Carta 50: Sobre nossa cegueira e sua cura

As cartas 49 a 58 foram escritas enquanto Sêneca viajava, o que remete ao primeiro ensinamento da Carta 50, que nossos problemas não são externos, mas intrínsecos a cada um de nós:

“estamos aptos a atribuir certas faltas ao lugar ou ao tempo; mas essas falhas nos seguirão, não importa como mudamos nosso lugar.” (L,1)

Logo passa a contar um caso pessoal, uma ilustração da vida extravagante da alta classe romana. Fala da bufão (bobo da casa) particular de sua esposa que fica cega e não percebe.   Sêneca diz que isso é comum às pessoas, que não percebem seus próprios defeitos:

“Eu não sou egoísta, mas não se pode viver em Roma de qualquer outra maneira. Eu não sou extravagante, mas mera vida na cidade exige um grande desembolso. Não é culpa minha que eu tenha uma disposição colérica,  é devido à minha juventude.”
Por que nos enganamos? O mal que nos aflige não é externo, está dentro de nós, situado em nossos próprios entraves; por isso alcançamos a saúde com mais dificuldade, porque não sabemos que estamos doentes.”(L,3-4)

Conclui a carta dizendo que “Aprender virtude significa desaprender o vício.”(L,7) e que uma vida virtuosa é fácil de ser levada se superarmos as dificuldades e resistências iniciais:

“A mente deve, portanto, ser forçada a começar; daí em diante, o remédio não é amargo; pois assim que nos cura, começa a dar prazer.” (L, 9)

(Imagem O Rapto das Sabinas, de Giambologna, na Loggia dei Lanzi)


L. Sobre nossa cegueira e sua cura

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Recebi sua carta muitos meses depois que você a postou; portanto, pensei que era inútil perguntar ao transportador com o que você estava ocupado. Ele deveria ter uma memória particularmente boa se puder lembrar disso! Mas espero que a esta altura você esteja vivendo de tal maneira que eu possa ter certeza de que você esteja ocupado, não importa onde você possa estar. Com o que mais você estaria ocupado, a não ser melhorar a si mesmo, deixando de lado algum erro, e chegando a entender que as faltas que você atribui às circunstâncias estão em si mesmo? De fato, estamos aptos a atribuir certas faltas ao lugar ou ao tempo; mas essas falhas nos seguirão, não importa como mudamos nosso lugar.
  2. Você conhece a Harpaste, a bufão particular da minha mulher; ela acabou permanecendo em minha casa, um fardo incorrido de um legado. Eu particularmente desaprovo essas extravagâncias; sempre que eu quiser desfrutar de piadas de um palhaço, não sou obrigado a procurar longe; eu posso rir de mim mesmo. Agora esta palhaça de repente ficou cega. A história soa incrível, mas eu lhe asseguro que é verdade: ela não sabe que ela é cega. Ela continua pedindo a sua criada para mudar de aposentos; ela diz que seus apartamentos são muito escuros.
  3. Você pode ver claramente que o que nos faz sorrir no caso de Harpaste acontece a todos nós também; ninguém entende que é avarento, ou que é cobiçoso. No entanto, os cegos pedem um guia, enquanto vagamos sem um, dizendo: “Eu não sou egoísta, mas não se pode viver em Roma de qualquer outra maneira. Eu não sou extravagante, mas mera vida na cidade exige um grande desembolso. Não é culpa minha que eu tenha uma disposição colérica, ou que eu não tenha estabelecido qualquer esquema de vida definido, é devido à minha juventude.”
  4. Por que nos enganamos? O mal que nos aflige não é externo, está dentro de nós, situado em nossos próprios entraves; por isso alcançamos a saúde com mais dificuldade, porque não sabemos que estamos doentes. Suponhamos que começamos a cura; quando devemos livrar-nos de todas essas doenças, com toda a sua virulência? Atualmente, nem mesmo consultamos o médico, cujo trabalho seria mais fácil se fosse chamado quando a queixa estivesse em seus estágios iniciais. As mentes tenras e inexperientes seguiriam seu conselho se ele indicasse o caminho certo.
  5. Nenhum homem tem dificuldade em retornar à natureza, a não ser o homem que desertou a natureza. Nós ruborizamos ao receber conselhos sadios; mas, pelos céus, se achamos vil procurar um professor desta arte, também devemos abandonar qualquer esperança de que um tão grande bem possa ser inculcado em nós por mero acaso. Não, precisamos trabalhar. Para dizer a verdade, até mesmo a obra não é grande, se apenas, como eu disse, começarmos a moldar e reconstruir nossas almas antes que elas sejam endurecidas pelo pecado. Mas eu não perco as esperanças nem por um pecador contumaz.
  6. Não há nada que não se renda ao tratamento persistente, a atenção concentrada e cuidadosa; por mais que a madeira possa ser dobrada, você pode torná-la direta novamente. O calor retifica vigas torcidas, e a madeira que cresceu naturalmente em outra forma é moldada artificialmente de acordo com nossas necessidades. Quão mais facilmente a alma se permite moldar, flexível como é e mais complacente do que qualquer líquido! Pois o que mais é a alma do que o ar em um determinado estado? E você vê que o ar é mais adaptável do que qualquer outra matéria, na medida em que é menos denso do que qualquer outro.
  7. Não há nada, Lucílio, que o impeça de entreter boas esperanças sobre nós, apenas porque estamos ainda sob o domínio do mal, ou porque há muito temos sido possuídos por ele. Não há homem a quem uma boa mente venha diante de uma maligna. É a mente má que primeiro domina a todos nós. Aprender virtude significa desaprender o vício.
  8. Devemos, portanto, prosseguir na tarefa de nos livrar das faltas com mais coragem, porque, uma vez entregue a nós, o bem é uma possessão eterna; A virtude não é ignorada. Pois antagonistas encontram dificuldade em se apegar onde não pertencem, portanto, eles podem ser expulsos e empurrados para longe; mas qualidades que vêm a um lugar que é legitimamente delas permanecem fielmente. A virtude é consoante à natureza; O vício é oposto a ela e hostil.
  9. Mas embora as virtudes, quando admitidas, não possam partir e sejam fáceis de guardar, contudo os primeiros passos na abordagem delas são difíceis, porque é característico de uma mente fraca e doente ter medo do que não é familiar. A mente deve, portanto, ser forçada a começar; daí em diante, o remédio não é amargo; pois assim que nos cura, começa a dar prazer. Goza-se das outras curas somente depois que a saúde é restaurada, mas um trago de filosofia é ao mesmo tempo saudável e agradável.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Carta 49: Sobre a brevidade da vida

A carta 49 discute um tema muito relevante para Sêneca, abordado a fundo no livro “Sobre a brevidade da vida“. Nesta carta temos a principal ideia, ou seja, que a vida não é curta, mas as pessoas fazem mal proveito dela:

“fico com mais raiva que alguns homens reivindiquem a maior parte deste tempo para coisas supérfluas, tempo que, por mais cuidadoso que sejamos, não é suficiente até mesmo para as coisas necessárias.” (XLIX, 5)

“o bem na vida não depende do comprimento da vida, mas do uso que fazemos dela; também, é possível, ou mais comum, que um homem que tenha vivido muito tempo tenha vivido muito pouco. “(XLIX, 10)

Sêneca aborda também a técnica estoica de “premeditatio malorum“, a premeditação da adversidade, que é útil para “vacinar” nossas mentes contra infortúnios, trazendo satisfação com o que já temos e nos preparando para adversidades futuras:

Diga-me quando eu me deitar para dormir: “Você pode não acordar de novo!” E quando eu acordar: “Você não pode ir dormir de novo!” Diga-me quando sair de minha casa: “Não vai voltar!” E quando eu retornar: “Você nunca poderá sair novamente!” (XLIX, 10)

Conclui a carta com uma frase marcante:

“No nosso nascimento, a natureza nos tornou ensináveis, e nos deu razão, não perfeita, mas capaz de ser aperfeiçoada.”(XLIX, 11)

E cita  um trecho de As Fenícias de Eurípides:

“A linguagem da verdade é simples.”(XLIX, 12)

(Imagem escultura “Inverno” por Pierre Le Gros)


XLIX. Sobre a brevidade da vida

Saudações de Sêneca a Lucílio.

    1. Um homem é de fato preguiçoso e descuidado, meu caro Lucílio, se ele se lembrar de um amigo só por ver alguma paisagem que desperta a memória; e ainda há momentos em que os velhos assombramentos familiares despertam uma sensação de perda que foi guardada na alma, não trazendo de volta memórias mortas, mas despertando-as de seu estado adormecido, assim como a visão do escravo favorito de um amigo perdido, ou o seu manto, ou a sua casa, renova o sofrimento da pessoa em luto, mesmo que suavizado pelo tempo. Agora, eis que Campânia, e especialmente Nápoles e sua amada Pompéia[1], me atingiram, quando as vi, com um maravilhoso e renovado sentimento de saudades de você. Você está em plena visão diante dos meus olhos. Estou a ponto de me separar de você. Eu vejo você sufocar suas lágrimas e resistir sem sucesso as emoções que bem no exato momento que tenta as controlar. Parece que o perdi há apenas um momento. Pois o que não é “apenas um momento” quando se começa a usar a memória?
    2. Faz pouco tempo que eu me sentava, como um rapaz, na escola do filósofo Socião[2], há um momento atrás eu comecei a atuar nos tribunais, há um momento atrás eu perdi o desejo de advogar, há um momento atrás que eu perdi a capacidade. Infinitamente rápido é o voo do tempo, como se vê mais claramente quando se olha para trás. Pois quando estamos atentos ao presente, não o percebemos, tão suave é a passagem do tempo ao se avançar.
    3. Você pergunta a razão para isso? Todo o tempo passado está no mesmo lugar; tudo isso apresenta o mesmo aspecto para nós, tudo se mescla. Tudo cai no mesmo abismo. Além disso, um evento que em sua totalidade é ríspido não pode conter longos intervalos. O tempo que passamos na vida não passa de um ponto, nem mesmo de um ponto. Mas este ponto do tempo, infinitesimal como é, a natureza tem zombado por fazê-lo parecer exteriormente de mais longa duração; ela tomou uma porção dele e fez a infância, outra a adolescência, outra a juventude, mais uma inclinação gradual, por assim dizer, da juventude à velhice, e a própria velhice ainda é outra. Quantas etapas para uma subida tão curta!
    4. Foi apenas um momento atrás que eu vi você em sua jornada; e, no entanto, este “momento atrás” constitui uma boa parte de nossa existência, que é tão breve, devemos refletir, que ela logo chegará ao fim completamente. Em outros anos o tempo não me pareceu ir tão rapidamente; agora, parece inacreditavelmente rápido, talvez, porque eu sinta que a linha de chegada está se aproximando, ou pode ser que eu tenha começado a tomar cuidado e contar minhas perdas.
    5. Por esta razão, fico com mais raiva que alguns homens reivindiquem a maior parte deste tempo para coisas supérfluas, tempo que, por mais cuidadoso que sejamos, não é suficiente até mesmo para as coisas necessárias. Cícero declarou que se o número de seus dias fosse dobrado, não teria tempo para ler os poetas líricos. E você pode classificar os dialéticos na mesma classe; mas são tolos de uma forma mais melancólica. Os poetas líricos são abertamente frívolos; mas os dialéticos acreditam que eles próprios estejam empenhados em negócios sérios.
    6. Não nego que se deva lançar um olhar sobre a dialética; mas deve ser um simples olhar, uma espécie de saudação da soleira, simplesmente para não ser enganado, ou julgar que essas atividades contenham quaisquer assuntos ocultos de grande valor. Por que você se atormenta e perde peso por algum problema que seria mais inteligente desprezado do que resolvido? Quando um soldado está tranquilo e viajando em despreocupadamente, ele pode caçar bagatelas ao longo de seu caminho; mas quando o inimigo está se fechando na retaguarda, e um comando é dado para acelerar o ritmo, a necessidade faz ele jogar fora tudo o que ele pegou em momentos de paz e lazer.
    7. Não tenho tempo para investigar inflexões disputadas de palavras, ou para pôr em prática minha astúcia sobre elas.
      Eis os clãs que se aglomeram, os portões fechados, e armas aguçadas prontas para a guerra. [3]
      Preciso de um coração forte para ouvir, sem hesitar, este ruído de batalha que soa em volta.
    8. E todos pensariam, com razão, que eu teria ficado louco se, quando anciãos e mulheres estivessem empilhando pedras para as fortificações, quando os jovens armados frente aos portões esperassem, ou mesmo exigissem, a ordem de um ataque, quando as lanças dos inimigos tremessem em nossos portões e o próprio chão estivesse balançando com minas e passagens subterrâneas, – eu digo, eles pensariam, com razão, que eu teria ficado louco se me sentasse ocioso, colocando enigmas tão insignificantes como este: “O que você não perdeu, você tem. Mas você não perdeu nenhum chifre, portanto, você tem chifres“, ou outros truques construídos segundo o modelo deste bocado de pura bobagem.
    9. E, no entanto, bem posso parecer aos seus olhos não menos louco, se eu gastar minhas energias com esse tipo de coisa; pois mesmo agora estou em estado de sítio. E ainda, no primeiro caso, seria apenas um perigo exterior que me ameaça, e um muro que me separa do inimigo; como é agora, os perigos mortais estão na minha própria presença. Não tenho tempo para essas tolices; um poderoso empreendimento está em minhas mãos. O que eu devo fazer? A morte está em meu caminho, e a vida está fugindo;
    10. Ensine-me algo com que enfrentar estes problemas. Faça ser que eu deixe de tentar escapar da morte, e que a vida possa deixar de escapar de mim. Dê-me coragem para enfrentar dificuldades; me acalme em face do inevitável. Amplie os estreitos limites de tempo que me é atribuído. Mostre-me que o bem na vida não depende do comprimento da vida, mas do uso que fazemos dela; também, que é possível, ou mais comum, que um homem que tenha vivido muito tempo tenha vivido muito pouco. Diga-me quando eu me deitar para dormir: “Você pode não acordar de novo!” E quando eu acordar: “Você não pode ir dormir de novo!” Diga-me quando sair de minha casa: “Não vai voltar!” E quando eu retornar: “Você nunca poderá sair novamente!”
    11. Você está enganado se você pensa que somente em uma viagem marítima há um espaço muito pequeno entre a vida e a morte. Não, a distância entre elas é estreita em todos os lugares. Não é em toda parte que a morte se mostra tão perto; contudo, em todos os lugares ela está tão próxima. Livre-me desses terrores sombrios; então você me entregará mais facilmente a instrução para a qual me preparei. No nosso nascimento, a natureza nos tornou ensináveis, e nos deu razão, não perfeita, mas capaz de ser aperfeiçoada.
    12. Discuta para mim a justiça, o dever, a economia e essa dupla pureza, tanto a pureza que se abstém da pessoa de outrem quanto aquilo que cuida de si mesmo. Se você apenas se recusar a me guiar por caminhos tortuosos, eu alcançarei mais facilmente a meta a que estou visando. Pois, como diz o poema trágico:
      A linguagem da verdade é simples. [4]

Não devemos, portanto, tornar essa linguagem intrincada; uma vez que não há nada menos apropriado para uma alma de grande diligência do que tal astuta esperteza.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


 

[1] Provavelmente o local de nascimento de Lucílio.

[2] Socião, o pitagórico. Por suas opiniões sobre vegetarianismo e sua influência para Sêneca, veja carta  CVIII.

[3] Trecho de Eneida de Virgílio.  “Adspice qui coeant populi, quae moenia clusis; Ferrum acuant portis.”

[4] Trecho de As Fenícias de Eurípides. “Veritatis simplex oratio est.

Carta 48: Sobre trocadilhos como Indigno ao Filósofo

Na carta 48 Sêneca pela primeira vez critica contundentemente o epicurismo, filosofia antagonista do estoicismo. O ponte central da crítica é a relação com amigos:  Sêneca diz que para o estoico, os termos “amigo” e “homem” são coextensivos, pois ele é o amigo de todos, e seu motivo de amizade é ser útil; Já o epicurista restringe a definição de “amigo” e considera-o meramente como um instrumento para sua própria felicidade:

ninguém pode viver feliz se só pensa em si próprio e transforma tudo em questão de sua própria utilidade; você deve viver para o seu vizinho, se você quiser viver para si mesmo.“(XLVIII, 2)

Por esse lado, “homem” é o equivalente de “amigo”; no outro lado, “amigo” não é o equivalente de “homem”. Um quer um amigo para sua própria vantagem; o outro quer fazer-se uma vantagem para seu amigo.
(XLVIII, 4)

Na sequencia explica qual a função da filosofia, e ataca o exercício de sofismo praticado pelos epicuristas da época:

Você realmente saberia o que a filosofia oferece à humanidade? A filosofia oferece conselhos. “(XLVIII, 7)
Devo julgar seus jogos de lógica como sendo de algum proveito para aliviar os fardos dos homens, se você puder me mostrar primeiro que parte desses fardos aliviarão. O que entre esses jogos afasta a luxúria? Ou a controla? Gostaria que eu pudesse dizer que eles são meramente ineficazes! Eles são positivamente prejudiciais. “(XLVIII, 9)

Sêneca conclui a carta exortando Lucílio a focar no principal e abandonar os trocadilhos e coisas supérfluas:

“Sinceridade, e simplicidade mostram verdadeira bondade. Mesmo se houvesse muitos anos para você, você teria que gastá-los frugalmente para ter o suficiente para as coisas necessárias; mas como é, quando seu tempo é tão escasso, que estupidez é aprender coisas supérfluas!” (XLVIII, 12)

 imagem: datalhe de Fuga da Decepção por Francesco Queirolo (1704–1762) Cappella Sansevero em Nápoles

 


XLVIII. Sobre trocadilhos como Indigno ao Filósofo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Em resposta à carta que me escreveu durante a viagem, – uma carta tão longa quanto a viagem em si, – vou responder mais tarde. Eu devo me retirar, e considerar que tipo de conselho que eu posso lhe dar. Porque você mesmo, que me consulta, também refletiu por um longo tempo; quanto mais, então, devo eu mesmo refletir, já que mais deliberação é necessária para responder do que para propor um problema! E isso é particularmente verdadeiro quando uma coisa é vantajosa para você e outra para mim. Estou falando de novo sob a máscara de um epicurista[1]?
  2. Mas o fato é que a mesma coisa é vantajosa para mim e é vantajosa para você; porque não sou seu amigo, a menos que o que seja importante para você também seja minha preocupação. A amizade produz entre nós uma parceria em todos os nossos interesses. Não há tal coisa como boa ou má fortuna para um de nós; nós vivemos em comum. E ninguém pode viver feliz se só pensa em si próprio e transforma tudo em questão de sua própria utilidade; você deve viver para o seu vizinho, se você quiser viver para si mesmo.
  3. Esta comunhão, mantida com escrupuloso cuidado, que nos faz misturarmo-nos como homens com nossos semelhantes e sustenta que a raça humana tem certos direitos em comum, é também de grande ajuda em nutrir a comunhão mais íntima que se baseia na amizade, sobre a qual eu comecei a falar acima. Pois quem tem muito em comum com um semelhante terá todas as coisas em comum com um amigo.
  4. E sobre este ponto, meu excelente Lucílio, gostaria que esses sutis dialéticos me aconselhem como devo ajudar um amigo, ou como um homem, ao invés de me dizer de quantas maneiras a palavra “amigo” é usada, e quantos significados a palavra “homem” possui. Sabedoria e Estupidez tomam lados opostos[2]. A qual devo me juntar? Qual partido você gostaria que eu seguisse? Por esse lado, “homem” é o equivalente de “amigo”; no outro lado, “amigo” não é o equivalente de “homem”. Um quer um amigo para sua própria vantagem; o outro quer fazer-se uma vantagem para seu amigo. O que você tem a me oferecer não é nada além de distorção de palavras e divisão de sílabas.
  5. É claro que, a menos que eu possa imaginar algumas premissas muito difíceis e por falsas deduções aderir a elas uma falácia que nasce da verdade, não serei capaz de distinguir entre o que é desejável e o que deve ser evitado! Estou envergonhado! Homens velhos como nós somos, lidando com um problema tão sério, e fazemos dele um jogo!
  6. “Rato é uma palavra, agora um rato come queijo, portanto, uma palavra come queijo.” Suponha agora que não consiga resolver este problema; Veja que perigo pende sobre minha cabeça como resultado de tal ignorância! Que situação crítica vou estar! Sem dúvida, devo ter cuidado, ou algum dia eu vou pegar palavras em uma ratoeira, ou, se eu ficar descuidado, um livro pode devorar meu queijo! A menos que, talvez, o seguinte silogismo seja ainda mais perspicaz: “Rato é uma palavra, agora uma palavra não come queijo, por isso um rato não come queijo”[3].
  7. Que disparate infantil! Será que nós devemos debater sobre este tipo de problema? Deixamos nossas barbas crescerem por muito tempo por essa razão? É este o assunto que ensinamos com rostos amargos e pálidos? Você realmente saberia o que a filosofia oferece à humanidade? A filosofia oferece conselhos. A morte chama um homem, e a pobreza desgasta outro; um terceiro está preocupado com a riqueza do seu vizinho ou com a sua. Fulano tem medo da má fortuna; outro deseja ficar longe de sua própria fortuna. Alguns são maltratados pelos homens, outros pelos deuses.
  8. Por que, então, você molda para mim jogos como esses? Não é ocasião de brincadeira; você é considerado como conselheiro para a humanidade infeliz. Você prometeu ajudar aqueles em perigo no mar, aqueles em cativeiro, doentes e necessitados, e aqueles cujas cabeças estão sob o machado levantado. Até que ponto onde você está se perdendo? O que você está fazendo? Este amigo, em cuja companhia você está brincando, está com medo. Ajude-o, e retire o laço de seu pescoço. Homens estão estendendo as mãos implorando para você em todos os lados; Vidas arruinadas e em perigo de ruína estão implorando por alguma ajuda; as esperanças dos homens, os recursos dos homens, dependem de você. Eles pedem que você os livre de toda a sua inquietação, que você revele a eles, dispersos e vagando como eles estão, a clara luz da verdade.
  9. Diga-lhes o que a natureza fez necessário, e o que supérfluo; diga-lhes como são simples as leis que ela estabeleceu, quão agradável e desimpedida a vida é para aqueles que seguem essas leis, mas quão amarga e perplexa é para aqueles que têm a sua confiança na opinião e não na natureza. Devo julgar seus jogos de lógica como sendo de algum proveito para aliviar os fardos dos homens, se você puder me mostrar primeiro que parte desses fardos aliviarão. O que entre esses jogos afasta a luxúria? Ou a controla? Gostaria que eu pudesse dizer que eles são meramente ineficazes! Eles são positivamente prejudiciais. Posso deixar bem claro para você quando quiser, que um espírito nobre quando envolvido em tais sutilezas é prejudicado e enfraquecido.
  10. Tenho vergonha de dizer quais armas fornecem aos homens que estão destinados a guerrear com a fortuna, e quão mal os equipam! É este o caminho para o maior bem? A filosofia deve prosseguir por tal artifício e trocadilho[4] que seria uma desonra e um opróbrio mesmo para os deturpadores da lei? Pois o que mais vocês estão fazendo, quando deliberadamente aprisionam a pessoa a quem estão fazendo perguntas, do que fazer parecer que o homem perdeu sua causa por um erro técnico? Mas assim como o juiz pode restabelecer aqueles que perderam um processo dessa maneira, a filosofia pode restabelecer estas vítimas de trocadilhos a sua condição anterior.
  11. Por que vocês, homens, abandonam suas promessas extremas e, depois de terem me assegurado em linguagem erudita que vocês não permitirão que o brilho do ouro ofusque minha visão não mais que o brilho da espada e que eu, com poderosa perseverança despreze tanto aquilo que todos os homens anseiam quanto aquilo que todos os homens temem, por que vocês descenderam ao ABC dos acadêmicos pedantes? Qual é sua resposta? É este o caminho para o céu? Pois é exatamente isso que a filosofia promete a mim, que eu serei feito igual a Deus. Para isso fui convocado, para este propósito eu vim. Filosofia, mantenha sua promessa!
  12. Portanto, meu caro Lucílio, retire-se o mais possível dessas exceções e objeções desses chamados filósofos. Sinceridade, e simplicidade mostram verdadeira bondade. Mesmo se houvesse muitos anos para você, você teria que gastá-los frugalmente para ter o suficiente para as coisas necessárias; mas como é, quando seu tempo é tão escasso, que estupidez é aprender coisas supérfluas!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Os epicuristas, que reduziam todos os bens a “utilidades”, não podiam considerar a vantagem de um amigo como idêntica à própria vantagem. E, no entanto, colocavam grande peso na amizade como uma das principais fontes de prazer. Para uma tentativa de conciliar essas duas posições, veja Cicero, De Finibus. Sêneca usou uma frase que implica uma diferença entre os interesses de um amigo e o próprio. Isso o leva a reafirmar a visão estoica da amizade, que adotou como lema.

[2] Os lados são dados em ordem inversa nas duas cláusulas: para o estoico, os termos “amigo” e “homem” são coextensivos, pois ele é o amigo de todos, e seu motivo de amizade é ser útil; Já o Epicurista, no entanto, restringe a definição de “amigo” e considera-o meramente como um instrumento para sua própria felicidade.

[3] Neste parágrafo, Sêneca expõe a loucura de tentar provar uma verdade por meio de truques lógicos e oferece uma caricatura daqueles que estavam atuais entre os filósofos a quem ele ridiculariza.

[4] Sêneca usa a termo “sive nive”, literalmente, “ou se ou se não,” palavras constantemente empregadas pelos lógicos e nos instrumentos legais.

Carta 47: Sobre mestre e escravo

O Estoico pede desculpas pela longa pausa, mas volta com uma das excelentes cartas!

Na carta 47 Sêneca fala sobre a relação entre mestre e escravo e traz algumas de suas mais marcantes frases:  Nenhuma servidão é mais vergonhosa do que aquela que é auto imposta. ” (XLVII, 17)

A carta é longa, mas sua leitura é muito interessante, principalmente devido aos os detalhes da vida romana narrados por Sêneca desde orgias gastronômicas e sexuais até o comércio, libertação e captura de escravos.  Sêneca nos lembra que Platão e Diogenes bem como Hécuba (rainha de Tróia) caíram em cativeiro e se tornaram escravos.

O cerne da carta, válido ainda hoje é : “Trate seus subalternos como você gostaria de ser tratado por seus superiores.” (XLVII, 11) e nos ensina a tratar as pessoas “de acordo com seu caráter, e não de acordo com seus deveres. Cada homem adquire seu caráter por si mesmo, mas a fortuna atribui seus deveres. ” (XLVII, 15)

Sêneca conclui a carta afirmando que todos homens têm a mesma origem divina e que todos nós somos escravos de algo:

Ele é um escravo.” Sua alma, no entanto, pode ser a de um homem livre. – Ele é um escravo. Mas isso vai ficar no seu caminho? Mostre-me um homem que não é um escravo; um é escravo da luxúria, outro da ganância, outro da ambição, e todos os homens são escravos do medo. Vou citar um antigo cônsul que agora é escravo de uma velha bruxa, um milionário que é escravo de uma serva; vou mostrar-lhe jovens de nascimento mais nobre em servidão a artistas de pantomima! Nenhuma servidão é mais vergonhosa do que aquela que é auto imposta.”(XLVII, 17)

(imagem Boulanger Gustaveo mercado de escravos)


XLVII. Sobre mestre e escravo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Fico feliz em saber, através daqueles que vêm de você, que vive em termos amigáveis com seus escravos. Isto convém a um homem sensato e bem-educado como você. “Eles são escravos”, dizem as pessoas. Não, são homens. – Escravos! Não, camaradas. – Escravos! Não, eles são amigos sem pretensões. – Escravos! Não, eles são nossos companheiros escravos, quando se reflete percebe-se que a Fortuna tem direitos iguais sobre escravos e homens livres.
  2. É por isso que eu sorrio para aqueles que acham degradante para um homem para jantar com seu escravo. Mas por que acham isso degradante? É somente porque o cerimonial de gente orgulhosa envolve um chefe de família em seu jantar com uma multidão de escravos em pé. O mestre come mais do que ele pode, e com monstruosa ganância carrega seu ventre até este ser esticado e por fim impossibilitado de fazer o trabalho de um ventre, de modo que logo estará em dores para vomitar toda a comida que deveria alimentá-lo.
  3. Durante todo esse tempo os pobres escravos não podem mover seus lábios, nem mesmo para falar. O menor murmúrio é reprimido pela vara; Mesmo um som casual, – uma tosse, um espirro, ou um soluço, – é correspondido com o chicote. Há uma penalidade grave para a menor quebra de silêncio. Durante toda a noite eles devem ficar em pé, famintos e mudos.
  4. O resultado disso tudo é que esses escravos, que não podem falar em presença de seu mestre, falam sobre seu mestre. Mas os escravos dos dias passados, que tinham permissão para conversar não só na presença de seu amo, mas na verdade com ele, cujas bocas não estavam caladas, estavam prontos a expor seu pescoço a seu senhor, a trazer à própria cabeça qualquer perigo que o ameaçasse; eles falavam na festa, mas ficavam em silêncio sob tortura.
  5. Finalmente, o dito, em alusão a este mesmo tratamento autoritário, torna-se atual: “Você tem tantos inimigos quanto escravos.” Eles não são inimigos quando os adquirimos; nós os tornamos inimigos. Passarei por alto outros comportamentos cruéis e desumanos; pois os maltratamos, não como se fossem homens, mas como se fossem animais de carga. Quando nos relaxamos em um banquete, um escravo passa pano para limpar o alimento vomitado, outro agacha-se debaixo da mesa e recolhe as migalhas dos convidados bêbados.
  6. Outro escravo fatia as preciosas aves de caça; com traços seguros e mão hábil ele corta fatias selecionadas ao longo do peito ou da coxa. Companheiro infeliz, que vive apenas com o propósito de cortar perus corretamente – a menos que, de fato, outro homem seja ainda mais infeliz do que ele, que ensina esta arte por prazer, ao invés de quem aprende isso por dever.
  7. Outro, que serve o vinho, deve vestir-se como uma mulher e lutar contra sua idade avançada; Ele não pode fugir de sua infância; ele é arrastado de volta para ela; e embora já tenha adquirido a figura de um soldado, ele é mantido sem barba por ter os pelos raspados ou arrancados pelas raízes, e ele deve permanecer acordado durante a noite, dividindo o seu tempo entre a embriaguez e luxúria do seu senhor; em seu quarto deve ser um homem, na festa um menino[1].
  8. Outro ainda, cujo dever é avaliar os convidados, deve cumprir com sua tarefa, pobre coitado, e vigiar para ver quem por adulação ou impudor, seja de apetite ou de linguagem, deverá receber um convite para amanhã. Pense também nos pobres fornecedores de alimentos, que observam os gostos de seus mestres com habilidade delicada, que sabem quais sabores especiais irão aguçar o apetite, o que vai agradar aos olhos, que novas combinações despertarão seus estômagos empolados, qual comida vai excitar sua aversão através da pura saciedade, e o que os aguçará o apetite naquele dia em particular. Com escravos como estes o mestre não pode suportar jantar; ele pensaria ser indigno associar-se com seu escravo na mesma mesa! Que os céus nos defendam! Mas quantos mestres está criando nesses mesmos homens!
  9. Eu vi em fila, diante da porta de Calisto[2], o antigo mestre de Calisto; eu vi o antigo mestre ele mesmo trancado para fora enquanto outros eram recebidos, – o mestre que uma vez fixou o bilhete “à venda” em Calisto e o pôs no mercado junto com os escravos inúteis. Mas ele foi pago por aquele escravo que foi arrematado no primeiro lote do leilão; o escravo, por sua vez, cortou seu nome da lista e, por sua vez, julgou-o impróprio para entrar em sua casa. O mestre vendeu Calisto, mas quanto Calisto fez seu patrão pagar!
  10. Lembre-se de que aquele a quem você chama seu escravo brotou do mesmo estoque, é abençoado pelos mesmos céus, e assim como você respira, vive e morre. É tão possível você ver nele um homem livre como para ele ver em você um escravo. Como resultado dos massacres na época de Mario, muitos homens de distinto nascimento, que estavam dando os primeiros passos em direção ao posto senatorial, foram humilhados pela fortuna, um se tornando um pastor, outro um zelador de uma casa de campo. Despreze, então, se você ousar, aqueles em cuja propriedade você pode a qualquer momento cair, mesmo enquanto você ainda os está desprezando.
  11. Não quero me envolver em uma questão muito polêmica, e discutir o tratamento dos escravos, para com quem nós, romanos, somos excessivamente arrogantes, cruéis e insultantes. Mas este é o núcleo do meu conselho: Trate seus subalternos como você gostaria de ser tratado por seus superiores. E quantas vezes você refletir o quanto poder tem sobre um escravo, lembre-se que seu mestre tem o mesmo poder sobre você.
  12. “Mas eu não tenho mestre”, você diz. Você ainda é jovem; talvez você terá um. Não sabe em que idade Hécuba entrou em cativeiro, ou Creso, ou a mãe de Dario, ou Platão ou Diógenes[3]?
  13. Associe-se com seu escravo com bondade, até mesmo em termos afáveis; deixe-o falar com você, planejar com você, viver com você. Sei que neste momento todos os pretensiosos clamarão contra mim em peso; eles dirão: “Não há nada mais degradante, mais vergonhoso, do que isso”. Mas estas são as mesmas pessoas às quais às vezes surpreendo beijando as mãos dos escravos de outros homens.
  14. Você não vê mesmo isto, como nossos antepassados removeram dos mestres tudo o que é ofensivo, e dos escravos tudo insultante? Eles chamavam o mestre de “pai da família”, e os escravos “membros da casa”, um costume que ainda se mantém em uso. Estabeleceram um feriado em que os senhores e escravos deveriam comer juntos, não como o único dia para este costume, mas como obrigatório naquele dia em qualquer caso. Eles permitiram que os escravos alcançassem honras na casa e pronunciassem sua opinião; eles defendiam que uma casa era uma comunidade em miniatura.
  15. “Você quer dizer,” vem a réplica, “que devo sentar todos os meus escravos na minha própria mesa?” Não, não mais do que você deva convidar todos os homens livres para ela. Você está enganado se pensa que eu iria excluir da minha mesa certos escravos cujos deveres são mais humildes, como, por exemplo, aquele tratador de mulas ou outro pastor; proponho valorizá-los de acordo com seu caráter, e não de acordo com seus deveres. Cada homem adquire seu caráter por si mesmo, mas a fortuna atribui seus deveres. Convide alguns para sua mesa porque eles merecem a honra, e outros por que podem vir a merecer. Pois, se houver qualquer característica servil neles como resultado de suas atribuições inferiores, será abalada por relações com homens de criação mais gentil.
  16. Você não precisa, meu caro Lucílio, caçar amigos apenas no fórum ou no senado; se você é cuidadoso e atento, você vai encontrá-los em casa também. O bom material muitas vezes permanece ocioso por falta de um artista; faça a experiência, e você vai confirmar isso. Como é um tolo aquele, ao comprar um cavalo, não considera as características do animal, mas apenas a sua sela e freio; então é duplamente um tolo quem valoriza um homem por suas roupas ou sua posição social, que na verdade é apenas um roupão que nos cobre.
  17. “Ele é um escravo.” Sua alma, no entanto, pode ser a de um homem livre. – Ele é um escravo. Mas isso vai ficar no seu caminho? Mostre-me um homem que não é um escravo; um é escravo da luxúria, outro da ganância, outro da ambição, e todos os homens são escravos do medo. Vou citar um antigo cônsul que agora é escravo de uma velha bruxa, um milionário que é escravo de uma serva; vou mostrar-lhe jovens de nascimento mais nobre em servidão a artistas de pantomima! Nenhuma servidão é mais vergonhosa do que aquela que é auto imposta. Você não deve, portanto, ser dissuadido por essas pessoas mimadas de se mostrar a seus escravos como uma pessoa afável e não orgulhosamente superior a eles; eles devem lhe respeitar em vez de lhe temer.
  18. Alguns podem sustentar que eu estou oferecendo agora a libertação dos escravos em geral e roubando senhores de sua propriedade, porque eu proponho que escravos respeitem seus mestres em vez de temê-los. Eles dizem: “Isto é o que ele claramente quer dizer: Devemos respeitar os escravos como se fossem clientes ou visitas!” Qualquer um que detém esta opinião esquece que o que é suficiente para um deus não pode ser muito pouco para um mestre. Respeito significa amor, e amor e medo não podem ser misturados.
  19. Portanto, eu considero que você está inteiramente certo em não desejar ser temido por seus escravos, e chicoteá-los apenas com a língua; apenas animais estúpidos precisam do chicote. O que nos irrita não nos prejudica necessariamente; mas nós somos levados a raiva selvagem por nossas vidas luxuosas, de modo que tudo o que não responde a nossos caprichos desperta nossa raiva.
  20. Nós vestimos o temperamento dos reis. Pois também eles, esquecidos da própria força e da fraqueza dos outros homens, tornam-se brancos de raiva, como se tivessem sofrido um ferimento, quando estão inteiramente protegidos do perigo de tal ferimento por sua exaltada posição. Eles não desconhecem que isso é verdade, mas ao encontrarem um erro, eles aproveitam as oportunidades para fazerem o mal; eles insistem que eles receberam ferimentos, a fim de que possam infligir-los.
  21. Não quero me demorar mais; porque você não precisa de exortação. Isto, entre outras coisas, é uma marca de bom caráter: Forme seus próprios julgamentos e honre-os. O mal é inconstante e em frequentemente mudança, não para melhor, mas para algo diferente.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Glabri(pele macia), delicati ou exoleti (catamitas) eram escravos favoritos, mantidos artificialmente jovens pelos romanos da classe mais dissoluta, onde o mestre se orgulhava da aparência elegante e gestos graciosos desses favoritos.

[2] Caio Júlio Calisto foi um liberto imperial durante os reinados dos imperadores Calígula e Cláudio. Calisto era originalmente um libertado de Calígula, e recebeu grande autoridade durante o reinado, a qual usou para acumular grande riqueza.

[3] Como Hécuba (rainha de Troia), Sisigambis, mãe de Dario, era tecnicamente uma escrava de Alexandre, mas ele a tratou com respeito.  Platão tinha cerca de quarenta anos quando visitou a Sicília, de onde foi depois deportado por Dionísio, o Ancião. Ele foi vendido como escravo na Egina e resgatado por um discípulo de Cirena. Diógenes, enquanto viaja de Atenas para Egina, foi capturado por piratas e vendido em Creta, onde foi comprado por um certo coríntio e liberto.

 

Carta 46: Sobre um novo livro de Lucílio

A carta 46 é bastante particular à Lucílio e contem pouca mensagem atual.
Contudo é um  bom exemplo de texto elogioso.

(imagem busto de Lucius Verus, Louvre)


 

XLVI. Sobre um novo livro de Lucílio.

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Recebi o seu livro que você havia prometido. Abri-o apressadamente com a intenção de olhar de relance, pois queria apenas provar o volume. Mas por seu próprio charme o livro me persuadiu a examiná-lo mais extensamente. Você pode entender por esse fato quão eloquente isso foi; pois parecia estar escrito no estilo tranquilo e, no entanto, não se assemelhava à sua obra ou à minha, mas à primeira vista poderia ter sido atribuída a Tito Lívio[1] ou a Epicuro. Além disso, eu estava tão impressionado e arrebatado pelo seu charme que eu terminei sem qualquer adiamento. A luz do sol me chamou, a fome deu sinal, e as nuvens baixaram; mas absorvi o livro do começo ao fim.
  2. Eu não estava meramente satisfeito; eu me rejubilava. Tão cheio de inteligência e espírito que era! Eu deveria ter acrescentado “força”, se o livro contivesse momentos de repouso, ou se tivesse aumentado em energia apenas em intervalos. Mas descobri que não havia erupção de força, mas um fluxo uniforme, um estilo vigoroso e casto. No entanto, eu notei de vez em quando sua doçura, e aqui e ali sua suavidade. Seu estilo é sublime e nobre; quero que você se mantenha dessa maneira e dessa direção. Seu assunto também contribuiu com algo; por esta razão você deve escolher temas produtivos, que vai prender a mente e despertá-la.
  3. Discutirei o livro mais detalhadamente após uma segunda leitura; entretanto, o meu julgamento é um tanto perturbado, como se eu tivesse ouvido aquilo em voz alta, e não o tivesse lido pessoalmente. Você deve permitir que eu o examine também. Você não precisa ter medo; você ouvirá a verdade. Homem de sorte! Não oferecer a um homem oportunidade de dizer-lhe mentiras de tal longa distância! A menos que talvez, mesmo agora, quando as desculpas para a mentira são tiradas, a tradição sirva como uma desculpa para dizermos mentiras uns aos outros!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Tito Lívio, conhecido simplesmente como Lívio, é o autor da obra histórica intitulada Ab urbe condita (“Desde a fundação da cidade”), onde tenta relatar a história de Roma desde o momento tradicional da sua fundação 753 a.C. até ao início do século I da Era Cristã.

Carta 44: Sobre Filosofia e Pedigrees

Hoje O Estoico está completando um ano de existência e comemoramos com uma das melhores cartas de Sêneca.

A carta é bastante significativa para os dias atuais onde é comum reclamar dos “privilégios” dos outros e fazer-se de vítima, ou seja, assim como Lucílio já fazia há 2000 anos.

A resposta de Sêneca é excelente, e contem duas partes:

1. que todos somos iguais: 

A filosofia não rejeita nem escolhe ninguém; sua luz brilha para todos. Sócrates não era aristocrata. Cleantes trabalhou em um poço e serviu como um homem contratado regando um jardim. A filosofia não achou Platão já um nobre; ela o fez um.  Por que então você deve temer ser capaz de se comparar a homens como estes? ” (XLIV, 3)

2.  que procuramos a felicidade em lugar errado, ou seja, nos bens materiais:

Onde, então, está o erro, uma vez que todos os homens anseiam à vida feliz? É que eles consideram os meios para produzir a felicidade como a felicidade em si, e, enquanto procuram a felicidade, eles estão realmente fugindo dela.” (XLIV, 7)

(Imagem: Morte de Sócrates por  Jacques-Louis David)


XLIV. Sobre Filosofia e Pedigrees

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você está insistindo de novo que é um ninguém, e dizendo que a natureza em primeiro lugar, e a Fortuna no segundo, o trataram muito injustamente, e isso apesar de você ter em seu alcance o poder de separar-se da multidão e ascender-se para a mais alta felicidade humana! Se há algum bem em filosofia, é isto, – que nunca olha em pedigrees. Todos os homens, se rastreados à sua fonte original, brotam dos deuses.
  2. Você é um cavaleiro romano, e seu trabalho persistente o promoveu a esta classe; contudo certamente há muitos a quem as quatorze fileiras[1] são barradas; a Câmara do Senado não está aberta a todos; o exército, também, é escrupuloso na escolha dos que admite alistar. Mas uma mente nobre é livre para todos os homens; de acordo com este teste, todos nós podemos ganhar distinção. A filosofia não rejeita nem escolhe ninguém; sua luz brilha para todos.
  3. Sócrates não era aristocrata. Cleantes trabalhou em um poço e serviu como um homem contratado regando um jardim. A filosofia não achou Platão já um nobre; ela o fez um. Por que então você deve temer ser capaz de se comparar a homens como estes? Eles são todos os seus ancestrais, se você se comportar de maneira digna; e você fará isso se você se convencer, desde o princípio, de que nenhum homem lhe supera em verdadeira nobreza.
  4. Todos temos o mesmo número de antepassados; não há homem cujo primeiro começo não fuja da memória. Platão diz: “Todo o rei nasce de uma raça de escravos, e todo escravo tem reis entre seus antepassados”. O passar do tempo, com suas vicissitudes, tem misturado todas essas posições sociais, e a Fortuna as virado de cabeça para baixo.
  5. Então, quem é bem-nascido? Aquele que por natureza é bem adaptado à virtude. Esse é o único ponto a ser considerado; caso contrário, se você voltar para a antiguidade, cada um remonta a uma data antes da qual não há nada. Desde os primórdios do universo até o presente, fomos conduzidos a frente de origens que eram alternadamente ilustres e ignóbeis. Um salão cheio de bustos manchados não faz o nobre. Nenhuma vida passada foi vivida para nos emprestar a glória, e aquilo que existiu antes de nós não é nosso; só a alma nos torna nobres, e pode se elevar acima da fortuna, escapando de qualquer circunstância anterior, não importa qual seja essa circunstância.
  6. Suponha, então, que você não fosse um Cavaleiro Romano, mas um escravo liberto, você poderia, no entanto, por seus próprios esforços vir a ser o único homem livre entre uma multidão de cavalheiros. “Como?”, você pergunta. Simplesmente distinguindo entre coisas boas e ruins sem usar a opinião da multidão. Você deve olhar, não para a fonte de onde essas coisas vêm, mas para o objetivo para o qual elas tendem. Se há algo que pode fazer a vida feliz, ele é bom em seus próprios méritos; pois não pode degenerar em mal.
  7. Onde, então, está o erro, uma vez que todos os homens anseiam à vida feliz? É que eles consideram os meios para produzir a felicidade como a felicidade em si, e, enquanto procuram a felicidade, eles estão realmente fugindo dela. Pois, embora o resumo e a substância da vida feliz seja a liberdade pura, e embora o segredo de tal liberdade seja a convicção inabalável, contudo os homens acumulam o que causa preocupação e, enquanto viajam o caminho traiçoeiro da vida, não só têm fardos para carregar, mas atraem mais fardos para si mesmos; Portanto, eles se afastam cada vez mais da realização daquilo que buscam, e quanto mais esforço eles empenham, mais eles se atrapalham e recuam. Isto é o que acontece quando você se apressa através de um labirinto; quão mais rápido você vai, pior é o emaranhado.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Referencia a regra de assento no Coliseu – O primeiro nível, Podium, era reservado aos mais importantes romanos – o Imperador e as Virgens Vestais e membros do senado. O 2º Nível – Maenianum primum: era reservado para a classe nobre não-senatorial chamada de Cavaleiros ou Equites, consistindo de quatorze filas de assentos em mármore.

Carta 43: Sobre a Relatividade da Fama

Na carta 43 Sêneca fala sobre a relatividade da fama.  Afirma que a virtude é o objetivo certo e que devemos pratica-la sem esperar algo em troca.  O comportamento virtuoso é a recompensa em si mesmo e traz a vantagem da consciência tranquila:

“Uma boa consciência recebe com prazer a multidão, mas uma má consciência, mesmo na solidão, é perturbada e inquieta. Se seus feitos são honrosos, que todos os conheçam; se infames, o que importa que ninguém deles saiba, se você mesmo os reconhece? Como você é desventurado se despreza tal testemunha!” (XLIII, 5)

(Imagem recepção de Grande Condé em Versailles por Jean-Léon Gérôme)


XLIII. Sobre a Relatividade da Fama

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você pergunta como a notícia chegou a mim, e quem me informou, que você estava entretendo esta ideia, sobre qual você não disse nada a uma única alma? Foi a mais conhecedora das pessoas, – a fofoca. “O quê”, você diz, “eu sou uma personagem tão grande que eu posso atiçar fofocas?” Ora, não há razão para que se meça de acordo com minha parte do mundo[1]; considere somente o lugar onde você está morando.
  2. Qualquer ponto que sobe acima dos pontos adjacentes é grande. Pois a grandeza não é absoluta; a comparação a aumenta ou a diminui. Um navio que se agiganta no rio parece pequeno quando no oceano. Um leme que é grande para uma embarcação, é pequeno para outra.
  3. Assim você em sua província é realmente importante[2], embora você se menospreze. Homens perguntam o que você faz, como você janta, e como você dorme, e eles descobrem também; por isso, há mais razão para viver com circunspecção. Entretanto, não se julgue verdadeiramente feliz até que perceba que pode viver frente aos olhos dos homens, até que suas paredes o protejam, mas não o escondam. Acreditamos que essas paredes nos cerquem, não para nos capacitar a viver com mais segurança, mas para que possamos pecar mais secretamente.
  4. Mencionarei um fato pelo qual você pode avaliar o caráter de um homem: você dificilmente encontrará alguém que possa viver com sua porta aberta. É a nossa consciência, não o nosso orgulho, que colocou guardas à nossa porta; nós vivemos de tal forma que, sermos expostos subitamente é equivalente a ser pego em flagrante. O que nos beneficia, entretanto, nos esconder e evitar os olhos e os ouvidos dos homens?
  5. Uma boa consciência recebe com prazer a multidão, mas uma má consciência, mesmo na solidão, é perturbada e inquieta. Se seus feitos são honrosos, que todos os conheçam; se infames, o que importa que ninguém deles saiba, se você mesmo os reconhece? Como você é desventurado se despreza tal testemunha!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Ou seja Roma.

[2] Lucílio era neste momento procurador imperial na Sicília.

Carta 40: Sobre o estilo apropriado para o discurso de um filósofo

Na carta 40 é discutido com deve ser o discurso de um filósofo.
Para Sêneca um filósofo deve ser sereno e bem ordenado ao falar, sua comunicação deve ser simples e sem artifícios.

Portanto, marque minhas palavras; essa maneira vigorosa de falar, rápida e copiosa, é mais adequada a um charlatão do que a um homem que está discutindo e ensinando um assunto importante e sério. Mas eu me oponho tão fortemente que deva gotejar suas palavras como que deva avançar em alta velocidade; não se deve manter a orelha sob tensão, nem a ensurdecer. Pois esse estilo pobre e fraco também torna o público menos atento porque o cansa de sua lentidão balbuciante. Finalmente, as pessoas falam de “transmitir” preceitos aos seus alunos; mas não se está “transmitindo” o que escapa à compreensão.” (XL, 3-4)

Na sequência Sêneca compara vários estilos de oradores famosos e situações onde o orador deve ser mais ou menos eloquente.  Termina a carta reforçando o argumento inicial:

Portanto, o núcleo final das minhas observações é o seguinte: eu lhe digo que seja lento ao falar.“(XL,14)

(Ilustração, Estátua da Eloquência  no Parlamento da Bretanha em Rennes)


XL. Sobre o estilo apropriado para o discurso de um filósofo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Agradeço-lhe por ter me escrito tantas vezes; pois você está revelando seu verdadeiro espirito para mim da única maneira que pode. Eu nunca recebo uma carta de você sem entrar imediatamente em sua companhia. Se o esboço de nossos amigos ausentes é agradável para nós, embora apenas refresque a memória e alivie nosso anseio por um consolo irreal e insubstancial, quão mais agradável é uma carta, que nos traz verdadeiros vestígios, evidências reais de um amigo ausente! Pois o que é mais doce quando nos encontramos face a face é concedido pela impressão pela mão de um amigo em sua carta, – reconhecimento.
  2. Você escreve-me que ouviu uma palestra do filósofo Serápio, quando esteve em seu lugar de residência atual. “Ele está acostumado,” você diz, “a distender suas palavras em uma corrida poderosa, e não deixa que elas fluam uma a uma, mas as faz se aglomerarem e se precipitarem uma sobre a outra. Uma única voz é inadequada para expressá-las.” Eu não aprovo isso em um filósofo; seu discurso, como sua vida, deve ser sereno; e nada que corre impetuosamente e é apressado é bem ordenado. É por isso que, em Homero, o estilo rápido, que varre sem uma pausa como uma rajada de neve, é atribuído ao orador mais jovem; do idoso a eloquência flui delicadamente, mais doce do que o mel.
  3. Portanto, marque minhas palavras; essa maneira vigorosa de falar, rápida e copiosa, é mais adequada a um charlatão do que a um homem que está discutindo e ensinando um assunto importante e sério. Mas eu me oponho tão fortemente que deva gotejar suas palavras como que deva avançar em alta velocidade; não se deve manter a orelha sob tensão, nem a ensurdecer. Pois esse estilo pobre e fraco também torna o público menos atento porque o cansa de sua lentidão balbuciante; no entanto, a palavra que há muito se espera penetra com mais facilidade do que a palavra que passa rapidamente. Finalmente, as pessoas falam de “transmitir” preceitos aos seus alunos; mas não se está “transmitindo” o que escapa à compreensão.
  4. Além disso, discurso que lida com a verdade deve ser sem artifícios e simples. Este estilo popular não tem nada a ver com a verdade; seu objetivo é impressionar o rebanho comum, para arrebatar orelhas despreocupadas por sua velocidade; não se oferece para discussão, mas se afasta da discussão. Mas como esse discurso pode governar outros que não podem ser governados? Não posso também mencionar que todo discurso que é empregado com o propósito de curar nossas mentes, deve penetrar em nós? Remédios não valem a menos que permaneçam no sistema.
  5. Além disso, esse tipo de discurso contém uma grande quantidade de vazio; tem mais som do que poder. Meus terrores deveriam ser acalmados, minhas irritações apaziguadas, minhas ilusões sacudidas, minhas indulgências contidas, minha ganância repreendida. E qual dessas curas pode ser feita com pressa? Que médico pode curar seu paciente em uma visita de passagem? Posso acrescentar que tal jargão de palavras confusas e mal escolhidas também não podem conceder o prazer?
  6. Não; mas, assim como você está satisfeito, na maioria dos casos, ter visto truques os quais não pensava que poderiam ser feitos, então no caso desses ginastas de palavra, tê-los ouvido uma vez é mais que o suficiente. O que um homem deseja aprender ou imitar neles? O que deve pensar de suas almas, quando seu discurso é enviado para o ataque em total desordem, e não pode ser controlado?
  7. Assim como, quando você corre colina abaixo, você não consegue parar no ponto planejado, mas seus passos são levados pelo momento de seu corpo e são carregados para além do local onde você quis parar; então essa velocidade de fala não tem controle sobre si mesma, nem é apropriada para a filosofia; uma vez que a filosofia deve cuidadosamente colocar suas palavras, não as arremessar ao esmo, e deve proceder passo a passo.
  8. “O que então?” Você diz; “Não deveria a filosofia tomar às vezes um tom mais majestoso? “Claro que ela deveria; mas a dignidade de caráter deve ser preservada, e isso é despojado por força tão violenta e excessiva. Que a filosofia possua grandes forças, mas bem controladas; deixe seu fluxo fluir incessantemente, mas nunca se tornar uma torrente. E eu dificilmente permitiria até mesmo a um advogado uma rapidez de discurso como esta, que não pode ser chamada de volta, que vai à frente sem lei; pois como poderia ser seguido pelos jurados, que são frequentemente inexperientes e não treinados? Mesmo quando o advogado é levado por seu desejo de mostrar seus poderes, ou por uma emoção incontrolável, mesmo assim ele não deve acelerar o seu ritmo e amontoar as palavras em uma extensão maior do que o ouvido pode suportar.
  9. Você estará agindo corretamente, portanto, se você não respeitar aqueles homens que procuram o quanto podem dizer, ao invés de como devem dizê-lo, e se for para escolher, já que uma escolha deve ser feita, fale como Públio Vinício, o gago. Quando perguntaram a Asellio como Vinício falou, ele respondeu: “Gradualmente”! (Era uma observação de Genius Vargas, a propósito: “Eu não vejo como você pode chamar esse homem de “eloquente”, porque, ele não pode pronunciar três palavras juntas.”) Por que, então, você não deveria escolher falar como Vinício faz?
  10. Embora, naturalmente, alguns gaiatos possam atravessar o seu caminho, como a pessoa que disse, quando Vinício estava arrastando suas palavras uma a uma, como se ele estivesse ditando e não falando. “Diga, você não tem nada a dizer?” E, no entanto, essa era a melhor escolha, pois a rapidez de Quinto Hatério, o orador mais famoso de sua época, é, a meu ver, evitada por um homem sensato. Hatério nunca hesitou, nunca parou; ele fazia apenas um começo, e apenas uma parada.
  11. No entanto, suponho que certos estilos de linguagem sejam mais ou menos adequados às nações também; em um grego você pode tolerar o estilo desenfreado, mas nós, romanos, mesmo quando escrevemos, nos acostumamos a separar nossas palavras. E nosso compatriota Cícero, com quem a oratória romana saltou a destaque, também tinha um passo lento. A língua romana está mais inclinada a fazer um balanço de si mesma, a ponderar e a oferecer algo que valha a pena ponderar.
  12. Fabiano, homem notável por sua vida, por seu conhecimento, e, menos importante do que estes, por sua eloquência também, costumava discutir um assunto com mais urgência do que com pressa; consequentemente você poderia chamar de facilidade ao invés de velocidade. Eu aprovo esta qualidade no homem sábio; mas eu não a exijo; apenas deixe seu discurso prosseguir sem obstáculos, embora eu prefira que ele deva ser deliberadamente proferido em vez de esguichado.
  13. Contudo, tenho esta razão adicional para afastá-lo desta última doença, a saber, que você poderia somente ser bem-sucedido em praticar este estilo perdendo seu senso de modéstia; você teria que raspar toda a vergonha do seu semblante, e se recusar a ouvir-se falar. Pois esse fluxo despreocupado levará consigo muitas expressões que você gostaria de criticar.
  14. E, repito, você não poderia conseguir e, ao mesmo tempo, preservar sua sensação de vergonha. Além disso, você precisaria praticar todos os dias, e transferir sua atenção do assunto para as palavras. Mas as palavras, mesmo que elas venham a você prontamente e fluam sem qualquer esforço de sua parte, ainda teriam que ser mantidas sob controle. Pois, assim como um andar menos ostensivo calha bem a um filósofo, o mesmo acontece com um estilo de expressão reprimido, longe da ousadia. Portanto, o núcleo final das minhas observações é o seguinte: eu lhe digo que seja lento ao falar[1].

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Sêneca usa um neologismo “tardiloquus

Carta 38: Sobre o Ensinamento Tranquilo

Esta carta é muito curta, mas quando o leitor reflete sobre ela no contexto do restante correspondência em desenvolvimento, tem o potencial de se transformar em um conjunto substancial de idéias. O uso de texto como meio de ensino contrasta Sêneca com dois de seus contemporâneos. Sabe-se que Epiteto e Musônio não escreveram livros, mas proferiram discursos que foram registrados por outros.

Afirma que oratória é útil para atrair o estudante, mas não para instruí-lo:

“quando o objetivo é fazer com que um homem aprenda e não apenas para fazê-lo desejar aprender, devemos recorrer às palavras em baixo tom de conversa. Elas entram mais facilmente, e ficam na memória; pois não precisamos de muitas palavras, mas palavras mais eficazes.” (XXXVIII,1)

Na segunda metade, Sêneca responde indiretamente à crítica de Platão da palavra escrita. Ele faz uso de sua imagem do professor como um semeador. Ele primeiro compara as palavras às sementes, depois à razão e finalmente aos preceitos. Ele enfatiza a natureza orgânica de tudo isso. Sementes devem encontrar um solo adequado na mente do ouvinte, têm seu próprio poder (vires suas) e crescem de algo pequeno para algo grande. De fato, em uma boa mente, elas retornarão mais do que foi investido.

Sêneca enfatiza repetidamente que não são necessárias muitas palavras, apenas efetivas, e ele reforça esse argumento por meio da natureza curta da própria carta.

(imagem: Cícero, famoso por sua oratória, denuncia Catilina, por Cesare Maccari)


XXVIII. Sobre o Ensinamento Tranquilo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você está certo quando você pede que aumentemos nosso tráfego mútuo de cartas. Mas o maior benefício é derivado da conversa, porque ela se desliza gradualmente até a alma. Palestras preparadas de antemão e lançadas na presença de uma multidão têm nelas mais barulho, mas menos intimidade. Filosofia é um bom conselho; e ninguém pode dar conselhos gritando com toda sua força. É claro que às vezes também devemos usar esses discursos bombásticos, se assim posso chamá-los, quando um membro duvidoso precisa ser estimulado a esporas; mas quando o objetivo é fazer com que um homem aprenda e não apenas para fazê-lo desejar aprender, devemos recorrer às palavras em baixo tom de conversa. Elas entram mais facilmente, e ficam na memória; pois não precisamos de muitas palavras, mas palavras mais eficazes.
  2. As palavras devem ser espalhadas como sementes; não importa quão pequena a semente possa ser, se uma vez encontrou terreno favorável, desdobra sua força e de uma coisa insignificante se espalha para seu grandioso crescimento. A razão cresce da mesma maneira; não é grande à primeira vista, mas aumenta à medida que faz seu trabalho. Poucas palavras são ditas; mas se a mente realmente as apanha, elas entram em vigor e brotam. Sim, ensinamentos e sementes têm a mesma qualidade; eles produzem muito, e ainda assim são pequenas coisas. Apenas, como eu disse, deixe uma mente favorável recebê-las e assimilá-las. Então, por si só, a mente também produzirá abundantemente por sua vez, retribuindo com mais do que recebeu.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Carta 37: Sobre a lealdade à virtude

Na carta 37 Sêneca procura persuadir o leitor a perseverar no estudo da filosofia com um efeito emocional, comparando o discípulo a um soldado que se alista voluntariamente.
Lucílio deve se enxergar como um soldado lutando contra as paixões pela liberdade.  Como filósofo, Lucílio se alistou não apenas para enfrentar a morte, mas para fazê-lo de boa vontade e com prazer, sem esperança de remissão:

O gladiador pode abaixar sua arma e testar a piedade do povo; mas você não abaixará a sua arma nem suplicará pela vida. Você deve morrer ereto e inflexível. Além disso, que lucro é ganhar alguns dias ou alguns anos? Não há absolvição para nós desde o momento em que nascemos.“(XXXVII, 2)

Sêneca conclui a carta afirmando que a sabedoria e razão é o caminho para liberdade e felicidade:

coloque-se sob o controle da razão; se a razão se tornar sua governante, você se tornará governador de muitos.” (XXXVII, 4)
É vergonhoso, em vez de seguir em frente, ser levado e, de repente, em meio ao redemoinho dos acontecimentos, perguntar de forma aturdida: ‘Como é que eu entrei nessa situação?'”.(XXXVII, 5)

(imagem: Pollice Verso (polegar para baixo) – por Jean-Léon Gérôme )


XXXVII. Sobre a lealdade à virtude

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1.  Você prometeu ser um homem bom; você se alistou sob juramento; esta é a corrente mais forte que irá mantê-lo no bom discernimento. Qualquer homem estará zombando de você, se declarar que este é um tipo de alistamento afeminado e fácil. Eu não vou lhe enganar. A palavra deste pacto mais honroso é a mesma que as palavras daquele mais vergonhoso, a saber: “Por tortura, prisão ou morte pela espada[1]“.

2. Dos homens que vendem suas forças na arena, que comem e bebem o que devem pagar com seu sangue, é certo que suportarão tais provações mesmo que relutantemente; de você, que as suporte voluntariamente e com empenho. O gladiador pode abaixar sua arma e testar a piedade do povo; mas você não abaixará a sua arma nem suplicará pela vida. Você deve morrer ereto e inflexível. Além disso, que lucro é ganhar alguns dias ou alguns anos? Não há absolvição para nós desde o momento em que nascemos.

3. “Então, como posso me libertar?” Você pergunta. Você não pode fugir das necessidades, mas pode superá-las:

pela força um caminho é aberto. Fit via vi. [2]
    E esta maneira lhe será dada pela filosofia. Recorra, portanto, da filosofia, se quiser estar seguro, tranquilo, feliz, se quiser ser – e isso é mais importante, – livre. Não há outra maneira de atingir esse fim.

4. A estupidez[3] é baixa, abjeta, má, servil e exposta a muitas das paixões mais cruéis. Essas paixões, que são capatazes severos, às vezes governam em turnos, e às vezes juntos, podem ser banidos de você pela sabedoria, que é a única liberdade real. Há apenas um caminho que leva para lá, e é um caminho reto; você não se extraviará. Prossiga com passo firme, e se você tiver todas as coisas sob seu controle, coloque-se sob o controle da razão; se a razão se tornar sua governante, você se tornará governador de muitos. Você aprenderá com ela o que deve empreender e como deve ser feito; você não vai errar nas coisas.

5. Você não pode me mostrar nenhum homem que saiba como ele começou a desejar o que ele deseja. Ele não foi levado a esse passo por premeditação; ele foi dirigido por impulso. A fortuna nos ataca quantas vezes atacarmos a Fortuna. É vergonhoso, em vez de seguir em frente, ser levado e, de repente, em meio ao redemoinho dos acontecimentos, perguntar de forma aturdida: “Como é que eu entrei nessa situação?”.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Sêneca se refere ao famoso juramento que o gladiador tomava quando em contrato com o mestre de luta; Uri, vinciri, verberari ferroque necari patior; O juramento é abreviado no texto, provavelmente pelo próprio Sêneca, que o parafraseia na carta LXXI.

[2] Trecho de Eneida de Virgílio.

[3] Na linguagem do estoicismo, a estupidez, “stultitia“, é a antítese da “sapientia”, sabedoria.