Carta 44: Sobre Filosofia e Pedigrees

Hoje O Estoico está completando um ano de existência e comemoramos com uma das melhores cartas de Sêneca.

A carta é bastante significativa para os dias atuais onde é comum reclamar dos “privilégios” dos outros e fazer-se de vítima, ou seja, assim como Lucílio já fazia há 2000 anos.

A resposta de Sêneca é excelente, e contem duas partes:

1. que todos somos iguais: 

A filosofia não rejeita nem escolhe ninguém; sua luz brilha para todos. Sócrates não era aristocrata. Cleantes trabalhou em um poço e serviu como um homem contratado regando um jardim. A filosofia não achou Platão já um nobre; ela o fez um.  Por que então você deve temer ser capaz de se comparar a homens como estes? ” (XLIV, 3)

2.  que procuramos a felicidade em lugar errado, ou seja, nos bens materiais:

Onde, então, está o erro, uma vez que todos os homens anseiam à vida feliz? É que eles consideram os meios para produzir a felicidade como a felicidade em si, e, enquanto procuram a felicidade, eles estão realmente fugindo dela.” (XLIV, 7)

(Imagem: Morte de Sócrates por  Jacques-Louis David)


XLIV. Sobre Filosofia e Pedigrees

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você está insistindo de novo que é um ninguém, e dizendo que a natureza em primeiro lugar, e a Fortuna no segundo, o trataram muito injustamente, e isso apesar de você ter em seu alcance o poder de separar-se da multidão e ascender-se para a mais alta felicidade humana! Se há algum bem em filosofia, é isto, – que nunca olha em pedigrees. Todos os homens, se rastreados à sua fonte original, brotam dos deuses.
  2. Você é um cavaleiro romano, e seu trabalho persistente o promoveu a esta classe; contudo certamente há muitos a quem as quatorze fileiras[1] são barradas; a Câmara do Senado não está aberta a todos; o exército, também, é escrupuloso na escolha dos que admite alistar. Mas uma mente nobre é livre para todos os homens; de acordo com este teste, todos nós podemos ganhar distinção. A filosofia não rejeita nem escolhe ninguém; sua luz brilha para todos.
  3. Sócrates não era aristocrata. Cleantes trabalhou em um poço e serviu como um homem contratado regando um jardim. A filosofia não achou Platão já um nobre; ela o fez um. Por que então você deve temer ser capaz de se comparar a homens como estes? Eles são todos os seus ancestrais, se você se comportar de maneira digna; e você fará isso se você se convencer, desde o princípio, de que nenhum homem lhe supera em verdadeira nobreza.
  4. Todos temos o mesmo número de antepassados; não há homem cujo primeiro começo não fuja da memória. Platão diz: “Todo o rei nasce de uma raça de escravos, e todo escravo tem reis entre seus antepassados”. O passar do tempo, com suas vicissitudes, tem misturado todas essas posições sociais, e a Fortuna as virado de cabeça para baixo.
  5. Então, quem é bem-nascido? Aquele que por natureza é bem adaptado à virtude. Esse é o único ponto a ser considerado; caso contrário, se você voltar para a antiguidade, cada um remonta a uma data antes da qual não há nada. Desde os primórdios do universo até o presente, fomos conduzidos a frente de origens que eram alternadamente ilustres e ignóbeis. Um salão cheio de bustos manchados não faz o nobre. Nenhuma vida passada foi vivida para nos emprestar a glória, e aquilo que existiu antes de nós não é nosso; só a alma nos torna nobres, e pode se elevar acima da fortuna, escapando de qualquer circunstância anterior, não importa qual seja essa circunstância.
  6. Suponha, então, que você não fosse um Cavaleiro Romano, mas um escravo liberto, você poderia, no entanto, por seus próprios esforços vir a ser o único homem livre entre uma multidão de cavalheiros. “Como?”, você pergunta. Simplesmente distinguindo entre coisas boas e ruins sem usar a opinião da multidão. Você deve olhar, não para a fonte de onde essas coisas vêm, mas para o objetivo para o qual elas tendem. Se há algo que pode fazer a vida feliz, ele é bom em seus próprios méritos; pois não pode degenerar em mal.
  7. Onde, então, está o erro, uma vez que todos os homens anseiam à vida feliz? É que eles consideram os meios para produzir a felicidade como a felicidade em si, e, enquanto procuram a felicidade, eles estão realmente fugindo dela. Pois, embora o resumo e a substância da vida feliz seja a liberdade pura, e embora o segredo de tal liberdade seja a convicção inabalável, contudo os homens acumulam o que causa preocupação e, enquanto viajam o caminho traiçoeiro da vida, não só têm fardos para carregar, mas atraem mais fardos para si mesmos; Portanto, eles se afastam cada vez mais da realização daquilo que buscam, e quanto mais esforço eles empenham, mais eles se atrapalham e recuam. Isto é o que acontece quando você se apressa através de um labirinto; quão mais rápido você vai, pior é o emaranhado.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Referencia a regra de assento no Coliseu – O primeiro nível, Podium, era reservado aos mais importantes romanos – o Imperador e as Virgens Vestais e membros do senado. O 2º Nível – Maenianum primum: era reservado para a classe nobre não-senatorial chamada de Cavaleiros ou Equites, consistindo de quatorze filas de assentos em mármore.

Carta 43: Sobre a Relatividade da Fama

Na carta 43 Sêneca fala sobre a relatividade da fama.  Afirma que a virtude é o objetivo certo e que devemos pratica-la sem esperar algo em troca.  O comportamento virtuoso é a recompensa em si mesmo e traz a vantagem da consciência tranquila:

“Uma boa consciência recebe com prazer a multidão, mas uma má consciência, mesmo na solidão, é perturbada e inquieta. Se seus feitos são honrosos, que todos os conheçam; se infames, o que importa que ninguém deles saiba, se você mesmo os reconhece? Como você é desventurado se despreza tal testemunha!” (XLIII, 5)

(Imagem recepção de Grande Condé em Versailles por Jean-Léon Gérôme)


XLIII. Sobre a Relatividade da Fama

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você pergunta como a notícia chegou a mim, e quem me informou, que você estava entretendo esta ideia, sobre qual você não disse nada a uma única alma? Foi a mais conhecedora das pessoas, – a fofoca. “O quê”, você diz, “eu sou uma personagem tão grande que eu posso atiçar fofocas?” Ora, não há razão para que se meça de acordo com minha parte do mundo[1]; considere somente o lugar onde você está morando.
  2. Qualquer ponto que sobe acima dos pontos adjacentes é grande. Pois a grandeza não é absoluta; a comparação a aumenta ou a diminui. Um navio que se agiganta no rio parece pequeno quando no oceano. Um leme que é grande para uma embarcação, é pequeno para outra.
  3. Assim você em sua província é realmente importante[2], embora você se menospreze. Homens perguntam o que você faz, como você janta, e como você dorme, e eles descobrem também; por isso, há mais razão para viver com circunspecção. Entretanto, não se julgue verdadeiramente feliz até que perceba que pode viver frente aos olhos dos homens, até que suas paredes o protejam, mas não o escondam. Acreditamos que essas paredes nos cerquem, não para nos capacitar a viver com mais segurança, mas para que possamos pecar mais secretamente.
  4. Mencionarei um fato pelo qual você pode avaliar o caráter de um homem: você dificilmente encontrará alguém que possa viver com sua porta aberta. É a nossa consciência, não o nosso orgulho, que colocou guardas à nossa porta; nós vivemos de tal forma que, sermos expostos subitamente é equivalente a ser pego em flagrante. O que nos beneficia, entretanto, nos esconder e evitar os olhos e os ouvidos dos homens?
  5. Uma boa consciência recebe com prazer a multidão, mas uma má consciência, mesmo na solidão, é perturbada e inquieta. Se seus feitos são honrosos, que todos os conheçam; se infames, o que importa que ninguém deles saiba, se você mesmo os reconhece? Como você é desventurado se despreza tal testemunha!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Ou seja Roma.

[2] Lucílio era neste momento procurador imperial na Sicília.

Carta 40: Sobre o estilo apropriado para o discurso de um filósofo

Na carta 40 é discutido com deve ser o discurso de um filósofo.
Para Sêneca um filósofo deve ser sereno e bem ordenado ao falar, sua comunicação deve ser simples e sem artifícios.

Portanto, marque minhas palavras; essa maneira vigorosa de falar, rápida e copiosa, é mais adequada a um charlatão do que a um homem que está discutindo e ensinando um assunto importante e sério. Mas eu me oponho tão fortemente que deva gotejar suas palavras como que deva avançar em alta velocidade; não se deve manter a orelha sob tensão, nem a ensurdecer. Pois esse estilo pobre e fraco também torna o público menos atento porque o cansa de sua lentidão balbuciante. Finalmente, as pessoas falam de “transmitir” preceitos aos seus alunos; mas não se está “transmitindo” o que escapa à compreensão.” (XL, 3-4)

Na sequência Sêneca compara vários estilos de oradores famosos e situações onde o orador deve ser mais ou menos eloquente.  Termina a carta reforçando o argumento inicial:

Portanto, o núcleo final das minhas observações é o seguinte: eu lhe digo que seja lento ao falar.“(XL,14)

(Ilustração, Estátua da Eloquência  no Parlamento da Bretanha em Rennes)


XL. Sobre o estilo apropriado para o discurso de um filósofo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Agradeço-lhe por ter me escrito tantas vezes; pois você está revelando seu verdadeiro espirito para mim da única maneira que pode. Eu nunca recebo uma carta de você sem entrar imediatamente em sua companhia. Se o esboço de nossos amigos ausentes é agradável para nós, embora apenas refresque a memória e alivie nosso anseio por um consolo irreal e insubstancial, quão mais agradável é uma carta, que nos traz verdadeiros vestígios, evidências reais de um amigo ausente! Pois o que é mais doce quando nos encontramos face a face é concedido pela impressão pela mão de um amigo em sua carta, – reconhecimento.
  2. Você escreve-me que ouviu uma palestra do filósofo Serápio, quando esteve em seu lugar de residência atual. “Ele está acostumado,” você diz, “a distender suas palavras em uma corrida poderosa, e não deixa que elas fluam uma a uma, mas as faz se aglomerarem e se precipitarem uma sobre a outra. Uma única voz é inadequada para expressá-las.” Eu não aprovo isso em um filósofo; seu discurso, como sua vida, deve ser sereno; e nada que corre impetuosamente e é apressado é bem ordenado. É por isso que, em Homero, o estilo rápido, que varre sem uma pausa como uma rajada de neve, é atribuído ao orador mais jovem; do idoso a eloquência flui delicadamente, mais doce do que o mel.
  3. Portanto, marque minhas palavras; essa maneira vigorosa de falar, rápida e copiosa, é mais adequada a um charlatão do que a um homem que está discutindo e ensinando um assunto importante e sério. Mas eu me oponho tão fortemente que deva gotejar suas palavras como que deva avançar em alta velocidade; não se deve manter a orelha sob tensão, nem a ensurdecer. Pois esse estilo pobre e fraco também torna o público menos atento porque o cansa de sua lentidão balbuciante; no entanto, a palavra que há muito se espera penetra com mais facilidade do que a palavra que passa rapidamente. Finalmente, as pessoas falam de “transmitir” preceitos aos seus alunos; mas não se está “transmitindo” o que escapa à compreensão.
  4. Além disso, discurso que lida com a verdade deve ser sem artifícios e simples. Este estilo popular não tem nada a ver com a verdade; seu objetivo é impressionar o rebanho comum, para arrebatar orelhas despreocupadas por sua velocidade; não se oferece para discussão, mas se afasta da discussão. Mas como esse discurso pode governar outros que não podem ser governados? Não posso também mencionar que todo discurso que é empregado com o propósito de curar nossas mentes, deve penetrar em nós? Remédios não valem a menos que permaneçam no sistema.
  5. Além disso, esse tipo de discurso contém uma grande quantidade de vazio; tem mais som do que poder. Meus terrores deveriam ser acalmados, minhas irritações apaziguadas, minhas ilusões sacudidas, minhas indulgências contidas, minha ganância repreendida. E qual dessas curas pode ser feita com pressa? Que médico pode curar seu paciente em uma visita de passagem? Posso acrescentar que tal jargão de palavras confusas e mal escolhidas também não podem conceder o prazer?
  6. Não; mas, assim como você está satisfeito, na maioria dos casos, ter visto truques os quais não pensava que poderiam ser feitos, então no caso desses ginastas de palavra, tê-los ouvido uma vez é mais que o suficiente. O que um homem deseja aprender ou imitar neles? O que deve pensar de suas almas, quando seu discurso é enviado para o ataque em total desordem, e não pode ser controlado?
  7. Assim como, quando você corre colina abaixo, você não consegue parar no ponto planejado, mas seus passos são levados pelo momento de seu corpo e são carregados para além do local onde você quis parar; então essa velocidade de fala não tem controle sobre si mesma, nem é apropriada para a filosofia; uma vez que a filosofia deve cuidadosamente colocar suas palavras, não as arremessar ao esmo, e deve proceder passo a passo.
  8. “O que então?” Você diz; “Não deveria a filosofia tomar às vezes um tom mais majestoso? “Claro que ela deveria; mas a dignidade de caráter deve ser preservada, e isso é despojado por força tão violenta e excessiva. Que a filosofia possua grandes forças, mas bem controladas; deixe seu fluxo fluir incessantemente, mas nunca se tornar uma torrente. E eu dificilmente permitiria até mesmo a um advogado uma rapidez de discurso como esta, que não pode ser chamada de volta, que vai à frente sem lei; pois como poderia ser seguido pelos jurados, que são frequentemente inexperientes e não treinados? Mesmo quando o advogado é levado por seu desejo de mostrar seus poderes, ou por uma emoção incontrolável, mesmo assim ele não deve acelerar o seu ritmo e amontoar as palavras em uma extensão maior do que o ouvido pode suportar.
  9. Você estará agindo corretamente, portanto, se você não respeitar aqueles homens que procuram o quanto podem dizer, ao invés de como devem dizê-lo, e se for para escolher, já que uma escolha deve ser feita, fale como Públio Vinício, o gago. Quando perguntaram a Asellio como Vinício falou, ele respondeu: “Gradualmente”! (Era uma observação de Genius Vargas, a propósito: “Eu não vejo como você pode chamar esse homem de “eloquente”, porque, ele não pode pronunciar três palavras juntas.”) Por que, então, você não deveria escolher falar como Vinício faz?
  10. Embora, naturalmente, alguns gaiatos possam atravessar o seu caminho, como a pessoa que disse, quando Vinício estava arrastando suas palavras uma a uma, como se ele estivesse ditando e não falando. “Diga, você não tem nada a dizer?” E, no entanto, essa era a melhor escolha, pois a rapidez de Quinto Hatério, o orador mais famoso de sua época, é, a meu ver, evitada por um homem sensato. Hatério nunca hesitou, nunca parou; ele fazia apenas um começo, e apenas uma parada.
  11. No entanto, suponho que certos estilos de linguagem sejam mais ou menos adequados às nações também; em um grego você pode tolerar o estilo desenfreado, mas nós, romanos, mesmo quando escrevemos, nos acostumamos a separar nossas palavras. E nosso compatriota Cícero, com quem a oratória romana saltou a destaque, também tinha um passo lento. A língua romana está mais inclinada a fazer um balanço de si mesma, a ponderar e a oferecer algo que valha a pena ponderar.
  12. Fabiano, homem notável por sua vida, por seu conhecimento, e, menos importante do que estes, por sua eloquência também, costumava discutir um assunto com mais urgência do que com pressa; consequentemente você poderia chamar de facilidade ao invés de velocidade. Eu aprovo esta qualidade no homem sábio; mas eu não a exijo; apenas deixe seu discurso prosseguir sem obstáculos, embora eu prefira que ele deva ser deliberadamente proferido em vez de esguichado.
  13. Contudo, tenho esta razão adicional para afastá-lo desta última doença, a saber, que você poderia somente ser bem-sucedido em praticar este estilo perdendo seu senso de modéstia; você teria que raspar toda a vergonha do seu semblante, e se recusar a ouvir-se falar. Pois esse fluxo despreocupado levará consigo muitas expressões que você gostaria de criticar.
  14. E, repito, você não poderia conseguir e, ao mesmo tempo, preservar sua sensação de vergonha. Além disso, você precisaria praticar todos os dias, e transferir sua atenção do assunto para as palavras. Mas as palavras, mesmo que elas venham a você prontamente e fluam sem qualquer esforço de sua parte, ainda teriam que ser mantidas sob controle. Pois, assim como um andar menos ostensivo calha bem a um filósofo, o mesmo acontece com um estilo de expressão reprimido, longe da ousadia. Portanto, o núcleo final das minhas observações é o seguinte: eu lhe digo que seja lento ao falar[1].

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Sêneca usa um neologismo “tardiloquus

Carta 38: Sobre o Ensinamento Tranquilo

Esta carta é muito curta, mas quando o leitor reflete sobre ela no contexto do restante correspondência em desenvolvimento, tem o potencial de se transformar em um conjunto substancial de idéias. O uso de texto como meio de ensino contrasta Sêneca com dois de seus contemporâneos. Sabe-se que Epiteto e Musônio não escreveram livros, mas proferiram discursos que foram registrados por outros.

Afirma que oratória é útil para atrair o estudante, mas não para instruí-lo:

“quando o objetivo é fazer com que um homem aprenda e não apenas para fazê-lo desejar aprender, devemos recorrer às palavras em baixo tom de conversa. Elas entram mais facilmente, e ficam na memória; pois não precisamos de muitas palavras, mas palavras mais eficazes.” (XXXVIII,1)

Na segunda metade, Sêneca responde indiretamente à crítica de Platão da palavra escrita. Ele faz uso de sua imagem do professor como um semeador. Ele primeiro compara as palavras às sementes, depois à razão e finalmente aos preceitos. Ele enfatiza a natureza orgânica de tudo isso. Sementes devem encontrar um solo adequado na mente do ouvinte, têm seu próprio poder (vires suas) e crescem de algo pequeno para algo grande. De fato, em uma boa mente, elas retornarão mais do que foi investido.

Sêneca enfatiza repetidamente que não são necessárias muitas palavras, apenas efetivas, e ele reforça esse argumento por meio da natureza curta da própria carta.

(imagem: Cícero, famoso por sua oratória, denuncia Catilina, por Cesare Maccari)


XXVIII. Sobre o Ensinamento Tranquilo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você está certo quando você pede que aumentemos nosso tráfego mútuo de cartas. Mas o maior benefício é derivado da conversa, porque ela se desliza gradualmente até a alma. Palestras preparadas de antemão e lançadas na presença de uma multidão têm nelas mais barulho, mas menos intimidade. Filosofia é um bom conselho; e ninguém pode dar conselhos gritando com toda sua força. É claro que às vezes também devemos usar esses discursos bombásticos, se assim posso chamá-los, quando um membro duvidoso precisa ser estimulado a esporas; mas quando o objetivo é fazer com que um homem aprenda e não apenas para fazê-lo desejar aprender, devemos recorrer às palavras em baixo tom de conversa. Elas entram mais facilmente, e ficam na memória; pois não precisamos de muitas palavras, mas palavras mais eficazes.
  2. As palavras devem ser espalhadas como sementes; não importa quão pequena a semente possa ser, se uma vez encontrou terreno favorável, desdobra sua força e de uma coisa insignificante se espalha para seu grandioso crescimento. A razão cresce da mesma maneira; não é grande à primeira vista, mas aumenta à medida que faz seu trabalho. Poucas palavras são ditas; mas se a mente realmente as apanha, elas entram em vigor e brotam. Sim, ensinamentos e sementes têm a mesma qualidade; eles produzem muito, e ainda assim são pequenas coisas. Apenas, como eu disse, deixe uma mente favorável recebê-las e assimilá-las. Então, por si só, a mente também produzirá abundantemente por sua vez, retribuindo com mais do que recebeu.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Carta 37: Sobre a lealdade à virtude

Na carta 37 Sêneca procura persuadir o leitor a perseverar no estudo da filosofia com um efeito emocional, comparando o discípulo a um soldado que se alista voluntariamente.
Lucílio deve se enxergar como um soldado lutando contra as paixões pela liberdade.  Como filósofo, Lucílio se alistou não apenas para enfrentar a morte, mas para fazê-lo de boa vontade e com prazer, sem esperança de remissão:

O gladiador pode abaixar sua arma e testar a piedade do povo; mas você não abaixará a sua arma nem suplicará pela vida. Você deve morrer ereto e inflexível. Além disso, que lucro é ganhar alguns dias ou alguns anos? Não há absolvição para nós desde o momento em que nascemos.“(XXXVII, 2)

Sêneca conclui a carta afirmando que a sabedoria e razão é o caminho para liberdade e felicidade:

coloque-se sob o controle da razão; se a razão se tornar sua governante, você se tornará governador de muitos.” (XXXVII, 4)
É vergonhoso, em vez de seguir em frente, ser levado e, de repente, em meio ao redemoinho dos acontecimentos, perguntar de forma aturdida: ‘Como é que eu entrei nessa situação?'”.(XXXVII, 5)

(imagem: Pollice Verso (polegar para baixo) – por Jean-Léon Gérôme )


XXXVII. Sobre a lealdade à virtude

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1.  Você prometeu ser um homem bom; você se alistou sob juramento; esta é a corrente mais forte que irá mantê-lo no bom discernimento. Qualquer homem estará zombando de você, se declarar que este é um tipo de alistamento afeminado e fácil. Eu não vou lhe enganar. A palavra deste pacto mais honroso é a mesma que as palavras daquele mais vergonhoso, a saber: “Por tortura, prisão ou morte pela espada[1]“.

2. Dos homens que vendem suas forças na arena, que comem e bebem o que devem pagar com seu sangue, é certo que suportarão tais provações mesmo que relutantemente; de você, que as suporte voluntariamente e com empenho. O gladiador pode abaixar sua arma e testar a piedade do povo; mas você não abaixará a sua arma nem suplicará pela vida. Você deve morrer ereto e inflexível. Além disso, que lucro é ganhar alguns dias ou alguns anos? Não há absolvição para nós desde o momento em que nascemos.

3. “Então, como posso me libertar?” Você pergunta. Você não pode fugir das necessidades, mas pode superá-las:

pela força um caminho é aberto. Fit via vi. [2]
    E esta maneira lhe será dada pela filosofia. Recorra, portanto, da filosofia, se quiser estar seguro, tranquilo, feliz, se quiser ser – e isso é mais importante, – livre. Não há outra maneira de atingir esse fim.

4. A estupidez[3] é baixa, abjeta, má, servil e exposta a muitas das paixões mais cruéis. Essas paixões, que são capatazes severos, às vezes governam em turnos, e às vezes juntos, podem ser banidos de você pela sabedoria, que é a única liberdade real. Há apenas um caminho que leva para lá, e é um caminho reto; você não se extraviará. Prossiga com passo firme, e se você tiver todas as coisas sob seu controle, coloque-se sob o controle da razão; se a razão se tornar sua governante, você se tornará governador de muitos. Você aprenderá com ela o que deve empreender e como deve ser feito; você não vai errar nas coisas.

5. Você não pode me mostrar nenhum homem que saiba como ele começou a desejar o que ele deseja. Ele não foi levado a esse passo por premeditação; ele foi dirigido por impulso. A fortuna nos ataca quantas vezes atacarmos a Fortuna. É vergonhoso, em vez de seguir em frente, ser levado e, de repente, em meio ao redemoinho dos acontecimentos, perguntar de forma aturdida: “Como é que eu entrei nessa situação?”.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Sêneca se refere ao famoso juramento que o gladiador tomava quando em contrato com o mestre de luta; Uri, vinciri, verberari ferroque necari patior; O juramento é abreviado no texto, provavelmente pelo próprio Sêneca, que o parafraseia na carta LXXI.

[2] Trecho de Eneida de Virgílio.

[3] Na linguagem do estoicismo, a estupidez, “stultitia“, é a antítese da “sapientia”, sabedoria.

Carta 36: Sobre o Valor da Aposentadoria

Na carta 36 Sêneca discute as vantagens de ser afastar dos negócios e da vida pública, para o que chama de “Otium” um termo abstrato em latim,  que tem uma variedade de significados, incluindo o tempo de lazer em que uma pessoa pode gastar para comer, brincar, descansar, contemplação e esforços acadêmicos.

Estabelece uma antítese no início da carta entre o sucesso popular (felicitas), que seria sucesso na carreira pública, e uma vida de aposentadoria (otium) sendo a segunda a vida ideal . O sucesso popular é instável, já que está sob controle da Fortuna. Além disso, seu efeito sobre aqueles que o recebem não é saudável:

“A prosperidade é uma coisa turbulenta; ela atormenta. Ela agita o cérebro em mais de um sentido, incitando os homens a vários objetivos, alguns para o poder, e outros para a vida luxuosa. Alguns ela enche de orgulho; outros afrouxa e debilita totalmente.” (XXXVI.1)

A escolha entre a vida pública e a aposentadoria(retiro) foi um tema importante para os filósofos antigos, sobre o qual Sêneca escreveu com a experiência de ambos os estilos de vida. É um tópico que ele apresenta em vários de seus diálogos e cartas, inclusive na Carta VIII, já comentada no site.

A aposentadoria está intimamente ligada ao verdadeiro sucesso de Sêneca. Teoricamente, o estado interno de “vida feliz”  é possível, independentemente das circunstâncias externas. Na prática, no entanto, o retiro é uma grande ajuda para o progresso filosófico devido a distância da influência prejudicial da multidão.

Para Sêneca, A Vida Feliz consiste em duas qualidades: Tranquilidade da Mente e Liberdade do Medo (securitas et perpetua tranquillitas).A aposentadoria é uma grande ajuda para alcançar a tranquilidade da mente. A liberdade do medo é alcançada com a aceitação da morte, tema da segunda metade da carta.

A partir do parágrafo 8 Sêneca oferece uma perspectiva científica sobre a morte:

“A o que, então, esse amigo seu dedicará sua atenção? Eu digo, que aprenda o que é útil contra todas as armas, contra todo tipo de inimigo, – o desprezo pela morte;” (XXXVI.8)

Nos parágrafos 10-11, Sêneca convida o leitor a ver nos ciclos cósmicos da natureza uma segurança para encarar a morte calmamente.

“Uma vez que você está destinado a retornar, você deve partir com uma mente tranquila. Perceba como o percurso do universo repete seu curso; você verá que nenhuma estrela em nosso firmamento é extinguida, mas que todas elas surgem e se erguem em alternância. O verão foi embora, mas outro ano o trará de novo;” (XXXVI.11)

No  livro “Das Questões Naturais“, Sêneca coloca o estudo da natureza em um plano superior ao de outros ramos da filosofia: Estudar ciências seria o estudo de Deus já os outros temas seria o estudo dos humanos.

Conclui a carta com uma analogia forte, mostrando que não é racional temer a morte:

“os jovens e os que ficaram loucos, não têm medo da morte, e é muito vergonhoso se a razão não pode nos dar essa paz de espírito que é trazida pela loucura.”(XXXVI.12)

(imagem:  Alegoria da Fortuna, por Salvator Rosa)

 


XXXVI. Sobre o Valor da Aposentadoria

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Incentive seu amigo a desprezar corajosamente aqueles que o censuram porque ele procurou a sombra da aposentadoria e abdicou de sua carreira de honras, e, embora pudesse ter alcançado mais, preferiu a tranquilidade. Deixe-o provar diariamente a estes detratores como sabiamente ele defendeu seus próprios interesses. Aqueles que são invejados pelos homens passam ao largo; alguns serão empurrados para fora de sua posição social, e outros cairão. A prosperidade é uma coisa turbulenta; ela atormenta. Ela agita o cérebro em mais de um sentido, incitando os homens a vários objetivos, alguns para o poder, e outros para a vida luxuosa. Alguns ela enche de orgulho; outros afrouxa e debilita totalmente.
  2. “Mas”, diz a réplica, “Fulano conduz bem a sua prosperidade”. Sim; assim como ele controla sua bebida. Então você precisa não deixar que essa classe de homens o persuada que aquele que é sitiado pela multidão é feliz; a multidão corre para ele como correm para uma lagoa de água, tornando-a lamacenta enquanto a drenam. Mas você diz: “Os homens chamam nosso amigo de insignificante e preguiçoso“. Há homens, você sabe, cujo discurso é oblíquo, que usam termos contraditórios. Eles o chamavam de feliz; e daí? Ele era feliz?
  3. Mesmo o fato de que a algumas pessoas ele se pareça a um homem de mente muito áspera e sombria, não me incomoda. Aristo[2] costumava dizer que preferia um jovem sisudo a um homem jovial e agradável à multidão. “Pois“, acrescentava, “vinho que, quando novo, parecia áspero e azedo, torna-se bom vinho, mas o que provou bem na vindima pode não suportar a idade.” Então, que eles o chamem de severo e inimigo de seu próprio progresso, é essa severidade que irá bem quando envelhecer, desde que continue a apreciar a virtude e a absorver completamente os estudos que faz para a cultura – não aqueles suficientes para que um homem se borrife, mas aqueles em que a mente deve ser mergulhada.
  4. Agora é a hora de aprender. “O que? Há alguma época em que um homem não deva aprender?” De jeito nenhum; mas assim como é meritório para todas as idades estudar, não é meritório para todas as idades ser instruído. Um homem velho que aprende seu ABC é uma coisa vergonhosa e absurda; o jovem deve armazenar, o velho deve usar. Você, portanto, estará fazendo uma coisa mais útil para si mesmo se você fizer este amigo seu um homem tão bom quanto possível; essas bondades, dizem eles, devem ser buscadas e concedidas, pois beneficiam ao doador não menos que ao receptor; e elas são, sem dúvida, as melhores.
  5. Finalmente, não tem mais nenhuma liberdade no assunto, aquele que empenhou sua palavra. E é menos vergonhoso renegociar com um credor do que renegociar com um futuro promissor. Para pagar sua dívida de dinheiro, o homem de negócios deve ter uma viagem lucrativa, o agricultor deve ter campos frutíferos e bom tempo, mas a dívida que seu amigo deve pode ser completamente paga por mera boa vontade.
  6. A fortuna não tem jurisdição sobre o caráter. Permita regular seu caráter de modo que em perfeita paz possa trazer à perfeição aquele espírito que não sente perda nem ganho, mas que permanece na mesma atitude, não importa como as coisas se dão. Um espírito como este, se agraciado com bens mundanos, se eleva à sua riqueza; se, por outro lado, o acaso o despoja de uma parte de sua riqueza, ou mesmo de tudo, não é prejudicado.
  7. Se seu amigo tivesse nascido no Império Parta, ele teria começado, quando criança, a dobrar o arco; se na Alemanha, estaria brandindo a sua esguia lança; se ele tivesse nascido nos dias de nossos antepassados, ele teria aprendido a montar um cavalo e a castigar seu inimigo mão a mão. Estas são as ocupações que o sistema de cada estirpe recomenda ao indivíduo, – sim, prescreve a ele.
  8. A o que, então, esse amigo seu dedicará sua atenção? Eu digo, que aprenda o que é útil contra todas as armas, contra todo tipo de inimigo, – o desprezo pela morte; porque ninguém duvida que a morte tenha em si algo que inspire o terror, de modo que choca até mesmo nossas almas, que a natureza as moldou para que amem sua própria existência; pois de outro modo não haveria necessidade de nos preparar, e de aguçar nossa coragem, para encarar o que deveria ser uma espécie de instinto voluntário, precisamente da mesma forma como todos os homens tendem a preservar sua existência.
  9. Nenhum homem aprende uma coisa a fim de que, se a necessidade surgir, ele possa se deitar sobre um leito de rosas; mas ele prepara sua coragem para este fim, para que não entregue sua fé à tortura, e que, se necessário, possa algum dia ficar de guarda nas trincheiras, mesmo ferido, sem se apoiar na sua lança; porque o sono é capaz de rastejar sobre os homens que se sustentam por qualquer suporte. Na morte não há nada prejudicial; pois deve existir algo a que ela é prejudicial[3].
  10. E ainda, se você está possuído por tão grande desejo de uma vida mais longa, reflita que nenhum dos objetos que desaparecem do nosso olhar e são reabsorvidos no mundo das coisas, de onde eles surgem e em breve irão ressurgir, é aniquilado; eles simplesmente terminam o seu curso e não perecem. E a morte, de que tememos e nos afastamos, simplesmente interrompe a vida, mas não a rouba; o tempo voltará quando seremos restaurados à luz do dia; e muitos homens opor-se-iam a isso, se não fossem trazidos de volta tendo esquecido o passado.
  11. Mas quero mostrar-lhe mais tarde, com mais cuidado, que tudo o que parece perecer apenas muda. Uma vez que você está destinado a retornar, você deve partir com uma mente tranquila. Perceba como o percurso do universo repete seu curso; você verá que nenhuma estrela em nosso firmamento é extinguida, mas que todas elas surgem e se erguem em alternância. O verão foi embora, mas outro ano o trará de novo; O inverno está baixo, mas será restaurado por seus próprios meses; A noite dominou o sol, mas o dia logo derrubará a noite outra vez. As estrelas nômadas retraçam seus cursos anteriores; uma parte do céu está em ascensão incessantemente, e uma parte está afundando.
  12. Uma palavra mais, e então vou parar; os meninos, os jovens e os que ficaram loucos, não têm medo da morte, e é muito vergonhoso se a razão não pode nos dar essa paz de espírito que é trazida pela loucura.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[2] Aríston ou Aristo de Quios foi um filósofo estoico e discípulo de Zenão de Cítio. Esboçou um sistema de filosofia estoica que esteve, em muitos aspectos, mais próximo da anterior filosofia cínica. Rejeitou o lado lógico e físico da filosofia aprovada por Zenão e enfatizou a ética.

[3] Como depois da morte, nós não existimos, a morte não pode ser prejudicial para nós. Sêneca tem em mente o argumento de Epicuro: “Portanto, o mais pavoroso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois quando nós existimos, a morte não está presente para nós, e quando a morte está presente, então não existimos. Portanto, não diz respeito aos vivos ou aos mortos, pois para os vivos não tem existência, e para os mortos não existe. “

Carta 35: Sobre a Amizade entre Mentes Semelhantes

Na carta 35 Sêneca fala da relação entre amor a amizade verdadeira.

A mensagem é especialmente importante para quem tem filhos, como já percebemos no primeiro parágrafo:

“… quem lhe ama não é, em todos os casos, seu amigo. A amizade, portanto, é sempre útil, mas o amor, às vezes, faz mal. Tente aperfeiçoar-se, se não por outra razão, para que você possa aprender como amar.” (XXXV, 1)

De acordo com Sêneca o amor perfeito é aquele o qual todo egoísmo é removido, tornando-se igual a amizade verdadeira

Conclui a carta lembrando que a constância de objetivo é sinal de sabedoria:
quando quiser descobrir se conseguiu alguma coisa, considere se você deseja as mesmas coisas hoje que você desejou ontem.” (XXXV, 4)

(Imagem, Cornélia, por Joseph-Benoît Suvée, Louvre.   Cornélia Africana  mãe dos irmãos Gracos, conhecida pela sua virtude e força de caráter)


XXXV. Sobre a Amizade entre Mentes Semelhantes

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Quando eu insisto com tanta força em seus estudos, é meu próprio interesse que eu estou defendendo; quero sua amizade, e ela não me será proveitosa a menos que você continue, com a tarefa de se desenvolver. Por enquanto, embora me ame, você ainda não é meu amigo. “Mas,” você responde, “Têm essas palavras significado diferente?” Não, mas ainda, elas são totalmente diferentes em significado. Um amigo lhe ama, é claro; mas quem lhe ama não é, em todos os casos, seu amigo. A amizade, portanto, é sempre útil, mas o amor, às vezes, faz mal. Tente aperfeiçoar-se, se não por outra razão, para que você possa aprender como amar.
  2. Apresse-se, portanto, para que, enquanto aperfeiçoa-se para meu benefício, você não tenha aprendido a perfeição em benefício de outrem. Com certeza, já estou obtendo algum lucro ao imaginar que nós dois seremos de uma só mente, e que qualquer parte da minha força que tenha cedido à idade retornará para mim por sua força, embora não haja tanta diferença em nossas idades.
  3. Mas ainda assim desejo me alegrar no fato consumado. Nós sentimos uma alegria por aqueles que amamos, mesmo quando separados deles, mas tal alegria é leve e passageira; A visão de uma pessoa, a sua presença e a comunhão com ela, proporcionam algo de prazer vivo; isso é verdade, de alguma maneira, se alguém não só vê o homem que deseja, mas o tipo de homem que deseja. Doe-se a mim, portanto, como um presente de grande preço, e, para que você possa esforçar-se mais, reflita que você mesmo é mortal, e que eu sou velho.
  4. Apresse-se a me encontrar, mas apresse-se a encontrar-se em primeiro lugar. Progrida e, antes de tudo, procure ser consistente consigo mesmo. E quando quiser descobrir se conseguiu alguma coisa, considere se você deseja as mesmas coisas hoje que você desejou ontem. Um deslocamento da vontade indica que a mente está ao mar, indo em várias direções, de acordo com o curso do vento. Mas o que está estabelecido e sólido não vagueia de seu posto. Este é o terreno abençoado do homem completamente sábio, e também, em certa medida, daquele que está progredindo e tem feito alguns avanços. Qual é a diferença entre essas duas classes de homens? Um está em movimento, com certeza, mas não muda sua posição; simplesmente debate-se a cima e a baixo onde está; O outro não está absolutamente em movimento.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Carta 34: Sobre um aluno promissor

Na carta 34 Sêneca fala sobre a alegria que um bom aluno proporciona a seu mestre.

Em questões éticas e morais, Sêneca afirma que o desejo de ser correto é praticamente o que basta:

Uma tarefa começada é meio caminho andado”. É mais do que a metade, pois a questão de que falamos é determinada pela alma. Consequentemente a maior parte da bondade é a vontade de querer ser bom(XXXIV, 3)

A carta é concluída com uma frase forte:

“Se os atos de um homem não estão em harmonia, sua alma está corrompida.”

(imagem, Mestre e seus pupilos por Daniel Huntington)


XXXIV. Sobre um aluno promissor

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Eu cresço em espírito e pulo de alegria e esqueço a minha idade e meu sangue corre quente novamente, sempre que percebo, a partir de suas ações e cartas, quanto você se superou; o homem convencional que você deixou para trás há muito tempo. Se o fazendeiro se satisfaz quando sua árvore cresce e dá frutos, se o pastor se satisfaz com o aumento de seu rebanho, se cada homem considera seu discípulo como a si próprio como se ainda em juventude, – então, quais pensa serem os sentimentos daquele que treinou uma mente e modelou uma nova ideia, quando de repente ele percebe que esta está madura?
  2. Eu me dou o crédito: você é obra minha. Quando vi suas habilidades, coloquei as mãos sobre você, lhe incentivei, e não permiti que você fosse preguiçoso, mas lhe estimulei continuamente. E agora estou fazendo o mesmo, mas desta vez, estou torcendo por alguém que está na disputa, e isto me anima.
  3. “O que mais quer de mim então?, você pergunta, “a vontade ainda é minha”. Bem, a vontade é neste caso quase tudo, e não apenas a metade, como diz o ditado “Uma tarefa começada é meio caminho andado”. É mais do que a metade, pois a questão de que falamos é determinada pela alma[1]. Consequentemente a maior parte da bondade é a vontade de querer ser bom. Você sabe o que eu quero dizer com um bom homem? Alguém que é completo, definido, – e que não pode ser corrompido por nenhuma coação ou necessidade.
  4. Eu vejo esta pessoa em você, somente quanto se curva sobre o seu trabalho e garante que suas palavras e ações se harmonizam e correspondem uma a outra e são feitas a partir do mesmo molde. Se os atos de um homem não estão em harmonia, sua alma está corrompida.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Ou seja, o provérbio pode aplicar-se a tarefas que um homem executa com as mãos, mas é uma subavaliação quando aplicado às tarefas da alma.

Carta 33: Sobre a Futilidade de aprender axiomas

Na carta 33 Sêneca aborda nossa responsabilidade sobre o legado que devemos deixar.  Prescreve estudar com profundidade a sabedoria dos antepassados ilustres:

Por esta razão, desista de acreditar que possa desnatar, por meio de resumos, a sabedoria de homens ilustres. Olhe para a sua sabedoria como um todo; estude-a como um todo… Examine as partes separadas, se quiser, desde que você as examine como partes do próprio homem. Uma bela mulher não é aquela cujo tornozelo ou braço é elogiado, mas cuja aparência geral faz você esquecer de admirar atributos únicos.” (XXXIII,5)

Contudo, após certo ponto, devemos nós mesmo criar novos ensinamentos, usando como alicerce o conhecimento adquirido com mestres reconhecidos:

Mas qual é a sua opinião? Por quanto tempo marchará sob as ordens de outro homem? Tome o comando, e proferira alguma palavra que a posteridade possa se lembrar. Coloque algo de seu próprio estoque.“(XXXIII,7)

Gosto muito do último parágrafo, que representa a síntese do conservadorismo, ou seja, devemos ampliar e melhorar a sociedade sempre conservando as tradições de base:

“O que então? Não seguirei os passos de meus predecessores? Devo realmente usar a estrada velha, mas se encontrar um atalho que seja mais suave para viajar, devo abrir a nova estrada[8]. Os homens que fizeram essas descobertas antes de nós não são nossos mestres, mas nossos guias. A verdade está aberta para todos; ainda não foi monopolizada. E ainda há muito dela para a posteridade descobrir.” (XXXIII,11)

(imagem: La Tache noire por Albert Bettannier)


XXXIII. Sobre a Futilidade de aprender axiomas

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você deseja que eu conclua essa carta assim como eu encerrei minhas cartas anteriores, com certas declarações tomadas dos chefes de nossa escola. Mas eles não se interessavam em resumos escolhidos; Toda a textura de seus trabalhos está cheia de força. Há volatilidade, você sabe, quando alguns objetos se erguem acima de outros. Uma única árvore não é notável se toda a floresta sobe à mesma altura.

2. A poesia está repleta de declarações desse tipo, assim como a história. Por esta razão, eu não quero que pense que essas expressões pertençam a Epicuro. Elas são propriedade comum e enfaticamente nossas[1]. São, no entanto, mais notáveis em Epicuro, porque aparecem em intervalos infrequentes e quando se não espera por elas, e porque é surpreendente que palavras valentes possam ser faladas a qualquer momento por um homem afeminado. Pois é isso que a maioria das pessoas sustenta. Na minha opinião, no entanto, Epicuro é realmente um homem corajoso, mesmo que use vestes compridas. Força moral, energia e prontidão para a batalha são encontradas entre os persas[2], tanto quanto entre os homens que zombam de si mesmos.

3. Portanto, você não precisa recorrer a trechos e citações; pensamentos que se podem extrair aqui e ali nas obras de outros filósofos percorrem todo o corpo de nossos escritos. Portanto, não temos bens de mostruário, nem enganamos o comprador de tal maneira que, se ele entrar na nossa loja, não encontrará nada, exceto o que é exibido na janela. Nós permitimos que os próprios compradores retirem suas amostras de qualquer lugar que desejem.

4. Suponha que desejemos separar cada mote do estoque geral; a quem devemos dar-lhes crédito? A Zenão, Cleantes, Crisipo, Panécio ou Posidônio[3]? Nós estoicos não somos súditos de um déspota: cada um de nós reivindica sua própria liberdade. Com eles[4], por outro lado, o que Hermarco diz ou Metrodoro diz, é atribuído a uma única fonte. Naquela fraternidade, tudo o que qualquer homem diz é creditado a liderança e autoridade de um só[5]. Nós não podemos, eu defendo, não importa como, selecionar um item bom de uma multidão de coisas igualmente boas.

Só o pobre conta o seu rebanho. Pauperis est numerare pecus.[6]

Onde quer que você dirija seu olhar, você encontrará algo que pode se destacar do resto, se o contexto em que o lê não for igualmente notável.

5. Por esta razão, desista de acreditar que possa desnatar, por meio de resumos, a sabedoria de homens ilustres. Olhe para a sua sabedoria como um todo; estude-a como um todo. Ela elabora um plano coesamente tecido, linha a linha, uma obra-prima, da qual nada pode ser tirado sem ferir o todo. Examine as partes separadas, se quiser, desde que você as examine como partes do próprio homem. Uma bela mulher não é aquela cujo tornozelo ou braço é elogiado, mas cuja aparência geral faz você esquecer de admirar atributos únicos.

6. Se você insistir, no entanto, não serei mesquinho com você, mas pródigo; pois há uma enorme multidão dessas passagens; elas estão espalhadas em profusão, – elas não precisam ser arrebanhadas, mas apenas colhidas. Elas não gotejam ocasionalmente; elas fluem continuamente. Elas são ininterruptas e estão intimamente ligadas. Sem dúvida, seria muito benéfico para aqueles que ainda são principiantes; pois um axioma único é compreendido mais facilmente quando é marcado e delimitado como uma linha de verso.

7. É por isso que damos aos filhos um provérbio, ou o que os gregos chamam Chreia[7], para ser aprendido de cor, pois esse tipo de coisa pode ser compreendido pela mente jovem, que ainda não totalmente capaz. Para um homem, no entanto, cujo progresso é definitivo, perseguir os extratos escolhidos e escorar sua fraqueza pelos ditos mais conhecidos e mais breves e depender de sua memória, é vergonhoso; é hora de se apoiar em si mesmo. Um homem deveria criar tais máximas e não as memorizar. Pois é vergonhoso até para um ancião, ou alguém que tenha avistado a velhice, ter um conhecimento de livro de anotações. – Foi o que Zenão disse. Mas o que você mesmo disse? Esta é a opinião de Cleantes. Mas qual é a sua opinião? Por quanto tempo marchará sob as ordens de outro homem? Tome o comando, e proferira alguma palavra que a posteridade possa se lembrar. Coloque algo de seu próprio estoque.

8. Por isso, considero que não há nada de eminência em homens como estes, que nunca criam nada, mas sempre se escondem à sombra dos outros, desempenhando o papel de intérpretes, nunca ousando pôr em prática o que eles tanto estudam. Eles exercitam suas lembranças no material de outros homens. Mas uma coisa é lembrar, outra, saber. Lembrar é meramente salvaguardar algo confiado à memória; saber, no entanto, significa fazer tudo você mesmo; significa não depender da cópia e não precisar lançar o olhar todo o tempo para o mestre.

9. “Assim disse Zenão, assim disse Cleantes, de fato!” Que haja uma diferença entre você e seu livro! Quanto tempo você deve ser um aprendiz? De agora em diante, seja professor também! “Mas por que”, pergunta-se, “eu deveria continuar ouvindo palestras sobre o que eu posso ler?” “A voz viva”, responde o mestre, “é uma grande ajuda”. Talvez, mas não a voz que apenas se faz o porta-voz das palavras de outra pessoa, e só executa o dever de um repórter.

10. Considere também este fato. Aqueles que nunca alcançaram a sua independência mental começam, em primeiro lugar, seguindo o líder nos casos em que todos abandonaram o líder; depois, em segundo lugar, seguem-no em assuntos onde a verdade ainda está sendo investigada. No entanto, a verdade nunca será descoberta se descansarmos satisfeitos com as descobertas já feitas. Além disso, aquele que segue o outro não só não descobre nada, mas nem sequer está investigando.

11. O que então? Não seguirei os passos de meus predecessores? Devo realmente usar a estrada velha, mas se encontrar um atalho que seja mais suave para viajar, devo abrir a nova estrada[8]. Os homens que fizeram essas descobertas antes de nós não são nossos mestres, mas nossos guias. A verdade está aberta para todos; ainda não foi monopolizada. E ainda há muito dela para a posteridade descobrir.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

 

[1] Tanto estoica como epicurista.

[2] Que usavam mangas compridas.

[3] Zenão. . . Posidônio: os estoicos são citados por ordem de sucessão: primeiro os três chefes da escola, então os estoicos que trouxeram o conhecimento para Roma, Panécio e Posidônio, contemporâneo de Pompeu e Cicero. Embora Sêneca classifique Posidônio com os mestres, ele não mostrará um interesse próximo na ética ou antropologia de Posidônio até a letra LXXXIII, quando ele claramente começou a lê-lo como um estímulo para argumentação.

[4] Os epicuristas.

[5] Creditado a um homem: isto é, Epicuro, que se apropriou das sábias palavras de seus seguidores.

[6] Trecho de Metamorfose de Ovídio.

[7] Chreia, uma forma de educação gramatical consistida em fazer os alunos tomarem um axioma de um sábio escolhido e reformulá-lo em diferentes padrões sintáticos.

[8] Sêneca não se compara a um caminhante, mas a um construtor de estrada (o verbo é munire, construir uma estrada), que, portanto, criará caminhos para que os outros usem depois dele.

Carta 32: Sobre progresso

A carta 32 é curta mas seu ensinamento é profundo e simples.
Sêneca nos pede para continuar no curso do progresso e não desviar para modismos, novos começos ou para atividades menos importantes.

Lembra que para as coisas realmente importantes não temos um prazo determinado por terceiros e nos enganamos achando que temos muito tempo sobrando, o desperdiçamos e acabamos por não realizar aquilo que importa.

Nós dividimos a vida em pequenos pedaços, e a desperdiçamos. Apresse-se adiante, então, querido Lucílio, e reflita o quanto aceleraria sua velocidade se um inimigo estivesse nas suas costas, ou se suspeitasse que a cavalaria estivesse se aproximando e pressionando fortemente em seus passos durante uma fuga.” (XXXII, 2-3)

Então pensemos na celebre frase do compositor Duke Ellington: “Não preciso de tempo, preciso de um prazo limite“.

(Imagem:  O Juramento dos Horácios por Jacques-Louis David)


 

XXXII. Sobre progresso

Saudações de Sêneca a Lucílio.  

  1. Eu tenho perguntado sobre você, e perguntando a todos que vem da sua parte do país, o que você está fazendo, e onde está gastando seu tempo, e com quem. Você não pode me enganar; porque eu estou acompanhando. Viva como se tivesse certeza de que receberei notícias de suas ações, ou melhor, como se tivesse certeza de que eu as vejo. E se você se perguntar o que particularmente me agrada do que eu ouço, é que eu não ouço nada, que a maioria daqueles que eu pergunto não sabem o que você está fazendo.
  2. Esta é uma boa prática – abster-se de associar-se a homens de outra estampa e de outros objetivos. E estou realmente confiante de que você não pode ser corrompido, que você vai manter o seu propósito, mesmo que a multidão o cerque e procure distraí-lo. O que, então, está em minha mente? Não tenho medo de que o alterem; mas tenho medo de que possam retardar seu progresso. E muito mal é feito por quem te atrasa, especialmente porque a vida é tão curta; e a tornamos ainda mais curta por nossa instabilidade, por fazer sempre novos começos na vida, agora um e depois imediatamente outro. Nós dividimos a vida em pequenos pedaços, e a desperdiçamos.
  3. Apresse-se adiante, então, querido Lucílio, e reflita o quanto aceleraria sua velocidade se um inimigo estivesse nas suas costas, ou se suspeitasse que a cavalaria estivesse se aproximando e pressionando fortemente em seus passos durante uma fuga. É verdade; O inimigo está realmente pressionando você; você deve aumentar a sua velocidade e fugir e chegar a uma posição segura, lembrando-se continuamente que é nobre completar sua vida antes da morte chegar, e então esperar em paz o quinhão restante do seu tempo, não reivindicando nada para si mesmo, uma vez que você já está em posse de uma vida feliz; pois tal vida não se torna mais feliz por ser mais longa.
  4. Oh, quando será que saberá que o tempo não significa nada para você, quando está calmo e sereno, despreocupado com o amanhã, porque está a gozar a sua vida ao máximo? Você sabe o que torna os homens gananciosos pelo futuro? É que ninguém se encontrou ainda. Seus pais, com certeza, pediram outras bênçãos para você; mas eu mesmo rezo mais para que possa desprezar todas as coisas que os seus pais desejaram para você em abundância. Suas orações saqueiam muitas outras pessoas, simplesmente para que você possa ser enriquecido. Tudo o que eles pedem para você precisará ser removido de outra pessoa.
  5. Eu oro para que você possa ter tal controle sobre si mesmo que sua mente, agora abalada por pensamentos errantes, possa finalmente descansar e ser firme, para que ela possa estar contente com ela mesma e, alcançar uma compreensão do que seja verdadeiramente bom, – e isso estará em nossa posse tão logo tenhamos este conhecimento, – que não há necessidade de anos adicionais. Aquele que finalmente superou todas suas necessidades, aquele que atingiu sua dispensa honrosa e é livre, aquele ainda viverá depois que sua vida foi concluída.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.