Carta 10. Sobre viver para si mesmo

Em sua décima carta Sêneca continua a ensinar evitarmos multidões e valorizarmos a introspecção, contudo, alerta que muitas vez não devemos confiar sequer em nós mesmo, já geralmente somos tolos e ignorantes.

Conclui a carta com o conselho:

  1. Viva entre os homens como se Deus o observasse, fale com Deus como se os homens estivessem ouvindo”.

(Sêneca Carta 10. Sobre viver para si mesmo. Imagem São Francisco em oração – Caravaggio)


Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Sim, eu não mudo minha opinião: evite as multidões, evite os poucos, evite mesmo o indivíduo. Não conheço ninguém com quem eu esteja disposto a compartilhá-lo. E veja o que eu tenho de sua opinião; pois ouso confiar em você com seu eu próprio. Crates[1], dizem eles, notou um jovem caminhando sozinho, e perguntou-lhe o que ele estava fazendo sozinho. – Estou comungando comigo mesmo – respondeu o jovem. – Então, – disse Crates – tome cuidado, você está conversando com um homem mau!
  2. Quando as pessoas estão de luto, ou têm medo de alguma coisa, estamos acostumados a observá-los para que possamos impedi-los de fazer um uso errado de sua solidão. Nenhuma pessoa imprudente deve ser deixada sozinha; em tais casos, ela só planeja loucura, e acumula perigos futuros para si ou para os outros; ela coloca em jogo seus instintos básicos; A mente mostra o que o medo ou a vergonha costumavam reprimir; ela aguça a sua ousadia, agita as suas paixões e incita a sua ira. E, finalmente, o único benefício que a solidão confere, – o hábito de não confiar em nenhum homem, e de não temer testemunhas, – é perdido pelo tolo; porque ele trai a si mesmo. Lembre-se, portanto, quais são minhas esperanças para você, ou melhor, o que eu estou prometendo, na medida em que a esperança é meramente o título de uma bênção incerta: não conheço ninguém com quem preferira que você se associe, senão consigo mesmo.
  3. Lembro-me da maneira grandiosa em que você lançou certas frases, e quão cheias de força elas eram! Imediatamente me congratulei e disse: “Estas palavras não vieram da borda dos lábios, estas declarações têm uma base sólida. Este homem não é um dos muitos, ele tem consideração por seu real bem-estar.”
  4. Fale e viva desta maneira; cuide para que nada o retenha. Quanto às suas preces anteriores, você pode liberar os deuses de respondê-las; ofereça novas orações; ore por uma mente sã e por uma boa saúde, primeiro de alma e depois de corpo. E é claro que você deve oferecer essas preces com frequência. Apele com ousadia a Deus; você não vai pedir a Ele o que pertence a outro.
  5. Mas devo, como é meu costume, enviar um presente pequeno junto com esta carta. É um verdadeiro provérbio que eu encontrei em Atenodoro[2]: “Saiba que está livre de todos os desejos quando alcançar o ponto em que não pede nada a Deus senão o que você possa pedir publicamente“. Mas como homens são tolos agora! Eles sussurram as mais vis orações ao céu; mas se alguém os ouve, eles calam-se imediatamente. O que eles não querem que os homens saibam, pedem a Deus. Não acredito, então, que algum conselho tão sério como este poderia ser dado a você: “Viva entre os homens como se Deus o observasse, fale com Deus como se os homens estivessem ouvindo”.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Crates de Tebas (c. 365 – c. 285 BC) foi um filósofo cínico. Crates doou seu dinheiro para viver uma vida de pobreza nas ruas de Atenas. Respeitado pelo povo de Atenas, ele é lembrado por ser o professor de Zenão de Cítio, o fundador do Estoicismo. Vários fragmentos de ensinamentos Crates sobreviveram, incluindo sua descrição do de um estado cínico ideal.

[2] Atenodoro de Tarso ou Atenodoro Cananita (ca. 74 a.C. – 7) foi um filósofo estoico. Nasceu em Canana, perto de Tarso (no que é hoje a Turquia, foi aluno de Posidônio de Rodes, e professor de Otaviano (futuro imperador Augusto).

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