Carta 32: Sobre progresso

A carta 32 é curta mas seu ensinamento é profundo e simples.
Sêneca nos pede para continuar no curso do progresso e não desviar para modismos, novos começos ou para atividades menos importantes.

Lembra que para as coisas realmente importantes não temos um prazo determinado por terceiros e nos enganamos achando que temos muito tempo sobrando, o desperdiçamos e acabamos por não realizar aquilo que importa.

Nós dividimos a vida em pequenos pedaços, e a desperdiçamos. Apresse-se adiante, então, querido Lucílio, e reflita o quanto aceleraria sua velocidade se um inimigo estivesse nas suas costas, ou se suspeitasse que a cavalaria estivesse se aproximando e pressionando fortemente em seus passos durante uma fuga.” (XXXII, 2-3)

Então pensemos na celebre frase do compositor Duke Ellington: “Não preciso de tempo, preciso de um prazo limite“.

(Imagem:  O Juramento dos Horácios por Jacques-Louis David)


 

XXXII. Sobre progresso

Saudações de Sêneca a Lucílio.  

  1. Eu tenho perguntado sobre você, e perguntando a todos que vem da sua parte do país, o que você está fazendo, e onde está gastando seu tempo, e com quem. Você não pode me enganar; porque eu estou acompanhando. Viva como se tivesse certeza de que receberei notícias de suas ações, ou melhor, como se tivesse certeza de que eu as vejo. E se você se perguntar o que particularmente me agrada do que eu ouço, é que eu não ouço nada, que a maioria daqueles que eu pergunto não sabem o que você está fazendo.
  2. Esta é uma boa prática – abster-se de associar-se a homens de outra estampa e de outros objetivos. E estou realmente confiante de que você não pode ser corrompido, que você vai manter o seu propósito, mesmo que a multidão o cerque e procure distraí-lo. O que, então, está em minha mente? Não tenho medo de que o alterem; mas tenho medo de que possam retardar seu progresso. E muito mal é feito por quem te atrasa, especialmente porque a vida é tão curta; e a tornamos ainda mais curta por nossa instabilidade, por fazer sempre novos começos na vida, agora um e depois imediatamente outro. Nós dividimos a vida em pequenos pedaços, e a desperdiçamos.
  3. Apresse-se adiante, então, querido Lucílio, e reflita o quanto aceleraria sua velocidade se um inimigo estivesse nas suas costas, ou se suspeitasse que a cavalaria estivesse se aproximando e pressionando fortemente em seus passos durante uma fuga. É verdade; O inimigo está realmente pressionando você; você deve aumentar a sua velocidade e fugir e chegar a uma posição segura, lembrando-se continuamente que é nobre completar sua vida antes da morte chegar, e então esperar em paz o quinhão restante do seu tempo, não reivindicando nada para si mesmo, uma vez que você já está em posse de uma vida feliz; pois tal vida não se torna mais feliz por ser mais longa.
  4. Oh, quando será que saberá que o tempo não significa nada para você, quando está calmo e sereno, despreocupado com o amanhã, porque está a gozar a sua vida ao máximo? Você sabe o que torna os homens gananciosos pelo futuro? É que ninguém se encontrou ainda. Seus pais, com certeza, pediram outras bênçãos para você; mas eu mesmo rezo mais para que possa desprezar todas as coisas que os seus pais desejaram para você em abundância. Suas orações saqueiam muitas outras pessoas, simplesmente para que você possa ser enriquecido. Tudo o que eles pedem para você precisará ser removido de outra pessoa.
  5. Eu oro para que você possa ter tal controle sobre si mesmo que sua mente, agora abalada por pensamentos errantes, possa finalmente descansar e ser firme, para que ela possa estar contente com ela mesma e, alcançar uma compreensão do que seja verdadeiramente bom, – e isso estará em nossa posse tão logo tenhamos este conhecimento, – que não há necessidade de anos adicionais. Aquele que finalmente superou todas suas necessidades, aquele que atingiu sua dispensa honrosa e é livre, aquele ainda viverá depois que sua vida foi concluída.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Pensamento do Dia #23: Sobre força bruta e cérebros

O pensamento do fim de semana é sobre atividade física:

Sêneca diz em sua Carta 15: “Sobre força bruta e cérebros

Há exercícios curtos e simples que cansam o corpo rapidamente, e assim economizam nosso tempo; E o tempo é algo do qual devemos manter estrita conta. Estes exercícios são correr, levantar pesos e saltar, saltos altos ou saltos largos. Selecione para praticar qualquer um destes, e você vai perceber ser simples e fácil. Mas o que quer que você faça, volte logo do corpo à mente. A mente deve ser exercitada dia e noite, pois é alimentada pelo trabalho moderado.

É claro que eu não ordeno que você esteja sempre curvado sobre seus livros e materiais de escrita; a mente necessita de variedade, – mas uma variedade de tal natureza que não seja irritante, mas simplesmente branda. E esta forma de exercício não precisa ser atrapalhada pelo tempo frio ou quente, ou mesmo pela velhice. Cultive esse bem que melhora com os anos.

Ou ainda Sêneca no ensaio Sobre a tranquilidade da Alma

Devemos tomar caminhadas na natureza para que a mente possa ser alimentada e atualizada sob ar livre e a respiração profunda.

(imagem Casal caminhado  por Vincent van Gogh)

Leia mais em:

 

Carta 1: Sobre aproveitar o tempo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Continue a agir assim, meu querido Lucílio – liberte-se por conta própria; poupe e salve o seu tempo, que até recentemente tem sido retirado a força de você, ou furtado, ou simplesmente escapado de suas mãos. Faça-se acreditar na verdade de minhas palavras, – que certos momentos são arrancados de nós, que alguns são removidos suavemente, e que outros fogem além de nosso alcance. O tipo mais desgraçado de perda, no entanto, é aquela, devida ao descuido. Ademais, se você prestar atenção ao problema, você verá que a maior parte de nossa vida passa enquanto estamos fazendo coisas desagradáveis, uma boa parte enquanto não estamos fazendo nada, e tudo isso enquanto estamos fazendo o que não se deveria fazer.
  2. Qual homem você pode me mostrar que coloque algum valor em seu tempo, que dá o devido valor a cada dia, que entende que está morrendo diariamente? Pois estamos equivocados quando pensamos que a morte é coisa do futuro; a maior parte da morte já passou. Quaisquer anos atrás de nós já estão nas mãos da morte. Portanto, Lucílio, faça como você me escreve que você está fazendo: mantenha cada hora ao seu alcance. Agarre a tarefa de hoje, e você não precisará depender tanto do amanhã. Enquanto estamos postergando, a vida corre.
  3. Nada, Lucílio, é nosso, exceto o tempo. A natureza nos deu o privilégio desta única coisa, tão fugaz e escorregadia que qualquer um pode esbulhar tal posse. Que tolos esses mortais são! Eles permitem que as coisas mais baratas e inúteis, que podem ser facilmente substituídas, sejam contabilizadas depois de terem sido adquiridas; mas nunca se consideram em dívida quando recebem parte dessa preciosa mercadoria, o tempo! E, no entanto, o tempo é o único empréstimo que nem o mais agradecido destinatário pode pagar.
  4. Você pode desejar saber como eu, que prego a você, estou praticando. Confesso francamente: meu saldo em conta corrente é como o esperado de alguém generoso mas cuidadoso. Não posso vangloriar-me de não desperdiçar nada, mas pelo menos posso lhe dizer o que estou desperdiçando, a causa e a maneira de desperdício; posso lhe dar as razões pelas quais sou um homem pobre. Minha situação, no entanto, é a mesma de muitos que são reduzidos a miséria sem culpa própria: todos os perdoam, mas ninguém vem em seu socorro.
  5. Qual é o estado das coisas, então? É isto: eu não considero um homem como pobre, se o pouco que lhe resta o é suficiente. Contudo, aconselho-o a preservar o que é realmente seu; e nunca é cedo demais para começar. Pois, como acreditavam os nossos antepassados, é demasiado tarde para gastarmos quando chegarmos à raspa do tacho. Daquilo que permanece no fundo, a quantidade é pouca, e a qualidade é vil.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.