Carta 49: Sobre a brevidade da vida

A carta 49 discute um tema muito relevante para Sêneca, abordado a fundo no livro “Sobre a brevidade da vida“. Nesta carta temos a principal ideia, ou seja, que a vida não é curta, mas as pessoas fazem mal proveito dela:

“fico com mais raiva que alguns homens reivindiquem a maior parte deste tempo para coisas supérfluas, tempo que, por mais cuidadoso que sejamos, não é suficiente até mesmo para as coisas necessárias.” (XLIX, 5)

“o bem na vida não depende do comprimento da vida, mas do uso que fazemos dela; também, é possível, ou mais comum, que um homem que tenha vivido muito tempo tenha vivido muito pouco. “(XLIX, 10)

Sêneca aborda também a técnica estoica de “premeditatio malorum“, a premeditação da adversidade, que é útil para “vacinar” nossas mentes contra infortúnios, trazendo satisfação com o que já temos e nos preparando para adversidades futuras:

Diga-me quando eu me deitar para dormir: “Você pode não acordar de novo!” E quando eu acordar: “Você não pode ir dormir de novo!” Diga-me quando sair de minha casa: “Não vai voltar!” E quando eu retornar: “Você nunca poderá sair novamente!” (XLIX, 10)

Conclui a carta com uma frase marcante:

“No nosso nascimento, a natureza nos tornou ensináveis, e nos deu razão, não perfeita, mas capaz de ser aperfeiçoada.”(XLIX, 11)

E cita  um trecho de As Fenícias de Eurípides:

“A linguagem da verdade é simples.”(XLIX, 12)

(Imagem escultura “Inverno” por Pierre Le Gros)


XLIX. Sobre a brevidade da vida

Saudações de Sêneca a Lucílio.

    1. Um homem é de fato preguiçoso e descuidado, meu caro Lucílio, se ele se lembrar de um amigo só por ver alguma paisagem que desperta a memória; e ainda há momentos em que os velhos assombramentos familiares despertam uma sensação de perda que foi guardada na alma, não trazendo de volta memórias mortas, mas despertando-as de seu estado adormecido, assim como a visão do escravo favorito de um amigo perdido, ou o seu manto, ou a sua casa, renova o sofrimento da pessoa em luto, mesmo que suavizado pelo tempo. Agora, eis que Campânia, e especialmente Nápoles e sua amada Pompéia[1], me atingiram, quando as vi, com um maravilhoso e renovado sentimento de saudades de você. Você está em plena visão diante dos meus olhos. Estou a ponto de me separar de você. Eu vejo você sufocar suas lágrimas e resistir sem sucesso as emoções que bem no exato momento que tenta as controlar. Parece que o perdi há apenas um momento. Pois o que não é “apenas um momento” quando se começa a usar a memória?
    2. Faz pouco tempo que eu me sentava, como um rapaz, na escola do filósofo Socião[2], há um momento atrás eu comecei a atuar nos tribunais, há um momento atrás eu perdi o desejo de advogar, há um momento atrás que eu perdi a capacidade. Infinitamente rápido é o voo do tempo, como se vê mais claramente quando se olha para trás. Pois quando estamos atentos ao presente, não o percebemos, tão suave é a passagem do tempo ao se avançar.
    3. Você pergunta a razão para isso? Todo o tempo passado está no mesmo lugar; tudo isso apresenta o mesmo aspecto para nós, tudo se mescla. Tudo cai no mesmo abismo. Além disso, um evento que em sua totalidade é ríspido não pode conter longos intervalos. O tempo que passamos na vida não passa de um ponto, nem mesmo de um ponto. Mas este ponto do tempo, infinitesimal como é, a natureza tem zombado por fazê-lo parecer exteriormente de mais longa duração; ela tomou uma porção dele e fez a infância, outra a adolescência, outra a juventude, mais uma inclinação gradual, por assim dizer, da juventude à velhice, e a própria velhice ainda é outra. Quantas etapas para uma subida tão curta!
    4. Foi apenas um momento atrás que eu vi você em sua jornada; e, no entanto, este “momento atrás” constitui uma boa parte de nossa existência, que é tão breve, devemos refletir, que ela logo chegará ao fim completamente. Em outros anos o tempo não me pareceu ir tão rapidamente; agora, parece inacreditavelmente rápido, talvez, porque eu sinta que a linha de chegada está se aproximando, ou pode ser que eu tenha começado a tomar cuidado e contar minhas perdas.
    5. Por esta razão, fico com mais raiva que alguns homens reivindiquem a maior parte deste tempo para coisas supérfluas, tempo que, por mais cuidadoso que sejamos, não é suficiente até mesmo para as coisas necessárias. Cícero declarou que se o número de seus dias fosse dobrado, não teria tempo para ler os poetas líricos. E você pode classificar os dialéticos na mesma classe; mas são tolos de uma forma mais melancólica. Os poetas líricos são abertamente frívolos; mas os dialéticos acreditam que eles próprios estejam empenhados em negócios sérios.
    6. Não nego que se deva lançar um olhar sobre a dialética; mas deve ser um simples olhar, uma espécie de saudação da soleira, simplesmente para não ser enganado, ou julgar que essas atividades contenham quaisquer assuntos ocultos de grande valor. Por que você se atormenta e perde peso por algum problema que seria mais inteligente desprezado do que resolvido? Quando um soldado está tranquilo e viajando em despreocupadamente, ele pode caçar bagatelas ao longo de seu caminho; mas quando o inimigo está se fechando na retaguarda, e um comando é dado para acelerar o ritmo, a necessidade faz ele jogar fora tudo o que ele pegou em momentos de paz e lazer.
    7. Não tenho tempo para investigar inflexões disputadas de palavras, ou para pôr em prática minha astúcia sobre elas.
      Eis os clãs que se aglomeram, os portões fechados, e armas aguçadas prontas para a guerra. [3]
      Preciso de um coração forte para ouvir, sem hesitar, este ruído de batalha que soa em volta.
    8. E todos pensariam, com razão, que eu teria ficado louco se, quando anciãos e mulheres estivessem empilhando pedras para as fortificações, quando os jovens armados frente aos portões esperassem, ou mesmo exigissem, a ordem de um ataque, quando as lanças dos inimigos tremessem em nossos portões e o próprio chão estivesse balançando com minas e passagens subterrâneas, – eu digo, eles pensariam, com razão, que eu teria ficado louco se me sentasse ocioso, colocando enigmas tão insignificantes como este: “O que você não perdeu, você tem. Mas você não perdeu nenhum chifre, portanto, você tem chifres“, ou outros truques construídos segundo o modelo deste bocado de pura bobagem.
    9. E, no entanto, bem posso parecer aos seus olhos não menos louco, se eu gastar minhas energias com esse tipo de coisa; pois mesmo agora estou em estado de sítio. E ainda, no primeiro caso, seria apenas um perigo exterior que me ameaça, e um muro que me separa do inimigo; como é agora, os perigos mortais estão na minha própria presença. Não tenho tempo para essas tolices; um poderoso empreendimento está em minhas mãos. O que eu devo fazer? A morte está em meu caminho, e a vida está fugindo;
    10. Ensine-me algo com que enfrentar estes problemas. Faça ser que eu deixe de tentar escapar da morte, e que a vida possa deixar de escapar de mim. Dê-me coragem para enfrentar dificuldades; me acalme em face do inevitável. Amplie os estreitos limites de tempo que me é atribuído. Mostre-me que o bem na vida não depende do comprimento da vida, mas do uso que fazemos dela; também, que é possível, ou mais comum, que um homem que tenha vivido muito tempo tenha vivido muito pouco. Diga-me quando eu me deitar para dormir: “Você pode não acordar de novo!” E quando eu acordar: “Você não pode ir dormir de novo!” Diga-me quando sair de minha casa: “Não vai voltar!” E quando eu retornar: “Você nunca poderá sair novamente!”
    11. Você está enganado se você pensa que somente em uma viagem marítima há um espaço muito pequeno entre a vida e a morte. Não, a distância entre elas é estreita em todos os lugares. Não é em toda parte que a morte se mostra tão perto; contudo, em todos os lugares ela está tão próxima. Livre-me desses terrores sombrios; então você me entregará mais facilmente a instrução para a qual me preparei. No nosso nascimento, a natureza nos tornou ensináveis, e nos deu razão, não perfeita, mas capaz de ser aperfeiçoada.
    12. Discuta para mim a justiça, o dever, a economia e essa dupla pureza, tanto a pureza que se abstém da pessoa de outrem quanto aquilo que cuida de si mesmo. Se você apenas se recusar a me guiar por caminhos tortuosos, eu alcançarei mais facilmente a meta a que estou visando. Pois, como diz o poema trágico:
      A linguagem da verdade é simples. [4]

Não devemos, portanto, tornar essa linguagem intrincada; uma vez que não há nada menos apropriado para uma alma de grande diligência do que tal astuta esperteza.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.


 

[1] Provavelmente o local de nascimento de Lucílio.

[2] Socião, o pitagórico. Por suas opiniões sobre vegetarianismo e sua influência para Sêneca, veja carta  CVIII.

[3] Trecho de Eneida de Virgílio.  “Adspice qui coeant populi, quae moenia clusis; Ferrum acuant portis.”

[4] Trecho de As Fenícias de Eurípides. “Veritatis simplex oratio est.

Carta 45: Sobre Argumentação sofística

Na carta 45 Sêneca discorre sofre a escola sofista e a define com um exercício fútil:

“Eles perderam muito tempo em jogar com palavras e na argumentação sofista; todo esse tipo de coisa exercita a inteligência para nenhum propósito. Nos atamos nós e unimos palavras em significados duplos, e então tentamos desatá-los. Temos tempo suficiente para isso? Já sabemos como viver ou morrer? (XLV, 5)

Resume que não conhecer os sofismas não faz mal, e dominá-los não faz nenhum bem, sendo que a principal mensagem é focar no importante, deixando o supérfluo passar:

“entenda que o homem feliz não é aquele que a multidão considera feliz, isto é, aquele em cujos cofres grandes somas fluíram, mas aquele cujas posses estão todas em sua alma, que é reta e elevada, que despreza a inconstância, que não vê homem com quem ele queira trocar de lugar, que avalia os homens apenas pelo seu valor como homens, que considera a natureza sua professora, obedecendo suas leis e vivendo como ela comanda, a quem nenhuma violência pode privar de suas posses”(XLV, 9)

(imagem Busto de Protágoras, sofista conhecido por cunhar a frase “o homem é a medida de todas as coisas”)


XLV. Sobre Argumentação sofística

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você se queixa de que em sua parte do mundo há uma oferta escassa de livros. Mas é a qualidade, e não a quantidade, que importa; Uma lista limitada de benefícios de leitura; Um sortimento variado serve apenas para o deleite. Aquele que chegaria ao fim designado deve seguir um único caminho e não percorrer muitos caminhos. O que você sugere não é uma viajem, mas um mero vaguear.
  2. “Mas,” você diz, “eu prefiro que você me dê conselhos do que livros.” Ainda assim, estou pronto para enviar-lhe todos os livros que tenho, saquear todo meu armazém. Se fosse possível, eu deveria me juntar a você; E se não fosse pela esperança de que você termine em breve seu mandato, eu deveria impor a mim mesmo a viagem, nenhum Cila ou Caribdis[1], ou seus lendários desafios poderiam ter me assustado. Eu não deveria apenas ter atravessado, mas deveria ter estado disposto a nadar sobre essas águas, desde que pudesse cumprimentá-lo e julgar em sua presença o quanto você cresceu em espírito.
  3. Seu desejo, entretanto, de que eu lhe envie meus próprios escritos não me faz acreditar mais sábio, não mais do que um pedido de meu retrato lisonjearia minha beleza. Sei que é devido à sua caridade e não a sua capacidade crítica. E mesmo se for resultado de julgamento, foi a caridade que forçou seu julgamento.
  4. Mas qualquer que seja a qualidade das minhas obras, leia-as como se eu ainda estivesse procurando, e não estivesse ciente da verdade, e também a procurasse obstinadamente. Pois não me vendi a ninguém; eu não tenho a marca de nenhum mestre. Eu dou muito crédito ao julgamento dos grandes homens; mas eu reivindico algo também para mim. Pois esses homens nos deixaram também, não descobertas definitivas, mas problemas cuja solução ainda deve ser buscada. Poderiam talvez ter descoberto o essencial, se não tivessem procurado também o supérfluo.
  5. Eles perderam muito tempo em jogar com palavras e na argumentação sofista; todo esse tipo de coisa exercita a inteligência para nenhum propósito. Nos atamos nós e unimos palavras em significados duplos, e então tentamos desatá-los. Temos tempo suficiente para isso? Já sabemos como viver ou morrer? Devemos, antes, prosseguir com as nossas almas intactas até o ponto em que é nosso dever cuidar para que as coisas, assim como as palavras, não nos enganem.
  6. Por que, ora, você discrimina entre palavras semelhantes, quando ninguém é enganado por elas, exceto durante a discussão? São coisas que nos desnorteiam: é entre as coisas que você deve discriminar. Nós abraçamos o mal em vez do bem; oramos por algo oposto ao que havíamos orado no passado. Nossas orações entram em conflito com nossas orações, nossos planos com nossos planos.
  7. Quão semelhante é a adulação com a amizade! Não só macaqueia a amizade, mas supera-a, passando-a na corrida; com ouvidos abertos e indulgentes, é acolhida e penetra nas profundezas do coração, e é agradável precisamente no que faz mal. Mostre-me como eu posso ser capaz de ver através desta semelhança! Um inimigo chega até mim cheio de elogios, sob a aparência de um amigo. Os vícios fluem em nossos corações sob o nome de virtudes, a imprudência se esconde sob a denominação de bravura, a moderação é chamada de lentidão, e o covarde é considerado prudente; há grande perigo de nos confundirmos nesses assuntos. Então marque-os com etiquetas especiais.
  8. Então, também, o homem a quem é perguntado se tem chifres na cabeça não é tão tolo para apalpar por eles em sua testa, nem tão tolo ou estúpido que você possa persuadi-lo por meio de argumentação, não importa quão astutamente, que ele não conhece os fatos. Esses sofismas são tão inofensivamente enganadores quanto os acessórios do malabarista, em que é o próprio truque que me agrada. Mas mostre-me como o truque é feito, e eu perco interesse nele. E eu mantenho a mesma opinião sobre esses complicados jogos de palavras; por qual outro nome se pode chamar tais sofismas? Não os conhecer não faz mal, e dominá-los não faz nenhum bem.
  9. De qualquer modo, se você quiser peneirar significados duvidosos deste tipo, entenda que o homem feliz não é aquele que a multidão considera feliz, isto é, aquele em cujos cofres grandes somas fluíram, mas aquele cujas posses estão todas em sua alma, que é reta e elevada, que despreza a inconstância, que não vê homem com quem ele queira trocar de lugar, que avalia os homens apenas pelo seu valor como homens, que considera a natureza sua professora, obedecendo suas leis e vivendo como ela comanda, a quem nenhuma violência pode privar de suas posses, que transforma o mal em bem, é inabalável em julgamento, inabalável, sem medo, que pode ser movido pela força, mas nunca movido por distração, a quem a fortuna, quando ela se lança com toda a sua força sobre ele com seu mais mortífero arsenal, pode atingi-lo, embora raramente, mas nunca feri-lo. Pois as outras armas da fortuna, com as quais ela vence a humanidade em geral, ricocheteia neste homem, como o granizo que crepita no telhado sem causar dano ao morador, e depois desaparece.
  10. Por que você me aborrece com o que você mesmo chama de “falácia mentirosa”, sobre a qual tantos livros foram escritos? Convenhamos agora, suponha que toda a minha vida é uma mentira; prove isto estar errado e, se você é forte o suficiente, traga isso de volta para a verdade. Agora, considere coisas essenciais, as quais a maior parte é supérflua. E mesmo o que não é supérfluo não tem importância no que diz respeito ao seu poder de fazer alguém afortunado e bem-aventurado. Pois se uma coisa é necessária, não se segue que ela seja boa. Do contrário degradaríamos o significado de “boa”, se aplicarmos esse nome ao pão, à cevada e a outras mercadorias sem as quais não podemos viver.
  11. O bem deve em todos os casos ser necessário; mas o que é necessário não é em todos os casos um bem, uma vez que certas coisas muito insignificantes são realmente necessárias. Ninguém é tão ignorante quanto ao nobre significado da palavra “bom”, como para rebaixá-la ao nível dessas utilidades banais.
  12. O que, então? Não prefere transferir seus esforços para deixar claro a todos que a busca do supérfluo significa um grande gasto de tempo e que muitos passam pela vida simplesmente acumulando os instrumentos da vida? Considere indivíduos, avalie homens em geral; não há ninguém cuja vida espere pelo o amanhã.
  13. “Que mal há nisso”, você pergunta? Dano infinito; porque tais pessoas não vivem, mas se preparam para viver. Elas adiam tudo. Mesmo se prestássemos rigorosa atenção, a vida logo se adiantaria a nós; mas como nós somos agora, a vida nos encontra persistentes e ultrapassa-nos como se pertencesse a outro, e embora termine no último dia, perece todos os dias. Mas não devo ultrapassar os limites de uma carta, que não deve preencher a mão esquerda do leitor[2]. Então, postergo para outro dia nosso caso contra os detalhistas, aqueles sujeitos sutis que fazem da argumentação suprema em vez de subordinada.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Cila ou Caribdis: Sêneca estende a metáfora da ascensão para incluir as cadeias de montanha que atravessam a região montanhosa da Candávia, perto da Via Egnatia na Macedônia, depois (retornando aos perigos marítimos) os Sirtes da Líbia (bancos de areia traiçoeiros) e os dois perigos do estreito da Sicília confrontadas por Ulysses: Cila na costa da Calábria e Char Caribdis da Sicília (ver a carta XIV.8).

[2] Essa observação é válida quando tal carta é escrita em pergaminho, desenrolada com a mão direita enquanto a esquerda recolhe a parte que já foi lida.

Carta 42: Sobre Valores

Na carta 42 Sêneca fala sobre como julgar valor.  Inicia sobre como avaliar pessoas, ponderando que assim como a fênix, pessoas de primeira classe são raras “a grandeza se desenvolve apenas em longos intervalos” (XLII,1).
Alerta que é difícil julgar uma pessoa que não tenha poder ou posses, pois, nesse caso talvez seus vícios não estejam aparentes:

No caso de muitos homens, seus vícios, sendo impotentes, passam despercebidos; Esses homens simplesmente não dispõem dos meios pelos quais podem revelar sua maldade. Da mesma forma, pode-se manipular até mesmo uma serpente venenosa enquanto está rígida pelo frio; o veneno não está faltando; está meramente entorpecido em inação. No caso de muitos homens, sua crueldade, ambição e indulgência só necessitam o favor da fortuna para fazê-los cometer crimes que igualariam ao pior. ” (XLII,3-4).

Na sequencia ensina como dar o devido valor a coisas, objetos, relembrando que nosso tempo, honra e liberdade tem muito mais valor do que a maioria das pessoas pensa:

Nossa estupidez pode ser claramente comprovada pelo fato de que consideramos que “comprar” se refere apenas aos objetos pelos quais pagamos em dinheiro, e consideramos como presentes as coisas pelas quais gastamos nós mesmos. Estes deveríamos recusar a comprar, se fôssemos obrigados a dar em pagamento por eles nossas casas ou alguma propriedade atraente e rentável; mas estamos impacientes para alcançá-los ao custo da ansiedade, do perigo, da honra perdida, da liberdade pessoal e do tempo; a verdade é que o homem não considera nada mais barato do que ele mesmo.”(XLII,7)

Conclui a carta dizendo “Aquele que se possui não perde nada. Mas quão poucos homens são abençoados com a propriedade de si mesmo” (XLII,10)

(imagem busto de Lucius Verus, Louvre)


XLII. Sobre Valores

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Aquele seu amigo já o fez acreditar que ele é um bom homem? E, no entanto, é impossível, em tão pouco tempo, que alguém se torne bom ou seja conhecido como tal. Você sabe que tipo de homem eu quero dizer agora quando eu falo de “um bom homem”? Quero dizer um de segunda classe, como seu amigo. Pois um de primeira classe talvez surja na existência, como a fênix, apenas uma vez em quinhentos anos. E não é surpreendente, tampouco, que a grandeza se desenvolve apenas em longos intervalos; a Fortuna, muitas vezes, dá origem a poderes comuns, que nascem para agradar à multidão; mas ela facilita nosso julgamento do que é notável pelo fato de que ela o torna raro.
  2. Este homem, no entanto, de quem você falou, ainda está longe do estado que ele declara ter alcançado. E se ele soubesse o que significava ser “um bom homem”, ele ainda não se acreditaria assim; talvez ele até desanimaria de sua capacidade de se tornar bom. “Mas,” você diz, “ele pensa mal dos homens maus.” Bem, assim também fazem os próprios homens maus; e não há pior pena para o vício do que o fato de estar insatisfeito consigo mesmo e com todos os seus pares.
  3. “Mas ele odeia aqueles que fazem um uso indisciplinado de grande poder repentinamente adquirido.” Eu replico que fará a mesma coisa assim que adquirir os mesmos poderes. No caso de muitos homens, seus vícios, sendo impotentes, passam despercebidos; embora, logo que as pessoas em questão tenham se satisfeito com sua própria força, os vícios não serão menos ousados do que aqueles que a prosperidade já revelou.
  4. Esses homens simplesmente não dispõem dos meios pelos quais podem revelar sua maldade. Da mesma forma, pode-se manipular até mesmo uma serpente venenosa enquanto está rígida pelo frio; o veneno não está faltando; está meramente entorpecido em inação. No caso de muitos homens, sua crueldade, ambição e indulgência só necessitam o favor da fortuna para fazê-los cometer crimes que igualariam ao pior. Que seus desejos são os mesmos você descobrirá em um momento, desta maneira: dê-lhes o poder igual a seus desejos.
  5. Você se lembra como, quando declarou que certa pessoa estava sob sua influência, eu a chamei de inconstante e uma ave migratória, e disse que você não a segurava pelo pé, mas apenas por uma asa? Eu estava enganado? Você a agarrou apenas por uma pena; ela a deixou em suas mãos e escapou. Você sabe que demonstração de si mesmo fez mais tarde perante você, quantas das coisas que ela tentou reverteram-se sobre sua própria cabeça. Ela não viu que, ao pôr em perigo os outros, ela estava cambaleando para sua própria queda. Ela não refletiu quão pesados eram os objetos que estava inclinada a alcançar, mesmo que não fossem supérfluos.
  6. Portanto, em relação aos objetos que buscamos e pelos quais nos esforçamos com grande esforço, devemos observar esta verdade; ou não há nada de desejável neles, ou o indesejável é preponderante. Alguns objetos são supérfluos; outros não valem o preço que pagamos por eles. Mas não vemos isso claramente, e consideramos as coisas como brindes quando realmente nos custaram muito caro.
  7. Nossa estupidez pode ser claramente comprovada pelo fato de que consideramos que “comprar” se refere apenas aos objetos pelos quais pagamos em dinheiro, e consideramos como presentes as coisas pelas quais gastamos nós mesmos. Estes deveríamos recusar a comprar, se fôssemos obrigados a dar em pagamento por eles nossas casas ou alguma propriedade atraente e rentável; mas estamos impacientes para alcançá-los ao custo da ansiedade, do perigo, da honra perdida, da liberdade pessoal e do tempo; a verdade é que o homem não considera nada mais barato do que ele mesmo.
  8. Vamos, portanto, agir em todos os nossos planos e conduta, como estamos acostumados a agir sempre que nos aproximamos de um negociante que tem certas mercadorias para venda; vamos ver o quanto devemos pagar pelo que desejamos. Muitas vezes as coisas que custam nada nos custam mais pesadamente; posso mostrar-lhe muitos objetos cuja busca e aquisição arrebataram a liberdade das nossas mãos. Devemos pertencer a nós mesmos, mesmo se essas coisas não nos pertençam.
  9. Por conseguinte, gostaria que você refletisse assim, não só quando se trata de uma questão de ganho, mas também quando se trata de perda. “Este objeto está destinado a perecer.” Sim, era um mero adicional; você viverá sem ele tão facilmente como viveu antes. Se você o possuir por muito tempo, você o perde depois que você se cansar dele; se você não o possuiu por muito tempo, então você o perde antes que você se a ele tornasse devotado. “Você terá menos dinheiro.” Sim, e menos problemas.
  10. “Menos influência.” Sim, e menos inveja. Olhe ao seu redor e observe as coisas que nos deixam loucos, que perdemos com um dilúvio de lágrimas; perceberá que não é a perda que nos incomoda com referência a essas coisas, mas o conceito de perda. Ninguém sente que elas foram perdidas, mas sua mente lhe diz que foi assim. Aquele que se possui não perde nada. Mas quão poucos homens são abençoados com a propriedade de si mesmo!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Carta 41: Sobre o Deus dentro de nós

Religião e filosofia parecem em conflito hoje em dia, onde a religião freqüentemente é mostrada como fé cega, até mesmo fanatismo. No entanto, o estoicismo de Sêneca alinhava a religião e a filosofia de maneira notável, relacionando sincreticamente o cerne da filosofia, a razão:

Deus está perto de você, ele está com você, ele está dentro de você. É isso que quero dizer, Lucílio: um espírito santo mora dentro de nós, aquele que anota nossas boas e más ações e é nosso guardião. À medida que tratamos esse espírito, também somos tratados por ele. De fato, nenhum homem pode ser bom sem a ajuda de Deus.”  (XLI,1-2)

Sêneca continua a carta a partir da sugestão de reverência religiosa na presença de um local numinoso, comenta em uma passagem cuidadosamente estruturada que a qualidade mística de lugares como bosques, cavernas, nascente de rios, fontes termais e piscinas profundas inspira reverência religiosa:

“Se alguma vez você se deparou com um bosque cheio de árvores antigas que cresceram a uma altura incomum, fechando a visão do céu por um véu de ramos cheios e entrelaçados, então a imponência da floresta, a reclusão do lugar, e sua admiração com a espessa sombra ininterrupta no meio dos espaços abertos, irá provar-lhe a presença da deidade. Ou se uma caverna, feita pelo profundo desmoronamento das rochas, sustenta uma montanha em seu arco, um lugar não construído com as mãos, mas esvaziado em tais espaços por causas naturais, sua alma será profundamente comovida por uma certa intimação da existência de Deus.” (XLI,3-4)

É significativo que a natureza  seja reconhecida como o divino pois para os estóicos viver de acordo com a natureza era o objetivo apropriado do ser humano. E sua naturalidade garante sua confiabilidade. Diz que nenhum homem deve se gloriar, exceto naquilo que é seu,  no sentido intrínseco, ou seja, seu próprio e não bens materiais que possam ser perdidos.

Sêneca então termina a carta descrevendo que a razão exige de nós viver de acordo com a natureza. Isto permite-lhe tornar explícito um contraste presente na última metade da carta, entre o que é natural e o que a sociedade humana viciada criou. Ele apresenta isso como um paradoxo, observando que viver de acordo com a natureza é algo muito fácil (rem facillimam), mas a loucura geral da humanidade torna difícil (difficilem).

“E o que é que a razão exige dele? A coisa mais fácil do mundo, – viver de acordo com sua própria natureza. Mas isso é transformado em uma tarefa difícil pela loucura geral da humanidade; nós impulsionamos um ao outro ao vício. E como pode um homem ser lembrado para a redenção, quando não tem ninguém para refreá-lo, e toda a humanidade para instigá-lo?” (XLI, 9)

(Imagem, detalhe da escultura David por Michelangelo)


XLI. Sobre o Deus dentro de nós

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você está fazendo uma coisa excelente, que será saudável para você, se, como você escreve-me, está a persistir em seu esforço para alcançar o discernimento sólido; é tolo rezar por isso quando pode adquiri-lo por si mesmo. Não precisamos elevar nossas mãos para o céu, nem implorar ao defensor de um templo que nos deixe chegar à orelha de seu ídolo, como se desse modo nossas orações fossem mais prováveis de serem ouvidas. Deus está perto de você, ele está com você, ele está dentro de você.

2. É isso que quero dizer, Lucílio: um espírito santo mora dentro de nós, aquele que anota nossas boas e más ações e é nosso guardião. À medida que tratamos esse espírito, também somos tratados por ele. De fato, nenhum homem pode ser bom sem a ajuda de Deus. Pode alguém elevar-se acima da fortuna, a menos que Deus o ajude a se levantar? Ele é Aquele que dá conselhos nobres e retos.

Em cada homem bom um deus habita, mas o que deus sabe nos não sabemos. Quis deus incertum est, habitat deus.[1]

3. Se alguma vez você se deparou com um bosque cheio de árvores antigas que cresceram a uma altura incomum, fechando a visão do céu por um véu de ramos cheios e entrelaçados, então a imponência da floresta, a reclusão do lugar, e sua admiração com a espessa sombra ininterrupta no meio dos espaços abertos, irá provar-lhe a presença da deidade. Ou se uma caverna, feita pelo profundo desmoronamento das rochas, sustenta uma montanha em seu arco, um lugar não construído com as mãos, mas esvaziado em tais espaços por causas naturais, sua alma será profundamente comovida por uma certa intimação da existência de Deus. Nós adoramos as fontes de rios poderosos; erguemos altares em lugares onde grandes riachos brotam subitamente de fontes ocultas; adoramos as fontes de água quente como divinas, e consagramos certas poças por causa de suas águas escuras ou sua imensurável profundidade.

4. Se você vê um homem que está sem medo no meio de perigos, intocado por desejos, feliz na adversidade, pacífico em meio à tempestade, que olha para os homens de um plano superior, e vê os deuses em pé de igualdade, não irá um sentimento de reverência por ele abater sobre você? Você não vai dizer: “Esta qualidade é muito grande e muito sublime para ser considerada como semelhante a este pequeno corpo em que habita? Um poder divino desceu sobre esse homem”.

5. Quando uma alma se eleva superior a outras almas, quando está sob controle, quando passa por cada experiência como se fosse de pequena conta, quando sorri aos nossos medos e às nossas orações, é inspirada por uma força do céu. Uma coisa como esta não pode ficar de pé, a menos que seja sustentada pelo divino. Portanto, uma maior parte dela permanece naquele lugar de onde veio à terra. Assim como os raios do sol realmente tocam a terra, mas ainda permanecem na fonte de onde são enviados; assim também a alma grande e santificada, que desceu para que possamos ter um conhecimento mais próximo da divindade, de fato se associe a nós, mas ainda se apega à sua origem; nessa fonte ela depende, para onde vira seu olhar e se esforça a ir, e se preocupa com nossas ações apenas como um ser superior a nós mesmos.

6. O que, então, é tal alma? Uma que é resplandecente sem nenhum bem externo, mas apenas com si própria. Pois o que é mais tolo do que louvar em um homem as qualidades que vêm de fora? E o que é mais insano do que maravilhar-se com características que podem, no instante seguinte, ser transmitidas a outra pessoa? Um freio de ouro não faz um cavalo melhor. O leão com juba adornada por ouro, em processo de treinamento e forçado pelo cansaço a suportar a decoração, é enviado para a arena de uma maneira completamente diferente do leão selvagem cujo espírito é intacto; este último, de fato, ousado em seu ataque, como a natureza desejava que fosse, impressionante por causa de sua aparência selvagem, e é sua a glória que ninguém consiga olhar para ele sem medo, é preferível ao outro leão, aquela fera apática e dourada.

7. Nenhum homem deve se gloriar, exceto naquilo que é seu. Nós louvamos uma videira se faz os brotos crescerem com progresso, se pelo seu peso ela dobra ao solo as estacas que suportam seu fruto; iria algum homem preferir a esta videira uma onde pendem uvas douradas e folhas douradas? Em uma videira a virtude peculiarmente própria é a fertilidade; no homem também devemos louvar o que é seu. Suponha que ele tem um séquito de escravos agradáveis e uma bela casa, que sua fazenda é grande e grande sua renda; nenhuma dessas coisas está no próprio homem; elas estão todas do lado de fora.

8. Elogie a qualidade nele que não pode ser dada ou retirada, que é a propriedade peculiar do homem. Você pergunta o que é isso? É a alma, e a razão trazida à perfeição na alma. Pois o homem é um animal de raciocínio. Portanto, o maior bem do homem é atingido, se ele cumpriu o bem para o qual a natureza o projetou no nascimento.

9. E o que é que a razão exige dele? A coisa mais fácil do mundo, – viver de acordo com sua própria natureza. Mas isso é transformado em uma tarefa difícil pela loucura geral da humanidade; nós impulsionamos um ao outro ao vício. E como pode um homem ser lembrado para a redenção, quando não tem ninguém para refreá-lo, e toda a humanidade para instigá-lo?

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Trecho de Eneida de Virgílio.

Carta 39: Sobre Aspirações Nobres

Como um pedido de notas filosóficas  leva a uma descrição do processo de depravação moral causado pelo sucesso?  Lucílio pede um breviarium, isto é, resumo da filosofia, mas Sêneca lhe envia um sumarium, ou seja, uma lista de autores que deve ler integralmente.

O cerne da filosofia não é sobre teorias de aprendizagem, mas sobre um desejo de imitar os filósofos do passado. O desejo é fundamental para esta carta:

Você desejará ansiosamente ser um deles você mesmo, pois esta é a qualidade mais excelente que a alma nobre tem dentro de si, ela pode ser despertada para coisas honrosas.” (XXXIX, 2)

Nessa carta, Sêneca expõe as visões estoicas sobre o excesso e os prazeres. Os estoicos acreditavam que paixões ou impulsos excessivos e irracionais eram, ou surgiam de, falso juízo. Um sábio, ou seja, uma pessoa que tivesse atingido a perfeição moral e intelectual, não os sentiria por muito tempo, porque teria eliminado todas as falsas crenças.

A preocupação com os riscos do sucesso e da prosperidade era comum na época, mas não é uma preocupação que atrai muita atenção hoje. Tal como acontece com a sua atitude em relação à riqueza, o que separa Seneca de nós são as ideias econômicas capitalistas. Estas ideias valorizam a abundância material e, tal como Sêneca diz do luxo, o crescimento econômico tornou-se um fim em si mesmo. O sistema funciona com o aumento do consumo. No entanto, os problemas que esse sistema causa não podem ser resolvidos por meios econômicos, mas por uma mudança de atitude, por mais improvável que seja, semelhante ao que Seneca defende:

A utilidade avalia nossas necessidades; mas por qual padrão você pode controlar o supérfluo? É por esta razão que os homens se afundam nos prazeres, e não podem ficar sem eles quando se acostumaram a eles, e por isso são mais miseráveis, porque chegaram a tal ponto que o que antes lhes era supérfluo tornou-se indispensável. E assim eles são escravos de seus prazeres em vez de apreciá-los;” (XXXIX, 6)

(Imagem Breviário Beneditino do séc. XV)


 

XXXIX. Sobre Aspirações Nobres

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. De fato, arranjarei para você, em ordem cuidadosa e delimitada, as notas que você pede. Mas considere se você não pode obter mais ajuda do método habitual[1] do que a partir do que agora é comumente chamado de “breviário“, embora nos bons velhos tempos, quando o latim real era falado, isso era chamado de “súmula[2]“. O primeiro é mais necessário a quem está aprendendo um assunto, este último a alguém que o conhece. Pois um ensina, o outro agita a memória. Mas vou lhe dar abundante oportunidade para ambos. Um homem como você não deveria me pedir esta autorização ou aquela; aquele que fornece um fiador para suas declarações demonstra-se desconhecido.
  2. Por conseguinte, escreverei exatamente o que você deseja, mas o farei a meu modo; até então, você tem muitos autores cujas obras presumivelmente manterão suas ideias suficientemente em ordem. Pegue a lista dos filósofos; esse mesmo ato irá obrigá-lo a despertar, quando você vir quantos homens têm trabalhado a seu benefício. Você desejará ansiosamente ser um deles você mesmo, pois esta é a qualidade mais excelente que a alma nobre tem dentro de si, ela pode ser despertada para coisas honrosas. Nenhum homem de dons elevados está satisfeito com o que é inferior e medíocre; a visão de grandes realizações o convoca e inspira.
  3. Assim como a chama salta diretamente para o ar e não pode ser restrita ou mantida ao chão assim como também não pode repousar em silêncio, por isso a nossa alma está sempre em movimento, e quanto mais ardente é, maior o seu movimento e atividade. Mas feliz é o homem que aplica este ímpeto para coisas melhores! Ele se colocará além da jurisdição do acaso; ele sabiamente controlará a prosperidade; ele diminuirá a adversidade e desprezará o que os outros têm em admiração.
  4. É a qualidade de uma grande alma desprezar grandes coisas e preferir o que é ordinário, em vez do que é muito grandioso. Pois uma condição é útil e vivificante; mas a outra faz mal apenas porque é excessiva. Da mesma forma, um solo muito rico faz com que o grão cresça insosso, que ramos quebrem sob uma carga muito pesada, produtividade excessiva não traz frutos para o desenvolvimento pleno. Este é o caso da alma também; pois é arruinada pela prosperidade descontrolada, que é usada não só em detrimento dos outros, mas também em detrimento de si mesma.
  5. Qual inimigo é tão insolente para qualquer adversário como são seus prazeres para certos homens? A única desculpa que podemos permitir para a incontinência e a luxúria exasperada desses homens é o fato de que sofrem os males que infligiram aos outros. E são devidamente assediados por essa loucura, porque o desejo precisa espaço ilimitado para suas excursões, se transgride a média natural. Pois a natureza tem seus limites, mas a rebeldia e os atos que brotam da luxúria obstinada são sem fronteiras.
  6. A utilidade avalia nossas necessidades; mas por qual padrão você pode controlar o supérfluo? É por esta razão que os homens se afundam nos prazeres, e não podem ficar sem eles quando se acostumaram a eles, e por isso são mais miseráveis, porque chegaram a tal ponto que o que antes lhes era supérfluo tornou-se indispensável. E assim eles são escravos de seus prazeres em vez de apreciá-los; eles até amam seus próprios males, – e esse é o pior mal de todos! É então que se alcança o auge da infelicidade, quando homens não são apenas atraídos, mas até satisfeitos, por coisas vergonhosas, e quando não há mais espaço para uma cura, agora que aquelas coisas que outrora eram vícios se tornaram hábitos.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] O método regular de estudar filosofia era, como deduzimos desta carta, um curso de leitura dos filósofos. Sêneca deprecia o uso do ” breviário”(sinopse, resumo), que é apenas uma ajuda de memória, como um substituto para a leitura, pelo fato de que, pelo seu uso, não se aprende o assunto em primeiro lugar, e, em segundo lugar e principalmente, que alguém perca a inspiração a ser derivada do contato direto com grandes pensadores. O pedido de Lucílio por um resumo, portanto, sugere o tópico principal da carta, que é abordado no segundo parágrafo.

[2] Breviarium e summarium em Latin

Eleição 2018

“…os partidos são convocados e os candidatos estão fazendo oferendas em seus templos favoritos – alguns deles prometendo brindes em dinheiro e outros fazendo negócios por meio de um agente, ou desgastando as mãos com os beijos desses a quem eles recusarão o mínimo toque depois de serem eleitos, você não acha agradável, eu digo, ficar em paz e olhar para esta feira de vaidades sem comprar ou vender?
4. Quão grande alegria se sente quem olha sem preocupação, não apenas para a eleição de um pretor ou de um cônsul, mas para essa grande luta em que alguns procuram honras efêmeras e outros o poder permanente.”
(Sêneca , Carta CXVIII. Sobre a Futilidade da busca de Cargos, 3-4 )

Dito isso, assim como Sêneca muitas vezes fez, vamos agir em oposição ao pregado.

Vejo muito debate e discussão sobre a eleição presidencial e quase nada sobre o legislativo, contudo, em uma democracia representativa o poder está com os deputados e senadores. É muito claro que pouquíssimos estão satisfeitos com a política brasileira. Para mudar é necessário renovar!  Todos os partidos de todas as ideologias concorrem com  candidatos novatos.  Não tem porque reeleger quem já teve sua chance e ajudou a criar o caos atual.  Por que alguém votaria em Tiririca, Aécio, Gleisi ou Dilma?  Será que não existe candidato ainda não testado que possa substituir esses? O foco deveria ser renovar Camara e Senado, lá sim pode fazer diferença.

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“vá ao encalço de homens de toda e qualquer região, passe a conhecê-los, cultive e fortaleça a amizade, cuide para que em suas respectivas localidades eles cabalem votos para você e defendam sua causa como se fossem eles os candidatos“.
(Pequeno Manual de Campanha EleitoralQuinto Túlio Cícero aconselhando o irmão Marco Cícero, quando este fazia campanha para o Consulado de Roma)

Nos últimos 24 anos o Brasil foi governado por criminosos divididos em duas facções, PSDB-PT, que agora fazem de tudo para escapar da cadeia.  Com exceção  do primeiro colocado nas pesquisas, os outros candidatos viáveis fazem ou fizeram parte dessa quadrilha.

Amoêdo seria uma excelente opção se não tivesse focado exclusivamente na questão econômica e na redução de gastos públicos. O Novo não percebeu, ou não soube comunicar, que o problema do Brasil é a criminalidade e o Estado grande, inchado e opressor, não apenas na economia, mas também no aspecto social querendo regrar o que se fala, faz, pensa, como educar filhos, o que comer.

Um deputado do baixo clero,  de reacionário sem importância passou a ser visto como o único político que batalhava contra o sistema estabelecido. Foram eles(PT/PSDB) quem colocaram  Bolsonaro sob os holofotes. Sem estrutura partidária, sem dinheiro, sem marketing profissional, atrapalhado por filhos limitados e militantes extremista, com um vice sem treinamento para enfrentar a mídia Bolsonaro uniu e deu esperança à população. Como no conselho para Cícero, Bolsonaro conseguiu que estranhos cabalem votos e defendam sua causa. Isso é um feito.  A esperança vence o medo.

O Estoico vota Bolsonaro, não por convicção, mas como voto de esperança na substituição do grupo que a tanto tempo governa irresponsavelmente.

(Imagem, busto de Marco Cícero, Museu Capitolino, Roma)

Dúvida do Leitor: Eram os estoicos politeístas?

Recentemente um leitor das Cartas de Sêneca me escreveu com a seguinte dúvida:  “Em algumas passagens das Cartas Estoicas percebi o uso da palavra ‘Deus‘, no singular e maiúsculo. Um exemplo é no Livro I, LVIII, 17. Mas os romanos não eram politeístas? Será que uma tradução mais acurada não seria ‘deuses‘, já que o monoteísmo da época estava relegado a uma pequena parcela das pessoas ?

Sêneca faz uso dos dois ternos em variadas cartas. Em muitas usa o singular “deus” e “deum” ao invés do “dei” e “deos”.  No trecho referido a tradução é  “Qual é, então, este Ser preeminente? Deus, certamente, aquele que é maior e mais poderoso do que qualquer outro.“ no original latim: “Quid ergo hoc est? Deus scilicet, maior ac potentior cunctis. ”

Na época de Sêneca havia liberdade religiosa no império Romano, que aceitava todos tipos de prática religiosa das mais diversas culturas e regiões conquistadas.

Os estoicos não eram politeístas, mas panteistas, ou seja acreditavam que tudo e todos compõem um Deus abrangente, imanente de forma que o Universo (Natureza) e Deus são idênticos.  (tipo a “força” no Star Wars)

Sêneca praticava um sincretismo do politeísmo romano com as ideias estoicas clássicas. Em seus textos algumas vezes cita os deuses e rituais romanos e outras vezes esse Deus único.  Penso que dá  mais respeito ao Deus único do que aos “deuses romanos”.

Na carta 16 Sêneca aborda algumas visões de Deus

“Como pode a filosofia me ajudar, frente a existência da Fortuna?” De que serve a filosofia, se Deus governa o universo? De que vale, se a fortuna governa tudo? Não só é impossível mudar as coisas que são determinadas, mas também é impossível planejar de antemão contra o que é indeterminado, ou Deus já antecipou meus planos, e decidiu o que devo fazer, ou então a fortuna não dá liberdade aos meus planos.

Se a verdade, Lucílio, está em uma ou em todas estas perspectivas, nós devemos ser filósofos; se a fortuna nos amarra por uma lei inexorável, ou se Deus, como árbitro do universo, providenciou tudo, ou se o acaso dirige e lança os assuntos humanos sem método, a filosofia deve ser nossa defesa. Ela nos encorajará a obedecer a Deus alegremente, e a fortuna desafiadoramente; ela nos ensinará a seguir a Deus e a suportar a fortuna.”

Na carta 31 é patente a visão panteísta:

“Seu dinheiro, entretanto, não o colocará em nível com Deus; porque Deus não tem posses. Seu manto bordado não fará isso; porque Deus não traja vestes; nem irá a sua reputação, nem a sua própria presença, nem a notoriedade de seu nome por todo o mundo; porque ninguém conhece a Deus; muitos até o tem em baixa estima, e não sofrem por fazê-lo. A multidão de escravos que carrega sua liteira ao longo das ruas da cidade e em lugares estrangeiros não irá ajudá-lo, porque este Deus de quem falo, embora seja o mais alto e poderoso dos seres, carrega todas as coisas em seus próprios ombros. Nem a beleza nem a força podem fazer você abençoado, pois nenhuma dessas qualidades pode resistir à velhice.

O que temos de procurar, então, é o que não passa cada dia mais e mais ao controle de algum poder que não pode ser resistido. E o que é isso? É a alma, mas a alma que é justa, boa e grande. O que mais você poderia chamar de tal alma do que um deus morando como convidado em um corpo humano? Uma alma como esta pode descer para um cavaleiro romano, assim como para um filho de liberto ou a um escravo. Pois o que é um cavaleiro romano, ou o filho de um liberto, ou um escravo? São meros títulos, nascidos da ambição ou do mal. Pode-se saltar para o céu das próprias favelas.”

Muitos estudioso entendem que o estoicismo foi a base dos primeiros cristãos. Eu concordo.

(imagem: Criação de Adão, Michelangelo)

 

Pensamento do Dia #38: Só se perde aquilo que já se tem

Epiteto diz:

Eu mantinha uma lamparina de ferro ao lado do altar, e ao ouvir um ruído perto da janela, corri até lá. Descobri que a lamparina fora furtada. E então? Amanhã, disse eu, você providenciará para si uma de argila. De fato, só se perde aquilo que já se tem.” (Discursos, I, 11)

Tratando do mesmo incidente, ele acrescenta esta reflexão:

O ladrão é mais forte que o homem que não o é. Foi por isso que perdi minha lamparina; porque, em se tratando de manter-se acordado, o ladrão foi melhor do que eu. Mas ele adquiriu a lamparina por um preço muito alto: por uma lamparina, ele se tornou um ladrão; por uma lamparina, ele se tornou desleal; Eis o que lhe pareceu vantajoso!“(Discursos, I, 12)

(imagem  lamparina a óleo romana)