Pensamento do Dia #23: Sobre força bruta e cérebros

O pensamento do fim de semana é sobre atividade física:

Sêneca diz em sua Carta 15: “Sobre força bruta e cérebros

Há exercícios curtos e simples que cansam o corpo rapidamente, e assim economizam nosso tempo; E o tempo é algo do qual devemos manter estrita conta. Estes exercícios são correr, levantar pesos e saltar, saltos altos ou saltos largos. Selecione para praticar qualquer um destes, e você vai perceber ser simples e fácil. Mas o que quer que você faça, volte logo do corpo à mente. A mente deve ser exercitada dia e noite, pois é alimentada pelo trabalho moderado.

É claro que eu não ordeno que você esteja sempre curvado sobre seus livros e materiais de escrita; a mente necessita de variedade, – mas uma variedade de tal natureza que não seja irritante, mas simplesmente branda. E esta forma de exercício não precisa ser atrapalhada pelo tempo frio ou quente, ou mesmo pela velhice. Cultive esse bem que melhora com os anos.

Ou ainda Sêneca no ensaio Sobre a tranquilidade da Alma

Devemos tomar caminhadas na natureza para que a mente possa ser alimentada e atualizada sob ar livre e a respiração profunda.

(imagem Casal caminhado  por Vincent van Gogh)

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Pensamento do Dia #22: Como responder a críticas injustas II

Devemos manter o silêncio diante de um insulto?

Depende da situação. Mas a única coisa que não devemos fazer é levar o insulto pessoalmente. Em vez disso, devemos rejeitar o discurso de ódio, da mesma forma que devemos ignorar os latidos de um cão raivoso.

Devemos ter em mente que o cão, não sendo totalmente racional, não pode se controlar. Sêneca acrescentaria que, se nos deixarmos irritar com um cachorro latindo, nós só podemos culpar a nós mesmos.

 

 

Pensamento do Dia #21: Como responder a críticas injustas.

Como responder a críticas injustas.

Um estoico sabe que será destinatário de críticas injustas. Não se queixe e resmungue por isso, faça como Epiteto:

Se alguém lhe disser que uma certa pessoa fala mal de você, não se justifique sobre o que é dito, mas responda: “Ele ignora minhas outras falhas, senão não teria mencionado só essas“. ( O Manual de Epiteto

Sabia que tentar controlar as opiniões de outras pessoas é como tentar controlar o clima – e que uma vida pública garante o escrutínio público.  Se estiver preso aos seus ideais e ética e fizer seu trabalho bem, no final, o julgamento adequado será prestado.

(imagem Retrato imaginário de Epiteto – gravura do século XVIII – autor desconhecido)

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Pensamento do Dia #20: Verdadeira Alegria

despreze todas as coisas que brilham exteriormente e que são oferecidas a você ou a qualquer outro; olhe para o verdadeiro bem, e alegre-se apenas naquilo que vem de seu depósito. E o que quero dizer com “seu depósito”? Eu quero dizer de seu próprio eu, que é a melhor parte de você.  Nada externo. O corpo frágil também, embora não consigamos fazer nada sem ele, deve ser considerado apenas necessário, e não tão importante; envolve-nos em prazeres fúteis, de curta duração, e logo a serem lamentados, a menos que sejam controlados por um extremo autocontrole, tais prazeres serão transformados em antagônicos. Isso é o que quero dizer: o prazer, a menos que tenha sido mantido dentro dos limites, tende a nos precipitar no abismo da tristeza. Mas é difícil manter limites dentro daquilo que você acredita ser bom. O verdadeiro bem pode ser cobiçado com segurança.

 

(Sêneca, Carta 23. Sobre a verdadeira alegria que vem da filosofia –  Imagem Platão e Aristoteles por Raphael) . Carta completa no Volume I.

Carta 8: Sobre o isolamento do filósofo

Em sua oitava carta Sêneca continua aconselhar evitar a multidão e as coisas que agradam à multidão, lembrando que  aquilo que a “fortuna” nos dá também pode nos retirar.

(“fortunae” para o autor latino, se assemelha à nossa “sorte” ou “destino”, mas era também uma divindade. Imagem: Fortuna Marina por Frans Francken, A deusa romana Fortuna distribui aleatoriamente seus favores)

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Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você sugere, “evite a multidão, e retire-se dos homens, e contente-se com a sua própria consciência?” Onde estão os conselhos da sua escola, que ordenam que um homem morra em meio ao trabalho produtivo?[1]” Quanto ao curso que eu lhe pareço incitar de vez em quando, meu objetivo em recolher-me e trancar a porta é ser capaz de ajudar um número maior. Nunca passo um dia em ociosidade; aproveito até uma parte da noite para estudar. Não me dou tempo para dormir, mas me rendo ao sono quando preciso, e quando meus olhos estão cansados e prontos para caírem fechado, eu os mantenho em sua tarefa.
  2. Tenho-me afastado não só dos homens, mas dos negócios, especialmente dos meus próprios negócios; estou trabalhando para gerações posteriores, escrevendo algumas ideias que podem ser de ajuda para eles. Há certos conselhos sadios, que podem ser comparados às prescrições de remédios; estes eu estou pondo por escrito; pois achei-os úteis para ministrar às minhas próprias feridas, que, se não estão totalmente curadas, ao menos deixaram de se espalhar.
  3. Aponto outros homens para o caminho certo, que eu encontrei tarde na vida, quando cansado de vagar. Eu clamo a eles: “Evite o que agrada à multidão: evite os dons do acaso, avalie todo o bem que o acaso lhe traz, em espírito de dúvida e de medo, pois são os animais que são enganados pela tentação. Você chama essas coisas de “presentes da fortuna”? São armadilhas. E qualquer homem dentre vocês que deseje viver uma vida de segurança evitará, ao máximo de seu poder, esses ramos favoráveis, por meio dos quais os mortais, muito lamentavelmente neste caso, são enganados; porque nós pensamos que nós os mantemos em nosso poder, mas eles é quem nos prendem.
  4. Tal curso nos leva a caminhos precipitados, e a vida em tais alturas termina em queda. Além disso, nem mesmo podemos nos levantar contra a prosperidade quando ela começa a nos conduzir a sota-vento; nem podemos descer, tampouco, “com o navio em seu curso”; a fortuna não nos afunda, ela estufa nossas velas e nos precipita sobre as rochas.
  5. “Apegue-se, pois, a esta regra sadia e saudável da vida – que você satisfaça seu corpo apenas na medida em que for necessário para a boa saúde. O corpo deve ser tratado mais rigorosamente, para que não seja desobediente à mente. Coma apenas para aliviar a sua fome, beba apenas para saciar a sua sede, vista-se apenas para manter fora o frio, abrigue-se apenas como uma proteção contra o desconforto pessoal. Pouco importa a casa ser construída de madeira ou de mármore importado, compreenda que um homem é abrigado tão bem por uma palha quanto por um telhado de ouro. Despreze tudo o que o trabalho inútil cria como um ornamento e um objeto de beleza. E reflita que nada além da alma é digno de admiração, pois para a alma, se ela for grandiosa, nada é grande. “
  6. Quando eu comungo em tais termos comigo e com as gerações futuras, você não acha que eu estou fazendo mais bem do que quando eu apareço como conselheiro na corte, ou carimbo meu selo sobre uma decisão, ou presto ajuda ao senado, por palavra ou ação, a um candidato? Acredite em mim, aqueles que parecem estar ocupados com nada estão ocupados com as maiores tarefas; eles estão lidando ao mesmo tempo com coisas mortais e coisas imortais.
  7. Mas devo parar, e prestar minha contribuição habitual, para equilibrar esta carta. O pagamento não será feito de minha própria propriedade; pois ainda estou copiando Epicuro. Hoje leio, em suas obras, a seguinte frase: “Se você quiser desfrutar da verdadeira liberdade, deve ser escravo da Filosofia”. O homem que se submete e entrega-se a ela não é mantido esperando; ele é emancipado no ato. Pois o próprio serviço da Filosofia é a liberdade.
  8. É provável que você me pergunte por que cito tantas palavras nobres de Epicuro em vez de palavras tiradas de nossa própria escola. Mas há alguma razão pela qual você deve considerá-las como ditos de Epicuro e não domínio público? Quantos poetas exalam ideias que foram proferidas ou poderiam ter sido proferidas por filósofos! Não preciso falar sobre as tragédias e os nossos escritores de drama; porque estes últimos são também um pouco sérios, e ficam a meio caminho entre comédia e tragédia. Que quantidade de versos sagrados estão enterrados na mímica! Quantas linhas de Públio são dignas de serem declamadas por atores célebres, assim como pelos pés descalços![2]
  9. Vou citar um versículo dele, que diz respeito à filosofia, e particularmente aquela fase da qual discutimos há pouco, onde ele diz que os dons do acaso não devem ser considerados como parte de nossas posses:
Ainda é alheio o que você ganhou devido a cobiça. Alienum est omne, quicquid optando evenit.[3]
  1. Recordo que você mesmo expressou essa ideia de maneira muito mais feliz e concisa: O que a Fortuna fez não é seu. E uma terceira, dita por você ainda, não deve ser omitida: O bem que pode ser dado, pode ser removido. Eu não vou colocar isso em sua conta de despesas, porque eu a dei a partir de seu próprio patrimônio.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Em contraste com a doutrina estoica geral de participar da política e atividades do mundo.

[2]excalceatis”, Comediantes ou mímicos

[3] Provérbios de Públio Siro.

Pensamento do Dia #19: Amizade

devo recorrer ao relato de Epicuro.  Ele diz: “Você deve refletir cuidadosamente com quem você deve comer e beber, ao invés do que você deve comer e beber, pois um jantar de carnes sem a companhia de um amigo é como a vida de um leão ou um lobo.

Nenhuma vida pode ser feliz sem amigos, e nenhuma vida será infeliz com eles.

(Sêneca, Carta19. Sobre Materialismo e Retiro– Imagem Daniel na cova dos Leões  por Rubens. ) Carta completa no Volume I.

 

 

Pensamento do Dia #18: Sobre o medo natural da morte

Em comemoração aos 300 seguidores que a Página O Estoico atingiu hoje no Facebook o Pensamento do Dia é baseado na Carta 82 na qual Sêneca cita os 300 de Esparta.

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Eu classifico como “indiferente” – ou seja, nem o bem nem o mal – a doença, a dor, a pobreza, o exílio e a morte. Nenhuma dessas coisas é intrinsecamente gloriosa. Pois não é a pobreza que louvamos, é o homem a quem a pobreza não pode humilhar ou dobrar. Nem é o exílio que louvamos, é o homem que se retira para o exílio no espírito em que teria enviado outro para o exílio. Não é a dor que louvamos, é o homem a quem a dor não coagiu. Ninguém elogia a morte, mas o homem cuja alma a morte tira antes que possa amaldiçoa-la. (…)

Eu aponto os espartanos em guarda no próprio desfiladeiro das Termópilas![1] Eles não têm esperança de vitória, nenhuma esperança de retornar. Mas pegue Leônidas: quão bravamente ele discursou aos seus homens! Ele disse: “Companheiros, vamos ao nosso café da manhã, sabendo que vamos jantar no Hades[2]!”

Não são os 300, é toda a humanidade que deve ser aliviada do medo da morte. Mas como você pode provar a todos aqueles homens que a morte não é nenhum mal?

(Sêneca, Carta82. Sobre o medo natural da morte – Imagem Leonidas nas Termópilas por Jacques-Louis David. ) Carta completa no Volume II.

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[1] Hades na mitologia grega, é o deus do mundo inferior e dos mortos. Seu nome era usado frequentemente para designar tanto o deus quanto o reino que governa, nos subterrâneos da Terra.

[2] A Batalha das Termópilas foi travada no contexto da Segunda Guerra Médica entre uma aliança de cidades gregas lideradas pelo rei de Esparta Leônidas I e o Império Aquemênida de Xerxes I. A batalha durou três dias e se desenrolou no desfiladeiro das Termópilas em agosto ou setembro de 480a.C.

 

Pensamento do Dia #17: Você é apenas um Filtro

Você sabe o sabor do vinho e dos licores. Não faz diferença se centenas ou milhares de medidas passam por sua bexiga; você não é nada senão um filtro. Você é conhecedor do sabor da ostra e do salmonete; o seu luxo não deixou nada a ser desbravado em anos vindouros; e ainda assim estas são as coisas das quais você é arrancado involuntariamente. O que mais você lamentaria ser retirado de você?

Não há vida que não seja curta.  É com a vida como é com uma peça de teatro, – não importa por quanto tempo a ação é tecida, mas quão boa é a atuação.

(Sêneca, Carta 78, Sobre Tomar a própria vida )

Carta completa no Volume II.

Carta 7: Sobre multidões

A sétima carta de Seneca para o seu amigo Lucílio é sobre multidões, e por que um estoico (ou qualquer pessoa sã, realmente) deve evitá-la.

Como é frequente no caso do Seneca, a afirmação pode soar elitista, mas prefiro a leitura mais caridosa na qual ele está descrevendo a realidade das interações humanas: muitas pessoas são realmente gananciosas, ambiciosas, cruéis, e se alguém está tentando se treinar para evitar tais atitudes, então é melhor diminuindo a exposição, tanto quanto possível. Os leitores modernos também farão bem em lembrar o contexto cultural em que Sêneca estava vivendo e escrevendo:

“Pela manhã lançam homens aos leões e aos ursos; ao meio-dia, jogam-nos aos espectadores. … E quando os jogos param para o intervalo, eles anunciam: ‘Um pouco gargantas sendo cortadas, para que possa haver algo acontecendo!’ (VII.4-5)”

Seneca está particularmente preocupado com a exposição dos jovens às multidões: “O jovem caráter, que não consegue se manter íntegro, deve ser resgatado da multidão; é muito fácil tomar o partido da maioria. ”


Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você me pergunta o que você deve considerar evitar em especial? Eu digo, multidões; Porque ainda não pode confiar em si com segurança. Admito, de qualquer maneira, minha própria fraqueza; porque eu nunca trago de volta para casa o mesmo caráter que eu levei para fora comigo. Algo do que eu tenho forçado a ficar em paz dentro de mim é perturbado; alguns dos inimigos que eu havia eliminado voltam novamente. Assim como o homem doente, que tem estado fraco há muito tempo, está em tal condição que não pode ser tirado de casa sem sofrer uma recaída, então nós mesmos somos afetados quando nossas almas estão se recuperando de uma doença prolongada.
  2. Ligar-se à multidão é prejudicial; não há ninguém que não torne algum vício cativante para nós, nem o escancare sobre nós, nem nos manche inconscientemente com ele. Certamente, quanto maior a multidão com que nos misturamos, maior o perigo. Mas nada é tão prejudicial ao bom caráter como o hábito de frequentar os estádios; pois é lá que o vício penetra sutilmente por uma avenida de prazer.
  3. O que você acha que eu quero dizer? Quero dizer que volto para casa mais ganancioso, mais ambicioso, mais voluptuoso e ainda mais cruel e desumano, porque eu estive entre os seres humanos. Por acaso, eu assisti a uma apresentação matutina, esperando um pouco de diversão, sagacidade e relaxamento, uma exposição na qual os olhos dos homens têm descanso do massacre de seus semelhantes. Mas foi exatamente o contrário. Antigamente esses combates eram a essência da compaixão; mas agora todo o trivial é posto de lado e resta apenas puro assassinato. Os homens não têm armadura defensiva[1]. Eles estão expostos a golpes em todos os pontos, e ninguém nunca atira em vão.
  4. Muitas pessoas preferem este programa aos duelos habituais e combates “a pedido”. Claro que sim; não há capacete ou escudo para desviar o golpe. Qual é a necessidade de armadura defensiva, ou de habilidade? Tudo isso significa adiar a morte. Pela manhã lançam homens aos leões e aos ursos; ao meio-dia, jogam-nos aos espectadores. Os espectadores exigem que o assassino encare o homem que vai matá-lo por sua vez; e eles sempre reservam o último vitorioso para outro massacre. O resultado de cada luta é a morte, e os meios são fogo e espada. Esse tipo de coisa continua enquanto a arena está vazia.
  5. Você pode replicar: “Mas ele era um ladrão de estrada, ele matou um homem!” E dai? Admitido que, como assassino, merecia este castigo, que crime você cometeu, pobre colega, que você mereça sentar-se e ver este espetáculo? Pela manhã, eles clamaram: “Mate-o, açoite-o, queime-o, por que ele usa a espada de uma maneira tão covarde, por que ele bate tão debilmente, por que ele não morre no jogo, chicoteie-o para arder suas feridas! Deixe-o receber golpe por golpe, com peitos nus e expostos ao ataque!” E quando os jogos param para o intervalo, eles anunciam: “Um pouco gargantas sendo cortadas, para que possa haver algo acontecendo!” Convenhamos, você[2] não entende sequer esta verdade, que um mau exemplo retorna contra o agente? Agradeça aos deuses imortais que você está ensinando crueldade a uma pessoa que não pode aprender a ser cruel.
  6. O jovem caráter, que não consegue se manter íntegro, deve ser resgatado da multidão; é muito fácil tomar o partido da maioria. Mesmo Sócrates, Catão e Lélio poderiam ter sido abalados em sua força moral por uma multidão que era diferente deles; tão verdadeiro é que nenhum de nós, por mais que cultive suas habilidades, pode resistir ao choque de falhas que se acercam, por assim dizer, de tão grande séquito.
  7. Muito dano é feito por um único caso de indulgência ou ganância; o amigo da família, se ele é luxuoso, nos enfraquece e suaviza imperceptivelmente; o vizinho, se for rico, desperta nossa cobiça; o colega, se ele for calunioso, dissipa algo de seu bolor em cima de nós, mesmo que nós sejamos impecáveis e sinceros. Qual então você acha que será o efeito sobre o caráter, quando o mundo em geral o assalta! Você deve imitar ou abominar o mundo.
  8. Mas ambos os cursos devem ser evitados; você não deve copiar o mau simplesmente porque eles são muitos, nem você deve odiar os muitos, porque eles são diferentes de você. Concentre-se em si mesmo, tanto quanto puder. Associe-se com aqueles que irão lhe fazer um homem melhor. Dê boas-vindas àqueles que podem fazer você melhorar. O processo é mútuo; pois os homens aprendem enquanto ensinam.
  9. Não há razão para que o orgulho em divulgar suas habilidades deva atraí-lo para a notoriedade, de modo a faze-lo desejar recitar ou discursar frente ao público. É claro que deveria estar disposto a fazê-lo se você tivesse uma habilidade que se adeque a tal multidão; como são, não há um homem entre eles que possa lhe entender. Um ou dois indivíduos talvez aceitarão sua maneira, mas mesmo estes terão que ser moldados e treinados por você de modo a compreende-lo. Você pode dizer: “Com que propósito eu aprendi todas essas coisas?” Mas você não precisa recear ter desperdiçado seus esforços; foi por si mesmo que você aprendeu.
  10. No entanto, para que eu não tenha hoje aprendido exclusivamente para mim, compartilharei com vocês três excelentes ditados, do mesmo sentido geral, que me chamaram a atenção. Esta carta lhe dará um deles como pagamento da minha dívida; os outros dois você pode aceitar como um adiantamento. Demócrito[3] diz: “Um homem significa tanto para mim como uma multidão, e uma multidão apenas tanto como um homem.”
  11. O seguinte também foi nobremente falado por alguém ou outro, pois é duvidoso quem foi o autor; eles perguntaram-lhe qual era o objeto de todo este estudo aplicado a uma arte que alcançaria muito poucos. Ele respondeu: “Estou contente com poucos, contente com um, contente com nenhum”. O terceiro ditado – e também notável – é de Epicuro, escrito a um dos parceiros de seus estudos: “Eu escrevo isto não para muitos, mas para você, cada um de nós é o suficiente como público do outro.”
  12. Coloque estas palavras no coração, Lucílio, que você pode desprezar o prazer que vem dos aplausos da maioria. Muitos homens te louvam; mas você tem alguma razão para estar satisfeito consigo mesmo, se você é uma pessoa que muitos conseguem entender? Suas boas qualidades devem focar para dentro.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

(imagem: Pollice Verso (polegar para baixo) – por Jean-Léon Gérôme )

 

[1] Durante o intervalo do almoço, criminosos condenados são frequentemente levados para a arena e obrigados a lutar, para a diversão dos espectadores que permaneceram por toda a parte do dia.

[2] A observação é dirigida aos espectadores brutalizados.

[3] Demócrito de Abdera (ca. 460 a.C. — 370 a.C.) nasceu na cidade de Mileto, viajou pela Babilônia, Egito e Atenas, e se estabeleceu em Abdera no final do século V a.C.  Demócrito foi discípulo e depois sucessor de Leucipo de Mileto. A fama de Demócrito decorre do fato de ele ter sido o maior expoente da teoria atômica ou do atomismo. De acordo com essa teoria, tudo o que existe é composto por elementos indivisíveis chamados átomos.

Pensamento do Dia #16: Sobre Temores infundados. (Carta 13)

“O que eu aconselho você a fazer é, não ser infeliz antes que a crise chegue; pode ser que os perigos, que o empalidecem como se estivessem o ameaçando agora, nunca cheguem sobre você. Assim, algumas coisas nos atormentam mais do que deveriam; algumas nos atormentam antes do que deveriam; e algumas nos atormentam quando não deveriam nos atormentar nunca. Temos o hábito de exagerar, imaginar, antecipar, a tristeza.

A mente às vezes modela para si as formas falsas do mal, quando não há sinais que apontem para algum mal; interpreta da pior forma alguma palavra de significado duvidoso; ou imagina algum rancor pessoal ser mais sério do que realmente é. Mas a vida não vale a pena ser vivida, e não há limites para nossas dores, se entregarmos nossos medos ao máximo possível; neste assunto, deixe a prudência ajudá-lo, e despreze o medo com um espírito resoluto mesmo quando ele está à vista. Se você não pode fazer isso, combata uma fraqueza com outra, e tempere o seu medo com esperança. Não há nada tão certo nesse assunto de medo como as coisas que tememos darem em nada e que as coisas as quais esperamos zombarem de nós.”

(SênecaCarta 13. Sobre Temores infundados )