. Em terceiro lugar, ele deve usar suas riquezas generosamente, para beneficiar os menos favorecidos do que ele – uma disposição que convida à comparação com o trabalho de caridade praticado por filantropos ricos em nosso próprio tempo.

(Imagem O julgamento de Midas por Pieter Jacobsz. Codde)

 

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Sobre Filosofia e Riquezas

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Elimine todas as coisas desse tipo, se você é sábio; ou melhor, para que seja sábio; objetive uma mente sã, rápida e com toda a sua força. Se qualquer vínculo o retém, desfaça-o ou corte-o. “Mas”, diz você, “minha propriedade me atrasa, desejo fazer tal arranjo, que me sustente quando não puder mais trabalhar, para que a pobreza não seja um fardo para mim, ou eu mesmo um fardo para os outros.”
  2. Você não parece, ao dizer isto, conhecer a força e o poder desse bem que você está considerando. De fato, você compreende tudo o que é importante, o grande benefício que a filosofia confere, mas você ainda não discerne com precisão suas várias funções, nem sabe quão grande é a ajuda que recebemos da filosofia em tudo, para usar a linguagem de Cícero, ela não só nos ajuda nas maiores questões, mas também desde a menor. Siga meu conselho; chame a sabedoria em consulta; ela irá aconselhá-lo a não sentar para sempre em seu livro-razão.
  3. Sem dúvida, seu objetivo, o que você deseja alcançar com tal adiamento de seus estudos, é que a pobreza não lhe aterrorize. Mas e se ela for algo a desejar? As riquezas têm impedido muitos homens de alcançarem a sabedoria; a pobreza é desembaraçada e livre de cuidados. Quando a trombeta soa, o homem pobre sabe que não está sendo atacado; quando há um grito de “fogo”, ele só procura uma maneira de escapar, e não pergunta o que pode salvar; se o homem pobre deve ir para o mar, o porto não ressoa, nem os cais são abalados com o séquito de um indivíduo. Nenhuma multidão de escravos envolve o homem pobre, escravos para cujas bocas o mestre deve cobiçar as plantações férteis de seus vizinhos.
  4. É fácil preencher poucos estômagos, quando eles são bem treinados e anseiam nada mais, a não ser serem preenchidos. A fome custa pouco; O escrúpulo custa muito. A pobreza está satisfeita com o preenchimento de necessidades urgentes. Por que, então, você deve rejeitar a Filosofia como uma amiga?
  5. Mesmo o homem rico segue seus caminhos quando é sensato. Se você deseja ter tempo livre para sua mente, seja um pobre homem, ou se assemelhe a um pobre homem. O estudo não pode ser útil a menos que você se esforce para viver simplesmente; e viver simplesmente é pobreza voluntária. Então, fora com todas as desculpas, como: “Eu ainda não tenho o suficiente, quando eu ganhar a quantidade desejada, então vou me dedicar inteiramente à filosofia.” E, no entanto, este ideal, que você está adiando e colocando em segundo lugar, deve ser assegurado em primeiro lugar; você deve começar com ele. Você retruca: “Eu desejo adquirir algo para viver.” Sim, mas aprenda enquanto você está adquirindo; pois se alguma coisa o proíbe de viver nobremente, nada o proíbe de morrer nobremente.
  6. Não há nenhuma razão pela qual a pobreza deva nos afastar da filosofia, – não, nem mesmo a necessidade real. Pois, quando se aprofunda na sabedoria, podemos suportar até a fome. Os homens suportaram a fome quando suas cidades foram sitiadas, e que outra recompensa por sua resistência eles obtiveram a não ser não cair sob o poder do conquistador? Quão maior é a promessa de liberdade eterna, e a certeza de que não precisamos temer nem a Deus nem aos homens! Mesmo que nós morramos de fome, devemos alcançar essa meta.
  7. Os exércitos suportam toda a maneira de carestia, vivem de raízes, e resistem à fome com alimentos repugnantes demais para mencionar. Tudo isso eles têm sofrido para ganhar um reino, e, o que é mais assombroso, ganhar um reino que será de outro. Será que algum homem hesitaria em suportar a pobreza, a fim de libertar sua mente da loucura? Portanto, não se deve procurar primeiro acumular riquezas; pode-se chegar na filosofia, mesmo sem dinheiro para a viagem.
  8. É mesmo assim. Depois de ter possuído todas as outras coisas, também deseja possuir sabedoria? É a filosofia o último requisito da vida, uma espécie de suplemento? Não, seu plano deve ser este: ser um filósofo agora, se você tem alguma coisa ou não, – se você tem alguma coisa, como você sabe que já não tem muito? – Mas se você não tem nada, procure o discernimento primeiro, antes de qualquer outra coisa.
  9. “Mas,” você diz, “eu irei carecer das necessidades da vida.” Em primeiro lugar, você não pode carecer delas; porque a natureza exige pouco, e o homem sábio adapta suas necessidades à natureza. Mas se maior necessidade chegar, ele rapidamente se despedirá da vida e deixará de ser um problema para si mesmo. Se, no entanto, seus meios de existência forem escassos e reduzidos, ele fará o melhor deles, sem se preocupar ou se preocupar com nada mais do que com as necessidades básicas; fará justiça ao seu ventre e aos seus ombros; com espírito livre e feliz, rir-se-á da agitação dos homens ricos e dos caminhos confusos daqueles que se abalam em busca da riqueza,
  10. e dirá: “Por que, por sua própria vontade, adia a vida real para o futuro distante? Para que algum juro seja depositado, ou por algum dividendo futuro, ou para um lugar no testamento de algum velho rico, quando você pode ser rico aqui e agora? A sabedoria oferece a riqueza a vista, e paga em dobro àqueles em cujos olhos ela tornou a riqueza supérflua.” Estes comentários referem-se a outros homens; você está mais perto da classe rica. Mude a sua idade, e você terá muito[1]. Mas em todas as idades, o que é necessário permanece o mesmo.
  11. Eu poderia encerrar minha carta neste momento, se eu não o tivesse acostumando mal. Não se pode cumprimentar a realeza sem trazer um presente; e no seu caso eu não posso dizer adeus sem pagar um preço. Mas o que será? Tomarei emprestado de Epicuro: “A aquisição de riquezas tem sido para muitos homens, não um fim, mas uma mudança, de problemas”.
  12. Não me admiro. Pois a culpa não está na riqueza, mas na própria mente. Aquilo que fez da pobreza um fardo para nós, torna as riquezas também um fardo. Assim como pouco importa se você coloca um homem doente em uma cama de madeira ou sobre uma cama de ouro, pois onde quer que ele seja movido ele vai levar sua doença com ele, por isso não é preciso se importar se a mente doente é outorgada às riquezas ou à pobreza. O padecimento vai com o homem.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Isto é, imagine-se jovem.

Carta 14: Sobre as razões para se retirar do mundo

Esta a primeira carta na qual Sêneca explicitamente coloca orientação política em seus ensinamentos e diz a Lucílio que muitas vezes devemos considerar um governante tirano da mesma forma que um capitão prudente vê uma tempestade, ele desvia seu curso e não tenta mudar aquilo que sabe ser muito mais forte.

A carta termina com um alerta sobre os riscos da busca por riquezas: “Aquele que anseia riquezas sente medo por conta delas. Nenhum homem, no entanto, goza de uma bênção que traz ansiedade; ele está sempre tentando adicionar um pouco mais. Enquanto ele se intrica em aumentar sua riqueza, ele se esquece de usá-la. Ele recolhe suas contas, desgasta o pavimento do fórum, ele revira seu livro-razão, – em suma, ele deixa de ser mestre e torna-se um mordomo.” (XIV.17)

(imagem O Julgamento de Cambises por Gerard David)

XIV. Sobre as razões para se retirar do mundo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Confesso que todos temos um afeto inato por nosso corpo; confesso que somos responsáveis por sua proteção. Eu não defendo que o corpo não deva ser saciado em tudo; mas mantenho que não devemos ser escravos dele. Haverão muitos que fazem de seu corpo seu mestre, que temem demasiadamente por ele, que julgam tudo de acordo com o corpo.
  2. Devemos nos conduzir não como se devêssemos viver para o corpo, mas como se não pudéssemos viver sem ele. Nosso grande amor por ele nos deixa inquietos de medo, nos sobrecarrega de cuidados e nos expõe a ofensas. A virtude é considerada inferior pelo homem que considera seu corpo muito importante. Devemos cuidar do corpo com o maior cuidado; mas também devemos estar preparados, quando a razão, o amor-próprio e o dever exigem o sacrifício, para entregá-lo inclusive às chamas.
  3. Contudo, na medida do possível, evitemos tanto os desconfortos como os perigos, e retiremo-nos a um terreno seguro, pensando continuamente em como repelir todos os objetos do medo. Se não me engano, há três classes principais: temos medo da carestia, tememos a doença e tememos os problemas que resultam da violência dos mais fortes.
  4. E de tudo isso, o que mais nos assusta é o pavor que paira sobre nós da supremacia de nosso vizinho; pois é acompanhada por grande clamor e tumulto. Mas os males naturais que eu mencionei, carestia e doença, nos furtam silenciosamente sem terror aos olhos ou aos ouvidos. O outro tipo de mal vem, por assim dizer, sob a forma de grande desfile militar. Em torno dele há um séquito de espadas, fogo e correntes e uma multidão de animais para ser solto sobre as entranhas evisceradas dos homens.
  5. Imagine-se submetido à prisão, à cruz, à tortura, à forca e à empalação. Pense nos membros humanos rasgados por cavalos movidos em direções opostas, da camisa terrível besuntada com materiais inflamáveis, e de todos os outros aparelhos inventados pela crueldade, além daqueles que eu mencionei! Não é de admirar, então, se nosso maior terror é de tal sorte; porque ele vem em muitas formas e sua parafernália é aterrorizante. Pois assim como o torturador conquista mais em proporção a quantidade de instrumentos que exibe, – de fato, o espetáculo vence aqueles que teriam pacientemente resistido ao sofrimento, – similarmente, de todos os agentes que coagem e dominam nossas mentes, os mais eficazes são aqueles ostensivos. Esses outros problemas não são, evidentemente, menos graves; quero dizer fome, sede, úlceras do estômago e febre engolem nossas entranhas. Eles são, no entanto, secretos; elos não vociferam e se anunciam; mas aqueles, com formidáveis vestimentas de guerra, prevalecem em virtude de sua ostentação e aparelhagem.
  6. Vamos, portanto, cuidar para que nos abstenhamos de ofender. Às vezes é o povo que devemos temer; ou às vezes um grupo de oligarcas influentes no Senado, se o método de governar o Estado é tal que a maior parte do negócio é feito por esse grupo; e às vezes indivíduos equipados com poder pelo povo e contra o povo. É oneroso manter a amizade de todas essas pessoas; basta não fazer deles inimigos. Assim o sábio nunca provocará a ira daqueles que estão no poder; mais que isso, o sábio vai mesmo mudar seu curso, exatamente como iria desviar-se de uma tempestade se estivesse conduzindo um navio.
  7. Quando você viajou para a Sicília, você atravessou o estreito. O capitão imprudente desdenhou o violento vento sul – vento que encrespa o mar siciliano e cria correntes poderosas – ele não procurou a costa à esquerda? A praia pedregosa de onde Caríbdis[1] agita os mares em confusão. Seu capitão mais cuidadoso, entretanto, questiona aqueles que conhecem a localidade quanto às marés e ao significado das nuvens; Ele mantém seu curso longe daquela região notória por suas águas turbilhonantes. Nosso sábio faz o mesmo, foge de um homem forte que pode ser nocivo ele, fazendo questão de não parecer evitá-lo, porque uma parte importante de sua segurança reside em não buscar segurança abertamente; porque aquilo que se evita, se condena.
  8. Portanto, devemos olhar ao redor e verificar como podemos nos proteger da multidão. E antes de tudo, não devemos ter ânsias como as dela; pois a rivalidade resulta em conflitos. Novamente, possuamos nada que possa ser arrebatado de nós para o grande lucro de um inimigo conspirador. Permita que haja o menor espólio possível na sua pessoa. Ninguém se propõe a derramar o sangue de seus semelhantes por causa do sangue em si, de qualquer maneira, apenas muito poucos. Mais assassinos especulam sobre seus lucros do que em dar vazão ao ódio. Se você está de mãos vazias, o salteador de estrada passa por você: mesmo ao longo de uma estrada infestada, os pobres podem viajar em paz.
  9. Em seguida, devemos seguir o velho ditado e evitar três coisas com especial cuidado: ódio, ciúme e desdém. E só a sabedoria pode mostrar-lhe como isso pode ser feito. É difícil seguir o meio termo; devemos ser cuidadosos para não deixar que o medo do ciúme nos leve a tornar-se desdenhosos, para que, quando escolhemos não menosprezar os outros, deixemos que eles pensem que podem nos menosprezar. O poder de inspirar medo tem causado muitos homens a terem medo. Afastemo-nos de todas as maneiras; pois é tão nocivo ser desprezado quanto a ser admirado.
  10. Você deve, portanto, refugiar-se na filosofia; essa busca, não só aos olhos dos homens bons, mas também aos olhos dos que são mesmo moderadamente maus, é uma espécie de emblema protetor. Pois o discurso no tribunal, ou qualquer outra busca por atenção popular, traz inimigos para um homem; mas a filosofia é pacífica e foca-se em seu próprio negócio. Os homens não podem desprezá-la; ela é honrada por cada profissão, até mesmo a mais vil entre elas. O mal nunca pode crescer tão forte, e a nobreza de caráter nunca pode ser tão conspirada, que o nome da filosofia deixe de ser digno e sagrado. Filosofia em si, no entanto deve ser praticada com calma e moderação.
  11. “Muito bem, então,” você responde, “você considera a filosofia de Marco Catão como moderada?” A voz de Catão se esforçou para reprimir uma guerra civil. Catão segurou as espadas de chefes de clãs enlouquecidos. Quando alguns pereceram vítimas de Pompeu e outros de César, Catão desafiou as duas facções ao mesmo tempo!
  12. Não obstante, alguém pode muito bem questionar, se, naqueles dias, um sábio deveria ter tomado alguma parte nos assuntos públicos, e perguntado: “O que você quer dizer, Marco Catão? Não é agora uma questão de liberdade, há muito tempo a liberdade foi desmoronada e arruinada. A questão é se César ou Pompeu controlam o Estado. Por que, Catão, você deve tomar partido nessa disputa? Não é assunto seu, um tirano está sendo escolhido. O melhor pode vencer, mas o vencedor é condenado a ser o pior homem.” Refiro-me ao papel final de Catão. Mas mesmo nos anos anteriores o homem sábio não foi autorizado a intervir em tal pilhagem do estado; pois o que poderia fazer Catão senão erguer a voz e pronunciar palavras em vão? Em certa ocasião ele foi “agitado” pela multidão e foi cuspido e forçosamente removido do fórum e assinalado para o exílio; em outro, foi levado direto do senado para a prisão.
  13. Contudo, consideraremos mais tarde[2] se o sábio deve dar atenção à política; entretanto, peço-lhe que considere aqueles estoicos que, afastados da vida pública, se retiraram para privacidade com o propósito de melhorar a existência dos homens e elaborar leis para a raça humana sem incorrer no descontentamento daqueles que estão no poder. O homem sábio não perturbará os costumes do povo, nem atrairá a atenção da população por quaisquer modos de vida novos.
  14. “O que, então? Pode alguém seguir este plano estar seguro de qualquer forma?” Não posso garantir-lhe isto mais do que posso garantir uma boa saúde no caso de um homem que observe a moderação; embora, de fato, boa saúde resulte de tal moderação. Às vezes um navio afunda no porto; mas o que você acha que acontece em mar aberto? E quão mais cercado de perigo um homem estaria, que mesmo em seu lazer não está seguro, se ele estiver ocupado trabalhando em muitas coisas! As pessoas inocentes às vezes perecem; quem negaria isso? Mas os culpados perecem com mais frequência. A habilidade de um soldado não é julgada se ele recebe o golpe de morte através de sua armadura.
  15. E, finalmente, o homem sábio considera a razão de todas as suas ações, mas não os resultados. O começo está em nosso próprio poder; a fortuna decide o assunto, mas eu não permito que ela passe sentença sobre mim mesmo. Você pode dizer: “Mas ela pode infligir uma medida de sofrimento e de problemas.” O bandido não passa sentença quando mata.
  16. Agora você estende sua mão para o presente diário. Áureo, de fato, será o presente com o qual eu o agraciarei; e, na medida em que mencionamos o ouro, deixe-me dizer-lhe como o seu uso e gozo pode trazer-lhe maior prazer. “Aquele que menos precisa de riquezas, desfruta mais das riquezas“. “Nome do autor, por favor!”, você diz. Agora, para mostrar o quão generoso eu sou, é minha intenção elogiar as ditas de outras escolas. A frase pertence a Epicuro, ou Metrodoro, ou alguém daquela escola de pensamento particular.
  17. Mas que diferença faz quem disse as palavras? Elas foram proferidas ao mundo. Aquele que anseia riquezas sente medo por conta delas. Nenhum homem, no entanto, goza de uma bênção que traz ansiedade; ele está sempre tentando adicionar um pouco mais. Enquanto ele se intrica em aumentar sua riqueza, ele se esquece de usá-la. Ele recolhe suas contas, desgasta o pavimento do fórum, ele revira seu livro-razão, – em suma, ele deixa de ser mestre e torna-se um mordomo.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Caríbdis (em grego: Χάρυβδις), na mitologia grega, era uma criatura marinha protetora de limites territoriais no mar. Em outra tradição, seria um turbilhão criado por Poseidon.

[2] Ver carta XXII.