Pensamento do Dia #25: Sobre a Brevidade da Vida

Veja todas as coisas que acontecem ao seu redor. O vizinho cuja casa é roubada. O amigo que adoece. O casamento sólido que termina em divórcio. O país anteriormente pacífico que entra em guerra civil, seus cidadãos desesperados fugindo por suas fronteiras como refugiados.

No ensaio “Sobre a Brevidade da Vida“, Sêneca enumera os muitos infortúnios que observou ao longo do tempo: os lamentos de seus vizinhos em luto, amigos mortos em batalha, carreiras políticas ascendentes que acabaram em ignomínia ou exílio. Todos esses destinos que ele descreve, passaram diante dele no decorrer da vida. “Eu deveria me surpreender“, pergunta ele, “se os perigos que sempre vagaram sobre mim possam chegar a mim em algum momento?

A resposta é não. O que pode acontecer com outra pessoa pode acontecer com você. Hoje. Amanhã. No futuro. Você está pronto para isso? Você enfrentou essa possibilidade? Ou você ainda está fingindo que você é especial e livre da sorte?

De fato, muitas dessas mesmas tragédias aconteceram com Sêneca. Ele foi exilado. Ele perdeu um filho. Ele foi acusado de conspirar contra o Imperador. E, em sua maior parte, ele respondeu a esses infortúnios com bravura e coragem. Porque ele se preparou para eles. Porque ele assistiu ao desfile e sabia que seria exigido que se juntasse eventualmente.

O mesmo é verdade para você. Esteja pronto.

( Sêneca, “Sobre a Brevidade da Vida“,  Imagem – Vanitas por Philippe de Champaigne)

Pensamento do Dia #24: Cícero – De Finibus

“Se um homem tem o propósito de acertar uma lança ou uma flecha em um alvo, seu derradeiro objetivo seria fazer tudo o que pudesse para mirar o melhor possível e atirar com firmeza. O homem nesta ilustração teria que fazer tudo para apontar corretamente, no entanto, embora ele fizesse tudo para alcançar seu propósito, seu ‘objetivo final‘, por assim dizer, seria o que corresponde ao que chamamos de Bem Principal na conduta da vida, enquanto que atingir o alvo seria na nossa terminologia ‘indiferente’“. (CiceroDe Finibus Bonorum et Malorum , 3.22 “Sobre a Finalidade do Bem e do Mal“)

O que está explicando aqui é um aspecto crucial da doutrina estoica: só se pode trabalhar sobre o que está sob seu controle (mirar a flecha, da melhor forma possível), mas deve-se aceitar o resultado (a flecha atingir ou não o alvo), porque isso não está sob nosso controle.

(imagem – primeira página de versão latina da obra)

Carta 11. Sobre o rubor da modéstia

A 11ª carta a Lucílio trata de dois princípios estoicos cruciais.

Sêneca começa com o tópico improvável de corar, algo que simplesmente não podemos evitar, não importa o quão bravamente tentamos. Ele diz a seu amigo que “nenhuma sabedoria consegue remover as fragilidades naturais do corpo. O que é intrínseco e inato pode ser atenuado pelo treinamento, mas não totalmente superado”. (XI.1)

Esta é uma visão notável e um reconhecimento imediato dos limites da filosofia: a própria sabedoria, o principal bem de acordo com os estoicos, não pode superar nossas predisposições naturais e reações inatas. Se experimentarmos um constrangimento, coramos, se sentirmos medo ou raiva, não podemos evitar a precipitação da adrenalina. Tudo isso está fora do nosso controle e, portanto, Epiteto mais tarde diria, “não nos preocupa“.

Isso estabelecido, Sêneca continua com o que ele pensa ser bom conselho:  cultivar a sabedoria apesar das suas limitações. Mas, como cultivamos sabedoria exatamente? Pode ser ensinada?  A resposta de Seneca é o estoicismo por excelência:

“Estime um homem de grande caráter, e mantenha-o sempre diante de seus olhos, vivendo como se ele estivesse observando você, e arranjando todas as suas ações como se ele as tivesse visto” (XI.8)… “Escolha, portanto, um Catão; ou, se Catão lhe parece um modelo muito severo, escolha um Lélio, um espírito mais suave… Pois precisamos ter alguém segundo o qual podemos ajustar nossas características; você nunca pode endireitar o que é torto a menos que você use uma régua.” (XI.10)

A escolha do seu exemplo pessoal depende de você, mas escolha bem, continue praticando ao imaginar que ele ou ela sempre olha sobre seus ombros, e seu bastão torto será gradualmente endireitado com a ajuda da régua reta.

(SênecaCarta 11. Sobre o rubor da modéstia  – imagem: Morte de Catão por Pierre Bouillon ).

Continue lendo “Carta 11. Sobre o rubor da modéstia”

Carta 10. Sobre viver para si mesmo

Em sua décima carta Sêneca continua a ensinar evitarmos multidões e valorizarmos a introspecção, contudo, alerta que muitas vez não devemos confiar sequer em nós mesmo, já geralmente somos tolos e ignorantes.

Conclui a carta com o conselho:

  1. Viva entre os homens como se Deus o observasse, fale com Deus como se os homens estivessem ouvindo”.

(Sêneca Carta 10. Sobre viver para si mesmo. Imagem São Francisco em oração – Caravaggio)


Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Sim, eu não mudo minha opinião: evite as multidões, evite os poucos, evite mesmo o indivíduo. Não conheço ninguém com quem eu esteja disposto a compartilhá-lo. E veja o que eu tenho de sua opinião; pois ouso confiar em você com seu eu próprio. Crates[1], dizem eles, notou um jovem caminhando sozinho, e perguntou-lhe o que ele estava fazendo sozinho. – Estou comungando comigo mesmo – respondeu o jovem. – Então, – disse Crates – tome cuidado, você está conversando com um homem mau!
  2. Quando as pessoas estão de luto, ou têm medo de alguma coisa, estamos acostumados a observá-los para que possamos impedi-los de fazer um uso errado de sua solidão. Nenhuma pessoa imprudente deve ser deixada sozinha; em tais casos, ela só planeja loucura, e acumula perigos futuros para si ou para os outros; ela coloca em jogo seus instintos básicos; A mente mostra o que o medo ou a vergonha costumavam reprimir; ela aguça a sua ousadia, agita as suas paixões e incita a sua ira. E, finalmente, o único benefício que a solidão confere, – o hábito de não confiar em nenhum homem, e de não temer testemunhas, – é perdido pelo tolo; porque ele trai a si mesmo. Lembre-se, portanto, quais são minhas esperanças para você, ou melhor, o que eu estou prometendo, na medida em que a esperança é meramente o título de uma bênção incerta: não conheço ninguém com quem preferira que você se associe, senão consigo mesmo.
  3. Lembro-me da maneira grandiosa em que você lançou certas frases, e quão cheias de força elas eram! Imediatamente me congratulei e disse: “Estas palavras não vieram da borda dos lábios, estas declarações têm uma base sólida. Este homem não é um dos muitos, ele tem consideração por seu real bem-estar.”
  4. Fale e viva desta maneira; cuide para que nada o retenha. Quanto às suas preces anteriores, você pode liberar os deuses de respondê-las; ofereça novas orações; ore por uma mente sã e por uma boa saúde, primeiro de alma e depois de corpo. E é claro que você deve oferecer essas preces com frequência. Apele com ousadia a Deus; você não vai pedir a Ele o que pertence a outro.
  5. Mas devo, como é meu costume, enviar um presente pequeno junto com esta carta. É um verdadeiro provérbio que eu encontrei em Atenodoro[2]: “Saiba que está livre de todos os desejos quando alcançar o ponto em que não pede nada a Deus senão o que você possa pedir publicamente“. Mas como homens são tolos agora! Eles sussurram as mais vis orações ao céu; mas se alguém os ouve, eles calam-se imediatamente. O que eles não querem que os homens saibam, pedem a Deus. Não acredito, então, que algum conselho tão sério como este poderia ser dado a você: “Viva entre os homens como se Deus o observasse, fale com Deus como se os homens estivessem ouvindo”.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Crates de Tebas (c. 365 – c. 285 BC) foi um filósofo cínico. Crates doou seu dinheiro para viver uma vida de pobreza nas ruas de Atenas. Respeitado pelo povo de Atenas, ele é lembrado por ser o professor de Zenão de Cítio, o fundador do Estoicismo. Vários fragmentos de ensinamentos Crates sobreviveram, incluindo sua descrição do de um estado cínico ideal.

[2] Atenodoro de Tarso ou Atenodoro Cananita (ca. 74 a.C. – 7) foi um filósofo estoico. Nasceu em Canana, perto de Tarso (no que é hoje a Turquia, foi aluno de Posidônio de Rodes, e professor de Otaviano (futuro imperador Augusto).

Consolação a Minha Mãe Hélvia

No ano 41, Sêneca foi condenado ao exílio pelo imperador Cláudio por um alegado caso com a irmã do imperador Calígula. A acusação provavelmente foi inventada por uma vingança pessoal. Pouco antes ele havia sido condenado à morte e posteriormente perdoado pelo anterior imperador, o louco Calígula. Do exílio ele escreveu uma de suas obras mais extraordinárias – a carta Consolação a Minha Mãe Hélvia.

Hélvia era uma mulher cuja vida tinha sido marcada por uma perda inimaginável – sua própria mãe havia morrido enquanto ela a nascera, e ela enterrou seu marido, seu tio amado e três de seus netos. Vinte dias depois que um de seus netos – o próprio filho de Sêneca – morrera em seus braços, Hélvia recebeu notícias de que Sêneca fora levado para a Córsega, condenado à vida no exílio.

Em vez de meras palavras, Sêneca produz uma obra-prima retórica, trazendo a essência da filosofia do Estoicismo, com partes iguais de lógica e estilo literário. “Todas as suas dores foram desperdiçadas se você ainda não aprendeu a sofrer“.

Sêneca faz uma sólida defesa do mecanismo de auto-proteção mais poderoso da vida – a disciplina de não tomar nada por certo:

Nunca me entreguei à fortuna, mesmo quando parecia que estava em paz comigo; todos os favores, dos quais muito generosamente me cercava (riquezas, cargos, prestígio), coloquei-os em tal lugar de onde a mesma fortuna pudesse retomá-los, sem me aborrecer. Deixei sempre grande distância entre mim e eles: tirou-me os favores, portanto, não os arrancou. A fortuna contrária não diminui senão os homens que se deixaram enganar pela prosperidade.

Os homens que se agarram a seus presentes como a coisas das quais tem perpétua propriedade, e que por eles querem ser invejados pelos outros, jazem prostrados e aflitos, quando os deleites falsos e fugazes abandonam sua alma vil e pueril, que ignora qualquer prazer real; mas quem na prosperidade não se orgulhou, não se abala se as coisas mudam.

 

Leia mais em:

Carta 9. Sobre Filosofia e Amizade

Na nona carta Sêneca discorre sobre a Amizade e sua relação com a filosofia.

Em toda a carta o termo  “sábio” é repetido inúmeras vezes. É importante entender que o conceito “sábio” para os filósofos antigos é um ideal a ser atingido, e não alguém real. Segundo Sêneca o sábio se equivale aos deuses, com a única distinção do sábio ser humano e mortal. É um humano perfeito no auge das qualidades.

Sêneca aconselha “Para que você possa ser amado, ame.” e  nos alerta sobre o risco das amizades por interesse:  Aquele que começa a ser seu amigo por interesse também cessará por interesse. Um homem será atraído por alguma recompensa oferecida em troca de sua amizade se ele for atraído por algo na amizade além da amizade em si.

—–

Carta 9. Sobre Filosofia e Amizade

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você deseja saber se Epicuro está certo quando, em uma de suas cartas, ele repreende aqueles que sustentam que o sábio é autossuficiente e por isso não precisa de amizades. Esta é a objeção levantada por Epicuro contra Estilpo e aqueles que acreditam que o Bem Supremo é uma alma insensível ao sentimento.
  2. Estamos limitados a encontrar um duplo significado se tentarmos expressar resumidamente o termo grego “falta de sentimento” em uma única palavra, tornando-o pela palavra latina impatientia. Porque pode ser entendida no sentido oposto ao que desejamos que ela tenha. O que queremos dizer é uma alma que rejeita qualquer sensação de maldade; mas as pessoas interpretarão a ideia como a de uma alma que não pode suportar nenhum mal. Considere, portanto, se não é melhor dizer “uma alma que não pode ser ofendida” ou “uma alma inteiramente além do reino do sofrimento”.
  3. Há essa diferença entre nós e a outra escola[1]: nosso sábio ideal sente seus problemas, mas os supera; o homem sábio deles nem sequer os sente. Mas nós e eles temos essa ideia, que o sábio é autossuficiente. No entanto, ele deseja amigos, vizinhos e associados, não importa o quanto ele seja suficiente em si mesmo.
  4. E perceba quão autossuficiente ele é; pois de vez em quando ele pode se contentar com apenas uma parte de si. Se ele perde uma mão por doença ou guerra, ou se algum acidente fere um ou ambos os olhos, ele ficará satisfeito com o que resta, tendo tanto prazer em seu corpo debilitado e mutilado como ele tinha quando era sadio. Mas enquanto ele não se consome por esses membros, se eles estiverem ausentes, ele prefere não os perder.
  5. Nesse sentido o homem sábio é autossuficiente, pode prescindir de amigos, mas não deseja ficar sem eles. Quando eu digo “pode”, quero dizer isto: ele sofre a perda de um amigo com serenidade. Mas a ele nunca faltam amigos, pois está em seu próprio controle quão breve ele vai repor a perda. Assim como Fídias[2], se ele perder uma estátua, pode imediatamente esculpir outra, da mesma forma nossa habilidade na arte de fazer amizades pode preencher o lugar de um amigo perdido.
  6. Se você perguntar como alguém pode fazer-se um amigo rapidamente, vou dizer-lhe, desde que estamos concordamos que eu posso pagar a minha dívida de uma vez e zerar a conta, no que se refere a esta carta. Hecato, diz: “Eu posso mostrar-lhe uma poção, composta sem drogas, ervas ou qualquer feitiço de bruxa: ‘Para que você possa ser amado, ame.‘” Agora, há um grande prazer, não só em manter amizades velhas e estabelecidas, mas também na aquisição de novas.
  7. Existe a mesma relação entre conquistar um novo amigo e já ter conquistado, como há entre o fazendeiro que semeia e o fazendeiro que colhe. O filósofo Átalo costumava dizer: “É mais agradável fazer um amigo do que mantê-lo, pois é mais agradável ao artista pintar do que ter acabado de pintar”. Quando alguém está ocupado e absorvido em seu trabalho, a própria absorção dá grande prazer; mas quando alguém retira a mão da obra-prima concluída, o prazer não é tão penetrante. Daí em diante, são os frutos de sua arte que ele desfruta; era a própria arte que ele apreciava enquanto pintava. No caso de nossos filhos, sua juventude produz os frutos mais abundantes, mas na infância deles eram mais doce.
  8. Voltemos agora à questão. O homem sábio, eu digo, autossuficiente como é, no entanto, deseja amigos apenas para o propósito de praticar a amizade, a fim de que suas qualidades nobres não permaneçam dormentes. Não, todavia, para o propósito mencionado por Epicuro na carta citada acima: “Que haja alguém para sentar-se com ele enquanto doente, para ajudá-lo quando ele está na prisão ou em necessidade”; mas sim para que ele possa ter alguém em cujo leito hospitalar ele próprio possa sentar, alguém prisioneiro em mãos hostis que ele mesmo possa libertar. Aquele que só pensa em si, e estabelece amizades por esta razão, avalia com erro. O fim será como o início: ele faz amizade com alguém que poderia libertá-lo da escravidão; ao primeiro barulho de corrente tal amigo o abandonará.
  9. Estas são as chamadas amizades de “céu de brigadeiro[3]“; aquele que é escolhido por causa da sua utilidade será satisfatório apenas enquanto for útil. Por isso os homens prósperos são protegidos por tropas de amigos; mas aqueles que falharam ficam em meio à vasta solidão, seus “amigos” fugindo da própria crise que está a testar seus valores. Por isso, também, vemos muitos casos vergonhosos de pessoas que, por medo, desertam ou traem. O começo e o fim não podem senão harmonizar. Aquele que começa a ser seu amigo por interesse também cessará por interesse. Um homem será atraído por alguma recompensa oferecida em troca de sua amizade se ele for atraído por algo na amizade além da amizade em si.
  10. Para que propósito, então, eu faço um homem meu amigo? A fim de ter alguém para quem eu possa dar minha vida, que eu possa seguir para o exílio, alguém cuja contra a morte eu possa apostar minha própria vida, e pagar a promessa depois. A amizade que você retrata é uma negociata e não uma amizade; ela considera apenas a conveniência, e olha para os resultados.
  11. Sem dúvida, o sentimento de um amante tem algo semelhante à amizade; pode-se chamá-lo de amizade enlouquecida. Mas, embora isso seja verdade, alguém ama por vislumbrar lucro, ou promoção, ou renome? O amor puro, livre de todas as outras coisas, excita a alma com o desejo pelo objeto bonito, não sem a esperança de uma correspondência ao afeto. E então? Pode uma causa que é mais honrada produzir uma paixão que é vil?
  12. Você pode replicar: “Estamos agora discutindo a questão de saber se a amizade deve ser cultivada por sua própria causa”. Pelo contrário, nada mais urgente exige demonstração; pois se a amizade deve ser procurada por si mesma, pode buscá-la quem seja autossuficiente. “Como, então,” você pergunta, “ele a procura?” Precisamente como ele procura um objeto de grande beleza, não atraído a ele pelo desejo de lucro, nem mesmo assustado pela instabilidade da fortuna. Aquele que procura a amizade com objetivo interesseiro, despoja-a de toda a sua nobreza.
  13. “O homem sábio é autossuficiente”. Essa frase, meu caro Lucílio, é incorretamente explicada por muitos; porque eles retiram o homem sábio do mundo, e forçam-no a habitar dentro de sua própria pele. Mas devemos marcar com cuidado o que significa essa sentença e até onde ela se aplica; O homem sábio é autossuficiente para uma existência feliz, mas não para a mera existência. Pois ele precisa de muita assistência para a mera existência; mas para uma existência feliz ele precisa apenas de uma alma sã e reta, que menospreze a fortuna.
  14. Quero também dizer a você uma das distinções de Crisipo, que declara que o sábio não deseja nada, mas precisa de muitas coisas[4]. “Por outro lado”, diz ele, “nada é necessário para o tolo, pois ele não entende como usar nenhuma coisa, mas ele deseja tudo.” O homem sábio precisa de mãos, olhos e muitas coisas que são necessárias para seu uso diário; mas a ele nada falta. Porque o desejo implica uma necessidade, e nada é necessário ao homem sábio.
  15. Portanto, embora ele seja autossuficiente, ainda precisa de amigos. Ele anseia tantos amigos quanto possível, não, no entanto, para que ele possa viver feliz; pois ele viverá feliz mesmo sem amigos. O Bem Supremo não requer nenhum auxílio prático de fora; Ele é desenvolvido em casa, e surge inteiramente dentro de si. Se o bem procura qualquer porção de si mesmo no exterior, começa a estar sujeito ao jogo da fortuna.
  16. As pessoas podem dizer: “Mas que tipo de existência o sábio terá, se ele for deixado sem amigos quando jogado na prisão, ou quando encalhado em alguma nação estrangeira, ou quando retido em uma longa viagem, ou quando em lugar ermo?” Sua vida será como a de Júpiter, que, em meio à dissolução do mundo, quando os deuses são confundidos e a Natureza descansa por um pouco, pode se retirar em si mesmo e entregar-se a seus próprios pensamentos. De alguma maneira, o sábio agirá; ele se retirará em si mesmo e viverá consigo mesmo.
  17. Enquanto for capaz de administrar seus negócios de acordo com seu julgamento, será autossuficiente – enquanto se casa com uma esposa; é autossuficiente – enquanto educa os filhos; é autossuficiente – e ainda assim não poderia viver se tivesse que viver sem a sociedade dos homens. Conclamações naturais, e não suas próprias necessidades egoístas, o atraem às amizades. Pois, assim como outras coisas têm para nós uma atratividade inerente, também tem a amizade. Como odiamos a solidão e ansiamos por sociedade, à medida que a natureza atrai os homens uns para os outros, há também uma atração que nos faz desejosos de amizade.
  18. Não obstante, embora o sábio possa amar seus amigos com carinho, muitas vezes contrapondo-os com ele mesmo, e colocando-os à frente de si próprio, todo o amor será limitado a seu próprio ser, e ele falará as palavras que foram faladas pelo próprio Estilpo quem Epicuro critica em sua carta. Pois Estilpo, depois que seu país foi capturado e seus filhos e sua esposa mortos, ao sair da desolação geral só e mesmo assim feliz, falou da seguinte maneira para Demétrio, conhecido como Saqueador das Cidades por causa da destruição que ele trouxe sobre elas, em resposta a pergunta se ele tinha perdido alguma coisa: “Eu tenho todos os meus bens comigo!”
  19. Há um bravo e corajoso homem em você! O inimigo conquistou, mas Estilpo conquistou seu conquistador. – Não perdi nada! Sim, ele forçou Demétrio a se perguntar se ele mesmo havia conquistado algo, afinal. “Meus bens estão todos comigo!” Em outras palavras, ele não considerou nada que pudesse ser tirado dele como sendo um bem. Ficamos maravilhados com certos animais porque eles podem passar pelo fogo e não sofrer danos corporais; mas quão mais maravilhoso é um homem que marchou ileso e incólume através do fogo, da espada e da devastação! Você entende agora o quão mais fácil é conquistar uma tribo inteira do que conquistar um homem? Este dito de Estilpo é comum com o estoicismo; O estoico também pode carregar de forma ilesa seus bens através de cidades devastadas; pois ele é autossuficiente. Tais são os limites que ele estabelece para sua própria felicidade.
  20. Mas você não deve pensar que nossa escola sozinha pode proferir palavras nobres; O próprio Epicuro, o insultador de Estilpo, usava semelhante linguagem; coloco ao meu crédito, embora eu já tenha quitado minha dívida para o dia de hoje. Ele diz: “Quem não considera o que tem como riqueza mais ampla, é infeliz, embora seja o senhor do mundo inteiro”. Ou, se a seguinte lhe parece uma frase mais adequada, – porque devemos traduzir o significado e não as meras palavras: “Um homem pode governar o mundo e ainda ser infeliz, se ele não se sente supremamente feliz. “
  21. Contudo, para que você saiba que esses sentimentos são universais, propostos, certamente, pela natureza, você encontrará em um dos poetas cômicos esta estrofe:
Infeliz é aquele que se considera infeliz. Non est beatus, esse se qui non putat.[5]

Ou o que importa sua situação, se ela é ruim a seus próprios olhos?

  1. Você poderia dizer; “Se, o homem rico, senhor de muitos, mas escravo de ganância por mais, chamar-se de feliz, sua própria opinião o tornará feliz?” Não importa o que ele diz, mas o que ele sente; também, não como se sente em um dia específico, mas como se sente em todos os momentos. Não há razão, porém, para que você tema que este grande privilégio caia em mãos indignas; somente o sábio está satisfeito com o que tem. A insensatez é sempre perturbada com o enfado si mesma.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] i.e. os Cínicos

[2] Fídias foi um célebre escultor da Grécia Antiga. Sua biografia é cheia de lacunas e incertezas, e o que se tem como certo é que ele foi o autor de duas das mais famosas estátuas da Antiguidade, a Atena Partenos e o Zeus Olímpico, e que sob a proteção de Péricles encarregou-se da supervisão de um vasto programa construtivo em Atenas, concentrado na reedificação da Acrópole, devastada pelos persas em 480 a.C.

[3] em Latin, quas temporárias, tempo bom.

[4] A distinção baseia-se no significado de egeret “estar em falta de” algo indispensável, e opus esse, “ter necessidade de” algo com o qual se pode prescindir.

[5] Autor desconhecido, talvez uma adaptação do grego.

Pensamento do Dia #23: Sobre força bruta e cérebros

O pensamento do fim de semana é sobre atividade física:

Sêneca diz em sua Carta 15: “Sobre força bruta e cérebros

Há exercícios curtos e simples que cansam o corpo rapidamente, e assim economizam nosso tempo; E o tempo é algo do qual devemos manter estrita conta. Estes exercícios são correr, levantar pesos e saltar, saltos altos ou saltos largos. Selecione para praticar qualquer um destes, e você vai perceber ser simples e fácil. Mas o que quer que você faça, volte logo do corpo à mente. A mente deve ser exercitada dia e noite, pois é alimentada pelo trabalho moderado.

É claro que eu não ordeno que você esteja sempre curvado sobre seus livros e materiais de escrita; a mente necessita de variedade, – mas uma variedade de tal natureza que não seja irritante, mas simplesmente branda. E esta forma de exercício não precisa ser atrapalhada pelo tempo frio ou quente, ou mesmo pela velhice. Cultive esse bem que melhora com os anos.

Ou ainda Sêneca no ensaio Sobre a tranquilidade da Alma

Devemos tomar caminhadas na natureza para que a mente possa ser alimentada e atualizada sob ar livre e a respiração profunda.

(imagem Casal caminhado  por Vincent van Gogh)

Leia mais em:

 

Pensamento do Dia #22: Como responder a críticas injustas II

Devemos manter o silêncio diante de um insulto?

Depende da situação. Mas a única coisa que não devemos fazer é levar o insulto pessoalmente. Em vez disso, devemos rejeitar o discurso de ódio, da mesma forma que devemos ignorar os latidos de um cão raivoso.

Devemos ter em mente que o cão, não sendo totalmente racional, não pode se controlar. Sêneca acrescentaria que, se nos deixarmos irritar com um cachorro latindo, nós só podemos culpar a nós mesmos.

 

 

Pensamento do Dia #21: Como responder a críticas injustas.

Como responder a críticas injustas.

Um estoico sabe que será destinatário de críticas injustas. Não se queixe e resmungue por isso, faça como Epiteto:

Se alguém lhe disser que uma certa pessoa fala mal de você, não se justifique sobre o que é dito, mas responda: “Ele ignora minhas outras falhas, senão não teria mencionado só essas“. ( O Manual de Epiteto

Sabia que tentar controlar as opiniões de outras pessoas é como tentar controlar o clima – e que uma vida pública garante o escrutínio público.  Se estiver preso aos seus ideais e ética e fizer seu trabalho bem, no final, o julgamento adequado será prestado.

(imagem Retrato imaginário de Epiteto – gravura do século XVIII – autor desconhecido)

Leia mais em:

;     

Pensamento do Dia #20: Verdadeira Alegria

despreze todas as coisas que brilham exteriormente e que são oferecidas a você ou a qualquer outro; olhe para o verdadeiro bem, e alegre-se apenas naquilo que vem de seu depósito. E o que quero dizer com “seu depósito”? Eu quero dizer de seu próprio eu, que é a melhor parte de você.  Nada externo. O corpo frágil também, embora não consigamos fazer nada sem ele, deve ser considerado apenas necessário, e não tão importante; envolve-nos em prazeres fúteis, de curta duração, e logo a serem lamentados, a menos que sejam controlados por um extremo autocontrole, tais prazeres serão transformados em antagônicos. Isso é o que quero dizer: o prazer, a menos que tenha sido mantido dentro dos limites, tende a nos precipitar no abismo da tristeza. Mas é difícil manter limites dentro daquilo que você acredita ser bom. O verdadeiro bem pode ser cobiçado com segurança.

 

(Sêneca, Carta 23. Sobre a verdadeira alegria que vem da filosofia –  Imagem Platão e Aristoteles por Raphael) . Carta completa no Volume I.