Carta 70: Sobre o momento adequado para fazer a derradeira viagem

A carta 70 é uma de minha favoritas. Não só pelo tema e solução apresentada, mas também porque ilustra vivamente o cotidiano de Roma, narrando episódios da vida de nobres, escravos e gladiadores.

A carta, provavelmente escrita no ano 63 AD, começa comentando uma visita recente de Sêneca a Pompeia, terra natal de Lucílio.  Mal sabia Sêneca que em pouco mais de uma década a cidade seria completamente destruída, soterrada por cinzas e lava na erupção do Vesúvio em 79 AD.

O assunto é o suicídio.  Ao contrário das doutrinas contemporâneas que consideram o assunto taboo ou pecado grave, o estoicismo defende a prática, sob certas circunstâncias. Segundo Sêneca, o sábio:

… viverá o tempo que for necessário, não tanto quanto puder.
Ele vai lembrar em que lugar, com quem, e como deve conduzir a sua existência, e o que está prestes a fazer. Ele sempre reflete sobre a qualidade, e não sobre a quantidade, de sua vida.” (LXX, 4-5).

E justifica esta saída como alternativa a tortura, pois entende que “morrer bem significa escapar do perigo de viver mal”.  A eutanásia também é permitida e justificada:

Devo aguardar a crueldade da doença ou do homem, quando eu posso partir em meio à tortura e livrar-me de meus problemas? Esta é a única razão pela qual não podemos nos queixar da vida; ela não segura ninguém contra a sua vontade. A humanidade está bem situada, porque nenhum homem é infeliz, exceto por sua própria culpa. Viva, se assim desejar; se não, você pode retornar ao lugar de onde veio. (LXX,15)

Conclui a carta com exemplos de suícidos nobre, como de Catão, de nobre corruptos e por fim de escravos e criminosos condenados aos jogos de gladiadores.  Exemplos vividos e muito gráficos:

“Durante o segundo ato, em um simulacro de luta marítima, um dos bárbaros enfiou profundamente em sua própria garganta uma lança que lhe fora dada para uso contra seu inimigo. (…)  Ele disse: “Por que eu deveria estar armado e ainda esperar a morte vir?” Esta apresentação foi ainda mais notável por causa da lição que os homens aprenderam de que morrer é mais honroso do que matar. (LXX,26)

Aproveitem a carta.

Ilustração: O martírio de Dirce, pintura de Henryk Siemieradzki.


LXX. Sobre o momento adequado para fazer a derradeira viagem

Saudações de Sêneca a Lucílio.

  1. Depois de um longo espaço de tempo, eu vi sua amada Pompeia. Fui assim trazido de novo face a face com os dias da minha juventude. E me pareceu que eu ainda podia fazer, não, que tinha feito há pouco tempo atrás, todas as coisas que eu fiz lá quando jovem.
  2. Navegamos ao largo da vida, Lucílio, como se estivéssemos em uma viagem, e como no mar, para citar nosso poeta Virgílio: As terras e as cidades são deixadas para trás.[1] Mesmo assim, nesta jornada onde o tempo voa com a maior velocidade, colocamos abaixo do horizonte primeiro a nossa infância e depois a nossa juventude, e depois o espaço que se situa entre a juventude e a meia-idade e as fronteiras em ambos e, em seguida, os melhores anos da própria velhice. Por fim, começamos a ver a fronteira geral da raça humana.
  3. Tolos que somos, acreditamos que este é um recife perigoso; mas é o porto, onde devemos algum dia atracar, que nunca podemos recusar entrar; e se um homem chegou a este porto em seus primeiros anos, não tem mais direito de reclamar do que um marinheiro que fez uma viagem rápida. Pois alguns marinheiros, como você sabe, são enganados e retidos por ventos fracos, e ficam cansados e doentes da calma letargia; enquanto outros são levados rapidamente para casa por ventos constantes.
  4. Você pode considerar que a mesma coisa nos acontece: a vida levou alguns homens com a maior rapidez para o porto, o porto qual eles eram obrigados a alcançar, mesmo que eles demorassem no caminho, enquanto a outros ela tem afligido e assediado. Pois a essa vida, como você sabe, nem sempre devemos nos apegar. Pois meramente viver não é um bem, mas sim viver bem. Por conseguinte, o sábio viverá o tempo que for necessário, não tanto quanto puder.
  5. Ele vai lembrar em que lugar, com quem, e como deve conduzir a sua existência, e o que está prestes a fazer. Ele sempre reflete sobre a qualidade, e não sobre a quantidade, de sua vida. Assim como há muitos eventos em sua vida que lhe dão problemas e perturbam sua paz de espírito, ele se liberta. E este privilégio é dele, não só quando a crise está sobre ele, mas também quando a Fortuna parece estar o traindo; então ele olha com cuidado e vê se deve ou não deve terminar sua vida por causa disso. Ele sustenta que não faz diferença para ele se sua decolagem é natural ou auto infligida, se ela vem mais tarde ou mais cedo. Ele não a considera com medo, como se fosse uma grande perda; porque nenhum homem pode perder muito quando ainda uma gotícula permanece.
  6. Não se trata de morrer mais cedo ou mais tarde, mas de morrer bem ou mal. E morrer bem significa escapar do perigo de viver mal. É por isso que eu considero as palavras do conhecido Telésforo[2] como as mais covardes. Esta pessoa foi jogada em uma jaula por seu tirano, e alimentado lá como algum animal selvagem. E quando um certo homem o aconselhou a pôr fim à sua vida pelo jejum, ele respondeu: “Um homem pode esperar alguma coisa enquanto tiver vida”.
  7. Isso pode ser verdade; mas a vida não é para ser comprada a qualquer preço. Não importa quão grandes ou garantidas certas recompensas possam ser, não me esforçarei para alcançá-las ao preço de uma vergonhosa confissão de fraqueza. Devo acreditar que a Fortuna tem todo o poder sobre a pessoa que vive, em vez de acreditar que ela não tem poder sobre alguém que sabe como morrer?
  8. No entanto, há momentos em que um homem, ainda que a morte certa paire sobre ele e saiba que a tortura lhe está reservada, irá se abster de dar uma mão à sua própria punição, entretanto, para si, daria uma mão. É loucura morrer por medo de morrer. O carrasco está acerca de você; espere por ele. Por que antecipar ele? Por que assumir a gestão de uma tarefa cruel que pertence a outrem? Você inveja o privilégio de seu carrasco, ou simplesmente o alivia de sua tarefa?
  9. Sócrates poderia ter terminado sua vida jejuando; ele poderia ter morrido por fome em vez de por veneno. Mas, em vez disso, passou trinta dias na prisão esperando a morte, não com a ideia de “tudo pode acontecer”, ou “tão longo intervalo dá espaço para esperanças”, mas para mostrar-se submisso às leis e fazer seus últimos momentos uma edificação para seus amigos. O que teria sido mais tolo do que desprezar a morte, e ainda temer veneno?
  10. Escribonia, uma mulher do tipo severo, era uma tia de Drusus Libo[3]. Este jovem era tão estúpido quanto bem-nascido, com ambições mais elevadas do que qualquer pessoa poderia esperar nessa época, ou de um homem como ele em qualquer época. Quando Libo foi removido do senado em sua liteira, embora certamente com um grupo muito reduzido de seguidores, pois todos os seus parentes o abandonaram, quando ele não era mais um criminoso, mas apenas um corpo, ele começou a considerar se deveria cometer suicídio ou aguardar a morte. Escribonia disse-lhe: “Que prazer você tem em fazer o trabalho do outro?” Mas ele não seguiu seu conselho; ele colocou mãos violentas sobre si mesmo. E estava certo, afinal, pois quando um homem está condenado a morrer em dois ou três dias pelo prazer de seu inimigo, ele estará realmente “fazendo a obra de outro homem” se continuar a viver.
  11. Portanto, não se pode fazer uma declaração geral sobre a questão se, quando um poder além do nosso controle nos ameaça com a morte, devemos antecipar a morte ou esperar por ela. Pois há muitos argumentos para nos puxar em qualquer direção. Se uma morte é acompanhada pela tortura, e a outra é simples e fácil, por que não agarrar a segunda? Assim como seleciono o meu navio quando eu estou prestes a viajar ou minha casa quando me proponho a tomar uma residência, então eu vou escolher a minha morte quando estiver prestes a afastar-me da vida.
  12. Além disso, assim como uma vida prolongada não significa necessariamente uma melhor, uma morte prolongada significa necessariamente uma situação pior. Não há ocasião em que a alma deva estar em melhor disposição do que no momento da morte. Deixe a alma partir ao se sentir impelida a ir; quer procure a espada, ou a forca, ou algum veneno que ataca as veias, deixe-a prosseguir e arrebentar os laços de sua escravidão. Todo homem deve tornar sua vida aceitável para os outros, além de si mesmo, mas sua morte semente para si mesmo. A melhor forma de morte é a que gostamos.
  13. São tolos os que refletem assim: “Uma pessoa dirá que minha conduta não foi corajosa o suficiente, outra, que era demasiado teimoso, um terceiro, que um tipo particular de morte teria demostrado mais espírito”. O que você deve realmente refletir é: “O que tenho em consideração é um propósito com o qual a opinião dos homens não tem nenhuma importância!” Seu único objetivo deve ser escapar da Fortuna o mais rápido possível; caso contrário, não haverá falta de pessoas que vão pensar mal do que você fez.
  14. Você pode encontrar homens que professam a sabedoria e ainda assim defendem que não se deve oferecer violência à própria vida, e consideram anátema para um homem para ser o meio de sua própria destruição; devemos esperar, dizem eles, pelo fim decretado pela natureza. Mas aquele que diz isso não vê que está fechando o caminho para a liberdade. A melhor coisa que a lei divina nos concedeu foi que nos permitiu uma entrada na vida, mas muitas saídas.
  15. Devo aguardar a crueldade da doença ou do homem, quando eu posso partir em meio à tortura e livrar-me de meus problemas? Esta é a única razão pela qual não podemos nos queixar da vida; ela não segura ninguém contra a sua vontade. A humanidade está bem situada, porque nenhum homem é infeliz, exceto por sua própria culpa. Viva, se assim desejar; se não, você pode retornar ao lugar de onde veio.
  16. Muitas vezes você foi medicado para aliviar dores de cabeça. Você teve veias cortadas com a finalidade de reduzir o seu peso. Se você furar seu coração, um ferimento escancarado não é necessário – um bisturi abrirá o caminho para essa grande liberdade, e tranquilidade pode ser comprada ao custo de uma picada de agulha. O que, então, nos torna preguiçosos e indolentes? Nenhum de nós pensa que algum dia deva partir desta casa da vida; exatamente como antigos inquilinos não se mudam por predileção por um lugar particular e por costume, mesmo apesar de maus-tratos.
  17. Você gostaria de estar livre da limitação de seu corpo? Viva nele como se estivesse prestes a deixá-lo. Continue pensando no fato de que algum dia você será privado dessa posse; então você será mais corajoso frente a necessidade de partir. Mas como um homem tomará o pensamento de seu próprio fim, se ele anseia todas as coisas sem fim?
  18. E ainda não há nada tão essencial para considerarmos. Pois nossa formação em outras coisas talvez seja supérflua. Nossas almas foram preparadas para enfrentar a pobreza; mas nossas riquezas têm se mantido firmes. Nós estamos munidos de armas para desprezar a dor; mas tivemos a sorte de possuir corpos sadios e saudáveis, e por isso nunca fomos forçados a pôr essa virtude à prova. Aprendemos a suportar corajosamente a perda daqueles que amamos; mas a Fortuna nos preservou todos a quem amamos.
  19. É nesta única questão que chegará o dia em que precisamos testar nosso treinamento. Não precisa pensar que apenas os grandes homens tiveram a força de romper os laços da servidão humana; você não precisa acreditar que isso não possa ser feito senão por um Catão, – Catão, que com a mão arrancou o espírito que não tinha conseguido liberar pela espada[4]. Não, homens da mais baixa sorte escaparam por um poderoso impulso e, quando não lhes foi permitido morrer por sua própria conveniência, ou se escolher os instrumentos da morte, arrebataram tudo o que estava disposto à mão, e por pura força transformaram objetos que eram por natureza inofensivos em armas próprias.
  20. Por exemplo, ultimamente havia em uma escola de treinamento para gladiadores de animais selvagens um alemão, que estava sendo preparando para a exposição matinal; ele se retirou para se aliviar, – a única coisa que lhe era permitido fazer em segredo e sem a presença de um guarda. Enquanto estava assim ocupado, agarrou uma escova com cabo de madeira, que era devotada aos mais vis usos, e a enfiou, suja como estava, em sua garganta; assim ele bloqueou sua traqueia, e sufocou a respiração de seu corpo. Isso foi verdadeiramente um insulto à morte!
  21. Sim, é verdade, não foi uma maneira muito elegante ou conveniente de morrer; mas o que é mais tolo do que ser minucioso sobre a morte? Que corajoso! Ele certamente merecia ser autorizado a escolher seu destino! Como bravamente ele teria empunhado uma espada! Com que coragem ele teria se atirado nas profundezas do mar, ou em um precipício! Limitado totalmente de recursos, ele ainda encontrou uma maneira de se equipar para a morte. Daí você pode entender que nada, a não ser a vontade pode adiar a morte. Que cada homem julgue a ação deste fervoroso indivíduo como quiser, contanto que estejamos de acordo – que a morte mais horrível é preferível à escravidão mais justa.
  22. Na medida em que comecei com uma ilustração tirada da vida humilde, continuarei com esse tipo de coisa. Pois os homens se exigirão mais, ao verem que a morte pode ser desprezada até pela classe mais desprezada dos homens. Os Catões, os Cipiãos e os outros cujos nomes costumamos ouvir com admiração, consideramos que estão além da esfera da imitação; mas agora vou provar que a virtude de que falo é encontrada tão frequentemente na escola de treinamento dos gladiadores como entre os líderes em uma guerra civil.
  23. Recentemente um gladiador, que tinha sido enviado para a exposição da manhã, estava sendo transportado em uma carroça junto com os outros prisioneiros; balançando a cabeça como se estivesse pesado de sono, deixou cair a cabeça até o ponto em que a prendeu nos raios da roda; então ele manteve seu corpo em posição o tempo suficiente para quebrar seu pescoço pela revolução da roda. Ele escapou fazendo uso do carro que o levava ao seu castigo.
  24. Quando um homem deseja irromper e tomar sua partida, nada se interpõe em seu caminho. É um espaço aberto no qual a natureza nos protege. Quando o nosso apuro é tal que permita, nos devemos olhar ao redor para uma saída fácil. Se você tem muitas oportunidades prontas à mão, por meio das quais pode se libertar, você pode fazer uma seleção e pensar sobre a melhor maneira de ganhar a liberdade; mas se uma chance é difícil de encontrar, em vez da melhor, arrebate o que for próximo ao melhor, mesmo que seja algo inédito, algo novo. Se não faltar a coragem para morrer não faltará a inteligência.
  25. Veja como até mesmo a classe mais baixa de escravo, quando o sofrimento o incentiva, é despertada e descobre uma maneira de enganar até mesmo os guardas mais vigilantes! É realmente grande aquele que não só deu a si mesmo a ordem de morrer, mas também encontrou os meios. Eu prometi, entretanto, mais algumas ilustrações tiradas dos mesmos jogos.
  26. Durante o segundo ato, em um simulacro de luta marítima, um dos bárbaros enfiou profundamente em sua própria garganta uma lança que lhe fora dada para uso contra seu inimigo. “Por que, oh, por que,” ele disse, “há muito tempo não escapei de toda esta tortura e toda esta zombaria? Por que eu deveria estar armado e ainda esperar a morte vir?” Esta apresentação foi ainda mais notável por causa da lição que os homens aprenderam de que morrer é mais honroso do que matar.
  27. O que então? Se tal espírito é possuído por homens depravados e perigosos, não será possuído também por aqueles que se treinaram para enfrentar tais contingências por meditação longa, e pela razão, a senhora de todas as coisas? É a razão que nos ensina que o destino tem várias maneiras de abordar, mas o mesmo fim, e que não faz diferença em que ponto o inevitável evento começa.
  28. A razão também nos aconselha a morrer, se pudermos, segundo nosso gosto; se isso não puder ser, ela nos aconselha a morrer de acordo com nossa capacidade e a aproveitar qualquer meio que se ofereça para cometer violência a nós mesmos. É criminoso “viver por roubo”; mas, por outro lado, é muito nobre “morrer por roubo”.

 

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

[1]Terraeque urbesque recedunt” Trecho de Eneida de Virgílio.

[2] Telésforo de Rodes, ameaçado pelo tirano Lisímaco, é citado como um exemplo extremo de punição cruel no texto “Sobre a Ira”, mas é usado aqui para ilustrar a covardia de qualquer vítima que não prefere a morte a uma vida desonrada.

[3] Libo, um parente remoto da família imperial, foi acusado de planejar uma conspiração contra Tibério e condenado formalmente à morte. Sua tia Escribonia, a penúltima esposa de Augusto e a mãe de sua única criança Julia, tomou a linha de que o suicídio (como era esperado nessas circunstâncias) seria poupar seu executor a responsabilidade de matá-lo.

[4] Catão tentou o suicídio cortando seu abdômen com sua espada. Não obtendo êxito, arrancou com a própria mão seu intestino.