Carta 43: Sobre a Relatividade da Fama

Na carta 43 Sêneca fala sobre a relatividade da fama.  Afirma que a virtude é o objetivo certo e que devemos pratica-la sem esperar algo em troca.  O comportamento virtuoso é a recompensa em si mesmo e traz a vantagem da consciência tranquila:

“Uma boa consciência recebe com prazer a multidão, mas uma má consciência, mesmo na solidão, é perturbada e inquieta. Se seus feitos são honrosos, que todos os conheçam; se infames, o que importa que ninguém deles saiba, se você mesmo os reconhece? Como você é desventurado se despreza tal testemunha!” (XLIII, 5)

(Imagem recepção de Grande Condé em Versailles por Jean-Léon Gérôme)


XLIII. Sobre a Relatividade da Fama

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você pergunta como a notícia chegou a mim, e quem me informou, que você estava entretendo esta ideia, sobre qual você não disse nada a uma única alma? Foi a mais conhecedora das pessoas, – a fofoca. “O quê”, você diz, “eu sou uma personagem tão grande que eu posso atiçar fofocas?” Ora, não há razão para que se meça de acordo com minha parte do mundo[1]; considere somente o lugar onde você está morando.
  2. Qualquer ponto que sobe acima dos pontos adjacentes é grande. Pois a grandeza não é absoluta; a comparação a aumenta ou a diminui. Um navio que se agiganta no rio parece pequeno quando no oceano. Um leme que é grande para uma embarcação, é pequeno para outra.
  3. Assim você em sua província é realmente importante[2], embora você se menospreze. Homens perguntam o que você faz, como você janta, e como você dorme, e eles descobrem também; por isso, há mais razão para viver com circunspecção. Entretanto, não se julgue verdadeiramente feliz até que perceba que pode viver frente aos olhos dos homens, até que suas paredes o protejam, mas não o escondam. Acreditamos que essas paredes nos cerquem, não para nos capacitar a viver com mais segurança, mas para que possamos pecar mais secretamente.
  4. Mencionarei um fato pelo qual você pode avaliar o caráter de um homem: você dificilmente encontrará alguém que possa viver com sua porta aberta. É a nossa consciência, não o nosso orgulho, que colocou guardas à nossa porta; nós vivemos de tal forma que, sermos expostos subitamente é equivalente a ser pego em flagrante. O que nos beneficia, entretanto, nos esconder e evitar os olhos e os ouvidos dos homens?
  5. Uma boa consciência recebe com prazer a multidão, mas uma má consciência, mesmo na solidão, é perturbada e inquieta. Se seus feitos são honrosos, que todos os conheçam; se infames, o que importa que ninguém deles saiba, se você mesmo os reconhece? Como você é desventurado se despreza tal testemunha!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Ou seja Roma.

[2] Lucílio era neste momento procurador imperial na Sicília.

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