Carta 38: Sobre o Ensinamento Tranquilo

Esta carta é muito curta, mas quando o leitor reflete sobre ela no contexto do restante correspondência em desenvolvimento, tem o potencial de se transformar em um conjunto substancial de idéias. O uso de texto como meio de ensino contrasta Sêneca com dois de seus contemporâneos. Sabe-se que Epiteto e Musônio não escreveram livros, mas proferiram discursos que foram registrados por outros.

Afirma que oratória é útil para atrair o estudante, mas não para instruí-lo:

“quando o objetivo é fazer com que um homem aprenda e não apenas para fazê-lo desejar aprender, devemos recorrer às palavras em baixo tom de conversa. Elas entram mais facilmente, e ficam na memória; pois não precisamos de muitas palavras, mas palavras mais eficazes.” (XXXVIII,1)

Na segunda metade, Sêneca responde indiretamente à crítica de Platão da palavra escrita. Ele faz uso de sua imagem do professor como um semeador. Ele primeiro compara as palavras às sementes, depois à razão e finalmente aos preceitos. Ele enfatiza a natureza orgânica de tudo isso. Sementes devem encontrar um solo adequado na mente do ouvinte, têm seu próprio poder (vires suas) e crescem de algo pequeno para algo grande. De fato, em uma boa mente, elas retornarão mais do que foi investido.

Sêneca enfatiza repetidamente que não são necessárias muitas palavras, apenas efetivas, e ele reforça esse argumento por meio da natureza curta da própria carta.

(imagem: Cícero, famoso por sua oratória, denuncia Catilina, por Cesare Maccari)


XXVIII. Sobre o Ensinamento Tranquilo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Você está certo quando você pede que aumentemos nosso tráfego mútuo de cartas. Mas o maior benefício é derivado da conversa, porque ela se desliza gradualmente até a alma. Palestras preparadas de antemão e lançadas na presença de uma multidão têm nelas mais barulho, mas menos intimidade. Filosofia é um bom conselho; e ninguém pode dar conselhos gritando com toda sua força. É claro que às vezes também devemos usar esses discursos bombásticos, se assim posso chamá-los, quando um membro duvidoso precisa ser estimulado a esporas; mas quando o objetivo é fazer com que um homem aprenda e não apenas para fazê-lo desejar aprender, devemos recorrer às palavras em baixo tom de conversa. Elas entram mais facilmente, e ficam na memória; pois não precisamos de muitas palavras, mas palavras mais eficazes.
  2. As palavras devem ser espalhadas como sementes; não importa quão pequena a semente possa ser, se uma vez encontrou terreno favorável, desdobra sua força e de uma coisa insignificante se espalha para seu grandioso crescimento. A razão cresce da mesma maneira; não é grande à primeira vista, mas aumenta à medida que faz seu trabalho. Poucas palavras são ditas; mas se a mente realmente as apanha, elas entram em vigor e brotam. Sim, ensinamentos e sementes têm a mesma qualidade; eles produzem muito, e ainda assim são pequenas coisas. Apenas, como eu disse, deixe uma mente favorável recebê-las e assimilá-las. Então, por si só, a mente também produzirá abundantemente por sua vez, retribuindo com mais do que recebeu.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Carta 37: Sobre a lealdade à virtude

Na carta 37 Sêneca procura persuadir o leitor a perseverar no estudo da filosofia com um efeito emocional, comparando o discípulo a um soldado que se alista voluntariamente.
Lucílio deve se enxergar como um soldado lutando contra as paixões pela liberdade.  Como filósofo, Lucílio se alistou não apenas para enfrentar a morte, mas para fazê-lo de boa vontade e com prazer, sem esperança de remissão:

O gladiador pode abaixar sua arma e testar a piedade do povo; mas você não abaixará a sua arma nem suplicará pela vida. Você deve morrer ereto e inflexível. Além disso, que lucro é ganhar alguns dias ou alguns anos? Não há absolvição para nós desde o momento em que nascemos.“(XXXVII, 2)

Sêneca conclui a carta afirmando que a sabedoria e razão é o caminho para liberdade e felicidade:

coloque-se sob o controle da razão; se a razão se tornar sua governante, você se tornará governador de muitos.” (XXXVII, 4)
É vergonhoso, em vez de seguir em frente, ser levado e, de repente, em meio ao redemoinho dos acontecimentos, perguntar de forma aturdida: ‘Como é que eu entrei nessa situação?'”.(XXXVII, 5)

(imagem: Pollice Verso (polegar para baixo) – por Jean-Léon Gérôme )


XXXVII. Sobre a lealdade à virtude

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1.  Você prometeu ser um homem bom; você se alistou sob juramento; esta é a corrente mais forte que irá mantê-lo no bom discernimento. Qualquer homem estará zombando de você, se declarar que este é um tipo de alistamento afeminado e fácil. Eu não vou lhe enganar. A palavra deste pacto mais honroso é a mesma que as palavras daquele mais vergonhoso, a saber: “Por tortura, prisão ou morte pela espada[1]“.

2. Dos homens que vendem suas forças na arena, que comem e bebem o que devem pagar com seu sangue, é certo que suportarão tais provações mesmo que relutantemente; de você, que as suporte voluntariamente e com empenho. O gladiador pode abaixar sua arma e testar a piedade do povo; mas você não abaixará a sua arma nem suplicará pela vida. Você deve morrer ereto e inflexível. Além disso, que lucro é ganhar alguns dias ou alguns anos? Não há absolvição para nós desde o momento em que nascemos.

3. “Então, como posso me libertar?” Você pergunta. Você não pode fugir das necessidades, mas pode superá-las:

pela força um caminho é aberto. Fit via vi. [2]
    E esta maneira lhe será dada pela filosofia. Recorra, portanto, da filosofia, se quiser estar seguro, tranquilo, feliz, se quiser ser – e isso é mais importante, – livre. Não há outra maneira de atingir esse fim.

4. A estupidez[3] é baixa, abjeta, má, servil e exposta a muitas das paixões mais cruéis. Essas paixões, que são capatazes severos, às vezes governam em turnos, e às vezes juntos, podem ser banidos de você pela sabedoria, que é a única liberdade real. Há apenas um caminho que leva para lá, e é um caminho reto; você não se extraviará. Prossiga com passo firme, e se você tiver todas as coisas sob seu controle, coloque-se sob o controle da razão; se a razão se tornar sua governante, você se tornará governador de muitos. Você aprenderá com ela o que deve empreender e como deve ser feito; você não vai errar nas coisas.

5. Você não pode me mostrar nenhum homem que saiba como ele começou a desejar o que ele deseja. Ele não foi levado a esse passo por premeditação; ele foi dirigido por impulso. A fortuna nos ataca quantas vezes atacarmos a Fortuna. É vergonhoso, em vez de seguir em frente, ser levado e, de repente, em meio ao redemoinho dos acontecimentos, perguntar de forma aturdida: “Como é que eu entrei nessa situação?”.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1] Sêneca se refere ao famoso juramento que o gladiador tomava quando em contrato com o mestre de luta; Uri, vinciri, verberari ferroque necari patior; O juramento é abreviado no texto, provavelmente pelo próprio Sêneca, que o parafraseia na carta LXXI.

[2] Trecho de Eneida de Virgílio.

[3] Na linguagem do estoicismo, a estupidez, “stultitia“, é a antítese da “sapientia”, sabedoria.

Vídeo: Na lavoura da minha vida

Na lavoura da minha vida

Recebi de um seguidor da página o vídeo abaixo. Infelizmente não sei a autoria.

é um excelente resumo do estoicismo:

 

tive que aprender
que só podia colher
daquilo que plantei;

que eu perceba sim,
que aquilo que vem pra mim
é porque fui lá buscar;

Que nunca tenha inveja
da riqueza de ninguém
Se um dia eu ficar rico,
que perceba também
que granfino ou da ralé
agente é aquilo que é
e não aquilo que tem;

aquilo que tem valor
dinheiro não vai comprar
consciência, atitude,
estória para se contar;

o resto é tudo passageiro
e no dia derradeiro
ninguém consegue levar;

ter na conta honestidade
é nossa maior riqueza

Eleição 2018

“…os partidos são convocados e os candidatos estão fazendo oferendas em seus templos favoritos – alguns deles prometendo brindes em dinheiro e outros fazendo negócios por meio de um agente, ou desgastando as mãos com os beijos desses a quem eles recusarão o mínimo toque depois de serem eleitos, você não acha agradável, eu digo, ficar em paz e olhar para esta feira de vaidades sem comprar ou vender?
4. Quão grande alegria se sente quem olha sem preocupação, não apenas para a eleição de um pretor ou de um cônsul, mas para essa grande luta em que alguns procuram honras efêmeras e outros o poder permanente.”
(Sêneca , Carta CXVIII. Sobre a Futilidade da busca de Cargos, 3-4 )

Dito isso, assim como Sêneca muitas vezes fez, vamos agir em oposição ao pregado.

Vejo muito debate e discussão sobre a eleição presidencial e quase nada sobre o legislativo, contudo, em uma democracia representativa o poder está com os deputados e senadores. É muito claro que pouquíssimos estão satisfeitos com a política brasileira. Para mudar é necessário renovar!  Todos os partidos de todas as ideologias concorrem com  candidatos novatos.  Não tem porque reeleger quem já teve sua chance e ajudou a criar o caos atual.  Por que alguém votaria em Tiririca, Aécio, Gleisi ou Dilma?  Será que não existe candidato ainda não testado que possa substituir esses? O foco deveria ser renovar Camara e Senado, lá sim pode fazer diferença.

—-

“vá ao encalço de homens de toda e qualquer região, passe a conhecê-los, cultive e fortaleça a amizade, cuide para que em suas respectivas localidades eles cabalem votos para você e defendam sua causa como se fossem eles os candidatos“.
(Pequeno Manual de Campanha EleitoralQuinto Túlio Cícero aconselhando o irmão Marco Cícero, quando este fazia campanha para o Consulado de Roma)

Nos últimos 24 anos o Brasil foi governado por criminosos divididos em duas facções, PSDB-PT, que agora fazem de tudo para escapar da cadeia.  Com exceção  do primeiro colocado nas pesquisas, os outros candidatos viáveis fazem ou fizeram parte dessa quadrilha.

Amoêdo seria uma excelente opção se não tivesse focado exclusivamente na questão econômica e na redução de gastos públicos. O Novo não percebeu, ou não soube comunicar, que o problema do Brasil é a criminalidade e o Estado grande, inchado e opressor, não apenas na economia, mas também no aspecto social querendo regrar o que se fala, faz, pensa, como educar filhos, o que comer.

Um deputado do baixo clero,  de reacionário sem importância passou a ser visto como o único político que batalhava contra o sistema estabelecido. Foram eles(PT/PSDB) quem colocaram  Bolsonaro sob os holofotes. Sem estrutura partidária, sem dinheiro, sem marketing profissional, atrapalhado por filhos limitados e militantes extremista, com um vice sem treinamento para enfrentar a mídia Bolsonaro uniu e deu esperança à população. Como no conselho para Cícero, Bolsonaro conseguiu que estranhos cabalem votos e defendam sua causa. Isso é um feito.  A esperança vence o medo.

O Estoico vota Bolsonaro, não por convicção, mas como voto de esperança na substituição do grupo que a tanto tempo governa irresponsavelmente.

(Imagem, busto de Marco Cícero, Museu Capitolino, Roma)

Dúvida do Leitor: Eram os estoicos politeístas?

Recentemente um leitor das Cartas de Sêneca me escreveu com a seguinte dúvida:  “Em algumas passagens das Cartas Estoicas percebi o uso da palavra ‘Deus‘, no singular e maiúsculo. Um exemplo é no Livro I, LVIII, 17. Mas os romanos não eram politeístas? Será que uma tradução mais acurada não seria ‘deuses‘, já que o monoteísmo da época estava relegado a uma pequena parcela das pessoas ?

Sêneca faz uso dos dois ternos em variadas cartas. Em muitas usa o singular “deus” e “deum” ao invés do “dei” e “deos”.  No trecho referido a tradução é  “Qual é, então, este Ser preeminente? Deus, certamente, aquele que é maior e mais poderoso do que qualquer outro.“ no original latim: “Quid ergo hoc est? Deus scilicet, maior ac potentior cunctis. ”

Na época de Sêneca havia liberdade religiosa no império Romano, que aceitava todos tipos de prática religiosa das mais diversas culturas e regiões conquistadas.

Os estoicos não eram politeístas, mas panteistas, ou seja acreditavam que tudo e todos compõem um Deus abrangente, imanente de forma que o Universo (Natureza) e Deus são idênticos.  (tipo a “força” no Star Wars)

Sêneca praticava um sincretismo do politeísmo romano com as ideias estoicas clássicas. Em seus textos algumas vezes cita os deuses e rituais romanos e outras vezes esse Deus único.  Penso que dá  mais respeito ao Deus único do que aos “deuses romanos”.

Na carta 16 Sêneca aborda algumas visões de Deus

“Como pode a filosofia me ajudar, frente a existência da Fortuna?” De que serve a filosofia, se Deus governa o universo? De que vale, se a fortuna governa tudo? Não só é impossível mudar as coisas que são determinadas, mas também é impossível planejar de antemão contra o que é indeterminado, ou Deus já antecipou meus planos, e decidiu o que devo fazer, ou então a fortuna não dá liberdade aos meus planos.

Se a verdade, Lucílio, está em uma ou em todas estas perspectivas, nós devemos ser filósofos; se a fortuna nos amarra por uma lei inexorável, ou se Deus, como árbitro do universo, providenciou tudo, ou se o acaso dirige e lança os assuntos humanos sem método, a filosofia deve ser nossa defesa. Ela nos encorajará a obedecer a Deus alegremente, e a fortuna desafiadoramente; ela nos ensinará a seguir a Deus e a suportar a fortuna.”

Na carta 31 é patente a visão panteísta:

“Seu dinheiro, entretanto, não o colocará em nível com Deus; porque Deus não tem posses. Seu manto bordado não fará isso; porque Deus não traja vestes; nem irá a sua reputação, nem a sua própria presença, nem a notoriedade de seu nome por todo o mundo; porque ninguém conhece a Deus; muitos até o tem em baixa estima, e não sofrem por fazê-lo. A multidão de escravos que carrega sua liteira ao longo das ruas da cidade e em lugares estrangeiros não irá ajudá-lo, porque este Deus de quem falo, embora seja o mais alto e poderoso dos seres, carrega todas as coisas em seus próprios ombros. Nem a beleza nem a força podem fazer você abençoado, pois nenhuma dessas qualidades pode resistir à velhice.

O que temos de procurar, então, é o que não passa cada dia mais e mais ao controle de algum poder que não pode ser resistido. E o que é isso? É a alma, mas a alma que é justa, boa e grande. O que mais você poderia chamar de tal alma do que um deus morando como convidado em um corpo humano? Uma alma como esta pode descer para um cavaleiro romano, assim como para um filho de liberto ou a um escravo. Pois o que é um cavaleiro romano, ou o filho de um liberto, ou um escravo? São meros títulos, nascidos da ambição ou do mal. Pode-se saltar para o céu das próprias favelas.”

Muitos estudioso entendem que o estoicismo foi a base dos primeiros cristãos. Eu concordo.

(imagem: Criação de Adão, Michelangelo)

 

Carta 36: Sobre o Valor da Aposentadoria

Na carta 36 Sêneca discute as vantagens de ser afastar dos negócios e da vida pública, para o que chama de “Otium” um termo abstrato em latim,  que tem uma variedade de significados, incluindo o tempo de lazer em que uma pessoa pode gastar para comer, brincar, descansar, contemplação e esforços acadêmicos.

Estabelece uma antítese no início da carta entre o sucesso popular (felicitas), que seria sucesso na carreira pública, e uma vida de aposentadoria (otium) sendo a segunda a vida ideal . O sucesso popular é instável, já que está sob controle da Fortuna. Além disso, seu efeito sobre aqueles que o recebem não é saudável:

“A prosperidade é uma coisa turbulenta; ela atormenta. Ela agita o cérebro em mais de um sentido, incitando os homens a vários objetivos, alguns para o poder, e outros para a vida luxuosa. Alguns ela enche de orgulho; outros afrouxa e debilita totalmente.” (XXXVI.1)

A escolha entre a vida pública e a aposentadoria(retiro) foi um tema importante para os filósofos antigos, sobre o qual Sêneca escreveu com a experiência de ambos os estilos de vida. É um tópico que ele apresenta em vários de seus diálogos e cartas, inclusive na Carta VIII, já comentada no site.

A aposentadoria está intimamente ligada ao verdadeiro sucesso de Sêneca. Teoricamente, o estado interno de “vida feliz”  é possível, independentemente das circunstâncias externas. Na prática, no entanto, o retiro é uma grande ajuda para o progresso filosófico devido a distância da influência prejudicial da multidão.

Para Sêneca, A Vida Feliz consiste em duas qualidades: Tranquilidade da Mente e Liberdade do Medo (securitas et perpetua tranquillitas).A aposentadoria é uma grande ajuda para alcançar a tranquilidade da mente. A liberdade do medo é alcançada com a aceitação da morte, tema da segunda metade da carta.

A partir do parágrafo 8 Sêneca oferece uma perspectiva científica sobre a morte:

“A o que, então, esse amigo seu dedicará sua atenção? Eu digo, que aprenda o que é útil contra todas as armas, contra todo tipo de inimigo, – o desprezo pela morte;” (XXXVI.8)

Nos parágrafos 10-11, Sêneca convida o leitor a ver nos ciclos cósmicos da natureza uma segurança para encarar a morte calmamente.

“Uma vez que você está destinado a retornar, você deve partir com uma mente tranquila. Perceba como o percurso do universo repete seu curso; você verá que nenhuma estrela em nosso firmamento é extinguida, mas que todas elas surgem e se erguem em alternância. O verão foi embora, mas outro ano o trará de novo;” (XXXVI.11)

No  livro “Das Questões Naturais“, Sêneca coloca o estudo da natureza em um plano superior ao de outros ramos da filosofia: Estudar ciências seria o estudo de Deus já os outros temas seria o estudo dos humanos.

Conclui a carta com uma analogia forte, mostrando que não é racional temer a morte:

“os jovens e os que ficaram loucos, não têm medo da morte, e é muito vergonhoso se a razão não pode nos dar essa paz de espírito que é trazida pela loucura.”(XXXVI.12)

(imagem:  Alegoria da Fortuna, por Salvator Rosa)

 


XXXVI. Sobre o Valor da Aposentadoria

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Incentive seu amigo a desprezar corajosamente aqueles que o censuram porque ele procurou a sombra da aposentadoria e abdicou de sua carreira de honras, e, embora pudesse ter alcançado mais, preferiu a tranquilidade. Deixe-o provar diariamente a estes detratores como sabiamente ele defendeu seus próprios interesses. Aqueles que são invejados pelos homens passam ao largo; alguns serão empurrados para fora de sua posição social, e outros cairão. A prosperidade é uma coisa turbulenta; ela atormenta. Ela agita o cérebro em mais de um sentido, incitando os homens a vários objetivos, alguns para o poder, e outros para a vida luxuosa. Alguns ela enche de orgulho; outros afrouxa e debilita totalmente.
  2. “Mas”, diz a réplica, “Fulano conduz bem a sua prosperidade”. Sim; assim como ele controla sua bebida. Então você precisa não deixar que essa classe de homens o persuada que aquele que é sitiado pela multidão é feliz; a multidão corre para ele como correm para uma lagoa de água, tornando-a lamacenta enquanto a drenam. Mas você diz: “Os homens chamam nosso amigo de insignificante e preguiçoso“. Há homens, você sabe, cujo discurso é oblíquo, que usam termos contraditórios. Eles o chamavam de feliz; e daí? Ele era feliz?
  3. Mesmo o fato de que a algumas pessoas ele se pareça a um homem de mente muito áspera e sombria, não me incomoda. Aristo[2] costumava dizer que preferia um jovem sisudo a um homem jovial e agradável à multidão. “Pois“, acrescentava, “vinho que, quando novo, parecia áspero e azedo, torna-se bom vinho, mas o que provou bem na vindima pode não suportar a idade.” Então, que eles o chamem de severo e inimigo de seu próprio progresso, é essa severidade que irá bem quando envelhecer, desde que continue a apreciar a virtude e a absorver completamente os estudos que faz para a cultura – não aqueles suficientes para que um homem se borrife, mas aqueles em que a mente deve ser mergulhada.
  4. Agora é a hora de aprender. “O que? Há alguma época em que um homem não deva aprender?” De jeito nenhum; mas assim como é meritório para todas as idades estudar, não é meritório para todas as idades ser instruído. Um homem velho que aprende seu ABC é uma coisa vergonhosa e absurda; o jovem deve armazenar, o velho deve usar. Você, portanto, estará fazendo uma coisa mais útil para si mesmo se você fizer este amigo seu um homem tão bom quanto possível; essas bondades, dizem eles, devem ser buscadas e concedidas, pois beneficiam ao doador não menos que ao receptor; e elas são, sem dúvida, as melhores.
  5. Finalmente, não tem mais nenhuma liberdade no assunto, aquele que empenhou sua palavra. E é menos vergonhoso renegociar com um credor do que renegociar com um futuro promissor. Para pagar sua dívida de dinheiro, o homem de negócios deve ter uma viagem lucrativa, o agricultor deve ter campos frutíferos e bom tempo, mas a dívida que seu amigo deve pode ser completamente paga por mera boa vontade.
  6. A fortuna não tem jurisdição sobre o caráter. Permita regular seu caráter de modo que em perfeita paz possa trazer à perfeição aquele espírito que não sente perda nem ganho, mas que permanece na mesma atitude, não importa como as coisas se dão. Um espírito como este, se agraciado com bens mundanos, se eleva à sua riqueza; se, por outro lado, o acaso o despoja de uma parte de sua riqueza, ou mesmo de tudo, não é prejudicado.
  7. Se seu amigo tivesse nascido no Império Parta, ele teria começado, quando criança, a dobrar o arco; se na Alemanha, estaria brandindo a sua esguia lança; se ele tivesse nascido nos dias de nossos antepassados, ele teria aprendido a montar um cavalo e a castigar seu inimigo mão a mão. Estas são as ocupações que o sistema de cada estirpe recomenda ao indivíduo, – sim, prescreve a ele.
  8. A o que, então, esse amigo seu dedicará sua atenção? Eu digo, que aprenda o que é útil contra todas as armas, contra todo tipo de inimigo, – o desprezo pela morte; porque ninguém duvida que a morte tenha em si algo que inspire o terror, de modo que choca até mesmo nossas almas, que a natureza as moldou para que amem sua própria existência; pois de outro modo não haveria necessidade de nos preparar, e de aguçar nossa coragem, para encarar o que deveria ser uma espécie de instinto voluntário, precisamente da mesma forma como todos os homens tendem a preservar sua existência.
  9. Nenhum homem aprende uma coisa a fim de que, se a necessidade surgir, ele possa se deitar sobre um leito de rosas; mas ele prepara sua coragem para este fim, para que não entregue sua fé à tortura, e que, se necessário, possa algum dia ficar de guarda nas trincheiras, mesmo ferido, sem se apoiar na sua lança; porque o sono é capaz de rastejar sobre os homens que se sustentam por qualquer suporte. Na morte não há nada prejudicial; pois deve existir algo a que ela é prejudicial[3].
  10. E ainda, se você está possuído por tão grande desejo de uma vida mais longa, reflita que nenhum dos objetos que desaparecem do nosso olhar e são reabsorvidos no mundo das coisas, de onde eles surgem e em breve irão ressurgir, é aniquilado; eles simplesmente terminam o seu curso e não perecem. E a morte, de que tememos e nos afastamos, simplesmente interrompe a vida, mas não a rouba; o tempo voltará quando seremos restaurados à luz do dia; e muitos homens opor-se-iam a isso, se não fossem trazidos de volta tendo esquecido o passado.
  11. Mas quero mostrar-lhe mais tarde, com mais cuidado, que tudo o que parece perecer apenas muda. Uma vez que você está destinado a retornar, você deve partir com uma mente tranquila. Perceba como o percurso do universo repete seu curso; você verá que nenhuma estrela em nosso firmamento é extinguida, mas que todas elas surgem e se erguem em alternância. O verão foi embora, mas outro ano o trará de novo; O inverno está baixo, mas será restaurado por seus próprios meses; A noite dominou o sol, mas o dia logo derrubará a noite outra vez. As estrelas nômadas retraçam seus cursos anteriores; uma parte do céu está em ascensão incessantemente, e uma parte está afundando.
  12. Uma palavra mais, e então vou parar; os meninos, os jovens e os que ficaram loucos, não têm medo da morte, e é muito vergonhoso se a razão não pode nos dar essa paz de espírito que é trazida pela loucura.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[2] Aríston ou Aristo de Quios foi um filósofo estoico e discípulo de Zenão de Cítio. Esboçou um sistema de filosofia estoica que esteve, em muitos aspectos, mais próximo da anterior filosofia cínica. Rejeitou o lado lógico e físico da filosofia aprovada por Zenão e enfatizou a ética.

[3] Como depois da morte, nós não existimos, a morte não pode ser prejudicial para nós. Sêneca tem em mente o argumento de Epicuro: “Portanto, o mais pavoroso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois quando nós existimos, a morte não está presente para nós, e quando a morte está presente, então não existimos. Portanto, não diz respeito aos vivos ou aos mortos, pois para os vivos não tem existência, e para os mortos não existe. “

Pensamento do Dia #38: Só se perde aquilo que já se tem

Epiteto diz:

Eu mantinha uma lamparina de ferro ao lado do altar, e ao ouvir um ruído perto da janela, corri até lá. Descobri que a lamparina fora furtada. E então? Amanhã, disse eu, você providenciará para si uma de argila. De fato, só se perde aquilo que já se tem.” (Discursos, I, 11)

Tratando do mesmo incidente, ele acrescenta esta reflexão:

O ladrão é mais forte que o homem que não o é. Foi por isso que perdi minha lamparina; porque, em se tratando de manter-se acordado, o ladrão foi melhor do que eu. Mas ele adquiriu a lamparina por um preço muito alto: por uma lamparina, ele se tornou um ladrão; por uma lamparina, ele se tornou desleal; Eis o que lhe pareceu vantajoso!“(Discursos, I, 12)

(imagem  lamparina a óleo romana)

Carta 35: Sobre a Amizade entre Mentes Semelhantes

Na carta 35 Sêneca fala da relação entre amor a amizade verdadeira.

A mensagem é especialmente importante para quem tem filhos, como já percebemos no primeiro parágrafo:

“… quem lhe ama não é, em todos os casos, seu amigo. A amizade, portanto, é sempre útil, mas o amor, às vezes, faz mal. Tente aperfeiçoar-se, se não por outra razão, para que você possa aprender como amar.” (XXXV, 1)

De acordo com Sêneca o amor perfeito é aquele o qual todo egoísmo é removido, tornando-se igual a amizade verdadeira

Conclui a carta lembrando que a constância de objetivo é sinal de sabedoria:
quando quiser descobrir se conseguiu alguma coisa, considere se você deseja as mesmas coisas hoje que você desejou ontem.” (XXXV, 4)

(Imagem, Cornélia, por Joseph-Benoît Suvée, Louvre.   Cornélia Africana  mãe dos irmãos Gracos, conhecida pela sua virtude e força de caráter)


XXXV. Sobre a Amizade entre Mentes Semelhantes

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Quando eu insisto com tanta força em seus estudos, é meu próprio interesse que eu estou defendendo; quero sua amizade, e ela não me será proveitosa a menos que você continue, com a tarefa de se desenvolver. Por enquanto, embora me ame, você ainda não é meu amigo. “Mas,” você responde, “Têm essas palavras significado diferente?” Não, mas ainda, elas são totalmente diferentes em significado. Um amigo lhe ama, é claro; mas quem lhe ama não é, em todos os casos, seu amigo. A amizade, portanto, é sempre útil, mas o amor, às vezes, faz mal. Tente aperfeiçoar-se, se não por outra razão, para que você possa aprender como amar.
  2. Apresse-se, portanto, para que, enquanto aperfeiçoa-se para meu benefício, você não tenha aprendido a perfeição em benefício de outrem. Com certeza, já estou obtendo algum lucro ao imaginar que nós dois seremos de uma só mente, e que qualquer parte da minha força que tenha cedido à idade retornará para mim por sua força, embora não haja tanta diferença em nossas idades.
  3. Mas ainda assim desejo me alegrar no fato consumado. Nós sentimos uma alegria por aqueles que amamos, mesmo quando separados deles, mas tal alegria é leve e passageira; A visão de uma pessoa, a sua presença e a comunhão com ela, proporcionam algo de prazer vivo; isso é verdade, de alguma maneira, se alguém não só vê o homem que deseja, mas o tipo de homem que deseja. Doe-se a mim, portanto, como um presente de grande preço, e, para que você possa esforçar-se mais, reflita que você mesmo é mortal, e que eu sou velho.
  4. Apresse-se a me encontrar, mas apresse-se a encontrar-se em primeiro lugar. Progrida e, antes de tudo, procure ser consistente consigo mesmo. E quando quiser descobrir se conseguiu alguma coisa, considere se você deseja as mesmas coisas hoje que você desejou ontem. Um deslocamento da vontade indica que a mente está ao mar, indo em várias direções, de acordo com o curso do vento. Mas o que está estabelecido e sólido não vagueia de seu posto. Este é o terreno abençoado do homem completamente sábio, e também, em certa medida, daquele que está progredindo e tem feito alguns avanços. Qual é a diferença entre essas duas classes de homens? Um está em movimento, com certeza, mas não muda sua posição; simplesmente debate-se a cima e a baixo onde está; O outro não está absolutamente em movimento.

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Livro: Da Clemência ( Tratado sobre a Clemência)

De Clementia, Da Clemência, também traduzido como Tratado sobre a Clemência, é um ensaio de originalmente três volumes dos quais apenas o primeiro e parte do segundo sobreviveram. Foi escrito em 55-56 d.C. por Sêneca, dedicado ao imperador Nero no seu primeiro (ou segundo) ano de reinado.

No De Clementia Sêneca desenvolve suas reflexões sobre o poder do estado e sobre a diferença entre o tirano e o bom rei. Traça a imagem de um governante que reina, como representante dos deuses. Explica que o poder absoluto pode ser legitimado e justificado pela prática da clemência, mantendo assim a ordem e organizando um consenso entre os homens. Ao ser clemente, ao ser virtuoso, o imperador se torna útil ao bem público, se porta segundo à Natureza, se conforma ao Logos, à Fortuna.

Na obra vemos como a clemência deve ser exercitada principalmente por aqueles que podem socialmente exercer poder sobre outros: príncipes, professores, militares, pais, considerando que o dano causado por um erro de julgamento por estes, quando afetados por alguma paixão, será profundamente danoso para quem recebe a punição e para quem a ordena. Para o príncipe, a prática da clemência, além de evitar a formação de oposições, de legitimar seu poder e de lhe garantir direito de sucessão, fornece estabilidade e segurança no poder. Enquanto o tirano, o mau imperador é perseguido e vive sem tranquilidade, o rei-filosofo, o bom e clemente imperador vive em paz, pois conta com o amor e não com o temor dos súditos:

“… ser poderoso apenas para o mal é o poder de uma pestilência. A grandeza do homem repousa sobre um alicerce seguro, a quem todos os homens sabem estar tanto do lado deles quanto acima deles, de cujo cuidado vigilante pela segurança de cada um e de todos eles recebem provas diárias, aquele cuja presença não os faz fugirem aterrorizados, como se algum animal perigoso e malévolo tivesse surgido de seu covil, mas os reunissem para ele como fariam com o brilho do sol. Eles estão perfeitamente prontos para atirar-se nas espadas dos conspiradores em sua defesa, para oferecer seus corpos se seu único caminho para a segurança deva ser formado por cadáveres: eles protegem seu sono em vigílias noturnas, eles o cercam e o defendem de todos os lados, e expõem-se aos perigos que o ameaçam.”(I,III,3)

“Clemência, portanto, como eu disse antes, naturalmente se adapta a toda a humanidade, mas mais especialmente aos governantes, porque no caso deles há mais para se salvar, e isso é exibido em uma escala maior. Crueldade em um homem privado pode causar muito pouco dano; mas a ferocidade dos príncipes é guerra.” (I,V,2)

O contraste instrucional entre o bom governante e o tirano é feito inicialmente de forma teórica, passando então para exemplos de governantes tiranos, como Sulla e Calígula servindo de advertência e Augusto como exemplo a ser seguido. Uma ilustração extensa da clemência de Augusto com o rebelde Cinna ao lado de um exemplo da própria vida de Nero pretende encorajar o jovem imperador a também mostrar clemência. (Livro I, capítulos IX-XVI). Sêneca afirma que excesso de punição é ruim para a moral da nação:

“Uma proposta foi feita uma vez no Senado para distinguir escravos de homens livres por suas roupas: foi então descoberto quão perigoso seria se nossos escravos pudessem contar seus números. Esteja certo de que a mesma coisa seria o caso se nenhuma ofensa fosse perdoada: descobrir-se-á rapidamente até que ponto o número de homens maus excede o dos bons”. (I, XXIV, 1)

No Livro II Sêneca relembra a Nero um episódio em que este havia demostrado clemência e o com isso atingido seus objetivos e demonstrado clareza de raciocínio e bondade. Na sequência explana que a Clemência se trata de uma virtude que requer equilíbrio na sua aplicação: não é oportuno ter uma clemência promíscua e banal, nem uma clemência inacessível, pois tanto é cruel perdoar a todos quanto a ninguém.

São quatro as definições da clementia senequiana: (II,III,2-3)

  • “Clemência é a moderação de espírito humano no desempenho do poder de castigar”;
  • “A brandura do superior em face do inferior, quando da aplicação da pena”;
  • “Inclinação da mente para o abrandamento no ato de impor um castigo”;
  • ” … a clemência é a moderação que retira alguma coisa de uma punição merecida e devida”.

Sêneca considera a misericórdia um vício, e a define como sendo a corrupção da virtude da clemência:

“Agora, cabe investigar o que é misericórdia. Muitos que a exaltam como virtude e denominam a pessoa boa de misericordiosa. Ora, esta é um vício de alma. Ficou estabelecido, acima, o que deve ser conceituado acerca da severidade e da clemência. Sob a máscara de severidade podemos decair na crueldade enquanto sob a aparência de clemência cair para a misericórdia”. (II,IV,4)

“O perdão é a remissão de uma punição merecida; Um homem concede perdão a aquele a quem ele deveria punir: agora o homem sábio não faz nada que não deva fazer, e não omite nada que deva fazer: ele não remete, portanto, nenhuma punição que deva proferir. “(II,VII,1-2)

Portanto, a clemência estaria mais próxima de uma correção da lei cuja universalidade a faz falha. Seria uma espécie de justiça exercida por uma instância superior, de caráter humanitário, que ao soberano permite sobrepor-se às leis escritas pelos homens.

Esta obra influenciou pensadores importantes da Idade Média e do Renascimento. Um exemplo é o Reformador Francês João Calvino. Pouco depois de terminar seus estudos de direito, o jovem João Calvino escreveu seu primeiro livro, um comentário sobre De Clementia que consiste principalmente de notas filológicas intercaladas com impressões sobre o estilo e as ideias de Sêneca. Em sua obra Institutas da Religião Cristã, Calvino aborda o papel das autoridades civis na punição e a importância retomando conceitos da obra.

Infelizmente o ensaio nos chegou incompleto, de acordo com o texto tradicional, o texto deve ter sido escrito em três livros. Das três partes, os manuscritos oferecem somente o livro I e os sete primeiros capítulos do livro II. O livro III está totalmente perdido. Aliás, não se sabe, com toda a certeza, se parte da obra se perdeu ou se Sêneca jamais a concluiu. Do livro I, temos o texto completo e, o tema. Do livro II, o sumário anuncia que tratará da natureza da clemência e dos sinais que a diferenciam dos vícios. Mesmo inacabado, o assunto e o sumário conferem. O livro III, ainda segundo o sumário, tratará de ensinar, através de conselhos práticos, como se pode levar o espírito humano para o exercício da clemência. Deste livro nada restou.

A obra resume o conceito de poder segundo a filosofia estoica: a autoridade aristocrática que domina o povo, retendo suas tendências anárquicas, contribuindo para a ordem e desenvolvimento, provém de sua própria grandeza e poder, que, por sua vez, pertencem aos deuses os quais o soberano representa.

(imagem Relevo do monumento a Marco Aurélio, Clemência aos suplicantes bárbaros , Museu Capitolino, Roma, Itália)

Livro disponível na lojas:

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Pensamento do Dia #38: As riquezas pertencem à classe das coisas desejáveis.

No ensaio A Vida Feliz Sêneca toca num ponto cheio de hipocrisia e  atual até hoje: a relação do dinheiro e virtude:

“Ninguém condenou a sabedoria à pobreza. O filósofo pode possuir ampla riqueza, mas não possuirá riqueza que tenha sido arrancada de outro, ou que esteja manchada com o sangue de outra pessoa: ela deve ser obtida sem prejudicar qualquer homem e sem que ela seja obtida por meios vis; deve ser honrosamente acessível e honrosamente gasta.” (XXIII,1)

“Se as minhas riquezas me deixarem, não levarão consigo nada além de si mesmas: já vocês ficarão desnorteadas e parecerão ficar fora de si se as perderem: comigo as riquezas ocupam um certo lugar, mas com você elas ocupam lugar mais alto de todos. Em suma, minhas riquezas pertencem a mim, você pertence às suas riquezas.” (XXII, 5)

(imagem O beijo de Gustav Klimt, Belvedere-Viena)