Pensamento do Dia #19: Amizade

devo recorrer ao relato de Epicuro.  Ele diz: “Você deve refletir cuidadosamente com quem você deve comer e beber, ao invés do que você deve comer e beber, pois um jantar de carnes sem a companhia de um amigo é como a vida de um leão ou um lobo.

Nenhuma vida pode ser feliz sem amigos, e nenhuma vida será infeliz com eles.

(Sêneca, Carta19. Sobre Materialismo e Retiro– Imagem Daniel na cova dos Leões  por Rubens. ) Carta completa no Volume I.

 

 

Pensamento do Dia #18: Sobre o medo natural da morte

Em comemoração aos 300 seguidores que a Página O Estoico atingiu hoje no Facebook o Pensamento do Dia é baseado na Carta 82 na qual Sêneca cita os 300 de Esparta.

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Eu classifico como “indiferente” – ou seja, nem o bem nem o mal – a doença, a dor, a pobreza, o exílio e a morte. Nenhuma dessas coisas é intrinsecamente gloriosa. Pois não é a pobreza que louvamos, é o homem a quem a pobreza não pode humilhar ou dobrar. Nem é o exílio que louvamos, é o homem que se retira para o exílio no espírito em que teria enviado outro para o exílio. Não é a dor que louvamos, é o homem a quem a dor não coagiu. Ninguém elogia a morte, mas o homem cuja alma a morte tira antes que possa amaldiçoa-la. (…)

Eu aponto os espartanos em guarda no próprio desfiladeiro das Termópilas![1] Eles não têm esperança de vitória, nenhuma esperança de retornar. Mas pegue Leônidas: quão bravamente ele discursou aos seus homens! Ele disse: “Companheiros, vamos ao nosso café da manhã, sabendo que vamos jantar no Hades[2]!”

Não são os 300, é toda a humanidade que deve ser aliviada do medo da morte. Mas como você pode provar a todos aqueles homens que a morte não é nenhum mal?

(Sêneca, Carta82. Sobre o medo natural da morte – Imagem Leonidas nas Termópilas por Jacques-Louis David. ) Carta completa no Volume II.

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[1] Hades na mitologia grega, é o deus do mundo inferior e dos mortos. Seu nome era usado frequentemente para designar tanto o deus quanto o reino que governa, nos subterrâneos da Terra.

[2] A Batalha das Termópilas foi travada no contexto da Segunda Guerra Médica entre uma aliança de cidades gregas lideradas pelo rei de Esparta Leônidas I e o Império Aquemênida de Xerxes I. A batalha durou três dias e se desenrolou no desfiladeiro das Termópilas em agosto ou setembro de 480a.C.

 

Pensamento do Dia #17: Você é apenas um Filtro

Você sabe o sabor do vinho e dos licores. Não faz diferença se centenas ou milhares de medidas passam por sua bexiga; você não é nada senão um filtro. Você é conhecedor do sabor da ostra e do salmonete; o seu luxo não deixou nada a ser desbravado em anos vindouros; e ainda assim estas são as coisas das quais você é arrancado involuntariamente. O que mais você lamentaria ser retirado de você?

Não há vida que não seja curta.  É com a vida como é com uma peça de teatro, – não importa por quanto tempo a ação é tecida, mas quão boa é a atuação.

(Sêneca, Carta 78, Sobre Tomar a própria vida )

Carta completa no Volume II.

Carta 7: Sobre multidões

A sétima carta de Seneca para o seu amigo Lucílio é sobre multidões, e por que um estoico (ou qualquer pessoa sã, realmente) deve evitá-la.

Como é frequente no caso do Seneca, a afirmação pode soar elitista, mas prefiro a leitura mais caridosa na qual ele está descrevendo a realidade das interações humanas: muitas pessoas são realmente gananciosas, ambiciosas, cruéis, e se alguém está tentando se treinar para evitar tais atitudes, então é melhor diminuindo a exposição, tanto quanto possível. Os leitores modernos também farão bem em lembrar o contexto cultural em que Sêneca estava vivendo e escrevendo:

“Pela manhã lançam homens aos leões e aos ursos; ao meio-dia, jogam-nos aos espectadores. … E quando os jogos param para o intervalo, eles anunciam: ‘Um pouco gargantas sendo cortadas, para que possa haver algo acontecendo!’ (VII.4-5)”

Seneca está particularmente preocupado com a exposição dos jovens às multidões: “O jovem caráter, que não consegue se manter íntegro, deve ser resgatado da multidão; é muito fácil tomar o partido da maioria. ”


Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você me pergunta o que você deve considerar evitar em especial? Eu digo, multidões; Porque ainda não pode confiar em si com segurança. Admito, de qualquer maneira, minha própria fraqueza; porque eu nunca trago de volta para casa o mesmo caráter que eu levei para fora comigo. Algo do que eu tenho forçado a ficar em paz dentro de mim é perturbado; alguns dos inimigos que eu havia eliminado voltam novamente. Assim como o homem doente, que tem estado fraco há muito tempo, está em tal condição que não pode ser tirado de casa sem sofrer uma recaída, então nós mesmos somos afetados quando nossas almas estão se recuperando de uma doença prolongada.
  2. Ligar-se à multidão é prejudicial; não há ninguém que não torne algum vício cativante para nós, nem o escancare sobre nós, nem nos manche inconscientemente com ele. Certamente, quanto maior a multidão com que nos misturamos, maior o perigo. Mas nada é tão prejudicial ao bom caráter como o hábito de frequentar os estádios; pois é lá que o vício penetra sutilmente por uma avenida de prazer.
  3. O que você acha que eu quero dizer? Quero dizer que volto para casa mais ganancioso, mais ambicioso, mais voluptuoso e ainda mais cruel e desumano, porque eu estive entre os seres humanos. Por acaso, eu assisti a uma apresentação matutina, esperando um pouco de diversão, sagacidade e relaxamento, uma exposição na qual os olhos dos homens têm descanso do massacre de seus semelhantes. Mas foi exatamente o contrário. Antigamente esses combates eram a essência da compaixão; mas agora todo o trivial é posto de lado e resta apenas puro assassinato. Os homens não têm armadura defensiva[1]. Eles estão expostos a golpes em todos os pontos, e ninguém nunca atira em vão.
  4. Muitas pessoas preferem este programa aos duelos habituais e combates “a pedido”. Claro que sim; não há capacete ou escudo para desviar o golpe. Qual é a necessidade de armadura defensiva, ou de habilidade? Tudo isso significa adiar a morte. Pela manhã lançam homens aos leões e aos ursos; ao meio-dia, jogam-nos aos espectadores. Os espectadores exigem que o assassino encare o homem que vai matá-lo por sua vez; e eles sempre reservam o último vitorioso para outro massacre. O resultado de cada luta é a morte, e os meios são fogo e espada. Esse tipo de coisa continua enquanto a arena está vazia.
  5. Você pode replicar: “Mas ele era um ladrão de estrada, ele matou um homem!” E dai? Admitido que, como assassino, merecia este castigo, que crime você cometeu, pobre colega, que você mereça sentar-se e ver este espetáculo? Pela manhã, eles clamaram: “Mate-o, açoite-o, queime-o, por que ele usa a espada de uma maneira tão covarde, por que ele bate tão debilmente, por que ele não morre no jogo, chicoteie-o para arder suas feridas! Deixe-o receber golpe por golpe, com peitos nus e expostos ao ataque!” E quando os jogos param para o intervalo, eles anunciam: “Um pouco gargantas sendo cortadas, para que possa haver algo acontecendo!” Convenhamos, você[2] não entende sequer esta verdade, que um mau exemplo retorna contra o agente? Agradeça aos deuses imortais que você está ensinando crueldade a uma pessoa que não pode aprender a ser cruel.
  6. O jovem caráter, que não consegue se manter íntegro, deve ser resgatado da multidão; é muito fácil tomar o partido da maioria. Mesmo Sócrates, Catão e Lélio poderiam ter sido abalados em sua força moral por uma multidão que era diferente deles; tão verdadeiro é que nenhum de nós, por mais que cultive suas habilidades, pode resistir ao choque de falhas que se acercam, por assim dizer, de tão grande séquito.
  7. Muito dano é feito por um único caso de indulgência ou ganância; o amigo da família, se ele é luxuoso, nos enfraquece e suaviza imperceptivelmente; o vizinho, se for rico, desperta nossa cobiça; o colega, se ele for calunioso, dissipa algo de seu bolor em cima de nós, mesmo que nós sejamos impecáveis e sinceros. Qual então você acha que será o efeito sobre o caráter, quando o mundo em geral o assalta! Você deve imitar ou abominar o mundo.
  8. Mas ambos os cursos devem ser evitados; você não deve copiar o mau simplesmente porque eles são muitos, nem você deve odiar os muitos, porque eles são diferentes de você. Concentre-se em si mesmo, tanto quanto puder. Associe-se com aqueles que irão lhe fazer um homem melhor. Dê boas-vindas àqueles que podem fazer você melhorar. O processo é mútuo; pois os homens aprendem enquanto ensinam.
  9. Não há razão para que o orgulho em divulgar suas habilidades deva atraí-lo para a notoriedade, de modo a faze-lo desejar recitar ou discursar frente ao público. É claro que deveria estar disposto a fazê-lo se você tivesse uma habilidade que se adeque a tal multidão; como são, não há um homem entre eles que possa lhe entender. Um ou dois indivíduos talvez aceitarão sua maneira, mas mesmo estes terão que ser moldados e treinados por você de modo a compreende-lo. Você pode dizer: “Com que propósito eu aprendi todas essas coisas?” Mas você não precisa recear ter desperdiçado seus esforços; foi por si mesmo que você aprendeu.
  10. No entanto, para que eu não tenha hoje aprendido exclusivamente para mim, compartilharei com vocês três excelentes ditados, do mesmo sentido geral, que me chamaram a atenção. Esta carta lhe dará um deles como pagamento da minha dívida; os outros dois você pode aceitar como um adiantamento. Demócrito[3] diz: “Um homem significa tanto para mim como uma multidão, e uma multidão apenas tanto como um homem.”
  11. O seguinte também foi nobremente falado por alguém ou outro, pois é duvidoso quem foi o autor; eles perguntaram-lhe qual era o objeto de todo este estudo aplicado a uma arte que alcançaria muito poucos. Ele respondeu: “Estou contente com poucos, contente com um, contente com nenhum”. O terceiro ditado – e também notável – é de Epicuro, escrito a um dos parceiros de seus estudos: “Eu escrevo isto não para muitos, mas para você, cada um de nós é o suficiente como público do outro.”
  12. Coloque estas palavras no coração, Lucílio, que você pode desprezar o prazer que vem dos aplausos da maioria. Muitos homens te louvam; mas você tem alguma razão para estar satisfeito consigo mesmo, se você é uma pessoa que muitos conseguem entender? Suas boas qualidades devem focar para dentro.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

(imagem: Pollice Verso (polegar para baixo) – por Jean-Léon Gérôme )

 

[1] Durante o intervalo do almoço, criminosos condenados são frequentemente levados para a arena e obrigados a lutar, para a diversão dos espectadores que permaneceram por toda a parte do dia.

[2] A observação é dirigida aos espectadores brutalizados.

[3] Demócrito de Abdera (ca. 460 a.C. — 370 a.C.) nasceu na cidade de Mileto, viajou pela Babilônia, Egito e Atenas, e se estabeleceu em Abdera no final do século V a.C.  Demócrito foi discípulo e depois sucessor de Leucipo de Mileto. A fama de Demócrito decorre do fato de ele ter sido o maior expoente da teoria atômica ou do atomismo. De acordo com essa teoria, tudo o que existe é composto por elementos indivisíveis chamados átomos.

Pensamento do Dia #16: Sobre Temores infundados. (Carta 13)

“O que eu aconselho você a fazer é, não ser infeliz antes que a crise chegue; pode ser que os perigos, que o empalidecem como se estivessem o ameaçando agora, nunca cheguem sobre você. Assim, algumas coisas nos atormentam mais do que deveriam; algumas nos atormentam antes do que deveriam; e algumas nos atormentam quando não deveriam nos atormentar nunca. Temos o hábito de exagerar, imaginar, antecipar, a tristeza.

A mente às vezes modela para si as formas falsas do mal, quando não há sinais que apontem para algum mal; interpreta da pior forma alguma palavra de significado duvidoso; ou imagina algum rancor pessoal ser mais sério do que realmente é. Mas a vida não vale a pena ser vivida, e não há limites para nossas dores, se entregarmos nossos medos ao máximo possível; neste assunto, deixe a prudência ajudá-lo, e despreze o medo com um espírito resoluto mesmo quando ele está à vista. Se você não pode fazer isso, combata uma fraqueza com outra, e tempere o seu medo com esperança. Não há nada tão certo nesse assunto de medo como as coisas que tememos darem em nada e que as coisas as quais esperamos zombarem de nós.”

(SênecaCarta 13. Sobre Temores infundados )

Sr. Madruga também era um estoico.

Sêneca, além de homem de filósofo, tutor do futuro imperador Nero e homen de negócios também era autor de teatro, tendo escrito peças de sucesso principalmente pelo lado humorístico.

Vemos que Sr. Madruga também era um estoico.

Eu disse estoicamente… com estoicismo!!! 👏👏👏👏👏

Publicado por Me diga Papi? em Segunda, 10 de abril de 2017

 

Pensamento do Dia #15: Marco Aurélio – Pense que aconteceu com outro

Marco Aurélio escreveu:

“Por que devemos sentir raiva do mundo? Como se o mundo notasse.”

Quando algo frustrante acontece com você – um vôo é cancelado, uma caneta vasa em sua camisa, você é roubado – você sente a ira imediata e instintiva se desdobrando.

Tente algo diferente: pense que aconteceu com outra pessoa. O que você notará, então, é que você não sente raiva mas sim simpatia. Esqueça que aconteceu com você. Está tudo bem. Quando acontece conosco nos sentimos injustiçados e agredidos. Quando acontece com outra pessoa, sentimos um desejo de confortar ou ajudar.

Não somos uma pessoa tal como o outro? Nós não merecemos simpatia e ser confortado? Então… não espere que alguém dê isso a você. Entregue simpatia e conforto a si mesmo.

(Marco Aurelio, Meditações, VI)

Pensamento do Dia #14: Sobre a necessidade de um modelo de vida.

Podemos nos livrar da maioria dos pecados, se tivermos uma testemunha que esteja perto de nós quando estivermos propensos a fazer algo errado. A alma deve ter alguém a quem possa respeitar. Feliz é o homem que pode fazer os outros melhores, não apenas quando ele está em sua companhia, mas mesmo quando ele está em seus pensamentos! E feliz também é aquele que pode assim reverenciar um homem! Aquele que pode reverenciar a outro, logo se tornará digno de reverência.

Escolha, portanto, um mestre cuja vida, discurso e expressão o tenha satisfeito; imagine-o sempre para si mesmo como seu protetor ou seu exemplo. Pois precisamos ter alguém segundo o qual podemos ajustar nossas características; você nunca pode endireitar o que é torto a menos que você use uma régua.

(SênecaCarta 11. Sobre o rubor da modéstia  – imagem: Morte de Catão por Pierre Bouillon ). Catão representa o homem ideal a ser seguido de acordo com Sêneca)

Pensamento do Dia #13: Carta 10. Sobre viver para si mesmo

Saiba que está livre de todos os desejos quando alcançar o ponto em que não pede nada a Deus senão o que você possa pedir publicamente“. Mas como homens são tolos agora! Eles sussurram as mais vis orações ao céu; mas se alguém os ouve, eles calam-se imediatamente. O que eles não querem que os homens saibam, pedem a Deus. Não acredito, então, que algum conselho tão sério como este poderia ser dado a você: “Viva entre os homens como se Deus os observasse, fale com Deus como se os homens estivessem ouvindo”.

 

(Sêneca, Carta 10. Sobre viver para si mesmo,5  – imagem: Deuses no Olimpo por Giulio Romano – Palazzo del Te)

Pensamento do Dia #12: Carta 9. Sobre Filosofia e Amizade

O homem sábio é auto-suficiente. No entanto, ele deseja amigos, vizinhos e associados, não importa o quanto ele seja suficiente para si mesmo. Nesse sentido, ele pode viver sem amigos, não que ele deseje viver sem eles. Quando eu digo “pode”, quero dizer isso: ele sofre a perda de um amigo com equanimidade.

(Sêneca, Carta 9. Sobre Filosofia e Amizade, 3 – imagem Diógenes por Jean-Leon Gerome)