A Tríade do Guerreiro Estoico

A Tríade do Guerreiro Estoico

Recentemente recebi recomendação do texto do almirante James Stockdale A Tríade do Guerreiro Estoico” em tradução de  Aldo Dinucci e Alexandre Cabeceiras. (disponível em https://goo.gl/5pMCtK, texto de Stockdale começa na página 9)

Stockdale foi o mais alto oficial americano aprisionado na guerra do Vietnã. Foi mantido como prisioneiro de guerra em Hoa Lo (o infame “Hanoi Hilton”) por sete anos e meio. Como oficial sênior da Marinha, ele foi um dos principais organizadores da resistência dos prisioneiros. Torturado rotineiramente e sem atenção médica para a perna severamente machucada, Stockdale criou e aplicou um código de conduta para todos os prisioneiros.  Quando foi informado por seus captores que ele seria exibido em público, Stockdale cortou a própria testa com uma navalha para se desfigurar propositalmente, para que seus captores não o pudessem usar como propaganda.

Nesse texto ele narra como usou o estoicismo, as teses de Solzhenitsyn e principalmente os ensinamentos de Epicteto para sobreviver e manter a lucidez todos os anos de prisão:

“Gostaria de dizer de imediato que li e estudei as Diatribes pelo menos 10 vezes, sem mencionar minhas incursões pelo Encheirídion, e jamais achei uma simples inconsistência no código de princípios de Epicteto. É um pacote fechado, livre de contradições. O velho cara pode não instigá-los, mas se ele não o faz, não o censurem por incoerência; Epicteto não tem problemas com a lógica.”

Manteve uma atitude estoica frente a seus torturadores, como podemos ver no trecho que narra sua relação com o principal deles:

Mas nenhum de nós jamais quebrou o código de uma invariavelmente estrita relação na “linha do dever”. Ele nunca me enganou, sempre jogou corretamente, e jamais pedi misericórdia. Eu admirei aquilo nele, e poderia dizer que ele admirou isso em mim. E quando as pessoas dizem: “Ele era um torturador, você não o odeia?” Eu digo, como Solzehnitsyn, para o espanto daqueles que estão à minha volta: “Não, ele era um bom soldado, nunca ultrapassou sua linha do dever”.

Ensina que aprender a comandar suas emoções é fortalecedor e libertador:

Quando se chega nesse ponto, o capítulo 30 do Encheirídion se aplica: “Se não quiseres, outro não te causará dano”. E por “dano” Epicteto quer dizer, como os estoicos sempre o fizeram, danificar seu eu interior, seu auto-respeito, e sua obrigação de ser leal. Podem quebrar seu braço ou sua perna, mas não se preocupem. Eles sararão.

Conclui com o que chama de  Tríade do Guerreiro Estoico:

“Tranquilidade, Destemor e Liberdade”.

Estátua de  James Stockdale, US Naval Academy, Annapolis, Maryland

Consolação a Minha Mãe Hélvia

No ano 41, Sêneca foi condenado ao exílio pelo imperador Cláudio por um alegado caso com a irmã do imperador Calígula. A acusação provavelmente foi inventada por uma vingança pessoal. Pouco antes ele havia sido condenado à morte e posteriormente perdoado pelo anterior imperador, o louco Calígula. Do exílio ele escreveu uma de suas obras mais extraordinárias – a carta Consolação a Minha Mãe Hélvia.

Hélvia era uma mulher cuja vida tinha sido marcada por uma perda inimaginável – sua própria mãe havia morrido enquanto ela a nascera, e ela enterrou seu marido, seu tio amado e três de seus netos. Vinte dias depois que um de seus netos – o próprio filho de Sêneca – morrera em seus braços, Hélvia recebeu notícias de que Sêneca fora levado para a Córsega, condenado à vida no exílio.

Em vez de meras palavras, Sêneca produz uma obra-prima retórica, trazendo a essência da filosofia do Estoicismo, com partes iguais de lógica e estilo literário. “Todas as suas dores foram desperdiçadas se você ainda não aprendeu a sofrer“.

Sêneca faz uma sólida defesa do mecanismo de auto-proteção mais poderoso da vida – a disciplina de não tomar nada por certo:

Nunca me entreguei à fortuna, mesmo quando parecia que estava em paz comigo; todos os favores, dos quais muito generosamente me cercava (riquezas, cargos, prestígio), coloquei-os em tal lugar de onde a mesma fortuna pudesse retomá-los, sem me aborrecer. Deixei sempre grande distância entre mim e eles: tirou-me os favores, portanto, não os arrancou. A fortuna contrária não diminui senão os homens que se deixaram enganar pela prosperidade.

Os homens que se agarram a seus presentes como a coisas das quais tem perpétua propriedade, e que por eles querem ser invejados pelos outros, jazem prostrados e aflitos, quando os deleites falsos e fugazes abandonam sua alma vil e pueril, que ignora qualquer prazer real; mas quem na prosperidade não se orgulhou, não se abala se as coisas mudam.

 

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