Carta 44: Sobre Filosofia e Pedigrees

Hoje O Estoico está completando um ano de existência e comemoramos com uma das melhores cartas de Sêneca.

A carta é bastante significativa para os dias atuais onde é comum reclamar dos “privilégios” dos outros e fazer-se de vítima, ou seja, assim como Lucílio já fazia há 2000 anos.

A resposta de Sêneca é excelente, e contem duas partes:

1. que todos somos iguais: 

A filosofia não rejeita nem escolhe ninguém; sua luz brilha para todos. Sócrates não era aristocrata. Cleantes trabalhou em um poço e serviu como um homem contratado regando um jardim. A filosofia não achou Platão já um nobre; ela o fez um.  Por que então você deve temer ser capaz de se comparar a homens como estes? ” (XLIV, 3)

2.  que procuramos a felicidade em lugar errado, ou seja, nos bens materiais:

Onde, então, está o erro, uma vez que todos os homens anseiam à vida feliz? É que eles consideram os meios para produzir a felicidade como a felicidade em si, e, enquanto procuram a felicidade, eles estão realmente fugindo dela.” (XLIV, 7)

(Imagem: Morte de Sócrates por  Jacques-Louis David)


XLIV. Sobre Filosofia e Pedigrees

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você está insistindo de novo que é um ninguém, e dizendo que a natureza em primeiro lugar, e a Fortuna no segundo, o trataram muito injustamente, e isso apesar de você ter em seu alcance o poder de separar-se da multidão e ascender-se para a mais alta felicidade humana! Se há algum bem em filosofia, é isto, – que nunca olha em pedigrees. Todos os homens, se rastreados à sua fonte original, brotam dos deuses.
  2. Você é um cavaleiro romano, e seu trabalho persistente o promoveu a esta classe; contudo certamente há muitos a quem as quatorze fileiras[1] são barradas; a Câmara do Senado não está aberta a todos; o exército, também, é escrupuloso na escolha dos que admite alistar. Mas uma mente nobre é livre para todos os homens; de acordo com este teste, todos nós podemos ganhar distinção. A filosofia não rejeita nem escolhe ninguém; sua luz brilha para todos.
  3. Sócrates não era aristocrata. Cleantes trabalhou em um poço e serviu como um homem contratado regando um jardim. A filosofia não achou Platão já um nobre; ela o fez um. Por que então você deve temer ser capaz de se comparar a homens como estes? Eles são todos os seus ancestrais, se você se comportar de maneira digna; e você fará isso se você se convencer, desde o princípio, de que nenhum homem lhe supera em verdadeira nobreza.
  4. Todos temos o mesmo número de antepassados; não há homem cujo primeiro começo não fuja da memória. Platão diz: “Todo o rei nasce de uma raça de escravos, e todo escravo tem reis entre seus antepassados”. O passar do tempo, com suas vicissitudes, tem misturado todas essas posições sociais, e a Fortuna as virado de cabeça para baixo.
  5. Então, quem é bem-nascido? Aquele que por natureza é bem adaptado à virtude. Esse é o único ponto a ser considerado; caso contrário, se você voltar para a antiguidade, cada um remonta a uma data antes da qual não há nada. Desde os primórdios do universo até o presente, fomos conduzidos a frente de origens que eram alternadamente ilustres e ignóbeis. Um salão cheio de bustos manchados não faz o nobre. Nenhuma vida passada foi vivida para nos emprestar a glória, e aquilo que existiu antes de nós não é nosso; só a alma nos torna nobres, e pode se elevar acima da fortuna, escapando de qualquer circunstância anterior, não importa qual seja essa circunstância.
  6. Suponha, então, que você não fosse um Cavaleiro Romano, mas um escravo liberto, você poderia, no entanto, por seus próprios esforços vir a ser o único homem livre entre uma multidão de cavalheiros. “Como?”, você pergunta. Simplesmente distinguindo entre coisas boas e ruins sem usar a opinião da multidão. Você deve olhar, não para a fonte de onde essas coisas vêm, mas para o objetivo para o qual elas tendem. Se há algo que pode fazer a vida feliz, ele é bom em seus próprios méritos; pois não pode degenerar em mal.
  7. Onde, então, está o erro, uma vez que todos os homens anseiam à vida feliz? É que eles consideram os meios para produzir a felicidade como a felicidade em si, e, enquanto procuram a felicidade, eles estão realmente fugindo dela. Pois, embora o resumo e a substância da vida feliz seja a liberdade pura, e embora o segredo de tal liberdade seja a convicção inabalável, contudo os homens acumulam o que causa preocupação e, enquanto viajam o caminho traiçoeiro da vida, não só têm fardos para carregar, mas atraem mais fardos para si mesmos; Portanto, eles se afastam cada vez mais da realização daquilo que buscam, e quanto mais esforço eles empenham, mais eles se atrapalham e recuam. Isto é o que acontece quando você se apressa através de um labirinto; quão mais rápido você vai, pior é o emaranhado.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Referencia a regra de assento no Coliseu – O primeiro nível, Podium, era reservado aos mais importantes romanos – o Imperador e as Virgens Vestais e membros do senado. O 2º Nível – Maenianum primum: era reservado para a classe nobre não-senatorial chamada de Cavaleiros ou Equites, consistindo de quatorze filas de assentos em mármore.

Filme: A Balada de Buster Scruggs

“Misantropo? Eu não odeio os outros homens. Mesmo quando são incômodos e desagradáveis , e tentam trapacear no pôquer, para mim isso faz parte da natureza humana. E aquele que encontra nisso razão para ficar consternado ele que  é um tolo por ter altas expectativas.”  Buster Scruggs.

Uma pitada de sabedoria estoica no filme : “A Balada de Buster Scruggs“.  O Estoico ultimamente não tem apreciado cinema, achando os filmes atuais maçantes e longos, porém aprovou o filme dos irmãos Coen.  São seis estórias separadas passadas no velho oeste.  Recomendado.

Mais na crítica de Brian Denton

(imagen capturada do Netflix)

 

 

Carta 43: Sobre a Relatividade da Fama

Na carta 43 Sêneca fala sobre a relatividade da fama.  Afirma que a virtude é o objetivo certo e que devemos pratica-la sem esperar algo em troca.  O comportamento virtuoso é a recompensa em si mesmo e traz a vantagem da consciência tranquila:

“Uma boa consciência recebe com prazer a multidão, mas uma má consciência, mesmo na solidão, é perturbada e inquieta. Se seus feitos são honrosos, que todos os conheçam; se infames, o que importa que ninguém deles saiba, se você mesmo os reconhece? Como você é desventurado se despreza tal testemunha!” (XLIII, 5)

(Imagem recepção de Grande Condé em Versailles por Jean-Léon Gérôme)


XLIII. Sobre a Relatividade da Fama

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você pergunta como a notícia chegou a mim, e quem me informou, que você estava entretendo esta ideia, sobre qual você não disse nada a uma única alma? Foi a mais conhecedora das pessoas, – a fofoca. “O quê”, você diz, “eu sou uma personagem tão grande que eu posso atiçar fofocas?” Ora, não há razão para que se meça de acordo com minha parte do mundo[1]; considere somente o lugar onde você está morando.
  2. Qualquer ponto que sobe acima dos pontos adjacentes é grande. Pois a grandeza não é absoluta; a comparação a aumenta ou a diminui. Um navio que se agiganta no rio parece pequeno quando no oceano. Um leme que é grande para uma embarcação, é pequeno para outra.
  3. Assim você em sua província é realmente importante[2], embora você se menospreze. Homens perguntam o que você faz, como você janta, e como você dorme, e eles descobrem também; por isso, há mais razão para viver com circunspecção. Entretanto, não se julgue verdadeiramente feliz até que perceba que pode viver frente aos olhos dos homens, até que suas paredes o protejam, mas não o escondam. Acreditamos que essas paredes nos cerquem, não para nos capacitar a viver com mais segurança, mas para que possamos pecar mais secretamente.
  4. Mencionarei um fato pelo qual você pode avaliar o caráter de um homem: você dificilmente encontrará alguém que possa viver com sua porta aberta. É a nossa consciência, não o nosso orgulho, que colocou guardas à nossa porta; nós vivemos de tal forma que, sermos expostos subitamente é equivalente a ser pego em flagrante. O que nos beneficia, entretanto, nos esconder e evitar os olhos e os ouvidos dos homens?
  5. Uma boa consciência recebe com prazer a multidão, mas uma má consciência, mesmo na solidão, é perturbada e inquieta. Se seus feitos são honrosos, que todos os conheçam; se infames, o que importa que ninguém deles saiba, se você mesmo os reconhece? Como você é desventurado se despreza tal testemunha!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Ou seja Roma.

[2] Lucílio era neste momento procurador imperial na Sicília.

Carta 42: Sobre Valores

Na carta 42 Sêneca fala sobre como julgar valor.  Inicia sobre como avaliar pessoas, ponderando que assim como a fênix, pessoas de primeira classe são raras “a grandeza se desenvolve apenas em longos intervalos” (XLII,1).
Alerta que é difícil julgar uma pessoa que não tenha poder ou posses, pois, nesse caso talvez seus vícios não estejam aparentes:

No caso de muitos homens, seus vícios, sendo impotentes, passam despercebidos; Esses homens simplesmente não dispõem dos meios pelos quais podem revelar sua maldade. Da mesma forma, pode-se manipular até mesmo uma serpente venenosa enquanto está rígida pelo frio; o veneno não está faltando; está meramente entorpecido em inação. No caso de muitos homens, sua crueldade, ambição e indulgência só necessitam o favor da fortuna para fazê-los cometer crimes que igualariam ao pior. ” (XLII,3-4).

Na sequencia ensina como dar o devido valor a coisas, objetos, relembrando que nosso tempo, honra e liberdade tem muito mais valor do que a maioria das pessoas pensa:

Nossa estupidez pode ser claramente comprovada pelo fato de que consideramos que “comprar” se refere apenas aos objetos pelos quais pagamos em dinheiro, e consideramos como presentes as coisas pelas quais gastamos nós mesmos. Estes deveríamos recusar a comprar, se fôssemos obrigados a dar em pagamento por eles nossas casas ou alguma propriedade atraente e rentável; mas estamos impacientes para alcançá-los ao custo da ansiedade, do perigo, da honra perdida, da liberdade pessoal e do tempo; a verdade é que o homem não considera nada mais barato do que ele mesmo.”(XLII,7)

Conclui a carta dizendo “Aquele que se possui não perde nada. Mas quão poucos homens são abençoados com a propriedade de si mesmo” (XLII,10)

(imagem busto de Lucius Verus, Louvre)


XLII. Sobre Valores

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Aquele seu amigo já o fez acreditar que ele é um bom homem? E, no entanto, é impossível, em tão pouco tempo, que alguém se torne bom ou seja conhecido como tal. Você sabe que tipo de homem eu quero dizer agora quando eu falo de “um bom homem”? Quero dizer um de segunda classe, como seu amigo. Pois um de primeira classe talvez surja na existência, como a fênix, apenas uma vez em quinhentos anos. E não é surpreendente, tampouco, que a grandeza se desenvolve apenas em longos intervalos; a Fortuna, muitas vezes, dá origem a poderes comuns, que nascem para agradar à multidão; mas ela facilita nosso julgamento do que é notável pelo fato de que ela o torna raro.
  2. Este homem, no entanto, de quem você falou, ainda está longe do estado que ele declara ter alcançado. E se ele soubesse o que significava ser “um bom homem”, ele ainda não se acreditaria assim; talvez ele até desanimaria de sua capacidade de se tornar bom. “Mas,” você diz, “ele pensa mal dos homens maus.” Bem, assim também fazem os próprios homens maus; e não há pior pena para o vício do que o fato de estar insatisfeito consigo mesmo e com todos os seus pares.
  3. “Mas ele odeia aqueles que fazem um uso indisciplinado de grande poder repentinamente adquirido.” Eu replico que fará a mesma coisa assim que adquirir os mesmos poderes. No caso de muitos homens, seus vícios, sendo impotentes, passam despercebidos; embora, logo que as pessoas em questão tenham se satisfeito com sua própria força, os vícios não serão menos ousados do que aqueles que a prosperidade já revelou.
  4. Esses homens simplesmente não dispõem dos meios pelos quais podem revelar sua maldade. Da mesma forma, pode-se manipular até mesmo uma serpente venenosa enquanto está rígida pelo frio; o veneno não está faltando; está meramente entorpecido em inação. No caso de muitos homens, sua crueldade, ambição e indulgência só necessitam o favor da fortuna para fazê-los cometer crimes que igualariam ao pior. Que seus desejos são os mesmos você descobrirá em um momento, desta maneira: dê-lhes o poder igual a seus desejos.
  5. Você se lembra como, quando declarou que certa pessoa estava sob sua influência, eu a chamei de inconstante e uma ave migratória, e disse que você não a segurava pelo pé, mas apenas por uma asa? Eu estava enganado? Você a agarrou apenas por uma pena; ela a deixou em suas mãos e escapou. Você sabe que demonstração de si mesmo fez mais tarde perante você, quantas das coisas que ela tentou reverteram-se sobre sua própria cabeça. Ela não viu que, ao pôr em perigo os outros, ela estava cambaleando para sua própria queda. Ela não refletiu quão pesados eram os objetos que estava inclinada a alcançar, mesmo que não fossem supérfluos.
  6. Portanto, em relação aos objetos que buscamos e pelos quais nos esforçamos com grande esforço, devemos observar esta verdade; ou não há nada de desejável neles, ou o indesejável é preponderante. Alguns objetos são supérfluos; outros não valem o preço que pagamos por eles. Mas não vemos isso claramente, e consideramos as coisas como brindes quando realmente nos custaram muito caro.
  7. Nossa estupidez pode ser claramente comprovada pelo fato de que consideramos que “comprar” se refere apenas aos objetos pelos quais pagamos em dinheiro, e consideramos como presentes as coisas pelas quais gastamos nós mesmos. Estes deveríamos recusar a comprar, se fôssemos obrigados a dar em pagamento por eles nossas casas ou alguma propriedade atraente e rentável; mas estamos impacientes para alcançá-los ao custo da ansiedade, do perigo, da honra perdida, da liberdade pessoal e do tempo; a verdade é que o homem não considera nada mais barato do que ele mesmo.
  8. Vamos, portanto, agir em todos os nossos planos e conduta, como estamos acostumados a agir sempre que nos aproximamos de um negociante que tem certas mercadorias para venda; vamos ver o quanto devemos pagar pelo que desejamos. Muitas vezes as coisas que custam nada nos custam mais pesadamente; posso mostrar-lhe muitos objetos cuja busca e aquisição arrebataram a liberdade das nossas mãos. Devemos pertencer a nós mesmos, mesmo se essas coisas não nos pertençam.
  9. Por conseguinte, gostaria que você refletisse assim, não só quando se trata de uma questão de ganho, mas também quando se trata de perda. “Este objeto está destinado a perecer.” Sim, era um mero adicional; você viverá sem ele tão facilmente como viveu antes. Se você o possuir por muito tempo, você o perde depois que você se cansar dele; se você não o possuiu por muito tempo, então você o perde antes que você se a ele tornasse devotado. “Você terá menos dinheiro.” Sim, e menos problemas.
  10. “Menos influência.” Sim, e menos inveja. Olhe ao seu redor e observe as coisas que nos deixam loucos, que perdemos com um dilúvio de lágrimas; perceberá que não é a perda que nos incomoda com referência a essas coisas, mas o conceito de perda. Ninguém sente que elas foram perdidas, mas sua mente lhe diz que foi assim. Aquele que se possui não perde nada. Mas quão poucos homens são abençoados com a propriedade de si mesmo!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Carta 41: Sobre o Deus dentro de nós

Religião e filosofia parecem em conflito hoje em dia, onde a religião freqüentemente é mostrada como fé cega, até mesmo fanatismo. No entanto, o estoicismo de Sêneca alinhava a religião e a filosofia de maneira notável, relacionando sincreticamente o cerne da filosofia, a razão:

Deus está perto de você, ele está com você, ele está dentro de você. É isso que quero dizer, Lucílio: um espírito santo mora dentro de nós, aquele que anota nossas boas e más ações e é nosso guardião. À medida que tratamos esse espírito, também somos tratados por ele. De fato, nenhum homem pode ser bom sem a ajuda de Deus.”  (XLI,1-2)

Sêneca continua a carta a partir da sugestão de reverência religiosa na presença de um local numinoso, comenta em uma passagem cuidadosamente estruturada que a qualidade mística de lugares como bosques, cavernas, nascente de rios, fontes termais e piscinas profundas inspira reverência religiosa:

“Se alguma vez você se deparou com um bosque cheio de árvores antigas que cresceram a uma altura incomum, fechando a visão do céu por um véu de ramos cheios e entrelaçados, então a imponência da floresta, a reclusão do lugar, e sua admiração com a espessa sombra ininterrupta no meio dos espaços abertos, irá provar-lhe a presença da deidade. Ou se uma caverna, feita pelo profundo desmoronamento das rochas, sustenta uma montanha em seu arco, um lugar não construído com as mãos, mas esvaziado em tais espaços por causas naturais, sua alma será profundamente comovida por uma certa intimação da existência de Deus.” (XLI,3-4)

É significativo que a natureza  seja reconhecida como o divino pois para os estóicos viver de acordo com a natureza era o objetivo apropriado do ser humano. E sua naturalidade garante sua confiabilidade. Diz que nenhum homem deve se gloriar, exceto naquilo que é seu,  no sentido intrínseco, ou seja, seu próprio e não bens materiais que possam ser perdidos.

Sêneca então termina a carta descrevendo que a razão exige de nós viver de acordo com a natureza. Isto permite-lhe tornar explícito um contraste presente na última metade da carta, entre o que é natural e o que a sociedade humana viciada criou. Ele apresenta isso como um paradoxo, observando que viver de acordo com a natureza é algo muito fácil (rem facillimam), mas a loucura geral da humanidade torna difícil (difficilem).

“E o que é que a razão exige dele? A coisa mais fácil do mundo, – viver de acordo com sua própria natureza. Mas isso é transformado em uma tarefa difícil pela loucura geral da humanidade; nós impulsionamos um ao outro ao vício. E como pode um homem ser lembrado para a redenção, quando não tem ninguém para refreá-lo, e toda a humanidade para instigá-lo?” (XLI, 9)

(Imagem, detalhe da escultura David por Michelangelo)


XLI. Sobre o Deus dentro de nós

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você está fazendo uma coisa excelente, que será saudável para você, se, como você escreve-me, está a persistir em seu esforço para alcançar o discernimento sólido; é tolo rezar por isso quando pode adquiri-lo por si mesmo. Não precisamos elevar nossas mãos para o céu, nem implorar ao defensor de um templo que nos deixe chegar à orelha de seu ídolo, como se desse modo nossas orações fossem mais prováveis de serem ouvidas. Deus está perto de você, ele está com você, ele está dentro de você.

2. É isso que quero dizer, Lucílio: um espírito santo mora dentro de nós, aquele que anota nossas boas e más ações e é nosso guardião. À medida que tratamos esse espírito, também somos tratados por ele. De fato, nenhum homem pode ser bom sem a ajuda de Deus. Pode alguém elevar-se acima da fortuna, a menos que Deus o ajude a se levantar? Ele é Aquele que dá conselhos nobres e retos.

Em cada homem bom um deus habita, mas o que deus sabe nos não sabemos. Quis deus incertum est, habitat deus.[1]

3. Se alguma vez você se deparou com um bosque cheio de árvores antigas que cresceram a uma altura incomum, fechando a visão do céu por um véu de ramos cheios e entrelaçados, então a imponência da floresta, a reclusão do lugar, e sua admiração com a espessa sombra ininterrupta no meio dos espaços abertos, irá provar-lhe a presença da deidade. Ou se uma caverna, feita pelo profundo desmoronamento das rochas, sustenta uma montanha em seu arco, um lugar não construído com as mãos, mas esvaziado em tais espaços por causas naturais, sua alma será profundamente comovida por uma certa intimação da existência de Deus. Nós adoramos as fontes de rios poderosos; erguemos altares em lugares onde grandes riachos brotam subitamente de fontes ocultas; adoramos as fontes de água quente como divinas, e consagramos certas poças por causa de suas águas escuras ou sua imensurável profundidade.

4. Se você vê um homem que está sem medo no meio de perigos, intocado por desejos, feliz na adversidade, pacífico em meio à tempestade, que olha para os homens de um plano superior, e vê os deuses em pé de igualdade, não irá um sentimento de reverência por ele abater sobre você? Você não vai dizer: “Esta qualidade é muito grande e muito sublime para ser considerada como semelhante a este pequeno corpo em que habita? Um poder divino desceu sobre esse homem”.

5. Quando uma alma se eleva superior a outras almas, quando está sob controle, quando passa por cada experiência como se fosse de pequena conta, quando sorri aos nossos medos e às nossas orações, é inspirada por uma força do céu. Uma coisa como esta não pode ficar de pé, a menos que seja sustentada pelo divino. Portanto, uma maior parte dela permanece naquele lugar de onde veio à terra. Assim como os raios do sol realmente tocam a terra, mas ainda permanecem na fonte de onde são enviados; assim também a alma grande e santificada, que desceu para que possamos ter um conhecimento mais próximo da divindade, de fato se associe a nós, mas ainda se apega à sua origem; nessa fonte ela depende, para onde vira seu olhar e se esforça a ir, e se preocupa com nossas ações apenas como um ser superior a nós mesmos.

6. O que, então, é tal alma? Uma que é resplandecente sem nenhum bem externo, mas apenas com si própria. Pois o que é mais tolo do que louvar em um homem as qualidades que vêm de fora? E o que é mais insano do que maravilhar-se com características que podem, no instante seguinte, ser transmitidas a outra pessoa? Um freio de ouro não faz um cavalo melhor. O leão com juba adornada por ouro, em processo de treinamento e forçado pelo cansaço a suportar a decoração, é enviado para a arena de uma maneira completamente diferente do leão selvagem cujo espírito é intacto; este último, de fato, ousado em seu ataque, como a natureza desejava que fosse, impressionante por causa de sua aparência selvagem, e é sua a glória que ninguém consiga olhar para ele sem medo, é preferível ao outro leão, aquela fera apática e dourada.

7. Nenhum homem deve se gloriar, exceto naquilo que é seu. Nós louvamos uma videira se faz os brotos crescerem com progresso, se pelo seu peso ela dobra ao solo as estacas que suportam seu fruto; iria algum homem preferir a esta videira uma onde pendem uvas douradas e folhas douradas? Em uma videira a virtude peculiarmente própria é a fertilidade; no homem também devemos louvar o que é seu. Suponha que ele tem um séquito de escravos agradáveis e uma bela casa, que sua fazenda é grande e grande sua renda; nenhuma dessas coisas está no próprio homem; elas estão todas do lado de fora.

8. Elogie a qualidade nele que não pode ser dada ou retirada, que é a propriedade peculiar do homem. Você pergunta o que é isso? É a alma, e a razão trazida à perfeição na alma. Pois o homem é um animal de raciocínio. Portanto, o maior bem do homem é atingido, se ele cumpriu o bem para o qual a natureza o projetou no nascimento.

9. E o que é que a razão exige dele? A coisa mais fácil do mundo, – viver de acordo com sua própria natureza. Mas isso é transformado em uma tarefa difícil pela loucura geral da humanidade; nós impulsionamos um ao outro ao vício. E como pode um homem ser lembrado para a redenção, quando não tem ninguém para refreá-lo, e toda a humanidade para instigá-lo?

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Trecho de Eneida de Virgílio.

Pensamento #40: Vícios são inerentes ao homen

Sêneca, Dos Benefícios, Livro I-X

“Nossos antepassados antes de nós lamentaram, e nossos filhos depois de nós lamentarão, como nós, a ruína, a moralidade, a prevalência do vício e a deterioração gradual da humanidade; mas essas coisas são realmente estacionárias, apenas se movem um pouco para lá e para cá como as ondas que ao mesmo tempo uma maré crescente lava mais sobre a terra. Em determinado momento, o principal vício será o adultério, e a licenciosidade excederá todos os limites; em outra ocasião, a fúria do banquete estará em voga, e os homens desperdiçarão sua herança da maneira mais vergonhosa de todos os modos, pelo estômago; em outro, cuidado excessivo com o corpo e uma devoção à beleza pessoal que implica feiúra da mente; em outro momento, a liberdade concedida sem controle se mostrará em imprudência e desafio injusto da autoridade; às vezes haverá um reino de crueldade tanto em público quanto em privado, e a loucura das guerras civis virá sobre nós, destruindo tudo que é sagrado e inviolável. Às vezes até embriaguez será realizada em honra, e será uma virtude engolir mais vinho.

Vícios não nos aguardam em um só lugar, mas pairam à nossa volta em formas mutáveis, às vezes até divergentes, de modo que, por sua vez, ganham e perdem terreno; todavia, sempre seremos obrigados a pronunciar o mesmo veredicto sobre nós mesmos, que somos e sempre fomos maus e, a contragosto, acrescento que sempre seremos. Sempre haverá homicídios, tiranos, ladrões, adúlteros, violadores, sacrílegos, traidores: pior do que tudo isso é o homem ingrato, a não ser que consideremos que todos esses crimes fluem da ingratidão, sem a qual dificilmente alguma grande iniqüidade chegou a plena estatura.”

(Imagem As três Graças por Antonio Canova)