Carta 42: Sobre Valores

Na carta 42 Sêneca fala sobre como julgar valor.  Inicia sobre como avaliar pessoas, ponderando que assim como a fênix, pessoas de primeira classe são raras “a grandeza se desenvolve apenas em longos intervalos” (XLII,1).
Alerta que é difícil julgar uma pessoa que não tenha poder ou posses, pois, nesse caso talvez seus vícios não estejam aparentes:

No caso de muitos homens, seus vícios, sendo impotentes, passam despercebidos; Esses homens simplesmente não dispõem dos meios pelos quais podem revelar sua maldade. Da mesma forma, pode-se manipular até mesmo uma serpente venenosa enquanto está rígida pelo frio; o veneno não está faltando; está meramente entorpecido em inação. No caso de muitos homens, sua crueldade, ambição e indulgência só necessitam o favor da fortuna para fazê-los cometer crimes que igualariam ao pior. ” (XLII,3-4).

Na sequencia ensina como dar o devido valor a coisas, objetos, relembrando que nosso tempo, honra e liberdade tem muito mais valor do que a maioria das pessoas pensa:

Nossa estupidez pode ser claramente comprovada pelo fato de que consideramos que “comprar” se refere apenas aos objetos pelos quais pagamos em dinheiro, e consideramos como presentes as coisas pelas quais gastamos nós mesmos. Estes deveríamos recusar a comprar, se fôssemos obrigados a dar em pagamento por eles nossas casas ou alguma propriedade atraente e rentável; mas estamos impacientes para alcançá-los ao custo da ansiedade, do perigo, da honra perdida, da liberdade pessoal e do tempo; a verdade é que o homem não considera nada mais barato do que ele mesmo.”(XLII,7)

Conclui a carta dizendo “Aquele que se possui não perde nada. Mas quão poucos homens são abençoados com a propriedade de si mesmo” (XLII,10)

(imagem busto de Lucius Verus, Louvre)


XLII. Sobre Valores

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Aquele seu amigo já o fez acreditar que ele é um bom homem? E, no entanto, é impossível, em tão pouco tempo, que alguém se torne bom ou seja conhecido como tal. Você sabe que tipo de homem eu quero dizer agora quando eu falo de “um bom homem”? Quero dizer um de segunda classe, como seu amigo. Pois um de primeira classe talvez surja na existência, como a fênix, apenas uma vez em quinhentos anos. E não é surpreendente, tampouco, que a grandeza se desenvolve apenas em longos intervalos; a Fortuna, muitas vezes, dá origem a poderes comuns, que nascem para agradar à multidão; mas ela facilita nosso julgamento do que é notável pelo fato de que ela o torna raro.
  2. Este homem, no entanto, de quem você falou, ainda está longe do estado que ele declara ter alcançado. E se ele soubesse o que significava ser “um bom homem”, ele ainda não se acreditaria assim; talvez ele até desanimaria de sua capacidade de se tornar bom. “Mas,” você diz, “ele pensa mal dos homens maus.” Bem, assim também fazem os próprios homens maus; e não há pior pena para o vício do que o fato de estar insatisfeito consigo mesmo e com todos os seus pares.
  3. “Mas ele odeia aqueles que fazem um uso indisciplinado de grande poder repentinamente adquirido.” Eu replico que fará a mesma coisa assim que adquirir os mesmos poderes. No caso de muitos homens, seus vícios, sendo impotentes, passam despercebidos; embora, logo que as pessoas em questão tenham se satisfeito com sua própria força, os vícios não serão menos ousados do que aqueles que a prosperidade já revelou.
  4. Esses homens simplesmente não dispõem dos meios pelos quais podem revelar sua maldade. Da mesma forma, pode-se manipular até mesmo uma serpente venenosa enquanto está rígida pelo frio; o veneno não está faltando; está meramente entorpecido em inação. No caso de muitos homens, sua crueldade, ambição e indulgência só necessitam o favor da fortuna para fazê-los cometer crimes que igualariam ao pior. Que seus desejos são os mesmos você descobrirá em um momento, desta maneira: dê-lhes o poder igual a seus desejos.
  5. Você se lembra como, quando declarou que certa pessoa estava sob sua influência, eu a chamei de inconstante e uma ave migratória, e disse que você não a segurava pelo pé, mas apenas por uma asa? Eu estava enganado? Você a agarrou apenas por uma pena; ela a deixou em suas mãos e escapou. Você sabe que demonstração de si mesmo fez mais tarde perante você, quantas das coisas que ela tentou reverteram-se sobre sua própria cabeça. Ela não viu que, ao pôr em perigo os outros, ela estava cambaleando para sua própria queda. Ela não refletiu quão pesados eram os objetos que estava inclinada a alcançar, mesmo que não fossem supérfluos.
  6. Portanto, em relação aos objetos que buscamos e pelos quais nos esforçamos com grande esforço, devemos observar esta verdade; ou não há nada de desejável neles, ou o indesejável é preponderante. Alguns objetos são supérfluos; outros não valem o preço que pagamos por eles. Mas não vemos isso claramente, e consideramos as coisas como brindes quando realmente nos custaram muito caro.
  7. Nossa estupidez pode ser claramente comprovada pelo fato de que consideramos que “comprar” se refere apenas aos objetos pelos quais pagamos em dinheiro, e consideramos como presentes as coisas pelas quais gastamos nós mesmos. Estes deveríamos recusar a comprar, se fôssemos obrigados a dar em pagamento por eles nossas casas ou alguma propriedade atraente e rentável; mas estamos impacientes para alcançá-los ao custo da ansiedade, do perigo, da honra perdida, da liberdade pessoal e do tempo; a verdade é que o homem não considera nada mais barato do que ele mesmo.
  8. Vamos, portanto, agir em todos os nossos planos e conduta, como estamos acostumados a agir sempre que nos aproximamos de um negociante que tem certas mercadorias para venda; vamos ver o quanto devemos pagar pelo que desejamos. Muitas vezes as coisas que custam nada nos custam mais pesadamente; posso mostrar-lhe muitos objetos cuja busca e aquisição arrebataram a liberdade das nossas mãos. Devemos pertencer a nós mesmos, mesmo se essas coisas não nos pertençam.
  9. Por conseguinte, gostaria que você refletisse assim, não só quando se trata de uma questão de ganho, mas também quando se trata de perda. “Este objeto está destinado a perecer.” Sim, era um mero adicional; você viverá sem ele tão facilmente como viveu antes. Se você o possuir por muito tempo, você o perde depois que você se cansar dele; se você não o possuiu por muito tempo, então você o perde antes que você se a ele tornasse devotado. “Você terá menos dinheiro.” Sim, e menos problemas.
  10. “Menos influência.” Sim, e menos inveja. Olhe ao seu redor e observe as coisas que nos deixam loucos, que perdemos com um dilúvio de lágrimas; perceberá que não é a perda que nos incomoda com referência a essas coisas, mas o conceito de perda. Ninguém sente que elas foram perdidas, mas sua mente lhe diz que foi assim. Aquele que se possui não perde nada. Mas quão poucos homens são abençoados com a propriedade de si mesmo!

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Carta 41: Sobre o Deus dentro de nós

Religião e filosofia parecem em conflito hoje em dia, onde a religião freqüentemente é mostrada como fé cega, até mesmo fanatismo. No entanto, o estoicismo de Sêneca alinhava a religião e a filosofia de maneira notável, relacionando sincreticamente o cerne da filosofia, a razão:

Deus está perto de você, ele está com você, ele está dentro de você. É isso que quero dizer, Lucílio: um espírito santo mora dentro de nós, aquele que anota nossas boas e más ações e é nosso guardião. À medida que tratamos esse espírito, também somos tratados por ele. De fato, nenhum homem pode ser bom sem a ajuda de Deus.”  (XLI,1-2)

Sêneca continua a carta a partir da sugestão de reverência religiosa na presença de um local numinoso, comenta em uma passagem cuidadosamente estruturada que a qualidade mística de lugares como bosques, cavernas, nascente de rios, fontes termais e piscinas profundas inspira reverência religiosa:

“Se alguma vez você se deparou com um bosque cheio de árvores antigas que cresceram a uma altura incomum, fechando a visão do céu por um véu de ramos cheios e entrelaçados, então a imponência da floresta, a reclusão do lugar, e sua admiração com a espessa sombra ininterrupta no meio dos espaços abertos, irá provar-lhe a presença da deidade. Ou se uma caverna, feita pelo profundo desmoronamento das rochas, sustenta uma montanha em seu arco, um lugar não construído com as mãos, mas esvaziado em tais espaços por causas naturais, sua alma será profundamente comovida por uma certa intimação da existência de Deus.” (XLI,3-4)

É significativo que a natureza  seja reconhecida como o divino pois para os estóicos viver de acordo com a natureza era o objetivo apropriado do ser humano. E sua naturalidade garante sua confiabilidade. Diz que nenhum homem deve se gloriar, exceto naquilo que é seu,  no sentido intrínseco, ou seja, seu próprio e não bens materiais que possam ser perdidos.

Sêneca então termina a carta descrevendo que a razão exige de nós viver de acordo com a natureza. Isto permite-lhe tornar explícito um contraste presente na última metade da carta, entre o que é natural e o que a sociedade humana viciada criou. Ele apresenta isso como um paradoxo, observando que viver de acordo com a natureza é algo muito fácil (rem facillimam), mas a loucura geral da humanidade torna difícil (difficilem).

“E o que é que a razão exige dele? A coisa mais fácil do mundo, – viver de acordo com sua própria natureza. Mas isso é transformado em uma tarefa difícil pela loucura geral da humanidade; nós impulsionamos um ao outro ao vício. E como pode um homem ser lembrado para a redenção, quando não tem ninguém para refreá-lo, e toda a humanidade para instigá-lo?” (XLI, 9)

(Imagem, detalhe da escultura David por Michelangelo)


XLI. Sobre o Deus dentro de nós

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você está fazendo uma coisa excelente, que será saudável para você, se, como você escreve-me, está a persistir em seu esforço para alcançar o discernimento sólido; é tolo rezar por isso quando pode adquiri-lo por si mesmo. Não precisamos elevar nossas mãos para o céu, nem implorar ao defensor de um templo que nos deixe chegar à orelha de seu ídolo, como se desse modo nossas orações fossem mais prováveis de serem ouvidas. Deus está perto de você, ele está com você, ele está dentro de você.

2. É isso que quero dizer, Lucílio: um espírito santo mora dentro de nós, aquele que anota nossas boas e más ações e é nosso guardião. À medida que tratamos esse espírito, também somos tratados por ele. De fato, nenhum homem pode ser bom sem a ajuda de Deus. Pode alguém elevar-se acima da fortuna, a menos que Deus o ajude a se levantar? Ele é Aquele que dá conselhos nobres e retos.

Em cada homem bom um deus habita, mas o que deus sabe nos não sabemos. Quis deus incertum est, habitat deus.[1]

3. Se alguma vez você se deparou com um bosque cheio de árvores antigas que cresceram a uma altura incomum, fechando a visão do céu por um véu de ramos cheios e entrelaçados, então a imponência da floresta, a reclusão do lugar, e sua admiração com a espessa sombra ininterrupta no meio dos espaços abertos, irá provar-lhe a presença da deidade. Ou se uma caverna, feita pelo profundo desmoronamento das rochas, sustenta uma montanha em seu arco, um lugar não construído com as mãos, mas esvaziado em tais espaços por causas naturais, sua alma será profundamente comovida por uma certa intimação da existência de Deus. Nós adoramos as fontes de rios poderosos; erguemos altares em lugares onde grandes riachos brotam subitamente de fontes ocultas; adoramos as fontes de água quente como divinas, e consagramos certas poças por causa de suas águas escuras ou sua imensurável profundidade.

4. Se você vê um homem que está sem medo no meio de perigos, intocado por desejos, feliz na adversidade, pacífico em meio à tempestade, que olha para os homens de um plano superior, e vê os deuses em pé de igualdade, não irá um sentimento de reverência por ele abater sobre você? Você não vai dizer: “Esta qualidade é muito grande e muito sublime para ser considerada como semelhante a este pequeno corpo em que habita? Um poder divino desceu sobre esse homem”.

5. Quando uma alma se eleva superior a outras almas, quando está sob controle, quando passa por cada experiência como se fosse de pequena conta, quando sorri aos nossos medos e às nossas orações, é inspirada por uma força do céu. Uma coisa como esta não pode ficar de pé, a menos que seja sustentada pelo divino. Portanto, uma maior parte dela permanece naquele lugar de onde veio à terra. Assim como os raios do sol realmente tocam a terra, mas ainda permanecem na fonte de onde são enviados; assim também a alma grande e santificada, que desceu para que possamos ter um conhecimento mais próximo da divindade, de fato se associe a nós, mas ainda se apega à sua origem; nessa fonte ela depende, para onde vira seu olhar e se esforça a ir, e se preocupa com nossas ações apenas como um ser superior a nós mesmos.

6. O que, então, é tal alma? Uma que é resplandecente sem nenhum bem externo, mas apenas com si própria. Pois o que é mais tolo do que louvar em um homem as qualidades que vêm de fora? E o que é mais insano do que maravilhar-se com características que podem, no instante seguinte, ser transmitidas a outra pessoa? Um freio de ouro não faz um cavalo melhor. O leão com juba adornada por ouro, em processo de treinamento e forçado pelo cansaço a suportar a decoração, é enviado para a arena de uma maneira completamente diferente do leão selvagem cujo espírito é intacto; este último, de fato, ousado em seu ataque, como a natureza desejava que fosse, impressionante por causa de sua aparência selvagem, e é sua a glória que ninguém consiga olhar para ele sem medo, é preferível ao outro leão, aquela fera apática e dourada.

7. Nenhum homem deve se gloriar, exceto naquilo que é seu. Nós louvamos uma videira se faz os brotos crescerem com progresso, se pelo seu peso ela dobra ao solo as estacas que suportam seu fruto; iria algum homem preferir a esta videira uma onde pendem uvas douradas e folhas douradas? Em uma videira a virtude peculiarmente própria é a fertilidade; no homem também devemos louvar o que é seu. Suponha que ele tem um séquito de escravos agradáveis e uma bela casa, que sua fazenda é grande e grande sua renda; nenhuma dessas coisas está no próprio homem; elas estão todas do lado de fora.

8. Elogie a qualidade nele que não pode ser dada ou retirada, que é a propriedade peculiar do homem. Você pergunta o que é isso? É a alma, e a razão trazida à perfeição na alma. Pois o homem é um animal de raciocínio. Portanto, o maior bem do homem é atingido, se ele cumpriu o bem para o qual a natureza o projetou no nascimento.

9. E o que é que a razão exige dele? A coisa mais fácil do mundo, – viver de acordo com sua própria natureza. Mas isso é transformado em uma tarefa difícil pela loucura geral da humanidade; nós impulsionamos um ao outro ao vício. E como pode um homem ser lembrado para a redenção, quando não tem ninguém para refreá-lo, e toda a humanidade para instigá-lo?

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Trecho de Eneida de Virgílio.

Carta 39: Sobre Aspirações Nobres

Como um pedido de notas filosóficas  leva a uma descrição do processo de depravação moral causado pelo sucesso?  Lucílio pede um breviarium, isto é, resumo da filosofia, mas Sêneca lhe envia um sumarium, ou seja, uma lista de autores que deve ler integralmente.

O cerne da filosofia não é sobre teorias de aprendizagem, mas sobre um desejo de imitar os filósofos do passado. O desejo é fundamental para esta carta:

Você desejará ansiosamente ser um deles você mesmo, pois esta é a qualidade mais excelente que a alma nobre tem dentro de si, ela pode ser despertada para coisas honrosas.” (XXXIX, 2)

Nessa carta, Sêneca expõe as visões estoicas sobre o excesso e os prazeres. Os estoicos acreditavam que paixões ou impulsos excessivos e irracionais eram, ou surgiam de, falso juízo. Um sábio, ou seja, uma pessoa que tivesse atingido a perfeição moral e intelectual, não os sentiria por muito tempo, porque teria eliminado todas as falsas crenças.

A preocupação com os riscos do sucesso e da prosperidade era comum na época, mas não é uma preocupação que atrai muita atenção hoje. Tal como acontece com a sua atitude em relação à riqueza, o que separa Seneca de nós são as ideias econômicas capitalistas. Estas ideias valorizam a abundância material e, tal como Sêneca diz do luxo, o crescimento econômico tornou-se um fim em si mesmo. O sistema funciona com o aumento do consumo. No entanto, os problemas que esse sistema causa não podem ser resolvidos por meios econômicos, mas por uma mudança de atitude, por mais improvável que seja, semelhante ao que Seneca defende:

A utilidade avalia nossas necessidades; mas por qual padrão você pode controlar o supérfluo? É por esta razão que os homens se afundam nos prazeres, e não podem ficar sem eles quando se acostumaram a eles, e por isso são mais miseráveis, porque chegaram a tal ponto que o que antes lhes era supérfluo tornou-se indispensável. E assim eles são escravos de seus prazeres em vez de apreciá-los;” (XXXIX, 6)

(Imagem Breviário Beneditino do séc. XV)


 

XXXIX. Sobre Aspirações Nobres

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. De fato, arranjarei para você, em ordem cuidadosa e delimitada, as notas que você pede. Mas considere se você não pode obter mais ajuda do método habitual[1] do que a partir do que agora é comumente chamado de “breviário“, embora nos bons velhos tempos, quando o latim real era falado, isso era chamado de “súmula[2]“. O primeiro é mais necessário a quem está aprendendo um assunto, este último a alguém que o conhece. Pois um ensina, o outro agita a memória. Mas vou lhe dar abundante oportunidade para ambos. Um homem como você não deveria me pedir esta autorização ou aquela; aquele que fornece um fiador para suas declarações demonstra-se desconhecido.
  2. Por conseguinte, escreverei exatamente o que você deseja, mas o farei a meu modo; até então, você tem muitos autores cujas obras presumivelmente manterão suas ideias suficientemente em ordem. Pegue a lista dos filósofos; esse mesmo ato irá obrigá-lo a despertar, quando você vir quantos homens têm trabalhado a seu benefício. Você desejará ansiosamente ser um deles você mesmo, pois esta é a qualidade mais excelente que a alma nobre tem dentro de si, ela pode ser despertada para coisas honrosas. Nenhum homem de dons elevados está satisfeito com o que é inferior e medíocre; a visão de grandes realizações o convoca e inspira.
  3. Assim como a chama salta diretamente para o ar e não pode ser restrita ou mantida ao chão assim como também não pode repousar em silêncio, por isso a nossa alma está sempre em movimento, e quanto mais ardente é, maior o seu movimento e atividade. Mas feliz é o homem que aplica este ímpeto para coisas melhores! Ele se colocará além da jurisdição do acaso; ele sabiamente controlará a prosperidade; ele diminuirá a adversidade e desprezará o que os outros têm em admiração.
  4. É a qualidade de uma grande alma desprezar grandes coisas e preferir o que é ordinário, em vez do que é muito grandioso. Pois uma condição é útil e vivificante; mas a outra faz mal apenas porque é excessiva. Da mesma forma, um solo muito rico faz com que o grão cresça insosso, que ramos quebrem sob uma carga muito pesada, produtividade excessiva não traz frutos para o desenvolvimento pleno. Este é o caso da alma também; pois é arruinada pela prosperidade descontrolada, que é usada não só em detrimento dos outros, mas também em detrimento de si mesma.
  5. Qual inimigo é tão insolente para qualquer adversário como são seus prazeres para certos homens? A única desculpa que podemos permitir para a incontinência e a luxúria exasperada desses homens é o fato de que sofrem os males que infligiram aos outros. E são devidamente assediados por essa loucura, porque o desejo precisa espaço ilimitado para suas excursões, se transgride a média natural. Pois a natureza tem seus limites, mas a rebeldia e os atos que brotam da luxúria obstinada são sem fronteiras.
  6. A utilidade avalia nossas necessidades; mas por qual padrão você pode controlar o supérfluo? É por esta razão que os homens se afundam nos prazeres, e não podem ficar sem eles quando se acostumaram a eles, e por isso são mais miseráveis, porque chegaram a tal ponto que o que antes lhes era supérfluo tornou-se indispensável. E assim eles são escravos de seus prazeres em vez de apreciá-los; eles até amam seus próprios males, – e esse é o pior mal de todos! É então que se alcança o auge da infelicidade, quando homens não são apenas atraídos, mas até satisfeitos, por coisas vergonhosas, e quando não há mais espaço para uma cura, agora que aquelas coisas que outrora eram vícios se tornaram hábitos.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] O método regular de estudar filosofia era, como deduzimos desta carta, um curso de leitura dos filósofos. Sêneca deprecia o uso do ” breviário”(sinopse, resumo), que é apenas uma ajuda de memória, como um substituto para a leitura, pelo fato de que, pelo seu uso, não se aprende o assunto em primeiro lugar, e, em segundo lugar e principalmente, que alguém perca a inspiração a ser derivada do contato direto com grandes pensadores. O pedido de Lucílio por um resumo, portanto, sugere o tópico principal da carta, que é abordado no segundo parágrafo.

[2] Breviarium e summarium em Latin

Eleição 2018

“…os partidos são convocados e os candidatos estão fazendo oferendas em seus templos favoritos – alguns deles prometendo brindes em dinheiro e outros fazendo negócios por meio de um agente, ou desgastando as mãos com os beijos desses a quem eles recusarão o mínimo toque depois de serem eleitos, você não acha agradável, eu digo, ficar em paz e olhar para esta feira de vaidades sem comprar ou vender?
4. Quão grande alegria se sente quem olha sem preocupação, não apenas para a eleição de um pretor ou de um cônsul, mas para essa grande luta em que alguns procuram honras efêmeras e outros o poder permanente.”
(Sêneca , Carta CXVIII. Sobre a Futilidade da busca de Cargos, 3-4 )

Dito isso, assim como Sêneca muitas vezes fez, vamos agir em oposição ao pregado.

Vejo muito debate e discussão sobre a eleição presidencial e quase nada sobre o legislativo, contudo, em uma democracia representativa o poder está com os deputados e senadores. É muito claro que pouquíssimos estão satisfeitos com a política brasileira. Para mudar é necessário renovar!  Todos os partidos de todas as ideologias concorrem com  candidatos novatos.  Não tem porque reeleger quem já teve sua chance e ajudou a criar o caos atual.  Por que alguém votaria em Tiririca, Aécio, Gleisi ou Dilma?  Será que não existe candidato ainda não testado que possa substituir esses? O foco deveria ser renovar Camara e Senado, lá sim pode fazer diferença.

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“vá ao encalço de homens de toda e qualquer região, passe a conhecê-los, cultive e fortaleça a amizade, cuide para que em suas respectivas localidades eles cabalem votos para você e defendam sua causa como se fossem eles os candidatos“.
(Pequeno Manual de Campanha EleitoralQuinto Túlio Cícero aconselhando o irmão Marco Cícero, quando este fazia campanha para o Consulado de Roma)

Nos últimos 24 anos o Brasil foi governado por criminosos divididos em duas facções, PSDB-PT, que agora fazem de tudo para escapar da cadeia.  Com exceção  do primeiro colocado nas pesquisas, os outros candidatos viáveis fazem ou fizeram parte dessa quadrilha.

Amoêdo seria uma excelente opção se não tivesse focado exclusivamente na questão econômica e na redução de gastos públicos. O Novo não percebeu, ou não soube comunicar, que o problema do Brasil é a criminalidade e o Estado grande, inchado e opressor, não apenas na economia, mas também no aspecto social querendo regrar o que se fala, faz, pensa, como educar filhos, o que comer.

Um deputado do baixo clero,  de reacionário sem importância passou a ser visto como o único político que batalhava contra o sistema estabelecido. Foram eles(PT/PSDB) quem colocaram  Bolsonaro sob os holofotes. Sem estrutura partidária, sem dinheiro, sem marketing profissional, atrapalhado por filhos limitados e militantes extremista, com um vice sem treinamento para enfrentar a mídia Bolsonaro uniu e deu esperança à população. Como no conselho para Cícero, Bolsonaro conseguiu que estranhos cabalem votos e defendam sua causa. Isso é um feito.  A esperança vence o medo.

O Estoico vota Bolsonaro, não por convicção, mas como voto de esperança na substituição do grupo que a tanto tempo governa irresponsavelmente.

(Imagem, busto de Marco Cícero, Museu Capitolino, Roma)

Dúvida do Leitor: Eram os estoicos politeístas?

Recentemente um leitor das Cartas de Sêneca me escreveu com a seguinte dúvida:  “Em algumas passagens das Cartas Estoicas percebi o uso da palavra ‘Deus‘, no singular e maiúsculo. Um exemplo é no Livro I, LVIII, 17. Mas os romanos não eram politeístas? Será que uma tradução mais acurada não seria ‘deuses‘, já que o monoteísmo da época estava relegado a uma pequena parcela das pessoas ?

Sêneca faz uso dos dois ternos em variadas cartas. Em muitas usa o singular “deus” e “deum” ao invés do “dei” e “deos”.  No trecho referido a tradução é  “Qual é, então, este Ser preeminente? Deus, certamente, aquele que é maior e mais poderoso do que qualquer outro.“ no original latim: “Quid ergo hoc est? Deus scilicet, maior ac potentior cunctis. ”

Na época de Sêneca havia liberdade religiosa no império Romano, que aceitava todos tipos de prática religiosa das mais diversas culturas e regiões conquistadas.

Os estoicos não eram politeístas, mas panteistas, ou seja acreditavam que tudo e todos compõem um Deus abrangente, imanente de forma que o Universo (Natureza) e Deus são idênticos.  (tipo a “força” no Star Wars)

Sêneca praticava um sincretismo do politeísmo romano com as ideias estoicas clássicas. Em seus textos algumas vezes cita os deuses e rituais romanos e outras vezes esse Deus único.  Penso que dá  mais respeito ao Deus único do que aos “deuses romanos”.

Na carta 16 Sêneca aborda algumas visões de Deus

“Como pode a filosofia me ajudar, frente a existência da Fortuna?” De que serve a filosofia, se Deus governa o universo? De que vale, se a fortuna governa tudo? Não só é impossível mudar as coisas que são determinadas, mas também é impossível planejar de antemão contra o que é indeterminado, ou Deus já antecipou meus planos, e decidiu o que devo fazer, ou então a fortuna não dá liberdade aos meus planos.

Se a verdade, Lucílio, está em uma ou em todas estas perspectivas, nós devemos ser filósofos; se a fortuna nos amarra por uma lei inexorável, ou se Deus, como árbitro do universo, providenciou tudo, ou se o acaso dirige e lança os assuntos humanos sem método, a filosofia deve ser nossa defesa. Ela nos encorajará a obedecer a Deus alegremente, e a fortuna desafiadoramente; ela nos ensinará a seguir a Deus e a suportar a fortuna.”

Na carta 31 é patente a visão panteísta:

“Seu dinheiro, entretanto, não o colocará em nível com Deus; porque Deus não tem posses. Seu manto bordado não fará isso; porque Deus não traja vestes; nem irá a sua reputação, nem a sua própria presença, nem a notoriedade de seu nome por todo o mundo; porque ninguém conhece a Deus; muitos até o tem em baixa estima, e não sofrem por fazê-lo. A multidão de escravos que carrega sua liteira ao longo das ruas da cidade e em lugares estrangeiros não irá ajudá-lo, porque este Deus de quem falo, embora seja o mais alto e poderoso dos seres, carrega todas as coisas em seus próprios ombros. Nem a beleza nem a força podem fazer você abençoado, pois nenhuma dessas qualidades pode resistir à velhice.

O que temos de procurar, então, é o que não passa cada dia mais e mais ao controle de algum poder que não pode ser resistido. E o que é isso? É a alma, mas a alma que é justa, boa e grande. O que mais você poderia chamar de tal alma do que um deus morando como convidado em um corpo humano? Uma alma como esta pode descer para um cavaleiro romano, assim como para um filho de liberto ou a um escravo. Pois o que é um cavaleiro romano, ou o filho de um liberto, ou um escravo? São meros títulos, nascidos da ambição ou do mal. Pode-se saltar para o céu das próprias favelas.”

Muitos estudioso entendem que o estoicismo foi a base dos primeiros cristãos. Eu concordo.

(imagem: Criação de Adão, Michelangelo)

 

Pensamento do Dia #38: Só se perde aquilo que já se tem

Epiteto diz:

Eu mantinha uma lamparina de ferro ao lado do altar, e ao ouvir um ruído perto da janela, corri até lá. Descobri que a lamparina fora furtada. E então? Amanhã, disse eu, você providenciará para si uma de argila. De fato, só se perde aquilo que já se tem.” (Discursos, I, 11)

Tratando do mesmo incidente, ele acrescenta esta reflexão:

O ladrão é mais forte que o homem que não o é. Foi por isso que perdi minha lamparina; porque, em se tratando de manter-se acordado, o ladrão foi melhor do que eu. Mas ele adquiriu a lamparina por um preço muito alto: por uma lamparina, ele se tornou um ladrão; por uma lamparina, ele se tornou desleal; Eis o que lhe pareceu vantajoso!“(Discursos, I, 12)

(imagem  lamparina a óleo romana)

Pensamento do Dia #38: As riquezas pertencem à classe das coisas desejáveis.

No ensaio A Vida Feliz Sêneca toca num ponto cheio de hipocrisia e  atual até hoje: a relação do dinheiro e virtude:

“Ninguém condenou a sabedoria à pobreza. O filósofo pode possuir ampla riqueza, mas não possuirá riqueza que tenha sido arrancada de outro, ou que esteja manchada com o sangue de outra pessoa: ela deve ser obtida sem prejudicar qualquer homem e sem que ela seja obtida por meios vis; deve ser honrosamente acessível e honrosamente gasta.” (XXIII,1)

“Se as minhas riquezas me deixarem, não levarão consigo nada além de si mesmas: já vocês ficarão desnorteadas e parecerão ficar fora de si se as perderem: comigo as riquezas ocupam um certo lugar, mas com você elas ocupam lugar mais alto de todos. Em suma, minhas riquezas pertencem a mim, você pertence às suas riquezas.” (XXII, 5)

(imagem O beijo de Gustav Klimt, Belvedere-Viena)

 

 

11 Setembro 2001

“Timágenes, que tinha rancor contra Roma e sua prosperidade, costumava dizer que a única razão pela qual se entristece quando incêndios ocorrem em Roma é devido ao seu conhecimento de que surgirão edifícios melhores no lugar daqueles que caem pelas chamas.” ( Sêneca – Carta XCI, 13)