Carta 17: Sobre Filosofia e Riquezas

Mais uma vez Sêneca aborda a questão da pouca importância do dinheiro para a felicidade e exalta Lucílio colocar o estudo da filosofia em primeiro plano, deixando a acumulação de riquezas em segundo.

Tal conselho, vindo de um dos mais ricos homens de Roma pode parecer hipócrita, e o próprio Sêneca era alvo de seus críticos, que perguntavam: “Por que você fala muito melhor do que vive?” Sêneca em seus escritos discorre sobre a possibilidade de alguém ser rico, até mesmo extremamente rico, e manter a integridade ética. Existem três critérios principais para isso, Sêneca nos diz.

  1. O rico virtuoso deve manter a atitude correta, alheia e não-escrava em relação à sua riqueza, possuindo-a sem obrigação e disposto a desistir de tudo quando necessário: “Ele é um grande homem que usa pratos de barro como se fossem de prata; mas é igualmente grande quem usa a prata como se fosse barro“. (Carta 98:  Sobre a inconstância da fortuna)
  2. Em segundo lugar, ele deve adquirir riquezas de maneira moralmente legítima, para que seu dinheiro não seja “manchado de sangue ”.
  3. Em terceiro lugar, ele deve usar suas riquezas generosamente, para beneficiar os menos favorecidos do que ele – uma disposição que convida à comparação com o trabalho de caridade praticado por filantropos ricos em nosso próprio tempo.

(Imagem O julgamento de Midas por Pieter Jacobsz. Codde)

 

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Sobre Filosofia e Riquezas

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Elimine todas as coisas desse tipo, se você é sábio; ou melhor, para que seja sábio; objetive uma mente sã, rápida e com toda a sua força. Se qualquer vínculo o retém, desfaça-o ou corte-o. “Mas”, diz você, “minha propriedade me atrasa, desejo fazer tal arranjo, que me sustente quando não puder mais trabalhar, para que a pobreza não seja um fardo para mim, ou eu mesmo um fardo para os outros.”
  2. Você não parece, ao dizer isto, conhecer a força e o poder desse bem que você está considerando. De fato, você compreende tudo o que é importante, o grande benefício que a filosofia confere, mas você ainda não discerne com precisão suas várias funções, nem sabe quão grande é a ajuda que recebemos da filosofia em tudo, para usar a linguagem de Cícero, ela não só nos ajuda nas maiores questões, mas também desde a menor. Siga meu conselho; chame a sabedoria em consulta; ela irá aconselhá-lo a não sentar para sempre em seu livro-razão.
  3. Sem dúvida, seu objetivo, o que você deseja alcançar com tal adiamento de seus estudos, é que a pobreza não lhe aterrorize. Mas e se ela for algo a desejar? As riquezas têm impedido muitos homens de alcançarem a sabedoria; a pobreza é desembaraçada e livre de cuidados. Quando a trombeta soa, o homem pobre sabe que não está sendo atacado; quando há um grito de “fogo”, ele só procura uma maneira de escapar, e não pergunta o que pode salvar; se o homem pobre deve ir para o mar, o porto não ressoa, nem os cais são abalados com o séquito de um indivíduo. Nenhuma multidão de escravos envolve o homem pobre, escravos para cujas bocas o mestre deve cobiçar as plantações férteis de seus vizinhos.
  4. É fácil preencher poucos estômagos, quando eles são bem treinados e anseiam nada mais, a não ser serem preenchidos. A fome custa pouco; O escrúpulo custa muito. A pobreza está satisfeita com o preenchimento de necessidades urgentes. Por que, então, você deve rejeitar a Filosofia como uma amiga?
  5. Mesmo o homem rico segue seus caminhos quando é sensato. Se você deseja ter tempo livre para sua mente, seja um pobre homem, ou se assemelhe a um pobre homem. O estudo não pode ser útil a menos que você se esforce para viver simplesmente; e viver simplesmente é pobreza voluntária. Então, fora com todas as desculpas, como: “Eu ainda não tenho o suficiente, quando eu ganhar a quantidade desejada, então vou me dedicar inteiramente à filosofia.” E, no entanto, este ideal, que você está adiando e colocando em segundo lugar, deve ser assegurado em primeiro lugar; você deve começar com ele. Você retruca: “Eu desejo adquirir algo para viver.” Sim, mas aprenda enquanto você está adquirindo; pois se alguma coisa o proíbe de viver nobremente, nada o proíbe de morrer nobremente.
  6. Não há nenhuma razão pela qual a pobreza deva nos afastar da filosofia, – não, nem mesmo a necessidade real. Pois, quando se aprofunda na sabedoria, podemos suportar até a fome. Os homens suportaram a fome quando suas cidades foram sitiadas, e que outra recompensa por sua resistência eles obtiveram a não ser não cair sob o poder do conquistador? Quão maior é a promessa de liberdade eterna, e a certeza de que não precisamos temer nem a Deus nem aos homens! Mesmo que nós morramos de fome, devemos alcançar essa meta.
  7. Os exércitos suportam toda a maneira de carestia, vivem de raízes, e resistem à fome com alimentos repugnantes demais para mencionar. Tudo isso eles têm sofrido para ganhar um reino, e, o que é mais assombroso, ganhar um reino que será de outro. Será que algum homem hesitaria em suportar a pobreza, a fim de libertar sua mente da loucura? Portanto, não se deve procurar primeiro acumular riquezas; pode-se chegar na filosofia, mesmo sem dinheiro para a viagem.
  8. É mesmo assim. Depois de ter possuído todas as outras coisas, também deseja possuir sabedoria? É a filosofia o último requisito da vida, uma espécie de suplemento? Não, seu plano deve ser este: ser um filósofo agora, se você tem alguma coisa ou não, – se você tem alguma coisa, como você sabe que já não tem muito? – Mas se você não tem nada, procure o discernimento primeiro, antes de qualquer outra coisa.
  9. “Mas,” você diz, “eu irei carecer das necessidades da vida.” Em primeiro lugar, você não pode carecer delas; porque a natureza exige pouco, e o homem sábio adapta suas necessidades à natureza. Mas se maior necessidade chegar, ele rapidamente se despedirá da vida e deixará de ser um problema para si mesmo. Se, no entanto, seus meios de existência forem escassos e reduzidos, ele fará o melhor deles, sem se preocupar ou se preocupar com nada mais do que com as necessidades básicas; fará justiça ao seu ventre e aos seus ombros; com espírito livre e feliz, rir-se-á da agitação dos homens ricos e dos caminhos confusos daqueles que se abalam em busca da riqueza,
  10. e dirá: “Por que, por sua própria vontade, adia a vida real para o futuro distante? Para que algum juro seja depositado, ou por algum dividendo futuro, ou para um lugar no testamento de algum velho rico, quando você pode ser rico aqui e agora? A sabedoria oferece a riqueza a vista, e paga em dobro àqueles em cujos olhos ela tornou a riqueza supérflua.” Estes comentários referem-se a outros homens; você está mais perto da classe rica. Mude a sua idade, e você terá muito[1]. Mas em todas as idades, o que é necessário permanece o mesmo.
  11. Eu poderia encerrar minha carta neste momento, se eu não o tivesse acostumando mal. Não se pode cumprimentar a realeza sem trazer um presente; e no seu caso eu não posso dizer adeus sem pagar um preço. Mas o que será? Tomarei emprestado de Epicuro: “A aquisição de riquezas tem sido para muitos homens, não um fim, mas uma mudança, de problemas”.
  12. Não me admiro. Pois a culpa não está na riqueza, mas na própria mente. Aquilo que fez da pobreza um fardo para nós, torna as riquezas também um fardo. Assim como pouco importa se você coloca um homem doente em uma cama de madeira ou sobre uma cama de ouro, pois onde quer que ele seja movido ele vai levar sua doença com ele, por isso não é preciso se importar se a mente doente é outorgada às riquezas ou à pobreza. O padecimento vai com o homem.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Isto é, imagine-se jovem.

Pensamento do Dia #28: Trabalho e Prazer

“Quando eu ainda era um menino na escola, ouvi dizer esse ditado grego, e como o sentimento é verdadeiro e marcante, bem como nítido e redondo, eu fiquei muito feliz em memorizá-lo. “Se alguém realiza algum bem embora com trabalho, a labuta passa, mas o bem permanece; se alguém faz algo desonroso com prazer, o prazer passa, mas a desonra permanece“.

Depois, li esse mesmo sentimento em um discurso de Catão, que foi proferido em Numantia. Embora se expresse de forma um pouco menos compacta e concisa, em comparação com o grego que citei, mas por ser anterior e mais antigo, pode parecer mais impressionante. As palavras de seu discurso são as seguintes: “Considere isto em seus corações: se você realizar algum bem acompanhado com trabalho, a labuta rapidamente deixará você; mas se você fizer algum mal acompanhado com prazer, o prazer passará rapidamente, mas a má ação permanecerá com você sempre“.

Fragmento 51 de Musonio Rufo. Professor de Epiteto.

(imagem Gravura de 1886 – Liteira Romana)

 

 

Carta 16: Filosofia, o Guia da Vida

Seria o estoicismo útil para religiosos? e para ateus e agnósticos? Sêneca diz que sim, e para todos. A ideia básica da carta 16 é deixada clara nas primeiras linhas: “nenhum homem pode viver uma vida feliz, ou mesmo uma vida suportável, sem o estudo da sabedoria” (XVI.1)

Mas o estudo da filosofia é na verdade um amor à sabedoria, e não deve ser perseguido por questões triviais, como Sêneca deixa claro pouco depois: “não é um truque para fisgar o público; não é concebida para aparecer. É uma questão, não de palavras, mas de fatos. Não é perseguida de modo que o dia possa render alguma diversão”(XVI.3). Isso praticamente eliminaria muita filosofia acadêmica moderna.

No quinto parágrafo Sêneca apresenta um interessante argumento sobre por que a filosofia deveria ser nosso guia na vida, independentemente de nossas posições religiosas (metafísicas): “se a fortuna nos amarra por uma lei inexorável, ou se Deus, como árbitro do universo, providenciou tudo, ou se o acaso dirige e lança os assuntos humanos sem método, a filosofia deve ser nossa defesa”.

Observe as três possibilidades consideradas: Destino inexorável, ou o que hoje chamaríamos de determinismo; Deus como o planejador de tudo o que acontece no universo, semelhante à idéia cristã da Providência; ou o Acaso, o caos epicurista que caracteriza um cosmos no qual Deus não desempenha nenhum papel ativo.

Isso não é nada diferente dos comentários de Marco Aurélio nas Meditações: “Ou uma necessidade do destino e uma ordem inviolável, ou uma providência compassiva, ou um caos fortuito, sem direção. Se, pois, trata-se de uma necessidade inviolável, a que oferece resistência? E se uma providência que aceita ser compassiva, faça a ti mesmo merecedor do socorro divino. E se um caos sem guia, conforma- te, porque em meio de um fluxo de tal índole dispõe em seu interior de uma inteligência guia.” (Meditações XII.14)

Sêneca, em seguida, puxa uma de suas não raras citações positivas de Epicuro: “Isto também é um ditado de Epicuro: ‘Se você vive de acordo com a natureza, você nunca será pobre, se você viver de acordo com a opinião, você nunca será rico.” (XVI.7)

A carta conclui com esse contraste agradável e instrutivo, que leva a uma verdade profunda: “Suponha que a fortuna cubra-o com ouro, roupas em roxo, luxo e riqueza… Adicione estátuas, pinturas, e tudo o que a arte tem concebido para o luxo; você só aprenderá com essas coisas a desejar ainda mais…O falso não tem limites. ”(XVI.8-9)

(imagem  “Philosophy and Christian Art” porDaniel Huntington)


 

XVI Sobre Filosofia, o Guia da Vida

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Tenho certeza que está claro para você, Lucílio, que nenhum homem pode viver uma vida feliz, ou mesmo uma vida suportável, sem o estudo da sabedoria; você sabe também que uma vida feliz é alcançada quando a nossa sabedoria é levada ao auge, mas que a vida é pelo menos suportável, mesmo quando a nossa sabedoria apenas começa. Essa ideia, no entanto, embora clara, deve ser fortalecida e implantada mais profundamente pela reflexão diária; é mais importante para você manter as resoluções que já fez do que ir e fazer novas. Você deve perseverar, deve desenvolver uma nova força através do estudo contínuo, até que o que era apenas uma boa disposição se torne um propósito bem estabelecido.
  2. Daí você não precisa mais vir a mim com muita conversa e declarações solenes; sei que você fez grandes progressos. Eu entendo os sentimentos que originam suas palavras; não são palavras fingidas ou enganosas. No entanto, vou dizer-lhe o que penso, que no momento tenho esperanças para você, mas ainda não perfeita confiança. E gostaria que você adotasse a mesma atitude em relação a si mesmo; não há nenhuma razão porque você deva colocar muita confiança em si mesmo rapidamente e sem grande esforço. Examine-se; examine-se e observe-se de várias maneiras; mas antes de tudo diga se é na filosofia ou meramente na própria vida que você fez progresso[1].
  3. Filosofia não é um truque para fisgar o público; não é concebida para aparecer. É uma questão, não de palavras, mas de fatos. Não é perseguida de modo que o dia possa render alguma diversão antes que seja extenuado, ou que nosso ócio possa ser aliviado de um tédio que nos irrita. Molda e constrói a alma; ordena nossa vida, guia nossa conduta, nos mostra o que devemos fazer e o que devemos deixar por fazer; ela senta ao leme e dirige o nosso curso enquanto nós titubeamos em meio a incertezas. Sem ela, ninguém pode viver intrepidamente ou em paz de espírito. Inúmeras coisas que acontecem a cada hora pedem conselhos; e esses conselhos devem ser buscados na filosofia.
  4. Talvez alguém diga: “Como pode a filosofia me ajudar, frente a existência da Fortuna?” De que serve a filosofia, se Deus governa o universo? De que vale, se a fortuna governa tudo? Não só é impossível mudar as coisas que são determinadas, mas também é impossível planejar de antemão contra o que é indeterminado, ou Deus já antecipou meus planos, e decidiu o que devo fazer, ou então a fortuna não dá liberdade aos meus planos.
  5. Se a verdade, Lucílio, está em uma ou em todas estas perspectivas, nós devemos ser filósofos; se a fortuna nos amarra por uma lei inexorável, ou se Deus, como árbitro do universo, providenciou tudo, ou se o acaso dirige e lança os assuntos humanos sem método, a filosofia deve ser nossa defesa. Ela nos encorajará a obedecer a Deus alegremente, e a fortuna desafiadoramente; ela nos ensinará a seguir a Deus e a suportar a fortuna.
  6. Mas não é meu propósito agora ser levado a uma discussão sobre o que está sob nosso próprio controle, se a presciência é suprema, ou se uma cadeia de eventos fatais nos arrasta em suas garras, ou se o repentino e o inesperado nos domina; Volto agora ao meu aviso e à minha exortação, para que não permita que o impulso do seu espírito se enfraqueça e fique frio. Mantenha-se firme nele e estabeleça-o firmemente, a fim de que o que é agora ímpeto possa tornar-se um hábito da mente.
  7. Se eu lhe conheço bem, você já está tentando descobrir, desde o início da minha carta, a pequena contribuição que ela traz para você. Peneire a carta e você a encontrará. Você não precisa se maravilhar com nenhum gênio meu; porque, ainda assim, eu sou pródigo apenas com a propriedade de outros homens. – Mas por que eu disse “outros homens”? O que quer de bom que seja dito por alguém é meu. Este é também um dito de Epicuro: “Se você vive de acordo com a natureza, você nunca será pobre, se você viver de acordo com a opinião, você nunca será rico.
  8. Os desejos da natureza são leves; as exigências da opinião são ilimitadas. Suponha que a propriedade de muitos milionários seja entregue em sua posse. Suponha que a fortuna leve você muito além dos limites de um rendimento privado, cubra-o com ouro, roupas em roxo, e traga-lhe a tal grau de luxo e riqueza que você possa cobrir a terra sob seus pés de mármore; que você possa não só possuir, mas andar sobre, riquezas. Adicione estátuas, pinturas, e tudo o que a arte tem concebido para o luxo; você só aprenderá com essas coisas a desejar ainda mais.
  9. Os desejos naturais são limitados; mas aqueles que brotam da falsa opinião não tem ponto de parada. O falso não tem limites. Quando você está viajando em uma estrada, deve haver um fim; mas quando perdido, suas andanças são ilimitadas. Recorra seus passos, portanto, de coisas inúteis, e quando você quiser saber se o que procura é baseado em um desejo natural ou em um desejo enganoso, considere se ele pode parar em algum ponto definido. Se você perceber, depois de ter viajado muito, que há um objetivo mais distante sempre em vista, você pode ter certeza que esta situação é contrária à natureza.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Ou seja, apenas avançou em idade.


 

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Princípio Estoico #8: Percepção é chave

“Não são eventos que incomodam as pessoas, são seus julgamentos a respeito deles.”  Manual de Epiteto [5]

O que é percepção?

É como vemos e entendemos o que acontece ao nosso redor e o que decidimos que esses eventos significam. Nossas percepções podem ser como uma bola de chumbo acorrentada aos nossos pés, nos segurando e nos deixando fracos, ou podem ser uma grande fonte de força.

O que nós já aprendemos com os estoicos é que eles vêem eventos externos não como bons ou ruins, mas como indiferentes. Então não são esses eventos, porque eles são indiferentes, mas o seu próprio julgamento deles eventos é que importa.

“Se você está sofrendo por qualquer coisa externa, não é isso que te perturba, mas seu próprio julgamento sobre isso. E está em seu poder acabar com esse julgamento agora” (Meditações de Marco Aurélio)

Isso faz com que você seja responsável por sua vida. Você não controla eventos externos, mas controla como escolhe vê-los e responder a eles. E, no final, isso é tudo que importa.

“Lembre-se de que os infortúnios só podem ser previstos para o seu corpo ou sua propriedade, mas sua mente está sempre disponível para transformá-los em boa sorte, respondendo com virtude.”Manual de Epiteto

Você sempre pode responder com virtude.  Os estoicos tinham essa idéia de que você pode transformar todos os obstáculos em uma oportunidade. Marco Aurélio descreveu assim:

“O impedimento à ação promove a ação. O que fica no caminho se torna o caminho.” (Meditações de Marco Aurélio)

A chave para reconhecer essas oportunidades está na sua percepção. Como você vê as coisas é muito mais importante do que as próprias coisas. Você pode achar o bem em tudo. O estoicismo nos ensina a considerar tudo como uma oportunidade de crescimento.


 

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Princípio Estoico #7: Amor Fati – Ame tudo o que acontece

“Não busques que os acontecimentos aconteçam como queres, mas quere que aconteçam como acontecem, e tua vida terá um curso sereno”. Manual de Epiteto [8.1]

Digamos que aconteceu algo que não desejamos. Agora, o que é mais fácil de mudar: nossa opinião ou o próprio evento? A resposta é óbvia. O evento está no passado e não pode ser alterado. Mas nossa opinião pode. Podemos aceitar o que aconteceu e mudar o nosso desejo de não ter acontecido.

Nietzsche, muitos séculos depois, criou a expressão perfeita para capturar essa idéia: amor fati (amor ao destino):

“Minha fórmula para a grandeza em um ser humano é amor fati: aquele não quer que nada seja diferente, nem para frente, nem para trás, nem em toda a eternidade. Não apenas suportar o que é necessário, menos ainda esconder, mas amar o acontecido”. (Nietzsche – Ecce Homo -seção ‘Por que eu sou tão inteligente’)

Os estóicos usavam uma metáfora poderosa, o cão atrelado a uma carroça:

Imagine um cão preso a uma carroça em movimento. A coleira é longa o suficiente para que o cão tenha duas opções: 1)ele pode seguir suavemente a direção da carroça, sobre a qual ele não tem controle e ao mesmo tempo aproveitar o passeio; ou 2)ele pode obstinadamente resistir a carroça com toda sua força e acabar sendo arrastado pela viagem.

Nós somos esse cachorro. Ou fazemos o melhor da viagem ou lutamos contra cada pequena decisão que o condutor faz. Nos escolhemos.

A carroça sempre se move. A mudança é inevitável. Nas palavras de Ryan Holiday, “ficar chateado com as coisas é assumir erroneamente que elas vão durar … ressentir-se da mudança é assumir erroneamente que você tem uma escolha no assunto“. (The Daily Stoic – Ryan Holiday)

Marco Aurelio escreveu “um fogo ardente faz esplendor e brilho de tudo aquilo que é jogado nele“. (Meditações – Livro X)

Seja um cão sábio e aproveite o passeio. Mesmo que o condutor escolha uma estrada rica em obstáculos.

(imagem NJLifehacks – analogia estoica)

 


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Princípio Estoico #6: Pratique o Infortúnio – Pergunte-se “O que poderia dar errado?”

Existe o conhecido problema da Adaptação Hedônica,  a tendência observada nas pessoas para regressar rapidamente a um nível relativamente estável de felicidade apesar da ocorrência de importantes acontecimentos positivos ou negativos.

Os estoicos usavam uma ferramenta mental para evitar tal situação, “vacinando” suas mentes contra infortúnios. Eles se prepararam para coisas ruins que pudessem acontecer. Os romanos chamavam de “premeditatio malorum“. Premeditação da adversidade.

William Irvine descreve a solução como “a técnica mais valiosa no conjunto de ferramentas dos estoicos” e a chamou de “visualização negativa“:

“Os estoicos pensaram que tinham uma resposta a esta pergunta. Eles recomendaram  imaginar que perdemos as coisas que valorizamos – que nossa esposa nos deixou, nosso carro foi roubado ou perdemos nosso trabalho. Fazendo isso, os estoicos pensavam, nos fariam valorizar nossa esposa, nosso carro e nosso trabalho. Esta técnica – referimos a ela como visualização negativa – foi empregada pelos estoicos desde Crísipo. É, penso eu, a técnica mais valiosa no kit de ferramentas psicológicas dos estóicos. (A Guide to the Good Life)

Tal prática traz dois benefícios:

  1. Satisfação com o que já temos;
  2. Preparação para adversidades futuras;

Esteja pronto para que as coisas aconteçam de forma diferente do planejado. Tenha um plano alternativo.

Nada acontece com o homem sábio contra suas expectativas.” – Sêneca

Eu deveria me surpreender“, pergunta Sêneca, “se os perigos que sempre vagaram sobre mim possam chegar a mim em algum momento?” (Sobre a Brevidade da Vida)

Assolação – esse sentimento de estarmos absolutamente esmagados e arruinados por um evento – é um fator de quão pouco nós consideramos esse evento em primeiro lugar” – (  The Daily Stoic – Ryan Holiday)

O homem sábio prepara-se mentalmente. Nada pode acontecer que ele não tenha visto chegar. A premeditação da adversidade não faz com que tudo seja indolor e fácil de suportar. Mas isso nos ajuda a não entrar em pânico quando o problema acontece. Podemos enfrentar a adversidade com calma, analisá-la de forma racional e decidir tomar uma ação inteligente.

Experimente agora. O que você está planejando fazer nos próximos dias? O que poderia dar errado?

(Fortuna Marina por Frans Francken, A deusa romana Fortuna distribui aleatoriamente seus favores)


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Princípio Estoico #5: Tome ação

Vimos nos princípios anteriores que a maioria das coisas não está sob nosso controle e que devemos aborda-las com indiferença. Então, podemos descansar, não fazer nada e não se importar com  nada?

Não e não.

Nas palavras de Donald Robertson, “Os eventos não estão determinados a acontecer de forma particular, independentemente do que você faz, mas sim junto com o que você faz … O resultado dos eventos ainda depende das suas ações. O verdadeiro filósofo, um guerreiro da mente“. (Stoicism and the Art of Happiness)

Você controla suas ações. Os estoicos não eram indiferentes às suas próprias ações. Uma vez que queriam viver de acordo com a virtude para chegar à vida eudaimônica, eles deveriam  “fazer a coisa certa”. Sempre.

Sim, o estoicismo é uma filosofia de vida prática. Para os estoicos, não basta pensar em como viver a própria vida, mas realmente sair ao mundo e praticar suas ideias.

Outra coisa que os estóicos entendiam, que a filosofia moderna muitas vezes perde, é a idéia do ação real. Epiteto dizia: “Podemos ser fluentes em sala de aula, mas nos leve para fora, para a realidade, e nos mostramos verdadeiros náufragos“. A filosofia não pode ser apenas uma teoria, não pode ser apenas falar, também tem ter prática. Sêneca dizia: “O estóico vê toda a adversidade como treinamento”.

Não seja um náufrago. Escolha ser um guerreiro e sair para praticar sua filosofia.


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Princípio Estoico #4: Separe as coisas como sendo boas, ruins e indiferentes

“Sobre as coisas: algumas são boas, algumas são ruins, e algumas são indiferentes. as Boas, então, são virtudes, e as coisas que participam das virtudes, as Más são contrárias, e as indiferentes são a riqueza, a saúde, a reputação”.   Epiteto – Discursos (II.9)

Os estoicos distinguiam coisas como sendo “boas”, “más” e “indiferentes”.

As coisas boas incluem as virtudes cardeais sabedoria,  justiçacoragem e autodisciplina.  As coisas ruins incluem os opostos dessas virtudes, a saber, os quatro vícios: ignorânciainjustiçacovardia e indulgência. As coisas indiferentes incluem todo o resto. São externas.

Agora, o que mais impressiona é o fato de que as coisas tidas como indiferentes pelo estoicismo são exatamente o que as pessoas hoje em dia julgam como boas ou más. No entanto, essas coisas indiferentes não ajudam nem prejudicam nosso desenvolvimento. Elas não desempenham um papel necessário à Vida Feliz. A indiferença não significa frieza. Ser indiferente às coisas indiferentes não significa não fazer diferença entre elas, mas aceitá-las como são.

Mas ser saudável é melhor do que ficar doente, certo?

Sim. Embora as coisas indiferentes não possam realmente ser “boas”, algumas são mais valiosas do que outras e preferíveis a elas. Portanto, os estóicos diferenciaram coisas indiferentes “preferidas” e “despreferidas“. É uma interpretação bastante lógica. As coisas positivas e indiferentes, como boa saúde, amizade, riqueza e boa aparência, foram classificadas como indiferentes preferenciais, enquanto seus opostos eram indiferentes despreferidos.

As pessoas sempre preferem a alegria sobre a dor, a riqueza sobre a pobreza e a boa saúde sobre a doença – então vá em frente e procure por essas coisas, mas não quando isso põe em perigo a sua integridade e virtude. Em outras palavras, é melhor suportar a dor, a pobreza ou a doença de maneira honrosa do que buscar alegria, riqueza ou saúde de forma vergonhosa.

Sêneca diz em sua carta 82:

“Eu classifico como ‘indiferente’ – ou seja, nem o bem nem o mal – a doença, a dor, a pobreza, o exílio, a morte. Nenhuma dessas coisas é intrinsecamente gloriosa; mas nada pode ser glorioso além delas. Pois não é a pobreza que louvamos, é o homem a quem a pobreza não pode humilhar ou dobrar. Nem é o exílio que louvamos, é o homem que se retira para o exílio no espírito em que teria enviado outro para o exílio. Não é a dor que louvamos, é o homem a quem a dor não coagiu. Ninguém elogia a morte, mas o homem cuja alma a morte tira antes que possa amaldiçoa-la.  Todas estas coisas não são em si nem honradas nem gloriosas; mas qualquer uma delas que a virtude tem visitado e tocado é feita honrada e gloriosa pela virtude; elas se limitam ao meio, e a questão decisiva é apenas se a maldade ou a virtude tem sobrepujado sobre elas. Por exemplo, a morte no caso de Catão é gloriosa.” (Carta 82. 10-12).

O único bem é a virtude, que está em nosso encargo. O único mal é o vício, que também está em nosso encargo. Tudo o mais é indiferente  porque não depende de nós. Portanto, não é o que você tem ou não tem, mas o que você faz com isso que importa. O que conta são suas ações. É tudo o que você controla.

(imagem A escolha entre a Virtude e o Vício por Frans Francken)


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Princípio Estoico #3: Concentre-se no que pode controlar, aceite o que não pode

“Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o desejo, a repulsa –em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos –em suma: tudo quanto não seja ação nossa. ” Manual de Epiteto [1.2]

Esta passagem é encontrada logo no início do Enchirídion de Epiteto, porque é fundamental para os ensinamentos da Filosofia Estoica. É denominada “dicotomia estoica do controle“, o princípio mais característico do estoicismo. Devemos distinguir cuidadosamente o que é “nosso encargo“, ou seja, algo sob nosso próprio poder, e o que não é. São nosso encargo nossas escolhas voluntárias, a saber, nossas ações e julgamentos, enquanto todo o resto não está sob nosso controle.

Inclusive nosso corpo não depende de nós, ou pelo menos não inteiramente. Sim,  há muitas coisas que podemos fazer para obter um corpo saudável e atraente. Mas isso só é possível até certo ponto. Podemos controlar nossas ações e manter uma dieta saudável, exercitar sistematicamente e sermos ativos, mas não temos controle sobre outras coisas, como genes e fatores externos, como doenças e lesões .

Só controlamos nossas próprias ações e temos que aceitar o resultado com equanimidade. Teremos satisfação e confiança de saber que estamos fazendo o melhor e tentando tudo o que estiver ao nosso alcance para atingir nosso objetivo. Então,  podemos aceitar o resultado porque fizemos nosso melhor. Se o resultado não é satisfatório, devemos aceitá-lo facilmente e dizer: “Bem, eu fiz o meu melhor”.

Os estoicos usam a Analogia do Arqueiro para explicar isso:

Um arqueiro está tentando atingir um alvo. Ele tem uma série de coisas sob seu controle, como o treinamento, qual arco e flecha usar, quão bem apontar e quando soltar a flecha. Então ele pode fazer o seu melhor até o momento em que a flecha deixa seu arco.

Agora, ele atingirá o alvo?

Isso não depende dele. Afinal, uma rajada de vento, um movimento súbito do alvo, ou algo pode entrar entre a flecha e o alvo. E o arqueiro estoico está pronto para aceitar todos os resultados possíveis com tranquilidade, porque ele fez o seu melhor e deixou o resto (o que ele não podia controlar) para a natureza.

Massimo Pigliucci coloca em seu livro How to Be a Stoic:

“Este é precisamente o poder do estoicismo: a internalização da verdade básica que podemos controlar nosso comportamento, mas não os seus resultados – e muito menos os resultados dos comportamentos de outras pessoas – o que leva à aceitação tranquila do que acontece, assegurando o conhecimento de que nós fizemos o nosso melhor, tendo em conta as circunstâncias”.

E o que sempre podemos tentar o nosso melhor? viver de acordo com a virtude. Sim, podemos sempre tentar aplicar a razão, atuar com coragem, tratar com justiça e exercitar a moderação.

Vejamos um dos exercícios práticos recomendado por Epiteto:

“Faça uma prática dizer a todas as impressões fortes: ‘Uma impressão é tudo o que você é’. Em seguida, teste e avalie com seus critérios, mas um principalmente: pergunte: ‘Isso é algo que está ou não está sob meu controle?’ E se não é uma das coisas que você controla, diga: ‘Então não é minha preocupação’.  Epiteto – Discursos (II.18)

Se é seu encargo, então faça algo sobre isso, se não, aceite como está.

As coisas que dependem de você, ou seja seus pensamentos e ações, são as coisas mais importantes. Donald Robertson disse isso bem em seu livro Estoicismo e Arte da Felicidade:

“A conclusão filosófica de que o principal bem, o mais importante na vida, deve necessariamente ser aquilo que está a “nosso encargo” é ao mesmo tempo o aspecto mais difícil e mais atraente do estoicismo. Isso nos torna completamente e totalmente responsáveis pela nossa vida, privando-nos de desculpas para não florescer e alcançar a melhor vida possível, porque isso está sempre ao nosso alcance “.

Então, a lição chave para tirar aqui é concentrar nossa atenção e esforços onde temos mais poder e deixar o universo cuidar do resto.


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Princípio Estoico #2: Viva pela Virtude

Alcançar a “virtude” é o bem mais elevado.

O que os estoicos denotavam como “virtude” era sobressair ou florescer em termos de nossa natureza humana racional. Basicamente, quando você vive de acordo com a virtude, você está vivendo a Boa Vida. Essa excelência humana se dá em diferentes formas de virtude destacada nas quatro virtudes cardeais:

  • Sabedoria prática: a habilidade de navegar situações complexas de forma lógica, informada e calma;
  • Autodisciplina ou Temperança: o exercício de autorrestrição e moderação em todos os aspectos da vida;
  • Justiça: tratar outros justamente mesmo quando fazem algo errado;
  • e Coragem: não só em circunstâncias extraordinárias, mas ao encararmos desafios diários com claridade e integridade.

Quando agimos de acordo com essas virtudes, caminhamos para a Boa Vida. No sentido estoico, você só pode ser virtuoso se praticar todas as virtudes. A virtude é um pacote tudo-ou-nada e somente um Sábio as têm completamente. É importante entender que o conceito “sábio” para os filósofos antigos é um ideal a ser atingido, e não alguém real. Segundo Sêneca o sábio se equivale aos deuses, com a única distinção do sábio ser humano e mortal.

Para os estóicos, é indiscutível que a virtude deva ser sua própria recompensa. Você faz algo porque é a coisa certa a fazer. Você age virtuosamente por sua própria causa.  Às vezes, agir de acordo com a virtude traz benefícios adicionais,  no entanto, esses benefícios devem ser interpretados como “bônus adicional” e não podem ser o principal motivo da ação.

(Imagem: Escolha de Hercules entre a Virtude e Vício por Pelagio Pelagi)

 


Princípios Estoicos: