Carta 44: Sobre Filosofia e Pedigrees

Hoje O Estoico está completando um ano de existência e comemoramos com uma das melhores cartas de Sêneca.

A carta é bastante significativa para os dias atuais onde é comum reclamar dos “privilégios” dos outros e fazer-se de vítima, ou seja, assim como Lucílio já fazia há 2000 anos.

A resposta de Sêneca é excelente, e contem duas partes:

1. que todos somos iguais: 

A filosofia não rejeita nem escolhe ninguém; sua luz brilha para todos. Sócrates não era aristocrata. Cleantes trabalhou em um poço e serviu como um homem contratado regando um jardim. A filosofia não achou Platão já um nobre; ela o fez um.  Por que então você deve temer ser capaz de se comparar a homens como estes? ” (XLIV, 3)

2.  que procuramos a felicidade em lugar errado, ou seja, nos bens materiais:

Onde, então, está o erro, uma vez que todos os homens anseiam à vida feliz? É que eles consideram os meios para produzir a felicidade como a felicidade em si, e, enquanto procuram a felicidade, eles estão realmente fugindo dela.” (XLIV, 7)

(Imagem: Morte de Sócrates por  Jacques-Louis David)


XLIV. Sobre Filosofia e Pedigrees

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você está insistindo de novo que é um ninguém, e dizendo que a natureza em primeiro lugar, e a Fortuna no segundo, o trataram muito injustamente, e isso apesar de você ter em seu alcance o poder de separar-se da multidão e ascender-se para a mais alta felicidade humana! Se há algum bem em filosofia, é isto, – que nunca olha em pedigrees. Todos os homens, se rastreados à sua fonte original, brotam dos deuses.
  2. Você é um cavaleiro romano, e seu trabalho persistente o promoveu a esta classe; contudo certamente há muitos a quem as quatorze fileiras[1] são barradas; a Câmara do Senado não está aberta a todos; o exército, também, é escrupuloso na escolha dos que admite alistar. Mas uma mente nobre é livre para todos os homens; de acordo com este teste, todos nós podemos ganhar distinção. A filosofia não rejeita nem escolhe ninguém; sua luz brilha para todos.
  3. Sócrates não era aristocrata. Cleantes trabalhou em um poço e serviu como um homem contratado regando um jardim. A filosofia não achou Platão já um nobre; ela o fez um. Por que então você deve temer ser capaz de se comparar a homens como estes? Eles são todos os seus ancestrais, se você se comportar de maneira digna; e você fará isso se você se convencer, desde o princípio, de que nenhum homem lhe supera em verdadeira nobreza.
  4. Todos temos o mesmo número de antepassados; não há homem cujo primeiro começo não fuja da memória. Platão diz: “Todo o rei nasce de uma raça de escravos, e todo escravo tem reis entre seus antepassados”. O passar do tempo, com suas vicissitudes, tem misturado todas essas posições sociais, e a Fortuna as virado de cabeça para baixo.
  5. Então, quem é bem-nascido? Aquele que por natureza é bem adaptado à virtude. Esse é o único ponto a ser considerado; caso contrário, se você voltar para a antiguidade, cada um remonta a uma data antes da qual não há nada. Desde os primórdios do universo até o presente, fomos conduzidos a frente de origens que eram alternadamente ilustres e ignóbeis. Um salão cheio de bustos manchados não faz o nobre. Nenhuma vida passada foi vivida para nos emprestar a glória, e aquilo que existiu antes de nós não é nosso; só a alma nos torna nobres, e pode se elevar acima da fortuna, escapando de qualquer circunstância anterior, não importa qual seja essa circunstância.
  6. Suponha, então, que você não fosse um Cavaleiro Romano, mas um escravo liberto, você poderia, no entanto, por seus próprios esforços vir a ser o único homem livre entre uma multidão de cavalheiros. “Como?”, você pergunta. Simplesmente distinguindo entre coisas boas e ruins sem usar a opinião da multidão. Você deve olhar, não para a fonte de onde essas coisas vêm, mas para o objetivo para o qual elas tendem. Se há algo que pode fazer a vida feliz, ele é bom em seus próprios méritos; pois não pode degenerar em mal.
  7. Onde, então, está o erro, uma vez que todos os homens anseiam à vida feliz? É que eles consideram os meios para produzir a felicidade como a felicidade em si, e, enquanto procuram a felicidade, eles estão realmente fugindo dela. Pois, embora o resumo e a substância da vida feliz seja a liberdade pura, e embora o segredo de tal liberdade seja a convicção inabalável, contudo os homens acumulam o que causa preocupação e, enquanto viajam o caminho traiçoeiro da vida, não só têm fardos para carregar, mas atraem mais fardos para si mesmos; Portanto, eles se afastam cada vez mais da realização daquilo que buscam, e quanto mais esforço eles empenham, mais eles se atrapalham e recuam. Isto é o que acontece quando você se apressa através de um labirinto; quão mais rápido você vai, pior é o emaranhado.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Referencia a regra de assento no Coliseu – O primeiro nível, Podium, era reservado aos mais importantes romanos – o Imperador e as Virgens Vestais e membros do senado. O 2º Nível – Maenianum primum: era reservado para a classe nobre não-senatorial chamada de Cavaleiros ou Equites, consistindo de quatorze filas de assentos em mármore.

Carta 37: Sobre a lealdade à virtude

Na carta 37 Sêneca procura persuadir o leitor a perseverar no estudo da filosofia com um efeito emocional, comparando o discípulo a um soldado que se alista voluntariamente.
Lucílio deve se enxergar como um soldado lutando contra as paixões pela liberdade.  Como filósofo, Lucílio se alistou não apenas para enfrentar a morte, mas para fazê-lo de boa vontade e com prazer, sem esperança de remissão:

O gladiador pode abaixar sua arma e testar a piedade do povo; mas você não abaixará a sua arma nem suplicará pela vida. Você deve morrer ereto e inflexível. Além disso, que lucro é ganhar alguns dias ou alguns anos? Não há absolvição para nós desde o momento em que nascemos.“(XXXVII, 2)

Sêneca conclui a carta afirmando que a sabedoria e razão é o caminho para liberdade e felicidade:

coloque-se sob o controle da razão; se a razão se tornar sua governante, você se tornará governador de muitos.” (XXXVII, 4)
É vergonhoso, em vez de seguir em frente, ser levado e, de repente, em meio ao redemoinho dos acontecimentos, perguntar de forma aturdida: ‘Como é que eu entrei nessa situação?'”.(XXXVII, 5)

(imagem: Pollice Verso (polegar para baixo) – por Jean-Léon Gérôme )


XXXVII. Sobre a lealdade à virtude

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1.  Você prometeu ser um homem bom; você se alistou sob juramento; esta é a corrente mais forte que irá mantê-lo no bom discernimento. Qualquer homem estará zombando de você, se declarar que este é um tipo de alistamento afeminado e fácil. Eu não vou lhe enganar. A palavra deste pacto mais honroso é a mesma que as palavras daquele mais vergonhoso, a saber: “Por tortura, prisão ou morte pela espada[1]“.

2. Dos homens que vendem suas forças na arena, que comem e bebem o que devem pagar com seu sangue, é certo que suportarão tais provações mesmo que relutantemente; de você, que as suporte voluntariamente e com empenho. O gladiador pode abaixar sua arma e testar a piedade do povo; mas você não abaixará a sua arma nem suplicará pela vida. Você deve morrer ereto e inflexível. Além disso, que lucro é ganhar alguns dias ou alguns anos? Não há absolvição para nós desde o momento em que nascemos.

3. “Então, como posso me libertar?” Você pergunta. Você não pode fugir das necessidades, mas pode superá-las:

pela força um caminho é aberto. Fit via vi. [2]
    E esta maneira lhe será dada pela filosofia. Recorra, portanto, da filosofia, se quiser estar seguro, tranquilo, feliz, se quiser ser – e isso é mais importante, – livre. Não há outra maneira de atingir esse fim.

4. A estupidez[3] é baixa, abjeta, má, servil e exposta a muitas das paixões mais cruéis. Essas paixões, que são capatazes severos, às vezes governam em turnos, e às vezes juntos, podem ser banidos de você pela sabedoria, que é a única liberdade real. Há apenas um caminho que leva para lá, e é um caminho reto; você não se extraviará. Prossiga com passo firme, e se você tiver todas as coisas sob seu controle, coloque-se sob o controle da razão; se a razão se tornar sua governante, você se tornará governador de muitos. Você aprenderá com ela o que deve empreender e como deve ser feito; você não vai errar nas coisas.

5. Você não pode me mostrar nenhum homem que saiba como ele começou a desejar o que ele deseja. Ele não foi levado a esse passo por premeditação; ele foi dirigido por impulso. A fortuna nos ataca quantas vezes atacarmos a Fortuna. É vergonhoso, em vez de seguir em frente, ser levado e, de repente, em meio ao redemoinho dos acontecimentos, perguntar de forma aturdida: “Como é que eu entrei nessa situação?”.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Sêneca se refere ao famoso juramento que o gladiador tomava quando em contrato com o mestre de luta; Uri, vinciri, verberari ferroque necari patior; O juramento é abreviado no texto, provavelmente pelo próprio Sêneca, que o parafraseia na carta LXXI.

[2] Trecho de Eneida de Virgílio.

[3] Na linguagem do estoicismo, a estupidez, “stultitia“, é a antítese da “sapientia”, sabedoria.

Vídeo: Na lavoura da minha vida

Na lavoura da minha vida

Recebi de um seguidor da página o vídeo abaixo. Infelizmente não sei a autoria.

é um excelente resumo do estoicismo:

 

tive que aprender
que só podia colher
daquilo que plantei;

que eu perceba sim,
que aquilo que vem pra mim
é porque fui lá buscar;

Que nunca tenha inveja
da riqueza de ninguém
Se um dia eu ficar rico,
que perceba também
que granfino ou da ralé
agente é aquilo que é
e não aquilo que tem;

aquilo que tem valor
dinheiro não vai comprar
consciência, atitude,
estória para se contar;

o resto é tudo passageiro
e no dia derradeiro
ninguém consegue levar;

ter na conta honestidade
é nossa maior riqueza

Carta 36: Sobre o Valor da Aposentadoria

Na carta 36 Sêneca discute as vantagens de ser afastar dos negócios e da vida pública, para o que chama de “Otium” um termo abstrato em latim,  que tem uma variedade de significados, incluindo o tempo de lazer em que uma pessoa pode gastar para comer, brincar, descansar, contemplação e esforços acadêmicos.

Estabelece uma antítese no início da carta entre o sucesso popular (felicitas), que seria sucesso na carreira pública, e uma vida de aposentadoria (otium) sendo a segunda a vida ideal . O sucesso popular é instável, já que está sob controle da Fortuna. Além disso, seu efeito sobre aqueles que o recebem não é saudável:

“A prosperidade é uma coisa turbulenta; ela atormenta. Ela agita o cérebro em mais de um sentido, incitando os homens a vários objetivos, alguns para o poder, e outros para a vida luxuosa. Alguns ela enche de orgulho; outros afrouxa e debilita totalmente.” (XXXVI.1)

A escolha entre a vida pública e a aposentadoria(retiro) foi um tema importante para os filósofos antigos, sobre o qual Sêneca escreveu com a experiência de ambos os estilos de vida. É um tópico que ele apresenta em vários de seus diálogos e cartas, inclusive na Carta VIII, já comentada no site.

A aposentadoria está intimamente ligada ao verdadeiro sucesso de Sêneca. Teoricamente, o estado interno de “vida feliz”  é possível, independentemente das circunstâncias externas. Na prática, no entanto, o retiro é uma grande ajuda para o progresso filosófico devido a distância da influência prejudicial da multidão.

Para Sêneca, A Vida Feliz consiste em duas qualidades: Tranquilidade da Mente e Liberdade do Medo (securitas et perpetua tranquillitas).A aposentadoria é uma grande ajuda para alcançar a tranquilidade da mente. A liberdade do medo é alcançada com a aceitação da morte, tema da segunda metade da carta.

A partir do parágrafo 8 Sêneca oferece uma perspectiva científica sobre a morte:

“A o que, então, esse amigo seu dedicará sua atenção? Eu digo, que aprenda o que é útil contra todas as armas, contra todo tipo de inimigo, – o desprezo pela morte;” (XXXVI.8)

Nos parágrafos 10-11, Sêneca convida o leitor a ver nos ciclos cósmicos da natureza uma segurança para encarar a morte calmamente.

“Uma vez que você está destinado a retornar, você deve partir com uma mente tranquila. Perceba como o percurso do universo repete seu curso; você verá que nenhuma estrela em nosso firmamento é extinguida, mas que todas elas surgem e se erguem em alternância. O verão foi embora, mas outro ano o trará de novo;” (XXXVI.11)

No  livro “Das Questões Naturais“, Sêneca coloca o estudo da natureza em um plano superior ao de outros ramos da filosofia: Estudar ciências seria o estudo de Deus já os outros temas seria o estudo dos humanos.

Conclui a carta com uma analogia forte, mostrando que não é racional temer a morte:

“os jovens e os que ficaram loucos, não têm medo da morte, e é muito vergonhoso se a razão não pode nos dar essa paz de espírito que é trazida pela loucura.”(XXXVI.12)

(imagem:  Alegoria da Fortuna, por Salvator Rosa)

 


XXXVI. Sobre o Valor da Aposentadoria

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Incentive seu amigo a desprezar corajosamente aqueles que o censuram porque ele procurou a sombra da aposentadoria e abdicou de sua carreira de honras, e, embora pudesse ter alcançado mais, preferiu a tranquilidade. Deixe-o provar diariamente a estes detratores como sabiamente ele defendeu seus próprios interesses. Aqueles que são invejados pelos homens passam ao largo; alguns serão empurrados para fora de sua posição social, e outros cairão. A prosperidade é uma coisa turbulenta; ela atormenta. Ela agita o cérebro em mais de um sentido, incitando os homens a vários objetivos, alguns para o poder, e outros para a vida luxuosa. Alguns ela enche de orgulho; outros afrouxa e debilita totalmente.
  2. “Mas”, diz a réplica, “Fulano conduz bem a sua prosperidade”. Sim; assim como ele controla sua bebida. Então você precisa não deixar que essa classe de homens o persuada que aquele que é sitiado pela multidão é feliz; a multidão corre para ele como correm para uma lagoa de água, tornando-a lamacenta enquanto a drenam. Mas você diz: “Os homens chamam nosso amigo de insignificante e preguiçoso“. Há homens, você sabe, cujo discurso é oblíquo, que usam termos contraditórios. Eles o chamavam de feliz; e daí? Ele era feliz?
  3. Mesmo o fato de que a algumas pessoas ele se pareça a um homem de mente muito áspera e sombria, não me incomoda. Aristo[2] costumava dizer que preferia um jovem sisudo a um homem jovial e agradável à multidão. “Pois“, acrescentava, “vinho que, quando novo, parecia áspero e azedo, torna-se bom vinho, mas o que provou bem na vindima pode não suportar a idade.” Então, que eles o chamem de severo e inimigo de seu próprio progresso, é essa severidade que irá bem quando envelhecer, desde que continue a apreciar a virtude e a absorver completamente os estudos que faz para a cultura – não aqueles suficientes para que um homem se borrife, mas aqueles em que a mente deve ser mergulhada.
  4. Agora é a hora de aprender. “O que? Há alguma época em que um homem não deva aprender?” De jeito nenhum; mas assim como é meritório para todas as idades estudar, não é meritório para todas as idades ser instruído. Um homem velho que aprende seu ABC é uma coisa vergonhosa e absurda; o jovem deve armazenar, o velho deve usar. Você, portanto, estará fazendo uma coisa mais útil para si mesmo se você fizer este amigo seu um homem tão bom quanto possível; essas bondades, dizem eles, devem ser buscadas e concedidas, pois beneficiam ao doador não menos que ao receptor; e elas são, sem dúvida, as melhores.
  5. Finalmente, não tem mais nenhuma liberdade no assunto, aquele que empenhou sua palavra. E é menos vergonhoso renegociar com um credor do que renegociar com um futuro promissor. Para pagar sua dívida de dinheiro, o homem de negócios deve ter uma viagem lucrativa, o agricultor deve ter campos frutíferos e bom tempo, mas a dívida que seu amigo deve pode ser completamente paga por mera boa vontade.
  6. A fortuna não tem jurisdição sobre o caráter. Permita regular seu caráter de modo que em perfeita paz possa trazer à perfeição aquele espírito que não sente perda nem ganho, mas que permanece na mesma atitude, não importa como as coisas se dão. Um espírito como este, se agraciado com bens mundanos, se eleva à sua riqueza; se, por outro lado, o acaso o despoja de uma parte de sua riqueza, ou mesmo de tudo, não é prejudicado.
  7. Se seu amigo tivesse nascido no Império Parta, ele teria começado, quando criança, a dobrar o arco; se na Alemanha, estaria brandindo a sua esguia lança; se ele tivesse nascido nos dias de nossos antepassados, ele teria aprendido a montar um cavalo e a castigar seu inimigo mão a mão. Estas são as ocupações que o sistema de cada estirpe recomenda ao indivíduo, – sim, prescreve a ele.
  8. A o que, então, esse amigo seu dedicará sua atenção? Eu digo, que aprenda o que é útil contra todas as armas, contra todo tipo de inimigo, – o desprezo pela morte; porque ninguém duvida que a morte tenha em si algo que inspire o terror, de modo que choca até mesmo nossas almas, que a natureza as moldou para que amem sua própria existência; pois de outro modo não haveria necessidade de nos preparar, e de aguçar nossa coragem, para encarar o que deveria ser uma espécie de instinto voluntário, precisamente da mesma forma como todos os homens tendem a preservar sua existência.
  9. Nenhum homem aprende uma coisa a fim de que, se a necessidade surgir, ele possa se deitar sobre um leito de rosas; mas ele prepara sua coragem para este fim, para que não entregue sua fé à tortura, e que, se necessário, possa algum dia ficar de guarda nas trincheiras, mesmo ferido, sem se apoiar na sua lança; porque o sono é capaz de rastejar sobre os homens que se sustentam por qualquer suporte. Na morte não há nada prejudicial; pois deve existir algo a que ela é prejudicial[3].
  10. E ainda, se você está possuído por tão grande desejo de uma vida mais longa, reflita que nenhum dos objetos que desaparecem do nosso olhar e são reabsorvidos no mundo das coisas, de onde eles surgem e em breve irão ressurgir, é aniquilado; eles simplesmente terminam o seu curso e não perecem. E a morte, de que tememos e nos afastamos, simplesmente interrompe a vida, mas não a rouba; o tempo voltará quando seremos restaurados à luz do dia; e muitos homens opor-se-iam a isso, se não fossem trazidos de volta tendo esquecido o passado.
  11. Mas quero mostrar-lhe mais tarde, com mais cuidado, que tudo o que parece perecer apenas muda. Uma vez que você está destinado a retornar, você deve partir com uma mente tranquila. Perceba como o percurso do universo repete seu curso; você verá que nenhuma estrela em nosso firmamento é extinguida, mas que todas elas surgem e se erguem em alternância. O verão foi embora, mas outro ano o trará de novo; O inverno está baixo, mas será restaurado por seus próprios meses; A noite dominou o sol, mas o dia logo derrubará a noite outra vez. As estrelas nômadas retraçam seus cursos anteriores; uma parte do céu está em ascensão incessantemente, e uma parte está afundando.
  12. Uma palavra mais, e então vou parar; os meninos, os jovens e os que ficaram loucos, não têm medo da morte, e é muito vergonhoso se a razão não pode nos dar essa paz de espírito que é trazida pela loucura.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[2] Aríston ou Aristo de Quios foi um filósofo estoico e discípulo de Zenão de Cítio. Esboçou um sistema de filosofia estoica que esteve, em muitos aspectos, mais próximo da anterior filosofia cínica. Rejeitou o lado lógico e físico da filosofia aprovada por Zenão e enfatizou a ética.

[3] Como depois da morte, nós não existimos, a morte não pode ser prejudicial para nós. Sêneca tem em mente o argumento de Epicuro: “Portanto, o mais pavoroso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois quando nós existimos, a morte não está presente para nós, e quando a morte está presente, então não existimos. Portanto, não diz respeito aos vivos ou aos mortos, pois para os vivos não tem existência, e para os mortos não existe. “

Carta 29: Sobre evitar ajudar os não interessados

Na carta 29 Sêneca nos ensina que não devemos tentar ajudar aqueles que não pediram ajuda ou os que não se interessam por nossos ensinamentos: “não se deve falar com um homem a menos que ele esteja disposto a ouvir.” (XXIX, 1)

Segundo Sêneca, quando distribuímos nossa ajuda indiscriminadamente esta é diluída e enfraquecida: “O arqueiro não deve atingir ao alvo apenas às vezes; ele deve errar apenas às vezes. Aquilo que é eficaz por acaso não é uma arte. Ora, a sabedoria é uma arte; ela deve ter um objetivo definido, escolhendo apenas aqueles que farão progresso, mas se afastando daqueles a quem considera incorrigíveis, mas não os abandonando prematuramente, e apenas quando o caso se mostra sem solução mesmo após tentado remédios drásticos.“(XXIX, 3)

Conclui a carta com mais uma frase de Epicuro: “Eu nunca quis atender à multidão, pois o que eu sei, eles não aprovam, e o que eles aprovam, eu não sei.”(XXIX, 10)

(Imagem Platão e Aristóteles em “Escola de Atenas” por Raphael)


Carta XXIX: Sobre evitar ajudar os não interessados

Saudações de Sêneca a Lucílio.  

  1. Você tem perguntado sobre o nosso amigo Marcelino e você deseja saber como ele está se dando. Ele raramente vem me ver, por nenhuma outra razão senão que ele tem medo de ouvir a verdade, e no momento está se mantendo afastado do perigo de ouvi-la; pois não se deve falar com um homem a menos que ele esteja disposto a ouvir. É por isso que muitas vezes se questiona se Diógenes[1] e os outros cínicos, que empregavam uma liberdade de expressão sem discernimento e ofereciam conselhos a qualquer um que se interpusesse, deveriam ter seguido esse caminho.
  2. Por que se deve reprimir os surdos ou aqueles que são mudos de nascimento ou por doença? Mas você responde: “Por que eu deveria poupar palavras? Elas não custam nada. Eu não posso saber se irei ajudar o homem a quem dou conselhos, mas sei bem que vou ajudar alguém se eu aconselhar muitos. Eu tenho que disseminar este conselho a mão-cheia. É impossível que alguém que tente muitas vezes não tenha sucesso alguma vez.”
  3. Esta prática, meu caro Lucílio, é, creio eu, exatamente o que um homem de grande alma não deve fazer; sua influência está enfraquecida; ela tem muito pouco efeito sobre aqueles que poderia ajudar se não tivesse se tornado tão rançosa. O arqueiro não deve atingir ao alvo apenas às vezes; ele deve errar apenas às vezes. Aquilo que é eficaz por acaso não é uma arte. Ora, a sabedoria é uma arte; ela deve ter um objetivo definido, escolhendo apenas aqueles que farão progresso, mas se afastando daqueles a quem considera incorrigível, mas não os abandonando prematuramente, e apenas quando o caso se mostra sem solução mesmo após tentado remédios drásticos.
  4. Quanto ao nosso amigo Marcelino, ainda não perdi a esperança. Ele ainda pode ser salvo, mas a ajuda deve ser oferecida em breve. Há realmente o risco que possa prejudicar seu ajudante; pois há nele um caráter inato de grande vigor, embora inclinado à maldade. No entanto, enfrentarei esse perigo e serei corajoso o suficiente para lhe mostrar suas falhas.
  5. Ele agirá de acordo com sua maneira usual; ele recorrerá à sua inteligência, – a inteligência que pode gerar sorrisos mesmo de lamentos. Ele vai virar a brincadeira, primeiro contra si mesmo, e depois contra mim. Ele evitará todas as palavras que eu vou dizer. Ele questionará nossos sistemas filosóficos; ele acusará os filósofos de aceitar propinas, manter amantes e satisfazer seus apetites. Ele me mostrará um filósofo que foi apanhado em adultério, outro que assombra os cafés e outro que aparece na corte.
  6. Ele vai trazer a meu conhecimento Aristo, o filósofo de Marcus Lépido, que costumava manter discussões em sua carruagem; pois esse foi o tempo que ele levou para editar suas pesquisas, de modo que Escauro disse dele quando lhe perguntaram a que escola pertencia: “De qualquer modo, ele não é um dos filósofos caminhantes[2]“. Júlio Graecino também, homem de distinção, quando lhe pediu uma opinião sobre o mesmo ponto, respondeu: “Não posso lhe dizer, porque não sei o que ele faz quando desmontado”, como se a consulta se referisse a um gladiador de biga.
  7. São charlatões desse tipo, para quem seria mais meritório ter deixado a filosofia sozinha ao invés de traficar dela, que Marcelino vai jogar em meu rosto. Mas decidi resistir às provocações; ele pode me ridicularizar, mas eu talvez o leve às lágrimas; ou, se ele persistir em suas piadas, eu me alegrarei, por assim dizer, no meio da tristeza, porque ele é abençoado com uma espécie tão alegre de loucura. Mas esse tipo de alegria não dura muito. Observe esses homens, e você vai notar que em um curto espaço de tempo eles riem em excesso e encolerizam-se em excesso.
  8. É meu plano aproximar e mostrar-lhe quanto maior é seu valor quando muitos o desprezam. Mesmo que eu não extinga seus defeitos, vou pôr um controle sobre eles; eles não cessarão, mas pararão por um tempo; e talvez até cessem, se criarem o hábito de parar. Esta é uma coisa a não ser desprezada, uma vez que para homens seriamente feridos a bênção de um alívio é um substituto para a saúde.
  9. Então, enquanto me preparo para tratar com Marcelino, você, que é capaz, e que entende de onde e para onde vai seu caminho, e que, por essa razão tem uma ideia da distância a percorrer, ajuste seu caráter, desperte sua coragem, e fique firme em face das coisas que o tem aterrorizado. Não conte o número daqueles que inspiram medo em você. Você não consideraria como um tolo quem tem medo de uma multidão em um lugar onde pode passar só um por vez? Da mesma forma, não há muitos que têm possibilidade de matar você, embora haja muitos que ameaçam você com a morte. A natureza ordenou assim que, como somente um lhe deu vida, assim somente um a retirará.
  10. Se você tivesse alguma vergonha, você teria me liberado de pagar a última parcela. Ainda assim, também não serei sovina, mas irei exonerar minhas dívidas até o último centavo e forçar sobre você o que ainda devo: “Eu nunca quis atender à multidão, pois o que eu sei, eles não aprovam, e o que eles aprovam, eu não sei.”
  11. “Quem disse isso?” Você pergunta, como se fosse ignorante a quem eu estivesse insistindo em servir; é Epicuro. Mas esta mesma palavra de ordem soa em seus ouvidos por cada seita, – Peripatético, Académico[3], Estoico, Cínico. Pois quem é satisfeito pela virtude pode agradar à multidão? É preciso truques para ganhar aprovação popular; E tem de fazer-se semelhante a eles; eles vão recusar aprovação se eles não reconhecerem em você um de si próprios. No entanto, o que você pensa de si é muito mais do que o que os outros pensam de você. A benevolência dos homens ignóbeis só pode ser conquistada por meios ignóbeis.
  12. Qual será o benefício, então, daquela filosofia alardeada, cujos elogios cantamos e que, segundo se diz, deve ser preferida a toda arte e toda propriedade? Certamente, isso fará com que você prefira agradar a si mesmo ao invés da população, isso fará você ponderar, e não meramente contar, os julgamentos dos homens, vai fazer você viver sem medo de deuses ou homens, vai fazer você vencer males ou acabar eles. Caso contrário, se eu o vejo aplaudido pela aclamação popular, se a sua entrada na cena é saudada por um rugido de aplausos e aplausos, as marcas de distinção se valem apenas para atores, – se todo o estado, mesmo as mulheres e crianças, cantam seus louvores, como posso ajudar a apiedar-se de você? Pois eu sei a qual caminho leva a tal popularidade.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Diógenes de Sinope, também conhecido como Diógenes, o Cínico, foi um discípulo de Antístenes, antigo pupilo de Sócrates. Tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude; diz-se que teria vivido num grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por um homem honesto. O Cinismo foi uma corrente filosófica marcada por um ostensivo desprezo pelo conforto e prazer.

[2]Escola peripatética foi um círculo filosófico da Grécia Antiga que basicamente seguia os ensinamentos de Aristóteles, o fundador. Fundada em c.336 a.C., quando Aristóteles abriu a primeira escola filosófica no Liceu em Atenas, durou até o século IV. “Peripatético” (em grego clássico: περιπατητικός), é a palavra grega para ‘ambulante’ ou ‘itinerante’. Peripatéticos (ou ‘os que passeiam’) eram discípulos de Aristóteles,

[3]Academia de Platão (também chamada de Academia PlatônicaAcademia de Atenas ou Academia Antiga) é uma academia fundada por Platão, aproximadamente em 384/383 a.C..

Pensamento do Dia #31: A filosofia não achou Platão já um nobre; ela o fez um.

“A filosofia não rejeita nem escolhe ninguém; sua luz brilha para todos.

3. Sócrates não era aristocrata. Cleantes trabalhou em um poço e serviu como um homem contratado regando um jardim. A filosofia não achou Platão já um nobre; ela o fez um. Por que então você deve temer ser capaz de se comparar a homens como estes? Eles são todos os seus ancestrais, se você se comportar de maneira digna; e você fará isso se você se convencer, desde o princípio, de que nenhum homem lhe supera em verdadeira nobreza.

4. Todos temos o mesmo número de antepassados; não há homem cujo primeiro começo não fuja da memória. Platão diz: “Todo o rei nasce de uma raça de escravos, e todo escravo tem reis entre seus antepassados”. O passar do tempo, com suas vicissitudes, tem misturado todas essas posições sociais, e a fortuna as virado de cabeça para baixo.

5. Então, quem é bem-nascido? Aquele que por natureza é bem adaptado à virtude.” ( XLIV. 2-5)

Sêneca, Carta 44 – Sobre Filosofia e Pedigrees

(Imagem: Morte de Sócrates por  Jacques-Louis David)

 

Carta 27: Sobre o Bem que Permanece

Na carta 27 Sêneca fala dos problemas que prazeres passageiros causam e da incômoda culpa que deixam muito depois do prazer acabar.

“Afaste-se daqueles prazeres desordenados, que devem ser pagos regiamente, não são apenas os que estão para vir que me prejudicam, mas também aqueles que vieram e foram. Assim como os crimes, mesmo que não tenham sido detectados ao serem cometidos, não permitem que a ansiedade acabe com eles, da mesma forma são os prazeres mundanos, o arrependimento permanece mesmo depois que os prazeres terminaram. ” (XXVII.2)

Sempre atual, Sêneca fala do pouco valor dado a sabedoria: “Nenhum homem é capaz de emprestar ou comprar uma mente sã; na verdade, como me parece, mesmo que mentes sãs estivessem à venda, não encontrariam compradores. No entanto, as mentes depravadas são compradas e vendidas todos os dias.” (XXVII.8)

Conclui a carta com mais um dito de Epicuro: “A riqueza real é a pobreza ajustada à lei da natureza.” (XXVII.9)

(Imagem, Denário de prata de Metelo Cipião, exemplo de conduta estoica segundo Sêneca)


XXVII. Sobre o Bem que permanece

Saudações de Sêneca a Lucílio.  

  1. “O que?”, diz você, “Está me dando conselhos?” De fato, você já se aconselhou, já corrigiu suas próprias falhas? É esta a razão por que você tem tempo livre para reformar outros homens? Não, não sou desavergonhado ao ponto de pretender curar meus semelhantes quando estou doente. Estou, no entanto, discutindo com você problemas que afetam a nos dois, e compartilhando o remédio com você, como se estivéssemos padecendo no mesmo hospital. Ouça-me, portanto, como faria se eu estivesse falando sozinho. Eu estou confessando a você meus pensamentos mais íntimos, e estou discutindo comigo mesmo, usando-o apenas como pretexto.
  2. Eu continuo gritando para mim mesmo: “Conte seus anos, e você terá vergonha de desejar e perseguir as mesmas coisas que você desejou em seus dias de juventude. Certifique-se desta única coisa antes de morrer, – deixe suas falhas perecerem antes. Afaste-se daqueles prazeres desordenados, que devem ser pagos regiamente, não são apenas os que estão para vir que me prejudicam, mas também aqueles que vieram e foram. Assim como os crimes, mesmo que não tenham sido detectados ao serem cometidos, não permitem que a ansiedade acabe com eles, da mesma forma são os prazeres mundanos, o arrependimento permanece mesmo depois que os prazeres terminaram. Eles não são substanciais, eles não são confiáveis, mesmo se eles não nos prejudicam, eles são passageiros.
  3. Procure ao invés bens que permanecem. Mas não há tal bem, a não ser aquele descoberto pela alma por si mesma: só a virtude proporciona uma alegria eterna e tranquilizadora, mesmo que surja algum obstáculo, mas como uma nuvem passageira, que se interpõe frente ao sol, mas nunca prevalece contra ele. “
  4. Quando será sua vez de alcançar esta alegria? Até agora, você realmente não foi lerdo, mas você deve acelerar o seu ritmo. Resta muito trabalho; para enfrentá-lo, você deve usar todas suas horas de vigília, e todos seus esforços, se você deseja o resultado realizado. Este assunto não pode ser delegado a outra pessoa.
  5. O outro tipo de atividade intelectual admite assistência externa. Em nossa época havia um certo homem rico chamado Calvísio Sabino; ele tinha a conta bancária e o cérebro de um escravo liberto. Nunca vi um homem cuja boa fortuna tenha sido uma ofensa maior a sua propriedade. Sua memória era tão falha que ele às vezes esqueceria o nome de Ulisses, ou Aquiles, ou Príamo, nomes que conhecemos tão bem quanto conhecemos os de nossos próprios assistentes. Nenhum idoso senil, que não pode dar a homens seus nomes próprios, mas é compelido a inventar nomes para eles, – nenhum homem, eu digo, clama os nomes dos membros de sua tribo de forma tão atroz como Sabino costumava chamar os heróis de Troia e Aqueus. Mas, no entanto, ele desejava parecer erudito.
  6. Assim ele inventou este atalho para aprender: ele pagou preços fabulosos por escravos, – um para conhece Homero de cor e outro para Hesíodo; ele também delegou um escravo especial para cada um dos nove poetas líricos[1]. Você não precisa se admirar que ele tenha pago altos preços por esses escravos; se ele não os encontrava prontos à mão ele encomendava um a ser feito sob medida. Depois de recolher este séquito, ele começou a aborrecer seus convidados; Ele mantinha esses ajudantes ao pé de seu sofá, e pedia de vez em quando os versos para que ele os repetisse, que, muitas vezes, eram quebrados no meio de uma palavra.
  7. Satelio Quadrato, um instigador e, consequentemente, um puxa-saco de milionários fúteis, e também (pois esta qualidade vai com as outras duas) um zombador deles, sugeriu a Sabino que ele deveria ter filólogos para reunir os pedaços. Sabino observou que cada escravo havia lhe custado cem mil sestércios; Satelio respondeu: “Você poderia ter comprado tantas quantas estantes de livros por uma quantia menor.” Mas Sabino sustentou que o que qualquer membro de sua casa sabe, ele mesmo também sabe.
  8. Este mesmo Satelio começou a aconselhar Sabino a tomar lições de luta, mesmo doentio, pálido e magro como era, Sabino respondeu: “Como posso? Eu mal posso ficar vivo agora.” – “Não diga isso, eu lhe suplico” – replicou o outro -, “considere quantos escravos perfeitamente saudáveis você tem!” Nenhum homem é capaz de emprestar ou comprar uma mente sã; na verdade, como me parece, mesmo que mentes sãs estivessem à venda, não encontrariam compradores. No entanto, as mentes depravadas são compradas e vendidas todos os dias.
  9. Mas deixe-me pagar a minha dívida e dizer adeus: “A riqueza real é a pobreza ajustada à lei da natureza.” Epicuro repete este dizer de várias maneiras e contextos; mas nunca pode ser repetido em excesso, já que nunca é compreendido muito bem. Pois para algumas pessoas o remédio deve ser meramente prescrito; no caso de outras, deve ser forçado goela abaixo.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Troia e Aqueus: a Ilíada era a leitura de matéria-prima dos estudantes romanos de elite, mas Calvísio, nem conseguia lembrar seus heróis homéricos. (Os assistentes pessoais atendiam os políticos fornecendo os nomes de quem eles encontravam no fórum.) Hesíodo era muito favorecido por suas máximas morais, mas os nove poetas líricos são muito menos propensos a fazer parte do repertório romano e a compra de nove escravos, um por cada poeta, certamente foi adicionado por Sêneca para animar a história.

Carta 23: Sobre a verdadeira alegria que vem da filosofia

A carta 23 discorre sobre a distinção entre a alegria falsa e a verdadeira. Sêneca começa contando a Lucílio que deseja escrever-lhe sobre as coisas que importam, sem perder tempo falando do tempo ou outras trivialidades das quais as pessoas falam quando não têm nada a dizer. Ele então vai direto ao ponto:

Você pergunta qual é o fundamento de uma mente sã? É, não encontrar satisfação em coisas inúteis. Eu disse que era o fundamento; é realmente o pináculo. Chegamos às alturas quando sabemos o que é que nos alegra e quando não colocamos nossa felicidade sob controle externo. ” (XXIII.1-2)

Essa, é claro, é uma versão da dicotomia estoica do controle: não controlamos os externos, por isso é tolice depositar nossa felicidade neles. A frase de Sêneca, “Eu disse que era o fundamento; é realmente o pináculo.“, na verdade destaca a idéia de que encontrar alegria na solidez dos próprios julgamentos, em oposição à aquisição de coisas externas, é um objetivo importante do treinamento estoico e, de fato, o auge a ser alcançado.

Acima de tudo, meu caro Lucílio, faça deste seu negócio: aprenda a sentir alegria.” (XXIII.3)

Normalmente, não precisaríamos aprender a sentir alegria, é uma emoção humana natural. O fato de termos que “aprender” como sentir alegria, entretanto, está perfeitamente de acordo com o princípio estoico de que os sentimentos básicos têm valor neutro e devem ser avaliados por nossa faculdade de julgamento, que tem o poder de dar ou retirar consentimento a tais sentimentos.  Isso parece bastante severo, Sêneca admite que o prazer é uma coisa boa (no sentido de ser um indiferente preferido, obviamente), mas também está advertindo de que o prazer tem uma tendência a assumir o controle, distraindo-nos de atividades mais importantes. O que buscar, exatamente? Vem a resposta:

Você me pergunta qual é o verdadeiro bem, e de onde deriva? Digo-o: vem de uma boa consciência, de propósitos honrosos, de ações corretas, de desprezo dos presentes da fortuna, de um modo de vida equilibrado e tranquilo que trilha apenas um caminho. ”(XXIII.7)

O problema é que muitos de nós levam muito tempo para perceber isso, e alguns de nós nunca percebem isso. É por isso que Seneca conclui a carta com estas palavras memoráveis:

Alguns homens, na verdade, só começam a viver quando é hora de deixarem de viver… alguns homens deixam de viver antes de começarem. ”(XXIII.11)

(imagem Antoine-François Callet (1741 – 1823) interpretação barroca da  Saturnalia – 1783)


XXIII. Sobre a verdadeira alegria que vem da filosofia

Saudações de Sêneca a Lucílio.  

  1. Você acha que eu vou escrever-lhe como a temporada de inverno tem nos tratado com gentileza – uma estação curta e suave – ou que primavera desagradável estamos tendo – tempo frio fora de época – e todos as outras trivialidades que as pessoas escrevem quando estão sem assunto? Não; vou transmitir algo que pode ajudar tanto a você como a mim. E o que deve ser esse “algo”, senão uma exortação à solidez da mente? Você pergunta qual é o fundamento de uma mente sã? É, não encontrar satisfação em coisas inúteis. Eu disse que era o fundamento; é realmente o pináculo.
  2. Chegamos às alturas quando sabemos o que é que nos alegra e quando não colocamos nossa felicidade sob controle externo. O homem que é incitado pela esperança de qualquer coisa, embora a tenha ao alcance, embora esteja a fácil acesso, e embora suas ambições nunca o tenha enganado, é perturbado e inseguro de si mesmo.
  3. Acima de tudo, meu caro Lucílio, faça deste seu negócio: aprenda a sentir alegria. Você acha que agora estou roubando-lhe muitos prazeres quando eu tento acabar com os presentes da fortuna, quando eu aconselho a evitar a esperança, a coisa mais doce que alegra nossos corações? Pelo contrário; eu não desejo nunca que você seja privado de alegria. Eu a teria inata em sua casa; e ela nascerá lá, apenas se estiver dentro de você. Outros objetos de conforto não enchem o peito de um homem; eles apenas suavizam a testa e são inconstantes, a menos que você acredite que aquele que ri tem alegria. A própria alma deve ser feliz e confiante, elevada acima de todas as circunstâncias.
  4. Alegria real, acredite, é uma questão severa. Pode alguém, você acha, menosprezar a morte com um semblante despreocupado, ou com uma expressão “jovial e alegre”, como nossos jovens janotas estão acostumados a dizer? Ou, então, pode-se abrir a porta para a pobreza, ou restringir seus prazeres, ou contemplar a tolerância da dor? Aquele que pondera estas coisas em seu coração está realmente cheio de alegria; mas não é uma alegria bem disposta. É apenas essa alegria, porém, da qual eu gostaria que você se tornasse o dono; pois nunca o falhará quando encontrar sua fonte.
  5. O rendimento das minas medíocres fica na superfície; aquelas que são realmente ricas as veias emboscam-se profundamente, e elas trarão retornos mais generosos para aquele que mergulha continuamente. Assim também são bugigangas que deleitam a multidão comum pois proporcionam apenas um prazer superficial, colocado somente como um revestimento, e o mesmo é com a alegria banhada, a qual falta base real. Mas a alegria de que falo, aquela a que estou me esforçando para conduzi-lo, é algo sólido, revelando-se mais plenamente à medida que você nela penetra.
  6. Portanto, peço-lhe, meu querido Lucílio, faça a única coisa que pode tornar-lhe realmente feliz: despreze todas as coisas que brilham exteriormente e que são oferecidas a você ou a qualquer outro; olhe para o verdadeiro bem, e alegre-se apenas naquilo que vem de seu depósito. E o que quero dizer com “seu depósito”? Eu quero dizer de seu próprio eu, que é a melhor parte de você. O corpo frágil também, embora não consigamos fazer nada sem ele, deve ser considerado apenas necessário, e não tão importante; envolve-nos em prazeres fúteis, de curta duração, e logo a serem lamentados, a menos que sejam controlados por um extremo autocontrole, tais prazeres serão transformados em antagônicos. Isso é o que quero dizer: o prazer, a menos que tenha sido mantido dentro dos limites, tende a nos precipitar no abismo da tristeza. Mas é difícil manter limites dentro daquilo que você acredita ser bom. O verdadeiro bem pode ser cobiçado com segurança.
  7. Você me pergunta qual é o verdadeiro bem, e de onde deriva? Digo-o: vem de uma boa consciência, de propósitos honrosos, de ações corretas, de desprezo dos presentes da fortuna, de um modo de vida equilibrado e tranquilo que trilha apenas um caminho. Para os homens que saltam de um propósito para outro, ou não sequer pulam, mas são carregados por uma espécie de aventura, – como podem essas pessoas vacilantes e instáveis possuirem qualquer bem que é fixo e duradouro?
  8. Existem poucos que controlam a si mesmos e seus negócios por um propósito direcionado; O restante não prossegue; eles são simplesmente varridos, como objetos flutuando em um rio. E desses objetos, alguns são retidos por águas lentas e são transportados suavemente; outros são despedaçados por uma corrente mais violenta; alguns, que estão mais próximos da margem, são deixados lá onde a correnteza afrouxa; e outros são levados para o mar pelo avanço da correnteza. Portanto, devemos decidir o que desejamos, e respeitar a decisão.
  9. Agora é a hora de pagar minha dívida. Eu posso dar-lhe um provérbio de seu amigo Epicuro e assim livrar esta carta de sua obrigação. “É incômodo sempre estar começando a vida.” Ou outra, que talvez expressará melhor o significado: “Vivem doentes aqueles que estão sempre começando a viver“.
  10. Você está certo em perguntar por que; o ditado certamente precisa de um comentário. É porque a vida dessas pessoas é sempre incompleta. Mas um homem não pode estar preparado para a aproximação da morte se ele acaba de começar a viver. Precisamos tornar nosso objetivo já ter vivido o suficiente. Ninguém pensa que tenha feito isso, se está sempre na etapa de planejar sua vida.
  11. Você não precisa pensar que há poucos deste tipo; praticamente todos são de tal cunho. Alguns homens, na verdade, só começam a viver quando é hora de deixarem de viver. E se isso lhe parece surpreendente, acrescento o que mais o surpreenderá: alguns homens deixam de viver antes de começarem.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Como iniciar o estudo do estoicismo

Acredito que a melhor forma de conhecer o estoicismo é ler os clássicos: Epiteto, Sêneca,  Marco Aurélio, Catão e Cícero. Destes, Sêneca é a leitura mais fácil.

Muitos preferem iniciar o estudo lendo textos contemporâneos, nesse caso sugiro ler  William Irvine,  Massimo PigliucciPatrick UssherRyan Holiday este último criticado como “auto-ajuda”.

Uma sugestão é rever os princípios estoicos nas postagens abaixo, e então se aprofundar nas leituras indicadas.

Princípios Estoicos:


Livros recomendados:

Clássicos:

     
        

   
Contemporâneos:

              

(imagem escultura de Nero e Sêneca por Barron – Museo do Prado)